SILVA, Luiz Henrique G.; SOUSA, Rosineide M. de. Caretagem, uma
manifestação identitária na comunidade quilombola São Domingos
PragMATIZES - Revista Latino-
Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 11, n. 20, p. 259-276
, março 202
Caretagem
, uma manifestação identitária na comunidade quilombola São
DOI:
https://doi.org/10.22409/pragmatizes.v11i20.44445
Resumo:
Neste trabalho, buscamos
identidade quilombola da Comunidade São Domingos
relacionados à identidade (GIDDENS, 1991; HALL, 1992 entre outros)
etnografia (FLICK, 2009; MAGNANI 2002
etnográfico, é investigar a relação da identidade dos integrantes da comunidade quilombola São
Domingos, que se manifesta pela dança da
realizadas com integrantes da comunidade, buscamos investigar a cultura e a identidade. Os
principais resultados encontrados indicam que muitos se identificam e sentem orgulho de serem
quilombolas, in
clusive manifestam esse orgulho perpetuando suas culturas, como a
referendando sinais de pertencimento. Todavia, também traços de deslocamento e novas
construções de autoidentidades que apontam para o desejo de mudança de alguns integrantes,
principalmente os mais jovens, o que não impede que s
sejam perpetuadas na comunidade.
Palavras-chave
Caretagem
, una manifestación de identidad en comunidad
Resumen:
En este trabajo, buscamos comprender cuál es la relación de la custodia como una marca
de identidad quilombola de la Comunidad de o Domingos
relacionados con la identidad (GIDDENS, 1991; HALL, 1992 entre otros) y metodo
la etnografía (FLICK, 2009; MAGNANI 2002). El objetivo central de la investigación, de carácter
cualitativo y etnográfico, es investigar la relación de la identidad de los miembros de la comunidad
quilombola de São Domingos, que se manif
1
Luiz Henrique Gomes da Silva. Professor de Linguística da Universidade Estadual de Montes Claros
-
MG. Mestre e doutorando pela Universidade de Brasília. E
https://orcid.org/0000-0003-
2248
2
Rosineide Magalhães de Sousa.
da Universidade
de Brasília/UnB, Brasil. Lí
Letramentos Múltiplos e Educação
0001-7588-4224
Texto recebido em 06/09/20
20,
SILVA, Luiz Henrique G.; SOUSA, Rosineide M. de. Caretagem, uma
manifestação identitária na comunidade quilombola São Domingos
.
Americana de Estudos em Cultura,
, março 202
1.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
(
Fluxo Contínuo
, uma manifestação identitária na comunidade quilombola São
Domingos
https://doi.org/10.22409/pragmatizes.v11i20.44445
Luiz Henrique Gomes Silva
Rosineide Magalhães de
Neste trabalho, buscamos
compreender qual a relação da
Caretagem
identidade quilombola da Comunidade São Domingos
-
MG, tendo como base pressupostos teóricos
relacionados à identidade (GIDDENS, 1991; HALL, 1992 entre outros)
e metodológicos através da
etnografia (FLICK, 2009; MAGNANI 2002
)
. O objetivo central da pesquisa, de cunho qualitativo,
etnográfico, é investigar a relação da identidade dos integrantes da comunidade quilombola São
Domingos, que se manifesta pela dança da
Caretagem
. Para tanto, em entrevistas semiestruturadas
realizadas com integrantes da comunidade, buscamos investigar a cultura e a identidade. Os
principais resultados encontrados indicam que muitos se identificam e sentem orgulho de serem
clusive manifestam esse orgulho perpetuando suas culturas, como a
referendando sinais de pertencimento. Todavia, também traços de deslocamento e novas
construções de autoidentidades que apontam para o desejo de mudança de alguns integrantes,
principalmente os mais jovens, o que não impede que s
uas culturas, principalmente a Caretagem
sejam perpetuadas na comunidade.
: Identidade quilombola; etnografia;
Caretagem; cultura.
, una manifestación de identidad en comunidad
quilombola São Domingos
En este trabajo, buscamos comprender cuál es la relación de la custodia como una marca
de identidad quilombola de la Comunidad de o Domingos
-
MG, basada en supuestos teóricos
relacionados con la identidad (GIDDENS, 1991; HALL, 1992 entre otros) y metodo
la etnografía (FLICK, 2009; MAGNANI 2002). El objetivo central de la investigación, de carácter
cualitativo y etnográfico, es investigar la relación de la identidad de los miembros de la comunidad
quilombola de São Domingos, que se manif
iesta por la danza de
Caretagem
Luiz Henrique Gomes da Silva. Professor de Linguística da Universidade Estadual de Montes Claros
MG. Mestre e doutorando pela Universidade de Brasília. E
-
mail: henriquegomes2@yahoo.com.br
2248
-7473
Rosineide Magalhães de Sousa.
Professora da Pós-
Graduação e Graduação da Área de Linguística
de Brasília/UnB, Brasil. Lí
der do Grupo de Pesquisa CNPq
(Socio)Linguística,
Letramentos Múltiplos e Educação
- SOLEDUC. E-mail: rosineide@unb.br -
https://orcid.org/0000
20,
aceit
o para publicação em 12/10/2020 e disponibilizado online
em 01/03/2021.
259
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
- ISSN 2237-1508
Fluxo Contínuo
)
, uma manifestação identitária na comunidade quilombola São
Luiz Henrique Gomes Silva
1
Rosineide Magalhães de
Sousa
2
Caretagem
como marca de
MG, tendo como base pressupostos teóricos
e metodológicos através da
. O objetivo central da pesquisa, de cunho qualitativo,
etnográfico, é investigar a relação da identidade dos integrantes da comunidade quilombola São
. Para tanto, em entrevistas semiestruturadas
realizadas com integrantes da comunidade, buscamos investigar a cultura e a identidade. Os
principais resultados encontrados indicam que muitos se identificam e sentem orgulho de serem
clusive manifestam esse orgulho perpetuando suas culturas, como a
Caretagem,
referendando sinais de pertencimento. Todavia, também traços de deslocamento e novas
construções de autoidentidades que apontam para o desejo de mudança de alguns integrantes,
uas culturas, principalmente a Caretagem
,
quilombola São Domingos
En este trabajo, buscamos comprender cuál es la relación de la custodia como una marca
MG, basada en supuestos teóricos
relacionados con la identidad (GIDDENS, 1991; HALL, 1992 entre otros) y metodo
lógica a través de
la etnografía (FLICK, 2009; MAGNANI 2002). El objetivo central de la investigación, de carácter
cualitativo y etnográfico, es investigar la relación de la identidad de los miembros de la comunidad
Caretagem
. Por lo tanto, en
Luiz Henrique Gomes da Silva. Professor de Linguística da Universidade Estadual de Montes Claros
mail: henriquegomes2@yahoo.com.br
-
Graduação e Graduação da Área de Linguística
(Socio)Linguística,
https://orcid.org/0000
-
o para publicação em 12/10/2020 e disponibilizado online
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manifestação identitária na comunidade quilombola São Domingos
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, março 202
entrevistas semiestructuradas con miembros de la comunidad, buscamos investigar la cultura y la
identidad. Los principales resultados encontrados indican que muchos se identifican y se sienten
orgullosos de
ser quilombolas, incluso expresan este orgullo al perpetuar sus culturas, como
Caretagem
, respaldando signos de pertenencia. Sin embargo, también hay rastros de desplazamiento
y nuevas construcciones de autoidentidades que apuntan al deseo de cambio de al
especialmente los más jóvenes, lo que no impide que sus culturas, especialmente el cuidado, se
perpetúen en la comunidad.
Palabras clave
: Identidad quilombola; etnografía; Caretage; cultura.
