GÜNTENSPERGER, Tavelly M. S.; NICOLINI, Livia Baptista. Sobre
juventudes e o habitar a periferia de Duque e Caxias
Revista Latino-
Americana de Estudos em Cultura,
20, p. 194-217, março 2021.
Sobre juventudes e o habitar a periferia de Duque de Caxias
DOI:
https://doi.org/10.22409/pragmatizes.v11i20.45785
Resumo
: Esse texto é tecido a partir da pesquisa realizada por uma das autoras que,com o auxílio
dos estudos nos/dos/com os cotidianos, através das narrativas dos estudantes, buscou conhecer as
formas com as quais jovens estudantes de uma escola estadual do bair
Duque de Caxias, habitam a cidade, o bairro e os ambientes em que vivem. Essa ideia surgiu nos
afetamentos das conversas cotidianas de sala de aula entre tal professora, que trabalha com ensino
de Ciências, e as e os estudantes, os
sobre suas relações e deslocamentos pelo espaço em que habitam e o quanto são impactados por
ele. Através de rodas de imagens e conversas, com a ideia de potencializar o encontro e de pensar
colet
ivamente, buscamos pensar quais usos esses jovens fazem dos espaços e ambientes em que
vivem. Apresentaremos, ao final, as fotografias produzidas pelos jovens e as reflexões tecidas nas
conversas com tais fotografias.
Palavras-chave
Sobre juventudes y lo vivir la periferia de Duque de Caxias
Resumen:
Este texto es tejido a partir de una investigación realizada por una de las autoras que, con
el auxilio de los estudios en los/ de los/ con los cotidianos, a través de las narrativas de los
estudiantes, buscó conocer las formas con las cuales jóvenes estud
del barrio Jardim Primavera, en Duque de Caxias, habitan la ciudad, el barrio y los ambientes en que
viven. Esa idea surgde las conversaciones en aula entre tal profesora, que trabaja con enseñanza
de ciencias, y los est
udiantes, los
narraban sobre sus relaciones y desplazamientos por el espacio donde habitan y lo cuanto son
impactados por él. A través de ruedas de imágenes y conversaciones, con la idea de potencializar el
encuentro y de pensar col
ectivamente, buscamos pensar cuales usos esos jóvenes hacen de los
espacios y ambientes en que viven. Presentaremos, al final, las fotografías producidas por los
jóvenes y las reflexiones tejidas en las conversaciones con tales fotografías.
1
Ravelly Machado Soares Güntensperger
Educação do Rio de Janeiro.
Mestra
E-mail: ravellyms@gmail.com -
https://
2
Livia Baptista Nicolini.
Doutora em Ciências pela Fundação Oswaldo Cruz (EBS/Fiocruz
do IFRJ -
Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro
livia.nicolini@ifrj.edu.br - https://
orcid.org/0000
Texto recebido em 06/09/20
20,
GÜNTENSPERGER, Tavelly M. S.; NICOLINI, Livia Baptista. Sobre
juventudes e o habitar a periferia de Duque e Caxias
. PragMATIZES -
Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 11, n.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
(Dossiê "
Tramas entre cultura e educação")
Sobre juventudes e o habitar a periferia de Duque de Caxias
https://doi.org/10.22409/pragmatizes.v11i20.45785
Ravelly Machado Soares Güntensperger
Livia Baptista Nicolini
: Esse texto é tecido a partir da pesquisa realizada por uma das autoras que,com o auxílio
dos estudos nos/dos/com os cotidianos, através das narrativas dos estudantes, buscou conhecer as
formas com as quais jovens estudantes de uma escola estadual do bair
ro Jardim Primavera, em
Duque de Caxias, habitam a cidade, o bairro e os ambientes em que vivem. Essa ideia surgiu nos
afetamentos das conversas cotidianas de sala de aula entre tal professora, que trabalha com ensino
de Ciências, e as e os estudantes, os
praticantespensantes
da cidade e da escola, quando narravam
sobre suas relações e deslocamentos pelo espaço em que habitam e o quanto são impactados por
ele. Através de rodas de imagens e conversas, com a ideia de potencializar o encontro e de pensar
ivamente, buscamos pensar quais usos esses jovens fazem dos espaços e ambientes em que
vivem. Apresentaremos, ao final, as fotografias produzidas pelos jovens e as reflexões tecidas nas
: Estudos com os
cotidianos; juventudes; habitar; cidades;
ensino de ciências.
Sobre juventudes y lo vivir la periferia de Duque de Caxias
Este texto es tejido a partir de una investigación realizada por una de las autoras que, con
el auxilio de los estudios en los/ de los/ con los cotidianos, a través de las narrativas de los
estudiantes, buscó conocer las formas con las cuales jóvenes estud
iantes de una escuela provincial
del barrio Jardim Primavera, en Duque de Caxias, habitan la ciudad, el barrio y los ambientes en que
viven. Esa idea surgde las conversaciones en aula entre tal profesora, que trabaja con enseñanza
udiantes, los
practicantespensantes
de la ciudad y de la escuela, cuando
narraban sobre sus relaciones y desplazamientos por el espacio donde habitan y lo cuanto son
impactados por él. A través de ruedas de imágenes y conversaciones, con la idea de potencializar el
ectivamente, buscamos pensar cuales usos esos jóvenes hacen de los
espacios y ambientes en que viven. Presentaremos, al final, las fotografías producidas por los
jóvenes y las reflexiones tejidas en las conversaciones con tales fotografías.
Ravelly Machado Soares Güntensperger
.
Professora de Ciências na Secretaria Estadual de
Mestra
nda
em Educação, pela Universidade Federal Fluminense
https://
orcid.org/0000-0002-8783-0327
Doutora em Ciências pela Fundação Oswaldo Cruz (EBS/Fiocruz
Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro
, Brasil.
orcid.org/0000
-0001-7309-2012
20,
aceit
o para publicação em 12/10/2020 e disponibilizado online
em 01/03/2021.
