Ensaios de Geografia
Essays of Geography | POSGEO-UFF
AO CITAR ESTE TRABALHO, UTILIZAR A SEGUINTE REFERÊNCIA:
AREB, Matheus Vieira. GEOGRAFIA(S) DA(S) PALAFITA(S): espacialidades, precariedade habitacional e o habitar entre palafitas urbanas
em Manaus-AM. Ensaios de Geografia. Niterói, vol. 10, nº 22, pp. 175-206, setembro-dezembro de 2023.
Submissão em: 22/05/2023. Aceito em: 05/07/2023.
ISSN: 2316-8544
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SEÇÃO ARTIGOS
GEOGRAFIA(S) DA(S) PALAFITA(S):
espacialidades, precariedade habitacional e o habitar entre palafitas urbanas em
Manaus-AM
GEOGRAPHY(IES) OF THE STILT HOUSE(S):
spatialities, housing precariousness and living among urban stilt houses in Manaus-AM
GEOGRAFÍA(S) DE LO(S) PALAFITO(S):
espacialidades, precariedad habitacional y convivencia entre palafitos urbanos en
Manaus-AM
Matheus Vieira Areb
1
Universidade Federal do Paraná (UFPR),
Paraná, Brasil
e-mail: matheusvareb@gmail.com
Resumo
A ocupação dos igarapés
2
urbanos é peça-chave para compreensão dos processos de produção da cidade de Manaus
(AM). Partindo de aspectos históricos mais amplos, buscou-se a partir de Manaus (AM) e das casas de palafitas
apontar características dessa tipologia habitacional e sua base geográfica no espaço urbano. O objetivo do trabalho
é apresentar aspectos geográficos das palafitas urbanas a partir do caso de Manaus-AM. Especificamente, busca-
se (1) analisar as transformações históricas antigas até as atuais, passando pela inserção dessas casas no urbano e
(2) identificar as experiências próprias dos moradores enquanto casas do possível-habitar na relação cidade-
natureza. Como procedimentos, as reflexões são apresentadas com base em revisão bibliográfica, além de trabalho
de campo em área de palafitas no bairro de Educandos, ao qual foram empregadas observações e entrevistas com
atenção à produção social dessas casas. A manifestação da “palafitarização” é um processo socioespacial pelo
conteúdo geográfico no qual as palafitas têm sua gênese e continuidade através de espaços intersticiais. Constatou-
se que a experiência palafítica é singular por estar em área limítrofe água-terra, e que essa singularidade se traduz
na agência das águas no impacto na casa e na vida. Palafitas, como expressão da cultura, também são produto
social que revelam as contradições do habitar no espaço urbano manauara.
Palavras-chave:
Geografia urbana; Habitação; Manaus; Palafitas; Precariedade habitacional.
1
Doutorando em Geografia pela Universidade Federal do Paraná (PPGEO/UFPR). Mestre em Antropologia Social
pela Universidade Federal do Amazonas (PPGAS/UFAM). Graduado em Geografia pela Universidade do Estado
do Amazonas (UEA). Membro do Núcleo de Pesquisas Urbana e Regional/NPUR (UEA/CNPq).
2
Palavra de origem indígena Tupi que significa “caminho de canoa”. Os igarapés são médios ou pequenos cursos
d’água. Na Amazônia, os igarapés tem uma importância ambiental, social e cultural e fazem historicamente parte
da sociedade como espaços de lazer, sociabilidade, navegação e moradia.
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em Manaus-AM. Ensaios de Geografia. Niterói, vol. 10, nº 22, pp. 175-206, setembro-dezembro de 2023.
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Abstract
The occupation of urban streams is a key element for understanding the production processes of the city of Manaus
(AM). Starting from broader historical aspects, it was sought to point out characteristics of this housing typology
and its geographical basis in the urban space from Manaus (AM) and the stilt houses. The objective of this work
is to present geographic aspects of urban stilt houses from the case of Manaus-AM. Specifically, it seeks to (1)
analyze the historical transformations from the past to the present, through the insertion of these houses in the
urban area and (2) identify the residents’ personal experiences as houses of the possible-to-inhabit in the city-
nature relationship. As procedures, the reflections are presented based on a bibliographical review, in addition to
field work in an area of stilt houses in the Educandos neighborhood, to which observations and interviews were
used with attention to the social production of these houses. The manifestation of “stilt-housification” is a socio-
spatial process due to the geographical content to which the stilt houses have their genesis and continuity through
interstitial spaces. It was found that the stilt housing experience is unique due to the fact that it is in an area
bordering water and land and this uniqueness is translated into the intervention of the waters impacting the house
and life. Stilt houses, as an expression of culture, are also a social product that reveal the contradictions of living
in Manaus’ urban space.
Keywords:
Urban geography; Habitation; Manaus; stilt houses; Housing precariousness.
Resumen
La ocupación de los arroyos urbanos es un elemento clave para la comprensión de los procesos de producción de
la ciudad de Manaus (AM). Teniendo en cuenta aspectos históricos más amplios, buscamos señalar características
de esta tipología de vivienda y su base geográfica en el espacio urbano, a partir de Manaus (AM) y los palafitos.
El objetivo de este trabajo es presentar aspectos geográficos de palafitos urbanos a partir del caso de Manaus-AM.
Específicamente, busca (1) analizar las transformaciones históricas de lo antiguo a lo actual, a través de la inserción
de estas casas en el área urbana y (2) identificar las propias experiencias de los residentes como casas de lo posible-
habitar en la relación ciudad-naturaleza. Como procedimientos se presentan las reflexiones a partir de revisión
bibliográfica, además de un trabajo de campo en un área de palafitos del barrio Educandos, para lo cual se utilizaron
observaciones y entrevistas con atención a la producción social de estas viviendas. La manifestación de la
“palafitorización” es un proceso socioespacial debido al contenido geográfico al que tienen su génesis y
continuidad los palafitos a través de espacios intersticiales. Se encontró que la experiencia de palafito es única
porque se encuentra en un espacio limítrofe de agua-tierra y esta singularidad se traduce en la agencia de las aguas
en el impacto sobre la casa y sobre la vida. Palafitos, como expresión de la cultura, son también un producto social
que revela las contradicciones de vivir en el espacio urbano de Manaus.
Palabras clave:
Geografía urbana; Alojamiento; Manaos; Palafitos; Precariedad habitacional.
Introdução
As palafitas casas de madeiras que se estendem pelas águas compõem a cena
urbana e rural das cidades amazônicas. Na cidade de Manaus, desde acada de 70, com maior
intensidade, as margens de igarapés se tornaram lugar da moradia através de palafitas que se
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estendem adensadas por cima dos canais fluviais urbanos (Oliveira; Costa, 2007). Esse processo
expõe a reprodução desigual do espaço urbano de Manaus em que a paisagem, envolta pelo
ambiente, ao qual as palafitas urbanas se encontram, revela variáveis que indicam a
precarização da vida em várias ordens.
A problemática habitacional em Manaus tem na “exclusão territorial” (Barbosa, 2017)
sua base espacial-social. A lógica capitalista da terra-mercadoria é a que rege o lugar das classes
na cidade. A apropriação desigual do espaço urbano leva alguns grupos a participarem
“precariamente da vida urbana e da sociedade de consumo” (Sposito, 2018, p. 129). A
precariedade é a definição usada para as tipologias habitacionais das palafitas, usada no sentido
de baixa infraestrutura material e vulnerabilidade social (Sakatauskas, 2016).
As especificidades das palafitas permitem compreender que as diferenças dessa
tipologia expressam uma relação estreita entre cultura-ambiente, as quais histórica e
geograficamente produziram especificidades nessas formas de habitar diferenças de práticas
espaciais que se traduzem na produção de espacialidades próprias, ou seja, uma geografia
própria no que se refere a posição dessas casas entre terra-água. Surge a proposta de pensar em
“geografia(s) da(s) palafita(s)”, que se propõe(m) a refletir sobre um ambiente específico de um
entrelaçamento entre cultura-natureza e cidade-ambiente, de espacialidades específicas em
meio a necessidade do habitar no urbano. A argumentação sugere pensar a particularidade das
palafitas urbanas como solução precária através da noção de “palafitarização”, ou seja, sujeição
à necessidade de autoconstrução de palafita para habitar na cidade.