Caretagem
, an identity manifestation in
Abstract:
In this work, we seek to understand what is the relationship of
identity mark of the São Domingos Community
identity (GIDDENS, 1991; HA
LL, 1992 among others) and methodological through ethnography
(FLICK, 2009; MAGNANI 2002). The central objective of the research, of a qualitative, ethnographic
nature, is to investigate the relation of the identity of the members of the São Domingos
community, which is manifested by the dance of
with members of the community , we seek to investigate culture and identity. The main results found
indicate that many identify themselves and feel pro
by perpetuating their cultures, such as
also traces of displacement and new constructions of self
of some members, especially the younger ones, which does not prevent their cultures, especially the
face, from being perpetuated in the community.
Keywords
: Quilombola identity; ethnography;
Caretagem
, uma manifestação identitária n
1. Introdução
A comunidade quilombola São
Domingos encontra-
se na cidade de
Paracatu, na região Noroeste de Minas
Gerais, a cerca de 3 km do centro do
município. A comunidade possui este
nome devido a uma homenagem ao
Santo “São Domingos”, pois, em
oração, foi pedido ao
santo a benção
de maneira que curasse as pessoas e
a solicitação foi atendida. Em honra à
SILVA, Luiz Henrique G.; SOUSA, Rosineide M. de. Caretagem, uma
manifestação identitária na comunidade quilombola São Domingos
.
Americana de Estudos em Cultura,
, março 202
1.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
(
Fluxo Contínuo
entrevistas semiestructuradas con miembros de la comunidad, buscamos investigar la cultura y la
identidad. Los principales resultados encontrados indican que muchos se identifican y se sienten
ser quilombolas, incluso expresan este orgullo al perpetuar sus culturas, como
, respaldando signos de pertenencia. Sin embargo, también hay rastros de desplazamiento
y nuevas construcciones de autoidentidades que apuntan al deseo de cambio de al
especialmente los más jóvenes, lo que no impide que sus culturas, especialmente el cuidado, se
: Identidad quilombola; etnografía; Caretage; cultura.
, an identity manifestation in
quilombola community São Domingos
In this work, we seek to understand what is the relationship of
Caretagem
identity mark of the São Domingos Community
-
MG, based on theoretical assumptions related to
LL, 1992 among others) and methodological through ethnography
(FLICK, 2009; MAGNANI 2002). The central objective of the research, of a qualitative, ethnographic
nature, is to investigate the relation of the identity of the members of the São Domingos
community, which is manifested by the dance of
Caretagem. Therefore, in semi
-
with members of the community , we seek to investigate culture and identity. The main results found
indicate that many identify themselves and feel pro
ud of being quilombolas
, even expressing this pride
by perpetuating their cultures, such as
Caretagem
, endorsing signs of belonging. However, there are
also traces of displacement and new constructions of self
-
identities that point to the desire for change
of some members, especially the younger ones, which does not prevent their cultures, especially the
face, from being perpetuated in the community.
: Quilombola identity; ethnography;
Caretagem; culture.
, uma manifestação identitária n
a comunidade quilombola São
Domingos
A comunidade quilombola São
se na cidade de
Paracatu, na região Noroeste de Minas
Gerais, a cerca de 3 km do centro do
município. A comunidade possui este
nome devido a uma homenagem ao
Santo “São Domingos”, pois, em
santo a benção
de maneira que curasse as pessoas e
a solicitação foi atendida. Em honra à
promessa, batizou-
se a comunidade
com o nome do Santo.
O reconhecimento da
comunidade São Domingos como
remanescente, encontra
publicação no Diário Oficial
43, de 4 de março de 2004, a
Portaria Interna 06 da Fundação
Cultural Palmares.
Os primeiros moradores da
comunidade, segundo relato dos
260
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
- ISSN 2237-1508
Fluxo Contínuo
)
entrevistas semiestructuradas con miembros de la comunidad, buscamos investigar la cultura y la
identidad. Los principales resultados encontrados indican que muchos se identifican y se sienten
ser quilombolas, incluso expresan este orgullo al perpetuar sus culturas, como
, respaldando signos de pertenencia. Sin embargo, también hay rastros de desplazamiento
y nuevas construcciones de autoidentidades que apuntan al deseo de cambio de al
gunos miembros,
especialmente los más jóvenes, lo que no impide que sus culturas, especialmente el cuidado, se
quilombola community São Domingos
Caretagem
as a quilombola
MG, based on theoretical assumptions related to
LL, 1992 among others) and methodological through ethnography
(FLICK, 2009; MAGNANI 2002). The central objective of the research, of a qualitative, ethnographic
nature, is to investigate the relation of the identity of the members of the São Domingos
quilombola
-
structured interviews
with members of the community , we seek to investigate culture and identity. The main results found
, even expressing this pride
, endorsing signs of belonging. However, there are
identities that point to the desire for change
of some members, especially the younger ones, which does not prevent their cultures, especially the
a comunidade quilombola São
se a comunidade
com o nome do Santo.
O reconhecimento da
comunidade São Domingos como
remanescente, encontra
-se em uma
publicação no Diário Oficial
da União
43, de 4 de março de 2004, a
Portaria Interna 06 da Fundação
Os primeiros moradores da
comunidade, segundo relato dos
SILVA, Luiz Henrique G.; SOUSA, Rosineide M. de. Caretagem, uma
manifestação identitária na comunidade quilombola São Domingos
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, março 202
remanescentes do quilombo, foram
Manoel Lopes e Josefá Caldeira. A
história da comunidade São Domingos
data de meados de 1731, mas,
posteriormente, outras famílias
também ali fizeram parte de sua
constituição. São as famílias Ferreira e
Mendanha.
Hodiernamente, a comunidade
conta com aproximadamente 450
moradores, distribuídos em cerca de
70 famílias. De a
cordo com
informações dos moradores, a água
que vem dos rios próximos está
contaminada pela mineradora Kinross,
o que diminuiu a proliferação dos
peixes e a utilização da água para
afazeres domésticos.
Como tradição, várias famílias
oriundas da comunidade,
casamento, fixam moradia perto da
casa dos pais, isto acontece também
por motivos financeiros, uma vez que
se tratam
de famílias com baixa renda,
dessa maneira os lotes se
transformam em propriedade coletiva.
Esta tradição perpetua os costumes
também ajuda a preservar
a identidade
das pessoas que constituem a
comunidade quilombola São
Domingos.
SILVA, Luiz Henrique G.; SOUSA, Rosineide M. de. Caretagem, uma
manifestação identitária na comunidade quilombola São Domingos
.
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(
Fluxo Contínuo
remanescentes do quilombo, foram
Manoel Lopes e Josefá Caldeira. A
história da comunidade São Domingos
data de meados de 1731, mas,
posteriormente, outras famílias
também ali fizeram parte de sua
constituição. São as famílias Ferreira e
Hodiernamente, a comunidade
conta com aproximadamente 450
moradores, distribuídos em cerca de
cordo com
informações dos moradores, a água
que vem dos rios próximos está
contaminada pela mineradora Kinross,
o que diminuiu a proliferação dos
peixes e a utilização da água para
Como tradição, várias famílias
oriundas da comunidade,
após o
casamento, fixam moradia perto da
casa dos pais, isto acontece também
por motivos financeiros, uma vez que
de famílias com baixa renda,
dessa maneira os lotes se
transformam em propriedade coletiva.
Esta tradição perpetua os costumes
e
a identidade
das pessoas que constituem a
comunidade quilombola São
Em se tratando
regional, a história remonta ao período
colonial. Sobre a descoberta do ouro
em Paracatu, o historiador Olympio
Gonzaga (1910)
afirma que desde
1722 havia registro de ocorrência de
ouro “nas cabeceiras do rio Paracatu”,
conforme carta patente datada de 26
de janeiro de 1722.