194
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
- ISSN 2237-1508
Tramas entre cultura e educação")
Sobre juventudes e o habitar a periferia de Duque de Caxias
Ravelly Machado Soares Güntensperger
1
Livia Baptista Nicolini
2
: Esse texto é tecido a partir da pesquisa realizada por uma das autoras que,com o auxílio
dos estudos nos/dos/com os cotidianos, através das narrativas dos estudantes, buscou conhecer as
ro Jardim Primavera, em
Duque de Caxias, habitam a cidade, o bairro e os ambientes em que vivem. Essa ideia surgiu nos
afetamentos das conversas cotidianas de sala de aula entre tal professora, que trabalha com ensino
da cidade e da escola, quando narravam
sobre suas relações e deslocamentos pelo espaço em que habitam e o quanto são impactados por
ele. Através de rodas de imagens e conversas, com a ideia de potencializar o encontro e de pensar
ivamente, buscamos pensar quais usos esses jovens fazem dos espaços e ambientes em que
vivem. Apresentaremos, ao final, as fotografias produzidas pelos jovens e as reflexões tecidas nas
ensino de ciências.
Este texto es tejido a partir de una investigación realizada por una de las autoras que, con
el auxilio de los estudios en los/ de los/ con los cotidianos, a través de las narrativas de los
iantes de una escuela provincial
del barrio Jardim Primavera, en Duque de Caxias, habitan la ciudad, el barrio y los ambientes en que
viven. Esa idea surgde las conversaciones en aula entre tal profesora, que trabaja con enseñanza
de la ciudad y de la escuela, cuando
narraban sobre sus relaciones y desplazamientos por el espacio donde habitan y lo cuanto son
impactados por él. A través de ruedas de imágenes y conversaciones, con la idea de potencializar el
ectivamente, buscamos pensar cuales usos esos jóvenes hacen de los
espacios y ambientes en que viven. Presentaremos, al final, las fotografías producidas por los
Professora de Ciências na Secretaria Estadual de
em Educação, pela Universidade Federal Fluminense
, Brasil.
Doutora em Ciências pela Fundação Oswaldo Cruz (EBS/Fiocruz
).Professora
, Brasil.
E-mail:
o para publicação em 12/10/2020 e disponibilizado online
GÜNTENSPERGER, Tavelly M. S.; NICOLINI, Livia Baptista. Sobre
juventudes e o habitar a periferia de Duque e Caxias
Revista Latino-
Americana de Estudos em Cultura,
20, p. 194-217, março 2021.
Palabras clave
: Estudios con los cotidianos
About youth and periphery dwelling of Duque de Caxias
Abstract
: This text is woven from the research realized by one of the authors who, with the help of
studies in / of / with daily life, through the students' narratives, sought to know the ways in which young
students from a state school in the Jardim Primavera nei
city, the neighborhood and the environments in which they live. This idea arises in the impacts of daily
classroom conversations between such a teacher who works with science teaching and the students,
the thinkerspractitioners
of the city and the school, when they narrate about their relationships and
displacements through the space they live in and how much are impacted by it. Through images and
conversations circles, with the idea of enhancing the encounter and
think about what uses these youth make of the spaces and environments in which they live. At the
end, we will present the photographs produced by the youth and the reflections made in the
conversations with such photograph
Keywords
: Studies with daily life
Sobre juventudes e o habitar a periferia de Duque de Caxias
Introdução
Os estudos nos/dos/com
cotidianos nos ajudam a estudar
movimentos que brotam no dia a dia
do cotidiano escolar, como, por
exemplo, nas conversas entre
estudantes e sua professora de
C
iências. Nessas conversas, ao nos
permitirmos pensar com nossos
interlocutores, podemos entrar em um
movimento e ampliar nossas redes de
conhecimentos e significações. A
3
Nos estudos com os cotidianos buscamos
aglutinar palavras consideradas antagônicas,
tais como dentrofora,
espaçotempo
aprenderensinar
contra os binarismos e dicotomias que as
entendem como opostas. Esta sobreposição
também
acontece por entender o
en
trelaçamento de tais palavras.
GÜNTENSPERGER, Tavelly M. S.; NICOLINI, Livia Baptista. Sobre
juventudes e o habitar a periferia de Duque e Caxias
. PragMATIZES -
Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 11, n.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
(Dossiê "
Tramas entre cultura e educação")
: Estudios con los cotidianos
; juventudes; habitar; ciudades;
enseñanza de ciencias
About youth and periphery dwelling of Duque de Caxias
: This text is woven from the research realized by one of the authors who, with the help of
studies in / of / with daily life, through the students' narratives, sought to know the ways in which young
students from a state school in the Jardim Primavera nei
ghborhood, in Duque de Caxias, inhabit the
city, the neighborhood and the environments in which they live. This idea arises in the impacts of daily
classroom conversations between such a teacher who works with science teaching and the students,
of the city and the school, when they narrate about their relationships and
displacements through the space they live in and how much are impacted by it. Through images and
conversations circles, with the idea of enhancing the encounter and
thinking collectively, we seek to
think about what uses these youth make of the spaces and environments in which they live. At the
end, we will present the photographs produced by the youth and the reflections made in the
conversations with such photograph
s.
: Studies with daily life
; youth; inhabit; cities; science teaching.
Sobre juventudes e o habitar a periferia de Duque de Caxias
Os estudos nos/dos/com
3
os
cotidianos nos ajudam a estudar
movimentos que brotam no dia a dia
do cotidiano escolar, como, por
exemplo, nas conversas entre
estudantes e sua professora de
iências. Nessas conversas, ao nos
permitirmos pensar com nossos
interlocutores, podemos entrar em um
movimento e ampliar nossas redes de
conhecimentos e significações. A
Nos estudos com os cotidianos buscamos
aglutinar palavras consideradas antagônicas,
espaçotempo
,
, como uma provocação
contra os binarismos e dicotomias que as
entendem como opostas. Esta sobreposição
acontece por entender o
trelaçamento de tais palavras.
pesquisa que deu origem a esse artigo
foi tecida nas conversas cotidianas
que foram, t
ambém, afetadas por
questões relacionadas aos espaços
habitados pela professora e alunas/os.
