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IMAGENS EM TRÂNSITO, PODERES E ARQUIVOS
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Images in transit, powers and archives
Imágenes en tránsito, poderes y archivos
Maria Ilda Trigo [Universidade Estadual de Campinas, Brasil]*
Fernanda de Souza Oliveira [Universidade Estadual de Campinas, Brasil]**
RESUMO Este artigo visa à elaboração de um ensaio crítico às imagens e aos espaços de poder em
que circulam, a partir do recorte de nossas pesquisas sobre os arquivos de fotografias pessoais. Apoian-
do-se na noção de visibilidade elaborada pela filósofa argelina Marie-José Mondzain, que destaca
a vocação para o trânsito e as relações com o poder como características fundamentais das imagens.
Tratamos no texto das consequências dessa relação, que incluem o controle de visibilidades, e que serão
levadas em consideração para a análise do objeto de nossas pesquisas: o arquivo, incluindo um arquivo
de fotografias de família, por um lado, e arquivos de imagens digitais feitas com celular, por outro.
PALAVRASCHAVE Imagens; poder; fotografia; arquivos pessoais.
ABSTRACT This article intend to elaborate a critical essay on the images and power spaces in which they
circulate, from the clipping of our research on the archives of personal photographs. Relying on the notion
of visibility elaborated by the Algerian philosopher Marie-José Mondzain, who highlights the vocation for
traffic and relations with power as fundamental characteristics of images. We deal in the text of the con-
sequences of this relationship, which include visibility control, and which will be taken into account for the
analysis of the object of our research: the file, including a file of family photographs, on the one hand, and
digital image files made with mobile phone on the other.
*Maria Ildo Trigo é Pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Artes da Universidade Estadual de Campinas.
E-mail: ildatrigo@hotmail.com. Orcid: https://orcid.org/0000-0002-4014-9630
** Fernanda Oliveira é Pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Artes da Universidade Estadual de Campinas.
E-mail: fefe_so@hotmail.com. Orcid: https://orcid.org/0000-0003-4275-1139
Revista Poiésis, Niterói, v. 23, n. 39, p. 187-204, jan./jun. 2022. [DOI: https://doi.org/10.22409/poiesis.v23i39.49002]
KEYWORDS Images; power; photography; personal archives.
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RESUMEN Este artículo tiene como objetivo elaborar un ensayo crítico sobre las imágenes y espacios
de poder en que circulan, a partir del recorte de nuestra investigación sobre los archivos de fotografías
personales. Basándose en la noción de visibilidad elaborada por la filósofa argelina Marie-José Mond-
zain, quien destaca la vocación de tráfico y las relaciones con el poder como características fundamenta-
les de las imágenes. Abordamos en el texto las consecuencias de esta relación, que incluyen el control de
visibilidad, y que serán tenidas en cuenta para el análisis del objeto de nuestra investigación: el archivo,
incluyendo un archivo de fotografías familiares, por un lado, y los archivos de imagen digital realizados
con teléfono celular por otro.
PALAVRAS CLAVE Imágenes; poder; fotografía; archivos personales.
TRIGO, Maria Ildo;
OLIVEIRA, Fernanda
de Souza. Imagens em
trânsito, poderes e ar-
quivos. Revista Poiésis,
Niterói, v. 23, n. 39,
p. 187-204, jan./jun.
2022.[DOI: https://
doi.org/10.22409/
poiesis.v23i39.49002]
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NC) © 2022
Maria Ildo Trigo,
Fernanda de Souza
Oliveira. Submetido:
5/3/2021; Aceito:
25/5/2021
TRIGO, Maria Ildo; OLIVEIRA, Fernanda de Souza. Imagens em trânsito, poderes e arquivos.
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INTRODUÇÃO: IMAGENS EM TRÂNSITO
A intensa presença das imagens na vida cotidiana,
bem como as implicações dessa presença, faz
com que pensar sobre elas na contemporaneidade
implique considerar uma série de autores para os
quais imagem rima com complexidade. Embora es-
ses autores sejam muitos – e muitas vezes contra-
digam-se – o fato de que imagens não são objetos
pacíficos tem sido a base sobre a qual se desenvol-
ve a maior parte dos pensamentos teóricos sobre
elas em ambiente acadêmico. E é também o ponto
de partida deste artigo.
Nó em redes, centro de forças, agenciadoras
de relações [MONDZAIN in: ALLOA, 2017, p. 39],
imagens não são objetos fechados, e sua inter-
pretação e compreensão não podem desconsi-
derar esse fato. Em outras palavras, não podem
ser igualmente “fechadas”, definitivas, tampouco
necessariamente concordantes.
