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IMAGEM TRANS : TRANSE, FABULAÇÃO E
SOBREVIVÊNCIAS NA FRONTEIRA
trans image: trance, fabulation and survival at the borderland
imagen trans: transe, fabulación y sobrevivencias en la frontera
Camila Freitas [Universidade Federal do Rio de Janeiro, Brasil]*
José Miguel Olivar [Universidade de São Paulo, Brasil]**
Revista Poiésis, Niterói, v. 23, n. 39, p. 18-54, jan./jun. 2022. [DOI: https://doi.org/10.22409/poiesis.v23i39.52941]
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*Camila Freitas é mestranda em Linguagens Visuais pela Escola de Belas Artes da UFRJ.
**José Miguel Olivar é doutor em antropologia social e professor nas áreas de antropologia, gênero e sexualidade, e estudos sociais
da ciência e da técnica na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo.
RESUMO Em uma encruzilhada de confluências e divergências entre cinema, antropologia e artes
visuais, o objeto deste texto se articula com o desenvolvimento de um longa-metragem sobre a rede de
filhos e filhas de santo e o terreiro do Pai Jairo, e a
fronteira
na cidade de Tabatinga (AM), entre Brasil,
Peru e Colômbia. Temos como base uma experiência híbrida de pesquisa junto à rede de jovens
gays
e
trans
atuantes na produção local de Umbanda mais ou menos próximos do mercado do sexo nesta tríplice
fronteira. Apostamos nas potências da
imagem
e do ato narrativo e fabulativo enquanto chaves para
habitar e transitar por mundos hostis e fazer emergir contrapoderes para transformar o real. O território
especulativo ocupa um lugar especial na criação de mundos dessa rede, e os espaços de partilha
narrativa marcam o seu cotidiano. Os nossos encontros com ela são atravessados pelas performances
narrativas das jovens e de suas entidades companheiras. Com base nessas interações, pudemos também
inventar e propor dispositivos metodológicos de "contação de estórias". Para sustentar nossas análises,
apresentamos aqui algumas das muitas sequências narrativas íntimas que emergiram desses encontros.
PALAVRASCHAVE Umbanda; juventude; contação de histórias; Amazônia; gênero; fronteira; sobrevivência
FREITAS, Camila;
OLIVAR, José Miguel.
imagem trans: transe,
fabulação e sobre
vivências na fronteira.
Revista Poiésis, Niterói,
v. 23, n. 39,
p. 18-54, jan./jun.
2022. [DOI: https://
doi.org/10.22409/
poiesis.v23i39.52941]
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NC) © 2022 Camila
Freitas e José Miguel
Olivar.
Fig. 1 [página anterior]
- Camila Freitas e João
Vieira Torres,
BABADO
,
longa-metragem em
desenvolvimento, 2022.
FREITAS, Camila; OLIVAR, José Miguel. imagem trans: transe, fabulação e sobre vivências na fronteira.
E-mail: camilasfreitas@gmail.com. Orcid: 0000-0002-5963-8944
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ABSTRACT At a crossroads of confluences and divergences between cinema, anthropology and visual
arts, the objective of this text is articulated with the development of a feature film on the network of sons
and daughters of santo and the terreiro of Pai Jairo, and the
border
in the city of Tabatinga (AM) -between
Brazil, Peru and Colombia. We are based on a hybrid experience of research with the network of young
gays
and
trans
people acting in the local production of Umbanda and more or less engaged with the
sexual markets in this triple border. We bet on the power of the
image
, the narrative and fabulation act as
keys to inhabit and transit through hostile worlds and make counterpowers emerge to transform the real.
The speculative territory occupies a special place in the creation of worlds of this network, and the spaces
of narrative communion mark its ordinary. Our encounters with this network are traversed by the narrative
performances of the young participants and their companion entities. Based on these interactions, we were
also able to invent and propose methodological devices for storytelling. To support our analysis, we present
here some of the many intimate narrative sequences that emerged from these encounters.