A pesquisa buscou pensar com
as narrativas das juventudes que nos
contam como são tecidas suas
relações cotidianas com o espaço em
que vivem, pois entendemos com
O
liveira e Sgarbi (2008) que o
cotidiano não é um espaço de mera
repetição do senso-
comum, mas sim é
espaçotempo
de produção de
conhecimento que reflete no
dentrofora
da escola. Desta forma:
O cotidiano é o
complexidade da vida social na qual
se inscreve toda produção de
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www.periodicos.uff.br/pragmatizes
- ISSN 2237-1508
Tramas entre cultura e educação")
enseñanza de ciencias
.
: This text is woven from the research realized by one of the authors who, with the help of
studies in / of / with daily life, through the students' narratives, sought to know the ways in which young
ghborhood, in Duque de Caxias, inhabit the
city, the neighborhood and the environments in which they live. This idea arises in the impacts of daily
classroom conversations between such a teacher who works with science teaching and the students,
of the city and the school, when they narrate about their relationships and
displacements through the space they live in and how much are impacted by it. Through images and
thinking collectively, we seek to
think about what uses these youth make of the spaces and environments in which they live. At the
end, we will present the photographs produced by the youth and the reflections made in the
Sobre juventudes e o habitar a periferia de Duque de Caxias
pesquisa que deu origem a esse artigo
foi tecida nas conversas cotidianas
ambém, afetadas por
questões relacionadas aos espaços
habitados pela professora e alunas/os.
A pesquisa buscou pensar com
as narrativas das juventudes que nos
contam como são tecidas suas
relações cotidianas com o espaço em
que vivem, pois entendemos com
liveira e Sgarbi (2008) que o
cotidiano não é um espaço de mera
comum, mas sim é
de produção de
conhecimento que reflete no
da escola. Desta forma:
O cotidiano é o
espaçotempo da
complexidade da vida social na qual
se inscreve toda produção de
GÜNTENSPERGER, Tavelly M. S.; NICOLINI, Livia Baptista. Sobre
juventudes e o habitar a periferia de Duque e Caxias
Revista Latino-
Americana de Estudos em Cultura,
20, p. 194-217, março 2021.
conhecimento e práticas científicas,
sociais, grupais, individuais. Daí a
extrema importância de aprofundar
seu estudo e desenvolver a
compreensão de sua complexidade
intrínseca para pensa
realidade social e as possibilidades
emancipatórias que nela se
inscrevem. (OLIVEIRA
2008, p. 72).
Como metodologia, inspiradas
por Andrade e Guerreiro (2019),
através de uma roda de imagens e
conversas, conversamos com as
juventudes de um
a escola na periferia
do bairro Jardim Primavera, em Duque
de Caxias e com as fotografias
produzidas por elas, como forma de,
com Certeau (2014), pensarmos
formas de habitar tal bairro a partir
usos que fazem do espaço e dos
ambientes em que vivem.
Sobre o habitar
Os estudos nos/dos/com
cotidianos nos ajudam a entender
esses como
espaçotempo
complexo
de produção de
conhecimentos e subjetividades em
rede, e dessa forma, ajudam a pensar
os usos e táticas
que
praticantespensantes
, os usu
cidade, fazem dos espaços em que
vivem.
A tessitura de conhecimentos e
significações em rede desestabiliza
GÜNTENSPERGER, Tavelly M. S.; NICOLINI, Livia Baptista. Sobre
juventudes e o habitar a periferia de Duque e Caxias
. PragMATIZES -
Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 11, n.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
(Dossiê "
Tramas entre cultura e educação")
conhecimento e práticas científicas,
sociais, grupais, individuais. Daí a
extrema importância de aprofundar
seu estudo e desenvolver a
compreensão de sua complexidade
intrínseca para pensa
rmos a
realidade social e as possibilidades
emancipatórias que nela se
inscrevem. (OLIVEIRA
; SGARBI,
Como metodologia, inspiradas
por Andrade e Guerreiro (2019),
através de uma roda de imagens e
conversas, conversamos com as
a escola na periferia
do bairro Jardim Primavera, em Duque
de Caxias e com as fotografias
produzidas por elas, como forma de,
com Certeau (2014), pensarmos
formas de habitar tal bairro a partir
dos
usos que fazem do espaço e dos
Os estudos nos/dos/com
cotidianos nos ajudam a entender
espaçotempo
diverso e
de produção de
conhecimentos e subjetividades em
rede, e dessa forma, ajudam a pensar
que
jovens
, os usu
ários da
cidade, fazem dos espaços em que
A tessitura de conhecimentos e
significações em rede desestabiliza
uma ideia de produção de
conhecimento hierarquizada,
fragmentada e hegemônica. Valoriza
os diferentes saberes que acontecem
nas relações so
ciais dessas redes,
uma vez que compreende os
diferentes
praticantespensantes
inseridos no mundo e o entendem de
forma diversa, inclusive os seus
cotidianos. Segundo Oliveira (2008
54):
A tessitura das redes e práticas
sociais reais se dá através de
táticas dos praticantes’ que inserem
na estrutura social criatividade e
pluralidade, modificadores das
regras e das relações entre o poder
da dominação e a vida dos que a ele
estão, su
postamente, submetidos.