Isso impõe a quem deseje considerar essa com-
plexidade intrínseca delimitar o campo de alcance
do pensamento a ser formulado, o que aqui se
fará pela eleição de um conjunto de autores cujas
formulações, a nosso ver, ajudam-nos a compre-
ender de forma crítica – e igualmente fecunda – o
objeto de nossas pesquisas: os arquivos de foto-
grafias pessoais.
Para lidar com essa complexidade, escolhemos a
construção de saberes sobre as imagens da filó-
sofa Marie-José Mondzain, por concordar com seu
caminho de leitura, que percebe, na construção his-
tórica das visualidades, a imagem como tendo uma
vida ou poder próprios, construídos num movimento
de dar a ver, “Pois a imagem não existe senão no
fio dos gestos e das palavras, tanto daqueles que
a qualificam e a constroem, como daqueles que a
desqualificam e a destroem” [MONDZAIN, 2009,
p.12]. Em outras palavras, trata-se da imagem como
portadora de uma singularidade que é ativada pelo
olhar do espectador: é esse gesto de olhar que ativa
o poder das imagens.
As reflexões da autora são a espinha dorsal deste
texto, que se insere nas discussões sobre uma pos-
sível vida ou poder próprio das imagens, destacan-
do que essas estão sempre entre eventos: aquele
que marca sua causa [proveniência] e aqueles de
suas destinações, aos quais podemos relacionar os
modos como se processam suas visibilidades. Aqui,
subentende-se que conhecer uma imagem signi-
fica, necessariamente, [re]conhecer sua história
e sua vocação para o “trânsito”
2
. É nesse trânsito
– e apenas nele – que a imagem se constitui e nos
constitui, instaurando e agenciando subjetividades
cujo controle foi almejado pelas mais diversas insti-
tuições nos diferentes tempos históricos.
Revista Poiésis, Niterói, v. 23, n. 39, p. 187-204, jan./jun. 2022. [DOI: https://doi.org/10.22409/poiesis.v23i39.49002]
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A compreensão de imagem no trânsito entre
sujeitos e instituições possibilita uma abordagem
profundamente política de seus estatutos: ela pas-
sa a ser considerada por seu poder formador, como
prática social, e seus estatutos são incorporados
pelos poderes instituídos, o que inclui os discursos
históricos em relação a elas.
PROVENIÊNCIA E DESTINAÇÃO
Nos caminhos percorridos por qualquer imagem,
Marie-José Mondzain aponta duas direções: aquela
de onde a imagem provém [sua proveniência ou
origem] e a[s] de sua[s] destinações, o que implica,
segundo a autora, inscrever a imagem “em uma
trajetória que visa uma gênese [...] e uma visada
sobre seu desdobramento” no tempo-espaço, com
as consequentes marcas de historicidade [MOND-
ZAIN, in ALLOA, 2017, p. 40].
Mas interrogar-se sobre o “lugar” onde a imagem
surge e os possíveis caminhos por ela percorri-
dos não pode se limitar a uma narrativa que vise
à restauração ou recuperação mais ou menos
plausível ou linear da vida “visível” deste “obje-
to” – o que parece ter sido a tarefa da História da
Arte em geral. Atentar para a imagem em trânsito
implica, primeiramente, interrogar-se sobre sua
“natureza” e seu papel na “genealogia do huma-
no”, da qual ela é indissociável [MONDZAIN, in
ALLOA, 2017, p. 40].
Para a autora, é impossível desvincular a história
das imagens da história dos sujeitos, ou da instau-
ração de “regimes de subjetividade” [MONDZAIN,
in ALLOA, 2017, p. 40]. Em entrevista concedida a
Michaela Fiserova, Mondzain afirma: “
imagem
[é] o
modo de aparição frágil de uma aparência consti-
tuinte para olhares subjetivos, em uma subjetivação
do olhar. A
imagem
é efetivamente, no meu léxico,
o que constitui o sujeito” [MONDZAIN, 2008, p.180].
Em seu livro
homo spectator: ver > fazer ver
, Ma-
rie-José simplifica ainda mais esse entendimento,
afirmando que “pode ainda dar-se o nome
imagem
a tudo o que faz de um sujeito que vê um sujeito
capaz de estabelecer com o visível uma relação de
espectador” [MONDZAIN, 2015, p.18] .
Imagem e sujeito estão totalmente imbricados,
e essa relação está na gênese das “operações
imaginantes” [MONDZAIN, in ALLOA, 2017, p. 41].
Mondzain esclarece essa relação com um exemplo
paradigmático, que ela considera como o primeiro
gesto de autorrepresentação: a impressão negativa
de uma mão na Gruta Chauvet [figura 1].
TRIGO, Maria Ildo; OLIVEIRA, Fernanda de Souza. Imagens em trânsito, poderes e arquivos.