GUERREIRO, João; REIS, Luísa. Porto, praça e palco: as ruas da cidade
como espaços de educação. PragMATIZES -
Revista Latino
Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 11, n. 20
, p.
Porto, praça e palco: as ruas da cidade como espaços de educação
DOI:
https://doi.org/10.22409/pragmatizes.v11i20.45784
Resumo:
A partir das narrativas de encontros que se dão nas ruas, em aulas de teatro feitas em uma
praça da zona portuária do Rio de Janeiro, esse artigo busca discutir as potencialidades do fazer
teatral com crianças em espaços públicos. O texto contextualiza e
modificações urbanas na zona portuária, área central do Rio de Janeiro, desde a constituição do
Morro da Favela, hoje Morro da Providência, até a atualidade. Nesse processo de transformações
impostas pelo poder público, a articulação
sentido de articular com os moradores e habitantes da zona portuária outros usos para o espaço. O
encontro de dois projetos educativos, o Viaduto Literário e o Projeto Teatro made, que trabalha
desde 2018 na fronteira entre os morros do Pinto e da Providência, coloca novas questões sobre a
ocupação desse espaço urbano, que se apresenta então como palco e sala de aula, como um espaço
de ensino-aprendizagem.
Palavras-chave: Morro da
Providência;
Puerto, plaza, escenario: las calles de la ciudad como espacios de educación
Resumen
plaza de la zona portuaria de la
ciudad de Río de Janeiro, el artículo propone abrir un debate sobre el
potencial del ejercicio del arte teatral con niños en espacios públicos. El texto contextualiza y examina
el proceso de transformaciones urbanas en esta región central de la ciudad llev
autoridades públicas en diferentes momentos, desde la constitución del Morro da Favela, hoy Morro
da Providência, hasta la actualidad. En este proceso de transformaciones impuestas por el poder
público, la articulación de los proyectos c
con los residentes y habitantes del área portuaria otros usos del espacio. El
proyectos educativos, el Viaduto Literário (Viaducto Literario) y el Projeto Teatro Nômade (Proy
Teatro Nómada), que funcionan desde 2018 en la frontera entre el Morro da Providência y el Morro do
Pinto, plantea nuevos interrogantes sobre la ocupación de este espacio urbano, que se presenta
entonces como escenario y aula, como espacio de enseñanz
Palabras clave: Morro da
Providência; Porto Maravilha; pedagogía teatral; c
1
João Luiz Guerreiro Mendes.
Doutor em Políticas Públicas de Cultura pela Universidade Federal do
Rio de Janeiro (UFRJ). Professor do Bacharelado em Produção Cultural do
de Janeiro (IFRJ), Brasil.E-mail:
joao.mendes@ifrj.edu.br
2
Luísa Valença Reis. Mestranda em Educação pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Br
E-mail:luisavreis@gmail.com -
https://orcid.org/0000
Texto recebido em 06/09/20
20
GUERREIRO, João; REIS, Luísa. Porto, praça e palco: as ruas da cidade
Revista Latino
-Americana de
, p.
28-50, março 2021.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
(Dossiê "
Tramas entre cultura e educação")
Porto, praça e palco: as ruas da cidade como espaços de educação
https://doi.org/10.22409/pragmatizes.v11i20.45784
A partir das narrativas de encontros que se dão nas ruas, em aulas de teatro feitas em uma
praça da zona portuária do Rio de Janeiro, esse artigo busca discutir as potencialidades do fazer
teatral com crianças em espaços públicos. O texto contextualiza e
examina
modificações urbanas na zona portuária, área central do Rio de Janeiro, desde a constituição do
Morro da Favela, hoje Morro da Providência, até a atualidade. Nesse processo de transformações
impostas pelo poder público, a articulação
dos projetos culturais e sociais do e no território atuam no
sentido de articular com os moradores e habitantes da zona portuária outros usos para o espaço. O
encontro de dois projetos educativos, o Viaduto Literário e o Projeto Teatro made, que trabalha
desde 2018 na fronteira entre os morros do Pinto e da Providência, coloca novas questões sobre a
ocupação desse espaço urbano, que se apresenta então como palco e sala de aula, como um espaço
Providência;
Porto Maravilha; pedagogia do teatro; r
ua.
Puerto, plaza, escenario: las calles de la ciudad como espacios de educación
: Con base en las narrativas de los encuentros en la calle y en las clases de teatro en una
ciudad de Río de Janeiro, el artículo propone abrir un debate sobre el
potencial del ejercicio del arte teatral con niños en espacios públicos. El texto contextualiza y examina
el proceso de transformaciones urbanas en esta región central de la ciudad llev
autoridades públicas en diferentes momentos, desde la constitución del Morro da Favela, hoy Morro
da Providência, hasta la actualidad. En este proceso de transformaciones impuestas por el poder
público, la articulación de los proyectos c
ulturales y sociales de y en el territorio actúan para articular
con los residentes y habitantes del área portuaria otros usos del espacio. El
proyectos educativos, el Viaduto Literário (Viaducto Literario) y el Projeto Teatro Nômade (Proy
Teatro Nómada), que funcionan desde 2018 en la frontera entre el Morro da Providência y el Morro do
Pinto, plantea nuevos interrogantes sobre la ocupación de este espacio urbano, que se presenta
entonces como escenario y aula, como espacio de enseñanz
a y aprendizaje.
Providência; Porto Maravilha; pedagogía teatral; c
alle.
Doutor em Políticas Públicas de Cultura pela Universidade Federal do
Rio de Janeiro (UFRJ). Professor do Bacharelado em Produção Cultural do
Instituto Federal do Rio
joao.mendes@ifrj.edu.br
- https://orcid.org/0000-
0003
Luísa Valença Reis. Mestranda em Educação pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Br
https://orcid.org/0000
-0001-6085-8218
20
, aceito para publicação em 12/10/2020
e disponibilizado online
em 01/03/2021.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
- ISSN 2237-1508
Tramas entre cultura e educação")
Porto, praça e palco: as ruas da cidade como espaços de educação
João Guerreiro
1
Luísa Reis
2
A partir das narrativas de encontros que se dão nas ruas, em aulas de teatro feitas em uma
praça da zona portuária do Rio de Janeiro, esse artigo busca discutir as potencialidades do fazer
examina
as constantes
modificações urbanas na zona portuária, área central do Rio de Janeiro, desde a constituição do
Morro da Favela, hoje Morro da Providência, até a atualidade. Nesse processo de transformações
dos projetos culturais e sociais do e no território atuam no
sentido de articular com os moradores e habitantes da zona portuária outros usos para o espaço. O
encontro de dois projetos educativos, o Viaduto Literário e o Projeto Teatro made, que trabalha
m
desde 2018 na fronteira entre os morros do Pinto e da Providência, coloca novas questões sobre a
ocupação desse espaço urbano, que se apresenta então como palco e sala de aula, como um espaço
ua.
Puerto, plaza, escenario: las calles de la ciudad como espacios de educación
: Con base en las narrativas de los encuentros en la calle y en las clases de teatro en una
ciudad de Río de Janeiro, el artículo propone abrir un debate sobre el
potencial del ejercicio del arte teatral con niños en espacios públicos. El texto contextualiza y examina
el proceso de transformaciones urbanas en esta región central de la ciudad llev
ada a cabo por las
autoridades públicas en diferentes momentos, desde la constitución del Morro da Favela, hoy Morro
da Providência, hasta la actualidad. En este proceso de transformaciones impuestas por el poder
ulturales y sociales de y en el territorio actúan para articular
con los residentes y habitantes del área portuaria otros usos del espacio. El
encuentro de dos
proyectos educativos, el Viaduto Literário (Viaducto Literario) y el Projeto Teatro Nômade (Proy
ecto
Teatro Nómada), que funcionan desde 2018 en la frontera entre el Morro da Providência y el Morro do
Pinto, plantea nuevos interrogantes sobre la ocupación de este espacio urbano, que se presenta
Doutor em Políticas Públicas de Cultura pela Universidade Federal do
Instituto Federal do Rio
0003
-1788-4132
Luísa Valença Reis. Mestranda em Educação pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Br
asil.
e disponibilizado online
GUERREIRO, João; REIS, Luísa. Porto, praça e palco: as ruas da cidade
como espaços de educação. PragMATIZES -
Revista Latino
Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 11, n. 20
, p.
