Ensaios de Geografia
Essays of Geography | POSGEO-UFF
AO CITAR ESTE TRABALHO, UTILIZAR A SEGUINTE REFERÊNCIA:
SANTOS, Arthur Pereira. Geo-grafias do Sub-comum e Constelações Afetivas nos Cinemas Negros de Gabriel Martins. Ensaios de Geografia.
Niterói, vol. 13, nº 26, e132614, 2026.
Submissão em: 21/05/2026. Aceito em: 24/08/2026.
ISSN: 2316-8544
Este trabalho está licenciado com uma licença Creative Commons
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SEÇÃO ARTIGOS
Geo-grafias do Subcomum e Constelações Afetivas nos Cinemas Negros de Gabriel
Martins
Geo-graphies of The Undercommons and Affective Constellations in The Black Cinemas
of Gabriel Martins
Geo-grafías del Subcomún y Constelaciones Afectivas en Los Cines Negros de Gabriel
Martins
DOI: https://doi.org/10.22409/8g35c289
Arthur Pereira Santos
1
Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP),
São Paulo, Brasil
e-mail: arthurgeouff@yahoo.com.br
Resumo
Este artigo analisa como os filmes Nada (2017) e Marte Um (2022), de Gabriel Martins, produzem geo-grafias
negras do subcomum e constelações afetivas por meio da centralidade de crianças e jovens negros. Objetiva-se
compreender como a recusa de Bia, em Nada, e as trajetórias da família Martins, com ênfase em Deivinho e
Eunice, em Marte Um, reconfiguram espacialidades, temporalidades e expectativas sociais relacionadas à
juventude negra. Adota-se uma abordagem qualitativa de análise fílmica, articulando a descrição formal de
enquadramentos, montagem, duração, som e gestos; o mapeamento de lugares, deslocamentos e relações afetivas;
e a interpretação das cenas pelas categorias de subcomum, afro-fabulação e geo-grafias negras. Os resultados
indicam que, em Nada, a recusa suspende a temporalidade produtivista da escola e da família, convertendo o “não
fazer” em abertura para outras formas de existência. Em Marte Um, o sonho cósmico de Deivinho transforma o
quintal em laboratório geográfico de experimentações. Conclui-se que os filmes produzem modos de pensar e
habitar o espaço que deslocam roteiros sociais racializados, contribuindo para os estudos geográficos do cinema e
para uma educação geográfica antirracista.
Palavras-chave
Geo-grafias; Cinema; Negro; Subcomum; Afro-fabulação.
1
Licenciatura e Mestrado em Geografia pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Doutor em Planejamento
Urbano e Regional e Geografia (IPPUR-UFRJ/Universidade do Minho) e pesquisador de pós-doutorado na
FE/Unicamp, com atuação nas interfaces entre Geografia Humana, cinemas negros e educação antirracista.
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SANTOS, Arthur Pereira. Geo-grafias do Sub-comum e Constelações Afetivas nos Cinemas Negros de Gabriel Martins. Ensaios de Geografia.
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Abstract
This article examines how Gabriel Martins’s films Nothing (2017) and Mars One (2022) create Black geo-graphies
of the undercommons and affective constellations through the centrality of Black children and young people. It
seeks to understand how Bia’s refusal in Nothing and the trajectories of the Martins family, particularly Deivinho
and Eunice, in Mars One reconfigure spatialities, temporalities, and social expectations surrounding Black youth.
The study adopts a qualitative approach to film analysis, combining formal description of framing, editing,
duration, sound, and gesture; mapping of places, movements, and affective relations; and interpretation of scenes
through the concepts of the undercommons, afro-fabulation, and Black geo-graphies. The findings show that, in
Nothing), refusal suspends the productivist temporality of school and family life, turning “doing nothing” into an
opening toward other modes of existence. In Mars One), Deivinho’s cosmic dream transforms the backyard into
a geographical laboratory for experimentation. It is concluded that the films produce ways of thinking about and
inhabiting space that challenge racialized social scripts, contributing to geographical studies of cinema and to anti-
racist geographical education.
Keywords
Geo-graphies; Cinema; Black; Undercommons; Afro-fabulation.
Resumen
Este artículo analiza cómo las películas Nada (2017) y Marte Um (2022), de Gabriel Martins, producen geo-grafías
negras del subcomún y constelaciones afectivas a través del protagonismo de niñas, niños y jóvenes negros. Su
objetivo es comprender cómo la negativa de Bia, en Nada, y las trayectorias de la familia Martins, con énfasis en
Deivinho y Eunice, en Marte Um, reconfiguran espacialidades, temporalidades y expectativas sociales vinculadas
a la juventud negra. Se adopta un enfoque cualitativo de análisis fílmico que articula la descripción formal de
encuadres, montaje, duración, sonido y gestos; el mapeo de lugares, desplazamientos y relaciones afectivas; y la
interpretación de escenas mediante las categorías de subcomún, afro-fabulación y geo-grafías negras. Los
resultados muestran que, en Nada, la negativa suspende la temporalidad productivista de la escuela y de la familia,
convirtiendo el “no hacer” en una apertura hacia otras formas de existencia. En Marte Um, el sueño cósmico de
Deivinho transforma el patio trasero en un laboratorio geográfico de experimentación. Se concluye que las
películas producen formas de pensar y habitar el espacio que desplazan guiones sociales racializados,
contribuyendo a los estudios geográficos del cine y a una educación geográfica antirracista.
Palabras clave
Geo-grafías; Cine; Negro; Subcomún; Afro-fabulación.
Introdução
O cinema negro brasileiro contemporâneo não se limita a ampliar a presença de pessoas
negras nas telas: ele disputa as formas pelas quais corpos, lugares, tempos e horizontes de vida
negros podem aparecer. Nos filmes de Gabriel Martins, o cotidiano periférico de Contagem e
da Região Metropolitana de Belo Horizonte deixa de funcionar como cenário explicativo e
participa da constituição dos gestos, dos conflitos e dos desejos das personagens. Nada (2017)
e Marte Um (2022), por exemplo, são abordados como operações estético-geográficas: por
meio do enquadramento, da duração dos planos, da montagem, do som e da atuação, os filmes
elaboram modos de sentir e pensar o espaço que não se ajustam aos regimes de visibilidade
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historicamente organizados pelo estereótipo racial e pelo confinamento socioespacial das
narrativas hegemônicas.
A centralidade dessa discussão responde a problemas históricos e epistemológicos da
própria Geografia, de que as relações raciais não estiveram simplesmente ausentes do campo
disciplinar, ainda que tenham sido tratados de modo disperso e sub-representado. Cirqueira e
Santos (2025) demonstram que o pensamento geográfico brasileiro participou da interpretação
e da produção de diferenças e hierarquias raciais, articulando raça, meio e nação e oferecendo
sustentação a projetos de branqueamento e à mestiçagem como imagem de harmonia nacional.
O que permaneceu sub-representado, portanto, foi o tratamento crítico do racismo como
dimensão constitutiva do espaço. Essa limitação aparece no levantamento de Cirqueira e Corrêa
(2014), que identificou somente 54 teses e dissertações sobre a questão étnico-racial nos
programas brasileiros de pós-graduação em Geografia até 2012. Ratts (2010), por sua vez,
mostra que o mito da democracia racial opera como ideologia geográfica ao ocultar a
segregação espacial e a constituição de lugares étnicos em um mundo racializado. Em diálogo
com Gonzalez e Hasenbalg (1982), compreendemos que a naturalização de um “lugar de negro”
também ordena o espaço, delimitando possibilidades de circulação, reconhecimento e
construção de horizontes existenciais e imaginários sociais.