As espacialidades nesse meio são marcadas pelo ritmo da natureza e ao mesmo tempo
da vida, trabalhando em uma temporalidade das atitudes regidas pelo ritmo das águas. Para
compreensão desse processo, o objetivo do trabalho é apresentar aspectos geográficos das
palafitas urbanas a partir do caso de Manaus-AM. Especificamente, se busca (1) analisar as
transformações históricas antigas até as atuais, passando pela inserção dessas casas no urbano,
e (2) identificar as experiências próprias dos moradores enquanto casas do possível-habitar na
relação cidade-natureza.
A pesquisa se insere dentro dos estudos habitacionais urbanos em específico, a
questão das palafitas a partir da cidade de Manaus. Entende-se que a especificidade das
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moradias amazônicas requer uma discussão ao nível local, portanto destaca-se uma análise de
trabalhos acadêmicos regionais, como da cidade de Belém e em Manau,s que consideram a
relação rio-cidade em suas discussões para pensar a abrangência do processo em termos
regionais, que as águas que banham as cidades na Amazônia possuem centralidades em
diversos processos. A pesquisa contou com observações de campo em palafitas na área urbana
de Manaus, localizadas às margens do Igarapé de Educandos, no bairro de Educandos, na zona
sul da capital (AM).
A argumentação apresenta (1) as formas históricas das palafitas em áreas geográficas
diferentes, passando pela (2) necessidade de pensar sociedade-natureza em termos não
dicotômicos para as palafitas, (3) aspectos geográficos para compreensão da produção de
palafitas urbanas em Manaus e (4) a “palafitarização” como termo que expressa a construção
de uma parte da vida entre rio-cidade com múltiplas experiências. Não se pretende propor a
investigação da totalidade do fenômeno em todas as suas frentes, entendendo que a discussão
acerca das palafitas pode ser explorada por inúmeras áreas e perspectivas, mas defende-se que
uma “geografia das palafitas” busca afirmar um processo em curso de construção de
espacialidades próprias que vão muito além do discurso da precariedade, que evidencia também
a necessidade de se pensar esses espaços com atenção frente às diversas formas de estratégias
empregadas para tornar a habitação possível em áreas inundáveis.
O que são palafitas urbanas?
Palafitas são tipos arquitetônicos de casas construídas sobre estacas de madeira,
comumente adaptadas a áreas fluviais-úmidas
3
. A capacidade adaptativa humana tornou essa
forma passível de ser encontrada em vários continentes como resultado do desenvolvimento da
técnica de populações que viviam em típicos ambientes úmidos: ilhas, pântanos, mangues,
deltas, lagos, rios e áreas litorâneas costeiras.
3
Em alguns contextos, palafitas também podem ser encontradas em áreas de terra firme, seja pela cultura
construtiva ou para aproveitamento de espaço embaixo da casa para algum fim. Entretanto, seu modo de construção
está majoritariamente ligado a contextos fluviais.
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A origem dessa forma de habitar é datada por Navarro (2022, p. 87) através de antigos
registros de “assentamentos que evidenciam a transição do Neolítico para a Idade do Bronze
(ca. 5000 a 500 a.C.) na Europa”. No continente americano, sobretudo na porção da América
Latina, as palafitas são identificadas desde a idade Pré-colonial. As estruturas palafíticas foram
estratégicas e ainda hoje em distintas regiões, “a tipologia serve para defesa de animais
selvagens, inimigos e subidas das marés” (Geissler; Loch; Oliveira, 2007, p. 3). Algumas das
formações coletivas de palafitas apresentaram estruturas semelhantes mesmo em regiões
geográficas diferentes, como entre os Catío da Colômbia, os Warao da Venezuela e os grupos
que habitavam na baixada maranhense. Registros desses povos revelaram estruturas palafíticas
entre sete e oito metros de altura (Navarro, 2022, p. 114). Essas construções arquitetônicas,
hábitos aquáticos e a cosmologia ao redor das águas estiveram presentes ao longo das densas
populações palafíticas que habitaram ao longo da parte norte da América Latina.
Esse percurso histórico reflete a adaptação da habitação em espaços alagáveis a fim de
poder aproveitar os benefícios de estarem junto a fontes e rios, mantendo-se através da
fertilidade desses espaços e de animais aquáticos. Isso se dá não somente em função da
manutenção alimentar, mas também por conta de a localização junto a córregos fornecer a
possibilidade de mobilidade por longas distâncias através de barcos. A história das palafitas na
América Latina demonstra que a necessidade de se estar junto aos cursos de água marcou
fortemente a cultura de algumas etnias, as quais destacam-se pelo próprio nome, como os
Warao, que têm em sua tradução o sentido de “povo da água” ou “povo da canoa”.
Os Warao são habitantes do Delta do Orinoco, na Venezuela, e estão distribuídos por
outras áreas na América do Sul. Esse grupo indígena é conhecido pelo desenvolvimento de uma
“cultura da palafita”, visto que suas formas de moradia são marcadas pela construção de casas
erguidas em cima de troncos na área interna do Delta. Viajantes do século XVI, “descreveram
os Warao vivendo tanto em terra firme como em estacas sobre a água nos lagos e rios dos
pântanos interiores do delta” (Roosevelt, 2022, p. 471). Não apenas a forma da moradia
expressa sua relação com as águas, mas também a locomoção em canoas que, aliada à estrutura
da casa, permite um melhor acesso aos córregos. Além disso, esse povo tem “sua subsistência
principal nos abundantes peixes de rios e riachos. [...] coletam caranguejos, mariscos e
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tartarugas” (Roosevelt, 2022, p. 473), o que mostra a construção de um mundo das águas
dominado por esse grupo, garantindo a eles o nome de “palafiteiros”.
Saindo da Venezuela, entrando no território Amazônico, os registros dos relatos dos
exploradores evidenciaram inúmeros grupos “palafiteiros” ao longo da Bacia Amazônica.
Navarro (2022, pp. 97-99) aponta, através dos trabalhos de cronistas que adentraram os rios da
região e pesquisadores (Vásquez, 1551; Porro, 1992; Nimuendajú, 1948), a presença de aldeias
de palafitas dos povoamentos de grupos dos Omaguá no alto Solimões, Yurimanguá e Tikuna,
no Rio Solimões.
Na parte oriental da América do Sul, os povos da baixada maranhense viviam de modo
semelhante. Os sítios arqueológicos encontrados ao longo da Bacia do Turiaçu são importantes
registros de “sítios palafíticos” de povos que viviam nas chamadas “estearias” sobre as águas
(Navarro et al., 2017, p. 872). Esses assentamentos pré-coloniais deixaram estacas que podem
ser visualizadas no baixar das águas, “sendo que os vestígios materiais de ocupações pré-
históricas semelhantes parecem existir somente no Maranhão” (Navarro et al., 2017, p. 872).
Os padrões de assentamentos revelavam hierarquias nas construções das estearias entre espaços
residenciais e espaços coletivos (Navarro, 2022, p. 112), construídos “dentro de rios e de lagos
pleistocênicos [...]” (Franco, 2012; Navarro, 2013; Ab’Saber, 2006 apud Navarro et al., 2017,
p. 872).
Atualmente, quando se refere à localização das palafitas, existem diferenças que
remetem às contradições dessa forma de construção em um mesmo território. Navarro (2022,
p. 89) afirma que “moradias sobre palafitas são comuns até os dias de hoje. A maioria está
localizada na Amazônia e estão situadas em áreas ribeirinhas ou várzea de florestas tropicais”.
O autor aponta que as palafitas no meio rural são uma “adaptação ecológica”, fruto de uma
cultura arquitetônica de longa duração que expressa uma relação cultura e ambiente baseada no
regime das águas, mobilidade e produtos rio-floresta. Essa mesma cultura palafítica dos
ribeirinhos difere das palafitas encontradas no meio urbano. Essa diferença é fundamental na
compreensão de dois mundos palafíticos diferentes em uma mesma região. Se a cultura
palafítica ribeirinha é adornada pela floresta, relação com as águas e apropriação e uso das
águas como mobilidade, abastecimento de peixes e fonte da vida, as palafitas urbanas estão
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envoltas pelos canais poluídos, localizadas em encostas de risco e intensa degradação
ambiental, bem como vulnerabilidade social, principalmente nas capitais Belém e Manaus, que
foram centros de atração populacional por oferta de trabalho e serviços em relação às cidades
menores no interior dos estados.
