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ACOCORÉ: UM PROJETO DE RESISTÊNCIA À PANDEMIA OU
ARTE EM TEMPOS DE TELEPRESENÇA
Acocoré: a pandemic resistance project or art in times of telepresence
Acocoré: un proyecto de resistencia a la pandemia o arte en tiempos de telepresencia
Maria Beatriz de Medeiros [Universidade de Brasília, Brasil]*
RESUMO O presente texto apresenta o projeto Acocoré [Arte, Coletivos, Conexões e Redes] realizado em
telepresença desde julho de 2020, isto é, durante uma pandemia. Acocoré foi uma ideia, um movimento, e, de
repente, [e]vento: site, performances, entrevistas, vídeos, isto é, movimento disruptivo fazendo História.
PALAVRAS-CHAVE Acocoré, arte, coletivos, conexões, redes
ABSTRACT The following paper presents the Acocoré project [Art, Colectives, Connections and Networks],
conceived and carried out online and over telepresence since July 2020, during the pandemic. Acocoré was
an idea, a movement, and suddenly is [e]vent: website, performances, inter-actions, videos, therefore disruptive
moviment making history.
KEYWORDS Acocoré, art, collectives, connections, networks
RESUMEN Este texto presenta el proyecto Acocoré [Arte, Colectivos, Conexiones y Redes] realizado en
telepresencia desde julio de 2020, es decir, durante una pandemia. Acocoré fue una idea, un movimiento y, de
repente, [e]viento: web, performances, entrevistas, videos, es decir, un movimiento disruptivo que hace historia.
PALABRAS CLAVE Acocoré, arte, colectivos, conexiones, redes
Citação recomendada:
MEDEIROS, Maria Be-
atriz de. Acocoré: um
projeto de resistência à
pandemia ou arte em
tempos de telepre-
sença. Revista Poiésis,
Niterói, v. 22, n. 38,
p. 266-278, jul./dez.
2021. [https://doi.
org/10.22409/poie-
sis.v22i38.48172].
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distribuído nos termos
da licença Creative
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Não Comercial 4.0
Internacional [CC-BY-
NC] © 2021 Maria
Beatriz de Medeiros
*Maria Beatriz de Medeiros é professora do Departamento de Artes da Universidade de Brasília - UnB, Doutora em Arte e Ciências da Arte pela Universidade Paris
I e coordena o Grupo de Pesquisa Corpos Informáticos desde 1992. E-mail:mbmcorpos@gmail.com, ORCID: https://orcid.org/0000-0003-1899-1052
Revista Poiésis, Niterói, v. 22, n. 38, p. 266-278, jul./dez. 2021 [https://doi.org/10.22409/poiesis.v22i38.48172]
(Submetido: 15/1/2021;
Aceito: 13/5/2021;
Publicado: 7/7/2021)
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De repente, o silêncio. Não mais “teatro, boate, cine-
ma” [Luiz Melodia,
Congênito
]. De repente, o pouco
que se tem representa tudo e/ou o muito que se tinha
se fechou. A vida cessou nas ruas. Não mais carros
e ônibus, desde às seis horas da manhã, arranhan-
do o sono pouco de quem muito correu. O sono se
esparrama junto com o medo. Silêncio: ninguém vai
chegar e ninguém vai sair. Não haverá convites, nem
vernissages, nem aniversários, nem almoços fami-
liares, nem viagens, hotéis ou outras paisagens.
O COVID 19 tomou a vida de muitos no momen-
to em que escrevo, janeiro de 2021. O COVID 19
tomou a vida de 1% da população brasileira. Presa
em casa, 50% da população, e o vírus passeando
nas ruas, calçadas, praias e parques. Os teatros
escuros e fechados ruminando mofo e poeira em
poltronas tortas; as boates silenciosas e ninguém
cheirando nos banheiros, os cinemas surdos, cegos
e mudos com portas enferrujando. Os museus e
galerias de arte acumulando um vazio de sentido de
obras de arte enclausuradas. A arte se completa
na interação e/ou na iteração.