A consolidação das Geografias Negras desloca esse quadro ao reposicionar sujeitos,
bibliografias, métodos e experiências negras na produção do conhecimento espacial. Não se
trata de acrescentar um novo objeto a uma Geografia supostamente neutra, mas de interrogar
como o racismo e as lutas antirracistas grafam territórios, paisagens, corpos e práticas
cotidianas. No campo do ensino, Santos (2011) mostra que a Lei n.º 10.639/2003, que trata da
obrigatoriedade do ensino de história e cultura afro-brasileira e africana em todas as instituições
educacionais do país, exige não apenas inserir conteúdos, mas rever práticas, materiais,
métodos pedagógicos e relações de poder na construção dos currículos de Geografia.
Atualizando tal perspectiva, Santos (2024) recoloca um ponto decisivo para o ensino de
Geografia ao lembrar que, após duas décadas da Lei n.º 10.639/2003, persistem desafios de
combate ao eurocentrismo e de efetivação de práticas comprometidas com o antirracismo. Fato
que exige engajamento de conteúdo, metodologias e imaginação disciplinar. Essa perspectiva
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permite tomar o cinema negro como produção de pensamento espacial e como interlocutor de
uma educação geográfica antirracista.
É nesse encontro que se localiza a noção de geo-grafias negras. Em diálogo com
Guimarães (2020), a hifenização recoloca a grafia no centro da palavra e permite reconhecer
marcas espaciais produzidas em diferentes linguagens. Neste artigo, geo-grafias negras não
designam apenas os espaços ocupados por personagens negras, mas as inscrições materiais,
sensíveis e políticas pelas quais vidas negras escrevem, interpretam e transformam o espaço
desde de dentro. O cinema é compreendido, desse modo, como uma escrita espacial imagética
composta por corpos, gestos, objetos, vozes, silêncios, deslocamentos, enquadramentos e
durações nomeadas, desse modo, de geo-grafias do subcomum (Harney; Moten, 2013).
Associada a essa escolha conceitual, a expressão cartografias afetivas da negritude
nomeia os arranjos de vínculos, tensões, memórias espaciais e infraestruturas cotidianas por
meio dos quais as personagens compõem lugares de cuidado, conflito e re-invenção. O
qualificativo “afetivas”, em vez de remeter a emoções privadas, designa as variações de força
e de capacidade de agir produzidas nos encontros entre corpos, imagens, sons e relações
racializadas de poder; no cinema, tais intensidades podem desorganizar o senso comum que
fixa vidas negras em lugares previamente definidos (Keeling, 2007), sem que a potência dos
afetos seja considerada nos modos negros de ser e estar no mundo (Palmer, 2017).
Em vez de pressupor uma oposição exterior e simétrica a uma cartografia dominante, a
expressão acompanha composições situadas: o que um corpo negro pode sentir ao percorrer
caminhos pré-fabricados e subvertê-los; com quem pode contar no âmbito comunitário; quais
objetos sustentam um sonho; e como relação cotidianas vistas nas lentes geo-gráficas do cinema
negro alteram o sentido de uma casa, de uma escola, de uma rua ou de paisagens existenciais
diversas. Negritude, nesse contexto, não é uma identidade homogênea ou essencial, mas um
campo relacional de categorias, experiências, memórias e criações atravessado pela diáspora,
pela racialização e pelas lutas por existência afro-brasileiras e afro-diaspóricas. Essa
compreensão aproxima a negritude da abertura radical da existência e do pensamento negros
formulada por Harney e Moten (2013), das geo-grafias produzidas por trajetórias e experiências
negras discutidas por Guimarães (2020).
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O objetivo geral desse artigo é analisar como as obras produzem geo-grafias negras do
subcomuns e constelações afetivas por meio da forma fílmica e das experiências de crianças e
jovens negros. De modo específico, busca-se: compreender em que medida as trajetórias de
Bia, de Deivinho e Eunice permitem construir uma leitura geográfica dos filmes atenta aos
planos, sons, ritmos, gestos e espaços, e delinear as contribuições dessas obras para uma
educação geográfica antirracista.
Nas próximas seções apresentaremos o procedimento metodológico e as categorias
analíticas, explicitando o breve estado da arte entre geografia e cinema, examinaremos com e a
partir de lentes geográficas cada filme e, por fim, retomaremos os resultados, as contribuições
e os limites do trabalho.
Metodologia
Este ensaio adota uma abordagem geográfica crítica, qualitativa e interpretativa,
baseada na análise comparativa de Nada (2017) e Marte Um (2022), obras dirigidas por Gabriel
Martins. A seleção considerou três aspectos: a centralidade de crianças e jovens negros; a
recorrência de espaços cotidianos, como casa, escola, rua e trabalho; e a presença de conflitos
entre expectativas sociais, relações familiares e projetos de vida virados ao avesso da linguagem
e da diferença espaciais. Os filmes constituem as fontes primárias da pesquisa, enquanto a
produção bibliográfica oferece o lastro teórico-metodológico para situar a análise no encontro
entre Geografia, cinema, relações étnico-raciais e educação.
A aproximação entre Geografia e cinema constitui um campo consolidado, embora
relativamente recente na produção acadêmica brasileira. Os balanços realizados por Moreira
(2015) e Luz (2025) identificam o predomínio de pesquisas sobre representações
cinematográficas, ensino de Geografia, indústria audiovisual e geopolítica. O levantamento de
Luz (2025), realizado em cem periódicos brasileiros da área, localizou 166 artigos publicados
entre 1994 e 2022, dos quais 98 foram classificados no eixo “Geografia, Humanismo e
Representações Cinemáticas” e 49 no campo do ensino. Os resultados demonstram o
crescimento das pesquisas sobre cinema, paisagem, cidade e lugar, mas também revelam que
relações étnico-raciais, geografias negras e cinemas negros ainda não se constituíram como uma
linha suficientemente demarcada nesse campo.
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Um dos fundamentos dessa interlocução encontra-se em Barbosa (2000), para quem as
práticas estéticas não são meros reflexos do espaço social, mas formas de interrogação e
reconhecimento do mundo. O cinema não se limita a mostrar paisagens previamente existentes,
ele seleciona, enquadra, hierarquiza e relaciona corpos, lugares e acontecimentos, participando
da produção dos imaginários por meio dos quais determinados sujeitos e territórios se tornam
(in)visíveis. Essa perspectiva foi aprofundada pela noção de “geografias de cinema”, formulada
por Oliveira Junior (2005), que desloca a análise da identificação de conteúdos geográficos para
a investigação das geografias produzidas no encontro entre imagens, sons, memórias e
universos culturais distintos. Os lugares filmados são retirados de sua continuidade territorial e
recompostos pela montagem, constituindo uma geo-grafia própria da obra. Queiroz Filho
(2007), por sua vez, permite compreender o espaço fílmico como território de alusões,
contaminações e memórias, produzido por cenários, enquadramentos, sonoridades,
deslocamentos, extracampo e experiências do espectador.
No âmbito educacional, Oliveira Junior e Girardi (2020) e Oliveira Junior, Nunes e
Girardi (2021) questionam a redução do cinema à condição de recurso ilustrativo. Em vez de
confirmar um conteúdo geográfico previamente estabelecido, a imagem cinematográfica pode
deslocar as maneiras habituais de perceber, grafar e ensinar o espaço. Essa inflexão é central
para uma educação geográfica antirracista; não se trata apenas de selecionar filmes com
personagens negras, mas de examinar como as formas audiovisuais participam da constituição
de regimes de visibilidade, repertórios espaciais e modos de imaginar a vida negra.
Apesar desse adensamento, permanece uma fratura racial no estado da arte. Raça
aparece frequentemente subordinada às discussões sobre identidade, periferia, favela, gênero
ou outras representações estereotipadas, sem que a autoria negra, o regime racial do olhar e as
epistemologias espaciais afro-diaspóricas se tornem dimensões estruturantes da análise. Entre
as aproximações mais diretas estão o estudo de Correa, Souza e Ramos (2019) sobre os
territórios do “cinema de cozinha”; a leitura geográfica fílmica negra realizada por Miguel
(2022); e a análise de Rocha e Campos (2023) sobre gênero, raça e representação da mulher
negra. Esses trabalhos demonstram a emergência de uma agenda comum, mas também
confirmam que a articulação entre Geografia e cinemas negros permanece pouco explorada.