Para pensar o habitar nos
aproximamos d
e Certeau (2014) para
elaborar as estratégias e táticas
envolvidas nos usos que fazemos dos
espaços em que vivemos. Assim, os
usos se relacionam com as maneiras
de fazer, as formas com as quais
manipulam-
se produtos e regras
impostas por um poder hegemônic
disciplinador. A essas regras podemos
entender como as estratégias. Já as
táticas acontecem quando os
praticantespensant
es de um espaço
alteram as ordens impostas por um
poder hegemônico, utilizando
manipulando-
as de novas maneiras e,
196
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
- ISSN 2237-1508
Tramas entre cultura e educação")
uma ideia de produção de
conhecimento hierarquizada,
fragmentada e hegemônica. Valoriza
os diferentes saberes que acontecem
ciais dessas redes,
uma vez que compreende os
praticantespensantes
inseridos no mundo e o entendem de
forma diversa, inclusive os seus
cotidianos. Segundo Oliveira (2008
, p.
A tessitura das redes e práticas
sociais reais se dá através de
‘usos e
táticas dos praticantes’ que inserem
na estrutura social criatividade e
pluralidade, modificadores das
regras e das relações entre o poder
da dominação e a vida dos que a ele
postamente, submetidos.
Para pensar o habitar nos
e Certeau (2014) para
elaborar as estratégias e táticas
envolvidas nos usos que fazemos dos
espaços em que vivemos. Assim, os
usos se relacionam com as maneiras
de fazer, as formas com as quais
se produtos e regras
impostas por um poder hegemônic
o
disciplinador. A essas regras podemos
entender como as estratégias. Já as
táticas acontecem quando os
es de um espaço
alteram as ordens impostas por um
poder hegemônico, utilizando
-as e
as de novas maneiras e,
GÜNTENSPERGER, Tavelly M. S.; NICOLINI, Livia Baptista. Sobre
juventudes e o habitar a periferia de Duque e Caxias
Revista Latino-
Americana de Estudos em Cultura,
20, p. 194-217, março 2021.
com isso, “ins
erem, na estrutura social,
criatividade e pluralidade,
modificadores das regras e das
relações entre o poder da dominação e
a vida dos que a ela estão,
supostamente, submetidos” (BASTOS
BARONI, 2019, p. 5).
Para compreender as maneiras
de os praticantes u
tilizarem a ordem
imposta pelo sistema urbano de uma
cidade, d
a qual não participam
diretamente de sua produção, é
importante compreender as maneiras
de fazer o cotidiano, ou seja, as táticas
daqueles que vivem na cidade, nos
usos que jovens fazem da cidad
Assim, táticas são as formas de
apropriação do espaço vivido. As
táticas acontecem nas práticas
cotidianas como forma de resistência a
estruturas de poder de um lugar.
As maneiras de fazer ou as
artes de fazer são o que os estudos
nos/dos/com os cotidia
nos pretendem
captar, na busca por compreender
como acontecem suas produções,
como são negociadas e seus sistemas
de funcionamento e desenvolvimento
(OLIVEIRA, 2008).
As juventudes estudantes de
uma escola da periferia de Duque de
Caxias, localizada no bai
rro de Jardim
GÜNTENSPERGER, Tavelly M. S.; NICOLINI, Livia Baptista. Sobre
juventudes e o habitar a periferia de Duque e Caxias
. PragMATIZES -
Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 11, n.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
(Dossiê "
Tramas entre cultura e educação")
erem, na estrutura social,
criatividade e pluralidade,
modificadores das regras e das
relações entre o poder da dominação e
a vida dos que a ela estão,
supostamente, submetidos” (BASTOS
;
Para compreender as maneiras
tilizarem a ordem
imposta pelo sistema urbano de uma
a qual não participam
diretamente de sua produção, é
importante compreender as maneiras
de fazer o cotidiano, ou seja, as táticas
daqueles que vivem na cidade, nos
usos que jovens fazem da cidad
e.
Assim, táticas são as formas de
apropriação do espaço vivido. As
táticas acontecem nas práticas
cotidianas como forma de resistência a
estruturas de poder de um lugar.
As maneiras de fazer ou as
artes de fazer são o que os estudos
nos pretendem
captar, na busca por compreender
como acontecem suas produções,
como são negociadas e seus sistemas
de funcionamento e desenvolvimento
As juventudes estudantes de
uma escola da periferia de Duque de
rro de Jardim
Primavera, são os
praticantespensantes
cotidianos dentro e fora da escola.
Gostaríamos de pensar com elas e
eles sobre as possibilidades de habitar
um bairro, entendendo que os
“habitares” estão relacionados com os
usos que faze
m desse bairro.
Aqui entendemos que a
juventude não é homog
reduzimos a uma fase de transição da
vida. Mas a compreendemos, também,
como uma categoria sociocultural
mente produzida e que com isso não
uma única forma de ser jovem. Por
isso, e
scolhemos aqui, falar sobre as
juventudes de um bairro. Nesse
sentido, Enne e Passos (2018)
afirmam que “em uma mesma
espacialidade físico e social, muitos
sentidos de juventudes podem
conviver, se atravessar, entrar em
conflito, se complementar, revelar
p
ossibilidades diferentes de ser e estar
no mundo” (ENNE;
p.125).
Apesar de haver a tentativa de
homogeneizar a juventude com o
objetivo de produzir estatísticas e
pensar políticas públicas, segundo
Dayrell (2003) as juventudes são
produzidas
de formas particulares por
197
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
- ISSN 2237-1508
Tramas entre cultura e educação")
Primavera, são os
que vivenciam
cotidianos dentro e fora da escola.
Gostaríamos de pensar com elas e
eles sobre as possibilidades de habitar
um bairro, entendendo que os
“habitares” estão relacionados com os
m desse bairro.