Port, square, stage: city streets as educations places
Abstract:
Based on the narratives of encounters that take place on the streets, in drama classes in a
square in the port area of Rio de Janeiro, this article seeks to discuss the potential of making theatre
with children in public spaces. The text contextualizes th
central area of Rio de Janeiro, from the constitution of Morro da Favela, today called Morro da
Providência, to the present day. In this process of transformations imposed by the public authorities,
the articulati
on of cultural and social projects in the territory act to articulate other uses for space with
residents and inhabitants of the port area. The meeting between two educational projects, the Viaduto
Literário (Literary Viaduct) and the Projeto Teatro Nômade
been working since 2018 on the border between Morro do Pinto and Morro da Providência, raises new
questions about the occupation of this urban space, which then presents itself as a stage and
classroom, as a teaching-
learning space.
Keywords:
Morro da Providência; Porto Maravilha; theater pedagogy; street.
Porto, praça e palco: as ruas da cidade como espaços de educação
Apresentação
Esse é um texto sobre
fronteiras,
encontros e potências.
Iremos narrar o encontro entre dois
projetos realizados na fronteira entre o
Morro da Providência e o Morro do
Pinto, na zona portuária do Rio de
Janeiro. Apresentaremos como o
“Projeto Teatro Nômade”, que ocupa
cenicamente espaços p
cidade, começou sua caminhada sob o
Viaduto São Pedro/São Paulo ao se
encontrar com o projeto “Viaduto
Literário”.
Inicialmente apresentaremos a
constituição da região portuária do Rio
de Janeiro, a sua ocupação e suas
transformações no decorrer
séculos até chegarmos aos projetos
GUERREIRO, João; REIS, Luísa. Porto, praça e palco: as ruas da cidade
Revista Latino
-Americana de
, p.
28-50, março 2021.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
(Dossiê "
Tramas entre cultura e educação")
Port, square, stage: city streets as educations places
Based on the narratives of encounters that take place on the streets, in drama classes in a
square in the port area of Rio de Janeiro, this article seeks to discuss the potential of making theatre
with children in public spaces. The text contextualizes th
e constant urban changes in the port area,
central area of Rio de Janeiro, from the constitution of Morro da Favela, today called Morro da
Providência, to the present day. In this process of transformations imposed by the public authorities,
on of cultural and social projects in the territory act to articulate other uses for space with
residents and inhabitants of the port area. The meeting between two educational projects, the Viaduto
Literário (Literary Viaduct) and the Projeto Teatro Nômade
(Nomadic Theater Project), which have
been working since 2018 on the border between Morro do Pinto and Morro da Providência, raises new
questions about the occupation of this urban space, which then presents itself as a stage and
learning space.
Morro da Providência; Porto Maravilha; theater pedagogy; street.
Porto, praça e palco: as ruas da cidade como espaços de educação
Esse é um texto sobre
encontros e potências.
Iremos narrar o encontro entre dois
projetos realizados na fronteira entre o
Morro da Providência e o Morro do
Pinto, na zona portuária do Rio de
Janeiro. Apresentaremos como o
“Projeto Teatro Nômade”, que ocupa
cenicamente espaços p
úblicos da
cidade, começou sua caminhada sob o
Viaduto São Pedro/São Paulo ao se
encontrar com o projeto “Viaduto
Inicialmente apresentaremos a
constituição da região portuária do Rio
de Janeiro, a sua ocupação e suas
transformações no decorrer
dos
séculos até chegarmos aos projetos
culturais que hoje marcam o território.
A seguir, narraremos a chegada do
“Nômade” e discutiremos as
construções, potencialidades, as
aprendizagens em fazer teatro junto
com crianças e adolescentes de uma
região peri
férica, mesmo que inserida
em uma das áreas com maior
quantidade e qualidade de
infraestrutura da cidade do Rio de
Janeiro.
E a nau retorna ao porto
A Praça da Marquês, situada
embaixo do Viaduto São Pedro/São
Paulo, divisão de concreto que delimita
os espaços dos morros do Pinto e da
Providência, é um ponto de encontro
para os moradores do seu entorno. A
29
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
- ISSN 2237-1508
Tramas entre cultura e educação")
Based on the narratives of encounters that take place on the streets, in drama classes in a
square in the port area of Rio de Janeiro, this article seeks to discuss the potential of making theatre
e constant urban changes in the port area,
central area of Rio de Janeiro, from the constitution of Morro da Favela, today called Morro da
Providência, to the present day. In this process of transformations imposed by the public authorities,
on of cultural and social projects in the territory act to articulate other uses for space with
residents and inhabitants of the port area. The meeting between two educational projects, the Viaduto
(Nomadic Theater Project), which have
been working since 2018 on the border between Morro do Pinto and Morro da Providência, raises new
questions about the occupation of this urban space, which then presents itself as a stage and
Porto, praça e palco: as ruas da cidade como espaços de educação
culturais que hoje marcam o território.
A seguir, narraremos a chegada do
“Nômade” e discutiremos as
construções, potencialidades, as
aprendizagens em fazer teatro junto
com crianças e adolescentes de uma
férica, mesmo que inserida
em uma das áreas com maior
quantidade e qualidade de
infraestrutura da cidade do Rio de
E a nau retorna ao porto
A Praça da Marquês, situada
embaixo do Viaduto São Pedro/São
Paulo, divisão de concreto que delimita
os espaços dos morros do Pinto e da
Providência, é um ponto de encontro
para os moradores do seu entorno. A
GUERREIRO, João; REIS, Luísa. Porto, praça e palco: as ruas da cidade
como espaços de educação. PragMATIZES -
Revista Latino
Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 11, n. 20
, p.
praça, ou o Viaduto, como chamamos,
tem sido um
espaço de convivência,
festa, troca, criação e educação.
Desde 2018, o Projeto Teatro
Nômade também ocupa a Praça da
Marquês. O Nômade é um projeto
artístico-
educativo que entende que o
teatro é uma prática de todos e em
todos os espaços. Não lugar, c
ou pessoa ideal para “fazer teatro”. Ele
oferece aulas e apresentações teatrais
em condições possíveis: nas ruas,
bibliotecas, pátios de escolas, salas de
casas, plays de condomínios.É
Nômade, pois onde houver alguém
disposto a produzir
conhecimentoss
ignificações
teatro, esta lá, e assim poderá criar
redes artístico-
educativas para além
do momento presente de uma aula ou
de uma apresentação. Esse
entendimento dialoga com
Boal, diretor, pesquisador e
sistematizador do Teatro do Oprimido,
que pode ser considerado
um conjunto
de jogos e exercícios que visam a
3
Neste texto, usamos as expressões
conhecimentossignificações e
aprenderensinar
de forma aglutinada para enfatizar o quanto
compõem a mesma ação, buscando romper
com a dicotomia que separa os processos de
produção
do conhecimento em dimensões
internas e externas da escola e os processos
de aprender e ensinar.
GUERREIRO, João; REIS, Luísa. Porto, praça e palco: as ruas da cidade
Revista Latino
-Americana de
, p.
28-50, março 2021.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
(Dossiê "
Tramas entre cultura e educação")
praça, ou o Viaduto, como chamamos,
espaço de convivência,
festa, troca, criação e educação.
Desde 2018, o Projeto Teatro
Nômade também ocupa a Praça da
Marquês. O Nômade é um projeto
educativo que entende que o
teatro é uma prática de todos e em
todos os espaços. Não lugar, c
orpo
ou pessoa ideal para “fazer teatro”. Ele
oferece aulas e apresentações teatrais
em condições possíveis: nas ruas,
bibliotecas, pátios de escolas, salas de
casas, plays de condomínios.É
Nômade, pois onde houver alguém
disposto a produzir
ignificações
3
com o
teatro, esta lá, e assim poderá criar
educativas para além
do momento presente de uma aula ou
de uma apresentação. Esse
entendimento dialoga com
Augusto
Boal, diretor, pesquisador e
sistematizador do Teatro do Oprimido,
um conjunto
de jogos e exercícios que visam a
Neste texto, usamos as expressões
aprenderensinar
de forma aglutinada para enfatizar o quanto
compõem a mesma ação, buscando romper
com a dicotomia que separa os processos de
do conhecimento em dimensões
internas e externas da escola e os processos
transformação social por meio do
teatro.
Todos os seres humanos são atores,
porque agem, e espectadores,
porqu
e observam. Somos todos
espect-
atores. (...) A palavra teatro é
tão rica em significados diferentes
(...) que nunca sabemos ao certo
sobre o que estamos falando quando
falamos de teatro. (...) No sentido
mais arcaico do termo, porém, teatro
é a capacidade
(ausente nos animais) de se
observarem a si mesmos em ação.
