Ensaios de Geografia
Essays of Geography | POSGEO-UFF
AO CITAR ESTE TRABALHO, UTILIZAR A SEGUINTE REFERÊNCIA:
VINHAES, Tamires Regina Rocha; VINHAES, Alan da Silva; SEGRELLES SERRANO, José Antonio. Turismo Rural e Multifuncionalidade
da Agricultura: estratégias de reprodução social na Rota do Vinho de Alicante (Espanha). Ensaios de Geografia. Niterói, vol. 13, 26,
e132612, 2026.
Submissão em: 23/04/2026. Aceito em: 11/07/2026.
ISSN: 2316-8544
Este trabalho está licenciado com uma licença Creative Commons
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SEÇÃO ARTIGOS
Turismo Rural e Multifuncionalidade da Agricultura:
estratégias de reprodução social na Rota do Vinho de Alicante (Espanha)
Rural Tourism and the Multifunctionality of Agriculture:
social reproduction strategies in the Alicante Wine Route (Spain)
Turismo Rural y Multifuncionalidad de la Agricultura:
estrategias de reproducción social en la Ruta del Vino de Alicante (España)
DOI: https://doi.org/10.22409/3va44496
Tamires Regina Rocha
Vinhaes1
Universidade Estadual Paulista
Júlio de Mesquita Filho
(UNESP), Faculdade de Ciências
e Tecnologia (FCT), Presidente
Prudente,
São Paulo, Brasil
e-mail:
tamiresrerocha@hotmail.com
Alan da Silva Vinhaes2
Universidade Estadual Paulista
Júlio de Mesquita Filho
(UNESP), Faculdade de Ciências
e Tecnologia (FCT), Presidente
Prudente,
São Paulo, Brasil
e-mail:
asvinhaes2013@gmail.com
José Antonio Segrelles
Serrano3
Universidade de Alicante (UA),
Comunidade Valenciana, Espanha
e-mail: ja.segrelles@ua.es
Resumo
O artigo analisa o turismo rural como estratégia de reprodução social de agricultores inseridos na Rota do Vinho
de Alicante, na Espanha, buscando compreender se a atividade agrícola mantém sua centralidade ou se ocorre um
processo de substituição por atividades turísticas. A pesquisa adota abordagem qualitativa, articulando
levantamento bibliográfico e trabalho de campo, com aplicação de formulário junto aos agricultores responsáveis
por dez unidades produtivas localizadas nos municípios de Villena, Pinoso, Monóvar e Novelda, integrantes da
rota. A análise fundamenta-se na discussão sobre multifuncionalidade da agricultura, turismo rural e estratégias de
reprodução social. Os resultados indicam que a vitivinicultura permanece como eixo estruturante das unidades
produtivas, enquanto o turismo se desenvolve de forma complementar, contribuindo para a diversificação da renda
e a valorização da produção. Conclui-se que, no contexto analisado, a multifuncionalidade se expressa como
ampliação das funções da agricultura, sem implicar a perda de centralidade da atividade agrícola.
Palavras-chave
Reprodução social; Diversificação produtiva; Vitivinicultura; Espaço rural; Enoturismo.
1
Graduada em Geografia (Licenciatura e Bacharelado) e mestre pela Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCT)
da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP). Atualmente é doutoranda no Programa de
Pós-Graduação em Geografia da mesma instituição.
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Graduado em Geografia (Licenciatura e Bacharelado) e mestre pela Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCT)
da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP). Atualmente é doutorando no Programa de
Pós-Graduação em Geografia da mesma instituição.
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Doutor em Geografia e Professor Titular do Departamento de Geografia Humana da Universidade de Alicante
(UA), Espanha. Desenvolve pesquisas nas áreas de Geografia Humana, Geografia Agrária e América Latina.
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Abstract
This article analyzes rural tourism as a strategy of social reproduction among farmers involved in the Alicante
Wine Route, Spain, seeking to understand whether agricultural activity maintains its centrality or whether a process
of substitution by tourism activities occurs. The research adopts a qualitative approach, combining bibliographic
review and fieldwork, including the application of questionnaires to farmers responsible for ten production units
located in the municipalities of Villena, Pinoso, Monóvar, and Novelda, all part of the route. The analysis is
grounded in discussions on the multifunctionality of agriculture, rural tourism, and social reproduction strategies.
The results indicate that viticulture remains the structuring axis of the production units, while tourism develops in
a complementary way, contributing to income diversification and the valorization of production. It is concluded
that, in the analyzed context, multifunctionality is expressed as an expansion of the functions of agriculture,
without implying a loss of centrality of agricultural activity.
Keywords
Social reproduction; Productive diversification; Viticulture; Rural space; Wine tourism.
Resumen
El artículo analiza el turismo rural como estrategia de reproducción social de los agricultores insertos en la Ruta
del Vino de Alicante, en España, con el objetivo de comprender si la actividad agrícola mantiene su centralidad o
si se produce un proceso de sustitución por actividades turísticas. La investigación adopta un enfoque cualitativo,
articulando revisión bibliográfica y trabajo de campo, con la aplicación de cuestionarios a los agricultores
responsables de diez unidades productivas localizadas en los municipios de Villena, Pinoso, Monóvar y Novelda,
integrantes de la ruta. El análisis se fundamenta en la discusión sobre la multifuncionalidad de la agricultura, el
turismo rural y las estrategias de reproducción social. Los resultados indican que la vitivinicultura permanece como
eje estructurante de las unidades productivas, mientras que el turismo se desarrolla de forma complementaria,
contribuyendo a la diversificación de los ingresos y a la valorización de la producción. Se concluye que, en el
contexto analizado, la multifuncionalidad se expresa como una ampliación de las funciones de la agricultura, sin
implicar la pérdida de centralidad de la actividad agrícola.
Palabras clave
Reproducción social; Diversificación productiva; Vitivinicultura; Espacio rural; Enoturismo.
Introdução
Nas últimas décadas, o espaço rural europeu tem passado por mudanças importantes,
relacionadas à redução da rentabilidade agrícola, ao envelhecimento da população rural e à
necessidade de diversificação das atividades econômicas (Nunes; Segrelles Serrano, 2009;
Segrelles Serrano, 2020). Nesse contexto, o conceito de multifuncionalidade da agricultura tem
sido amplamente utilizado para explicar a incorporação de novas funções à agricultura no
espaço rural, entre elas o turismo. O turismo rural, por sua vez, tem sido frequentemente
apresentado como alternativa econômica para os agricultores e como estratégia de dinamização
dos territórios rurais (Bonnal et al., 2003, Organização das Nações Unidas para o Turismo
UN Tourism, 2024).
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Parte da literatura aponta que esse processo pode levar à perda de centralidade da
agricultura, com o fortalecimento de atividades terciárias e a transformação do espaço rural em
espaço voltado ao consumo (Segrelles Serrano, 2013). No entanto, essa interpretação não se
verifica de forma uniforme. Em determinados contextos, o turismo não substitui a agricultura,
mas se articula a ela, assumindo um papel complementar. Nesses casos, a atividade agrícola
permanece como base da organização produtiva, enquanto o turismo é incorporado como
estratégia de diversificação da renda e de manutenção das unidades familiares (Ploeg, 2008;
Segrelles Serrano, 2013). Partindo dessa perspectiva, este artigo considera a hipótese de que,
no contexto analisado, o turismo tende a assumir caráter complementar, sem implicar a
substituição da atividade agrícola.
