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Marjorie Perloff [Universidade de Stanford, Estados Unidos] *
POETA ENTRE PINTORES
Poet among painters
Un poeta entre los pintores
Tradução: Ana Clara Mattoso [Universidade Federal Fluminense, Brasil] **
Augusto Melo Brandão [Universidade Federal Fluminense, Brasil] ***
* Marjorie Perloff ministra cursos e escreve sobre poesia e poéticas anglo-americanas dos séculos XX e XXI em perspectiva comparatista, bem como sobre intermídia e ar-
tes visuais. É professora emérita de Inglês na Universidade de Stanford e titular da cadeira Florence R. Scott de professor emérito de Inglês na Universidade da Califórnia
do Sul. É membro da Academia Americana de Artes e Ciências e da Sociedade Filosófica Americana. E-mail: perloffmarjorie@gmail.com
** Ana Clara Mattoso é mestranda em Estudos Contemporâneos das Artes pela Universidade Federal Fluminense, cineasta e artista visual. E-mail:anacmattoso@gmail.
com, ORCID: https://orcid.org/0000-0003-0813-1040
*** Augusto Melo Brandão é mestrando em Estudos Contemporâneos das Artes pela Universidade Federal Fluminense, performer, escritor, tarólogo e astrólogo. E-mail:
cartas.m.b.a@gmail.com , ORCID: https://orcid.org/0000-0003-1894-634X
RESUMO O ensaio trata da relação entre a obra poética de Frank O’Hara e a pintura, em especial com as
vanguardas do expressionismo abstrato na cena artística da Nova York dos anos 1950 e 1960. O texto integra
o terceiro capítulo do livro homônimo escrito pela crítica e ensaísta Marjorie Perloff, todavia inédito em língua
portuguesa. Analisando as relações de O’Hara com artistas visuais no plano afetivo, intelectual, profissional e
artístico, Perloff enfatiza as experimentações formais desse autor cuja poesia foi diretamente influenciada pela
action painting
, pelo
happening
e pela sua atuação como crítico e curador do MoMA. O ensaio apresen-
ta ainda duas colaborações artísticas de O’Hara com os pintores Larry Rivers e Norman Bluhm, que Perloff
denomina
poemapinturas
, dado o entrelugar formal que os caracteriza, poeta e pintor agindo simultaneamente
sobre uma mesma superfície. Poesia e pintura revelam-se, na obra de O’Hara, partes de uma mesma matéria
vivente. [Resumo e palavras-chave elaborados pelos tradutores].
PALAVRASCHAVE Frank O’Hara, Marjorie Perloff, poesia e pintura, literatura em campo ampliado
Marjorie Perloff, Poeta entre pintores.
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Citação recomendada:
PERLOFF, Marjorie.
Poeta entre pintores
[tradução Ana Clara
Mattoso e Augusto
Melo Brandão]. Revista
Poiésis, Niterói, v. 22,
n. 38, p. 191-245, jul./
dez. 2021. [https://doi.
org/10.22409/poiesis.
v22i38.50654 ]
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Marjorie Perloff, Ana
Clara Mattoso, Augus-
to Melo Brandão
ABSTRACT The essay approaches the relations between Frank O’Hara’s poetry and painting, especially
with the abstract expressionism avant-garde artists in New York scene during the 1950s and 1960s. The text
integrates the third chapter of the homonymous book, written by Marjorie Perloff, yet unreleased in Portuguese.
Analyzing the relations between O’Hara and visual artists from an affective, intellectual, professional and cre-
ative perspective, Perloff emphasizes the formal experimentations of the author whose poetry was directly im-
pacted by
action painting
,
happening
and his role as art critic and curator at MoMA. The essay presents two
artistic collaborations of O’Hara with Larry Rivers and Norman Bluhm, referred by Perloff as
Poem-Paintings
,
given their formal in-between space, poet and painter acting simultaneously on the same surface. In O’Haras
lyric, poetry and painting reveal themselves to be, after all, parts from the same living substance. [Abstract and
Keywords written by the translators].