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As geo-grafias negras oferecem ferramentas para enfrentar essa lacuna. Empregamos
“geo-grafias negras” a partir da formulação de Guimarães (2020, p. 302–304). A autora propõe
uma geo-grafia elaborada “desde dentro”, na qual sentir, pensar e ser negro participam da
própria construção metodológica da espacialidade e da linguagem geográficas. Nessa
perspectiva, racialidade, corpo e espaço não são temas acrescentados posteriormente à análise,
eles constituem as condições pelas quais lugares, territórios, mobilidades e regimes de
visibilidade são produzidos. O presente ensaio, portanto, não toma os cinemas negros apenas
como um conjunto de filmes que representam pessoas negras ou denunciam o racismo. Interessa
compreender como as obras reorganizam relações entre corpo, lugar, memória e duração; como
constroem casas, quintais, escolas, ruas e espaços íntimos; e como produzem modos de presença
que recusam ou excedem os lugares historicamente atribuídos à população negra.
A análise fílmica geográfica concentrou-se nas operações audiovisuais e nas
espacialidades por elas produzidas. O procedimento foi realizado em quatro movimentos
articulados e ancorados nas referências supracitadas. Primeiro, procedeu-se à observação
integral das obras, com o registro de sua organização narrativa e de seus usos do espaço e do
tempo. Em seguida, os filmes foram segmentados conforme mudanças de lugar, duração, ação
ou ponto de vista. No terceiro movimento, foram selecionadas sequências centradas, sobretudo,
em Bia e Deivinho e Eunice. A seleção privilegiou situações nas quais se tornam perceptíveis
conflitos entre racialização na família, escola, trabalho, mobilidade e projetos porvir. Por fim,
as sequências foram descritas e interpretadas a partir da articulação entre categorias e conceitos
com enquadramentos, montagem, iluminação, sonoridades, gestos, objetos, trajetórias e
durações expressas nas imagens-movimento (Deleuze, 1985).
A descrição formal não foi separada da interpretação conceitual. Esse procedimento
procura evitar que as cenas sejam empregadas apenas como confirmação de categorias
previamente escolhidas e projeção externa de temas caros à geografia.
A interpretação cruzou três eixos. O eixo geográfico-estético examinou como
enquadramento, montagem, duração e som constroem relações espaciais e temporais, em
diálogo com a concepção da imagem como pensamento em movimento e tempo (Deleuze,
1985, 2007). O que pressupõe a inter-relação entre elementos geográficos e estéticos com os
quais as próprias ideias de movimento e tempo são alteradas na análise imanente das obras e no
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que nomeamos como arco estético-geográfico dos personagens, baseando-se na ideia de
Barbosa (2000) de mapear o ser e estar no mundo com e a partir do cinema. O eixo espacial
identificou lugares, fronteiras, escalas, trajetórias, ritmos e relações entre corporeidades, objetos
espaciais e ambientes narrativos. O eixo racial-relacional-espacial, que aparece como síntese,
analisando como essas operações tornam sensíveis confinamentos, recusas, vínculos e
possibilidades infindas de existência negra. Paralelamente, na descrição e análise das
sequências foram mobilizados os seguintes operadores conceituais: subcomum e entre-lugar
(Harney; Moten, 2013; Moten, 2013), afro-fabulação (Nyong’o, 2018), geo-grafias negras
(Guimarães, 2020) e cartografias afetivas da negritude (Keeling, 2007; Palmer, 2017). Tais
ideias-forças orientam a leitura, mas não constituem uma grade fechada, nem substituem a
análise da forma fílmica.
Neste artigo, denominamos “arco estético-geográfico” o percurso pelo qual as
transformações vividas por uma personagem são construídas simultaneamente em suas relações
com os espaços e nas operações cinematográficas de montagem (Alvarenga, 2011) que lhes
conferem forma sensível com e a partir da linguagem e da diferença geográficas (Oliveira Jr. e
Girardi, 2020). A expressão dialoga com Barbosa (2000) naquilo que tange a abertura dos
imaginários sociais. Nessa perspectiva, o arco não se restringe à evolução narrativa da
personagem, mas permite acompanhar como enquadramentos, deslocamentos, montagem,
sonoridades e modos de ocupação dos espaços participam da produção de formas de reconhecer,
imaginar e significar o mundo. Trata-se de uma ferramenta descritivo-analítica elaborada no
âmbito desta pesquisa, e não de uma categoria teórica autônoma ou previamente consolidada.
O arco estético-geográfico reúne, portanto, mudança narrativa e elaboração formal, isso
significa observar onde cada personagem circula, como seu corpo é posicionado no quadro, que
objetos o acompanham e de que modo essas relações modificam seus horizontes e trajetórias,
suas geo-grafias negras (Guimarães, 2020).
Já os materiais paratextuais — sinopses, entrevistas, dossiês de produção e informações
de circulação — foram utilizados apenas para contextualizar as obras e conferir dados factuais
relativos à importância dos cinemas negros atuais na construção de uma educação antirracista
ao retirar da zona de invisibilidade e dos lugares de subalternidade as histórias e geografias da
vida negra comum. Eles não foram empregados como prova da intenção do diretor nem como
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substitutos da observação dos filmes, mas como dimensão complementar das análises
geográficas críticas dos filmes. Do mesmo modo, premiações e circulação em festivais foram
consideradas dados de recepção institucional, e não evidências da interpretação proposta.
O recorte apresenta limites metodológicos. A seleção intencional de duas obras do
mesmo diretor e da mesma produtora não autoriza generalizações sobre os cinemas negros
brasileiros. A pesquisa também não realiza estudo de recepção com espectadores, etnografia do
processo de produção ou análise sistemática da crítica cinematográfica. Seus resultados
correspondem, portanto, a uma leitura ensaística qualitativa situada das relações entre forma
fílmica, espacialidades e experiências negras no mundo dentro e fora das telas.
Geo-grafias negras e Constelações Afetivas que emergem do Nada e de Marte Um
Produzir cinema em Contagem (MG) constitui, para a Filmes de Plástico, uma escolha
estética inseparável das relações de trabalho e pertencimento que sustentam a produtora (Silva,
2020). Vilela (2024) mostra que o acesso às tecnologias digitais e aos mecanismos públicos de
financiamento ampliou as condições de realização audiovisual, sem suprimir o esforço coletivo,
as parcerias duradouras e as desigualdades do setor. A singularidade desse trabalho não reside
somente em filmar fora dos centros consagrados. Ruas, moradias, escolas, quintais e locais de
emprego fornecem cadências, tensões e matérias de invenção às personagens. Nessa prática
situada, a potência de expansão dos cinemas negros assinalada por Freitas (2018) assume uma
forma concreta, plural e territorialmente implicada.
A história pública de Nada e Marte Um também passa por políticas afirmativas e
circuitos de exibição que alargaram o alcance de realizadores negros. O curta chegou à
Quinzena dos Realizadores, em Cannes, enquanto o longa-metragem circulou por Sundance e
Gramado, foi indicado pelo Brasil à disputa do Oscar e recebeu o Grande Prêmio do Cinema
Brasileiro (Anic, 2022; Quinzaine des Cinéastes, 2017; Sundance Institute, 2022; Academia
Brasileira de Cinema, 2022). Esses marcos integram a recepção das obras. Sua importância está
em mostrar que imagens nascidas de uma rede periférica de criação alcançaram espaços dos
quais cineastas e personagens negros foram historicamente afastados (Vilela, 2024;
Schvarzman, 2024).