É nesse debate que se insere o presente artigo, que analisa a relação entre agricultura e
turismo rural na Rota do Vinho de Alicante, situada na província de Alicante, Comunidade
Valenciana, Espanha. Trata-se de uma área inserida na região do Vinalopó, caracterizada pela
presença da vitivinicultura e por uma estrutura produtiva organizada em unidades familiares e
empresariais que articulam cultivo de uva, produção de vinho e outras atividades agrícolas.
Nesse contexto, diferentes iniciativas incorporam o turismo às atividades produtivas,
especialmente por meio de visitas, degustações, hospedagem e oferta gastronômica.
A pesquisa foi desenvolvida no âmbito do estágio de pesquisa no exterior (BEPE),
financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), o que
possibilitou a realização de trabalho de campo na Espanha e o contato direto com os agricultores
vinculados à Rota do Vinho de Alicante. A investigação integra um projeto de doutorado
desenvolvido no Brasil, voltado à análise do turismo rural como estratégia de reprodução social
em pequenas propriedades nos municípios de Jundiaí e São Roque. Nesse sentido, o estudo
realizado em Alicante contribui para ampliar a compreensão sobre diferentes formas de
articulação entre agricultura e turismo em contextos territoriais distintos, sem que se proponha,
neste artigo, uma análise comparativa direta.
O objetivo do artigo é analisar o turismo rural como estratégia de reprodução social dos
agricultores inseridos na Rota do Vinho de Alicante, com foco nos municípios de Villena,
Pinoso, Monóvar e Novelda, buscando compreender se a atividade agrícola mantém sua
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centralidade ou se ocorre um processo de substituição por atividades turísticas. Para tanto, são
analisados o perfil dos agricultores, as características das atividades produtivas, as formas de
inserção do turismo nas unidades produtivas e as estratégias adotadas pelas famílias para
articular agricultura e turismo.
Metodologia
A pesquisa possui abordagem qualitativa e foi desenvolvida a partir de levantamento
bibliográfico, pesquisa documental e trabalho de campo. O levantamento bibliográfico
concentrou-se nas discussões sobre multifuncionalidade da agricultura, estratégias de
reprodução social e turismo rural, constituindo a base teórica da investigação. O levantamento
documental envolveu a consulta a documentos institucionais e informações disponibilizadas
por organizações ligadas à vitivinicultura e ao turismo rural, entre elas a Associação Rota do
Vinho de Alicante.
A pesquisa foi realizada nos municípios de Villena, Pinoso, Monóvar e Novelda,
localizados na província de Alicante, na Comunidade Valenciana, Espanha. A Figura 1
apresenta a localização dos municípios analisados, permitindo visualizar sua inserção no
contexto territorial da província de Alicante.
Figura 1 Localização dos municípios de Villena, Pinoso, Monóvar e Novelda na província
de Alicante, Espanha
Fonte: Elaborado pelos autores com base em dados do Instituto Geográfico Nacional da Espanha, 2024.
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Os municípios de Villena, Pinoso, Monóvar e Novelda foram selecionados por
concentrarem os estabelecimentos vinculados à Rota do Vinho de Alicante incluídos no recorte
territorial da pesquisa. Inseridos na região do Vinalopó, esses municípios apresentam relevância
histórica para a atividade vitivinícola e reúnem diferentes formas de organização produtiva e
de inserção no turismo rural, abrangendo desde estruturas cooperativas até empreendimentos
familiares e empresariais. Essa diversidade permitiu analisar distintas estratégias de articulação
entre agricultura e turismo no contexto da rota.
De acordo com informações disponibilizadas pela Associação Rota do Vinho de
Alicante (2025), foram identificados dez (10) estabelecimentos diretamente vinculados às
atividades de turismo rural nos municípios analisados. Em razão desse universo reduzido,
optou-se por incluir todos os casos existentes no recorte territorial da pesquisa. Para a coleta
dos dados, foi aplicado formulário semiestruturado aos responsáveis pelos estabelecimentos. O
instrumento contemplou questões relacionadas ao perfil dos entrevistados, às características das
propriedades, às atividades agrícolas desenvolvidas, à inserção na rota, às atividades turísticas
ofertadas e aos principais desafios enfrentados pelos agricultores.
Os formulários semiestruturados foram aplicados presencialmente durante o trabalho de
campo e tiveram duração média entre sessenta e noventa minutos. As respostas e observações
complementares foram registradas por meio de anotações realizadas durante as visitas
previamente agendadas com os responsáveis pelos estabelecimentos. Todos os participantes
estavam cientes dos objetivos da pesquisa e das atividades desenvolvidas durante o trabalho de
campo, autorizando sua participação na pesquisa e a realização das observações nas
propriedades rurais.
Além da aplicação dos formulários, foi realizada observação direta nas propriedades
visitadas. Durante as visitas, foram observados os vinhedos, as áreas de produção, as instalações
de vinificação, os espaços destinados à recepção de visitantes e as demais estruturas
relacionadas às atividades turísticas. Também foram produzidos registros fotográficos que
auxiliaram na descrição e interpretação das características observadas em campo.
As informações obtidas por meio dos formulários e das observações de campo foram
organizadas em categorias temáticas relacionadas ao perfil dos agricultores, às atividades
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produtivas, às formas de inserção no turismo e às estratégias de reprodução social. A partir
dessa sistematização, realizou-se uma análise interpretativa dos dados, buscando identificar
elementos recorrentes, particularidades dos casos investigados e diferentes formas de
articulação entre agricultura e turismo. As informações também foram organizadas em quadros
analíticos, permitindo a comparação entre os estabelecimentos pesquisados.
A pesquisa contempla a totalidade dos estabelecimentos vinculados à Rota do Vinho de
Alicante nos municípios analisados, abrangendo todos os casos existentes no recorte territorial
definido. No entanto, os resultados referem-se especificamente ao contexto investigado e não
podem ser generalizados para outras regiões vitivinícolas ou para diferentes realidades do
turismo rural.
A Rota do Vinho de Alicante: organização territorial e enoturismo
A Rota do Vinho de Alicante constitui uma iniciativa de articulação entre vitivinicultura
e turismo, inserida na província de Alicante, na Comunidade Valenciana, Espanha. A rota reúne
municípios com tradição na produção de vinho e integra diferentes tipos de empreendimentos,
como bodegas, restaurantes, alojamentos e serviços turísticos, estruturando o enoturismo como
uma atividade vinculada à produção agrícola (Marco-Lajara et al., 2023).
Sua formação está relacionada ao processo de diversificação das atividades no espaço
rural europeu e à consolidação do enoturismo como estratégia de desenvolvimento territorial.
No caso espanhol, esse movimento foi impulsionado pela atuação da Asociación Española de
Ciudades del Vino, responsável pela coordenação do projeto nacional de rotas do vinho e pela
definição de critérios de organização, qualidade e certificação (Ramis Hernández, 2010). Nesse
contexto, a Rota do Vinho de Alicante foi institucionalizada no final dos anos 2000, com a
formalização de sua estrutura organizativa em 2009, a partir da articulação entre municípios, o
conselho regulador da Denominación de Origen Alicante, o setor turístico e produtores locais
(Marco-Lajara et al., 2023).
A criação da rota está diretamente associada à valorização da tradição vitivinícola da
província e à necessidade de diversificação econômica frente à predominância do turismo
litorâneo (Andreu Guerrero; Verdú Albert, 2012). Ao mesmo tempo, sua consolidação
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dependeu da construção de uma estrutura de governança que articula diferentes atores do
território.
Essa organização institucional pode ser observada na Figura 2, que apresenta a rede de
relações entre os agentes envolvidos na gestão da rota.