Os humanos são capazes de se ver
no ato de ver, capazes de pensar
suas emoções e de se emocionar
com seus pensamentos. Podem se
ver aqui e se imaginar adiante,
podem se ver como
imaginar como serão amanhã.
(BOAL, 2011, p. ix, xiii, xiv)
Mas antes de chegarmos sob o
viaduto que separa o Morro da
Providência do Morro do Pinto, e que
faz a ligação entre a zona sul e a zona
portuária do Rio de Janeiro, achamos
importan
te mostrar a constituição
deste espaço periférico que ladeia a
área de negócios central da cidade do
Rio de Janeiro, e como essa formação
histórica perpassa até hoje os
encontros que se dão nesse território.
No decorrer de séculos a região
portuária da cid
ade do Rio de Janeiro
passou por diversas mudanças.
Considerada por muitos pesquisadores
como o primeiro grande marco na
ocupação dessa área, em meados da
década de 1770, ocorreu a
30
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
- ISSN 2237-1508
Tramas entre cultura e educação")
transformação social por meio do
Todos os seres humanos são atores,
porque agem, e espectadores,
e observam. Somos todos
atores. (...) A palavra teatro é
tão rica em significados diferentes
(...) que nunca sabemos ao certo
sobre o que estamos falando quando
falamos de teatro. (...) No sentido
mais arcaico do termo, porém, teatro
é a capacidade
dos seres humanos
(ausente nos animais) de se
observarem a si mesmos em ação.
Os humanos são capazes de se ver
no ato de ver, capazes de pensar
suas emoções e de se emocionar
com seus pensamentos. Podem se
ver aqui e se imaginar adiante,
podem se ver como
são agora e se
imaginar como serão amanhã.
(BOAL, 2011, p. ix, xiii, xiv)
Mas antes de chegarmos sob o
viaduto que separa o Morro da
Providência do Morro do Pinto, e que
faz a ligação entre a zona sul e a zona
portuária do Rio de Janeiro, achamos
te mostrar a constituição
deste espaço periférico que ladeia a
área de negócios central da cidade do
Rio de Janeiro, e como essa formação
histórica perpassa até hoje os
encontros que se dão nesse território.
No decorrer de séculos a região
ade do Rio de Janeiro
passou por diversas mudanças.
Considerada por muitos pesquisadores
como o primeiro grande marco na
ocupação dessa área, em meados da
década de 1770, ocorreu a
GUERREIRO, João; REIS, Luísa. Porto, praça e palco: as ruas da cidade
como espaços de educação. PragMATIZES -
Revista Latino
Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 11, n. 20
, p.
transferência do mercado de pessoas
escravizadas da atual Praça Quinze e
ar
redores para a região do Valongo
(hoje bairros da Saúde, Gamboa e
Santo Cristo). Nas palavras do então
Vice-
Rei, Marquês do Lavradio,
responsável pela transferência, e que
hoje é homenageado em uma rua que
reúne ironicamente uma famosa feira
na cidade no p
rimeiro sábado de cada
mês,
as pessoas honestas não se
atreviam a chegar às janelas; as que
eram inocentes ali aprendiam o que
ignoravam e não deviam saber. Logo
que desembarcavam, vinham para
as ruas, cheios de infinitas
moléstias... e ali mesmos faziam
t
odo que a natureza lhes lembrava,
não causando o maior fétido...
mas até sendo o espetáculo mais
horroroso que se podia apresentar
aos olhos. (ATHAYDE, 2001, p. 8)
A capital tinha sido transferida
de Salvador para o Rio de Janeiro uma
década antes e, a
ssim, aos olhos do
governante geral da colônia, o centro
da sua nova capital precisava se
modernizar e tornar
-
embelezada para as elites.
A mudança do local de
recebimento dos negros escravizados
provocou o surgimento de novas
atividades econômicas na região. As
antigas chácaras foram loteadas e as
GUERREIRO, João; REIS, Luísa. Porto, praça e palco: as ruas da cidade
Revista Latino
-Americana de
, p.
28-50, março 2021.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
(Dossiê "
Tramas entre cultura e educação")
transferência do mercado de pessoas
escravizadas da atual Praça Quinze e
redores para a região do Valongo
(hoje bairros da Saúde, Gamboa e
Santo Cristo). Nas palavras do então
Rei, Marquês do Lavradio,
responsável pela transferência, e que
hoje é homenageado em uma rua que
reúne ironicamente uma famosa feira
rimeiro sábado de cada
as pessoas honestas não se
atreviam a chegar às janelas; as que
eram inocentes ali aprendiam o que
ignoravam e não deviam saber. Logo
que desembarcavam, vinham para
as ruas, cheios de infinitas
moléstias... e ali mesmos faziam
odo que a natureza lhes lembrava,
não causando o maior fétido...
mas até sendo o espetáculo mais
horroroso que se podia apresentar
aos olhos. (ATHAYDE, 2001, p. 8)
A capital tinha sido transferida
de Salvador para o Rio de Janeiro uma
ssim, aos olhos do
governante geral da colônia, o centro
da sua nova capital precisava se
-
se mais
A mudança do local de
recebimento dos negros escravizados
provocou o surgimento de novas
atividades econômicas na região. As
antigas chácaras foram loteadas e as
hortas que abasteciam o núcleo
urbano da cidade foram
paulatinamente dando lugar aos
armazéns,
trapiches e pequenas
manufaturas. Os pântanos foram
aterrados e começaram a dar lugares
às ruas e pequenos ancoradouros.
Surgiria, inclusive, o cemitério dos
Pretos Novos.
O cemitério recebeu esse nome
por ser um local onde foram
depositados os restos mor
milhares de africanos que foram
escravizados e foram trazidos para o
Brasil. Muitos que estão chegaram
ao país mortos. Outros morriam
assim que chegavam e outros,
também enterrados nesse cemitério,
teriam morrido no processo de
trabalho. E
m comum, está o
anonimato desses africanos. Segundo
pesquisas realizadas pelo Instituto
Pretos Novos
4
, o cemitério foi
construído no mesmo ano da
transferência do mercado dos
escravizados, em 1770, e desativado
em 1831.
Se o Oceano Atlântico,
chamado por P
aul Gilroy como o
Atlântico Negro, é para muitos, o lugar
4
Entrevista concedida pela coordenadora do
IPN a um dos autores desse artigo em 2013.
31
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
- ISSN 2237-1508
Tramas entre cultura e educação")
hortas que abasteciam o núcleo
urbano da cidade foram
paulatinamente dando lugar aos
trapiches e pequenas
manufaturas. Os pântanos foram
aterrados e começaram a dar lugares
às ruas e pequenos ancoradouros.
Surgiria, inclusive, o cemitério dos
O cemitério recebeu esse nome
por ser um local onde foram
depositados os restos mor
tais de
milhares de africanos que foram
escravizados e foram trazidos para o
Brasil. Muitos que estão chegaram
ao país mortos. Outros morriam
assim que chegavam e outros,
também enterrados nesse cemitério,
teriam morrido no processo de
m comum, está o
anonimato desses africanos. Segundo
pesquisas realizadas pelo Instituto
, o cemitério foi
construído no mesmo ano da
transferência do mercado dos
escravizados, em 1770, e desativado
Se o Oceano Atlântico,
aul Gilroy como o
Atlântico Negro, é para muitos, o lugar
Entrevista concedida pela coordenadora do
IPN a um dos autores desse artigo em 2013.
GUERREIRO, João; REIS, Luísa. Porto, praça e palco: as ruas da cidade
como espaços de educação. PragMATIZES -
Revista Latino
Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 11, n. 20
, p.
das trocas culturais exercidas durante
a diáspora africana no auge da
escravidão negra, o cemitério
acompanha esta trajetória pelo
Atlântico. Sempre próximo aos
mercados de escravos nas praias, os
cemitérios tornaram-
se o fim da
diáspora para muitos.