As pesquisas que tratam das palafitas nas cidades amazônicas apontam para esse
movimento no qual as palafitas, ao adentrarem o território urbano, se inserem dentro de outra
lógica e adquirem características específicas, a citar, trabalhos da capital Belém (PA), como na
comunidade ribeirinha urbana Vila da Barca e os projetos habitacionais de substituição das
palafitas por conjuntos habitacionais (Menezes; Perdigão, 2021; Silva et al., 2018; Rocha;
Tancredi; Santos, 2018), transformações urbanísticas no bairro da Sacramenta (Mendes;
Chagas, 2022) e projetos de revitalização de margens ao longo da Bacia da Estrada Nova,
periferia alagada de Belém (Leão, 2017), além de demais textos que mostram o cotidiano das
habitações em áreas úmidas na área urbana de Belém (Soares; Silveira, 2022; Pimentel et al.,
2012).
Na capital Manaus (AM), cidade entrecortada por densas bacias fluviais, as primeiras
palafitas em áreas urbanas datam do “final do século XIX e ou início do século XX” (Valle,
1999 apud Barbosa, 2017, p. 62). As palafitas urbanas em Manaus estão ligadas à questão de
acesso à moradia. A intensificação da presença dessas moradias na cidade se deu após o início
da crise da borracha. Com o intenso fluxo de migrantes para a capital após 1920, as palafitas se
tornaram uma solução de moradia precária, o que se afirmou ainda mais intensamente para
aqueles com baixos salários ou desempregados a partir da implantação da Zona Franca de
Manaus
4
,
após 1967. Atualmente, pesquisas na cidade evidenciam que a lógica urbano-
econômica degradadora da natureza, expressa na contínua poluição dos canais fluviais,
modifica a paisagem urbana (Oliveira, 2003, p. 29), criando áreas de palafitas precárias em que
o cotidiano dos moradores é marcado por inundações, perdas de bens, acidentes, cheiros fétidos
4
A Zona Franca de Manaus foi criada em 1967 a partir dos planos econômicos dos governos militares que
pensaram em uma zona de livre comércio com incentivos fiscais para que empresas multinacionais se instalassem
na região. A medida propunha domínio territorial na região amazônica e desenvolvimento regional.
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e perigos de várias ordens (Ramos; Silva; Lima, 2022; Areb, 2022; Corrêa, 2022; Calderipe,
2017; Iribarrem; Calderipe, 2020; Barbosa, 2017; Maciel, 2016; Oliveira, 2007).
Essa cultura da palafita que marca presença nas margens dos rios das cidades
amazônicas tem sua especificidade regional, que está ligada ao ambiente. Assim é estabelecido
o “tipo palafita amazônico” (Menezes; Perdigão, 2021, p. 47). A especificidade dessa tipologia
habitacional está em que o sentido arquitetônico da casa não tem um fim em si próprio, mas
está ligada ao seu meio. No caso das palafitas tradicionais da Amazônia, a casa ocupa um espaço
entre rio-floresta e tem sua estrutura adaptada entre esses dois domínios.
Foi preciso retornar às palafitas pretéritas para entender as atuais seu nexo temporal
faz das palafitas não apenas adaptadas às águas, mas também ao tempo. Nesse sentido, é
possível compreender as palafitas urbanas como tipos habitacionais de arquitetura vernacular,
de estrutura historicamente adaptadas às áreas úmidas e inundáveis, incorporadas ao meio
urbano, resultado da desigualdade no acesso a casa/terra que se manifesta a partir das áreas
úmidas, espaços de precariedade habitacional, com estrutura adaptada sobre estacas de madeira
que se encontram entre rio-cidade, incorporando atitudes referentes a estes dois domínios.
Sociedade versus Natureza?
Importante perspectiva na reflexão teórica acerca das cidades amazônicas é a ideia
sobre como a natureza está envolvida na produção do espaço, já que os rios e a floresta são as
grandezas que cercam as cidades. Em função de uma lógica tecnicista do pensamento urbano,
é possível que haja uma tendência em se pensar a dicotomia sociedade versus natureza na
Amazônia, como uma oposição entre técnica-ambiente na qual a natureza deve ser dominada
mais do que integrada
5
. Apesar de na Amazônia os planos governamentais econômicos das
décadas de 60 não conjugarem a natureza a seu modo de desenvolvimento local, as relações
com o ambiente progressivamente se desenvolveram no plano da vida.
5
Essa postura dicotômica transparece a partir de um modelo de urbanização que nega o acesso à água aos cidadãos
urbanos da Amazônia. Aquilo que Bordalo (2017, p. 134) chama de “paradoxo da água” é na verdade uma crise
“decorrente do baixo investimento financeiro e tecnológico”, ou seja, consentida. Outra faceta dessa ideia é não
tratar os canais fluviais urbanos em sua dimensão natural, mas assumir os atos de canalizar e aterrar como soluções
técnicas dentro da cidade, perdendo seu sentido natural e sendo tratados como objetos a serem superados (COSTA
et al., 2021, p. 266).
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A partir da cidade de Manaus, Oliveira (2003, p. 139) afirma que, a despeito do
urbanismo que se impôs historicamente na capital amazonense, baseado na importação de
“significados exógenos” à cidade que eram “quase sempre descolados das especificidades
culturais e naturais”, o cotidiano mostrou verdadeiras resistências de apropriação do ambiente
envolvendo sua vida, inclusive com as águas, através das práticas espontâneas. Os Igarapés na
cidade de Manaus eram, até a década de sessenta, “não apenas para a realização de atividades
como lavar roupa, apanhar água, pescar, mas também para a realização da festa” (Oliveira,
2003, p. 148). Algumas destas práticas tornaram-se pretéritas ou passaram por transformações.
Entretanto, a aproximação com as águas ainda é parte do cotidiano de quem habita a cidade,
que tem nos rios seus deslocamentos entre interior-capital. Também se pelas águas o
deslocamento entre margens-flutuantes, através dos tradicionais catraieiros encontrados na Rua
Manoel Urbano, no bairro de Educandos (zonal sul), dos pescadores que trazem seus peixes
para abastecer as feiras da cidade, como a Panair, localizada às margens do Rio Negro, ou direto
com os próprios transeuntes de seus barcos no porto do Centro de Manaus. ainda a
permanência do rio como banho. Mesmo que as práticas se deem em regiões mais distantes da
área central urbana, prevalece o banho nas praias, igarapés e flutuantes (Nogueira, 2021).
Demais cidades amazônicas como Baião, Cametá e Mocajuba, no Nordeste paraense,
são exemplos de “cidades da floresta”, termo utilizado por Trindade Júnior (2021, p. 95) para
definir cidades que “não perderam seus vínculos orgânicos com os valores da floresta, e dessa
maneira, apresentam uma configuração espacial híbrida do ponto de vista das formas e dos
conteúdos que resguardam”. Essas espacialidades podem ser vistas na paisagem urbana como
equipamentos e infraestrutura a serviço da população, em que a funcionalidade se articula ao
ambiente, servindo às necessidades locais, como “trapiches, em feiras, na beira-rio, em bairros
rururbarnos, nos terreiros das habitações, na tipologia das moradias, nos tipos de mobilidade
intra e interurbanas” (Trindade Júnior, 2021, p. 95).
As cidades da Amazônia apresentam relações com os rios e (ou) as florestas, através
das práticas do cotidiano, de modo que “[n]o âmbito da produção do espaço urbano, o cotidiano
aponta para a superação da linearidade imposta por urbanismo concebido como mero
desdobramento da lógica do mercado” (Oliveira, 2003, p. 138). Essas relações se apresentam
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através de conteúdo-forma, criando uma “particularidade socioespacial” (Trindade Júnior,
2021, p. 92).
