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XAMANISMO EM FOTOLIVROS DE CLAUDIA ANDUJAR:
YANOMAMI E AMAZÔNIA
Shamanism in photobooks by Claudia Andujar: Yanomami and Amazônia
El chamanismo en fotolibros de Claudia Andujar: Yanomami y Amazônia
Ana Carolina Albuquerque de Moraes [Universidade Estadual de Campinas, Brasil]*
RESUMO Este artigo propõe-se a analisar a abordagem do xamanismo yanomami pela fotógrafa
Claudia Andujar em seus dois primeiros fotolivros, ambos de 1978:
Yanomami
: frente ao eterno (com Darcy
Ribeiro) e
Amazônia
(com George Love). Em cada livro, são analisados o projeto gráfico, os assuntos
dominantes e, sobretudo, o modo como o tema xamanismo é abordado. O viés das análises é sobretudo
antropológico, coerentemente com o foco de Andujar na compreensão cultural dos Yanomami. Enquanto,
em
Yanomami
, a abordagem do xamanismo é discreta, em
Amazônia
, é vigorosa pela quantidade de
imagens dedicadas ao tema e a variedade de recursos visuais utilizados.
PALAVRASCHAVE Claudia Andujar; Xamanismo; Fotolivros;
Yanomami
;
Amazônia
.
* Ana Carolina Albuquerque de Moraes é professora do Departamento de Artes Visuais e Design da Universidade Federal de Sergi-
pe e doutoranda em Artes Visuais na Universidade Estadual de Campinas. E-mail: carolina.moraes@gmail.com. Orcid: https://orcid.
org/0000-0003-1560-2795
Revista Poiésis, Niterói, v. 23, n. 39, p. 224-252, jan./jun. 2022. [DOI: https://doi.org/10.22409/poiesis.v23i39.49154]
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ABSTRACT This article aims to analyze the approach on Yanomami shamanism by photographer Clau-
dia Andujar in her first two photobooks, from 1978:
Yanomami
: frente ao eterno (with Darcy Ribeiro) and
Amazônia
(with George Love). The graphic design, the dominant subjects and, especially, the way in which
the theme shamanism is addressed are analyzed in each book. The main bias employed in the analysis
is anthropological, consistent with Andujar’s focus on cultural understanding of the Yanomami. While in
Yanomami
the approach to shamanism is discreet, in
Amazônia
it is vigorous, due to the amount of images
dedicated to the theme and the variety of visual resources employed.
RESUMEN Este artículo se propone a analizar el enfoque del chamanismo yanomami por la fotógrafa
Claudia Andujar en sus dos primeros fotolibros, ambos de 1978:
Yanomami
: frente ao eterno (con Darcy
Ribeiro) y
Amazônia
(con George Love). En cada libro se analizará el proyecto gráfico, los asuntos domi-
nantes y, sobre todo, la forma en que se aborda el tema del chamanismo. El sesgo de análisis es principal-
mente antropológico, consistente con el enfoque de Andujar en la comprensión cultural de los Yanomami.
Mientras que, en
Yanomami
, el enfoque al chamanismo es discreto, en
Amazonia
es vigoroso, por la
cantidad de imágenes dedicadas al tema y la variedad de recursos visuales utilizados.
PALABRAS CLAVE Claudia Andujar; Chamanismo; Fotolibros;
Yanomami
;
Amazônia
.
DE MORAES, Ana
Carolina Albuquerque.
Xamanismo em
fotolivros de Claudia
Andujar: Yanomami e
Amazônia. Revista
Poiésis, Niterói, v. 23, n.
https://doi.
org/10.22409/poiesis.
v23i39.49154]
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cial 4.0 Internacional
(CC-BY-NC) © 2022
Ana Carolina Albuquer-
que de Moraes. Sub-
metido: 12/3/2021;
Aceito: 25/5/2021
DE MORAES, Ana Carolina Albuquerque. Xamanismo em fotolivros de Claudia Andujar: Yanomami e Amazônia.
KEYWORDS Claudia Andujar; Shamanism; Photobooks; Yanomami; Amazônia.