No decorrer do século XIX,
principalmente a partir da vinda da
família real portuguesa em 1808 para
o Brasil até a proibição do tráfico de
negros escravizados, em 1850, as
chácaras nas áreas de planície
região portuária continuaram sofrendo
um processo de loteamento. Segundo
Mello (2003), esse processo vai gerar
as bases para o surgimento de três
bairros: Saúde, Gamboa e Santo
Cristo. E, mais, pelo tipo de atividade
econômica surgida desde o culo
XV
III, a região vai se articular com o
núcleo da cidade através das
atividades portuárias e atividades
relacionadas ao mercado de pessoas
negras escravizadas. Começava a ser
estabelecida uma hierarquia
secundarizada da região, apesar de
ser importante para o
desenvolvimento
da cidade (MELLO, 2003). Em outras
palavras, a região portuária passava a
GUERREIRO, João; REIS, Luísa. Porto, praça e palco: as ruas da cidade
Revista Latino
-Americana de
, p.
28-50, março 2021.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
(Dossiê "
Tramas entre cultura e educação")
das trocas culturais exercidas durante
a diáspora africana no auge da
escravidão negra, o cemitério
acompanha esta trajetória pelo
Atlântico. Sempre próximo aos
mercados de escravos nas praias, os
se o fim da
No decorrer do século XIX,
principalmente a partir da vinda da
família real portuguesa em 1808 para
o Brasil até a proibição do tráfico de
negros escravizados, em 1850, as
chácaras nas áreas de planície
da
região portuária continuaram sofrendo
um processo de loteamento. Segundo
Mello (2003), esse processo vai gerar
as bases para o surgimento de três
bairros: Saúde, Gamboa e Santo
Cristo. E, mais, pelo tipo de atividade
econômica surgida desde o culo
III, a região vai se articular com o
núcleo da cidade através das
atividades portuárias e atividades
relacionadas ao mercado de pessoas
negras escravizadas. Começava a ser
estabelecida uma hierarquia
secundarizada da região, apesar de
desenvolvimento
da cidade (MELLO, 2003). Em outras
palavras, a região portuária passava a
se configurar como uma periferia do
núcleo da região central da cidade.
Para alguns autores, como
Lamarão (1984) e Benchimol (1982), o
processo de loteamento e
fraci
onamento das chácaras e quintais
na região portuária levou seus antigos
moradores a se transferirem para as
novas áreas de expansão urbana com
nível de renda mais elevado, como os
bairros do Flamengo e Botafogo
ambos localizados no que se
convencionou ch
amar de zona sul da
cidade do Rio de Janeiro. Lamarão
chega a afirmar que a região sofreu
um processo de homogeneização dos
estratos sociais “de baixo” e, com isso,
chega ao século XX carregada de
adjetivos que a desqualificam, que a
estigmatizam frente à
Identificada como a parte do centro
urbano que concentrava o grosso
das atividades portuárias, onde os
navios mercantes ancoravam e as
mercadorias ficavam depositadas,
reduzida a um labirinto de becos e
vielas, a uma infinidade de trapiches
e ofici
nas, ela é uma nódoa, algo que
incomoda concretamente uma elite
que incorpora com rapidez os
valores burgueses, substrato
ideológico do processo de transição
para o capitalismo.
Ela incomoda porque sua numerosa
e concentrada população
composta de brancos
brasileiros e estrangeiros, operários,
trabalhadores da estiva, biscateiros,
ambulantes desempregados,
pobre, amontoa
32
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
- ISSN 2237-1508
Tramas entre cultura e educação")
se configurar como uma periferia do
núcleo da região central da cidade.
Para alguns autores, como
Lamarão (1984) e Benchimol (1982), o
processo de loteamento e
onamento das chácaras e quintais
na região portuária levou seus antigos
moradores a se transferirem para as
novas áreas de expansão urbana com
nível de renda mais elevado, como os
bairros do Flamengo e Botafogo
ambos localizados no que se
amar de zona sul da
cidade do Rio de Janeiro. Lamarão
chega a afirmar que a região sofreu
um processo de homogeneização dos
estratos sociais “de baixo” e, com isso,
chega ao século XX carregada de
adjetivos que a desqualificam, que a
estigmatizam frente à
cidade.
Identificada como a parte do centro
urbano que concentrava o grosso
das atividades portuárias, onde os
navios mercantes ancoravam e as
mercadorias ficavam depositadas,
reduzida a um labirinto de becos e
vielas, a uma infinidade de trapiches
nas, ela é uma nódoa, algo que
incomoda concretamente uma elite
que incorpora com rapidez os
valores burgueses, substrato
ideológico do processo de transição
para o capitalismo.
Ela incomoda porque sua numerosa
e concentrada população
composta de brancos
e negros,
brasileiros e estrangeiros, operários,
trabalhadores da estiva, biscateiros,
ambulantes desempregados,
- é
pobre, amontoa
-se em precários
GUERREIRO, João; REIS, Luísa. Porto, praça e palco: as ruas da cidade
como espaços de educação. PragMATIZES -
Revista Latino
Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 11, n. 20
, p.
cortiços, e morre aos montes,
vitimada pelas epidemias. Área
densa, populosa, pobre, insalubre...
e
perigosa. Os quarteirões
marítimos, o bairro “rubro” da cidade
e, o “homizio predileto dos valentões”
servem de cenário a crimes que
levam a Saúde, a Gamboa e o saco
de Alferes às primeiras páginas dos
jornais. (LAMARÃO, 1984, p. 115)
E é no final do sécu
a consolidação desse processo
com o surgimento da primeira favela
do país: o Morro da Favella.
Localizada entre o Morro da
Conceição e o Morro do Pinto, o Morro
da Favella, atual Morro da Providência,
tem o início de sua ocupação nesse
períod
o. Mesmo não sendo possível
designar eventos que expliquem a sua
ocupação, temos um somatório de
acontecimentos que ajudaram a gerar
hipóteses sobre o surgimento da
habitação no local.
De Paula (2004) sustenta que a
destruição do maior cortiço da então
cap
ital nacional, o Cabeça de Porco,
iria iniciar uma prática de ocupação
dos morros da capital do país,
iniciando pelo Morro da Providência.
Segundo o autor,
Num ato de magnânima bondade, o
prefeito [Barata Ribeiro] permitiu aos
moradores recolherem madeiras que
sobraram sob os escombros, onde,
sem demora, os moradores que não
conseguiram outros locais de
GUERREIRO, João; REIS, Luísa. Porto, praça e palco: as ruas da cidade
Revista Latino
-Americana de
, p.
28-50, março 2021.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
(Dossiê "
Tramas entre cultura e educação")
cortiços, e morre aos montes,
vitimada pelas epidemias. Área
densa, populosa, pobre, insalubre...
perigosa. Os quarteirões
marítimos, o bairro “rubro” da cidade
e, o “homizio predileto dos valentões”
servem de cenário a crimes que
levam a Saúde, a Gamboa e o saco
de Alferes às primeiras páginas dos
jornais. (LAMARÃO, 1984, p. 115)
E é no final do sécu
lo XIX que
a consolidação desse processo
com o surgimento da primeira favela
do país: o Morro da Favella.
Localizada entre o Morro da
Conceição e o Morro do Pinto, o Morro
da Favella, atual Morro da Providência,
tem o início de sua ocupação nesse
o. Mesmo não sendo possível
designar eventos que expliquem a sua
ocupação, temos um somatório de
acontecimentos que ajudaram a gerar
hipóteses sobre o surgimento da
De Paula (2004) sustenta que a
destruição do maior cortiço da então
ital nacional, o Cabeça de Porco,
iria iniciar uma prática de ocupação
dos morros da capital do país,
iniciando pelo Morro da Providência.
Num ato de magnânima bondade, o
prefeito [Barata Ribeiro] permitiu aos
moradores recolherem madeiras que
sobraram sob os escombros, onde,
sem demora, os moradores que não
conseguiram outros locais de
moradia construíram barracos na
encosta que ficava no fu
terreno, que ainda pertencia aos
antigos proprietários do cortiço.
Dessa forma, plantou
de habitação no morro que pouco
mais tarde, em 1897, seria ocupado
pelos soldados que retornaram de
Canudos. Com a queda do célebre
cortiço, o Rio d
e Janeiro presenciou
o início da transição de uma era, ‘a
semente de favela’ saiu do cortiço,
deixou a cidade e subiu o morro (DE
PAULA, 2004, p. 53)
Conforme apresentado pelo
autor, outro grupo que iria ocupar o
Morro da Favella, é o formado por
soldados
que retornaram da Guerra de
Canudos (BA
), em 1897. Ao não
receberem o que lhes havia sido
prometido pelo governo, subiram o
morro atrás do então Ministério da
Guerra, e ficaram aguardando a
recompensa. Abreu e Vaz (1991)
sustentam a tese que a falta de
mo
radias suficientes para atender a
população que, por motivos diversos,
chegava à capital do país demonstra a
contradição das transformações que
vão ocorrer na região central do Rio de
Janeiro. E é essa separação entre os
usos e as classes na cidade que a
o
cupação do Morro da Favella
evidencia (ABREU, 1988).