Esse entrelaçamento deve ser analisado a cada ponto de encontro entre cidade-
natureza, pois essas relações não se dão de maneira linear, quanto menos em continuidade
harmônica. É necessário analisar os “interstícios das relações instaladas na região” (Trindade
Júnior, p. 103). Os modos de encontro e apropriação da natureza dentro do espaço urbano das
cidades amazônicas têm especificidades. De um lado, as socioespacialidades que se criam nos
levam a evitar a ruptura com a natureza, expressa na interação cotidiana herdada de muitos
anos” (Trindade Júnior, 2021, p. 104). Como mencionado, essas culturas se expressam
através das plantações de várzea, trânsito pelos rios, no banho nos igarapés, nos festejos de
santos e padroeiros que vêm pelos barcos através das águas e seguem pela cidade até a Igreja,
nos contos dos seres das florestas e das águas e no alimento que vem do rio e da floresta. Assim,
se tem a cidade da floresta em uma íntima relação com o ambiente, que “[c]ompõe um
microcosmo urbano, sinônimo de adaptações, resistências e interações” (Trindade Júnior, 2021,
p. 94). Nessas posturas é que se sobressai a especificidade dessas cidades, com hábitos
conjugados com a natureza ao lado de sociabilidades presentes. Essas populações participam
em diferentes gradações, capital ou interior vislumbram de maneiras ora iguais e diferentes esse
processo, como afirma Trindade Júnior (2021, p. 94), “[n]atureza e cultura constituem juntas
uma espécie de urbanismo caboclo, composto por formas simples que diferenciam e com
conteúdos complexos” (Trindade Júnior, 2021, p. 94).
outra face que evidencia a complexidade desse processo. A relação negativa
degradadora entre cidade-natureza se apresenta quando o urbanismo tecnicista de impõe o
urbanismo do concreto, do alargamento, aterramento, onde as águas não têm vez. O urbanismo
do lucro conjugado à industrialização não socialmente pensada dos espaços amazônicos
resultou e resulta na degradação da natureza. No âmbito do capitalismo as relações cultura e
natureza são alteradas, formando um encadeamento da degradação que relega as classes mais
pobres a um contato com o produto (natureza transmutada) do capitalismo poluidor. Aliado a
isso está o modelo de governança que tem como moto a técnica com ruptura do urbano-natural.
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AO CITAR ESTE TRABALHO, UTILIZAR A SEGUINTE REFERÊNCIA:
AREB, Matheus Vieira. GEOGRAFIA(S) DA(S) PALAFITA(S): espacialidades, precariedade habitacional e o habitar entre palafitas urbanas
em Manaus-AM. Ensaios de Geografia. Niterói, vol. 10, nº 22, pp. 175-206, setembro-dezembro de 2023.
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Desse processo, emerge a precariedade urbana, periferias segregadas, áreas alagadas, risco
ambiental e deslizamentos como parte da cidade.
É possível compreender que não há determinações entre cidade-natureza, uma vez que
nesse “processo de produção participa a própria natureza, que não se mostra passiva na
interação que estabelece com o homem, assim como não determina comportamentos diante
dessa mesma interação” (Trindade Júnior, 2021, p. 92). Ambientes e elos se ligam através da
cultura ou se degradam em uma relação negativa sob a égide do capital. De todo modo, os
pontos de interstício na cidade (as beiras de rios e limites da floresta) e as manifestações
socioespaciais evidenciam esse fluxo que se faz sem hierarquias, em um hibridismo funcional
ambiental das especialidades amazônicas, entre códigos, cantos e contos ou entre pontes,
palafitas ou feiras. No espaço da cultura revela-se que “[...] não há separação dicotômica entre
sociedade e natureza e que a paisagem não é estática, mas está permanentemente sendo
construída, e por isso, em movimento” (Oliveira, 2003, p. 31).
Geografia(s) das palafitas urbanas
“De alguma maneira é preciso morar [...] pois não é possível viver sem ocupar espaço”,
afirma Rodrigues (1991, p. 11). Em Manaus, no caso das populações que não têm condições de
comprar uma casa ou um lote de terra
6
, mora-se em cima das águas. Assim se constitui uma
forma histórica de habitação precária que marca a paisagem de inúmeros canais fluviais ao
longo da cidade: as palafitas.
No caso de Manaus, Maciel (2016, p. 262), classifica a tipologia das palafitas enquanto
assentamentos precários. A noção de precariedade se caracteriza em função da “[i]nsegurança
do direito à terra, a existência de padrões urbanísticos sem qualquer tipo de qualidade, e à
ausência de infraestrutura básica entre outros”. A especificidade ambiental revela o meio pelo
qual a desigualdade na produção do espaço se desenvolveu ao longo das cidades amazônicas.
As cidades estabelecidas ao longo de canais fluviais têm sua malha urbana entrecortada por
bacias hidrográficas. No caso das capitais, as várzeas foram historicamente espaços de
6
Segundo o estudo de Maciel (2016), esse grupo social recorre à produção de habitações em assentamentos
precários, aos quais têm por tipologia habitacional encontradas em Manaus habitações precárias localizadas nas
áreas de platôs, prédios ocupados e ocupações às margens dos igarapés.
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ocupações pelos mais pobres. É nesse sentido que Sakatauskas (2020) define que a precariedade
habitacional tem na Amazônia ribeirinha uma especificidade que se pelo ambiente
marcadamente aquático, o qual fez com que a produção das palafitas estivesse na paisagem dos
canais fluviais urbanos. Essa especificidade regional é resultado do sistema social, do ambiente
e da técnica, ou seja, a análise dessas habitações deve compreender não apenas o aparente, mas
o contexto urbano histórico amazônico da produção da moradia:
Mesmo guardando características regionais, o problema habitacional nessas cidades
ribeirinhas amazônicas revela o padrão de urbanização desigual que é marca das
cidades brasileiras. O nível da urbanização, o desenho urbano, as manifestações das
carências da população são realidades que devem ser analisadas à luz dos
subprocessos econômicos, políticos e socioculturais, assim como das modalidades de
uso do território em diferentes momentos históricos (Sakatauskas, 2020, p. 231).
A necessidade da moradia, evidenciada pelas palafitas, mostra uma forma tradicional
de habitação dos povos amazônicos, a qual no âmbito urbano se transmuta do tradicional para
o desigual processo de busca pela moradia na cidade. Desigualdade essa que se revela a partir
do ponto de vista da paisagem (forma), através dos diferentes modos de aproximação com as
águas. Um dos exemplos se dá a partir das margens da cidade, onde no encontro com as águas
a diferenciação de classes leva à apropriação da natureza enquanto amenidade para os grupos
sociais de classe mais alta, como acontece no bairro do Tarumã, com acesso exclusivo ao rio
pelos condomínios fechados e mansões. Na imagem abaixo (Figura 1), rio e casa estão em uma
relação que se complementam natureza apropriada como paisagem, comum para classes com
maior poder aquisitivo (Bartoli, 2011; Guglielmini, 2005, p. 178). Na segunda imagem (Figura
2), casa-água aparece a partir de uma relação mais complexa, onde a água é espaço adaptativo
(moradia, locomoção). Para esses grupos que habitam incluídos precariamente na cidade,
restam as palafitas de madeira com contato com as águas dos canais poluídos, inundações
periódicas e perda de móveis e riscos ao corpo (AREB, 2022).
Figura 1: Mansão com acesso ao rio no bairro Tarumã (zona oeste de Manaus)
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Fonte: Instituto Durango Duarte (2007)
Figura 2: Palafitas no bairro Educandos (Zona Sul de Manaus)
Fonte: Guenter Manaus/Shutterstock/IABsp/Archdaily (2020)
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As palafitas que aparecem sobre as águas refletem as contradições da metrópole
Manaus, que concomitantemente ao espraiar grandes objetos como pontes, viabilizando a
expansão da cidade para além do Rio Negro através do mercado imobiliário, continua
presenciando palafitas estendidas sobre as águas na área urbana da cidade. Nesse movimento,
estas casas atuam simbolicamente como marcos distintivos da exclusão. Esse processo é parte
da configuração de um espaço da ordem mercadológica da terra, o qual exclui, ao mesmo tempo
em que inclui sob uma nova dimensão: inclusão precária. Desta forma, este é um processo em
curso, histórico, o qual ganha especificidades em cada escala. Se afirmamos que é um processo,
é por que tem em si uma lógica, e assim o é, pois “é necessária uma certa geografia, uma certa
configuração espacial (segregação) para viabilizar a dominação através do espaço” (Villaça,
2001, p. 359 apud Bartoli, 2011, p. 50).