Aqui entendemos que a
juventude não é homog
ênea. Não a
reduzimos a uma fase de transição da
vida. Mas a compreendemos, também,
como uma categoria sociocultural
-
mente produzida e que com isso não
uma única forma de ser jovem. Por
scolhemos aqui, falar sobre as
juventudes de um bairro. Nesse
sentido, Enne e Passos (2018)
afirmam que “em uma mesma
espacialidade físico e social, muitos
sentidos de juventudes podem
conviver, se atravessar, entrar em
conflito, se complementar, revelar
ossibilidades diferentes de ser e estar
PASSOS, 2018,
Apesar de haver a tentativa de
homogeneizar a juventude com o
objetivo de produzir estatísticas e
pensar políticas públicas, segundo
Dayrell (2003) as juventudes são
de formas particulares por
GÜNTENSPERGER, Tavelly M. S.; NICOLINI, Livia Baptista. Sobre
juventudes e o habitar a periferia de Duque e Caxias
Revista Latino-
Americana de Estudos em Cultura,
20, p. 194-217, março 2021.
diferentes sociedades e grupos
sociais. Suas produções envolvem
“classes sociais, etnias, valores,
posições religiosas, espaços
geográficos, gêneros e muitos outros”
(MELO et al.
, 2012, p. 164). Assim, as
juventudes são também re
construções sociais.
Reduzir juventudes a uma fase
da vida que possui determinada
duração, como uma fase de
preparação e de transição para a vida
adulta (com um fim determinado), ou
então a uma fase romantizada
permeada por ações irresponsávei
que busca por prazer e liberdade e
possui práticas consideradas exóticas,
pode proporcionar uma compreensão
limitada das vivências dos jovens.
Como se a juventude fosse única,
homogênea, bem como produz uma
perspectiva rotulada de tal
grupo.Como Dayrell
(2003
destaca:
Entendemos a juventude como parte
de um processo mais amplo de
constituição de sujeitos, mas que
tem especificidades que marcam a
vida de cada um. A juventude
constitui um momento determinado,
mas não se reduz a uma passagem;
ela assum
e uma importância em si
mesma.
A idealização de uma juventude
como uma fase de dedicação aos
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Tramas entre cultura e educação")
diferentes sociedades e grupos
sociais. Suas produções envolvem
“classes sociais, etnias, valores,
posições religiosas, espaços
geográficos, gêneros e muitos outros”
, 2012, p. 164). Assim, as
juventudes são também re
sultados de
Reduzir juventudes a uma fase
da vida que possui determinada
duração, como uma fase de
preparação e de transição para a vida
adulta (com um fim determinado), ou
então a uma fase romantizada
permeada por ações irresponsávei
s,
que busca por prazer e liberdade e
possui práticas consideradas exóticas,
pode proporcionar uma compreensão
limitada das vivências dos jovens.
Como se a juventude fosse única,
homogênea, bem como produz uma
perspectiva rotulada de tal
(2003
, p. 42)
Entendemos a juventude como parte
de um processo mais amplo de
constituição de sujeitos, mas que
tem especificidades que marcam a
vida de cada um. A juventude
constitui um momento determinado,
mas não se reduz a uma passagem;
e uma importância em si
A idealização de uma juventude
como uma fase de dedicação aos
estudos e ao lazer, livre das pressões
impostas pelo mundo do trabalho não
é vivenciada pela maioria dos jovens
brasileiros. As juventudes se
constituem a part
ir das vivências dos
sujeitos com as suas realidades sócio
históricas. Sua heterogeneidade é
também influenciada pelas
desigualdades sociais que impactam
nas produções das identidades dos
jovens (MELO et al.
, 2012; CARRANO,
2009). Enne e Passos (2018)
dest
acam que para pensar a juventude
e suas relações, por exemplo, com os
espaços urbanos em que vivem, é
necessário complexificar essa
categoria e, para isso, historicizar os
sujeitos e práticas “levando em
consideração variáveis sociais e
culturais” (ENNE; P
ASSOS, 2018, p.
126).
Ao retratar os jovens pobres é
importante salientar que a condição da
pobreza impacta em suas trajetórias
de vida, nas produções e vivências de
suas juventudes. Por exemplo, é
comum que esses jovens precisem
entrar no mercado de traba
mesmo de concluírem a Educação
Básica ou de ingressarem na
Universidade. Essa realidade acaba
interrompendo a linearidade de uma
198
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Tramas entre cultura e educação")
estudos e ao lazer, livre das pressões
impostas pelo mundo do trabalho não
é vivenciada pela maioria dos jovens
brasileiros. As juventudes se
ir das vivências dos
sujeitos com as suas realidades sócio
-
históricas. Sua heterogeneidade é
também influenciada pelas
desigualdades sociais que impactam
nas produções das identidades dos
, 2012; CARRANO,
2009). Enne e Passos (2018)
acam que para pensar a juventude
e suas relações, por exemplo, com os
espaços urbanos em que vivem, é
necessário complexificar essa
categoria e, para isso, historicizar os
sujeitos e práticas “levando em
consideração variáveis sociais e
ASSOS, 2018, p.
Ao retratar os jovens pobres é
importante salientar que a condição da
pobreza impacta em suas trajetórias
de vida, nas produções e vivências de
suas juventudes. Por exemplo, é
comum que esses jovens precisem
entrar no mercado de traba
lho antes
mesmo de concluírem a Educação
Básica ou de ingressarem na
Universidade. Essa realidade acaba
interrompendo a linearidade de uma
GÜNTENSPERGER, Tavelly M. S.; NICOLINI, Livia Baptista. Sobre
juventudes e o habitar a periferia de Duque e Caxias
Revista Latino-
Americana de Estudos em Cultura,
20, p. 194-217, março 2021.
juventude única e romantizada
(DAYRELL, 2007). No caso de jovens
pobres e negros essa condição não é
incomum. Parte d
eles abandona a
escola para trabalhar como forma de
sobrevivência e mais tarde, não
necessariamente, retornam aos
estudos (CARRANO et al.
, 2015).