Cabe-
nos fazer um parêntese
para ressaltar que ao se dar o nome
de Morro da Favella
primeira ocupação por moradores de
33
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
- ISSN 2237-1508
Tramas entre cultura e educação")
moradia construíram barracos na
encosta que ficava no fu
ndo do
terreno, que ainda pertencia aos
antigos proprietários do cortiço.
Dessa forma, plantou
-se um núcleo
de habitação no morro que pouco
mais tarde, em 1897, seria ocupado
pelos soldados que retornaram de
Canudos. Com a queda do célebre
e Janeiro presenciou
o início da transição de uma era, ‘a
semente de favela’ saiu do cortiço,
deixou a cidade e subiu o morro (DE
PAULA, 2004, p. 53)
Conforme apresentado pelo
autor, outro grupo que iria ocupar o
Morro da Favella, é o formado por
que retornaram da Guerra de
), em 1897. Ao não
receberem o que lhes havia sido
prometido pelo governo, subiram o
morro atrás do então Ministério da
Guerra, e ficaram aguardando a
recompensa. Abreu e Vaz (1991)
sustentam a tese que a falta de
radias suficientes para atender a
população que, por motivos diversos,
chegava à capital do país demonstra a
contradição das transformações que
vão ocorrer na região central do Rio de
Janeiro. E é essa separação entre os
usos e as classes na cidade que a
cupação do Morro da Favella
evidencia (ABREU, 1988).
nos fazer um parêntese
para ressaltar que ao se dar o nome
de Morro da Favella
para essa
primeira ocupação por moradores de
GUERREIRO, João; REIS, Luísa. Porto, praça e palco: as ruas da cidade
como espaços de educação. PragMATIZES -
Revista Latino
Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 11, n. 20
, p.
baixa renda, que originariamente seria
o de uma planta existente em Canudo
ou de um morro existente no então
Arraiá de Canudos, o morro acaba
assumindo uma nova classificação. A
ocupação dos morros por população
de baixa renda, com pouca ou
nenhuma infraestrutura sanitária ou
serviços públicos, sem arruamento e
com habitações p
rovisórias, acaba
sendo sinônimo de um reduto de
pobreza. Assim, o Morro da Favella
acaba representando o que Lamarão
chamou de reduto dos estratos sociais
“de baixo”.
Porém, Zylberberg (1992) vai
salientar que a região onde está
localizado o Morro da
Providência teve
outras denominações antes de ser
“rebatizada” de Morro da Favella:
“Paulo Caieiro”, “Formiga”,
“Livramento”, “Valongo”, “Santana”,
“São Lourenço”. Segundo a autora,
“Morro da Providência” aparecia, em
1850, para denominar a parte da
reg
ião que fica próxima ao Morro do
Pinto. a parte que faz fronteira com
o Morro da Conceição
era conhecida
como Morro do Livramento. Mas a
denominação “Morro da Providência”
voltará a designar toda a região. E o
termo “favela” passa a designar as
GUERREIRO, João; REIS, Luísa. Porto, praça e palco: as ruas da cidade
Revista Latino
-Americana de
, p.
28-50, março 2021.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
(Dossiê "
Tramas entre cultura e educação")
baixa renda, que originariamente seria
o de uma planta existente em Canudo
s
ou de um morro existente no então
Arraiá de Canudos, o morro acaba
assumindo uma nova classificação. A
ocupação dos morros por população
de baixa renda, com pouca ou
nenhuma infraestrutura sanitária ou
serviços públicos, sem arruamento e
rovisórias, acaba
sendo sinônimo de um reduto de
pobreza. Assim, o Morro da Favella
acaba representando o que Lamarão
chamou de reduto dos estratos sociais
Porém, Zylberberg (1992) vai
salientar que a região onde está
Providência teve
outras denominações antes de ser
“rebatizada” de Morro da Favella:
“Paulo Caieiro”, “Formiga”,
“Livramento”, “Valongo”, “Santana”,
“São Lourenço”. Segundo a autora,
“Morro da Providência” aparecia, em
1850, para denominar a parte da
ião que fica próxima ao Morro do
Pinto. a parte que faz fronteira com
era conhecida
como Morro do Livramento. Mas a
denominação “Morro da Providência”
voltará a designar toda a região. E o
termo “favela” passa a designar as
habita
ções provisórias que irão
constituir as moradias da população de
baixa renda, inicialmente, nos diversos
morros da cidade e, posteriormente,
atravessarão as fronteiras da cidade,
estado e até do país.
E é em uma das fronteiras
cidade -
entre o Morro do
atual Morro da Providência
Projeto Teatro Nômade atua. Uma das
autoras desse artigo é professora do
Nômade, dando aulas de teatro nas
ruas para adolescentes desde 2017,
em praças variadas da zona sul da
cidade. Em 2019, o projeto iniciou
turma infantil de teatro de rua na Praça
da Marquês, que fica sob o viaduto
que hoje marca, para os moradores, a
fronteira entre as duas favelas. Essa
turma conta também com a professora
Lorrana Mousinho, e as duas
educadoras, logo nos primeiros dias
de
encontros com as crianças,
puderam perceber que ali as
dificuldades pareciam as mesmas de
ocupar as ruas da zona sul com
adolescentes,mas carregavam muitas
diferenças.
Quando começamos a dar aula
de teatro na rua, nos habituamos a
perder a atenção da turma
cachorros que passavam querendo
34
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
- ISSN 2237-1508
Tramas entre cultura e educação")
ções provisórias que irão
constituir as moradias da população de
baixa renda, inicialmente, nos diversos
morros da cidade e, posteriormente,
atravessarão as fronteiras da cidade,
E é em uma das fronteiras
da
entre o Morro do
Pinto e o
atual Morro da Providência
- que o
Projeto Teatro Nômade atua. Uma das
autoras desse artigo é professora do
Nômade, dando aulas de teatro nas
ruas para adolescentes desde 2017,
em praças variadas da zona sul da
cidade. Em 2019, o projeto iniciou
a
turma infantil de teatro de rua na Praça
da Marquês, que fica sob o viaduto
que hoje marca, para os moradores, a
fronteira entre as duas favelas. Essa
turma conta também com a professora
Lorrana Mousinho, e as duas
educadoras, logo nos primeiros dias
encontros com as crianças,
puderam perceber que ali as
dificuldades pareciam as mesmas de
ocupar as ruas da zona sul com
adolescentes,mas carregavam muitas
Quando começamos a dar aula
de teatro na rua, nos habituamos a
perder a atenção da turma
para os
cachorros que passavam querendo
GUERREIRO, João; REIS, Luísa. Porto, praça e palco: as ruas da cidade
como espaços de educação. PragMATIZES -
Revista Latino
Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 11, n. 20
, p.
carinho dos alunos. Na Praça da
Marquês, embora também tivéssemos
uma grande circulação de animais
durante a aula, era na passagem da
patrulhinha da PM que as crianças se
alvoroçavam, com reações que iam do
medo ao
enfrentamento.A ocupação
histórica desse território, narrada até
aqui, se inicia com violência e
abandono do poder instituído e aponta
para uma profunda discriminação dos
moradores que passaram a habitar os
morros da região. A reação das
crianças, com idad
es de quatro a dez
anos, ao verem a polícia chegar, pode
significar que a relação com o Estado
parece não ter se alterado ao longo
dos séculos, apesar das tentativas de
novas modificações urbanas na área,
como veremos a seguir.
O porto, os projetos urbano
cultura local
Se o século XIX é o de delinear
a nova forma de ocupação da região
portuária e com a inauguração do que
é conhecido como Porto do Rio, na
primeira década do século XX, é nas
décadas seguintes que veremos
diferentes planos e projetos
gov
ernamentais de intervenção tendo
a zona portuária do Rio de Janeiro
GUERREIRO, João; REIS, Luísa. Porto, praça e palco: as ruas da cidade
Revista Latino
-Americana de
, p.