De acordo
com o historiador
Oliveira Mello (2002), em 1733 chega
a essa região Felisberto Caldeira
Brant
, que se instalou entre os
Córregos Pobre e Rico, dando início
formação do Arraial de São Luiz e
Sant’Anna das Minas do Paracatu.
Nessa mesma época também ocorre a
chegada da família Rodrigues Fróes,
juntamente com outras famílias, que
rapidamente povoar
am a região.
Com a descoberta oficial do
ouro, em 20 de outubro de 1798, por
alvará de Dona
Maria I, o Distrito é
elevado à categoria de vila e passa a
denominar-
se Vila de Paracatu do
Príncipe, em homenagem ao P
Dom Pedro, que seria o proclamador
d
a independência do Brasil, mas por
lei provincial 163, no dia 09 de
março de 1840, Paracatu conquistou o
título de cidade.
261
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
- ISSN 2237-1508
Fluxo Contínuo
)
Em se tratando
da mineração
regional, a história remonta ao período
colonial. Sobre a descoberta do ouro
em Paracatu, o historiador Olympio
afirma que desde
1722 havia registro de ocorrência de
ouro “nas cabeceiras do rio Paracatu”,
conforme carta patente datada de 26
com o historiador
Oliveira Mello (2002), em 1733 chega
a essa região Felisberto Caldeira
, que se instalou entre os
Córregos Pobre e Rico, dando início
à
formação do Arraial de São Luiz e
Sant’Anna das Minas do Paracatu.
Nessa mesma época também ocorre a
chegada da família Rodrigues Fróes,
juntamente com outras famílias, que
am a região.
Com a descoberta oficial do
ouro, em 20 de outubro de 1798, por
Maria I, o Distrito é
elevado à categoria de vila e passa a
se Vila de Paracatu do
Príncipe, em homenagem ao P
ríncipe
Dom Pedro, que seria o proclamador
a independência do Brasil, mas por
lei provincial 163, no dia 09 de
março de 1840, Paracatu conquistou o
SILVA, Luiz Henrique G.; SOUSA, Rosineide M. de. Caretagem, uma
manifestação identitária na comunidade quilombola São Domingos
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Niterói/RJ, Ano 11, n. 20, p. 259-276
, março 202
Após alguns séculos da
descoberta e de exploração aurífera,
em 1987, no município de Paracatu,
instalou-
se a empresa Rio Paracatu
Mineração, hoje denominada Kinross,
pertencente ao grupo Canadense
Kinross Gold Corporation, que está
presente na América do Norte
(Canadá e Estados Unidos), na
América do Sul (Brasil e Chile), na
Eurásia (Rússia) e na África (Gana e
Mauritânia). Hoje, sen
do uma das
maiores produtoras no Brasil, apenas
esta empresa é responsável por cerca
de 25% de toda a extração de ouro no
país.
Em 2005, a Kinross Gold
Corporation assumiu o controle das
operações de exploração da
antes feito pela empresa Rio Paracat
Mineração, e tem convivido com o
município, fazendeiros e comunidades,
muitas delas quilombolas, mas
também promovendo grande
discussão que envolve conflitos e/ou
reconhecimento de moradores dessas
regiões em relação à empresa.
Explorando o local conhec
como Morro do Ouro, desde 1980, no
município de Paracatu-
MG, em 2006 a
Kinross
iniciou um projeto de
expansão, fazendo com que a
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manifestação identitária na comunidade quilombola São Domingos
.
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1.
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(
Fluxo Contínuo
Após alguns séculos da
descoberta e de exploração aurífera,
em 1987, no município de Paracatu,
se a empresa Rio Paracatu
Mineração, hoje denominada Kinross,
pertencente ao grupo Canadense
Kinross Gold Corporation, que está
presente na América do Norte
(Canadá e Estados Unidos), na
América do Sul (Brasil e Chile), na
Eurásia (Rússia) e na África (Gana e
do uma das
maiores produtoras no Brasil, apenas
esta empresa é responsável por cerca
de 25% de toda a extração de ouro no
Em 2005, a Kinross Gold
Corporation assumiu o controle das
operações de exploração da
mina,
antes feito pela empresa Rio Paracat
u
Mineração, e tem convivido com o
município, fazendeiros e comunidades,
muitas delas quilombolas, mas
também promovendo grande
discussão que envolve conflitos e/ou
reconhecimento de moradores dessas
regiões em relação à empresa.
Explorando o local conhec
ido
como Morro do Ouro, desde 1980, no
MG, em 2006 a
iniciou um projeto de
expansão, fazendo com que a
produção do minério triplicasse,
passando a extrair anualmente da
mina cerca de 17 toneladas de ouro.
Ela também renovou a
exploração do ouro e ampliou em
cerca de 30 anos a vida útil da mina,
sendo
a exploração prevista até 2042.
Pelo fato de a mineradora estar
tão em foco na cidade, e também por
discursos que ela prejudicava, em
alguns fatores,
os
tomamos conhecimento de
comunidades quilombolas que sofriam
alguns prejuízos, mas também
incentivos, por parte da empresa.
Assim, tomamos conhecimento da
Comunidade Quilombola São
Domingos que, apesar de ser a mais
próxima da cidade, ainda é a que mais
pr
eserva sua cultura ancestral.
Por conseguinte,
apresentaremos uma manifestação
cultural, que é própria de algumas
Comunidades Quilombolas de
Paracatu, mas que foi criada e ainda
se
perpetua na Comunidade
Quilombola São Domingos, a
Caretagem
, como forma de
manifestação identitária. Assim,
procuramos compreender qual a
relação da
Caretagem
identidade quilombola da Comunidade
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- ISSN 2237-1508
Fluxo Contínuo
)
produção do minério triplicasse,
passando a extrair anualmente da
mina cerca de 17 toneladas de ouro.
Ela também renovou a
concessão de
exploração do ouro e ampliou em
cerca de 30 anos a vida útil da mina,
a exploração prevista até 2042.
Pelo fato de a mineradora estar
tão em foco na cidade, e também por
discursos que ela prejudicava, em
os
seus vizinhos,
tomamos conhecimento de
comunidades quilombolas que sofriam
alguns prejuízos, mas também
incentivos, por parte da empresa.
Assim, tomamos conhecimento da
Comunidade Quilombola São
Domingos que, apesar de ser a mais
próxima da cidade, ainda é a que mais
eserva sua cultura ancestral.
Por conseguinte,
apresentaremos uma manifestação
cultural, que é própria de algumas
Comunidades Quilombolas de
Paracatu, mas que foi criada e ainda
perpetua na Comunidade
Quilombola São Domingos, a
, como forma de
manifestação identitária. Assim,
procuramos compreender qual a
Caretagem
como marca de
identidade quilombola da Comunidade
SILVA, Luiz Henrique G.; SOUSA, Rosineide M. de. Caretagem, uma
manifestação identitária na comunidade quilombola São Domingos
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Americana de Estudos em Cultura,
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, março 202
São Domingos, tendo como objetivo
investigar a conexão identificacional
dos integrantes dessa comunidade,
que se manifesta
pela dança da
Caretagem.
2. Cultura e identidade quilombola
De acordo com Leite (2008), as
comunidades quilombolas podem ser
entendidas como instâncias sociais
pelo fato de suas histórias, culturas
apresentadas, experiência dos sujeitos
e seus posicionam
entos serem
geradores de sentido. Dessa forma,
mudam com o passar do tempo, o que
proporciona uma complexidade de
acordo com o contexto histórico, social
e cultural pelo qual passam em suas
comunidades.