A análise desse processo segregador, que no caso das palafitas se nas margens, pode
ser compreendida através das diferentes relações sociais que se deram na produção do espaço
urbano de Manaus marcada pelo signo da “exclusão territorial” (Barbosa, 2017, p. 27). A
“exclusão territorial” tem um duplo aspecto, processo social mais organização espacial que
configura a espacialização das palafitas às margens. Nesse sentido, é possível compreender que
as palafitas, geograficamente são resultado de um processo espacial, ou seja, como define
Corrêa (1979, p. 101), “são os processos espaciais responsáveis imediatos pela organização
espacial complexa que caracteriza a metrópole moderna”. Os processos espaciais são uma
mediação entre os processos sociais e a organização espacial (Corrêa, 1979, p. 101). Dentro dos
tipos de processos espaciais elencados pelo autor, podemos reiterar a segregação como
marcador teórico para compreensão das palafitas pela sua localização em áreas de risco,
insegurança jurídica, física e social, para além, esses moradores se encontram em certa
“uniformidade populacional” que incide a criação de “áreas uniformes” ao qual caracteriza
Corrêa (1979, p. 106) como “de um lado, a distribuição da renda da população e, de outro, o
tipo de residência e a localização da mesma em termos de acessibilidade e amenidades”.
Nesse sentido, a leitura que se pode fazer acerca das palafitas como espaço segregado
se pela homogeneidade social interna dessas áreas, como um grupo que compartilha a mesma
tipologia habitacional, estão incluídos em programas sociais, experimentam infraestrutura
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deficitária e tem uma renda que os exclui do processo de aquisição de casa pelo mercado
imobiliário ao qual os levam a ocuparem palafitas às margens de rios, gerando um processo de
diferenciação residencial com os demais setores habitacionais da cidade.
Na história da produção do espaço urbano de Manaus, a ocupação dos igarapés da
cidade segue duas tipologias habitacionais nos leitos urbanos através de dois diferentes
momentos: Cidade flutuante (1922-1965) e as palafitas (intensificação após a implantação da
Zona Franca em 1967). Em ambos os eventos, houve uma descentralização das casas, partindo
da região central da cidade e adentrando os canais urbanos no espaço intraurbano (Barbosa,
2017, p. 49). Refletindo nesse processo é possível compreender que houve uma periferização
das palafitas, no sentido de que, hoje, as palafitas que antes surgiram no núcleo central, podem
ser encontradas em vários igarapés ao longo da cidade, se constituindo em uma das paisagens
que marcam a precariedade nas periferias de Manaus.
Dentro do contexto urbano, as palafitas se constituem não na habitação ideal, mas na
habitação possível. Do aparente ao conteúdo, a discussão que cerca as palafitas, tem na sua
primeira impressão a precariedade como manifestação da pobreza pela falta de acesso à
habitação ideal e no plano do não-visível a análise se centra nos processos socioespaciais
construídos na inter-relação social-topografia que marcam as áreas inundáveis. Essas duas
discussões podem ser feitas tendo como exemplo a geografia das palafitas na área urbana de
Manaus, discutindo sucessivamente (1) questão habitacional e (2) relação socioespacial.
(1) O sistema social ao qual se vincula a aquisição da habitação no sistema capitalista
é o regime de propriedade privada, nesse sentido, a diferenciação residencial ao longo da cidade
entre as áreas nobres e populares se constituem enquanto “uma projeção espacial do processo
de estruturação de classes” (Corrêa, 1979, p. 106), tornando a cidade um reflexo do próprio
sistema econômico da sociedade, temos a cidade como produto social, como afirma Oliveira
(2003, p. 30): “A cidade é produto das relações sociais que se especializam como resultado do
modo de ser de uma sociedade em espaços-tempos específicos”. Essa engrenagem social, que
determina o lugar das classes na cidade, tem no bojo a sua lógica motriz de diferenciação de
classes, mas que localmente se manifesta a partir de especificidades, revelando o
estabelecimento de diferentes processos a partir de uma mesma lógica.
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No caso de Manaus, essa espacialização não segue as determinações ambientais, por
outro lado, o ambiente é o lócus da intervenção humana que influi mais ou menos sobre quem
o habita conforme a capacidade de intervenção de determinado grupo social. Moradores de
condomínios às margens dos rios como em bairros da Ponta Negra e Tarumã
7
tem maior
capacidade de pagar pela intervenção no ambiente das águas de modo que a natureza torna-se
amenidade sob a apropriação desses grupos do que moradores das palafitas que em sua
impossibilidade de intervenção nas áreas úmidas, experimentam a natureza sob o signo da
catástrofe vivendo inundações periódicas, assim, “não é a morfologia que determina o modo
como a cidade é ocupada, mas o que lhe acrescem os homens” (Oliveira, 2003, p. 34). Nesse
sentido é que é possível compreender que a espacialização das palafitas na cidade quando
inserida no interstício cidade-natureza, sofre os impactos do ambiente de infraestrutura precária
ou ausentes em que os ciclos das águas comandam a vida dos habitantes seja pela apreensão
das cheias, preparação da casa na vazante ou na suspensão dos bens, construção das marombas
ou mudança de casa na cheia.
No caso de Manaus, a configuração urbana que empurra os mais pobres para os limites
da cidade, inclusive para cima das águas, se faz através do mecanismo de especulação
imobiliária, onde os mais pobres são relegados às áreas inundadas da cidade, menos valorizadas,
configurando uma malha urbana que se constrói pelo processo de exclusão, com mecanismos
de espoliação, encarecimento da terra urbana que dificultam o acesso à moradia, criando uma
cidade acessível apenas para alguns, cidade fragmentada, de modo que Bartoli (2011, p. 51)
afirma que “a separação entre grupos obedece uma certa lógica, e não de modo aleatório, com
possível existência de uma forma típica de distribuição dos grupos sociais no espaço”. Não de
modo aleatório, a financeirização do solo concentra a exclusão das melhores áreas pelo modelo
social de acesso à terra, ou seja, modelo produto das relações sociais.
7
O rio que margeia o bairro chama-se Rio Tarumã-Açu e faz parte da Bacia do Tarumã-Açu. Este rio vem sofrendo
diversos impactos por margear a cidade de Manaus tendo nele: “marinas, loteamentos, hotéis de selva,
condomínios residenciais de alto padrão, ocupações desordenadas, restaurantes, flutuantes domiciliares e
comerciais cujas ações geram impactos ambientais, diretos e indiretos”, como poluição das águas com óleo de
barcos, esgotos, resíduos sólidos, desmatamento e assoreamento (Melo; Romanel, 2018, p.2). Apesar de possuir
um Comitê, a gestão não conseguiu intervenções significativas devido à falta de recursos (Melo; Romanel, 2018,
p. 2).
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(2) Para além da materialidade, esses espaços estão envoltos de relações socioespaciais
que evidenciam a segregação, possível de serem aprendidas na análise do cotidiano, assim,
“[...] a paisagem está para além da aparência e por isso sua discussão enquanto urbano tem que
ser vista a partir do encadeamento das ações sociais que resultaram em espacialidades”
(OLIVEIRA, 2003, p. 29). Essas espacialidades se manifestam a partir de um marco distintivo
que é o canal fluvial, nessa geografia que vai se dando entre água-terra firme, as marcações de
classe se dão sobre a topografia do ambiente, alguns estudos locais servem para demonstrar
esse processo.
O trabalho de Ramos, Silva e Lima (2022) aborda a expressão da segregação e
diferenciação espacial a partir de habitações próximas às margens, nas margens ou sobre os
canais fluviais com pontes em trechos “das comunidades do Bairro da União e demais setores
do bairro Parque Dez de Novembro e do trecho limítrofe dos bairros Japiim e Distrito Industrial
I”. Na primeira área de estudo que corresponde a um igarapé como divisor entre o Bairro da
União (margem direita/ocupação urbana) e setores do bairro Parque Dez de Novembro (margem
esquerda) que inclui condomínios, o dados mostram que existe uma diferenciação econômica,
social e disparidades de infraestrutura e condições de moradia entre os dois lados da ponte, ao
qual lados opostos se opõem imagética e qualitativamente, estrutura socioespacial parecida
encontrada na segunda área de estudo ao longo do Igarapé do 40. Essa geografia se dá através
de uma estrutura topográfica que une o simbólico ao ambiente físico criando marcadores sociais
distintivos expressos na paisagem
8
.
