
Ensaios de Geografia
Essays of Geography | POSGEO-UFF
AO CITAR ESTE TRABALHO, UTILIZAR A SEGUINTE REFERÊNCIA:
Abreu, Edson de Jesus. Espacial ou socioespacial? relações espaço-sociedade no processo de renovação da Geografia. Ensaios de Geografia.
Niterói, vol. 12, nº 26, e122602, 2026.
Submissão em: 25/03/2025. Aceito em: 23/01/2026.
ISSN: 2316-8544
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injetar um conteúdo mais social e crítico à disciplina e, quase cinquenta anos depois,
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ela ainda
está de pé. Finalmente a Geografia encontra uma base sólida para a construção de seu edifício
teórico.
Não significa, com isso, que a renovação não criou seus próprios mal-estares. A
renovação trouxe novos ares imprescindíveis para a continuação da disciplina, mas trouxe
novos incômodos que não podiam ser previstos enquanto ela acontecia. Incômodos que, apesar
de não serem tão grandes quanto os antigos — não fazem colapsar constantemente a disciplina
— merecem ser discutidos. Especialmente o incômodo que aqui se apresenta: a conceituação
de espaço. Conceito-chave da Geografia pós-1950 (Carlos, 2018, Corrêa, 2000, Haesbaert,
2010, Santos, 1996, 2000, Sposito, 2004), as diferentes noções de espaço, mais do que uma
discussão meramente semântica, implicam no modo como é feita a Geografia contemporânea
(Unwin, 2000). Esta que, para autores como Moreira (2020) e Santos (1996), perde parte da sua
forma e de seu conteúdo no período após a renovação, devido a, entre outras coisas, o modo
como constrói seus conceitos.
O objetivo deste ensaio é discutir as relações entre os conceitos de espaço e sociedade
oriundos da renovação da Geografia a partir da noção de “tradução conceitual” — o processo
pelo qual um autor reconstrói um conceito de outra disciplina nas bases de sua própria disciplina
— de Milton Santos (1996), por meio da análise das concepções relativas ao
espacial/socioespacial surgidas ao longo do período pós-renovação. Como o texto se trata de
um ensaio, o levantamento não se pretendeu exaustivo ou sistemático, apenas ilustrativo. A
escolha dos textos principais, contudo, não é aleatória e seguiu três critérios: 1) pertencer a um
autor(a) reconhecido por seu impacto no processo de renovação crítica da Geografia brasileira
(Pedrosa, 2015); 2) representar diferentes momentos na trajetória do conceito de espaço, e; 3)
propor um novo debate ou caminho teórico, como o fazem explicitamente Milton Santos
(1977)
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e Ana Fani Alessandri Carlos (2018)
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ou fazê-lo, ainda que sem o desejo explícito,
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49 ou 45 anos, a depender de como se conte. A renovação brasileira se faz sentir desde 1974 e começa, mais
apropriadamente, em 1978 (Moreira, 2020, p. 24).
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Não é nosso propósito engrossar ainda mais o debate semântico sobre as F.E.S. [Formação Econômica e Social],
porém sugerir uma nova dimensão que nos parece essencial e que seria uma alternativa no quadro desta nova
corrente de pensamento da qual nos fala S. Barrios (Santos, 1997, p. 82)
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“Quando me refiro à metaGeografia não pretendo, com isso, fundar outra Geografia, nem tão pouco criar uma
nova subdivisão, mas, antes, propor um caminho teórico-metodológico de superação do estado de crise em que se