Segundo Carrano (2009),
jovens periferizados possuem uma
limitação em seus deslocamentos
estabelecida por
fatores econômicos
e/ou pela imposição da cidade de
“muros invisíveis” aos que a ocupam
(CARRANO, 2009). De modo geral, o
direito à cidade é diferente para os
diferentes grupos sociais que a
habitam,
o que implica em sua
experiê
ncias pela cidade e pelo ba
Ao pensar na periferia, não é
incomum nos depararmos com
narrativas midiáticas que reduzem a
periferia ao lugar da violência, dos
perigos e da pobreza; que marginaliza
determinadas culturas nelas
produzidas, e entende periferia
enquanto longe da pro
dução cultural
de um suposto centro produtor
hegemônico. Esse trabalho pensa a
periferia em diálogo com Kilomba
(2019), a respeito da periferização ou
GÜNTENSPERGER, Tavelly M. S.; NICOLINI, Livia Baptista. Sobre
juventudes e o habitar a periferia de Duque e Caxias
. PragMATIZES -
Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 11, n.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
(Dossiê "
Tramas entre cultura e educação")
juventude única e romantizada
(DAYRELL, 2007). No caso de jovens
pobres e negros essa condição não é
eles abandona a
escola para trabalhar como forma de
sobrevivência e mais tarde, não
necessariamente, retornam aos
, 2015).
Segundo Carrano (2009),
jovens periferizados possuem uma
limitação em seus deslocamentos
fatores econômicos
e/ou pela imposição da cidade de
“muros invisíveis” aos que a ocupam
(CARRANO, 2009). De modo geral, o
direito à cidade é diferente para os
diferentes grupos sociais que a
o que implica em sua
s
ncias pela cidade e pelo ba
irro.
Ao pensar na periferia, não é
incomum nos depararmos com
narrativas midiáticas que reduzem a
periferia ao lugar da violência, dos
perigos e da pobreza; que marginaliza
determinadas culturas nelas
produzidas, e entende periferia
dução cultural
de um suposto centro produtor
hegemônico. Esse trabalho pensa a
periferia em diálogo com Kilomba
(2019), a respeito da periferização ou
marginalização de determinados
grupos.
Essa autora, em diálogo com
bell hooks
4
reflete que estar à margem
“é ser parte do todo, mas fora do corpo
principal” (KILOMBA, 2019, p. 67). A
ideia baseia-
se na vivência de
enquanto mulher preta moradora da
periferia de uma cidade. A ela era
permitido frequentar o centro da
cidade com
o trabalhadora, para depois
retornar à margem. Entretanto, a
autora chama atenção para que a
margem não seja reduzida a um
espaço periférico em que há apenas
perdas e privações, mas como um
espaço de resistência às opressões,
de possibilidades e criativida
produzem novos discursos que
desestabilizam discursos
hegemônicos
, onde são produzidos
mundos. Kilomba (2019) alerta para a
importância de entender as margens
como um local complexo e diverso, e
por isso, é preciso estar atento para o
perigo da ro
mantização da opressão
quando falamos sobre as margens,
4
O nome da autora bell h
ooks
pseudônimo em homenagem a sua avó e é
grafado em letra minúscula pois desta forma a
autora busca romper com a ideia de
superioridade do autor. Para ela, o
títulos do autor não possuem mai
que as suas ideias.
199
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
- ISSN 2237-1508
Tramas entre cultura e educação")
marginalização de determinados
Essa autora, em diálogo com
reflete que estar à margem
“é ser parte do todo, mas fora do corpo
principal” (KILOMBA, 2019, p. 67). A
se na vivência de
hooks
enquanto mulher preta moradora da
periferia de uma cidade. A ela era
permitido frequentar o centro da
o trabalhadora, para depois
retornar à margem. Entretanto, a
autora chama atenção para que a
margem não seja reduzida a um
espaço periférico em que há apenas
perdas e privações, mas como um
espaço de resistência às opressões,
de possibilidades e criativida
des onde
produzem novos discursos que
desestabilizam discursos
, onde são produzidos
mundos. Kilomba (2019) alerta para a
importância de entender as margens
como um local complexo e diverso, e
por isso, é preciso estar atento para o
mantização da opressão
quando falamos sobre as margens,
ooks
se trata de um
pseudônimo em homenagem a sua avó e é
grafado em letra minúscula pois desta forma a
autora busca romper com a ideia de
superioridade do autor. Para ela, o
nome e os
títulos do autor não possuem mai
s valor do
GÜNTENSPERGER, Tavelly M. S.; NICOLINI, Livia Baptista. Sobre
juventudes e o habitar a periferia de Duque e Caxias
Revista Latino-
Americana de Estudos em Cultura,
20, p. 194-217, março 2021.
pois não se pode perder de vista que
ela é local de repressão e de
resistência.
As formações das diferentes
juventudes são também tecidas nas
relações com os espaços em que
vivem. Suas limitações impa
vivências e nos usos que fazem do
espaço, por isso, compreender
também como são tecidas essas
relações e seus impactos, nos ajuda a
refletir sobre as formas de habitar
essas cidades. Nessas relações, não é
incomum que as juventudes
periferizadas t
enham que lidar com as
desigualdades ambientais nas regiões
em que vivem.
Para começo de conversa
Figura1:
Imagem da estação
Fonte: acervo da autora
Como dito anteriormente, es
trabalho narra parte da pesquisa feita
por uma das autoras que é profes
de Ciências na rede Estadual no
GÜNTENSPERGER, Tavelly M. S.; NICOLINI, Livia Baptista. Sobre
juventudes e o habitar a periferia de Duque e Caxias
. PragMATIZES -
Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 11, n.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
(Dossiê "
Tramas entre cultura e educação")
pois não se pode perder de vista que
ela é local de repressão e de
As formações das diferentes
juventudes são também tecidas nas
relações com os espaços em que
vivem. Suas limitações impa
ctam nas
vivências e nos usos que fazem do
espaço, por isso, compreender
também como são tecidas essas
relações e seus impactos, nos ajuda a
refletir sobre as formas de habitar
essas cidades. Nessas relações, não é
incomum que as juventudes
enham que lidar com as
desigualdades ambientais nas regiões
Para começo de conversa
Imagem da estação
Fonte: acervo da autora
Como dito anteriormente, es
te
trabalho narra parte da pesquisa feita
por uma das autoras que é profes
sora
de Ciências na rede Estadual no
município de Duque de Caxias. Narrar
parte dessa pesquisa passa por contar
sobre suas relações com esse
município que não era conhecido por
ela antes de se tornar
acontecem suas práticas docentes.