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Embora procedam da mesma comunidade criativa, os filmes elaboram movimentos
distintos. É nessa diferença de movimentos que a transfluência (Santos, 2015) adquire
rendimento analítico. Em Nada , a montagem conduz o rap das ruas para o interior da escola,
onde sua pulsação encontra a fala institucional sem se acomodar a ela. Bia permanece no
intervalo entre esses regimes sonoros e temporais, transformando a mistura em suspensão, não
em conciliação. Em Marte Um, o trânsito ocorre entre escalas: conhecimentos de astronomia,
peças reaproveitadas, práticas de estudo e conversas domésticas ligam o quintal ao espaço
sideral. Assim como as águas evocadas por Nêgo Bispo (2015) atravessam distâncias pelo céu
intercontinental, os desejos de Bia e Deivinho co-habitam territórios apartados sem apagar a
materialidade da periferia da qual partem. Essas travessias alteram coordenadas sociais que
pareciam previamente fixadas e fabricadas diante dos dispositivos de racialização dos espaços
e da subalternização das territorialidades negras. Bia obriga a escola e os educadores (e a
família) a acolher um espaço-tempo que não cabem na sua pedagogia; Deivinho desloca a
produção científica para o quintal; Eunice abala as estruturas patriarcais familiares ao construir
sua autonomia corpórea-territorial. Nossa hipótese é que tais personagens, cada um ao seu
modo, alteram radicalmente o imaginário geográfico e a mobilidade das fronteiras das formas
de vida negra.
As geo-grafias negras tornam-se perceptíveis nessas inscrições: corpos, vozes, objetos
e deslocamentos escrevem posições que contestam o confinamento racial e ampliam o que pode
ser conhecido, desejado e habitado com e pela diferença na linguagem geográfica (Guimarães,
2020; Oliveira Junior; Girardi, 2020).
A recusa de Bia, o desejo científico de Deivinho e a autonomia de Eunice não são
convertidos em figuras exemplares de sucesso, mas tornam sensíveis existências que excedem
os estereótipos disponíveis no repertório educacional. É nesse ponto que o entre-lugar (Moten,
2013) enfrenta o dispositivo de racialidade, como analisado por Carneiro (2023), responsável
por produzir a negritude como diferença inferior enquanto apresenta a branquitude como
medida universal de humanidade. Ao conceder duração, complexidade e trajetórias subversivas
às personagens, os filmes contestam essa distribuição.
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SANTOS, Arthur Pereira. Geo-grafias do Sub-comum e Constelações Afetivas nos Cinemas Negros de Gabriel Martins. Ensaios de Geografia.
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Submissão em: 21/05/2026. Aceito em: 24/08/2026.
ISSN: 2316-8544
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As seções seguintes examinam duas modulações desses deslocamentos: a interrupção
do tempo produtivista e as trajetórias de Bia em Nada e a reordenação afetiva de casa, cidade e
céu em Marte Um.
Nada como potência de transfluência geo-gráfica
O filme se abre como uma viagem lenta pela paisagem do interior de Minas Gerais, ao
som de Cabeça de Gelo
2
. A câmera desliza como quem conhece o trajeto, mas ainda se permite
ser tomada pela música e pela inversão do caminho das multidões anestesiadas e alienadas. A
batida se espalha pelo asfalto, e é no verso “fogo na Babilônia (Israel, 2011)” que o corte nos
lança abruptamente para dentro da escola como locus do conflito. Dito de outro modo, a câmera
acompanha o fluxo da vida urbana até que a montagem transporta a pulsação do rap para o
interior da escola. Essa escolha musical não é aleatória, o verso acende um imaginário de
resistência que funciona como convocação para um “movimento invisível”, que se dá na
imanência do ordinário na linguagem das periferias, não no espetáculo da revolta que estamos
habituados a ver quando se tratam das lutas negras.
No corredor, Bia está sentada no chão, fones nos ouvidos, talvez retendo para si a força
daquela frase incendiária que permeia as lutas dos movimentos negros no Brasil e outras
Améfricas (Gonzalez, 1988): justiça. Não olha para a câmera nem para quem passa; habita um
território que é e não é só seu, feito de música e silêncio que contrasta com barulho ensurdecedor
do ambiente escolar e da grande cidade.
O terceiro corte nos abre a porta da sala de aula. O quadro branco guarda um mapa-
múndi traçado à mão, linhas frágeis de um planeta dividido desde as profundezas da Terra. O
professor de geografia, de pé, explica o deslocamento das placas tectônicas: com o gesto das
mãos cerradas, ensaia o movimento do choque entre elas. É nesse instante — no ponto exato
em que o encontro é iminente — que o quarto corte se impõe. A imagem-percepção (Deleuze,
1985) se interrompe como uma frase suspensa, e a diretora entra, quebrando o ritmo e abrindo
outro capítulo dessa mesma manhã.
2
Referência da música: ISRAEL, Shalon. Cabeça de gelo. [S. l.: s. n.], 2011. 1 faixa musical.
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A porta se abre e a diretora entra com passo decidido, a voz sintética e amplificada pelo
microfone portátil que carrega. O tom é de urgência misturada ao entusiasmo: “O Enem está
chegando”. Anuncia, e quer ouvir, ali e naquele instante, as opções de vida de cada estudante.
Talvez fosse cedo ou tarde demais.
As respostas surgem em fila, limpas e diretas com planos-próximos nos rostos dos
estudantes e de maneira individualizada: medicina, arquitetura, passar de ano, jornalismo,
odontologia. Um cardápio de futuros que cabem perfeitamente no enquadramento escolar-
disciplinar e no brilho animado da diretora. A promessa de felicidade e do projeto (controlado)
de vida para o mercado. Então, a câmera pousa sobre Bia. Ela não ajusta o corpo, e ergue o
olhar para a diretora; a resposta escapa de relance, quase como quem fala para si de forma
categórica:
— “Nada”.
A formulação que amplia a “quebrada” à escala do mundo ecoa em silêncio, expandindo
as geo-grafias negras (Guimarães, 2020) da fala de Bia para além da sala de aula e daquele
micro-universo. Para Nyong’o (2018), é a deslocalização e o movimento de fissura na realidade
que não permite a presença da negritude nas telas, mas lá está; para Moten (2013), é a inscrição
do nada como zona de intervalo próprio de linhas de fuga e ilhas de refúgio. A diretora se detém,
um sorriso breve e artificial, e diz: “Engraçadinha”. Reforça a pergunta. Insiste: “mas você tem
que fazer alguma coisa... como assim você não quer fazer nada?”. O tempo parece vacilar no
ar. Ela vira o rosto para o professor de geografia que está fazendo mais uma daquelas aulas
expositivas de placas tectônicas, como se a conversa e a resposta fossem absurdas e é nesse
gesto de desdém que a explosão acontece. Bia a encara, e as palavras saem com a firmeza de
quem não precisa elevar a voz para atravessar o território:
— “Fala na cara”.
Esta fala, na leitura que tomamos emprestada de Santos (2015, p. 89; 2018), poderia ser
interpretada como um “gesto de desobediência epistêmica; e contracolonial”, ou seja, uma
recusa a entrar na coreografia do transporte social, preferindo a densidade do próprio lugar ao
deslocamento imposto de fora. Para os olhares dos defensores da hierarquia, das normas e dos
bons costumes morais, talvez apareça como uma fala desrespeitosa.
O filme poderia termina aqui.
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A mãe chega à escola, a convite da diretora, a fim de resolver o suposto problema. Já no
banco do carro, a volta para casa se constrói em poucas palavras. Não há repreensão, apenas
uma tentativa de conciliação: ela parece respeitar a decisão da filha, mas sugere, num tom meio
resignado, que, mesmo sem saber o que fazer, Bia poderia ao menos prestar o vestibular e fazer
o Exame Nacional do Ensino Médio. A conversa é elucidativa e as frases flutuam no ar como
quem tenta reatar uma corda recém-cortada e a queda no abismo.