Figura 2 Rede público-privada das relações da Rota do Vinho de Alicante
Fonte: Marco-Lajara et al., 2023.
A estrutura apresentada na Figura 2 evidencia que a organização da rota não depende
de um único agente, mas de uma rede articulada entre instituições públicas, entidades
vinculadas à vitivinicultura e agentes privados. Essa configuração indica que o enoturismo,
nesse contexto, não se estrutura de forma isolada nas unidades produtivas, mas resulta de um
arranjo institucional mais amplo, no qual a coordenação entre diferentes escalas e setores é
fundamental para a consolidação da atividade (Marco-Lajara et al., 2023).
Além disso, a Figura 2 demonstra que a Rota do Vinho de Alicante ocupa posição central
nessa estrutura organizativa, articulando instituições ligadas ao turismo, à vitivinicultura e à
gestão territorial. A participação de organismos atuantes em diferentes escalas evidencia que o
desenvolvimento do enoturismo na província não depende exclusivamente das iniciativas dos
produtores, mas também da atuação conjunta de diferentes agentes responsáveis pela promoção,
coordenação e fortalecimento da atividade.
Entretanto, a existência dessa rede institucional não implica, necessariamente, a
presença de uma coordenação efetiva entre os agentes. Conforme destacam Climent López e
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Esteban Rodríguez (2025), a formalização de estruturas organizativas não garante, por si só, a
cooperação entre os diferentes atores territoriais, podendo coexistir com limitações na
construção de estratégias coletivas. Esse aspecto torna-se relevante para a análise proposta neste
artigo, na medida em que a forma como essa governança se materializa no território influencia
diretamente as possibilidades de inserção dos agricultores nas atividades turísticas.
No contexto da Comunidade Valenciana, a Rota do Vinho de Alicante integra um
conjunto mais amplo de iniciativas voltadas ao enoturismo, conforme indicado na Figura 3.
Figura 3 Rotas do Vinho da Comunidade Valenciana
Fonte: Federación de enoturismo de la Comunidad Valenciana, 2024.
A distribuição espacial das rotas apresentadas na Figura 3 demonstra que o enoturismo
não constitui uma experiência isolada, mas uma estratégia mais ampla de valorização das áreas
vitivinícolas e de diversificação da atividade turística regional. Além disso, a presença dessas
iniciativas em diferentes porções do território indica que o enoturismo ultrapassa os principais
destinos litorâneos, alcançando áreas interioranas historicamente vinculadas à produção
agrícola.
Nesse contexto, a Rota do Vinho de Alicante insere-se em um conjunto de ações
voltadas à integração entre turismo e vitivinicultura, contribuindo para ampliar a visibilidade
dos territórios produtores e para diversificar as formas de uso econômico do espaço rural. Como
destacam Andreu Guerrero e Verdú Albert (2012), essas iniciativas também podem ser
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compreendidas como estratégias de reequilíbrio territorial diante da histórica concentração da
atividade turística no litoral valenciano.
Do ponto de vista territorial, a rota abrange municípios localizados principalmente nas
comarcas do Alto edio Vinalopó, áreas caracterizadas pela presença da vitivinicultura e por
uma economia diversificada. Entre esses municípios, destacam-se Villena, Pinoso, Monóvar e
Novelda, que constituem o recorte empírico deste estudo. Esses territórios compartilham uma
base produtiva relacionada ao cultivo da uva - especialmente da variedade Monastrell - e à
produção de vinhos reconhecidos pela Denominación de Origen Alicante (D.O.P), ainda que
apresentem diferenças em termos de estrutura econômica e inserção das atividades turísticas
(Andreu Guerrero; Verdú Albert, 2012).
A presença da vitivinicultura nesses municípios não se limita a uma atividade
econômica específica, mas configura um elemento estruturante do território, influenciando a
organização do uso da terra, as relações de trabalho e as dinâmicas econômicas locais. Nesse
sentido, o enoturismo se desenvolve em um contexto no qual a produção agrícola
desempenha papel central, o que condiciona as formas de integração entre agricultura e turismo
(Andreu Guerrero; Verdú Albert, 2012; Marco-Lajara et al., 2023).
A Rota do Vinho de Alicante reúne aproximadamente 80 estabelecimentos, entre
bodegas, restaurantes, alojamentos, museus e serviços turísticos especializados, cuja
distribuição espacial pode ser observada na Figura 4 (Asociación Ruta del Vino de Alicante,
2025).
A distribuição espacial apresentada na Figura 4 revela que a rota não se organiza a partir
de um único núcleo, mas de forma dispersa, articulando municípios com diferentes perfis
econômicos e graus de inserção no turismo. Essa dispersão reforça o caráter territorial da rota,
ao integrar áreas rurais e urbanas em uma mesma proposta.
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Figura 4 Distribuição espacial dos municípios, serviços turísticos e vias de acesso na Rota
do Vinho de Alicante
Fonte: Asociación Ruta del Vino de Alicante, 2025.
Além da distribuição dos estabelecimentos, a Figura 4 evidencia a importância da
infraestrutura de transporte para a organização da rota. A presença de rodovias, conexões
regionais e da linha de alta velocidade (AVE) contribui para a integração entre os municípios
participantes e amplia a acessibilidade aos diferentes serviços turísticos oferecidos. Dessa
forma, a consolidação da rota não depende apenas da existência de recursos vitivinícolas, mas
também das condições de circulação e articulação territorial que possibilitam o deslocamento
dos visitantes entre os diferentes pontos de interesse.
Ao mesmo tempo, observa-se que as atividades diretamente vinculadas à produção
vitivinícola se concentram em áreas rurais, evidenciando que o enoturismo, nesse caso, mantém
relação direta com a base produtiva agrícola. Essa característica constitui um elemento central
para a análise desenvolvida neste artigo, uma vez que permite discutir o papel desempenhado
pelo turismo rural expresso, nesse contexto, pelo enoturismo nas estratégias de reprodução
social dos agricultores. Para compreender essa dinâmica, torna-se necessário recorrer ao debate
sobre multifuncionalidade da agricultura e turismo rural, apresentado na seção seguinte, que
fornece o referencial teórico para a interpretação dos resultados.
Multifuncionalidade da agricultura e turismo rural no contexto europeu
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O conceito de multifuncionalidade da agricultura consolidou-se no debate internacional
a partir da década de 1990, especialmente após a Conferência das Nações Unidas sobre Meio
Ambiente e Desenvolvimento (Rio-92), quando se reconheceu que a agricultura desempenha
funções que extrapolam a produção de alimentos, incorporando dimensões ambientais, sociais
e territoriais (Segrelles Serrano, 2007). A partir desse marco, a atividade agrícola passa a ser
compreendida também como responsável pela conservação da paisagem, pela manutenção das
comunidades rurais e pela produção de bens públicos.
Essa mudança está diretamente relacionada às transformações do modelo agrícola
europeu no pós-Segunda Guerra Mundial. A modernização da agricultura, baseada na
intensificação produtiva, mecanização e uso de insumos químicos, resultou em ganhos
expressivos de produtividade, mas também gerou impactos ambientais e sociais, como
degradação dos recursos naturais, concentração produtiva e êxodo rural (Bonnal et al., 2003).
Diante desses efeitos, tornou-se necessário redefinir o papel da agricultura no desenvolvimento
rural.