Apesar dos sujeitos que formam
a comunidade partilhar
em de vários
momentos e experiências, quando se
fala em identidade coletiva, ela não
deve ser compreendida como uma
supressão do indivíduo, pois a
identidade é marcada por um
acontecimento indicado pela
flexibilidade e pela fluidez. Assim, é
fundamental qu
e o povo quilombola
possua espaço simbólico de maneira
que possam transitar por uma
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manifestação identitária na comunidade quilombola São Domingos
.
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1.
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(
Fluxo Contínuo
São Domingos, tendo como objetivo
investigar a conexão identificacional
dos integrantes dessa comunidade,
pela dança da
2. Cultura e identidade quilombola
De acordo com Leite (2008), as
comunidades quilombolas podem ser
entendidas como instâncias sociais
pelo fato de suas histórias, culturas
apresentadas, experiência dos sujeitos
entos serem
geradores de sentido. Dessa forma,
mudam com o passar do tempo, o que
proporciona uma complexidade de
acordo com o contexto histórico, social
e cultural pelo qual passam em suas
Apesar dos sujeitos que formam
em de vários
momentos e experiências, quando se
fala em identidade coletiva, ela não
deve ser compreendida como uma
supressão do indivíduo, pois a
identidade é marcada por um
acontecimento indicado pela
flexibilidade e pela fluidez. Assim, é
e o povo quilombola
possua espaço simbólico de maneira
que possam transitar por uma
identidade que remonte ao passado,
mas também que aspire
Ainda seguindo essa linha de
pensamento, existe uma dinamicidade
nas dimensões pessoal e social da
ide
ntidade pelo fato de a constituição
do sujeito ocorrer em um determinado
contexto cultural, político e social,
modificando o sujeito e sendo
modificada concomitantemente.
Segundo Ciampa (2001), o
compartilhamento e a identificação de
um determinado grupo c
conjunto simbólico engloba
percepção dos participantes enquanto
sujeitos no mundo. Dessa forma, o
sujeito pode atuar sobre esse mundo e
o influenciá-
lo subjetivamente.
A identidade é
como o posicionamento adquirido,
relacionado a uma
social quanto histórica.
sensação de pertencimento do
indivíduo, ao poder compartilhar
conteúdos simbólico-
afetivos com seus
pares, formando, assim, um grupo.
Essa maneira de posicionar
um caráter ativo do sujeito
comunidade a que pertence,
constituindo sua identidade baseada
em fatores históricos, situacionais,
sociais.
263
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Fluxo Contínuo
)
identidade que remonte ao passado,
mas também que aspire
a um futuro.
Ainda seguindo essa linha de
pensamento, existe uma dinamicidade
nas dimensões pessoal e social da
ntidade pelo fato de a constituição
do sujeito ocorrer em um determinado
contexto cultural, político e social,
modificando o sujeito e sendo
modificada concomitantemente.
Segundo Ciampa (2001), o
compartilhamento e a identificação de
um determinado grupo c
om um
conjunto simbólico engloba
m a
percepção dos participantes enquanto
sujeitos no mundo. Dessa forma, o
sujeito pode atuar sobre esse mundo e
lo subjetivamente.
A identidade é
compreendida
como o posicionamento adquirido,
relacionado a uma
realidade tanto
social quanto histórica.
Ela ocorre pela
sensação de pertencimento do
indivíduo, ao poder compartilhar
afetivos com seus
pares, formando, assim, um grupo.
Essa maneira de posicionar
-se define
um caráter ativo do sujeito
junto à
comunidade a que pertence,
constituindo sua identidade baseada
em fatores históricos, situacionais,
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manifestação identitária na comunidade quilombola São Domingos
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Isso posto, deve-
se destacar
que fazer parte de um determinado
grupo depende do compartilhamento
de singulares práticas, uma vez que a
perc
epção depende do entendimento,
das semelhanças e das afinidades de
cada indivíduo. Assim, incluindo a
cultura quilombola, os conteúdos
simbólico-
afetivos surgem de maneira
subjetiva para cada pessoa, a partir de
experiências pessoais e sociais
mais lhe marcarem.
Dessa forma, os
significados, por serem simbólicos, são
construídos socialmente e são
constituídos como elementos culturais,
trazendo em seu bojo questões como
crenças, valores, memórias,
representações, festas públicas,
histórias etc.
Não obsta
nte, em várias
expressões culturais, várias práticas
de resistência podem ser observadas.
Semelhante ao passado colonial, a
identidade quilombola se constrói,
atualmente, como uma identidade de
luta, mas não mais contra a
escravização como antigamente, mas
contra a negação de sua existência
e/ou invisibilidade de sua existência
enquanto quilombolas.
De acordo com Calheiros
Stadtler (2010), reconhecer
SILVA, Luiz Henrique G.; SOUSA, Rosineide M. de. Caretagem, uma
manifestação identitária na comunidade quilombola São Domingos
.
Americana de Estudos em Cultura,
, março 202
1.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
(
Fluxo Contínuo
se destacar
que fazer parte de um determinado
grupo depende do compartilhamento
de singulares práticas, uma vez que a
epção depende do entendimento,
das semelhanças e das afinidades de
cada indivíduo. Assim, incluindo a
cultura quilombola, os conteúdos
afetivos surgem de maneira
subjetiva para cada pessoa, a partir de
experiências pessoais e sociais
que
Dessa forma, os
significados, por serem simbólicos, são
construídos socialmente e são
constituídos como elementos culturais,
trazendo em seu bojo questões como
crenças, valores, memórias,
representações, festas públicas,
nte, em várias
expressões culturais, várias práticas
de resistência podem ser observadas.
Semelhante ao passado colonial, a
identidade quilombola se constrói,
atualmente, como uma identidade de
luta, mas não mais contra a
escravização como antigamente, mas
contra a negação de sua existência
e/ou invisibilidade de sua existência
De acordo com Calheiros
e
Stadtler (2010), reconhecer
-se
quilombola é resultado de uma
identidade que é concebida
socialmente, marcada de estigmas
devido à escr
avização passada, mas
também em um contexto marcado por
relações de poder. Referendando o
que já foi mencionado anteriormente, a
identidade é resultado da
convergência de forças sociais que
agem sobre o sujeito, podendo ser
compreendida como resultado de s
ação, mas também da sociedade.
À vista disso, a nomenclatura
remanescentes quilombolas
trazer
certa inconsistência referente à
identidade desses povos, pois
ao passado, em um presente que
insistentemente os to
esses povos
ficam entre uma
identidade histórica e uma ameaça à
própria existência enquanto
quilombolas. Uma das consequências,
conforme Arruti (2006), é correrem o
risco de não possuírem uma
identidade social, pelo fato de serem
constituídos no universo hegemônico
co
mo “remanescentes”
Nas palavras de Arruti (1997, p.
23), “apesar das exigências do termo,
os ‘remanescentes’ não são sobras de
antigos quilombos prontos para serem
identificados como tais, presos aos
264
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- ISSN 2237-1508
Fluxo Contínuo
)
quilombola é resultado de uma
identidade que é concebida
socialmente, marcada de estigmas
avização passada, mas
também em um contexto marcado por
relações de poder. Referendando o
que já foi mencionado anteriormente, a
identidade é resultado da
convergência de forças sociais que
agem sobre o sujeito, podendo ser
compreendida como resultado de s
ua
ação, mas também da sociedade.
À vista disso, a nomenclatura
remanescentes quilombolas
pode
certa inconsistência referente à
identidade desses povos, pois
ligados
ao passado, em um presente que
insistentemente os to
rna “invisíveis”,
ficam entre uma
identidade histórica e uma ameaça à
própria existência enquanto
quilombolas. Uma das consequências,
conforme Arruti (2006), é correrem o
risco de não possuírem uma
identidade social, pelo fato de serem
constituídos no universo hegemônico
mo “remanescentes”
.