Em seguida, mergulhamos no território íntimo de Bia — o quarto como “pluri-verso”
intransponível. As paredes são um manifesto: rabiscos, frases de rebeldia, marcas de presença
contra qualquer ideia de apagamento. São pistas que retornam como “o tempo das coisas”;
“cuidado com a palavra; depois que ela é dita, dela se torna escrava”. Elas são imperceptíveis
ao primeiro olhar, mas estão lá. A meia-luz do fim de tarde colore tudo com um tom violeta e
quente, contrastando com o quarto atravessado pela sombra e a escuridão. No centro, o gorro
roxo com o terceiro olho bordado vira boné e repousa sobre a cabeça de Bia, como um símbolo
de vigília diante do ritmo robótico da urbes e visão da sua opacidade paisagística. O quarto é
seu quilombo interior, seu estúdio, sua ilha contrapontística (Moten, 2013): lugar de confluência
e transcriação, onde o “nada” se torna um espaço de fabulação radical e uma zona de liberdade
virada ao avesso das linguagens científicas e artísticas da diferença (Oliveira Jr. e Girardi,
2020). Chuva de fragmentos que escorrem nas frestas impedindo a captura ou qualquer
tradução.
Ao som da batida seca do rap, ela improvisa versos que são mais que música, são contra-
discurso espaciais, letras de denúncia do colonialismo, declaração de existência que recusa
qualquer aliança ou conciliação com a branquitude (Carneiro, 2023). Ali, entre paredes que
testemunham seu sopro de liberdade, ela performa um “Nada” que não é vazio, mas
constelações de trajetórias (Massey, 2008) que atravessam seu corpo em transe — uma
passagem onde o cristal do tempo (Deleuze, 2007), ao entrar em simbiose com seu corpo, se
conecta a poéticas ancestrais que não cabem em uma descrição e, outrossim, nos limites formais
da narrativa.
A (r)existência de Bia, tal como aparece, incomoda.
A sala de casa é pequena, mas guarda uma tensão intrafamiliar que não se dissolve no
canto dos “parabéns remixados” e no apagar da luz da vela do aniversário da protagonista. Em
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cima da mesa, o bolo aparece como objeto espacial e clima de celebração, mas o ar é cortado
por silêncios e olhares “não-dialógicos”. A decisão de Bia — o seu “Nada” — paira como
sombra entre cada palavra (mal) dita. O pai estende a mão com um presente: uma caneta cara,
lisa, pesada. Um símbolo, talvez, de escrita de um futuro que ele ainda acredita poder traçar.
Aqui a trajetória de Bia poderia se conectar a de Deivinho, de Marte Um (2022). Bia recebe,
mas seus olhos denunciam a inadequação. Aquilo não se encaixa no seu mundo; é um objeto
que carrega a expectativa dos outros, não a sua própria vontade. Seu desejo, ao apagar a vela, é
outro: nada. Mais uma vez Bia expressa que a data-ritual querida não cabe no seu vocabulário.
A cena seguinte abre a respiração da paisagem solar. É no terraço, sob a luz mais clara
de todo o filme, que Bia encontra um respiro junto à amiga/tia Swift, também da cena musical.
Ali, o céu é amplo, o vento entra lento por todas as direções, o som da rua se mistura com os
afetos, a troca de ideias e o fumo. A amiga fala do futuro com a franqueza de quem conhece os
becos e as bifurcações da vida. Relata dificuldades, avisa sobre os atalhos que não levam a lugar
nenhum, mas que o mundo é do jeito que é e sugere que ela faça música. Bia ouve, mas sua
escuta é como uma margem de rio: recebe todos os sedimentos erosivos, mas não se deixa
arrastar. Faz meandro. Quando responde, é em tom melancólico, mas firme: não quero fazer
nada… pra que isso? por que isso tudo? (14:30 a 14:34) A música parece retornar como impulso
de continuidade, mas aqui o movimento segue no sentido contrário: o movimento de Bia é
devir-casulo. Em diálogo com Santos (2015, p. 89; 2018), compreendemos esse deslocamento
pela transfluência; Moten (2013), fuga criativa; Nyong’o (2018), fabulação negativa. Optamos
por fazer uma montagem (Figura 1) da potência do Nada como modo de tornar visível tal
processo de fabulação crítica que condensa e ultrapassa todas as ideias acima agenciadas.
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Figura 1 – Fotomontagem: A(s) Potência(s) do Nada
Fonte: Montagem — Arquivo Pessoal. Filme Nada (2017), 27´, Dir.: Gabriel Martins.
As perguntas formuladas por Bia sobre a necessidade de escolher e sobre o sentido desse
percurso confrontam a naturalização do desenvolvimento como caminho único. Não se trata de
atribuir a Nêgo Bispo uma categoria denominada “interrogação contracolonial”, mas de
aproximar a cena de sua crítica aos modos coloniais de organizar a existência. Em Santos
(2015), a contracolonização emerge das práticas dos povos que enfrentam a colonização
preservando e recriando relações territoriais, saberes orgânicos e formas comunitárias de vida.
As perguntas e as falas de Bia ressoam essa crítica porque expõem que o futuro apresentado
como universal e que possui direção determinada: preparar-se, competir, escolher uma
profissão, inserir-se no mercado e, na maior parte das vezes, lutar pela sobrevivência.
O nada interrompe essa linha sem apresentar uma chegada alternativa. Essa ausência de
resolução aproxima a personagem da poli-temporalidade discutida por Nyong’o (2018). A afro-
fabulação não organiza necessariamente passado, presente e futuro em sequência causal. Ela
permite que tempos diferentes coexistam, se repitam e se transformem. Bia não está
simplesmente atrasada em relação aos colegas nem adiantada em direção a uma consciência
superior. Ela se movimenta fora do compasso imposto pela instituição, abrindo uma duração na
qual o futuro pode permanecer indeterminado.
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O retorno à escola evidencia a força dessa repetição. A sala está escurecida para a
projeção de um vídeo sobre o aquecimento global, enquanto a diretora reaparece para reiterar
as orientações ligadas ao exame. A montagem aproxima duas urgências: a crise ambiental,
apresentada na tela como ameaça coletiva, e a exigência de definição individual do futuro. A
luz intermitente do projetor recorta o rosto de Bia ao fundo da sala e estabelece uma distância
entre seu corpo e o discurso que ocupa o primeiro plano. A personagem não está fora do mundo,
percebe, ao contrário, a inadequação entre a gravidade das crises coletivas e a promessa de que
o sucesso individual resolveria o porvir.
Em casa, as tensões se intensificam. O pai lembra que Bia pertence à primeira geração
da família com possibilidade concreta de frequentar a universidade; a mãe reconhece sua
relação com a música; a jovem insiste que precisa percorrer outros caminhos. O conflito não
decorre da falta de amor ou de investimento familiar, ele nasce do encontro entre diferentes
estratégias de sobrevivência. Para os pais, a escolarização indica uma conquista diante das
barreiras raciais e econômicas; para Bia, a oportunidade se converte em imposição quando
elimina o direito de não saber. O filme atribui legitimidade a essas perspectivas sem produzir
uma conciliação artificial.
No dia do Enem, Bia entra na sala, ocupa seu lugar e observa a prova. O enquadramento
registra também o sofrimento de outra participante, sugerindo que a pressão não se limita à
protagonista. Sua saída ocorre sem discurso explicativo ou gesto espetacular. Bia abandona o
exame, mas o filme não apresenta a decisão como triunfo definitivo nem como rejeição absoluta
da educação. O gesto recusa um regime específico de avaliação e a obrigação de converter
aquele momento em passagem obrigatória para o futuro. A fuga, aqui, aproxima-se de Moten
(2013); não é chegada a um exterior completamente livre, mas movimento contínuo de escapar
às posições que procuram emoldurar a vida.