39, p. 224-252,
jan./jun. 2022. [DOI:
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Claudia Andujar [1931-] aproximou-se do
xamanismo e da cosmovisão yanomami aos
poucos, à medida que construía uma relação
de intimidade com as pessoas em suas su-
cessivas estadas na comunidade a partir dos
anos 1970. Decidida a dedicar-se a um único
povo por tempo indeterminado, foi-se inserin-
do entre os Yanomami e observando as rela-
ções interpessoais, as práticas cotidianas, a
visão de mundo ali dominante. Desde o início,
sentia a necessidade de entendê-los enquan-
to povo, mas, aos poucos, foi-se inteirando
da complexidade da empreitada, pois com-
preender a visão de mundo de pessoas com
origem e formação muito diferentes da sua,
sem dominar a língua ali falada, não constituía
tarefa fácil. A observação duradoura, partici-
pante, ao lado de outras estratégias que veio a
conceber com o passar do tempo, como, por
exemplo, a orientação para que algumas pes-
soas elaborassem desenhos representativos
de sua própria realidade material e imaterial,
foram recursos utilizados por Andujar para
aproximar-se de um modo de vida tão marca-
do pela alteridade em relação a si mesma.
Alinhando-se a trabalhos anteriores [MORAES,
2018, 2019, 2020], este artigo propõe-se a ana-
lisar a abordagem do xamanismo yanomami
pela artista em seus dois primeiros fotolivros:
Yanomami
: frente ao eterno, realizado em par-
ceria com o antropólogo Darcy Ribeiro [AN-
DUJAR, 1978a], e
Amazônia
, este em parceria
com o fotógrafo norte-americano George Love
[ANDUJAR; LOVE, 1978]. As duas obras serão
analisadas e comparadas quanto ao projeto
gráfico, aos assuntos dominantes e, sobretudo,
aos modos como o tema xamanismo é aborda-
do em um e outro volume. Neste último ponto, as
análises seguirão viés sobretudo antropológico,
em consonância com o objetivo-mor de Andujar
de compreensão cultural dos Yanomami.
A centralidade do tema xamanismo na obra
da fotógrafa
1
pode ser vislumbrada em
depoimentos seus, dentre os quais um que
escreveu a respeito da série
Sonhos Yanomami
[1974-2003], cujas imagens constituem o foco
da minha pesquisa de doutorado.
² Nessa
série, concebida no início dos anos 2000, a
artista sobrepõe fotografias de seu arquivo
para refotografá-las sob novas projeções de
luz, buscando evocar visões xamânicas. No
depoimento em questão, afirmou a fotógrafa:
Considero a série ‘Sonhos’ um turning point em minha
experiência com os Yanomami. As imagens que
compõem a série revelam os rituais xamanísticos do
Yanomami, ‘sua reunião com os espíritos’. [...] Se o
Revista Poiésis, Niterói, v. 23, n. 39, p. 224-252, jan./jun. 2022. [DOI: https://doi.org/10.22409/poiesis.v23i39.49154]
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registro fotográfico de culturas pode ser considerado
uma forma de compreensão do outro, eu acredito que
com a série Sonhos eu consegui entender a essência do
povo Yanomami [ANDUJAR, [2005].
Aquilo que Andujar considera “a essência do
povo Yanomami” está, portanto, relacionado
às visões acessadas pelos xamãs durante o
transe – induzido pela inalação do psicoativo
yãkoana
3
, quando a cosmovisão yanomami
revelar-se-ia do modo mais pungente, em virtude
do contato dos xamãs com imagens ancestrais
provenientes do passado absoluto. A série
Sonhos
é fruto da maturidade no relacionamento de
Andujar com os Yanomami, após mais de trinta
anos de convivência. Antes dela, a artista já
havia abordado o tema xamanismo em outros
trabalhos, como nas séries
O invisível
[1974-76]
e
Reahu
[1974-76], e em sequências imagéticas
em fotolivros, como
Yanomami: frente ao eterno
e
Amazônia
, focos deste artigo. Cada livro aborda
o tema a seu modo, com maior ou menor ênfase,
no âmbito de diferentes estratégias discursivas,
conforme será aqui discutido.