Nesse contexto, a multifuncionalidade passou a orientar as reformas da Política Agrícola
Comum (PAC), especialmente a partir da década de 1990. A Reforma MacSharry (1992)
introduziu critérios ambientais e sociais na política agrícola europeia, reduzindo a centralidade
exclusiva da produção e incentivando a diversificação das atividades (Soares, 2000).
Posteriormente, a Agenda 2000 consolidou essa mudança ao estruturar a PAC em dois pilares
- apoio à produção e desenvolvimento rural - ampliando o incentivo a atividades
complementares à agricultura (Massot Martí, 2000).
No entanto, a incorporação da multifuncionalidade não ocorreu de forma homogênea.
Como destacam Massot Martí (2000) e Segrelles Serrano (2020), esse processo esteve
associado também à manutenção de subsídios e à reprodução de desigualdades regionais,
favorecendo áreas mais competitivas e direcionando regiões mediterrâneas à diversificação
econômica, com destaque para o turismo.
No contexto espanhol, essas transformações assumem características específicas.
Conforme Nunes e Segrelles Serrano (2009), a aplicação dessas políticas contribuiu para a
redução da área agrícola, o envelhecimento da população rural e a diminuição da rentabilidade
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em regiões como a província de Alicante. Nesse cenário, atividades não agrícolas passaram a
ser incorporadas como alternativa econômica, entre elas o turismo rural.
Entretanto, a diversificação não implica necessariamente a substituição da agricultura.
Para compreender essa questão, é fundamental distinguir a multifuncionalidade da agricultura
da multifuncionalidade do espaço rural. Conforme argumenta Segrelles Serrano (2013), a
primeira refere-se à ampliação das funções desempenhadas pela atividade agrícola, mantendo
sua base produtiva, enquanto a segunda envolve a variaçãode usos e atividades no espaço rural
que podem ocorrer independentemente da agricultura. Essa distinção é central para analisar o
papel do turismo nos territórios rurais, evitando interpretações que associam automaticamente
diversificação à perda de centralidade produtiva.
A noção de estratégias de reprodução social contribui para aprofundar essa análise ao
deslocar o foco das políticas para as práticas dos próprios agricultores. De acordo com Ploeg
(2008), a continuidade das unidades agrícolas não depende exclusivamente das condições
estruturais impostas pelo mercado ou pelas políticas públicas, mas da capacidade dos
agricultores de mobilizar recursos, reorganizar o trabalho e construir combinações específicas
de atividades. Nesse sentido, as estratégias de reprodução social envolvem decisões relativas à
diversificação produtiva, à inserção em diferentes mercados, ao uso da mão de obra familiar, à
gestão dos recursos disponíveis e à articulação entre atividades agrícolas e não agrícolas.
Essas estratégias não se limitam à geração de renda, mas envolvem também a
manutenção do controle sobre o processo produtivo, a permanência da família no espaço rural
e a adaptação às condições territoriais específicas. A pluralidade de atividades, nesse contexto,
não representa necessariamente um afastamento da agricultura, mas pode constituir uma forma
de viabilizar sua continuidade, ao ampliar as fontes de renda e reduzir a dependência de
mercados instáveis (Rocha; Hespanhol; Vinhaes, 2024).
Essa perspectiva permite compreender a diversificação não como um processo linear ou
imposto externamente, mas como resultado de decisões situadas, o que é fundamental para
analisar como o turismo se articula às unidades produtivas investigadas neste artigo. A adoção
de atividades como o turismo pode representar tanto uma resposta a condições econômicas
adversas quanto uma estratégia ativa de valorização da produção, de ampliação da renda e de
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AO CITAR ESTE TRABALHO, UTILIZAR A SEGUINTE REFERÊNCIA:
VINHAES, Tamires Regina Rocha; VINHAES, Alan da Silva; SEGRELLES SERRANO, José Antonio. Turismo Rural e Multifuncionalidade
da Agricultura: estratégias de reprodução social na Rota do Vinho de Alicante (Espanha). Ensaios de Geografia. Niterói, vol. 13, 26,
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fortalecimento da autonomia dos agricultores. Entretanto, a incorporação do turismo às
unidades produtivas constitui apenas uma das possibilidades de diversificação disponíveis aos
agricultores, sendo resultado de decisões relacionadas às suas estratégias de reprodução social.
É nesse contexto que o turismo rural se consolida como uma das principais formas de
multiplicidade no espaço rural europeu. Sua expansão está associada às transformações das
políticas agrícolas e à valorização dos recursos territoriais, sendo incentivada por programas
como a iniciativa LEADER (Ligação entre Ações de Desenvolvimento da Economia Rural),
que promoveram iniciativas baseadas na articulação entre agricultura, cultura e território
(Cànoves Valiente; Garay Tamajón; Duro Moreno, 2012). Esses programas contribuíram para
a construção de novas formas de uso do espaço rural, nas quais o turismo passa a integrar
estratégias mais amplas de desenvolvimento territorial.
Além disso, a consolidação dessas políticas também favoreceu a valorização de recursos
territoriais por meio de iniciativas que articulam agricultura, patrimônio cultural e turismo.
Nesse contexto, rotas temáticas e itinerários turísticos passaram a desempenhar papel relevante
na diversificação econômica das áreas rurais, contribuindo para fortalecer a identidade
territorial e ampliar as oportunidades de comercialização dos produtos locais (L.S. Rizzo; R.G.
Rizzo; Trabuio, 2024).
Estudos recentes sobre o turismo rural europeu demonstram que as formas de integração
entre agricultura e turismo variam conforme as características produtivas, institucionais e
territoriais de cada região. Esse entendimento reforça que a multifuncionalidade da agricultura
não se manifesta de forma homogênea, evidenciando a importância de análises empíricas
capazes de compreender como essas relações se materializam em contextos específicos (Joshi
et al., 2024).
Do ponto de vista conceitual, o turismo rural pode ser entendido como um conjunto de
atividades desenvolvidas em áreas rurais, vinculadas à cultura local, à paisagem e às práticas
produtivas, envolvendo a interação entre visitantes e comunidades locais (Cànoves Valiente;
Herrera Jiménez; Villarino Pérez, 2005). Essa concepção permanece presente em definições
recentes, que destacam a vinculação do turismo rural às atividades agrícolas, aos modos de vida
locais, ao patrimônio cultural e aos recursos naturais dos territórios rurais (UN Tourism, 2024).
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O turismo rural abrange diferentes modalidades, cuja configuração varia conforme os
recursos territoriais, as atividades econômicas predominantes e as especificidades dos espaços
rurais (Sajn; Finer, 2023). Entre elas, destaca-se o enoturismo, desenvolvido em territórios
vitivinícolas e estruturado a partir da integração entre produção agrícola, patrimônio
vitivinícola e atividades turísticas. No enoturismo, visitas, degustações e a interpretação do
processo produtivo organizam-se em torno da vitivinicultura, evidenciando a relação entre
agricultura e turismo (Andreu Guerrero; Verdú Albert, 2012; Marco-Lajara et al., 2023).
No caso espanhol, especialmente em regiões vitivinícolas, o enoturismo assume
características específicas ao integrar a produção agrícola às práticas de visitação, utilizando
vinhedos, bodegas e processos de vinificação como elementos centrais da experiência turística.
Essa configuração evidencia que a atividade turística não se estrutura de forma autônoma, mas
depende da continuidade da produção agrícola (Andreu Guerrero; Verdú Albert, 2012; Marco-
Lajara et al., 2023).