O que refletir sobre essas distinções? Por qual motivo, a estigmatização dos espaços
úmidos se adequa a um quadro de inferioridade social? Corrêa (2022) responde essa questão
baseada em seu estudo em uma área de “Rip-Rap” ao longo de uma comunidade inserida no
bairro Petrópolis na zona sul de Manaus. A comunidade Santa Clara é categorizada como
“baixada”, logo na rua acima a “parte alta” que é “boa para morar” corresponde a um trecho da
Avenida André Araújo no qual se encontram condomínios de classe média baixa e alta. As
8
Ramos (2022, p. 219-220) mostra que nas relações entre igarapé versus terra firme, há uma distinção social que
se refere às condições ao qual cada grupo se insere em relação ao curso d’água, de modo que “ele não perceberá o
outro como igual, o que está ‘lá em cima’ longe do fundo de vale e o ‘do outro lado’ da ponte, que pertence a um
outro grupo social, portanto, diferente”.
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distinções entre a parte alta e a baixada se mostram claros a partir de um movimento de desprezo
pela cultura interna da comunidade e pela imagética associada à pobreza ao qual a “baixada”
evoca, assim, é possível refletir que quanto mais precarizado se mostra o ambiente de moradia,
mais se abrem precedentes para sua estigmatização” (Corrêa, 2022, p. 21). Dentro da
comunidade, os grupos se territorializam e criam topônimos diferentes baseados em sua relação
com a proximidade com as águas do igarapé, os espaços dividem-se internamente em “Beco da
Morte”, “Chavascal” e “Bodozal”. Para os “de fora” da parte alta, a comunidade ganha o
estigma de “lugar perigoso” onde a precariedade associa-se a moralidade, em um processo que
estigmatiza os moradores pela condição de habitação, assim a baixada torna-se o lugar violento
e de pessoas violentas, percepção recorrente na cidade de Manaus com relação aos espaços
alagados (Corrêa, 2022, p. 44). A autora conclui que a imputação de marginalização dos grupos
que moram ao longo das margens tem na distinção de classe aspectos como criminalização e
estigmatização ancoradas no simbolismo da pobreza.
Para sintetizar a ideia de uma geografia das palafitas urbanas, compreende-se que a
discussão sobre a habitação precária, degradação ambiental, segregação e acesso à terra urbana
são elementos centrais para a conformação de áreas palafíticas na cidade. O ambiente aquático
e úmido aliado à pobreza e dificuldade no acesso à terra firme conforma áreas palafíticas na
cidade, marcando na paisagem urbana forte diferenciação residencial. É através da “exclusão
territorial” (Barbosa, 2017), que a desigualdade se assenta sobre a morfologia urbana e produz
diferenciações da topografia com marcas sociais, distinções feitas entre o aparente e o não-
visível nesta trama que é a produção das palafitas.
Palafitarização da vida: da construção do conceito a apreensão sensível da vida em
palafitas em Manaus (AM)
O termo “palafitarização é proposto para pensar no processo de necessidade a recorrer
a habitações de palafitas para poder habitar na cidade. Esse processo envolve momentos e tem
suas implicações referentes ao habitar em áreas inundáveis, ou seja, constitui um processo
amplo e histórico que não se finda com o construir da moradia, mas antecede a construção da
palafita e envolve todas as problemáticas referentes ao habitar precariamente, desde a produção
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da periferia, a falta de infraestrutura que impacta o cotidiano, estratégias e a dimensão simbólica
da segregação.
Na produção do espaço urbano da cidade de Manaus, historicamente, a lógica da posse
da terra foi pela “retenção dos terrenos por parte de grupos privados”, desse modo, os
investimentos utilizados para expansão da cidade seguiam os caminhos dos empreendimentos
imobiliários particulares (Oliveira, 2007, p. 58). Com a crise da borracha, a cidade de Manaus
atraiu a população do interior do estado, de modo que “[e]stimativas apontaram que somente
em 1922 chegaram cerca de 10 mil migrantes vindos da zona rural, especialmente dos vales do
Madeira, Purus e Juruá, considerados rios seringueiros” (Oliveira, 2007, p. 59). Entre outros
espaços, a possibilidade de habitar na cidade se deu às margens dos igarapés, as populações
mais pobres foram empurradas para as áreas de risco, baixadas, áreas inundáveis, lugares onde
não se encontra a especulação imobiliária do grande mercado, nessas áreas, à beira de rio
tornou-se um espaço “como a periferia de um sistema urbano que literalmente marginalizou
populações do acesso à moradia digna na cidade” (Bechan, 2003 apud Oliveira, 2007, p. 60).
Assim, a “beira”
9
não apenas territorializa-se como espaço da precariedade, mas adentra o plano
simbólico da distinção social, como afirma Guglielmini (2005, p. 71): “[a] beira passa a ser o
lugar dos pobres, das palafitas, da “desordem” imposta pela ocupação desordenada, sendo esses
lugares em geral qualificados enquanto periferia”.
O trabalho de Oliveira (2007) sobre a vida cotidiana ao longo da beira-rio no bairro
Educandos, zona sul de Manaus, evidenciou ao longo da Avenida Beira Mar (atual Rua Vista
Alegre) como uma tendência nessas áreas de encontrar muitos moradores provenientes de
municípios do interior do Estado (Oliveira, 2007, p. 86). Esses moradores mais antigos que
habitam em palafitas estão ali há cerca de 40 a 50 anos, e constituem “os remanescentes de um
grupo bem extenso que compunha o quadro dos que primeiros construíram suas casas na beira-
rio de Educandos” (Oliveira, 2007, p. 86).
Atualmente, as relações com a casa envolvem a temporalidade, aliada às condições
materiais e econômicas dos moradores. Em pesquisa realizada ao longo das palafitas localizadas
9
Termo regional referente aos espaços de margens de rios.
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no bairro de Educandos
10
, foi possível encontrar moradores antigos, aqueles que chegaram com
seus pais e presenciaram a construção das casas. moradores que construíram suas próprias
casas são aqueles que residem quarenta, trinta ou vinte anos no local e existem
moradores que compraram suas casas no local.
A partir do estabelecimento, a vivência nas casas de palafitas revela uma
especificidade da habitação em áreas alagáveis: o constante reparo. É um ciclo de reconstrução
que perdura. A época de cheia, em que as casas ficam inundadas, faz com que a madeira da
casa apodreça, e com o início da vazante dos rios inicia a temporada de reforma da casa, com
as trocas das madeiras. A troca das madeiras esbarra no preço. Uma vez que madeiras são caras,
nem sempre é possível comprar novas, de forma que opta-se pela reutilização em alguns casos,
o que a algumas palafitas a aparência de mosaico, com tábuas diferentes umas das outras em
cor e tamanho. É comum encontrar ao longo dessas áreas casas de palafitas abandonadas,
disponíveis para venda ou fechadas até se iniciar o período de (re)construção. Isso ocorre por
motivos pessoais ou por motivos estruturais. O abandono de casas acontece quando suas
condições estruturais já as impedem de serem habitadas para se evitar tombamentos, tranca-
se a casa ou se a abandona. Esse processo mostra que o habitar em casa de palafitas está
intimamente relacionado ao impacto das águas nas condições de moradia. Constatou-se que
esse espaço é o da moradia que se fez possível, visto que muitos dos moradores almejam sair
do local. O esquema abaixo ajuda a entender o fluxo (Figura 3):
10
Se refere ao conjunto de palafitas localizados ao longo dos becos Inocêncio de Araújo e Manoel Urbano nas
margens do igarapé dos educandos.
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AREB, Matheus Vieira. GEOGRAFIA(S) DA(S) PALAFITA(S): espacialidades, precariedade habitacional e o habitar entre palafitas urbanas
em Manaus-AM. Ensaios de Geografia. Niterói, vol. 10, nº 22, pp. 175-206, setembro-dezembro de 2023.