A cidade retorna como corpo coletivo ao final. Ruas e calçadas são atravessadas por
multidões que seguem ritmos regulados pelo trabalho, pelo transporte e pelos horários urbanos.
Na rodoviária, Bia ocupa um espaço de circulação cujo sentido permanece indefinido. Não
sabemos se está partindo ou para onde está indo. A personagem está em movimento, mas o
filme preserva a opacidade de seu destino.
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No interior do ônibus, uma mulher negra acompanhada de uma criança e senta-se ao
lado de Bia. A conversa breve sobre viagens, partidas e retornos cria uma intimidade provisória
entre pessoas que não compartilham uma história conhecida. Quando Bia pergunta se a viagem
da mulher valeu a pena, sua interrogação ultrapassa a busca por arrependimento ou
confirmação. Ela procura saber o que acontece com uma vida quando se abandona uma rota,
quando se parte sem garantia de chegada e quando o deslocamento transforma quem viaja. Ao
fim, eis que aparece a única hesitação de Bia ao longo de toda a narrativa.
O encontro pode ser lido a partir da sociabilidade fugitiva de Moten (2013) e do
subcomum de Harney e Moten (2013). A relação não depende de identidade completa,
reconhecimento institucional ou projeto compartilhado, ela emerge da proximidade
circunstancial, da escuta e de experiências negras que se comunicam sem se tornar equivalentes.
A mulher não oferece uma resposta capaz de encerrar o dilema de Bia, sua presença produz
companhia durante a passagem e mostra que a fuga não precisa ser confundida com isolamento.
A imagem das águas mobilizada por Nêgo Bispo volta a iluminar a cena final. Assim
como rios distantes podem se comunicar por meio das águas que sobem, atravessam o céu e
retornam como chuva, trajetórias separadas podem transmitir conhecimentos sem percorrer
uma linha direta (Santos, 2018). A viagem de ônibus não conduz Bia a uma identidade
definitiva, mas transforma as relações entre escola, casa, cidade e porvir. A transfluência não
apaga os lugares de onde ela parte, mas permite que esses lugares sejam ligados por movimentos
que não estavam previstos, fazendo com que os educadores questionem seu próprio movimento
de ensinar-e-aprender. Talvez não seja por acaso que as duas aulas que aparecem no filme sejam
de Geografia.
O filme termina sem resolver o enigma inaugurado pela resposta de Bia. O nada não é
preenchido ao final porque sua potência reside justamente em não se converter em resposta ou
sentido palpável. Ele permanece como recusa, reserva de imaginação e possibilidade de vida
infinita.
O gesto de Bia aparece como campo aberto onde ela pode inventar sua própria geo-
grafia negra (Guimarães, 2020), sua ilha contrapontística, sua viagem para Marte.
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Pequenos atlas de constelações familiares em Marte Um
Deivinho aparece inicialmente deitado em uma cadeira de praia no quintal de casa, com
os olhos voltados para o céu noturno. Aos doze anos, deseja tornar-se astrofísico e integrar uma
missão espacial. A cena estabelece uma relação de trans-escalar que orientará todo o filme: o
corpo do menino, o quintal, a cidade e o espaço sideral coexistem no mesmo campo de
imaginação. Seu desejo, entretanto, encontra o projeto de Wellington, que reconhece no talento
futebolístico do filho uma possibilidade de mobilidade social para a família.
O conflito entre futebol e astronomia não corresponde simplesmente à oposição entre
realidade e fantasia. O esporte também constitui um horizonte legítimo para Wellington,
elaborado a partir das oportunidades que lhe foram negadas e do desejo de oferecer ao filho
uma vida menos precária. Deivinho, por sua vez, não rejeita o futebol por incapacidade ou falta
de interesse pelas relações construídas ao redor dele. O problema surge quando o projeto
paterno passa a ocupar o lugar de sua própria escolha. A narrativa transforma essa divergência
em questão geográfica, quem pode definir os destinos reservados a uma criança negra e que
espaços de conhecimento ela está autorizada a desejar?
A estrutura de Marte Um distribui a narrativa entre os quatro integrantes da família
Martins. Embora o sonho de Deivinho ofereça uma linha de continuidade e centro da análise, a
montagem alterna os percursos de Eunice, Tércia e Wellington, evitando que os conflitos sejam
explicados por um único ponto de vista. Casa, universidade, portaria de um prédio de luxo,
ônibus, boate, estádio, ferro-velho e quintal formam uma rede de lugares atravessada por
relações de raça, classe, gênero e geração desiguais que produzem socialmente espaço. A
expressão “pequenos atlas” aplica-se a essa rede à montagem de trajetórias, objetos e lugares
por meio de imagens e palavras.
Não se trata de um inventário completo da família nem de uma cartografia capaz de
fixar seus percursos. O atlas é pequeno porque acompanha gestos cotidianos menores (e, nem
por isso, menos importantes) — lavar louça, esperar o ônibus, cuidar de um jardim, jogar bola,
observar o céu — e porque reconhece que nenhuma imagem consegue totalizar uma experiência
de todos os lugares, virados ao avesso pelos olhos de Deivinho. Ele permite ver como o
personagem atravessa e transforma lugares, criando uma narrativa espacial simultaneamente
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metamorfoseada pela própria força dos lugares (Massey, 2008), vistos na montagem de
fragmentos dos “Pequenos Atlas e Constelações Afetivas (Figura 2).
Figura 2 – Fotomontagem Pequenos Atlas de Constelações Afetivas
Fonte: Arquivo Pessoal – Filme: Marte Um (2022), 113min. Dir.: Gabriel Martins.
Retomando a cena da sala de aula, a professora negra escreve diretamente no quadro e
lembra a turma que o Brasil possui a terceira maior população carcerária do planeta (atrás
apenas de EUA e China), sendo que aproximadamente 70% (o que corresponde a 450 mil
pessoas) são negras (Marte Um, 2022). O arco de Nina começa, então, no espaço marcado por
limites e fronteira: a faculdade de Direito e suas reverberações na luta por justiça espacial. Lugar
que promete ascensão social, mas que também é marcado pelo peso das estruturas sociais
desiguais de ensino. Sua travessia, no entanto, não é apenas acadêmica, é micropolítica. Na
cozinha com Tércia (sua mãe), entre pratos e panelas, Nina formula a crítica que, apesar de
parecer simples, desloca os papéis e move sua emancipação: “por que os homens da casa não
fazem nada?”. O gesto não é banal, é enunciação de uma geo-grafia interseccional — o corpo
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feminino negro percebendo que a divisão do trabalho, na escala micro do lar, reflete a
geopolítica do racismo patriarcal que se espraia nos diferentes lugares e instituições brasileiras.
A boate, com suas tonalidades azuladas reluzentes na escuridão, se abre como um novo
território libertário. Ali, entre corpos dançantes e pulsação noturna, Nina encontra Joana.
Quando Nina mostra as fotos de Joana a Deivinho no quarto que dividem e partilham suas
perspectivas de vida e desejos, outras linhas de fuga se abrem nos interstícios familiares.
O parque aberto, a corretora de imóveis, a cobertura vazia: a sequência compõe uma
escalada geográfica de percepções e afetos. Do chão ao alto da cidade, do público ao privado,
da visão panorâmica da cobertura ao imóvel vazio — as duas jovens fabulam um território
próprio. A cena no apartamento desocupado não é transgressão pela transgressão, é inscrição
geopoética de um direito à cidade e de viver livremente os afetos. Ali, os corpos se libertam das
amarras familiares e sociais, fundando um entre-lugar (Moten, 2013) que não existia dentro e
fora das telas, sendo este um dos traços elementares da afro-fabulação (Nyong’o, 2018):
inventar modos de existir nas lacunas e nas frestas diante do conservadorismo e dos valores
heteronormativos (Keeling, 2007) e racistas da cidade.
