Uma etnografia do quotidiano fabril em Portugal.

Bruno Monteiro

Resumo


Ao contrário das perspectivas desincarnadas e descontextualizadas do trabalho fabril características de uma certa sociologia do trabalho, restituímos neste artigo uma investigação sociológica do quotidiano fabril centrada na experiência social imediata, vivida, do trabalho fabril. Através de uma pesquisa etnográfica baseada na observação participante numa fábrica de mobiliário portuguesa, procuramos interrogar sistematicamente o processo de aquisição e inculcação de uma competência simultaneamente técnica e estatutária, que, realizando-se no fundamental por transmissão empática e pela implicação prática com o trabalho, caracteriza o trabalhador virtuoso, o “artista”. No chão da fábrica, existe toda uma economia da grandeza oficinal, fundada numa espécie de consenso quanto aos valores intrínsecos do trabalho (“a paixão pela arte”), que suporta a aquisição de formas de valor propriamente operárias. O corpo dos operários está no centro das relações de poder da fábrica, não apenas porque é ele que, no processo de trabalho imediato, é sistematicamente submetido ao processo de exploração capitalista, a que os trabalhadores reagem, organizada e espontaneamente, tentando assegurar a sua preservação, mas também porque é nele que estão depositados, como habilidade, postura, força física, atitudes, os índices simbólicos da distinção operária, que os trabalhadores procuram defender perante as tentativas de racionalização económica e de higienização moral e física feitas pela administração fabril.


Palavras-chave


Etnografia, quotidiano, senso prático, operariado.

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ISSN 2238-9288

NEPeTS - Núcleo de Estudos e Pesquisas em Teoria Social