Dessa forma, a relação entre multifuncionalidade da agricultura e turismo rural não se
manifesta de maneira homogênea, variando conforme as condições territoriais e as estratégias
adotadas pelos agricultores. Em determinados contextos, o turismo pode assumir papel
predominante, contribuindo para a redução da centralidade da atividade agrícola. Em outros,
contudo, configura-se como atividade complementar, articulada à produção e às formas de
organização das unidades produtivas (Segrelles Serrano, 2013; Ploeg, 2008).
Essa distinção é central para a análise proposta neste artigo, uma vez que permite
problematizar interpretações generalizantes sobre a substituição da agricultura por atividades
turísticas. Ao considerar a perspectiva dos agricultores e suas estratégias de reprodução social,
torna-se possível compreender de que forma o turismo é incorporado no interior das unidades
produtivas, quais funções assume e quais são seus limites e potencialidades no contexto
analisado.
O referencial teórico discutido ao longo desta seção fornece os fundamentos conceituais
e analíticos que orientam a interpretação dos resultados apresentados a seguir, permitindo
compreender as relações entre agricultura, turismo e estratégias de reprodução social no
contexto investigado.
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A Rota do Vinho de Alicante: agricultores, estabelecimentos e dinâmicas socioprodutivas
A análise apresentada nesta seção concentra-se nos agricultores inseridos na Rota do
Vinho de Alicante e nas formas pelas quais articulam a produção vitivinícola e o turismo em
suas unidades produtivas. Para compreender esse processo, são analisados os estabelecimentos
que compõem o recorte empírico da pesquisa, bem como a organização do trabalho, as
atividades desenvolvidas e o papel do turismo na dinâmica produtiva dos estabelecimentos
investigados, localizados nos municípios de Villena, Pinoso, Monóvar e Novelda.
Os resultados foram organizados em dois momentos analíticos. O primeiro apresenta o
recorte empírico da pesquisa, descrevendo a distribuição dos estabelecimentos analisados e
aspectos da estrutura enoturística da Rota do Vinho de Alicante. O segundo analisa a
organização das unidades produtivas, as estratégias adotadas pelos agricultores e o papel
desempenhado pelo turismo, buscando compreender se essa atividade se configura como
complemento ou substituição da produção agrícola.
Caracterização dos estabelecimentos e da estrutura enoturística
O recorte territorial analisado compreende dez (10) estabelecimentos vinculados à Rota
do Vinho de Alicante, distribuídos entre os municípios de Villena, Pinoso, Monóvar e Novelda,
conforme apresentado no Quadro 1.
Os dados apresentados no Quadro 1 evidenciam que a distribuição dos estabelecimentos
não ocorre de forma homogênea entre os municípios, com maior concentração em Villena e
presença mais reduzida nos demais. Essa diferença sugere distintos níveis de inserção na
atividade turística, o que pode estar relacionado tanto à estrutura produtiva local quanto ao grau
de organização dos agentes envolvidos.
Além disso, observa-se que os estabelecimentos identificados mantêm nculo direto
com a vitivinicultura, ainda que, em alguns casos, integrem serviços complementares, como
alimentação e hospedagem. Esse dado é relevante, pois indica que, no recorte analisado, o
turismo se estrutura a partir da atividade agrícola, e não de forma independente dela.
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Quadro 1 Estabelecimentos vinculados à Rota do Vinho de Alicante nos municípios
analisados
Município
Estabelecimentos identificados
Villena
Bodega Las Virtudes
Bodega Sierra Salinas
Bodega Finca Collado
Casa Balaguer (Bodega)
Pinoso
Bodegas Volver
Bodega Francisco Gómez
Casa Rodriguillo (Alojamento Rural)
Monóvar
Bodegas Monóvar
Bodega Santa Catalina del Mañán
Novelda
Casa Sicilia (Bodega + Restaurante)
Fonte: Asociación Ruta del Vino de Alicante, 2025. Organização: Autores, 2026.
A identificação desses estabelecimentos no interior da rota permite observar que a oferta
enoturística se organiza a partir de unidades produtivas que mantêm vínculos diretos com a
atividade agrícola, ainda que com diferentes níveis de diversificação. Essa característica indica
que a análise da rota não pode ser dissociada da compreensão das estratégias adotadas pelos
agricultores, uma vez que são essas unidades que sustentam, simultaneamente, a produção e a
oferta turística.
Além da estrutura de empreendimentos, a rota se caracteriza pela oferta de diferentes
experiências enoturísticas, como visitas guiadas às bodegas, degustações de vinhos, percursos
pelos vinhedos e atividades gastronômicas, organizadas tanto em atividades pontuais quanto
em pacotes que combinam diferentes serviços (Asociación Ruta del Vino de Alicante, 2025).
Essa diversidade evidencia que o enoturismo não se restringe a uma única forma de consumo,
articulando diferentes tipos de experiências e ampliando as possibilidades de geração de renda
no espaço rural. Nesse contexto, a oferta turística não substitui a produção agrícola, mas se
estrutura a partir dela, reforçando sua inserção econômica no território.
Embora o foco deste artigo esteja nos agricultores, e não na demanda turística, dados do
Observatorio Turístico de las Rutas del Vino de España indicam a expansão do enoturismo no
país. Segundo o relatório mais recente da ACEVIN, referente ao ano de 2024, as rotas do vinho
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certificadas receberam mais de 3 milhões de visitantes, gerando um impacto econômico
superior a 112 milhões de euros (ACEVIN, 2025).
Esse crescimento reforça a relevância dessas iniciativas no contexto espanhol e
acompanha tendências identificadas por estudos recentes sobre o enoturismo. Martínez-Falcó
et al. (2024) destacam que as rotas do vinho da Comunidade Valenciana vêm ampliando sua
capacidade de promoção territorial e diversificação econômica, enquanto Fuentes-Fernández et
al. (2022) apontam que o enoturismo tem desempenhado papel crescente na valorização dos
recursos produtivos e culturais das regiões vitivinícolas espanholas.
No entanto, para além dos dados agregados, torna-se necessário compreender como essa
expansão se materializa nas unidades produtivas e de que forma os agricultores se inserem nesse
processo, considerando as condições territoriais, organizacionais e produtivas que estruturam a
atividade no contexto analisado.
Agricultura, turismo e estratégias de reprodução social
A compreensão das dinâmicas socioprodutivas associadas à Rota do Vinho de Alicante
exige considerar, de forma integrada, os sujeitos responsáveis pela produção agrícola, pela
organização do trabalho e pela inserção do turismo nas unidades produtivas. Agricultores,
famílias e gestores de estabelecimentos desempenham papel central nesse processo, articulando
a vitivinicultura com atividades turísticas e mobilizando estratégias que envolvem
diversificação da renda, valorização do território e reprodução social no espaço rural.
Com base no debate sobre a multifuncionalidade da agricultura, esta análise busca
compreender se o turismo rural, no contexto estudado, se configura como elemento de
substituição da atividade agrícola ou como estratégia complementar às dinâmicas produtivas.
Para isso, considera-se um conjunto de estabelecimentos inseridos na Rota do Vinho de
Alicante, localizados nos municípios de Villena, Pinoso, Monóvar e Novelda, cujas trajetórias
evidenciam diferentes formas de articulação entre produção vitivinícola, organização familiar
e atividade turística.
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Para sintetizar as principais características produtivas dos estabelecimentos analisados
- incluindo base agrícola, destino da produção e organização do trabalho - apresenta-se o
Quadro 2.