KEYWORDS Frank O’Hara, Marjorie Perloff; Poetry, painting, literature in the expanded field
RESUMEN El ensayo trata de la relación entre la poesía de Frank O’Hara y la pintura, sobre todo en lo que
respecta a las vanguardias del expresionismo abstracto en la escena artística de Nueva York en los anos 1950
y 1960. El texto forma parte del tercer capítulo del libro homónimo de la crítica y ensayista Marjorie Perloff, aún
no publicado en lengua portuguesa. Analizando las relaciones de O’Hara con artistas visuales en perspectiva
afectiva, intelectual, profesional y artística, Perloff subraya las experimentaciones formales de ese autor cuya
poesía fue directamente influenciada por la
action painting
, por el
happening
y por su actuación como crítico y
curador del MoMA. El ensayo presenta aún dos colaboraciones artísticas de O’Hara con los pintores Larry Ri-
vers y Norman Bluhm, que Perloff llama de
poemapinturas
, debido al entre-lugar formal que los califica, poeta
y pintor actuando simultáneamente sobre una misma superficie. Poesía y pintura resultan, en la poética O’Haria-
na, partes de una misma materia viviente. [Resumen y palabras-clave escritos por los traductores]
PALABRASCLAVE Frank O’Hara, Marjorie Perloff; poesía, pintura, literatura en campo ampliado
Revista Poiésis, Niterói, v. 22, n. 38, p. 191-245, jul./dez. 2021 [https://doi.org/10.22409/poiesis.v22i38.50654]
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Em 1965, Francine du Plessix, ao editar uma pu-
blicação especial da revista
Art in America
sobre
a relação da poesia com a pintura, fez um convite
para que vinte e dois pintores escolhessem um
poema contemporâneo que lhes fosse especial e
dedicassem a ele um trabalho em preto e branco
produzido no suporte de suas preferências.” “A fim
de evitar duplicações”, ela explica, “eu defini um
sistema de escolha por ordem de chegada. Três
pintores de Nova York, por exemplo, tiveram que
fazer uma segunda escolha porque Frank O’Hara, o
poeta que desejavam ilustrar, já tinha sido escolhi-
do por Jasper Johns, o primeiro artista a responder
o nosso projeto e a pedir para interpretar a obra de
O’Hara
1
” [DU PLESSIX, 1965, p. 24].
A popularidade de O’Hara entre os principais
artistas de sua época é hoje emblemática. Rene
d’Harnoncourt, em seu prefácio de
In Memory of
My Feeling
[publicado em 1967, o volume comemo-
rativo
deluxe
trazia trinta poemas de O’Hara ilus-
trados por artistas com os quais o poeta mantinha
relações extremamente próximas] explica: “Frank
nunca precisou ser incisivo porque ele sabia
exatamente o que sentia diante de uma obra de
arte. Ele cultivava uma integridade absoluta, e nela
Às vezes eu penso que “estou apaixonado” pela pintura.
[O’HARA, 1971, p. 329]
não havia espaço para presunção... foi através de
sua presença que muitos entre nós aprenderam
formas melhores de enxergar
2
”. Naturalmente,
as trinta ilustrações do livro variam em termos
de qualidade, estilo e adequação ao poema em
questão, no entanto, quando apreendidas como
um todo, não falham em transmitir um testemunho
eloquente da relação extraordinária que O’Ha-
ra nutria com pintores tão diversos como Larry
Rivers, Robert Motherwell, Jasper Johns, Graça
Hartigan, Barnett Newman, Robert Rauschenberg,
Alfred Leslie, Norman Bluhm, Joe Brainard, Helen
Frankenthaler e Willem de Kooning. Desde o início
dos anos cinquenta, tempo em que vendia cartões
de Natal na recepção do
Museu de Arte Moderna
de Nova York, até o ano de sua morte, momento
em que, como curador, começou a trabalhar numa
grandiosa retrospectiva das obras de Jackson
Pollock e finalmente havia garantido o consenti-
mento de De Kooning para organizar uma relevan-
te coletânea de sua trajetória na pintura, O’Hara
trabalhou em estreita colaboração com muitos
desses artistas, organizando suas exposições,
visitando seus ateliês, entrevistando-os e escre-
vendo sobre seus trabalhos. Muitas das parcerias
[
poemapinturas
e suas respectivas performan-
ces em suportes variados] desenvolvidas a partir
dessas conexões, são, em sua própria essência,
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importantes obras de arte – mesmo que os críticos
literários tenham a inclinação de ignorá-las. Retor-
naremos a elas nos próximos tópicos deste texto.
Costuma-se argumentar que as artes visuais
tomaram muito tempo de O’Hara, impedindo-o de
se dedicar àquilo que seria sua verdadeira vocação
– a poesia. John Ashbery, por exemplo, aponta:
Há momentos em que queria que ele não tivesse se envolvido tão fertilmente com
o Museu e o mundo da arte. Ao contrário da maioria dos artistas que ilustrou o
seu livro, por mais que Frank fosse um poeta aclamado internacionalmente, as
dinâmicas econômicas do mundo da arte não permitiam que ele se sustentasse
exclusivamente do seu trabalho. Isso significa que ele nunca poderia se dedicar
à poesia por mais do que uma fração de seu tempo
3
. [ASHBERY, 1968, p. 68]
Em termos práticos, faz sentido: escrever poe-
mas correndo durante a hora do almoço ou numa
festa lotada, como O’Hara costumava fazer, não
parece ser o jeito mais apropriado para escul-
pir palavras. Entretanto, do mesmo modo que
Williams, a quem ele se assemelha em tantos
aspectos, O’Hara se apropriava – e, mais do que
isso, precisava – deste outro ofício como fonte de
inspiração. Como relembra Joe Le Sueur, o único
período no qual O’Hara se absteve do Museu
[janeiro a junho de 1956] em decorrência de um
prêmio relativo ao
Poet’ s Theatre
em Cambridge,
Massachusetts, acabou se transformando “num
verdadeiro inferno para ele”:
[...] ele odiava ficar longe de Nova York e de todos os
seus amigos, odiava ter que retornar aos mesmos cenários
dos seus anos de faculdade, e enquanto esteve em Mas-
sachusetts não escreveu nenhuma dramaturgia, apenas
alguns poemas. Assim que se liberou, voltou para Nova
York num surto, bebeu mais do que eu jamais o vira beber
e ficava o tempo todo falando como Cambridge era pro-
vinciana [...]. Nitidamente Frank não se encaixava no perfil
dos editais para os quais ele nem sequer se candidatou,
nem em lugares como Yaddo, onde
ele nunca colocou os pés; eu acho que
ele via nesses espaços algo como a
criação de situações artificiais para a
escrita. Mas me parece que a dispo-
sição do Museu funcionou para ele.
