EDITORIAL: Cantareira de Portas Abertas

“Torna-se necessário que os grupos sociais abandonem sua posição de meros expectadores e passem a se entender enquanto sujeitos conscientes de seu papel no processo de produção da história. Este “retorno” do saber acadêmico à comunidade pode concretizar-se através de diversos mecanismos democráticos que estimulem a discussão, tais como: debates, palestras, publicações, mesas redondas, etc; destotalizando, desta forma, este “saber” que se pretende “absoluto”. (MANIFESTO ARRABALDES, 1988, p. 5)


Este é, salvo engano, um dos primeiros editoriais escritos por editores-chefes da Revista Cantareira em toda sua história. Como reafirmamos, direta ou indiretamente, em nossos trabalhos enquanto historiadores, nenhum fato ocorre, necessariamente, por acaso. Ao contrário, a escrita deste texto acontece, para nós, em um tempo que é, simultaneamente, de celebração e de reflexão. Comemoramos, por exemplo, o lançamento de um novo site e a instalação de um sistema de editoração livre, aberto e utilizado ao redor do mundo. Ao mesmo tempo, avaliamos os caminhos a serem seguidos no futuro e, principalmente, o modo como resistiremos em um contexto marcado pela expansão do fascismo, pela intolerância e pelos sucessivos ataques às instituições públicas de pesquisa, como é o caso da Universidade que chamamos, com a intimidade de quem a frequenta ou frequentou por longos anos, de UFF. 

Permita-nos retornar aos idos de 2002, ano de fundação do periódico discente da Área de História da Universidade Federal Fluminense, que foi nomeado, por razões óbvias, Cantareira. A revista publicou números com artigos de temática livre e resenhas até 2009. A edição de número 15, publicada em 2011, contou com o primeiro dossiê temático do periódico, intitulado “História e Biografia”. Nos anos seguintes, foram abordados temas diversos, como guerras e conflitos (ed. 17, 2012), fronteiras (ed. 21, 2014), cinema (ed. 23, 2015), gênero (ed. 24, 2016), a história da áfrica (ed. 25, 2016), a ditadura militar brasileira (ed. 20, 2014), o processo de redemocratização (ed. 27, 2017), dentre outros. No último ano, foram publicados dossiês compostos por artigos que abordavam o poder e a propriedade no Império (ed. 28, 2018) e a modernização conservadora no Brasil (ed. 29, 2018). A trigésima edição da Cantareira, recém-publicada, versa sobre a cultura escrita no mundo ibero-americano entre os séculos XVI e XIX (ed. 30, 2019).

A diversidade dos temas abordados em nossas páginas é diretamente proporcional à multiplicidade dos graduandos e pós-graduandos que atuaram e atuam na Comissão Editorial ao longo dos 17 de anos de sua existência. Cada a um a seu modo, todos deixaram suas marcas, ainda que aparentemente invisíveis, na construção deste longínquo projeto coletivo. Em uma tentativa de recuperar a memória do periódico e conceder justo reconhecimento aos colegas que nos antecederam, lançamos recentemente o projeto “Cantareira na História: a trajetória editorial de uma Revista discente”. Através de um formulário público, buscamos reunir informações, textos e imagens que auxiliem na construção de um memorial do periódico. 

Nesse sentido, é preciso reconhecer o papel fundamental exercido pelas então doutorandas Mariana Figueiredo Virgolino, Hevelly Ferreira Acruche e Aline Monteiro de Carvalho Silva na manutenção da Cantareira em tempo pretérito, mas não tão distante e singularmente difícil. Ao chegarmos na Comissão Editorial em março de 2016, fomos recebidos com carinho e afeto, o que proporcionou terreno fértil para o surgimento de novas amizades e, sobretudo, para avançarmos rumo à Revista Cantareira que queríamos. Naquela ocasião, passaram a integrar a Revista, além destes que vos escrevem/falam, Aimée Schneider, Caroline Bezerra Machado, Juliana Magalhães dos Santos e Maria Isabel Boselli. 

Assentes em uma Comissão Editorial plural, os alunos de graduação e pós-graduação em História da UFF se reuniram para expandir o projeto que outrora inauguraram Virgolino, Acruche e Silva. A partir de uma ampla discussão, reconheceu-se a necessidade de fortalecer o diálogo com os leitores através das redes sociais, ao mesmo tempo em que se adensou a aproximação com a Associação Nacional de História (Seção Rio de Janeiro e Nacional), assim como os diversos laboratórios da Área de História da Universidade e o nosso Programa de Pós-Graduação. 

Ao articular a defesa da produção científica discente e do direito de acesso, a Comissão Editorial do periódico desenvolveu atividades com o objetivo de fomentar tais reflexões no seio da comunidade acadêmica e, naquela altura, comemorar os seus quinze anos de existência, no segundo semestre de 2017. Meses mais tarde, em abril de 2018, reafirmamos o nosso compromisso com tais questões e organizamos, com outros periódicos discentes do Rio de Janeiro e apoio do INCT-Proprietas, um Encontro regional. Já estava encaminhada, naqueles tempos, a revisão de nossos Conselhos Consultivos Nacional e Internacional.

Com o auxílio da ANPUH-Rio, a Cantareira se fez presente na reunião organizada pela ANPUH Nacional na Universidade de São Paulo, em 2018, acerca da produção científica na área. Naquela altura, as representantes da Revista, Juliana Magalhães e Aline Monteiro, defendeu as propostas oriundas da atividade organizada na UFF, com um apelo à Associação e aos órgãos de fomento para a importância da pesquisa e publicação discentes. Como desdobramento daquela reunião, nos vinculamos ao Fórum de Editores da ANPUH, que se reuniu, neste ano, no 30º Simpósio Nacional de História, em Recife. Coincidência do destino ou não, foi nesse ínterim que se divulgaram os novos critérios do Qualis-Periódico, com a decorrente ascensão da Cantareira para o estrato A3.

O ano anterior também foi marcado pela entrada de novos membros na Cantareira. A graduação se fez representada com a candidatura dos nossos “Matheus”, Vieira e Basílio e, do mestrado, com a atual vice-editora, Nathália Fernandes. Em 2019, a Comissão Editorial foi mais uma vez renovada, com a participação da mestranda Bárbara Aragon e das doutorandas Clarisse Pereira e Naira Mota. Na própria UFF, nos vinculamos ao Fórum de Editores da Universidade, onde somos regularmente informados acerca das novidades em relação aos mecanismos de publicação, fator de impacto, Qualis-Capes e etc. 

Em linhas gerais, este pequeno editorial - que foi rascunhado em um contexto que, apesar de tenebroso, detêm picos de alegrias - canaliza apenas algumas ações que são visivelmente percebidas pelo público em geral. Somam-se a elas horas de reuniões, um “sem-hora” para troca de e-mails, busca de pareceristas, processo de edição dos textos, revisão do suporte técnico e outras atividades.

Em suma, mais do que sustentar as memórias de outrora, pretendemos salvaguardar o espírito que sempre nos mobilizou, para que, doravante, as novas gerações possam dar continuidade a esse projeto. É com a crença na potencialidade dos alunos de graduação e pós-graduação da UFF, com a consequente defesa da Área de História e da formação de todos nós, professores-pesquisadores, que revigoramos o nosso engajamento na ampliação do acesso ao conhecimento pelas distintas comunidades que nos cercam.


Niterói, 15 de agosto de 2019


Alan Dutra Cardoso

Editor-chefe (2019-2021)

Comissão Editorial


Gabriel de Abreu Machado Gaspar

Editor-chefe (2017-2019)

Comissão Editorial