Ambos os volumes foram publicados em 1978, pela
Editora Praxis. Até então, Andujar havia estado
entre os Yanomami em cinco momentos distintos:
em 1971, enquanto fotografava para uma edição
especial da revista
Realidade
sobre a região
amazônica, estabelecendo seu primeiro contato
com a comunidade; em dezembro do mesmo
ano, durante três dias, na companhia de Love,
então seu marido; em 1972, por cerca de um mês,
acompanhando atividades cotidianas, como caça,
pesca e coleta de mantimentos; em 1974, quando
ali permaneceu a maior parte do ano, participando
de modo imersivo das atividades coletivas e
fotografando largamente as cerimônias funerárias
denominadas
reahu
; entre 1976 e 1977, durante
quatorze meses, quando desenvolveu projeto
de pesquisa financiado pela FAPESP [Fundação
de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo],
em que buscava estimular alguns Yanomami a
desenharem e narrarem aspectos de sua própria
cosmovisão, como forma de apreendê-la em maior
profundidade [NOGUEIRA, 2018, p. 167-203].
Nas duas últimas estadas mencionadas, a fotógrafa
estreitou os laços com o xamanismo yanomami.
Em 1974, fotografando as cerimônias
reahu
,
presenciou, por diversas vezes, a inalação coletiva
de
yãkoana
pelos participantes do sexo masculino
no último dia do evento. As festas
reahu
, que se
estendem por vários dias e acolhem convidados
de diferentes aldeias, são cerimônias funerárias
em que os participantes lamentam os mortos e
ingerem suas cinzas misturadas em mingaus,
de modo a garantir a ascensão de seus espíritos
DE MORAES, Ana Carolina Albuquerque. Xamanismo em fotolivros de Claudia Andujar: Yanomami e Amazônia.
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para as “costas do céu” [KOPENAWA; ALBERT,
2015]. No derradeiro dia de festa, todos os homens
inalam
yãkoana
e praticam xamanismo, buscando
alcançar um outro patamar de consciência em que
seria possível o contato com espíritos florestais.
4
A relação de Andujar com aqueles identificados na
aldeia como “xamãs” foi aprofundada enquanto a
fotógrafa desenvolvia a pesquisa fomentada pela
FAPESP, em 1976-77. Suas imersões anteriores em
território yanomami despertaram-lhe o interesse
em conhecer mais detidamente aspectos da
cosmovisão do grupo. A dificuldade de comunicar-
se oralmente com seus interlocutores foi um dos
fatores que a impulsionaram a solicitar-lhes a
materialização em desenhos de aspectos dessa
cosmovisão. Os conteúdos dos desenhos eram
verbalizados por seus autores, e o material
gravado em Yanomami era posteriormente
traduzido para o português por Carlo Zacquini,
missionário italiano que se tornou fiel parceiro da
fotógrafa na luta pela causa ameríndia [ANDUJAR,
1978b]. Segundo Andujar, no interior do grupo, “os
que mais se interessaram em desenhar foram os
xamãs” [ANDUJAR, 2005, p. 109] – o que talvez
decorresse do fato de serem eles os membros da
aldeia mais acostumados a lidar com “imagens”,
embora de outra natureza, nos sonhos induzidos
pela
yãkoana
.
A pesquisa foi bruscamente interrompida em
1977, com a expulsão da fotógrafa das terras
yanomami pelo governo militar, que a enquadrou
na Lei de Segurança Nacional, provavelmente
por suspeitas de que suas imagens seriam
utilizadas contra o regime. De volta a São Paulo, e
revoltada com a expulsão da Amazônia, Andujar
lançou-se firmemente na militância política,
fundando, juntamente com Carlo Zacquini e
o etnólogo francês Bruce Albert, a Comissão
pela Criação do Parque Yanomami [CCPY],
organização não-governamental que coordenou
por mais de vinte anos. Também se dedicou à
organização de seu amplo arquivo fotográfico
yanomami, selecionando parte desse material
para publicação.
Yanomami
:
frente ao eterno
e
Amazônia
vieram à luz nesse período.
Ambos os livros foram censurados pelo governo
militar e, mesmo após o fim do regime, nunca
chegaram a ser disponibilizados em livrarias,
apenas em sebos. Segundo Andujar, transtornado
com as duas censuras, José Regastein Rocha,
diretor da Praxis, abandonou a empresa e, em
seguida, a própria editora chegou ao fim [ANDUJAR,
2010, n.p.]. A raridade dos livros, sua qualidade
artística e relevância na trajetória de Andujar fazem
com que, atualmente, exemplares cheguem a
atingir preços robustos em sebos virtuais.