Todavia, o retorno à família evidencia as fraturas. Do lado de Joana, o jantar de classe
alta é ambiente de maior aceitação, quase ensaiando uma normalidade. Do lado de Nina, a
recusa é explícita nos gestos e olhares trocados. A cena do jogo de futebol, Atlético contra
Cruzeiro, condensa em forma sensível o conflito. Wellington (o pai), de azul cruzeirense,
encarna o peso da masculinidade negra atravessada por expectativas normativas. Nina, vestindo
o Atlético, rivaliza a paixão. A vitória do Atlético aparece como índice que ultrapassa o
resultado esportivo: o ambiente fílmico-geográfico da derrota simbólica que elucida o
preconceito parental diante da força do amor da filha.
O passo seguinte é a saída de casa.
Eunice é também o elo que sustenta o sonho de Deivinho. É ela quem compra os
ingressos para a palestra do cientista norte-americano, alimentando o desejo intergaláctico do
irmão. Nessa cumplicidade, revela-se que sua emancipação não é apenas individual. Nina luta
por si mesma e pelo outro: pelo irmão que sonha com Marte, pela mãe que resiste no trabalho
doméstico, pelo direito de ser e amar sem amarras. Sua trajetória é atlas de emancipação
interseccional: corpo feminino negro que atravessa casa, rua, estádio, cobertura, boate, e que,
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em cada deslocamento, inventa uma cartografia afetiva antirracista e feminista do espaço, que
parece contrastar com a vida levada pela sua mãe.
Tércia cuida da casa, dos filhos e também de casas alheias — território do trabalho
doméstico que a inscreve na longa história de exploração racializada de parte das mulheres
negras no Brasil. Ao mesmo tempo, acolhe o sonho intergaláctico de Deivinho e a emancipação
afetiva de Eunice, ainda que sem se expressar diretamente e mesmo quando estas escolhas
desestabilizam o conservadorismo do marido Wellington. Sua posição é paradoxal, ancorada
em uma relação conjugal que carrega marcas de controle, mas aberta a apoiar gestos de fuga e
de liberdade dos filhos.
Tércia é, assim, figura de fronteira e de resistência, corpo que se desloca entre periferia
e centro, entre o cuidado e a exaustão, entre a sombra da maldição e a luz da festa. Sua trajetória
revela que o espaço vivido pelas mulheres negras que ocupam sua profissão é feito de travessias
com jornadas duplas, tendo que suportar e se reinventar, de carregar pesos e de encontrar
brechas para seguir lutando pela emancipação.
Wellington é porteiro em um prédio de classe média alta de Belo Horizonte. Passando
por um processo de recuperação do alcoolismo, frequenta as reuniões de Alcoólicos Anônimos
como quem busca, cotidianamente, sustentar o equilíbrio diante das pressões da vida e a
dimensão anestésica “necessária” à sobrevivência. Seu ofício o coloca no limiar entre dois
mundos: o da sua família, na periferia, e o da riqueza, atrás dos jardins e apartamentos que cuida
como se fossem seus. Essa posição é também um fardo; ele também circula entre-mundos, mas
parece terceirizar e devir-terceirizado pela vida que sustenta nos ombros de modo petrificado.
Deivinho sofre um acidente de bicicleta — duas quedas paralelas: do pai e do filho. Uma
das cenas mais significativas que vão transformar as trajetórias de todos os personagens se passa
diante da manifestação de raiva e de tristeza diante desse acontecimento. Quando chega em
casa, após a demissão, e percebe que o filho não poderia fazer o sonhado teste de futebol para
jogar no clube de futebol Cruzeiro. A partir daí, ocorrem transformações do espaço por eles
habitado.
O sonho de ver o filho como jogador vai sendo corroído e, em seu lugar, emerge a
necessidade de escutar os próprios desejos de Deivinho e Eunice. Se antes sua postura carregava
traços conservadores — tanto em relação ao destino esportivo do filho quanto à vida afetiva da
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SANTOS, Arthur Pereira. Geo-grafias do Sub-comum e Constelações Afetivas nos Cinemas Negros de Gabriel Martins. Ensaios de Geografia.
Niterói, vol. 13, nº 26, e132614, 2026.
Submissão em: 21/05/2026. Aceito em: 24/08/2026.
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filha —, pouco a pouco ele se abre para o aprendizado de outro modo de estar com a família.É
nesse deslocamento intrafamiliar que se afirma a trajetória de Deivinho.
Deivinho é quem melhor encarna a força da experiência espacial da criança negra no
mundo. Desde sua primeira aparição deitado numa cadeira de praia no quintal até a cena final
em que toda a família observa o céu pelo telescópio artesanal, ele simboliza um eterno retorno
da diferença geográfica (Oliveira Jr. e Girardi, 2020): sempre o quintal, mas nunca o mesmo;
sempre o olhar para o céu, mas cada vez mais expandido. Seu arco é radicalmente disruptivo
porque não se curva ao destino imposto — o futebol como promessa de ascensão — e, em vez
disso, fabula outras órbitas existenciais. Ele é quem melhor corporifica o subcomum (Harney;
Moten, 2013), reinventando a vida nas margens e nas fugas institucionais.
As cenas costuram esse devir-subcomum com sutileza. No quintal, Deivinho transforma
o vazio em observatório, sua escuta em método, seu silêncio em política. Na escola, aparece
como aluno estudioso, mas é justamente na aula de geografia, quando o professor explica
erupções vulcânicas, que se revela a potência ilimitada de leitura do mundo. Em casa, estuda
diariamente vídeos sobre a possibilidade de viajar a Marte e se prepara para assistir à palestra
de um astrofísico famoso nos Estados Unidos. Sua inteligência não é escolarizada no sentido
burocrático, é inventiva, insurgente, comunitária.
A afro-fabulação contribui para interpretar essa operação. Nyong’o (2018) a
compreende como prática capaz de reorganizar memória e imaginação para que a vida negra
exceda os roteiros estruturados pelos apagamentos e clichês imagéticos. O telescópio artesanal
torna-se arma de luta, tecnologia ancestral e materializa um modo de relacionar escalas que
pareciam incompatíveis. Restos urbanos, quintal periférico e astronomia passam a coexistir em
um objeto que amplia o campo do (in)visível.
A relação com Eunice é decisiva para essa construção. A irmã reconhece a legitimidade
de seu interesse, viabiliza sua participação na palestra e preserva um espaço de confiança dentro
da casa. Deivinho, por sua vez, acolhe a relação de Eunice com Joana sem exigir explicações.
A reciprocidade entre os irmãos mostra que as transformações familiares não dependem apenas
das decisões dos pais. Crianças e jovens também produzem cuidado, conhecimento,
reorientação dos vínculos e outras alianças que denotam o abismo em relação às expectativas
da geração pretérita.
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As brincadeiras de rua e os encontros com outras crianças inserem Deivinho em uma
sociabilidade que não é inteiramente organizada pela escola, pela família ou pelo treinamento
esportivo. A rua oferece risco, conflito e possibilidade de convivência. Não se trata de idealizar
o espaço público periférico como território espontaneamente livre, mas de reconhecer práticas
coletivas que escapam parcialmente à programação vertical dos pais. Nessas relações, o menino
não é apenas promessa de jogador ou futuro cientista, ele também participa da vida presente de
sua vizinhança.
A concepção relacional de lugar de Massey (2008) permite reunir esses espaços sem
transformá-los em etapas de uma trajetória linear. Quintal, escola, campo de futebol, ferro-
velho, rua e céu constituem encontros provisórios de múltiplas trajetórias. O local é co-criado
junto ao global: o desejo de participar de uma missão interplanetária chega a Deivinho por
circuitos internacionais de ciência e mídia, enquanto o telescópio é construído com materiais
encontrados em seu cotidiano. O quintal torna-se ponto de articulação entre escalas, não porque
deixe de ser periférico, mas porque sua localização nunca foi fechada, e sempre esteve aberta
como espaço ritual de aquilombamento e festa do povo negro.
