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CASAEXÍLIO
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, PALAVRAMAPA
Home-exile, map-word
Casa-exilio, palabra-mapa
Karina Dias [Universidade de Brasília, Brasil]*
Luciana Ferreira [Universidade de Brasília, Brasil)**
RESUMO O que é o exílio? – esta é a questão que norteia o diálogo entre dois pensamentos. No
primeiro, o exílio é entendido como a perda de uma casa, um lançamento no mundo, onde a procura da
casa acontece de forma incessante e sem garantias. No segundo, o exílio é vivido como a perda do mun-
do pela condição de se ter que permanecer dentro da própria casa, portanto, quando o mundo precisa
ser percorrido e inventado entre as suas paredes. O texto explora as nuances desses dois pensamentos em
diálogo com trabalhos de artistas visuais e, em alguns momentos, na sua relação com a palavra, ora uma
palavra exilada, ora uma palavra-mapa.
PALAVRASCHAVE Casa; exílio; palavra; arte contemporânea.
* Karina Dias é Pesquisadora e Professora associada do Departamento de Artes Visuais da Universidade de Brasília. E-mail: karinadias.
net@gmail.com
**Luciana Ferreira é Pesquisadora no Programa de Pós-graduação em Artes Visuais (PPGAV) da Universidade de Brasília. E-mail:
lusmferreira@yahoo.com.br
Revista Poiésis, Niterói, v. 23, n. 39, p. 205-223, jan./jun. 2022. [DOI: https://doi.org/10.22409/poiesis.v23i39.48997]
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ABSTRACT What is the exile? - that is the question that guides the dialogue between two thoughts. In the
first one, the exile is understood as the loss of a home, a launch to the world, where the search for a home
happens in an incessant and free of guarantee way. In the second one, the exile is experienced as the loss
of the world for the condition of having to remain inside its own house, therefore, when the world needs to
be crossed and invented between its walls. The text explores the nuances of these two thoughts in dialogue
with the works of visual artists and, at some points, in its relationship with the word, sometimes an exiled
word, sometimes a map-word.
mer, el exilio es entendido como la pérdida de una casa, un lanzamiento al mundo, en donde la búsqueda
de la casa ocurre de forma incesante y sin garantías. En el segundo, el exilio es vivido como la pérdida del
mundo por la condición de tener que permanecer dentro de la propia casa, por lo tanto, cuando el mundo
necesita serrecorrido e inventado entre sus paredes. El texto explora los matices de esos dos pensamientos
en diálogo con trabajos de artistas visuales y, en algunos momentos, en su relación con la palabra, por
veces una palabra exiliada, por veces una palabra-mapa.
PALABRASCLAVE Casa; exílio; palabra; arte contemporâneo.
DIAS, Karina;
FERREIRA, Luciana.
Casa-exílio, pala-
vra-mapa. Revista
Poiésis, Niterói, v.
23, n. 39, p. 205-
[DOI: https://doi.
org/10.22409/poie-
sis.v23i39.48997]
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BY-NC) © 20221
Karina Dias, Luciana
Ferreira. Submetido:
5/3/2021; Aceito:
25/5/2021
DIAS, Karina; FERREIRA, Luciana. Casa-exílio, palavra-mapa.
KEYWORDS Home; exile ; word ; contemporary art.
RESUMEN ¿Qué es el exilio? esta es la cuestión que guía el diálogo entre dos pensamientos. En el pri-
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Ana Maria Martins, em
Como se fosse a casa
[2017],
escreve:
a vontade de partir antecede sempre
a casa
estamos para ir
prestes, mas não prontos
só vigor e vontade
lar, ela pensa, é sempre lá
Talvez assim comece o exílio. Sem
dúvida, é a procura de uma casa. Acontece quando
a casa que temos, por desejo ou por necessidade,
não pode mais permanecer. É preciso partir.
Em outra passagem do mesmo texto [2017], Ana
Maria Martins continua:
penso que só sabe da casa
quem precisa atravessar
rapidamente uma fronteira
quem fez sua casa
num país que não o quer
aqueles a quem a casa
segue como um cão
Bachelard, pretendendo fazer uma fenomenologia
do espaço e, com ela, dos valores de intimidade do
espaço interior, elegeu a casa como elemento privi-
legiado. Seria ela o “nosso canto do mundo”, o nos-
so “primeiro universo”, um lugar de acolhimento dos
nossos sonhos e devaneios. Sonhos e devaneios
exigiriam a segurança de paredes sólidas e de um
teto que protegeria das tempestades, um “não-eu
que protege o eu” [BACHELARD, 2008, p.24]:
A casa teria, assim, um valor intrinsecamente ma-
ternal, de profundo amparo, proteção e acolhimento
da existência humana. E haveria, como referência
mais profunda, a “casa natal”, a casa das memórias
mais antigas, onde os hábitos se firmaram:
A partir dessa experiência do habitar, onde nascem
os hábitos, a casa passa a ser, essencialmente,
“um corpo de imagens que dão ao homem razões
ou ilusões de estabilidade” [BACHELARD,2008,
p.36]. O hábito é a organização da lida de uma
[...] todo espaço realmente habitado traz a essência da noção de casa.
