UM ENQUADRE COGNITIVO DE ANÁLISE DAS CONSTRUÇÕES “SÓ QUE X”

Tharlles Lopes Gervásio

Resumo


O presente trabalho tem como objetivo analisar as construções “só que não”, “só que sim” e “só que nunca”, aplicadas ao discurso como expressões indicadoras de oposição ou, em alguns casos, reiteração, acompanhadas de certa nuance de ironia. Tais construções, que podem ser compreendidas ou não como elementos de conexão, são analisadas à luz da Gramática de Construções, de Goldberg (1995), e da Mesclagem Conceptual, de Fauconnier e Turner (2002). As ocorrências foram extraídas da muito utilizada rede social Facebook, por se notar grande frequência de uso dessas construções em suas postagens, principalmente sob a forma da hashtag “#sóqueX”, em que o elemento X é figurado pelos advérbios “não”, “sim” ou “nunca”. Para a real compreensão das extensões de sentido dessas construções que muito se aproximam da modalidade oral de uso da língua, optou-se por selecionar publicações que apresentavam seu emprego nos mais variados contextos discursivos. Escolheram-se, ainda, contextos os quais permitissem que o leitor do texto lançasse mão de seu conhecimento de mundo ao máximo e fosse capaz de ativar os devidos armazenamentos de sua memória como usuário da língua, para que houvesse, assim, a devida depreensão do papel semântico-pragmático desempenhado pelas construções. Como se trata de construções semelhantes sintática e semanticamente, em seu sentido básico, busca-se mostrar, também, que as extensões de sentido veiculadoras da ironia – entendida segundo Coulson (2001) – são fornecidas pragmaticamente, a partir do contexto de uso dessas expressões. A ironia é um recurso linguístico muito utilizado nos mais variados textos da modalidade escrita e oral. Acrescenta-se, ainda, que, ao utilizar tal recurso, o escritor/falante intenta dizer ao leitor/ouvinte o contrário do que diz, contradizendo ou mesmo invectivando, de algum modo, a si próprio ou ao outro. A análise de tais construções revelou que “só que não” desempenha, nas porções textuais em que figura, o papel de gatilho para oposição das ideias apresentadas, ao passo que “só que sim” indica reiteração do pensamento expresso nos textos; por sua vez, “só que nunca” pode indicar, além de oposição, uma forte recategorização dos fatos propostos.

Palavras-chave: Linguística Cognitiva; Linguagem Virtual; Mesclagem Conceptual; Gramática de Construções; Ironia


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