KEYWORDS Umbanda; youth; storytelling; Amazon; gender; border; survival
RESUMEN En una encrucijada de confluencias y divergencias entre el cinema, la antropología y las
artes visuales, el objetivo de este texto se articula con el desarrollo de un largometraje sobre la red de hijos
e hijas de santo y el terreiro de Pai Jairo, y la
frontera
en la ciudad de Tabatinga (AM), entre Brasil, Peru y
Colombia. Tenemos como base una experiencia híbrida de investigación junto a la red de jóvenes
gays
y
trans
actuantes en la producción local de la Umbanda y más o menos cercanos a los mercados sexuales
en esta triple frontera. Apostamos en las potencias de la
imagen
y del acto narrativo y fabulativo como
llaves para habitar y transitar por mundos hostiles y hacer emerger contrapoderes para transformar lo real.
El territorio especulativo ocupa un lugar especial en la creación de mundos de esta red, y los espacios
de comunión narrativa marcan su cotidiano. Nuestros encuentros con esta red son atravesados por las
performances narrativas de las jóvenes y de sus entidades compañeras. Con base en estas interacciones,
pudimos también inventar y proponer dispositivos metodológicos para contar historias. Para dar soporte a
nuestro análisis, presentamos aquí algunas de las muchas secuencias narrativas íntimas que emergieron de
estos encuentros.
PALABRAS CLAVE Umbanda; juventud; contar historias; Amazonía; género; frontera; supervivencia
Revista Poiésis, Niterói, v. 23, n. 39, p. 18-54, jan./jun. 2022. [DOI: https://doi.org/10.22409/poiesis.v23i39.52941]
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Su cuerpo es una bocacalle.
[Anzaldúa,2012[1987]]: 80]
Sobrevida não é apenas aquilo que resta,
ela é a vida mais intensa possível.
[DERRIDA, 2005, p. 55-56]
Les images sont trans-genre, queer parfois,
transgénériques toujours.
[MONDZAIN, 2012, p. 101]
MACUMBA, CRESCIMENTO E SOBREVIVÊNCIA:
QUINHO/TILINHA
Certa noite, Quinho teve um sonho com uma
mulher loira e alta em uma encruzilhada. Ela lhe
apresentava dois caminhos: um limpo e outro cheio
de espinhos. No sonho, ela escolheu o caminho
mais difícil. Na época, havia perdido a mãe e pas-
sava por um longo processo depressivo. Sua família
repudiava o fato de Quinho ser uma mulher trans e
a renegou. Uma tia que vivia em Manaus convidou-
-a a morar com ela. Preocupada com seu estado
psicológico, apresentou-lhe um hospital espírita.
A partir dali, Quinho foi também apresentada a
um terreiro de Umbanda, onde teve contato com
caboclos e erês, pombagiras e exus. Em uma de
suas idas iniciais a um terreiro, conheceu Jairo, que
também vivia em Manaus naquele momento e co-
meçava a se iniciar como pai de santo. Lá mesmo,
tomou a decisão de acompanhá-lo, tornando-se
uma de suas primeiras filhas de santo.
Antes da
macumba
1, Quinho - apelido que rece-
bera da mãe quando criança - foi evangélica e
adorava a igreja. Em um dos primeiros encontros
que fizemos para a realização do filme
Babado
[ver nota #9], pediu para falar para a câmera sobre
um episódio violento que marcou sua infância e
se interpôs entre ela e a fé cristã. Sua mãe tinha
uma relação próxima com o pastor, que chama-
va o então Ely de 10 anos para brincar com seus
filhos em casa. Quinho recebia visitas noturnas
do sacerdote, que o pastor dizia serem ordenadas
por Deus. Os estupros se prolongaram por mais
ou menos dois anos. O menino não queria vol-
tar àquela casa, mas a mãe o obrigava. Quando
finalmente tomou coragem para relatar o acon-
tecido, ninguém acreditou; apenas um tio decidiu
averiguar os fatos. Após confirmação, toda a igreja
soube, mas o caso foi abafado. Sua mãe finalmen-
te o acolheu, conferindo-lhe proteção. Quando
ela faleceu, no entanto, Quinho já havia feito sua
transição, e a família a renegou: os irmãos, após o
enterro, barraram sua entrada em casa.
Em Manaus, encantada com suas amigas “travas”
lindas e maravilhosas, Quinho “se libertou” e se
FREITAS, Camila; OLIVAR, José Miguel. imagem trans: transe, fabulação e sobre vivências na fronteira.