[...] Na vida do homem, a casa afasta contingências, multiplica seus
conselhos de continuidade. Sem ela, o homem seria um ser disperso.
[BACHELARD, 2008, p.24-26]
A casa natal é a casa habitada [...] para além das lembranças, a
casa natal está fisicamente inserida em nós. Ela é um grupo de hábi-
tos orgânicos. [...] gravou em nós a hierarquia das diversas funções
de habitar. Somos o diagrama das funções de habitar aquela casa;
e todas as outras não passam de variações de um tema fundamental.
[BACHELARD, 2008, p.33-34]
Revista Poiésis, Niterói, v. 23, n. 39, p. 205-252, jan./jun. 2022. [DOI: https://doi.org/10.22409/poiesis.v23i39.48997]
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existência com o lugar. Estabelece padrões que
sugerem a estabilidade e permitem que a casa ha-
bitada cumpra a sua função de proteção. O hábito
adquirido no habitar a casa natal é transferido para
e reproduzido nas outras casas, perpetuando a
sensação de segurança.
Mas acontece de perder a casa. Acontece o exílio.
Como segue esse que perdeu o seu canto do mun-
do? Para onde vai esse ser agora disperso?
Fig.1 - Adrian Paci, Centro di permanenza temporanea, 2007
Fonte: https://welldesignedandbuilt.com/2012/03/02/adrian-paci-centro-di-permanenza-temporanea/[acesso em 18.02.21]
Estas questões nos tomam com sua máxima inten-
sidade quando nos deparamos com as imagens
de
Centro di permanenza temporânea.
Um vídeo
registra pessoas – claramente imigrantes – em
uma escada de aeronave, em uma pista de um ae-
roporto, sem qualquer avião próximo. Não sabemos
de qual aeroporto se trata, não sabemos a que país
pertence, não sabemos quem são essas pessoas,
não sabemos de onde vieram, não sabemos para
DIAS, Karina; FERREIRA, Luciana. Casa-exílio, palavra-mapa.
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onde vão. Não possuem sequer bagagem. Apenas
esperam em um espaço suspenso que é também
um hiato temporal entre o que foi e o que será. A
imagem, que por vezes enquadra alguns rostos,
não nos informa nada. Dá-nos apenas o duro con-
tato com a espera calma, desinformada, lacunar de
pessoas que não conseguem pisar o chão, deslo-
cadas no próprio lugar.
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O expatriado é para Blanchot não apenas aquele
que perdeu seu país, mas o que descobriu um modo
de habitar sem hábito [BLANCHOT, 2010b, p.42]. O
exílio que enfrenta exige o abandono do hábito. Por
isso a casa é difícil, embora permaneça sempre
uma procura incessante. Uma procura, por força,
desapegada da casa natal. Uma procura, porquan-
to urgente, não exigente. O exílio é um trânsito, uma
chegada que não se conclui, uma partida que nun-
ca termina. Um estado suspenso. Todo exilado é um
estrangeiro diante do mundo e diante de si mesmo.
Mas, quem é o estrangeiro? – pergunta Maldonado.
E ensaia uma resposta:
O estrangeiro é o que se despede. Deixa para trás a
estabilidade da casa e dos sonhos. Deixa para trás a
língua materna, a casa de todas as casas. Salta em
um abismo de profundidade não mensurável, onde
não se faz abrigo. O estrangeiro é uma pergunta. E,
sendo essa pergunta inquieta e insistente, ela mes-
ma imprecisa, já não espera por qualquer resposta.
Um estrangeiro nunca se sente em casa. Ele atra-
vessa a soleira de uma casa que não lhe pertence
e espera, nela, encontrar hospitalidade. “A hos-
pitalidade pressupõe [...]a possibilidade de uma
delimitação rigorosa das soleiras ou fronteiras:
entre o familiar e o não-familiar, entre o estrangeiro
e o não-estrangeiro”
[DERRIDA, 2003, p.43]. E, uma
vez atravessada a soleira, aquele diante do estran-
geiro, primeiramente, pergunta-lhe o nome. Não se
oferece hospitalidade sem que o estrangeiro se de-
fina como estrangeiro. É preciso saber quem ele é
e de onde vem para submetê-lo às leis da hospita-
lidade, pois, “do ponto de vista do direito, o hóspe-
de, mesmo quando bem recebido, é antes de tudo
um estrangeiro, ele deve continuar
estrangeiro.