Quadro 2 Estrutura produtiva e organização do trabalho nos estabelecimentos da Rota do
Vinho de Alicante
Município
Estabelecimento
Produção (Base Agrícola e
Destino)
Organização do
Trabalho
Villena
Bodega Las
Virtudes
Viticultura + olival; vinificação
coletiva e comercialização
nacional e internacional
(incluindo Fondillón)
Famílias cooperadas
+ funcionários
permanentes e
temporários
Villena
Bodegas Sierra
Salinas
Viticultura + olival +
amendoeiras; vinificação própria
e comercialização nacional e
internacional
Núcleo familiar +
funcionários
permanentes e
temporários
Villena
Bodega Finca
Collado
Viticultura (vinhedos antigos);
vinificação própria e
comercialização local/regional
Núcleo familiar +
apoio pontual
Villena
Casa Balaguer
Policultura; vinificação própria,
venda direta e exportação e
demais cultivos para
autoconsumo
Núcleo familiar +
apoio pontual
Pinoso
Bodegas Volver
Viticultura; vinificação própria,
exportação e mercado nacional
Família +
funcionários
permanentes
Pinoso
Bodega Francisco
Gómez
Viticultura + olival; produção de
vinho e azeite; comercialização
nacional e internacional
Família +
funcionários
permanentes
Pinoso
Casa Rodriguillo
Viticultura (pequena escala);
venda de uva para
bodegas/cooperativas
Núcleo familiar
Monóvar
Bodegas Monóvar
Viticultura; vinificação própria e
comercialização regional
Família +
funcionários
permanentes e apoio
sazonal
Monóvar
Bodega Santa
Catalina del Mañán
Viticultura; vinificação própria e
comercialização regional
Família +
funcionários
permanentes
Novelda
Casa Sicilia
Viticultura; vinificação própria,
venda direta e comercialização
regional
Família +
funcionários
permanentes
Fonte: Pesquisa de campo. Organização: Autores, 2026.
A análise do Quadro 2 evidencia que, independentemente do tipo de estabelecimento ou
do município considerado, a vitivinicultura constitui o eixo estruturante das unidades
produtivas. Nos estabelecimentos classificados como bodegas, a produção agrícola não apenas
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sustenta a elaboração dos vinhos, mas organiza o conjunto das atividades econômicas, incluindo
sua articulação com o turismo. A uva é majoritariamente destinada à vinificação própria seja
na própria unidade produtiva ou, no caso de estruturas cooperativas, em unidades coletivas ,
não se configurando a venda in natura como atividade predominante.
Observa-se, ainda, que a centralidade da agricultura se expressa na organização do
trabalho e na manutenção dos sistemas produtivos. Em todos os casos analisados, verifica-se a
participação direta das famílias no cultivo das vinhas e no acompanhamento do ciclo agrícola,
ainda que, em estabelecimentos de maior porte, essa atuação se articule à presença de
trabalhadores permanentes e temporários. As informações obtidas em campo também indicam
que os membros das famílias participam de diferentes etapas associadas às atividades turísticas,
incluindo recepção de visitantes, atendimento, comercialização e apresentação dos produtos,
evidenciando a articulação entre trabalho agrícola e turístico no interior das unidades
produtivas. Essa combinação evidencia formas de agricultura familiar adaptadas às exigências
contemporâneas do setor vitivinícola, sem ruptura com a base produtiva.
A diversidade de formas organizacionais observada que inclui cooperativas,
empreendimentos empresariais familiares e projetos de menor escala não representa apenas
variações estruturais, mas expressa diferentes estratégias de inserção econômica e territorial.
No caso da organização cooperativa, a produção agrícola permanece distribuída entre unidades
familiares, enquanto as etapas de transformação e comercialização são centralizadas,
permitindo ganhos de escala e maior inserção em mercados ampliados.
nos empreendimentos empresariais familiares, observa-se maior integração vertical
da produção, com controle direto sobre o cultivo, a vinificação e a comercialização,
frequentemente articulada a circuitos nacionais e internacionais. Nos projetos de menor escala,
por sua vez, a produção tende a ser mais limitada e fortemente vinculada ao trabalho familiar,
evidenciando maior dependência de estratégias complementares de valorização econômica.
Essa configuração se expressa também na forma como o turismo é incorporado às
unidades produtivas. Para evidenciar as atividades turísticas desenvolvidas e seu papel na
composição da renda, apresenta-se o Quadro 3.
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Quadro 3 Atividades turísticas e participação na renda nos estabelecimentos da Rota do
Vinho de Alicante
Município
Estabelecimiento
Atividades Turísticas
Papel do Turismo na
Renda
Villena
Bodega Las Virtudes
Visitas guiadas, degustações, eventos e
venda direta
Complementar (~30%)
Villena
Bodegas Sierra Salinas
Visitas guiadas, degustações e eventos
Complementar (~35%)
Villena
Bodega Finca Collado
Visitas guiadas, degustações e atividades
educativas
Complementar (~25%)
Villena
Casa Balaguer
Visitas guiadas e experiências educativas
Complementar (~40%)
Pinoso
Bodegas Volver
Visitas guiadas, degustações e venda direta
Complementar (~20%)
Pinoso
Bodega Francisco Gómez
Visitas guiadas, degustações e atividades
educativas
Complementar (~25%)
Pinoso
Casa Rodriguillo
Hospedagem e atividades explicativas
Principal (~80%)
Monóvar
Bodegas Monóvar
Visitas guiadas, degustações e eventos
Complementar (~30%)
Monóvar
Bodega Santa Catalina del
Mañán
Visitas guiadas e degustações
Complementar (~30%)
Novelda
Casa Sicilia
Visitas guiadas, degustações e restaurante
Complementar (~35%)
Fonte: Pesquisa de campo. Organização: Autores, 2026.
A análise do Quadro 3 indica que, na maior parte dos casos, o turismo assume caráter
complementar, contribuindo para a diversificação das fontes de renda e para o fortalecimento
da venda direta, sem substituir a atividade agrícola. Mesmo nos estabelecimentos com maior
estrutura de visitação, a renda proveniente do turismo permanece secundária em relação à
produção vitivinícola. A principal exceção observada refere-se a empreendimentos voltados ao
alojamento rural, nos quais o turismo assume papel predominante, ainda que mantenha vínculo
com a base agrícola.
Essa constatação apresenta convergências com resultados observados em outras regiões
vitivinícolas da Comunidade Valenciana. Ao compararem as Rotas do Vinho de Alicante e
Utiel-Requena, Martínez-Falcó et al. (2024) destacam que o enoturismo tem sido utilizado
como estratégia de diversificação econômica e valorização territorial, permanecendo
fortemente vinculado à atividade vitivinícola. Localizada no interior da província de Valência,
a região de Utiel-Requena constitui uma das principais áreas produtoras de vinho da
Comunidade Valenciana e apresenta trajetória semelhante à observada neste estudo, na medida
em que o turismo se desenvolve a partir da produção agrícola existente, e não em substituição
a ela. Os resultados obtidos nos municípios de Villena, Pinoso, Monóvar e Novelda reforçam
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essa interpretação, evidenciando que a agricultura continua desempenhando papel central na
organização das unidades produtivas analisadas.
A relação entre produção e turismo pode ser observada também na organização dos
espaços e das práticas de visitação. A Figura 5 reúne registros fotográficos obtidos durante o
trabalho de campo nos estabelecimentos analisados, apresentando exemplos da produção
agrícola, da infraestrutura de vinificação e das práticas de visitação, organizados em dois
conjuntos: (a) imagens relacionadas à base produtiva e (b) imagens referentes às atividades
turísticas.