Nas palavras de Arruti (1997, p.
23), “apesar das exigências do termo,
os ‘remanescentes’ não são sobras de
antigos quilombos prontos para serem
identificados como tais, presos aos
SILVA, Luiz Henrique G.; SOUSA, Rosineide M. de. Caretagem, uma
manifestação identitária na comunidade quilombola São Domingos
PragMATIZES - Revista Latino-
Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 11, n. 20, p. 259-276
, março 202
fatos do passado por uma
continuidade evidente e pronta
resgatada na ‘memória coletiva’ do
grupo”, pois, tendo esse pensamento,
pode ocorrer o engessamento
identidade social do grupo.
Apesar de ocorrer todo um
trabalho político e jurídico
a essa
questão quilombola, uma série
de implicações i
dentitárias envolve o
grupo, pois
ao serem intitulados como
“remanescente de quilombos”
uma dialética que tanto pode limitá
simbolicamente
(BOURDIEU, 2006)
como também possibilitar o surgimento
de novas perspectivas.
3. Cultura e subjetividade na
formação da identidade
Com o intuito de orientar
determinadas relações sociais, a
cultura é tida como um sistema de
códigos que serve para comunicar
algo, sendo muitas delas regras.
campo simbólico na cultura é outro
fator que proporciona aos indivíduos
uma possibilidade de
criar redes de
relações sociais, carregada de
práticas, signos, crenças e valores.
Dessa maneira, as comunidades
podem ser compreendidas a partir de
suas estruturas específicas e
SILVA, Luiz Henrique G.; SOUSA, Rosineide M. de. Caretagem, uma
manifestação identitária na comunidade quilombola São Domingos
.
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Fluxo Contínuo
fatos do passado por uma
continuidade evidente e pronta
mente
resgatada na ‘memória coletiva’ do
grupo”, pois, tendo esse pensamento,
pode ocorrer o engessamento
da
Apesar de ocorrer todo um
em relação
questão quilombola, uma série
dentitárias envolve o
ao serem intitulados como
“remanescente de quilombos”
vem
uma dialética que tanto pode limitá
-los
(BOURDIEU, 2006)
como também possibilitar o surgimento
3. Cultura e subjetividade na
Com o intuito de orientar
determinadas relações sociais, a
cultura é tida como um sistema de
códigos que serve para comunicar
algo, sendo muitas delas regras.
O
campo simbólico na cultura é outro
fator que proporciona aos indivíduos
criar redes de
relações sociais, carregada de
práticas, signos, crenças e valores.
Dessa maneira, as comunidades
podem ser compreendidas a partir de
suas estruturas específicas e
subjetividades, caracterizando
condutas dos sujei
tos de um grupo
relação ao ambiente a que pertence
ou a outros grupos.
A cultura é uma das grandes
responsáveis na formação do
indivíduo, a partir do momento em que
ele cresce e partilha um determinado
ambiente com seus pares, trabalhando
a
homogeneidade das diferenças em
cada povo. De acordo com Mathews
(2002), uma ideia semelhante a muitos
estudos
sobre esse tema é a de que
cada cultura representa um
determinado universo simbólico,
organizado socialmente, com
características limitadas e coe
em povos ou comunidades distintos.
Assim, é comum ocorrer certos
padrões de
comportamentos e valores
compartilhados
entre membros
pertencentes de cada grupo em
contraste a outros membros
pertencentes a outros grupos.
Diante do que foi apresentado,
p
odemos entender que a cultura atua
no processo de formação subjetiva do
sujeito. Por conseguinte, a
subjetividade é um conceito que
procura explanar a maneira como o
indivíduo organiza e produz sentidos e
significados pessoais, operados no
265
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)
subjetividades, caracterizando
certas
tos de um grupo
em
relação ao ambiente a que pertence
m,
A cultura é uma das grandes
responsáveis na formação do
indivíduo, a partir do momento em que
ele cresce e partilha um determinado
ambiente com seus pares, trabalhando
homogeneidade das diferenças em
cada povo. De acordo com Mathews
(2002), uma ideia semelhante a muitos
sobre esse tema é a de que
cada cultura representa um
determinado universo simbólico,
organizado socialmente, com
características limitadas e coe
rentes
em povos ou comunidades distintos.
Assim, é comum ocorrer certos
comportamentos e valores
entre membros
pertencentes de cada grupo em
contraste a outros membros
pertencentes a outros grupos.
Diante do que foi apresentado,
odemos entender que a cultura atua
no processo de formação subjetiva do
sujeito. Por conseguinte, a
subjetividade é um conceito que
procura explanar a maneira como o
indivíduo organiza e produz sentidos e
significados pessoais, operados no
SILVA, Luiz Henrique G.; SOUSA, Rosineide M. de. Caretagem, uma
manifestação identitária na comunidade quilombola São Domingos
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âmbito social. C
onforme Deschamps
Moliner (2009), ocorre um diálogo
permanente diante da realidade que
permeia os indivíduos, de maneira que
ao fazerem parte de um grupo e se
reconhecerem nele,
mesmo diante de
suas singularidades e diferenças, há
uma identificação com o
indivíduos, apesar de suas
subjetividades, auxiliando na
construção de suas identidades.
Em relação à identidade,
Gonzalez Rey (2003) defende que ela
pode ser compreendida como
resultado da ação tanto da sociedade
quanto do próprio indivíduo, havendo
uma convergência de forças sociais de
maneira que ele possa agir como
protagonista, ou não, mas auxiliando
na construção de sua identidade. a
subjetividade, ainda segundo o autor,
é produzida
simultaneamente
nível individual
quanto social,
ind
ependente do reconhecimento de
sua origem histórico-
social. Nesse
ínterim, a subjetividade deve estar
relacionada não
apenas às
experiências sociais e individuais
vivenciadas, mas à maneira em que
uma dada experiência adquira
significado dentro em uma conj
subjetiva da história do sujeito.
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onforme Deschamps
e
Moliner (2009), ocorre um diálogo
permanente diante da realidade que
permeia os indivíduos, de maneira que
ao fazerem parte de um grupo e se
mesmo diante de
suas singularidades e diferenças, há
uma identificação com o
utros
indivíduos, apesar de suas
subjetividades, auxiliando na
construção de suas identidades.
Em relação à identidade,
Gonzalez Rey (2003) defende que ela
pode ser compreendida como
resultado da ação tanto da sociedade
quanto do próprio indivíduo, havendo
uma convergência de forças sociais de
maneira que ele possa agir como
protagonista, ou não, mas auxiliando
na construção de sua identidade. a
subjetividade, ainda segundo o autor,
simultaneamente
tanto no
quanto social,
ependente do reconhecimento de
social. Nesse
ínterim, a subjetividade deve estar
apenas às
experiências sociais e individuais
vivenciadas, mas à maneira em que
uma dada experiência adquira
significado dentro em uma conj
untura
subjetiva da história do sujeito.
Ainda de acordo com Gonzalez
Rey (2003), é uma rede de
informações e zonas de sentido que
transitam entre metamorfoses e
identificações que constitui o sujeito.
Essa constituição ocorre a partir da
história do indiv
íduo e de seu sistema
de relações, levando em consideração
a instância social geradora de sentidos
que são produzidos a partir da
experiência do sujeito, e atuando como
produtora de sentidos.
Dessa maneira, a identidade
envolve o sujeito ao contexto
está inserido, alinhando sentimentos
subjetivos a lugares objetivos,
ocupados
nas relações
culturais ao qual pertencem. Assim,
segundo Hall (2003), há uma projeção
de
nossas identidades culturais, de
maneira que ocorre uma absorção de
seus valor
es e significados, tornando
os
parte de nós mesmos.
a identidade seria
interpelados pelos sistemas culturais,
move-
se em direção às diferentes
representações que nos tornamos.