Sua ch
egada à Duque de
Caxias se deu pelo bairro de Campos
Elísios, que junto ao bairro de Jardim
Primavera (dentre outros), pertence ao
2º distrito do município e é onde se
localiza a REDUC, refinaria de
petróleo que pertence
Impactada pela imagem acima,
registro feito por ela na plataforma da
estação de trem, a professora passou
a pensar em como seria estudar e
morar em um bairro que possui tal
empresa. No seu deslocamento, bem
como na chegada em sua primeira
escola
, ela também pôde perceber
além dos lixos nas ruas, que as
empresas ao redor da escola também
a afetavam com, por exemplo, uma
poeira que ocupava toda a escola. A
partir dessas percepções, uma
pergunta não podia deixar de ser feita:
Qual seria o impacto d
realidades na vida dos estudantes de
tal escola?
Alves (2008), ao tratar dos
movimentos importantes para a
200
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
- ISSN 2237-1508
Tramas entre cultura e educação")
município de Duque de Caxias. Narrar
parte dessa pesquisa passa por contar
sobre suas relações com esse
município que não era conhecido por
ela antes de se tornar
o local em que
acontecem suas práticas docentes.
egada à Duque de
Caxias se deu pelo bairro de Campos
Elísios, que junto ao bairro de Jardim
Primavera (dentre outros), pertence ao
2º distrito do município e é onde se
localiza a REDUC, refinaria de
petróleo que pertence
à Petrobrás.
Impactada pela imagem acima,
registro feito por ela na plataforma da
estação de trem, a professora passou
a pensar em como seria estudar e
morar em um bairro que possui tal
empresa. No seu deslocamento, bem
como na chegada em sua primeira
, ela também pôde perceber
além dos lixos nas ruas, que as
empresas ao redor da escola também
a afetavam com, por exemplo, uma
poeira que ocupava toda a escola. A
partir dessas percepções, uma
pergunta não podia deixar de ser feita:
Qual seria o impacto d
essas
realidades na vida dos estudantes de
Alves (2008), ao tratar dos
movimentos importantes para a
GÜNTENSPERGER, Tavelly M. S.; NICOLINI, Livia Baptista. Sobre
juventudes e o habitar a periferia de Duque e Caxias
Revista Latino-
Americana de Estudos em Cultura,
20, p. 194-217, março 2021.
pesquisa nos/dos/com os cotidianos,
cita o “sentimento do mundo”, onde a
(o) pesquisadora (o
), para além de
olhar o mundo, se coloque a senti
na busca por tentar entender as
lógicas e atividades dos cotidianos e
que, a partir disso, consiga pensar nas
condições de
aprenderensinar
quais estudantes e professores estão
imersos.
Entretanto, para isso, é
importante que, enquanto
pesquisado
ras,percebamos que
também estamos imersas no cotidiano
e nele também produzimos
conhecimentos. É, então, mergulhando
na realidade do cotidiano escolar, não
se colocando distante e nem
supostamente com neutralidade, é na
aproximação e no envolvimento com
os
“sujeitos dos cotidianos” que se
consegue entender o que os “usuários”
desses espaçostempos
“fabricam” com
os objetos de consumo a que t
acesso e que redes vão
seu viver cotidiano, que inclui pessoas
e artefatos culturais” (ALVES, 2008, p.
22).
Foi a partir desse movimento
que buscou-
se entender sobre como
são tecidas as relações das/os
alunas/os com os espaços em que
GÜNTENSPERGER, Tavelly M. S.; NICOLINI, Livia Baptista. Sobre
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Niterói/RJ, Ano 11, n.
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(Dossiê "
Tramas entre cultura e educação")
pesquisa nos/dos/com os cotidianos,
cita o “sentimento do mundo”, onde a
), para além de
olhar o mundo, se coloque a senti
-lo,
na busca por tentar entender as
lógicas e atividades dos cotidianos e
que, a partir disso, consiga pensar nas
aprenderensinar
nas
quais estudantes e professores estão
Entretanto, para isso, é
importante que, enquanto
ras,percebamos que
também estamos imersas no cotidiano
e nele também produzimos
conhecimentos. É, então, mergulhando
na realidade do cotidiano escolar, não
se colocando distante e nem
supostamente com neutralidade, é na
aproximação e no envolvimento com
“sujeitos dos cotidianos” que se
consegue entender o que os “usuários”
“fabricam” com
os objetos de consumo a que t
êm
tecendo no
seu viver cotidiano, que inclui pessoas
e artefatos culturais” (ALVES, 2008, p.
Foi a partir desse movimento
se entender sobre como
são tecidas as relações das/os
alunas/os com os espaços em que
vivem. Para isso, inspiradas em
Andrade e Guerreiro (2018), em um
primeiro momento, um grupo de jovens
estudantes foram convida
produzirem fotografias para
participarem de uma roda de
conversas estabelecida coletivamente
com tais imagens.
Uma conversa com imagens
As conversas estão presentes
em muitos momentos do cotidiano
escolar. Tanto entre as e os
estudantes, quanto
professores. Em uma conversa entre a
professora/pesquisadora desse
trabalho e os jovens estudantes,
perguntaram-
na sobre onde morava.
Para a surpresa da turma, ela morava
no Rio de Janeiro, no bairro da Penha.
A turma reagiu animada com tal
resposta. Em seguida, os alunos
perguntaram se ela
conhecia o famoso
“baile da gaiola” que acontecia na Vila
Cruzeiro, comunidade que pertence ao
conjunto de favelas da Penha. A
professora explicou que não conhecia.
As alunas/os pareciam não acreditar.