28-50, março 2021.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
(Dossiê "
Tramas entre cultura e educação")
carinho dos alunos. Na Praça da
Marquês, embora também tivéssemos
uma grande circulação de animais
durante a aula, era na passagem da
patrulhinha da PM que as crianças se
alvoroçavam, com reações que iam do
enfrentamento.A ocupação
histórica desse território, narrada até
aqui, se inicia com violência e
abandono do poder instituído e aponta
para uma profunda discriminação dos
moradores que passaram a habitar os
morros da região. A reação das
es de quatro a dez
anos, ao verem a polícia chegar, pode
significar que a relação com o Estado
parece não ter se alterado ao longo
dos séculos, apesar das tentativas de
novas modificações urbanas na área,
O porto, os projetos urbano
s e a
Se o século XIX é o de delinear
a nova forma de ocupação da região
portuária e com a inauguração do que
é conhecido como Porto do Rio, na
primeira década do século XX, é nas
décadas seguintes que veremos
diferentes planos e projetos
ernamentais de intervenção tendo
a zona portuária do Rio de Janeiro
como objeto. Diversas em seus
objetivos, as propostas apresentaram
em comum uma falta de uma política
habitacional para a região e para o
Morro da Providência, em particular.
Com nomenclat
renovação urbana, revitalização ou
mesmo reabilitação urbana
projetos e planos visam gerar novas
dinâmicas, principalmente
econômicas, na área do entorno do
Porto do Rio. Cabe uma pequena
lembrança em relação a estas
denomina
ções. Segundo Ferrara
(1988), os nomes dados às
intervenções urbanas representam
projetos diferentes. Segundo a autora,
renovações urbanas são próprias dos
projetos de
destruição/demolição/desmonte que
buscam dar um ar de modernidade e
racionalidade antes
da emergência do
novo, do construído. o termo
“revitalização urbana” representaria
um projeto que daria uma nova
vitalidade
econômica, cultural, física
e simbólica
às áreas. Entendemos
que pode ser considerado, também,
como um projeto que vise a “da
às áreas degradadas. O termo
“reabilitação urbana” parece
traz, ainda, um conceito da medicina
35
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
- ISSN 2237-1508
Tramas entre cultura e educação")
como objeto. Diversas em seus
objetivos, as propostas apresentaram
em comum uma falta de uma política
habitacional para a região e para o
Morro da Providência, em particular.
Com nomenclat
uras alternativas
renovação urbana, revitalização ou
mesmo reabilitação urbana
todos os
projetos e planos visam gerar novas
dinâmicas, principalmente
econômicas, na área do entorno do
Porto do Rio. Cabe uma pequena
lembrança em relação a estas
ções. Segundo Ferrara
(1988), os nomes dados às
intervenções urbanas representam
projetos diferentes. Segundo a autora,
renovações urbanas são próprias dos
projetos de
destruição/demolição/desmonte que
buscam dar um ar de modernidade e
da emergência do
novo, do construído. o termo
“revitalização urbana” representaria
um projeto que daria uma nova
econômica, cultural, física
às áreas. Entendemos
que pode ser considerado, também,
como um projeto que vise a “da
r vida”
às áreas degradadas. O termo
“reabilitação urbana” parece
-nos que
traz, ainda, um conceito da medicina
GUERREIRO, João; REIS, Luísa. Porto, praça e palco: as ruas da cidade
como espaços de educação. PragMATIZES -
Revista Latino
Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 11, n. 20
, p.
para um “paciente enfermo” ou mesmo
um conceito sociológico de tratar o
espaço urbano “marginal” visando
torná-
lo um novo e funcional espaço.
Alg
o como uma segunda chance
urbana. E essa outra chance seria
obtida através da revalorização
econômica, social e funcional da
região.
O desenvolvimento de novas
tecnologias provocou a diminuição da
necessidade de mão de obra para
trabalhar nas atividades po
Além disso, o armazenamento dos
produtos exportados/importados
passou a ser realizado em
contêineres. Assim, com o tempo, os
grandes armazéns perdem as suas
funções e diminuem o número de
trabalhadores na região portuária.
Com isso, toda uma gama
atividades de comércio e serviço
ancoradas na carga e descarga de
mercadoria que articulavam, também,
a população e o perfil habitacional dos
bairros da Saúde, Gamboa e Santo
Cristo vai ser afetada.
Os estivadores, arrumadores de
carga, conferentes e p
ortuários junto
com seus familiares se estabeleciam
na Região
notadamente no Morro da
Conceição, Morro da Providência,
GUERREIRO, João; REIS, Luísa. Porto, praça e palco: as ruas da cidade
Revista Latino
-Americana de
, p.
28-50, março 2021.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
(Dossiê "
Tramas entre cultura e educação")
para um “paciente enfermo” ou mesmo
um conceito sociológico de tratar o
espaço urbano “marginal” visando
lo um novo e funcional espaço.
o como uma segunda chance
urbana. E essa outra chance seria
obtida através da revalorização
econômica, social e funcional da
O desenvolvimento de novas
tecnologias provocou a diminuição da
necessidade de mão de obra para
trabalhar nas atividades po
rtuárias.
Além disso, o armazenamento dos
produtos exportados/importados
passou a ser realizado em
contêineres. Assim, com o tempo, os
grandes armazéns perdem as suas
funções e diminuem o número de
trabalhadores na região portuária.
Com isso, toda uma gama
de
atividades de comércio e serviço
ancoradas na carga e descarga de
mercadoria que articulavam, também,
a população e o perfil habitacional dos
bairros da Saúde, Gamboa e Santo
Os estivadores, arrumadores de
ortuários junto
com seus familiares se estabeleciam
notadamente no Morro da
Conceição, Morro da Providência,
Morro do Pinto e Morro da Saúde.
Ainda hoje, ao se percorrer a região
encontramos aposentados e familiares
de trabalhadores do porto em
diversas funções. E, junto com eles, as
práticas, relações sociais e possíveis
identidades que povoam a zona
portuária.
Tratando-
se de uma área com
infraestrutura urbana na planície e nos
Morros da Conceição e do Pinto, a
região passou a ser objeto d
de empresários para reocuparem o
lugar, mudarem seus usos e garantir
lucros imobiliários. Mas, dos diversos
projetos e programas pensados para a
região, o único projeto que acabou
saindo do papel foi o denominado
“Porto Maravilha”.
O projeto Porto
elaborado no bojo da candidatura da
cidade do Rio de Janeiro à sede dos
Jogos Olímpicos no espírito instituído
no Plano Estratégico da cidade. É um
projeto que traz como novidade a
ancoragem cultural como dinamizador
do território. A concepç
construção de instituições que
ancorariam a nova ocupação do
território. A nau volta ao porto, agora
como empreendimento cultural: o
Museu de Arte do Rio (MAR), o Museu
36
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
- ISSN 2237-1508
Tramas entre cultura e educação")
Morro do Pinto e Morro da Saúde.
Ainda hoje, ao se percorrer a região
encontramos aposentados e familiares
de trabalhadores do porto em
suas
diversas funções. E, junto com eles, as
práticas, relações sociais e possíveis
identidades que povoam a zona
se de uma área com
infraestrutura urbana na planície e nos
Morros da Conceição e do Pinto, a
região passou a ser objeto d
e desejo
de empresários para reocuparem o
lugar, mudarem seus usos e garantir
lucros imobiliários. Mas, dos diversos
projetos e programas pensados para a
região, o único projeto que acabou
saindo do papel foi o denominado
O projeto Porto
Maravilha foi
elaborado no bojo da candidatura da
cidade do Rio de Janeiro à sede dos
Jogos Olímpicos no espírito instituído
no Plano Estratégico da cidade. É um
projeto que traz como novidade a
ancoragem cultural como dinamizador
do território. A concepç
ão é a
construção de instituições que
ancorariam a nova ocupação do
território. A nau volta ao porto, agora
como empreendimento cultural: o
Museu de Arte do Rio (MAR), o Museu
GUERREIRO, João; REIS, Luísa. Porto, praça e palco: as ruas da cidade
como espaços de educação. PragMATIZES -
Revista Latino
Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 11, n. 20
, p.
do Amanhã e o Aquário Marinho do
Rio de Janeiro – AquaRio.
No projeto original t
pensada uma novidade: uma política
habitacional que iria trazer novos
moradores e garantiria uma mistura de
atividades na região: moradias,
instituições culturais, comércio e
serviços.
Porém, do projeto inicial,
apenas a ancoragem cultural se
mante
ve. Sem uma política de
incentivo à moradia, apenas os
moradores anteriores ao projeto se
mantiveram. E, mais, a única política
habitacional foi o projeto de remoção
de parte dos pouco mais de 4 mil
moradores do Morro da Providência.