As imagens A e C apresentam áreas de cultivo de uvas e oliveiras na propriedade rural
associada à Bodega Francisco Gómez, enquanto a imagem B registra os vinhedos da Bodegas
Sierra Salinas. As imagens D, E e F correspondem a diferentes espaços da Bodega Las Virtudes,
incluindo instalações de vinificação, áreas produtivas e estruturas destinadas à recepção de
visitantes. Esse conjunto evidencia a base produtiva que sustenta a atividade vitivinícola nos
estabelecimentos analisados.
As imagens G e I apresentam diferentes espaços da Casa Sicilia destinados à recepção
de visitantes, atividades gastronômicas, comercialização e consumo de produtos. A imagem H
evidencia a organização da visitação turística de base familiar na Bodega Finca Collado. a
imagem J registra os vinhedos da Bodega Santa Catalina del Mañán, a imagem K mostra os
espaços de degustação de vinhos e produtos agroalimentares locais da Bodegas Francisco
Gómez, e a imagem L apresenta a área de convivência e lazer da Casa Rodriguillo. Em seu
conjunto, as imagens mostram como as atividades turísticas são incorporadas aos
empreendimentos vitivinícolas, articulando recepção, lazer, degustação e comercialização a
partir da estrutura produtiva existente.
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Figura 5 Produção agrícola, vinificação e práticas enoturísticas nos estabelecimentos da
Rota do Vinho de Alicante
A) PRODUÇÃO AGRÍCOLA E INFRAESTRUTURA DE VINIFICAÇÃO
B) ATIVIDADES TURÍSTICAS E RECEPÇÃO DE VISITANTES
Fonte: Pesquisa de campo. Organização: Autores, 2026.
A relação entre os conjuntos (a) e (b) da Figura 5 evidencia que as atividades turísticas
se estruturam a partir dos próprios espaços produtivos, envolvendo visitas às vinhas, às
instalações de vinificação e aos locais de armazenamento, além de degustações e venda direta
de produtos. Essa organização demonstra que o turismo não se desenvolve de forma dissociada
da agricultura, mas depende diretamente da existência e do funcionamento da atividade
vitivinícola, reforçando a interdependência entre produção e uso turístico do território.
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A integração entre agricultura e turismo não se limita à coexistência de atividades no
mesmo espaço, mas envolve uma reorganização das práticas produtivas e das formas de
apresentação do trabalho agrícola. A visitação transforma o processo produtivo em elemento
de interpretação e comunicação, no qual etapas como o cultivo da uva, a vinificação e o
armazenamento passam a integrar a experiência turística. Nesse sentido, o turismo atua como
mecanismo de mediação entre produção e consumo, permitindo ao visitante acessar não apenas
o produto final, mas o conjunto de práticas e condições territoriais que o sustentam.
As evidências observadas em campo também dialogam com estudos realizados em
outras regiões vitivinícolas espanholas. Ao analisarem a Denominación de Origen Ribera del
Duero, localizada entre as comunidades autônomas de Castela e Leão, Fuentes-Fernández et al.
(2022) ressaltam que o enoturismo se estrutura a partir da integração entre vinhedos, processos
de vinificação, gastronomia e identidade territorial. Nessa perspectiva, a experiência turística é
construída por meio do contato com os espaços de produção e com os elementos culturais
associados ao vinho. Situação semelhante foi identificada nos estabelecimentos analisados na
Rota do Vinho de Alicante, em que as visitas, degustações e demais atividades turísticas
permanecem diretamente vinculadas aos vinhedos, às adegas e às práticas produtivas
desenvolvidas pelos agricultores.
Nos estabelecimentos analisados, as atividades turísticas concentram-se principalmente
em visitas guiadas, degustações e comercialização direta de vinhos, podendo incluir, em alguns
casos, eventos, experiências gastronômicas e hospedagem. A organização dessas atividades
varia conforme o porte e o modelo de gestão, mas apresenta um elemento comum: a necessidade
de conciliar a recepção de visitantes com as exigências do calendário agrícola.
Essa conciliação constitui, inclusive, um dos principais desafios apontados pelos
entrevistados. A limitação de tempo, a necessidade de adaptação das estruturas produtivas e a
ausência de experiência prévia com atividades turísticas são fatores recorrentes, especialmente
em empreendimentos de base familiar. Ainda assim, observa-se que o turismo é incorporado de
forma gradual, ajustando-se às condições específicas de cada estabelecimento.
A inserção dos estabelecimentos na Rota do Vinho de Alicante também constitui um
elemento relevante para compreender a articulação entre produção agrícola e turismo. O Quadro
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4 apresenta informações relativas ao ingresso na rota, às formas de adesão e à participação em
espaços de articulação.
Quadro 4 Inserção dos estabelecimentos na Rota do Vinho de Alicante e formas de
articulação
Município
Estabelecimento
Ano de Ingresso
na Rota
Forma de Adesão
Participação em
Articulações
Villena
Bodega Las Virtudes
Anos 2000
Articulação entre produtores
Esporádica
Villena
Bodegas Sierra Salinas
Anos 2010
Articulação entre produtores
/ estímulo institucional
Ocasional
Villena
Bodega Finca Collado
Anos 2010
Iniciativa própria
Pontual
Villena
Casa Balaguer
Anos 2010
Iniciativa própria
Pontual
Pinoso
Bodegas Volver
2011
Iniciativa própria
Reuniões pontuais
Pinoso
Bodega Francisco Gómez
2010
Iniciativa própria
Reuniões esporádicas
Pinoso
Casa Rodriguillo
2020
Convite / estímulo
institucional
Pontual
Monóvar
Bodegas Monóvar
2017
Articulação entre produtores
Ocasional
Monóvar
Bodega Santa Catalina
del Mañán
2012
Articulação entre produtores
Pontual
Novelda
Casa Sicilia
2015
Iniciativa própria
Esporádica
Fonte: Pesquisa de campo. Organização: Autores, 2026.
A partir do Quadro 4, observa-se que a adesão à rota ocorre por diferentes meios,
incluindo iniciativas próprias dos produtores, articulações locais e estímulos institucionais.
Apesar dessa diversidade, a participação em espaços coletivos de governança é descrita como
limitada, ocorrendo de forma esporádica e pouco sistematizada. Essa característica indica que,
embora a rota funcione como instrumento de promoção e visibilidade, sua capacidade de
coordenação efetiva entre os estabelecimentos ainda apresenta restrições.
A fragilidade das articulações observadas indica que a rota opera mais como um
instrumento de promoção do que como um espaço efetivo de coordenação territorial. A ausência
de mecanismos contínuos de interação entre os estabelecimentos limita a construção de
estratégias coletivas e reduz o potencial da rota enquanto estrutura de governança. Essa
configuração reforça a centralidade das iniciativas individuais dos produtores, que permanecem
como principais responsáveis pela organização das atividades turísticas e pela inserção nos
mercados.
Os resultados observados podem ser relacionados às discussões recentes sobre
governança das rotas do vinho espanholas. Climent López e Esteban Rodríguez (2025)
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AO CITAR ESTE TRABALHO, UTILIZAR A SEGUINTE REFERÊNCIA:
VINHAES, Tamires Regina Rocha; VINHAES, Alan da Silva; SEGRELLES SERRANO, José Antonio. Turismo Rural e Multifuncionalidade
da Agricultura: estratégias de reprodução social na Rota do Vinho de Alicante (Espanha). Ensaios de Geografia. Niterói, vol. 13, 26,
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identificaram que as rotas que reúnem maior diversidade de participantes incluindo bodegas,
restaurantes, meios de hospedagem, instituições públicas e entidades culturais tendem a
valorizar um conjunto mais amplo de recursos territoriais, ultrapassando a promoção exclusiva
do vinho. Os autores destacam que a própria Rota do Vinho de Alicante apresenta
características desse modelo, ao articular diferentes agentes e elementos patrimoniais
vinculados ao território. Entretanto, os resultados desta pesquisa indicam que a existência dessa
diversidade de participantes não garante, necessariamente, elevados níveis de articulação entre
os estabelecimentos, evidenciando a necessidade de distinguir a composição da rede de sua
efetiva capacidade de coordenação territorial.
