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OS OBJETOS GRÁFICOS DE MIRA SCHENDEL: O SILÊNCIO DA FALA
NA IMAGEM
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Mira Schendel’s Objetos gráficos: the silence of speech in image
Los Objetos gráficos de Mira Schendel: el silencio del discurso en la imagen
* Thiago Grisolia Fernandes é doutorando no Programa de Pós-Graduação em Ciência da Literatura da Universidade Federal do Rio
de Janeiro. E-mail: goathigrisolia@yahoo.com.br. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-0856-8528.
Thiago Grisolia Fernandes (Universidade Federal do Rio de Janeiro, Brasil)*
RESUMO Este artigo propõe uma análise da série
Objetos gráficos
(1967/1973) de Mira Schendel, artista
nascida na Suíça e radicada no Brasil, a partir da ideia do silêncio e da ausência implicados na linguagem.
Três elementos principais são abordados nesta análise: a materialidade da letra, a transparência do suporte de
acrílico e papel de arroz e a existência de várias camadas na obra, que garantem uma profundidade à mesma.
A partir da leitura de autores como Haroldo de Campos, procuramos ainda inserir o trabalho de Mira Schendel
dentro de um campo ampliado da poesia, esgarçando as fronteiras entre palavra e imagem no contemporâneo.
PALAVRASCHAVE Mira Schendel; Objetos gráficos; silêncio; ausência.
ABSTRACT This article proposes an analysis of the series
Objetos gráficos
(1967/1973) by Mira Schendel, an
Three main elements are addressed in this analysis: the materiality of the letter, the transparency of the acrylic and
rice paper support and the existence of several layers in the work, which guarantee its depth. Based on the read-
ing of authors like Haroldo de Campos, we also try to insert Mira Schendel’s work into a broader field of poetry,
blurring the boundaries between word and image in the contemporary.
Keywords Mira Schendel; Objetos gráficos; silence; absence.
RESUMEN Este artículo propone un análisis de la serie
Objetos gráficos
(1967/1973) de Mira Schendel,
artista nacida en Suiza y afincada en Brasil, a partir de la idea de silencio y ausencia implícita en el lenguaje. En
este análisis se abordan tres elementos principales: la materialidad de la letra, la transparencia del soporte de
acrílico y papel de arroz y la existencia de varias capas en la obra, que garantizan su profundidad. A partir de
la lectura de autores como Haroldo de Campos, también intentamos insertar la obra de Mira Schendel dentro
de un campo más amplio de la poesía, difuminando los límites entre palabra e imagen en lo contemporáneo.
PALABRAS CLAVE Mira Schendel; Objetos gráficos; silencio; ausencia.
FERNANDES, Thiago
Grisolia. Os Objetos
gráficos de Mira
Schendel: o silêncio da
fala na imagem. Revista
Poiésis, Niterói, v. 23,
n. 39, p. 155-169,
jan./jun. 2022.
Este documento é dis-
tribuído nos termos da
licença Creative Com-
mons Atribuição-Não
Comercial 4.0 Interna-
cional (CC-BY-NC) ©
2022 Thiago Grisolia
Fernandes. Submetido:
10/3/2021; Aceito:
25/5/2021
Revista Poiésis, Niterói, v. 23, n. 39, p. 155-169, jan./jun. 2022. [DOI: https://doi.org/10.22409/poiesis.v23i39.49097]
artist born in Switzerland and based in Brazil, based on the idea of silence and absence implied in language.
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INTRODUÇÃO
Mira Schendel foi poeta, antes de se estabelecer
como artista visual, uma das mais instigantes do
Brasil do século XX, especialmente pela dificul-
dade - e pela falta de necessidade - de incluí-la
em alguma vertente da história da arte, de filiá-la
a alguma tendência estilística, embora isso tenha
sido tentado, com mais ou menos sucesso. Haroldo
de Campos, por exemplo, contrariando o movimen-
to mais usual da crítica, que é o de tentar inseri-la
em uma vertente mais ligada ao construtivismo e a
algumas questões do Concretismo, em entrevista a
Sônia Salzstein, afirma que
Consideramos fundamental iniciar este pensamen-
to a respeito do trabalho de Mira Schendel, mais
especificamente a respeito da série
Objetos gráfi-
cos
, realizada pela artista entre 1967 e 1973, com a
afirmação de que ela foi poeta.