Não que a rotina e o trabalho buro-
crático fossem uma fonte de prazer, na
verdade, muitas vezes tudo isso fazia com que ele chegas-
se à beira do colapso; era simplesmente uma questão de,
quem sabe, precisar da concretude e disciplina do mundo
regrado do trabalho diário [...]. E, acima de tudo, ele
acreditava no que estava fazendo. Para ele, não se tratava
apenas de um trabalho, era uma necessidade vital
4
.
O Museu, portanto, serviu a O’Hara como um
point
de repère
, um centro sólido e estável cuja rotina das
nove às cinco oferecia um contrapeso ao seu estilo
de vida libertário e desorganizado. Mas até mesmo
as famosas noitadas de muito álcool e conversação
– fossem elas no Cedar Bar
5
ou nas festas de Long
Island – cumpriam uma importante função na vida
do poeta. Como LeSueur constata:
Revista Poiésis, Niterói, v. 22, n. 38, p. 191-245, jul./dez. 2021 [https://doi.org/10.22409/poiesis.v22i38.50654]
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[...] ele parecia inspirado e eletrizado por todos os seus amigos pintores, desde Bill De Koo-
ning, a quem idolatrava, até outros nomes que surgiram nos anos 60, como Alan d’Arcan-
gelo. Era tão grande o tempo que dedicava para olhar e refletir sobre esses trabalhos que
você pensaria que o que existia ali era um forte interesse no desenvolvimento deles enquanto
artistas. Mas eu não compactuo inteiramente com essa ideia sugerida por vários amigos de
Frank, de que sua generosidade o afastou de seu próprio trabalho. Não foi exatamente isso
o que aconteceu. Ele ofereceu-lhes encorajamento, inspirou-os com suas ideias e sua pai-
xão; eles, por sua vez, colidiram e adentraram em sua poesia, que, sem essa interferência,
não teria sido a mesma e provavelmente não seria tão boa. [“Four Apartments”, p. 292]
e serigrafias menores e
maiores, espalha-se
por cima e ao redor da
figura nua reclinada do
poeta [Fig. 1], palavras
são atiradas sobre
formas sugestivas e
semi-abstratas em
suas estonteantes
cores brilhantes. É interessante notar como o
poeta e a pintora abordam de maneiras seme-
lhantes a palavra
oranges
: exceto pelo título,
O’Hara nunca a menciona; já em Hartigan, a cor é
usada apenas ocasionalmente, não sendo de
forma alguma proeminente em sua série.
Neste caso, então, a poesia inspirou a pintura. Mas
a recíproca também é verdadeira. Graça [o nome
carrega, obviamente, infinitas leituras] aparece
numa sequência de poemas, começando com o
soneto de amor inicial,
Poem for a Painter/
Poema
para um pintor
7
, no qual o interlocutor declara:
Graça,
você é a florista na campina à luz de velas
os dedos encharcados de aguarrás
8
Sua poesia, sem dúvida, não teria sido a mesma.
Em primeiro lugar, os pintores e a pintura alimen-
taram O’Hara com um de seus temas centrais.
Considere Graça Hartigan, cuja vida esteve extre-
mamente conectada à de Frank no início dos anos
1950 até 1960
6
, e o papel desempenhado por ela
nos poemas. Na opinião da pintora, ela e o poeta
muitas vezes se apropriavam da mesma imagem
como ponto de partida. Assim, quando Graça
Hartigan pintou
Oranges | Laranjas
, a série corres-
pondente aos doze pastorais de mesmo nome que
O’Hara havia escrito poucos anos antes, ela
encontrou as formas mais engenhosas de aplicar
as palavras do poeta: algumas vezes, amontoando
um poema inteiro em um canto da tela, outras, no
objetivo de criar fortes camadas de tensão e
êxtase, espalhando apenas algumas palavras
pela superfície. Como acontece em
What Fire
Murmurs Its Sedition
, onde todo o terceiro poema
em prosa de O’Hara, fragmentado em texto corrido
[O’HARA, 1971, p. 80]
Marjorie Perloff, Poeta entre pintores.