A dimensão social da identidade
pode ser compreendida
posicionamento
em que a coletividade
envolve as faces
pessoais de cada
sujeito em determinados grupos.
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)
Ainda de acordo com Gonzalez
Rey (2003), é uma rede de
informações e zonas de sentido que
transitam entre metamorfoses e
identificações que constitui o sujeito.
Essa constituição ocorre a partir da
íduo e de seu sistema
de relações, levando em consideração
a instância social geradora de sentidos
que são produzidos a partir da
experiência do sujeito, e atuando como
produtora de sentidos.
Dessa maneira, a identidade
envolve o sujeito ao contexto
em que
está inserido, alinhando sentimentos
subjetivos a lugares objetivos,
nas relações
sociais e
culturais ao qual pertencem. Assim,
segundo Hall (2003), há uma projeção
nossas identidades culturais, de
maneira que ocorre uma absorção de
es e significados, tornando
-
parte de nós mesmos.
À vista disso,
a identidade seria
algo que,
interpelados pelos sistemas culturais,
se em direção às diferentes
representações que nos tornamos.
A dimensão social da identidade
pode ser compreendida
como um
em que a coletividade
pessoais de cada
sujeito em determinados grupos.
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manifestação identitária na comunidade quilombola São Domingos
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, março 202
Todavia, se levarmos em consideração
a concepção identitária de grupo
étnico
como as comunidades
quilombolas
, numa visão
antropológica, notar
emos que uma
identidade que os diferencia dos
demais, uma vez que:
A identidade étnica pode estar
baseada em diversos fatores, como
a autoclassificação, uma
ancestralidade comum, uma
estrutura de organização política
própria, um sistema de produção
particular (incluem-
se as formas
específicas de exploração e
relacionamento com a terra), em
características raciais, em elementos
linguísticos e religiosos, ou em
símbolos específicos. (ANDRADE
TRECCANI, 1999, p.
4)
Destarte, o conceito de
identidade quilombola
ocorre a partir
das representações que os sujeitos em
questão estão inseridos, e a partir
suas identificações com significados e
valores que são socialmente
construídos. O reconhecimento dos
sujeitos enquanto grupo ocorre diante
de um contexto histórico-
cultural e do
posicionamento coletivo
compartilharem costumes, valores e
histórias, comungando de um mesmo
passado. a subjetividade
quilombola, remete-nos a
discursos sobre a história do grupo,
sendo
constituída por relações soc
e representações.
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Todavia, se levarmos em consideração
a concepção identitária de grupo
como as comunidades
, numa visão
emos que uma
identidade que os diferencia dos
A identidade étnica pode estar
baseada em diversos fatores, como
a autoclassificação, uma
ancestralidade comum, uma
estrutura de organização política
própria, um sistema de produção
se as formas
específicas de exploração e
relacionamento com a terra), em
características raciais, em elementos
linguísticos e religiosos, ou em
símbolos específicos. (ANDRADE
;
4)
Destarte, o conceito de
ocorre a partir
das representações que os sujeitos em
questão estão inseridos, e a partir
de
suas identificações com significados e
valores que são socialmente
construídos. O reconhecimento dos
sujeitos enquanto grupo ocorre diante
cultural e do
posicionamento coletivo
ao
compartilharem costumes, valores e
histórias, comungando de um mesmo
passado. a subjetividade
narrativas e
discursos sobre a história do grupo,
constituída por relações soc
iais
A análise histórico
sugerida
está baseada
interpretação da cultura quilombola,
levando em consideração suas
singularidades e particularidades
intrínsecas ao contexto. A cultura
assimilada
pelos sujeitos, revela uma
construção de significados imprimindo
autenticidade ao universo simbólico
analisado, permitindo
compreender a lógica social
Dessa maneira, na tentativa de se
compreender a cultura quilombola aqui
apresentada, é interessante levar em
consider
ação o imaginário social
construído por seus sujeitos, que
remete a um passado de lutas,
discriminação, escravidão e
resistência.
4. Identidade na modernidade tardia
Com base nos estudos de
Stuart Hall (2003), a nomenclatura
“modernidade tardia” faz alusão às
transformações ocorridas com o
avançar da modernidade, não
indicando uma ruptura, mas sim uma
continuidade de projeto.
Anthony Giddens (1991)
defende que nas soc
tradicionais, o passado é venerado,
sendo os símbolos valorizados pelo
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)
A análise histórico
-cultural
está baseada
em
interpretação da cultura quilombola,
levando em consideração suas
singularidades e particularidades
intrínsecas ao contexto. A cultura
pelos sujeitos, revela uma
construção de significados imprimindo
autenticidade ao universo simbólico
analisado, permitindo
-nos
compreender a lógica social
envolvida.
Dessa maneira, na tentativa de se
compreender a cultura quilombola aqui
apresentada, é interessante levar em
ação o imaginário social
construído por seus sujeitos, que
nos
remete a um passado de lutas,
discriminação, escravidão e
4. Identidade na modernidade tardia
Com base nos estudos de
Stuart Hall (2003), a nomenclatura
“modernidade tardia” faz alusão às
transformações ocorridas com o
avançar da modernidade, não
indicando uma ruptura, mas sim uma
continuidade de projeto.
Anthony Giddens (1991)
defende que nas soc
iedades
tradicionais, o passado é venerado,
sendo os símbolos valorizados pelo
SILVA, Luiz Henrique G.; SOUSA, Rosineide M. de. Caretagem, uma
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fato de perpetuar a experiência dos
antepassados e possui na tradição um
meio menos instável de lidar com o
tempo e o espaço, uma vez que dá
uma continuidade ao passado, sendo
e
struturados por práticas sociais
recorrentes, como a dança da
Caretagem
, que acontece na
comunidade pesquisada e que será
apresentada nas próximas seções.
O autor ainda
discute
modernidade é uma forma altamente
reflexiva da vida e não é apenas
const
ituída como a experiência de
convivência com a mudança rápida
nas palavras de Giddens (1991, p. 37),
“as práticas sociais o
constantemente examinadas e
reformadas à luz das informações
recebidas sobre aquelas próprias
práticas, alterando, assim,
constit
utivamente, seu caráter.”
Segundo Laclau (1990), as
sociedades modernas não possuem
nenhum centro e não se desenvolvem
de acordo com o desdobramento de
uma única causa ou lei, mas de uma
“pluralidade de centros de poder”.
Dessa maneira, ilustramos a teoria
dando enfoque às identidades
“formadas” na comunidade quilombola
São Domingos, onde muitos
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manifestação identitária na comunidade quilombola São Domingos
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fato de perpetuar a experiência dos
antepassados e possui na tradição um
meio menos instável de lidar com o
tempo e o espaço, uma vez que dá
uma continuidade ao passado, sendo
struturados por práticas sociais
recorrentes, como a dança da
, que acontece na
comunidade pesquisada e que será
apresentada nas próximas seções.
discute
que a
modernidade é uma forma altamente
reflexiva da vida e não é apenas
ituída como a experiência de
convivência com a mudança rápida
;
nas palavras de Giddens (1991, p. 37),
“as práticas sociais o
constantemente examinadas e
reformadas à luz das informações
recebidas sobre aquelas próprias
práticas, alterando, assim,
utivamente, seu caráter.”
Segundo Laclau (1990), as
sociedades modernas não possuem
nenhum centro e não se desenvolvem
de acordo com o desdobramento de
uma única causa ou lei, mas de uma
“pluralidade de centros de poder”.
Dessa maneira, ilustramos a teoria
dando enfoque às identidades
“formadas” na comunidade quilombola
São Domingos, onde muitos
integrantes possuem orgulho de ser
quilombola e manifestam esse orgulho
através de suas culturas e crenças
todavia essa afirmação não atinge
toda a comunidade, uma
muitos jovens pensam em trabalhar
fora da comunidade desejando,
principalmente, a mineradora Kinross.