Na cena final, a família se reúne para observar o céu pelo telescópio. O enquadramento
aproxima corpos que, ao longo do filme, foram separados por conflitos, deslocamentos e
silêncios. A reunião não restaura uma harmonia anterior, pois essa harmonia nunca existiu.
Também não resolve as condições de trabalho, as diferenças geracionais ou as divergências
familiares. O que se produz é uma disposição renovada para olhar junto. Wellington reconhece
o desejo do filho; Eunice mantém sua autonomia; Tércia participa do encontro; Deivinho
compartilha o instrumento construído.
Retomar esses percursos de modo estético e geográfico é também defender uma
educação antirracista. Assim, Marte Um não é apenas um filme sobre uma família negra na
periferia de Belo Horizonte, mas um micro-atlas contracolonial (Santos, 2015) do Brasil
contemporâneo: mapas feitos de restos e de astros, de quintais e de cosmos, de dores e de
reinvenções. Nele, infância e juventude aparecem como operadores de futuro, instaurando
linguagens que desafiam o regime do tempo linear e do espaço fechado. Cada cena nos recorda
que o cinema pode ser também uma aula de geografia — não a geografia dos mapas
cristalizados, mas a das geo-grafias negras (Guimarães, 2020) do subcomum (Harney; Moten,
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2013) e das constelações afetivas da negritude (Keeling, 2007; Palmer, 2017) que, “do nada”,
promovem fissuras nas cordilheiras gélidas da vida urbana de Marte e dos Brasis.
Considerações Finais
Este trabalho teve como objetivo compreender de que maneira Nada (2017) e Marte Um
(2022), de Gabriel Martins, elaboram geo-grafias negras da infância e da juventude por meio
da linguagem cinematográfica e geográfica da diferença (Oliveira Jr. e Girardi, 2020).
Procuramos responder como a recusa de Bia confronta a pedagogia da produtividade e como
os percursos de Deivinho e Eunice (e família Martins) reorganizam sonhos, vínculos e
possibilidades de circulação de afetos que não tinham lugar num mundo anti-negro. A análise
evidenciou que essas questões não se resolvem somente no plano temático. Enquadramentos,
cortes, durações, variações de luz, paisagens sonoras e movimentos de câmera participam da
escrita dos lugares e tornam sensíveis conflitos que não poderiam ser explicados apenas pelo
encadeamento do roteiro isolado e, simultaneamente, sem o agenciamento de conceitos e
categorias das geo-grafias negras (Guimarães, 2020).
Em Nada, a resposta da protagonista interrompe a sequência de futuros profissionais
organizada pela escola e expõe o caráter normativo da pergunta que lhe é dirigida. O filme não
converte sua recusa em falta de consciência, incapacidade ou simples oposição familiar. A
montagem descontínua, a presença do rap, a oscilação entre ruído e silêncio e as mudanças de
luminosidade acompanham a tentativa de Bia de preservar um espaço-tempo insubmisso à
obrigação de escolher. Nesse sentido, o “nada” suspende a captura imediata do desejo e sustenta
um intervalo geo-gráfico no qual a jovem pode experimentar outras relações consigo, com a
cidade e com as expectativas de sua família. O nada torna-se, assim, uma operação espacial
porque altera os lugares que Bia ocupa e os modos pelos quais ela pode deixá-los como rastros
geográficos de auto-inscrição da diferença negra no mundo e nos imaginários sociais.
Marte Um desloca essa problemática para uma composição familiar polifônica. O
desejo astronômico de Deivinho não aparece isolado das condições materiais da vida, tampouco
transforma Wellington em obstáculo unidimensional. O projeto futebolístico do pai nasce de
uma experiência marcada por oportunidades negadas, precariedade e busca de mobilidade
social; sua revisão ocorre quando ele aprende a escutar aquilo que o filho ainda não conseguia
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afirmar abertamente. Simultaneamente, a autonomia afetiva de Eunice, as perturbações vividas
por Tércia e as mudanças de Wellington impedem que a trajetória de Deivinho seja lida como
aventura individual. Corporeidades e territorialidades negras que compõem um pequeno atlas
no qual as escalas doméstica-planetária, urbana-cósmica se comunicam sem perder suas zonas
de conflito e o valor da crítica da dimensão espacial do racismo, das opressões de classe, de
gênero e geracionais.
A contribuição metodológica do trabalho reside na aproximação entre análise fílmica e
pensamento geográfico a partir do debate brasileiro sobre Geografia negra (Guimarães, 2020)
e cinemas negros como potência de expansão infinita (Freitas, 2018). A decomposição e a
recomposição das sequências permitiram observar como enquadramento, montagem, duração
e som produzem espacialidades singulares ao pensamento geográfico na sua relação com o
cinema, em diálogo com Barbosa (2000), Oliveira Junior (2005), Oliveira Jr. e Girardi (2020),
Queiroz Filho (2007), Alvarenga (2011) e Fioravante (2018). O espaço, assim, não foi tratado
como cenário no qual questões raciais e sociais simplesmente acontecem, mas como uma
elaboração audiovisual produzida pela trajetória dos corpos e relações entre campo e fora de
campo desdobradas a partir das ideias-força de subcomum de Moten e Harney (2013), entre-
lugar (Moten, 2013) e afro-fabulação de Nyong´o (2018).
No âmbito educacional, os resultados indicam que Nada e Marte Um podem contribuir
para práticas antirracistas quando não são utilizados como ilustrações transparentes de
conteúdos previamente definidos. Trabalhar com essas obras implica considerar suas
ambiguidades e escolhas formais, impedindo que as personagens sejam convertidas em
modelos fixos da infância e juventude negra, ao passo que permite a abertura de uma reflexão
geográfica crítica com e a partir dos modos como as crianças e jovens veem sua própria
realidade. Desse modo, produtividade, divisão racializada e generificada dos espaços, direito à
cidade, ciência feita no quintal, arranjos espaciais familiares e imaginação geográficas
dissidentes podem ser discutidos conjuntamente com as formas pelas quais o cinema torna essas
questões visíveis, sensíveis e contestáveis no âmbito do pensar e ser das geo-grafias.
O alcance dessas conclusões, contudo, permanece situado. O corpus reúne apenas duas
obras do mesmo diretor e da mesma produtora e não representa a diversidade estética, territorial,
geracional, política e de gênero dos cinemas negros brasileiros. A pesquisa também não
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examinou os processos de produção nem realizou estudos de recepção com espectadores,
professores ou estudantes. Investigações posteriores poderão comparar outros filmes da
produtora, acompanhar sua circulação em contextos escolares e analisar como públicos diversos
reelaboram as espacialidades produzidas pelas imagens. Naquilo que remete ao campo de
estudo de geografia e cinema negros é preciso ainda aprofundar o levantamento das pesquisas
que abordam a dimensão racial do espaço como dispositivo analítico crítico.
Entre o intervalo sustentado por Bia e o céu aproximado por Deivinho, os filmes
recusam a ideia de que os horizontes negros já estejam definidos. Sem apagar as limitações
impostas pela interseção de raça, classe, gênero e geração, as duas obras mostram que esses
limites são disputados nos gestos cotidianos, nos afetos e nas formas de olhar. Suas geo-grafias
negras (Guimarães, 2020) inscrevem, assim, a infância e a juventude não apenas como temas
do cinema, mas como forças críticas e estéticas capazes de imaginar e produzir outros percursos.
Ao retomar esses gestos no ensino das Geografias escolares e universitárias, podemos construir
um horizonte em que os territórios educacionais sejam também observatórios, ateliês e
quilombos imagéticos: lugares de estudo, invenção e presença afro-fabulatória (Nyong´o, 2018)
e subcomum (Harney; Moten, 2013) de outros modos de ensinar-e-aprender geo-grafias negras
(Guimarães, 2020).
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