Revista Poiésis, Niterói, v. 23, n. 39, p. 224-252, jan./jun. 2022. [DOI: https://doi.org/10.22409/poiesis.v23i39.49154]
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YANOMAMI: FRENTE AO ETERNO
Yanomami
:
frente ao eterno
foi o primeiro dos
três livros
5
lançados por Claudia Andujar em
1978. O volume, realizado em parceria com Darcy
Ribeiro, inaugurava a série intitulada
Memória So-
cial
da Editora Praxis, dedicada a tratar de “temas
sociais brasileiros”, segundo a editora [ANDUJAR,
1978a, n.p.]. Nele, há a apresentação de Claudio
e Orlando Villas Boas, além de textos de Andu-
jar e Ribeiro, todos tocando, em maior ou menor
grau, nas ameaças físicas e simbólicas a que
estavam submetidos os Yanomami pelo recente
contato com a sociedade dita civilizada. O livro é
dedicado à memória do pai da fotógrafa – morto
em campo de concentração nazista, assim como
toda a sua família paterna, de origem judia –, e a
experiência traumática da guerra surge pontual-
mente, em texto de sua autoria, relacionada ao
desterro dos Yanomami: “[...] essa procura partiu
de mim, de meu próprio sofrimento e vida, mas
me ultrapassou e abarcou o destino de um povo,
como o dos Yanomami, com o qual me identi-
fiquei e cuja luta virou minha luta” [ANDUJAR,
1978a, n.p.].
O projeto gráfico foi pensado pelo artista Wesley
Duke Lee, com margens amplas e abundância de
fundo branco [NOGUEIRA, 2018, p. 203]. Ao longo
das páginas, trechos curtos sobre o cotidiano e a
cosmovisão yanomami ocupam pequeno espaço
em canto inferior de página majoritariamente
branca, acompanhando e contextualizando uma
imagem que geralmente se encontra na página
ao lado. Cada fotografia situa-se no interior de
um retângulo de linhas pretas muito finas, que
lhe serve de moldura e a faz flutuar no espaço.
Cria-se o ambiente propício para que o olhar se
demore sobre as imagens em si, com rápidas
digressões para as frases adjacentes [Fig.1].
As fotografias, todas em preto-e-branco, mos-
tram partes de corpos yanomami: rostos [frente
e perfil], seios, nuca, barriga grávida, dorso,
torso, mãos, vagina, etc. Em meio aos fragmen-
tos de corpos, alguns artefatos culturais são
enfatizados: colares de miçangas, brincos de
penas, braçadeiras, tangas femininas, cordões
penianos, dentre outros. Ora as figuras aparecem
sozinhas, ora em pares. As imagens são feitas
a uma distância muito pequena dos retratados,
fruto da intimidade que a artista havia desenvolvi-
do com eles ao longo dos anos de convivência: às
vezes, parece que podemos tocar um rosto, uma
mão, uma barriga, uma nuca. Claudia nos deixa a
sós com a intimidade de seus modelos em meio à
imensidão branca da página.
DE MORAES, Ana Carolina Albuquerque. Xamanismo em fotolivros de Claudia Andujar: Yanomami e Amazônia.
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Segundo Thyago Nogueira [2018], as fotografias
foram realizadas entre 1974 e 1976, fazendo uso
apenas da iluminação natural no interior das malo-
cas. Percebe-se, no entanto, que uma imagem foge
a essa regra, denunciando o uso de
flash
, como
veremos adiante. Nogueira ressalta que quase um
filme inteiro era consumido em cada retrato, a fim
de que fotógrafa e modelo pudessem aprofundar a
intimidade ao longo dos cliques.
Em meio às trinta e oito fotografias do livro, apenas
três aludem ao xamanismo. Elas se situam ao final
do volume, como que à espera de que o espectador/
leitor adquirisse maior familiaridade com os Yano-
mami e seus artefatos antes de ser introduzido a um
tema de maior complexidade. Na primeira das três
imagens, um homem cobre a parte inferior do rosto
com uma das mãos [Fig.2]. Os caminhos tremu-
lantes de luz que o ladeiam sugerem que ele inala
Fig. 1 - Página dupla de
:   
.
[Fonte: ANDUJAR, Claudia.
:   
. São Paulo: Práxis, 1978a.]
Revista Poiésis, Niterói, v. 23, n. 39, p. 224-252, jan./jun. 2022. [DOI: https://doi.org/10.22409/poiesis.v23i39.49154]