Laclau chamou este fenômeno de
“deslocamento”. Para ele, as
sociedades da modernidade tardia são
caracterizadas pela “diferença”, pois
elas são a
travessadas por
antagonismos que produzem uma
gama de diferentes posições de sujeito
ou seja, identidades
indivíduos, que proporcionam às
sociedades não desaparecerem
totalmente, contudo serem articuladas
conjuntamente.
Embora
essa concepção de
identidade seja
desconfortante por ser
diferente do conceito de identidade
que trazíamos da nossa estrutura
social e dos nossos antepassados,
Laclau (1990) reitera que esse
deslocamento também possui
características positivas, uma vez que
abre novas possi
articulações, isto é, a possibilidade do
surgimento de criação de novos
sujeitos.
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)
integrantes possuem orgulho de ser
quilombola e manifestam esse orgulho
através de suas culturas e crenças
;
todavia essa afirmação não atinge
toda a comunidade, uma
vez que
muitos jovens pensam em trabalhar
fora da comunidade desejando,
principalmente, a mineradora Kinross.
Laclau chamou este fenômeno de
“deslocamento”. Para ele, as
sociedades da modernidade tardia são
caracterizadas pela “diferença”, pois
travessadas por
antagonismos que produzem uma
gama de diferentes posições de sujeito
ou seja, identidades
para os
indivíduos, que proporcionam às
sociedades não desaparecerem
totalmente, contudo serem articuladas
essa concepção de
desconfortante por ser
diferente do conceito de identidade
que trazíamos da nossa estrutura
social e dos nossos antepassados,
Laclau (1990) reitera que esse
deslocamento também possui
características positivas, uma vez que
abre novas possi
bilidades de
articulações, isto é, a possibilidade do
surgimento de criação de novos
SILVA, Luiz Henrique G.; SOUSA, Rosineide M. de. Caretagem, uma
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Outra teoria que reitera a ideia
de deslocamento de Laclau é a
reflexividade, proposta por Chouliaraki
e Fairclough (1999). Essa reflexividade
refere-se à revisã
o dos aspectos da
atividade social, por parte dos
indivíduos -
atores sociais
novos conhecimentos, que são
gerados por sistemas especialistas. Os
autores sugerem que a reflexividade,
inerente à ação humana,
‘externalizada’ na modernidade tard
isto é, as informações de que os
atores sociais se valem de
informações que reflexivamente vêm
“de fora” do meio que vivem.
De acordo com Giddens (2002),
a experiência mediada tornou o dia a
dia da vida mais influenciado pela
informação e pelo conheci
Nessa condição,
o surgimento das
autoidentidades passou a se sujeitar,
proporcionalmente, às revisões da
reflexividade institucional. Assim,
Giddens (1991, p. 88) defende que “os
indivíduos em cenários pré
em princípio e na prática, poderi
ignorar os pronunciamentos de
sacerdotes, bios e feiticeiros,
prosseguindo com as rotinas da
atividade cotidiana.”
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Outra teoria que reitera a ideia
de deslocamento de Laclau é a
reflexividade, proposta por Chouliaraki
e Fairclough (1999). Essa reflexividade
o dos aspectos da
atividade social, por parte dos
atores sociais
-, à luz de
novos conhecimentos, que são
gerados por sistemas especialistas. Os
autores sugerem que a reflexividade,
inerente à ação humana,
é
‘externalizada’ na modernidade tard
ia,
isto é, as informações de que os
atores sociais se valem de
informações que reflexivamente vêm
“de fora” do meio que vivem.
De acordo com Giddens (2002),
a experiência mediada tornou o dia a
dia da vida mais influenciado pela
informação e pelo conheci
mento.
o surgimento das
autoidentidades passou a se sujeitar,
proporcionalmente, às revisões da
reflexividade institucional. Assim,
Giddens (1991, p. 88) defende que “os
indivíduos em cenários pré
-modernos,
em princípio e na prática, poderi
am
ignorar os pronunciamentos de
sacerdotes, bios e feiticeiros,
prosseguindo com as rotinas da
Destarte, determinadas práticas
podem estar sujeitas
autoconstruções reflexivas cada vez
mais influenciadas pela informação
exterior,
para referendar relações de
dominação. Mas, apesar de muitos
sentidos estarem a serviço da
dominação, também estão presentes
nas formas simbólicas próprias da
atividade social, sendo que uma busca
pela autoidentidade pode sinalizar
possibilidade de mudança
favor dos menos privilegiados, pois
deve ser criada e sustentada nas
atividades reflexivas de cada sujeito.
Para Woodward (2000), a
representação é o papel
cultura na produção dos significados
que envolvem as relações sociais e
que lev
am a uma preocupação com a
identificação.
Segundo esse mesmo
autor, a maioria das práticas de
significação envolvem relações de
poder, incluindo o poder para definir
quem é incluído e quem é excluído nos
grupos sociais. Dito isso, podemos
concluir que a cu
identidade ao dar sentido à
experiência e ao tornar possível fazer
a opção entre diversas identidades,
através da subjetividade.
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)
Destarte, determinadas práticas
podem estar sujeitas
a
autoconstruções reflexivas cada vez
mais influenciadas pela informação
para referendar relações de
dominação. Mas, apesar de muitos
sentidos estarem a serviço da
dominação, também estão presentes
nas formas simbólicas próprias da
atividade social, sendo que uma busca
pela autoidentidade pode sinalizar
possibilidade de mudança
social em
favor dos menos privilegiados, pois
deve ser criada e sustentada nas
atividades reflexivas de cada sujeito.
Para Woodward (2000), a
representação é o papel
-chave da
cultura na produção dos significados
que envolvem as relações sociais e
am a uma preocupação com a
Segundo esse mesmo
autor, a maioria das práticas de
significação envolvem relações de
poder, incluindo o poder para definir
quem é incluído e quem é excluído nos
grupos sociais. Dito isso, podemos
concluir que a cu
ltura molda a
identidade ao dar sentido à
experiência e ao tornar possível fazer
a opção entre diversas identidades,
através da subjetividade.
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manifestação identitária na comunidade quilombola São Domingos
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, março 202
As transformações nas
estruturas econômicas e políticas na
contemporaneidade colocam em
destaque as questões ide
ntitárias e as
lutas pela afirmação e manutenção
das identidades nacionais e étnicas.
Dessa maneira, é possível observar a
falta de estabilidade que permeia a
temática das identidades e, por isso, o
apego ao passado em que,
anteriormente, tinham
apoiar, algo que era referência, mas
que quase o ocorre atualmente
devido à imensa quantidade de
informações que são veiculadas e
que os sujeitos, agentes de suas
práticas, possuem amplo acesso.
Hall (2003) defende o
reconhecimento da identidade, porém
não de uma identidade que esteja
fixada na rigidez da oposição binária
“nós, eles”, ou no caso deste trabalho,
“comunidade quilombola e mundo
exterior”. O autor enfatiza a fluidez da
identidade ao vê-
la como uma questão
de “tornar-
se”, aqueles que reivind
a identidade não ficariam limitados a
ser posicionados pela identidade: eles
seriam capazes de se e de transformar
e reconstruir identidades herdadas de
um possível passado semelhante. Ao
afirmar uma identidade, a legitimação
SILVA, Luiz Henrique G.; SOUSA, Rosineide M. de. Caretagem, uma
manifestação identitária na comunidade quilombola São Domingos
.
Americana de Estudos em Cultura,
, março 202
1.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
(
Fluxo Contínuo
As transformações nas
estruturas econômicas e políticas na
contemporaneidade colocam em
ntitárias e as
lutas pela afirmação e manutenção
das identidades nacionais e étnicas.