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Figura 3 Fluxo da dinâmica habitacional em palafitas
Fonte: O autor (2022)
Esse processo evidencia um primeiro aspecto da palafitarização da vida, que se refere
à (re)produção desses espaços, baseado no espaço possível para construção, constante reforma
e impacto do regime das águas em sua estrutura. No que se refere à chegada desses moradores
no local, pode-se dividir em dois aspectos: (1) Continuidade: quando se nasce no local ou se
chega muito criança; (2) Emergência: quando adulto, na impossibilidade de aquisição de
terreno ou casa própria, sendo levado a construir casa de palafita ou comprar esse tipo de casa.
A dimensão material da palafitarização diz respeito à concretude desse processo. As
casas têm seus modelos adaptados aos ciclos das águas e são uma incorporação da cultura
amazônica dos ribeirinhos. Dentro da área urbana as palafitas têm uma peculiaridade. A sua
transformação dentro do espaço urbano é uma transmutação entre a cultura tradicional
amazônica com a casa de madeira, o jirau, as janelas para o rio, os pátios abertos de acesso
ao rio e/ou aos barcos e a adaptabilidade aos códigos da metrópole que se materializam
nas antenas, no ar condicionado e nos cômodos de alvenaria (Figura 4):
ESTABELECIMENTO
CONSTRUÇÃO
COMPRA DA CASA
VIVÊNCIA
(CONSTANTE
REPARO)
DESOCUPAÇÃO
VENDA
ABANDONO
RECONSTRUÇÃO
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Figura 4: Casa-palafita com ar condicionado e antena
Fonte: Márcia Calderipe (2022)
A pesquisa de Pereira, Silva e Barros (2011, p. 37-38) evidencia a relação cultura-
natureza materializada na paisagem das palafitas. Segundo os autores, “a arquitetura das
palafitas da cidade de Manaus é modelizada a partir de relações conflituosas que se dão entre
natureza e cultura na Amazônia”. Esse aspecto mostra a diferenciação das palafitas urbanas e
das palafitas rurais, de modo que a diferença tem seu ponto de ruptura no modo de apropriação
desigual da cidade estabelecida no modelo urbano mercadológico de acesso à terra. Se as
palafitas rurais estão em uma simbiose com a natureza, as palafitas urbanas são a cultura
ribeirinha transfigurada sob o âmbito do capitalismo, “cuja urbanidade surgiu do encontro
nenhum pouco harmonioso com a cultura cabocla ribeirinha” (Pereira; Silva; Barros, 2011, p.
38). Desse modo, as palafitas não apenas incorporam os objetos da metrópole (capital) em sua
arquitetura, mas também expressam a desigualdade na forma como estão dispostas na cidade e
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em como seus habitantes são impactados pelo produto da degradação ambiental de uma cidade
industrial.
A cultura não é sobreposta ao urbanismo as palafitas se entrelaçam no movimento
do cotidiano. De fato, ao longo das palafitas se experimenta a precariedade de forma intensa.
Entretanto, no que se refere à estrutura das casas, há uma adaptação a esses ambientes. Isso se
pelo fato de a cultura da cidade estar ligada aos igarapés. As ocupações daqueles que servem
como catraieiros ou pescadores em áreas distantes contam em suas casas com áreas abertas para
o igarapé, local de ancoragem de barcos através dos trapiches (Figura 5).
Figura 5: Pátios de fundo aberto para o igarapé servindo como atracagem para barcos
Fonte: Márcia Calderipe (2022)
Esse aspecto leva a compreender que existe uma relação intersticial entre urbano-
natureza que tem as palafitas como ponto fronteiriço (Pereira; Silva; Barros, 2011, p. 37). Essa
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apreensão nos leva a refletir que as palafitas constituem áreas intersticiais dentro da cidade pela
sua disposição fixada entre o domínio da água e da terra firme. Para além da localização, os
conteúdos dessa relação também são intersticiais, visto que os moradores experimentam o
impacto do ciclo das águas e alguns navegam por elas, além de utilizarem o espaço da rzea
na vazante, ao mesmo tempo que vivenciam o modo de vida urbano estando ligados a terra
firme.
A ideia de entender as margens onde se localizam palafitas como interstícios é
importante para compreender as cidades amazônicas, pois reflete a complexa, dinâmica e
cultural relação com as águas. Pereira, Silva e Barros (2011, p. 37) apontam que essas áreas são
uma “região limítrofe entre o rio e a cidade, que pode ser interpretada como uma região
fronteiriça entre a cultura ribeirinha, [...] e a cultura urbana”. O texto de Soares e Silveira (2022,
p. 146) mostra, através de estudo na Bacia do Uma, em Belém, que a intervenção técnica no
canal leva a uma lógica de domínio sobre as águas inclusive criando certa aparência de
oposição entre o rio-cidade quando, na verdade, a complexidade das aproximações no
cotidiano fora dos planos técnicos urbanísticos revela aproximações com os cursos hídricos.
Isso estabelece relações contraditórias do ponto de vista higienista, pois este liga a condição do
Igarapé enquanto poluído à negação social deste. Entretanto, a pesquisa revela que “a ‘morte’
do curso d’água não é definitiva, e que as ideias de “igarapé” ou de “canal” são categorias
negociadas e situacionais que variam conforme os pontos de vista. No mesmo sentido, o
trabalho de Areb (2022) ao longo do Igarapé de Educandos em Manaus aponta que “[a]pesar
das tensionalidades e conflitos com as águas, o igarapé do Educandos tem um caráter utilitário
que o constitui enquanto água-trabalho/água-caminho” (Areb, 2022, p. 122). Esse caráter
utilitário do Igarapé poluído mostra a complexidade das formas de apropriação das águas no
ambiente amazônico, onde as relações são negociadas em níveis de possibilidade de uso, e a
dicotomia se desfaz na medida em que o igarapé revela seu caráter dinâmico (Areb, 2022, p.
124). O Esquema abaixo ajuda a entender o fenômeno que as palafitas experimentam. Dois
domínios, circunstâncias diferentes vivenciadas por quem habita entre dois polos. Nessa
fronteira rio-cidade, a casa é o objeto dinâmico: reflete a arquitetura da tradição, incorpora
códigos urbanos, recebe o impacto das águas, se deteriora e se reconstrói.
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Essa disposição da palafita reflete também em sua invisibilização dentro do meio
urbano. Nesse sentido é que, de maneira aparente, os habitantes de palafitas, em sua condição
de habitantes das margens, têm suas casas dispostas geralmente por detrás das edificações
localizadas ao longo de ruas e avenidas em Manaus, tendo seu acesso por pequenos
becos/vielas. Desta forma, a “marginalização” da edificação ultrapassa a dimensão simbólica e
se manifesta em concretude espacial através das formas de se habitar em palafitas: “Os
embelezamentos da cidade de Manaus, as infraestruturas construídas retiraram os pobres do
alcance da visão, explicitando a divisão de classes na cidade (Oliveira, 2003, p. 24). Entretanto,
as palafitas aparecem para quem chega à cidade, escondidas das ruas, mas aparentes por quem
chega pelas águas. Pelas ruas aparecem os pequenos becos, vielas que revelam as construções
escondidas por detrás dos prédios, um escape à cena urbana: “[...] a produção do espaço é
sempre contraditória e o conjunto homogêneo esvai-se pelas contradições inerentes à sua
própria lógica e, com isso, a fragmentação dos detalhes emerge (Oliveira, 2003, p. 24).
No ambiente palafítico, os moradores precisam ativar estratégias para lidar com as
águas. Soares e Silveira (2022, p. 146) apontam como no meio urbano em uma cidade
amazônica, os canais fluviais aparecem enquanto agência: “[a] força simbólica das imagens
relativas ao corpo hídrico persiste como potência cosmológica amazônica na urbe um ente
não humano fluido ainda que transfigurada na forma morta ou moribunda do canal”. As águas
refletem um dinamismo no encontro com a cidade, fato que se mostra no Igarapé de Educandos
em Manaus. O Igarapé de Educandos aparece como agente sobre a vida dos moradores, mesmo
que em condição negativa: poluído, morto ou degradado. Os moradores dessas margens criam
representações sobre as águas que falam de suas experiências em contato com elas, sejam entre
os entes não-humanos, como os animais trazidos pelas cheias e inundações, seja com o forte
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odor do Igarapé
11
, no banzeiro
12
que bate nas casas e destrói as casas na cheia ou nas doenças
advindas do canal poluído. Neste sentido, a palafitarização da vida mostra que as águas
impactam não apenas sobre a casa, mas também sobre os corpos. Desse modo, pode-se refletir
que “as agências não humanas emergem com a força que lhes é inerente, exigindo do humano
um reposicionamento simbólico-prático diante de seus dinamismos” (Soares; Silveira, 2022, p.