[DERRIDA, 2003,
p.63].
E tudo isso já está posto no
momento primeiro quando, atra-
vessada a soleira, o estrangeiro
precisa se apresentar em uma
língua que não lhe pertence.
[Aquele que] Vem de longe. [...] [que] tem que deixar a terra dos pais, a casa,
a memória. [...] Migra, o estrangeiro. E ao migrar desmancha qualquer vínculo
com a saudade e a tradição [...] Seus adeuses não deixam rastro ou memória.
Nenhuma memória tem respostas. Pois nenhuma resposta pode se dar senão
o olvido: o olvido que se torna ausência; a ausência que para dizer de si não
necessita rzes; raízes que o êxodo da língua materna e da ilusão de que uma
palavra possa des-velar [e não apenas revelar] transforma em pura errância.
[MALDONADO, 2004, p. 30-31]
Revista Poiésis, Niterói, v. 23, n. 39, p. 205-252, jan./jun. 2022. [DOI: https://doi.org/10.22409/poiesis.v23i39.48997]
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Mas Derrida se pergunta se não seria possível outra
hospitalidade:
Há, na hospitalidade, uma antinomia entre as leis
da hospitalidade previstas pelo direito e a lei incon-
dicional da hospitalidade. São dois regimes con-
traditórios e inseparáveis, onde a lei incondicional
necessita das leis do direito enquanto as corrompe
e subverte, pois a lei incondicional da hospitalidade
seria sem lei, desprovida de deveres e imperativos
[DERRIDA, 2003, p.69-73].
Esgarçar ao limite a questão do estrangeiro e da
hospitalidade foi o que fez Paulo Nazareth. Em 2011,
percorreu a pé e de carona o caminho da sua casa
em Minas Gerais até a América do Norte. No per-
curso, fez uma série de registros da experiência que
estão reunidos no trabalho
Notícias da América.
Em um desses registros, o artista carrega no peito
uma placa de papelão escrita à mão onde coloca à
venda a sua imagem de “homem exótico”. A placa
é escrita em inglês, língua oficial do país onde se
encontra, diante do qual, enquanto homem
exótico, afirma-se como o estrangeiro
deslocado, não pertencente. Ao colocar a
sua imagem à venda, negocia a sua per-
manência. A cena acontece, entre outros
momentos, diante de uma kombi repleta de
bananas, dentro da sua exposição na
Art
Basel
, em Miami. Aqui, o estrangeiro parece
submeter-se, com ironia, às leis da hospita-
lidade impostas pelo direito local.
Em outro momento desse percurso, Paulo Nazareth
está em frente a uma placa do estado do Arizona
onde, dessa vez, carrega no peito outra placa de
papelão escrita à mão, agora em espanhol, dizendo
que também temos direito àquela paisagem. Então,
Nazareth afirma a América Latina reivindicando o
pertencimento ao lugar. Neste momento, há uma
tentativa de explosão de fronteiras:
Mi concepto de patria todos los dias se expande... nasci-
do en Brasil soy latino americano, siendo latino americano
soy tambien mexicano... soy parte de cada tierra por
donde pisaron mis pies... no hay como separar estas tierras
con una linea imaginaria llamada frontera... quiza sea por
eso que llevantaron el muro al norte: un intento de impe-
dir que Mexico siga siendo Mexico adentro de Estados
Unidos. [NAZARETH, 2009, s/p]
A hospitalidade consiste em interrogar quem chega? Ela começa
com a questão endereçada a quem vem [...]: como te chamas? [...]
Ou será que a hospitalidade começa pela acolhida inquestionável,
num duplo apagamento, o apagamento da questão e do nome? É
mais justo e mais amável perguntar ou não perguntar? [...] Oferece-se
hospitalidade a um sujeito? A um sujeito identificável? A um sujeito
identificável pelo nome? Um sujeito de direito? Ou a hospitalidade se
torna, se dá ao outro antes que ele se identifique, antes mesmo que
ele seja [posto ou suposto como tal] sujeito, sujeito de direito e sujeito
nominável por seu nome de família, etc? [DERRIDA, 2003, p.26-27]
DIAS, Karina; FERREIRA, Luciana. Casa-exílio, palavra-mapa.