Neste ponto vale a pen
lembrarmos que o Projeto Porto
Maravilha abrange os bairros da
Saúde, Gamboa e Santo Cristo
deixando do lado de fora apenas o
Morro da Providência. Assim, a política
habitacional de remoção ficou a cargo
da Secretaria Municipal de Habitação.
Quando estiv
esse concluída, sim, o
Morro da Providência passaria a
integrar o projeto “Porto Maravilha”. O
ônus da remoção ficaria com o poder
público e o bônus de um morro
GUERREIRO, João; REIS, Luísa. Porto, praça e palco: as ruas da cidade
Revista Latino
-Americana de
, p.
28-50, março 2021.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
(Dossiê "
Tramas entre cultura e educação")
do Amanhã e o Aquário Marinho do
No projeto original t
ambém é
pensada uma novidade: uma política
habitacional que iria trazer novos
moradores e garantiria uma mistura de
atividades na região: moradias,
instituições culturais, comércio e
Porém, do projeto inicial,
apenas a ancoragem cultural se
ve. Sem uma política de
incentivo à moradia, apenas os
moradores anteriores ao projeto se
mantiveram. E, mais, a única política
habitacional foi o projeto de remoção
de parte dos pouco mais de 4 mil
moradores do Morro da Providência.
Neste ponto vale a pen
a
lembrarmos que o Projeto Porto
Maravilha abrange os bairros da
Saúde, Gamboa e Santo Cristo
deixando do lado de fora apenas o
Morro da Providência. Assim, a política
habitacional de remoção ficou a cargo
da Secretaria Municipal de Habitação.
esse concluída, sim, o
Morro da Providência passaria a
integrar o projeto “Porto Maravilha”. O
ônus da remoção ficaria com o poder
público e o bônus de um morro
“embelezado” ficaria com a iniciativa
privada.
Mas, outra constatação do
projeto “Porto Mara
vilha” era que o
conceito de revitalização urbana
ancorado nos grandes
empreendimentos culturais negavam
ou “esqueciam” a produção cultural
existente no território.
Conforme apresentado por
Guerreiro (2013), antes do projeto ser
apresentado ao Comitê Ol
(2009), os coletivos culturais, artistas e
instituições culturais existentes
estavam se organizando em rede.
Em 2007, no Centro Cultural
Ação da Cidadania (atual Armazém
Cidadania e Cultura) foi lançado o I
Fórum de Dinamização Cultural da
Zona P
ortuária. Resultado de um
levantamento sociocultural realizado
por integrantes do Instituto Bandeira
Branca de Desenvolvimento Social
(IBB)
responsável pelo projeto
Batucadas Brasileiras
identificadas 30 (trinta) instituições
formalizadas ou não
associações de moradores, sindicatos,
movimentos culturais, sociais e
comunitárias da Zona Portuária. A
área onde ocorreu o levantamento
corresponde ao mesmo território que
37
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
- ISSN 2237-1508
Tramas entre cultura e educação")
“embelezado” ficaria com a iniciativa
Mas, outra constatação do
vilha” era que o
conceito de revitalização urbana
ancorado nos grandes
empreendimentos culturais negavam
ou “esqueciam” a produção cultural
existente no território.
Conforme apresentado por
Guerreiro (2013), antes do projeto ser
apresentado ao Comitê Ol
ímpico
(2009), os coletivos culturais, artistas e
instituições culturais existentes
estavam se organizando em rede.
Em 2007, no Centro Cultural
Ação da Cidadania (atual Armazém
Cidadania e Cultura) foi lançado o I
Fórum de Dinamização Cultural da
ortuária. Resultado de um
levantamento sociocultural realizado
por integrantes do Instituto Bandeira
Branca de Desenvolvimento Social
responsável pelo projeto
Batucadas Brasileiras
foram
identificadas 30 (trinta) instituições
formalizadas ou não
como
associações de moradores, sindicatos,
movimentos culturais, sociais e
comunitárias da Zona Portuária. A
área onde ocorreu o levantamento
corresponde ao mesmo território que
GUERREIRO, João; REIS, Luísa. Porto, praça e palco: as ruas da cidade
como espaços de educação. PragMATIZES -
Revista Latino
Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 11, n. 20
, p.
depois será objeto de intervenção do
projeto Porto Maravilha.
De acordo com um
a reportagem
da revista Batucadas Brasileiras
(2007) intitulada “Zona Portuária se
une no Porto Cultural” representantes
do Fórum Porto Cultural informaram,
na ocasião, que “após décadas como
meros joguetes de diatribes políticas e
especulação imobiliária,
os moradores
e trabalhadores da Zona Portuária
pretendem tomar o timão do futuro da
região.” (p. 42).
A construção do Fórum se deu
durante todo ano de 2007 com a
participação mais efetiva das
seguintes instituições que assinam a
carta manifesto de fundaçã
Cultural
: Centro Cultural Ação da
Cidadania -
CCAC, IBB
Bandeira Branca de Desenvolvimento
Social, Associação Cultural Recreativa
Afoxé Filhos de Gandhi, Instituto de
Pesquisa e Memória Pretos Novos,
Centro Cultural dos Rodoviários,
Grande Companhia Brasileira da
Mystérios e Novidades, Sparta
Associação Esportiva do Morro da
Providência, Tonpi-
Nheco 07, Ribeiro
Promoções e Eventos, Instituto
Sociocultural Favelarte, Spectaculu e
Instituto Nacional de Tecnologia.
GUERREIRO, João; REIS, Luísa. Porto, praça e palco: as ruas da cidade
Revista Latino
-Americana de
, p.
28-50, março 2021.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
(Dossiê "
Tramas entre cultura e educação")
depois será objeto de intervenção do
a reportagem
da revista Batucadas Brasileiras
(2007) intitulada “Zona Portuária se
une no Porto Cultural” representantes
do Fórum Porto Cultural informaram,
na ocasião, que “após décadas como
meros joguetes de diatribes políticas e
os moradores
e trabalhadores da Zona Portuária
pretendem tomar o timão do futuro da
A construção do Fórum se deu
durante todo ano de 2007 com a
participação mais efetiva das
seguintes instituições que assinam a
carta manifesto de fundaçã
o do Porto
: Centro Cultural Ação da
CCAC, IBB
Instituto
Bandeira Branca de Desenvolvimento
Social, Associação Cultural Recreativa
Afoxé Filhos de Gandhi, Instituto de
Pesquisa e Memória Pretos Novos,
Centro Cultural dos Rodoviários,
Grande Companhia Brasileira da
Mystérios e Novidades, Sparta
Associação Esportiva do Morro da
Nheco 07, Ribeiro
Promoções e Eventos, Instituto
Sociocultural Favelarte, Spectaculu e
Instituto Nacional de Tecnologia.
Assim, o objetivo d
Cultural seria o de provocar a sinergia
entre as diversas ações existentes
na região, ajuda mútua para a
consolidação de outras e procurar uma
agenda comum que agregasse todas
as entidades num Plano de Ação onde
pudessem executar atividades e
pr
essionar o poder público para as
melhorias que a região necessita.
A proposta era tomar a frente
das políticas públicas socioculturais de
forma com que os grupos participantes
garantissem sua autonomia e
sustentabilidade.
Resumindo, a articulação
política
dos atores socioculturais da
Região Portuária autodenominada
Porto Cultural tinha como ambição
agregar as ações culturais e sociais da
Zona Portuária e interferir nos projetos
pré-
existentes e que, até então, não
tinham saído do papel. A busca era
para que
a dinamização que estava
prestes a acontecer levasse em conta,
principalmente, a população local,
inserindo-
a e não a expulsando.
O Nômade chegou ao Morro da
Providência a partir do convite de outro
projeto, o Viaduto Literário, criado pela
moradora Marci
a Raquel, mãe de dois
ex-
alunos das nossas aulas de teatro.
38
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
- ISSN 2237-1508
Tramas entre cultura e educação")
Assim, o objetivo d
o Porto
Cultural seria o de provocar a sinergia
entre as diversas ações existentes
na região, ajuda mútua para a
consolidação de outras e procurar uma
agenda comum que agregasse todas
as entidades num Plano de Ação onde
pudessem executar atividades e
essionar o poder público para as
melhorias que a região necessita.