1
Sem ser vista, ela é,
naturalmente, invisibilizada, mas também inviabili-
zada. Um papel cheio de pontos, de linhas e de tin-
tas, nada pode dizer em uma gaveta, mofando. Um
grito não escutado escorre pelas paredes mudas e
a performance congela o artista na geladeira que
estala, range, mas não interage nem iterage.
Assim foi se passando o inesquecível ano de 2020,
se arrastando entre paredes ou brilhando, um
pouco, nos 15 minutos em que o sol toca jane-
las, na cerveja solitária ao final do dia surdo, em
intermináveis séries televisivas agora esgotadas:
ninguém filma, ninguém atua, ninguém monta
cenários que permitiriam outros devaneios para
longe deste confinamento. Com fim? Não sabe-
mos, mas certamente, lamento.
14 dias, 30 dias, 60 dias. No meio da solidão,
julho de 2020, uma mensagem. Tratava-se de um
convite para fazer uma sequência de fotos sobre
máscaras feito por Juliana Cerqueira, pessoa que
não via há mais de dez anos, que havia colabora-
do em alguns trabalhos em arte e tecnologia, isto
é, em performance em telepresença do Grupo
de Pesquisa
Corpos Informáticos
2
,
que coordeno
desde 1992.Resolvi telefonar e questionar, ao que
me foi respondido que era uma proposta inicial
ainda sem rumo definido. Assim, fizemos uma
simples” sequência de fotos.
Me adianto no texto para não deixar os leitores
inquietos:
Acoco
é hoje, janeiro de 2021, a me-
lhor coisa que fizemos, Juliana e eu, mas também
todos aqueles que vêm participando deste proje-
to: ele mudou nossas vidas, ele nos dá felicidade,
risadas, danças, trocas, comédias, debates sé-
rios, [e]vento, e uma infinita coleção de figurinhas
Maria Beatriz de Medeiros, Acocoré: um projeto de resistência à pandemia ou arte em tempos de telepresença.
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no
WhatsApp
. Temos performances coletivas
aos sábados no Zoom, nas quartas-feiras temos
o projeto
Entre-atos
,
nunca entrevistas no Insta-
gram
, nas segundas-feiras vamos começar um
grupo de estudos, temos um site [criado e alimen-
tado por Juliana Cerqueira: https://acocore.wix-
site.com/acocore] e cerca de 300 mensagens no
WhatsApp
por dia: conversa séria: 2%; diversão,
comédia, brincadeira, palhaçada crítica: 98%.
Temos, inclusive, uma marca.
Acoco
nasceu
Arte, Coletivos
,
Conexões e Redes
em 18 de julho de 2020 com a performance
Des-
cobrindo Máscaras
. Como dito, desde esta data
temos performado todos os sábados pelo
Zoom
.
À cada performance, corresponde um título, um
texto e uma imagem e/ou vídeo que convida para a
ação [criação e design: Juliana Cerqueira]. Somos,
em ordem alfabética: Ana Reis [GO]; Alex Simões
[BA]; Arthur Scovino [RJ, BA, SP]; Bia Medeiros [RJ,
DF]; Carla Rocha [DF, USA]; Cássia Nunes [GO];
Cristine Carvalho Nunes [RS]; Juliana Cerqueira
[RJ]; Maíra Vaz Valente [SP]; Milene Lopes Duenha
[SC, PR]; Raphael Couto [RJ]; Ricardo Garlet [SC];
Zélia Caetano [PR]; Zmário [José Mário Peixoto.
BA]. Alguns destes artistas conhecemos pessoal-
mente e/ou realizamos trabalhos em grupo, outros
foram aparecendo e se tornando parte deste
movimento, digamos, necessário. Alguns partici-
pam desde o início, outros acocoraram há pouco,
outros observam sem nos deixar vê-los, outros
pululam por lá.
Fig.1 - Logomarca do Projeto Acocoré.
Fonte: Arquivo Bia Medeiros, https://acocore.wixsite.com/acocore.
Revista Poiésis, Niterói, v. 22, n. 38, p. 266-278, jul./dez. 2021 [https://doi.org/10.22409/poiesis.v22i38.48172]