Dessa maneira, é possível observar a
falta de estabilidade que permeia a
temática das identidades e, por isso, o
apego ao passado em que,
algo para
apoiar, algo que era referência, mas
que quase o ocorre atualmente
devido à imensa quantidade de
informações que são veiculadas e
a
que os sujeitos, agentes de suas
práticas, possuem amplo acesso.
Hall (2003) defende o
reconhecimento da identidade, porém
não de uma identidade que esteja
fixada na rigidez da oposição binária
“nós, eles”, ou no caso deste trabalho,
“comunidade quilombola e mundo
exterior”. O autor enfatiza a fluidez da
la como uma questão
se”, aqueles que reivind
icam
a identidade não ficariam limitados a
ser posicionados pela identidade: eles
seriam capazes de se e de transformar
e reconstruir identidades herdadas de
um possível passado semelhante. Ao
afirmar uma identidade, a legitimação
é buscada pela referência
passado autêntico, sendo
possivelmente um passado glorioso.
Esse passado faz parte de uma
“comunidade imaginada”, uma
comunidade de pessoas que são
apresentadas como sendo “nós”.
Trazendo essa teoria à
comunidade quilombola São
Domingos, que está se
pesquisada,
apesar da origem de
remanescentes mineradores
escravizados, necessariamente,
integrantes não precisam continuar
seu legado de ‘mineradores’, mas
podem buscar novas perspectivas de
trabalho neste mundo globalizado.
5. Etnografia
Muitos consideram a etnografia
apenas como uma técnica, contudo,
de acordo com Magnani (2002), ela
pode servir-
se de várias técnicas,
conforme as circunstâncias de cada
pesquisa desenvolvida.
A etnografia revela e estuda as
crenças, os costumes e as tradiç
de uma sociedade e ou comunidade,
que são transmitidas de geração em
geração e que permitem a
continuidade de um sistema social ou
de determinada cultura.
270
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
- ISSN 2237-1508
Fluxo Contínuo
)
é buscada pela referência
a um
passado autêntico, sendo
possivelmente um passado glorioso.
Esse passado faz parte de uma
“comunidade imaginada”, uma
comunidade de pessoas que são
apresentadas como sendo “nós”.
Trazendo essa teoria à
comunidade quilombola São
Domingos, que está se
ndo
apesar da origem de
remanescentes mineradores
escravizados, necessariamente,
seus
integrantes não precisam continuar
seu legado de ‘mineradores’, mas
podem buscar novas perspectivas de
trabalho neste mundo globalizado.
Muitos consideram a etnografia
apenas como uma técnica, contudo,
de acordo com Magnani (2002), ela
se de várias técnicas,
conforme as circunstâncias de cada
pesquisa desenvolvida.
A etnografia revela e estuda as
crenças, os costumes e as tradiç
ões
de uma sociedade e ou comunidade,
que são transmitidas de geração em
geração e que permitem a
continuidade de um sistema social ou
de determinada cultura.
SILVA, Luiz Henrique G.; SOUSA, Rosineide M. de. Caretagem, uma
manifestação identitária na comunidade quilombola São Domingos
PragMATIZES - Revista Latino-
Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 11, n. 20, p. 259-276
, março 202
O conceito de comunidade está
ligado a um agrupamento de pessoas
que vivem dentro de uma mesma ár
geográfica, urbana ou rural, vinculadas
por interesses comuns e que
participam das condições gerais de
vida. Esse termo ainda é usado para
denominar uma forma de associação
muito íntima, um grupo altamente
integrado em que os membros se
encontram ligado
s uns aos outros por
laços de simpatia. Assim, podemos
concluir que qualquer grupo pode
constituir uma comunidade, por
exemplo, comunidades que vivem
submetidas à mesma crença
ideológica.
A importância de se levar a
etnografia em consideração é que o
profissional não fica à margem da
realidade que estuda ou trabalha, ele
realmente se envolve na vida da
comunidade, observando suas
características tanto essenciais quanto
acidentais. Com esse
propósito, o
pesquisador / profissional participa da
vida cotidiana das pessoas por certo
período de tempo, “[...] observando o
que acontece, escutando o que é dito,
fazendo perguntas
na verdade,
coletando qualquer dado que esteja
disponível para esclare
cer as questões
SILVA, Luiz Henrique G.; SOUSA, Rosineide M. de. Caretagem, uma
manifestação identitária na comunidade quilombola São Domingos
.
Americana de Estudos em Cultura,
, março 202
1.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
(
Fluxo Contínuo
O conceito de comunidade está
ligado a um agrupamento de pessoas
que vivem dentro de uma mesma ár
ea
geográfica, urbana ou rural, vinculadas
por interesses comuns e que
participam das condições gerais de
vida. Esse termo ainda é usado para
denominar uma forma de associação
muito íntima, um grupo altamente
integrado em que os membros se
s uns aos outros por
laços de simpatia. Assim, podemos
concluir que qualquer grupo pode
constituir uma comunidade, por
exemplo, comunidades que vivem
submetidas à mesma crença
A importância de se levar a
etnografia em consideração é que o
profissional não fica à margem da
realidade que estuda ou trabalha, ele
realmente se envolve na vida da
comunidade, observando suas
características tanto essenciais quanto
propósito, o
pesquisador / profissional participa da
vida cotidiana das pessoas por certo
período de tempo, “[...] observando o
que acontece, escutando o que é dito,
na verdade,
coletando qualquer dado que esteja
cer as questões
com as quais ele se ocupa” (FLICK,
2009, p.
214). Essa conduta é o que
permite ao etnógrafo compreender as
práticas desenvolvidas na comunidade
e poder explorá-
las em sala de aula,
fortalecendo toda a bagagem cultural
que os alunos possuem.
6. Culturas na comunidade
Dentre os patrimônios culturais
materiais e imateriais que existem n
Comunidade
São Domingos, como o
artesanato, a culinária, as festas
religiosas, histórias e folclores locais,
uma merece destaque, que é a festa
da Caretagem,
pois é a expressão de
maior relevância na comunidade e que
os tornam
mais conhecidos no
município de Paracatu.
A
Caretagem, também
denominada de Caretada
manifestação típica do noroeste
mineiro e surgiu em Paracatu no final
do século XVIII. É uma ex
cultural em que,
somente os homens participavam,
vestidos com suas roupas coloridas e
máscaras, dançam e cantam pelas
ruas da comunidade. A festa é
dedicada a São João Batista e começa
no dia 23 de junho e termina dia 24 do
mesmo mês
. Todavia, a preparação à
271
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
- ISSN 2237-1508
Fluxo Contínuo
)
com as quais ele se ocupa” (FLICK,
214). Essa conduta é o que
permite ao etnógrafo compreender as
práticas desenvolvidas na comunidade
las em sala de aula,
fortalecendo toda a bagagem cultural
que os alunos possuem.
6. Culturas na comunidade
Dentre os patrimônios culturais
materiais e imateriais que existem n
a
São Domingos, como o
artesanato, a culinária, as festas
religiosas, histórias e folclores locais,
uma merece destaque, que é a festa
pois é a expressão de
maior relevância na comunidade e que
mais conhecidos no
município de Paracatu.
Caretagem, também
denominada de Caretada
, é uma
manifestação típica do noroeste
mineiro e surgiu em Paracatu no final
do século XVIII. É uma ex
pressão
anteriormente,
somente os homens participavam,
vestidos com suas roupas coloridas e
máscaras, dançam e cantam pelas
ruas da comunidade. A festa é
dedicada a São João Batista e começa
no dia 23 de junho e termina dia 24 do
. Todavia, a preparação à