Por iniciar deste modo, é recomendável recorrer
à sua biografia, mas apenas de maneira breve e
lateral, apenas para chegar aí, onde sua atividade
de poeta se revela insuficiente para dar conta de
suas questões artísticas. Caberá lembrarmo-nos de
seu nascimento em Zurique, na Suíça, em 1919, sua
formação intelectual, já em artes, mas também em
filosofia e teologia, na Itália, suas viagens em fuga
da perseguição nazista, que a levaram a Sarajevo,
Roma e, finalmente, em 1949, a Porto Alegre, no
Brasil, país onde instalou-se definitivamente até a
sua morte, em 1988. E, aqui, Mira inicia um diálogo
com intelectuais e poetas importantes, como o
físico Mário Schenberg e o poeta Haroldo de Cam-
pos, e desenvolve seu trabalho artístico, ao mesmo
tempo em que leciona e publica poemas.
Seus poemas, tais como eram publicados no início
de sua vida no Brasil, são difíceis de serem
encontrados, e não nos caberia reproduzi-los
aqui. O diálogo com a poesia que nos leva a
iniciar este ensaio afirmando que Mira Schen-
del foi poeta se revelará manifesto ao longo de
toda a sua trajetória artística, e se funda muito
mais sobre uma perspectiva ampliada de poesia
[uma perspectiva que seguiria as pistas oferecidas
por Rosalind Krauss e indicaria um campo ampli-
ado da poesia], que considera, inclusive, a poesia
muito mais a partir de sua negatividade, de seu co-
eficiente silencioso; a partir daí, interessa observar
que, já do nascedouro, a produção plástico-poética
aqueles com quem Mira teria mais ligação seriam o Hélio Oiticica,
por alguns aspectos específicos, ligados ao trabalho mais pictural
que ele realizou, e a Lygia Clark, por determinados esvaziamentos
da forma que marcam alguns de seus objetos. Eu acho que os três
formam uma constelação de artistas [CAMPOS, 1996, p. 241].
FERNANDES, Thiago Grisolia. Os Objetos gráficos de Mira Schendel: o silêncio da fala na imagem.
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de Mira articula a palavra, a imagem e o silêncio
através de um reviramento da linguagem, como
procuraremos demonstrar a seguir.
Os
Objetos gráficos
evocam, de um modo muito
singular, a ideia de vazio que permeia todo o tra-
balho de Mira, e por isso trataremos especifica-
mente de tais trabalhos neste texto. Maria Eduarda
Marques aponta-nos o seguinte:
Trata-se, no trabalho em questão, de uma série de
telas que “flutuam” pelo espaço expositivo presos
por fios de náilon [como pode ser visto na figura 1];
as telas consistem em uma série de letras, algar-
ismos e outros signos gráficos, datilografados ou
adesivados, e outros símbolos não-gráficos, mas
que remetem a espécies de rabiscos, manuscritos
por Mira, dispostos sobre uma folha de papel de
arroz prensada por duas camadas de acrílico, sobre
as quais também são inseridos alguns símbolos. A
cor de tudo isto é escura, quase preto-e-branco, ou
sépia; os símbolos, como bem apontado por Ricar-
do Nascimento Fabbrini, “são discretos, diminutos”
[FABBRINI, 2002, s/p]. As letras pairam, flutuam pelo
espaço; há profundidade, dada pelas camadas que
se sobrepõem [letras sobre acrílico sobre letras so-
bre papel de arroz sobre letras sobre acrílico sobre
letras]; e há, sobretudo, transparência.
O que salta aos olhos nesses trabalhos de Mira
são esses três elementos fundamentais: a pre-
sença da letra, dissociada da formu-
lação de um vocábulo; a profundidade,
embora pareça tratar-se de um plano;
e a transparência da composição, que
lhe confere certa fragilidade, certa
evanescência. Do intervalo entre ess-
es elementos, entre essas exigências
fundamentais dessas telas, portanto
do silêncio que, essencialmente, há nessa com-
posição, emerge o sentido que nos será caro em
sua análise.