Embora os estabelecimentos analisados compartilhem a centralidade da vitivinicultura,
observam-se diferenças relevantes na forma como agricultura e turismo se articulam entre os
municípios. Em Villena, destaca-se a coexistência de diferentes modelos produtivos em um
mesmo território, permitindo maior diversidade de estratégias. nos municípios de Pinoso,
Monóvar e Novelda, essa diversidade manifesta-se de forma mais distribuída, com
estabelecimentos que desempenham funções complementares no interior da rota. Essa
diferenciação evidencia que a multifuncionalidade não se expressa de maneira homogênea, mas
assume configurações específicas conforme a estrutura produtiva e a organização territorial.
Do ponto de vista econômico, o turismo contribui principalmente para a diversificação
das fontes de renda e para o fortalecimento da venda direta, permitindo maior proximidade entre
produtores e consumidores. Em termos ambientais e territoriais, seus impactos são considerados
limitados, uma vez que as atividades se desenvolvem a partir das estruturas existentes e
mediante controle do fluxo de visitantes.
De forma geral, a análise evidencia que o turismo rural, no contexto da Rota do Vinho
de Alicante, não substitui a atividade agrícola, mas se estrutura a partir dela. A vitivinicultura
permanece como eixo organizador das unidades produtivas, enquanto o turismo atua como
estratégia complementar de valorização econômica e territorial. Os resultados indicam, assim,
que a multifuncionalidade da agricultura se manifesta predominantemente como ampliação de
funções, sem implicar a perda de centralidade da atividade agrícola.
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Considerações Finais
A análise desenvolvida evidencia que, no contexto da Rota do Vinho de Alicante, o
turismo rural não se configura como um processo de substituição da atividade agrícola, mas
como uma estratégia articulada à sua manutenção. A vitivinicultura permanece como eixo
estruturante das unidades produtivas analisadas, organizando o trabalho, orientando o uso do
território e sustentando a base econômica dos estabelecimentos, enquanto o turismo se insere
de forma complementar, associado à valorização da produção e à diversificação das fontes de
renda.
Esse resultado permite problematizar leituras recorrentes que associam a expansão do
turismo à perda de centralidade da agricultura no espaço rural. No caso analisado, o turismo
não se autonomiza em relação à produção nem redefine o espaço rural como espaço
predominantemente voltado ao consumo. Ao contrário, sua existência depende diretamente da
continuidade da atividade vitivinícola, evidenciando uma relação de interdependência na qual
o uso turístico do território se apoia nas práticas produtivas que lhe dão materialidade.
A inserção do turismo nas unidades produtivas deve ser compreendida, nesse sentido,
como parte das estratégias de reprodução social dos agricultores. Trata-se de um conjunto de
decisões situadas, por meio das quais os produtores articulam diferentes usos do espaço,
reorganizam o trabalho familiar e mobilizam recursos com o objetivo de garantir a continuidade
da produção e a permanência no território. O turismo, nesse contexto, não representa um
deslocamento da base produtiva para o setor de serviços, mas uma ampliação das formas de
valorização econômica e simbólica da atividade agrícola, ao integrar produção, circulação e
consumo em um mesmo arranjo territorial.
A diversidade de formas organizacionais identificadas reforça que essas estratégias não
se manifestam de maneira homogênea. No município de Villena, a coexistência de diferentes
modelos produtivos evidencia maior complexidade nas formas de articulação entre agricultura
e turismo, enquanto nos municípios de Pinoso, Monóvar e Novelda essa relação assume caráter
mais distribuído, com estabelecimentos desempenhando funções complementares no interior
da rota. Essa diferenciação indica que a multifuncionalidade da agricultura se materializa de
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forma desigual, condicionada pelas características territoriais, pela estrutura produtiva e pelas
estratégias adotadas pelos agricultores.
No que se refere à organização da rota, observa-se uma dissociação entre a existência
de uma estrutura formal de governança e sua efetiva capacidade de coordenação territorial.
Embora a Rota do Vinho de Alicante funcione como instrumento de promoção e visibilidade,
a fragilidade das articulações e a baixa participação em espaços coletivos limitam a construção
de estratégias compartilhadas. Esse aspecto evidencia que a dinâmica do enoturismo, no
contexto analisado, permanece fortemente relacionado às iniciativas individuais dos produtores,
o que reduz o potencial da rota enquanto instância de organização territorial mais integrada.
Esses elementos permitem avançar na discussão sobre a multifuncionalidade da
agricultura, ao evidenciar que sua materialização não pode ser compreendida como um processo
linear de transição para atividades não agrícolas. No caso analisado, a multifuncionalidade se
expressa como ampliação das funções desempenhadas pela agricultura, sem que isso implique
sua perda de centralidade. O turismo, nesse sentido, não substitui a produção, mas se insere
como uma de suas formas de valorização, reforçando sua permanência no território.
Dessa forma, os resultados indicam que a relação entre agricultura e turismo deve ser
analisada a partir das práticas concretas desenvolvidas no interior das unidades produtivas e das
formas específicas de uso do território, evitando generalizações que desconsideram a
diversidade de configurações existentes no espaço rural. Ao evidenciar a centralidade da
agricultura mesmo em contextos de expansão do enoturismo, o estudo contribui para qualificar
o debate sobre multifuncionalidade, destacando a importância de considerar as estratégias dos
agricultores como elemento central na análise.
Ademais, evidencia-se a importância de avançar em análises que considerem contextos
nos quais o turismo assume maior centralidade econômica, como em determinadas regiões
brasileiras, nas quais a atividade agrícola tende a ocupar posição secundária. A incorporação
dessa perspectiva permite tensionar os resultados aqui apresentados e ampliar a compreensão
sobre os diferentes sentidos assumidos pela multifuncionalidade da agricultura no espaço rural
contemporâneo.
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Por fim, os resultados obtidos evidenciam a importância de considerar as
especificidades territoriais na análise das relações entre agricultura e turismo rural. As
conclusões apresentadas refletem uma realidade marcada pela forte presença da vitivinicultura
e pela inserção dos estabelecimentos na Rota do Vinho de Alicante, não esgotando a diversidade
de configurações existentes em outros contextos rurais.
Nesse sentido, pesquisas futuras poderão ampliar a investigação para outras rotas do
vinho e diferentes territórios, bem como aprofundar a análise das diferenças existentes entre
municípios, da organização do trabalho familiar no interior das unidades produtivas e do papel
das políticas públicas na organização das atividades enoturísticas. Particularmente, aspectos
relacionados à distribuição das atividades agrícolas e turísticas entre diferentes gerações e
membros das famílias constituem temas relevantes para compreender, de forma mais
aprofundada, as estratégias de reprodução social no espaço rural.
Agradecimentos
Agradeço à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) pelo
apoio à pesquisa, especialmente por meio da Bolsa Estágio de Pesquisa no Exterior (BEPE),
que viabilizou a realização do estágio de pesquisa no exterior e o desenvolvimento do trabalho
de campo.
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