Com
o assim ela morava na Penha e
não conhecia o baile da gaiola?
Percebendo as reações de surpresa
dos estudantes, a professora
201
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
- ISSN 2237-1508
Tramas entre cultura e educação")
vivem. Para isso, inspiradas em
Andrade e Guerreiro (2018), em um
primeiro momento, um grupo de jovens
estudantes foram convida
das/os a
produzirem fotografias para
participarem de uma roda de
conversas estabelecida coletivamente
Uma conversa com imagens
As conversas estão presentes
em muitos momentos do cotidiano
escolar. Tanto entre as e os
entre esses e
professores. Em uma conversa entre a
professora/pesquisadora desse
trabalho e os jovens estudantes,
na sobre onde morava.
Para a surpresa da turma, ela morava
no Rio de Janeiro, no bairro da Penha.
A turma reagiu animada com tal
resposta. Em seguida, os alunos
conhecia o famoso
“baile da gaiola” que acontecia na Vila
Cruzeiro, comunidade que pertence ao
conjunto de favelas da Penha. A
professora explicou que não conhecia.
As alunas/os pareciam não acreditar.
o assim ela morava na Penha e
não conhecia o baile da gaiola?
Percebendo as reações de surpresa
dos estudantes, a professora
GÜNTENSPERGER, Tavelly M. S.; NICOLINI, Livia Baptista. Sobre
juventudes e o habitar a periferia de Duque e Caxias
Revista Latino-
Americana de Estudos em Cultura,
20, p. 194-217, março 2021.
perguntou como faziam para ir de
Campos Elísios para Penha. Com as
quantidades de detalhes contadas,
para a professora parecia uma
aventura esse deslocamento. Naquela
conversa, contaram e apresentaram o
bairro em que moram e os espaços
que frequentavam. Ao contarem sobre
o deslocar, também apresentaram
Campos Elísios e Penha à professora.
É, então, acreditando na
potência dos
encontros provocados
pelas conversas, entendendo que para
acontecer, necessita da
disponibilidade, abertura, escuta do
outro e “à sua palavra, não para acatá
la ou para deixá-
la passivamente, mas
para deixá-
la ressoar, afetar, dar,
pensar indagar” (RIBEIRO
p. 165), que nela a possibilidade de
compartilhar e considerar as
experiências individuais e coletivas de
quem participa da conversa e, com
isso, verdades e ideias podem ser
ressignificadas e ampliadas
de significações dos interl
Serpa (2018) defende a conversa
enquanto um “lugar fundamental e
privilegiado onde os sujeitos se
encontram, se desafiam, se
complementam, se antagonizam, se
movem e se transformam” (SERPA,
GÜNTENSPERGER, Tavelly M. S.; NICOLINI, Livia Baptista. Sobre
juventudes e o habitar a periferia de Duque e Caxias
. PragMATIZES -
Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 11, n.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
(Dossiê "
Tramas entre cultura e educação")
perguntou como faziam para ir de
Campos Elísios para Penha. Com as
quantidades de detalhes contadas,
para a professora parecia uma
grande
aventura esse deslocamento. Naquela
conversa, contaram e apresentaram o
bairro em que moram e os espaços
que frequentavam. Ao contarem sobre
o deslocar, também apresentaram
Campos Elísios e Penha à professora.
É, então, acreditando na
encontros provocados
pelas conversas, entendendo que para
acontecer, necessita da
disponibilidade, abertura, escuta do
outro e “à sua palavra, não para acatá
-
la passivamente, mas
la ressoar, afetar, dar,
et al., 2018,
p. 165), que nela a possibilidade de
compartilhar e considerar as
experiências individuais e coletivas de
quem participa da conversa e, com
isso, verdades e ideias podem ser
ressignificadas e ampliadas
às redes
de significações dos interl
ocutores.
Serpa (2018) defende a conversa
enquanto um “lugar fundamental e
privilegiado onde os sujeitos se
encontram, se desafiam, se
complementam, se antagonizam, se
movem e se transformam” (SERPA,
2018, p. 104).
Escolho pensar com as
conversas, pois n
ão
fechados, e sim interesses:
Conversar
sem o apagamento dos
conflitos e tensões sempre presentes
entre diferentes modos de
pensar(se), de dizer(se), de
escutar(se), de conhecer(se)...um
desafio instigantes e provocativo que
no encontro
com
nos a viver a experiência da
alteridade: pensar(se)
(SAMPAIO et al
.
Entendemos com Sampaio
(2018) a conversa como uma
metodologia menor quando pensamos
nas entrevistas. Não em uma ideia de
oposição à
s en
entendendo est
as como metodologia
maior, sendo mais usada nas
pesquisas em educação. Assim como
Ribeiro et al.
(2018), escolhemos o uso
da palavra metodologia em letra
minúscula, por entendermos ser o
oposto do que é defendida, enquanto
“Met
odologia é a política que zela
pelos procedimentos, técnicas,
instrumentos de pesquisa
reproduzíveis, em prol de um
conhecimento neutro, objetivo e
inconstante, tal qual planteou a
modernidade positivista” (RIBEIRO
al.
, 2018, p. 167). Com as conversas
n
ão buscamos categorizar as falas dos
sujeitos que participam da conversa,
mas sobretudo pensar com tais falas,
202
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
- ISSN 2237-1508
Tramas entre cultura e educação")
Escolho pensar com as
ão
objetivos
fechados, e sim interesses:
sem o apagamento dos
conflitos e tensões sempre presentes
entre diferentes modos de
pensar(se), de dizer(se), de
escutar(se), de conhecer(se)...um
desafio instigantes e provocativo que
com
o outro, provoca-
nos a viver a experiência da
alteridade: pensar(se)
com o outro.
.
, 2018, p. 35)
Entendemos com Sampaio
et al.
(2018) a conversa como uma
metodologia menor quando pensamos
nas entrevistas. Não em uma ideia de
s en
trevistas, mas
as como metodologia
maior, sendo