A noção de vazio foi uma constante na obra de Mira, presente nas
pinturas e, mais intensamente, nos desenhos que veio a realizar. ‘O
espaço vazio me comove profundamente, disse ela. É o vazio do
sujeito imanente, no limiar de sua existência e expressividade, imerso
‘nel vuoto del mondo’ [no vazio do mundo] [...]. O vazio que se apre-
senta em suas pinturas não é apenas ausência de objetos represen-
tados no plano: evoca a ideia de uma negatividade produtiva [...].”
[MARQUES, 2011, p. 19-20]
Revista Poiésis, Niterói, v. 23, n. 39, p. 155-169, jan./jun. 2022. [DOI: https://doi.org/10.22409/poiesis.v23i39.49097]
Fig. 1 -Vista da exposição
Tangled alphabets: León Ferrari and Mira Schendel
, MoMA, 2009, com alguns trabalhos da série
Objetos gráficos
FERNANDES, Thiago Grisolia. Os Objetos gráficos de Mira Schendel: o silêncio da fala na imagem.
em destaque. [Fotografia de Jonathan Muzikar]
[Fonte: https://www.moma.org/calendar/exhibitions/299/installation_images/3951#, acesso em 05/03/2021.]
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A LETRA
A “poética da letra”, trabalhada pela artista Helena
Trindade em ensaio que recebe justamente esse
título, nos dá um bom caminho para pensar a letra
tornada imagem, e a decorrente relação que se
torna manifesta entre a escrita e a visualidade:
É interessante observar o trabalho de Mira por essa
perspectiva; buscar o vazio daquelas letras, que
não foi abolido delas quando receberam o novo es-
tatuto de imagens; observar que sua presença não
completa a imagem, mas a “des-completa”. Mas
a letra talvez nunca possa vir a ser um signo pura-
mente visual, plástico, principalmente no trabalho
de Mira. Isso porque, sobretudo nesses trabalhos,
pelo fato de as letras estarem aproximadas umas
das outras, avizinhadas, há um chamamento ao
sentido, à palavra, ao verbo. Essa composição, por
mais que se quisesse puramente visual, pede a nós,
espectadores, fragilizados pela nossa necessidade
de racionalizar, de pôr em palavras, de dar nossa
palavra para tornar em verdades as coisas, de sa-
ber o mundo através da palavra, que as ordenemos;
que as coloquemos em relação; que as utilizemos
para construir um sentido por vir; que imaginemos
que há uma palavra oculta, por formar-se, por
revelar-se no meio daquele turbilhão de ausências;
que há talvez uma sentença primordial
onde tudo o que vemos é ausência, onde
só o que se nos mostra é “pura entropia”
[FABBRINI, 2002, s/p], como diria o pesqui-
sador Ricardo Fabbrini a respeito da obra
de Mira. Não nos parecerá tentador achar
justamente a palavra “palavra” no canto
direito do
Objeto
mostrado a seguir [figura
2], como se se tratasse de um jogo, de um caça-pa-
lavras, de um desafio cartesiano, e “desvendar”,
assim, o sentido da obra?
a plasticidade de uma “poética da letra” decorreria de uma topologia
entre o enunciável e o visível. Ao mesmo tempo em que busca a materi-
alidade de sua encarnação no mundo: na voz, no texto; o vazio pode
ser o que ela diz. A construção de uma consistência de imagem para
a letra não implica a abolição desse vazio, antes, trata-se de cingi-lo
e dá-lo a ver, pois intui-se que esse vazio coloque toda a estrutura
simbólica a funcionar. Quando a letra “des-completa” a imagem, o ver
vem ao encontro do dizer. [TRINDADE, 2013, p. 23]
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Fig. 2 - Mira Schendel, série
Objetos gráficos
, 1997/1973
Tipografia, grafite e óleo sobre papel entre placas de acrílico tipografa-
das, 100 x 100cm.
[Fonte: https://www.moma.org/collection/works/108826, acesso em
05/03/2021.]
Revista Poiésis, Niterói, v. 23, n. 39, p. 155-169, jan./jun. 2022. [DOI: https://doi.org/10.22409/poiesis.v23i39.49097]