A proposta era tomar a frente
das políticas públicas socioculturais de
forma com que os grupos participantes
garantissem sua autonomia e
Resumindo, a articulação
dos atores socioculturais da
Região Portuária autodenominada
Porto Cultural tinha como ambição
agregar as ações culturais e sociais da
Zona Portuária e interferir nos projetos
existentes e que, até então, não
tinham saído do papel. A busca era
a dinamização que estava
prestes a acontecer levasse em conta,
principalmente, a população local,
a e não a expulsando.
O Nômade chegou ao Morro da
Providência a partir do convite de outro
projeto, o Viaduto Literário, criado pela
a Raquel, mãe de dois
alunos das nossas aulas de teatro.
GUERREIRO, João; REIS, Luísa. Porto, praça e palco: as ruas da cidade
como espaços de educação. PragMATIZES -
Revista Latino
Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 11, n. 20
, p.
O Viaduto também propõe uma
ocupação coletiva da Praça da
Marquês com as crianças, produzindo
rodas de leituras, contações de
histórias, oficinas e compartilhamento
de afetos. Embora nem o Nômade
nem o Viaduto existissem no momento
do Porto Cultural, nessas ações
questões que se assemelham.
Segundo Deleuze (1997), não é
necessariamente deslocamento que
caracteriza o nomadismo, mas sim a
relação com o território que ocupa. O
nômade, no sentido di
cionarizado, é
aquele errante, o que não tem pouso
fixo, o que vaga. Em Deleuze, o que
faz nomadismo é o percurso
permanente, pois o nômade não toma
território, se apropria daquele espaço
por meio do uso que se faz dele. O
nômade não é aquele que quer a
pr
opriedade do espaço, ele quer
atravessar o espaço, usar o espaço, e
assim, modificá-lo.
Para Certeau, uma distinção
entre lugar e espaço
. Enquanto o
primeiro aponta para uma estabilidade,
o segundo indica variável, movimento.
Um não é a exclusão do outr
se transformam num e noutro por meio
dos relatos, dos efeitos que se
produzem nas operações de usos.
GUERREIRO, João; REIS, Luísa. Porto, praça e palco: as ruas da cidade
Revista Latino
-Americana de
, p.
28-50, março 2021.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
(Dossiê "
Tramas entre cultura e educação")
O Viaduto também propõe uma
ocupação coletiva da Praça da
Marquês com as crianças, produzindo
rodas de leituras, contações de
histórias, oficinas e compartilhamento
de afetos. Embora nem o Nômade
nem o Viaduto existissem no momento
do Porto Cultural, nessas ações
questões que se assemelham.
Segundo Deleuze (1997), não é
necessariamente deslocamento que
caracteriza o nomadismo, mas sim a
relação com o território que ocupa. O
cionarizado, é
aquele errante, o que não tem pouso
fixo, o que vaga. Em Deleuze, o que
faz nomadismo é o percurso
permanente, pois o nômade não toma
território, se apropria daquele espaço
por meio do uso que se faz dele. O
nômade não é aquele que quer a
opriedade do espaço, ele quer
atravessar o espaço, usar o espaço, e
Para Certeau, uma distinção
. Enquanto o
primeiro aponta para uma estabilidade,
o segundo indica variável, movimento.
Um não é a exclusão do outr
o, ambos
se transformam num e noutro por meio
dos relatos, dos efeitos que se
produzem nas operações de usos.
“Em suma,
o espaço é um lugar
praticado
. Assim a rua
geometricamente definida por um
urbanismo é transformada em espaço
pelos pedestres.” (CERTEAU
184) Lugar é aquilo que define, que
ordena, enquanto espaço está em
variação a partir das ações dos
sujeitos históricos. Não se trata aqui
de ser espaço ou
estriado. Ao trabalhar o estriado como
liso, o nômade faz uma operação de
afeto, de transformação pelo hábito,
pelo uso. E aqui, mais uma vez, nos
aproximamos de Certeau (2014), que
vê, nos movimentos de caminhada,
uma falta, uma errância que priva de
lugar, e, portanto, de identidade.
Dessa forma, é o habitar, o hábito, que
desvela um espaço.
Era esse habitar, que fala de
uma relação direta desses moradores
com o espaço, podendo ele ser ao
mesmo tempo praça, porto, palco e
muito mais, que estava sendo
ignorado. Mais uma vez, os moradores
locais não foram ouvidos pelo poder
público e o projeto P
além de não implementar a política
habitacional para a região,
desconsiderou os fazedores culturais
do território. E, esses, se viram no
39
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
- ISSN 2237-1508
Tramas entre cultura e educação")
o espaço é um lugar
. Assim a rua
geometricamente definida por um
urbanismo é transformada em espaço
pelos pedestres.” (CERTEAU
, 2014, p.
184) Lugar é aquilo que define, que
ordena, enquanto espaço está em
variação a partir das ações dos
sujeitos históricos. Não se trata aqui
lugar, liso ou
estriado. Ao trabalhar o estriado como
liso, o nômade faz uma operação de
afeto, de transformação pelo hábito,
pelo uso. E aqui, mais uma vez, nos
aproximamos de Certeau (2014), que
vê, nos movimentos de caminhada,
uma falta, uma errância que priva de
lugar, e, portanto, de identidade.
Dessa forma, é o habitar, o hábito, que
Era esse habitar, que fala de
uma relação direta desses moradores
com o espaço, podendo ele ser ao
mesmo tempo praça, porto, palco e
muito mais, que estava sendo
ignorado. Mais uma vez, os moradores
locais não foram ouvidos pelo poder
público e o projeto P
orto Maravilha,
além de não implementar a política
habitacional para a região,
desconsiderou os fazedores culturais
do território. E, esses, se viram no
GUERREIRO, João; REIS, Luísa. Porto, praça e palco: as ruas da cidade
como espaços de educação. PragMATIZES -
Revista Latino
Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 11, n. 20
, p.
meio de um processo de criação de
grandes empreendimentos de
entretenimento e atração de novos
artistas
e grupos para a região.
Como consequência, o Porto
Cultural se enfraqueceu e se
desarticulou. Como no projeto “Porto
Maravilha” havia recurso para financiar
atividades culturais pré-
existentes no
território, a relação com o órgão gestor
do projeto se deu
individualmente.
Divididos, ficaram mais fracos nas
negociações.
Assim, quando o Projeto Teatro
Nômade desembarca em um território
da região portuária que não se
caracteriza nem como Morro da
Providência, nem Morro do Pinto e,
muito menos é considerado par
bairro do Santo Cristo, muitas lutas,
resistências e produções artístico
culturais tinham marcado essa
região. Organizados na época do
Porto Cultural ou fazendo parcerias e
ações solidárias como agora, os
grupos culturais da região do
“festejado”
projeto imobiliário Porto
Maravilha continuam seu caminho
apesar e a despeito do poder público
que muitas vezes os invisibilizam.
Mas, tragamos luz à fronteira!
GUERREIRO, João; REIS, Luísa. Porto, praça e palco: as ruas da cidade
Revista Latino
-Americana de
, p.
28-50, março 2021.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
(Dossiê "
Tramas entre cultura e educação")
meio de um processo de criação de
grandes empreendimentos de
entretenimento e atração de novos
e grupos para a região.
Como consequência, o Porto
Cultural se enfraqueceu e se
desarticulou. Como no projeto “Porto
Maravilha” havia recurso para financiar
existentes no
território, a relação com o órgão gestor
individualmente.
Divididos, ficaram mais fracos nas
Assim, quando o Projeto Teatro
Nômade desembarca em um território
da região portuária que não se
caracteriza nem como Morro da
Providência, nem Morro do Pinto e,
muito menos é considerado par
te do
bairro do Santo Cristo, muitas lutas,
resistências e produções artístico
-
culturais tinham marcado essa
região. Organizados na época do
Porto Cultural ou fazendo parcerias e
ações solidárias como agora, os
grupos culturais da região do
projeto imobiliário Porto
Maravilha continuam seu caminho
apesar e a despeito do poder público
que muitas vezes os invisibilizam.
Mas, tragamos luz à fronteira!
Todo menino é um rei
Em seu livro
oprimido e outras poéticas políticas
Augusto
Boal afirma que “todo teatro é
necessariamente político, porque
políticas são todas as atividades do
homem, e o teatro é uma delas.”
(BOAL, 2010, p. 11). Para Luiz Antônio
Simas (2019)
, as ruas da cidade estão
em permanente disputa política entre
as classe
s dominantes e os
subalternizados. Entendemos que o
trabalho desenvolvido pelo Nômade é
político na encruzilhada dessas duas
dimensões.
No pri