146).
Espaços de palafitas possuem práticas específicas ligadas à falta de espaço, fazendo
com que suas práticas se deem diante dos espaços possíveis. A temporalização da vida envolve
o regime das águas, o qual leva a uma temporalidade das atitudes, adaptadas entre cheia e
vazante. Nas palafitas do Igarapé do Educandos, durante a vazante, época de baixa dos rios, a
parte seca do leito serve como criadouro de bichos como porcos e galinhas ou como depósito
de materiais debaixo das casas. Para além, o leito seco também se transforma em espaço de
lazer, para crianças brincarem ou para jogos de futebol entre os mais jovens. É também o tempo
do reparo, limpeza do lixo, reconstrução e reforço das estacas de madeira das casas quando
possível.
Na cheia, o leito é coberto por água, e também se pode acessar algumas casas pelo rio
de canoa ou barco, uma vez que as águas invadem as casas. Constroem-se marombas, pequenas
pontes de madeiras entre as casas, e dentro de casa, quando o chão é coberto pela água. Na
espacialidade, entre a casa e a rua, fica os becos, pequenas vielas que se entrecruzam com
outras, formando corredores que levam às ruas. No trabalho de Areb (2022, p. 14), definem-se
os becos como “uma extensão da casa, pois as pessoas sentam em sua área colocando cadeiras,
11
Uma das dificuldades enfrentadas pelos moradores das casas de palafitas é o forte odor com que precisam lidar.
O mau cheiro decorre dos esgotos lançados nas águas e lixos orgânicos, em função dos quais ocorre um
“represamento de águas altamente poluídas junto às margens, onde se instauram ambientes anóxicos que provocam
a exalação de odores desagradáveis” (Projeto Geo Cidades, 2002 apud Ferreira, 2012, p. 34). Esse fato ocorre em
quase todos os igarapés poluídos de Manaus que têm habitantes em suas margens, como mostra Corrêa (2022, p.
42) em um igarapé intraurbano no bairro Petrópolis em Manaus. Também Iribarrem e Calderipe (2020, p. 17)
mostram a presença do mau cheiro “[...] por vezes fétido, devido ao lixo e esgoto acumulado abaixo das estacas
de madeira de suas moradias” no bairro Distrito Industrial I e Calderipe (2017, p. 221-222), que, ao longo da
Avenida Manaus 2000 nos limites do Bairro Japiim, analisa como o cotidiano dos moradores de palafitas é marcada
pelo convívio com o constante mau cheiro, refletindo sobre como o Igarapé em sua “sua carga de contaminação
por dejetos de várias naturezas, pode agir de forma tão violenta com aqueles que com ela convivem”.
12
Categoria êmica, expressão amazônica que se refere às ondas que se formam quando os barcos passam.
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as crianças brincam, os jovens se reúnem, é de onde se olha para dentro das casas”. Essa
espacialidade que se constrói tem sua especificidade nas estratégias em lidar com as águas, os
usos possíveis que se fazem na várzea com a descida das águas, as sociabilidades que se criam
nos becos e as relações que se dão com o espaço da rua, a construção de um mundo próprio
compreendido pela representação (Figura 6).
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Figura 6: Ambiente da espacialidade das palafitas na margem do Igarapé de Educandos
Fonte: Matheus Areb (2023)
Deste modo, a palafitarização pode ser definida como um processo social urbano
específico em que a forma da habitação expressa uma generalidade variável e complexa. Esse
é um processo socioespacial que coloca os habitantes da cidade em condições de alagados
dentro do espaço urbano. Na necessidade de habitar, recorrem à tipologia vernacular da palafita
e passam a enfrentar a vida em interstício na fronteira terra-água, que envolve o contato com
águas, localizando-se em áreas úmidas. A palafitarização ocorre antes e durante o
estabelecimento da casa, que envolve as condições que levam as pessoas a morarem nesses
espaços, como concentração populacional nas capitais, planejamento urbano desigual à
demanda de habitação e baixos salários. Estabelecidos em palafitas precisam lidar com o
constante reparo das casas, acidentes, perdas de bens, estratégias de adaptação, mobilidade
pelos canais poluídos, contato com as águas na cheia. Essas áreas intersticiais na cidade urbano-
natureza levam à formação de espacialidades específicas entre topografia e as relações sociais
locais.
Considerações finais
A casa-palafita se apresenta com complexidade contextual na sua forma adaptativa em
que história regional-local se conjuga aos fenômenos espaciais mais amplos. Por meio de quatro
momentos, buscou-se apresentar que, em síntese, a casa-palafita possui uma diferenciação
geográfica e social no espaço urbano, apesar da estrutura da casa revelar um padrão histórico
relativo à adaptabilidade à natureza em todos os ambientes úmidos-aquáticos.
IGARAPÉ
PALAFITA
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A proposta de pensar uma geografia das palafitas urbanas a partir do caso de Manaus (AM) é
um movimento teórico-prático de analisar a produção desses espaços a partir de conceitos
alinhados ao seu mundo que diferem da produção de outros espaços de moradia na cidade como
condomínios e casas em terra firme. Os resultados apontam que a experiência da habitação em
palafitas em Manaus possui padrões em comum mesmo em áreas distintas no que se refere à
segregação, à política habitacional deficitária, ao contato com a natureza poluída e ao impacto
das águas. Essas experiências são diferentes de quem habita na cidade em áreas de terra firme,
o que leva à constatação de que uma diferenciação geográfica entre dois modos de habitar
que leva a necessidade de construção de um conceito próprio para a experiência nessas áreas, o
qual foi denominado de palafitarização.
O processo de palafitarização da vida é o termo que expressa a constituição de uma
vida palafítica, ou seja, moradores de baixa renda, os quais, sem possibilidade de comprar lotes
de terra em área firme, necessitam palafitarizar-se. O termo evoca um processo contínuo, que
expressa as experiências de quem habita em palafitas urbanas. Alguns dos aspectos da
palafitarização podem ser compreendidos como: (1) metamorfose capitalista da palafita ao
adentrar o urbano, deixando o signo de casas junto a ribeiros (de ribeirinhos) em intensa
conexão rio-floresta para se tornar símbolo da precariedade e pobreza nas grandes cidades; (2)
invisibilização urbana; (3) constante reparo das casas, arcando com os custos das reformas; (4)
adaptação da estrutura da casa em função do canal fluvial e (5) impacto do ambiente na
qualidade de vida dos moradores (dimensão corporal). A heterogeneidade desses espaços
evidencia as especificidades locais, sejam nas relações de aproximação e sociabilidades
construídas entre moradores ou distanciamentos com outros grupos sob o espectro do estigma.
A reflexão que se faz acerca da palafita como cultura é vital para entender o ponto de ruptura
em que a casa-palafita sofre a transmutação de seu sentido tradicional original ao ser construída
em meio urbano
13
.
13
O urbano ao qual se refere circunscreve-se (a priori) às grandes cidades, que atuam como polos atrativos através
das múltiplas variáveis que as conformam em áreas centrais, as quais resultam em desigualdades socioespaciais.
No âmbito das médias e pequenas cidades amazônicas, as palafitas possuem especificidades de contato ainda
estreito com o ambiente natural. No que se refere à qualidade desse contato mediante as expressões de traços do
rural no urbano, mesmo nos núcleos urbanos do município; essas experiências necessitam de estudos in loco para
capturar a especificidade dessas escalas de análise.
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Ensaios de Geografia
Essays of Geography | POSGEO-UFF
AO CITAR ESTE TRABALHO, UTILIZAR A SEGUINTE REFERÊNCIA:
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em Manaus-AM. Ensaios de Geografia. Niterói, vol. 10, nº 22, pp. 175-206, setembro-dezembro de 2023.
Submissão em: 22/05/2023. Aceito em: 05/07/2023.
ISSN: 2316-8544
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