A CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE NEGRA VIA MOVIMENTO SOCIAL: MARCHA DOS CABELOS CRESPOS ENQUANTO ESTRATÉGIA DE ENFRENTAMENTO DO RACISMO

Deborah Dias Pereira, Ana Paula Glinfskói Thé

Resumo


Configura-se no cenário brasileiro hodierno uma composição de coletivos e organizações sociais a qual tem ganho muita força. Um desses grupos organizados refere-se ao movimento de transição capilar, termo que designa o processo de naturalização dos cabelos cacheados e crespos, visando à interrupção do uso de químicas que possibilitavam que os cabelos fossem alisados de forma definitiva. Tais movimentos alcançam maior espaço e força no meio digital, através das redes sociais, chegando também às ruas nas formas de Marcha do Orgulho e do Empoderamento Crespo, além dos “rolezinhos” e feiras black. Em Salvador/BA, a Lei nº 9.194/2017 foi sancionada instituindo o dia 20 de Novembro como “Dia do Empoderamento Crespo”, que objetiva “elevar a autoestima daqueles que por ventura se sintam inferiorizados, conscientizando-os de que todos são iguais e, portanto, são livres na forma de agir e de se apresentar perante a sociedade". A reflexão de tal temática perpassa pelo questionamento do eurocentrismo como padrão unificado (cultura, modos de pensar e de se vestir, parâmetro de beleza, decisões políticas e proposições históricas extremamente relevantes no Brasil), além do debate acerca da reificação do corpo; promovendo, assim, aprofundamento em torno da apropriação corporal e empoderamento feminino. Nesse sentido, o presente trabalho pretende analisar criticamente a construção da identidade negra, os atravessamentos raciais que se inserem no cotidiano das vivências e os debates suscitados nos coletivos que acionam os signos capilares. Para tanto, apresenta uma revisão bibliográfica acerca das categorias analíticas principais e de seus respectivos desdobramentos.


Palavras-chave


Negro. Cabelo Crespo. Movimentos Sociais

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DOI: https://doi.org/10.22409/conflu.v21i3.34680

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