DAEMON, Flora; MENDONÇA, Kleber; NERCOLINI, Marildo
de Mim Sou Eu": práticas culturais e comunicacionais como
instrumentos pedagógicos junto a jovens em vulnerabilidade.
PragMATIZES - Revista Latino-
Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 1
1, n. 20
, p.
109
-
13
, março 202
"Quem Sabe de Mim Sou Eu"
instrumentos pedagógicos junto a jovens em vulnerabilidade
DOI:
https://doi.org/10.22409/pragmatizes.v11i20.45794
Resumo:
O presente artigo propõe uma reflexão teórico
acumulada no âmbito de um projeto universitário de caráter extensionista que, ao longo dos últimos
oito
anos, promove atividades voltadas para jovens em situação de vulnerabilidade social. Ao
apresentar as ferramentas usadas e refletir sobre as questões e desafios enfrentados, buscamos
desenvolver uma metodologia que seja capaz de acessar esses jovens. Nossa
é possível articular práticas culturais e ferramentas comunicacionais, capazes de contribuir para um
processo de subjetivação emancipador, com a finalidade de desarmar “profecias auto
comuns às trajetórias desses joven
trazer para o plano do visível a experiência, a memória, a corporalidade e a fala como possibilidades
de expressão das subjetividades singulares desses jovens, ainda assim constantemente
atravessad
as por relações de poder estruturais, violentas e hierárquicas.
Palavras-Chave: Cultura e e
ducação;
1
Flora Côrtes Daemon de Souza Pinto.
Fluminense, p
rofessora Adjunta do curso de Jornalismo da Universidade Federal Rural do Rio de
Janeiro (UFRRJ), Brasil. Email:
floradaemon@yahoo.com.br
2
Kleber Santos de Mendonça.
Doutor em Comunicação
p
rofessor Associado do Departamento de Estudos Culturais e Mídia e dos Programas de Pós
Graduação em Co
municação (PPGCOM) e em Cultura e Territorialidades (PPCULT) da
Universidade Federal Fluminense (UFF)
https://orcid.org/0000-0001-
8055
3
Marildo José Nercolini.
Doutor em Ciência da Literatura (UFRJ 2005), Professor Associado do
Departamento e Estudos Culturais e Mídia (GEC/IACS) e do Programa de Pós
e Territorialidades (PPCU
LT) da Universidade Federal Fluminense (UFF)
mjnercolini@gmail.com -
https://orcid.org/0000
Texto recebido em 06/09/20
20
DAEMON, Flora; MENDONÇA, Kleber; NERCOLINI, Marildo
. "Quem Sabe
de Mim Sou Eu": práticas culturais e comunicacionais como
instrumentos pedagógicos junto a jovens em vulnerabilidade.
Americana de Estudos em Cultura,
, março 202
1
.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
(Dossiê "
Tramas entre cultura e educação")
"Quem Sabe de Mim Sou Eu"
: práticas culturais e comunicacionais como
instrumentos pedagógicos junto a jovens em vulnerabilidade
https://doi.org/10.22409/pragmatizes.v11i20.45794
Kleber Mendonça
Marildo José Nercolini
O presente artigo propõe uma reflexão teórico
-
metodológica a partir da experiência
acumulada no âmbito de um projeto universitário de caráter extensionista que, ao longo dos últimos
anos, promove atividades voltadas para jovens em situação de vulnerabilidade social. Ao
apresentar as ferramentas usadas e refletir sobre as questões e desafios enfrentados, buscamos
desenvolver uma metodologia que seja capaz de acessar esses jovens. Nossa
meta é explicitar como
é possível articular práticas culturais e ferramentas comunicacionais, capazes de contribuir para um
processo de subjetivação emancipador, com a finalidade de desarmar “profecias auto
comuns às trajetórias desses joven
s. Acionamos, ao longo de nossa atuação, modos potentes de
trazer para o plano do visível a experiência, a memória, a corporalidade e a fala como possibilidades
de expressão das subjetividades singulares desses jovens, ainda assim constantemente
as por relações de poder estruturais, violentas e hierárquicas.
ducação;
favela; juventude; universidade; e
xtensionismo
Flora Côrtes Daemon de Souza Pinto.
Doutora em Comunicação
pela Universidade Federal
rofessora Adjunta do curso de Jornalismo da Universidade Federal Rural do Rio de
floradaemon@yahoo.com.br
-
https://orcid.org/0000
Doutor em Comunicação
pela Universidade Federal Fluminense
rofessor Associado do Departamento de Estudos Culturais e Mídia e dos Programas de Pós
municação (PPGCOM) e em Cultura e Territorialidades (PPCULT) da
Universidade Federal Fluminense (UFF)
, Niterói/RJ, Brasil. Email:
klebermendonca@id.uff.br
8055
-7447
Doutor em Ciência da Literatura (UFRJ 2005), Professor Associado do
Departamento e Estudos Culturais e Mídia (GEC/IACS) e do Programa de Pós
-
Graduação em Cultura
LT) da Universidade Federal Fluminense (UFF)
, Niterói/RJ, Brasil
https://orcid.org/0000
-0003-0465-0011
20
, aceito para publicação em 24/11/2020
e disponibilizado online
em 01/03/2021.
109
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
- ISSN 2237-1508
Tramas entre cultura e educação")
: práticas culturais e comunicacionais como
instrumentos pedagógicos junto a jovens em vulnerabilidade
Flora Daemon
1
Kleber Mendonça
2
Marildo José Nercolini
3
metodológica a partir da experiência
acumulada no âmbito de um projeto universitário de caráter extensionista que, ao longo dos últimos
anos, promove atividades voltadas para jovens em situação de vulnerabilidade social. Ao
apresentar as ferramentas usadas e refletir sobre as questões e desafios enfrentados, buscamos
meta é explicitar como
é possível articular práticas culturais e ferramentas comunicacionais, capazes de contribuir para um
processo de subjetivação emancipador, com a finalidade de desarmar “profecias auto
rrealizáveis”,
s. Acionamos, ao longo de nossa atuação, modos potentes de
trazer para o plano do visível a experiência, a memória, a corporalidade e a fala como possibilidades
de expressão das subjetividades singulares desses jovens, ainda assim constantemente
xtensionismo
.
pela Universidade Federal
rofessora Adjunta do curso de Jornalismo da Universidade Federal Rural do Rio de
https://orcid.org/0000
-0001-9652-1748
pela Universidade Federal Fluminense
,
rofessor Associado do Departamento de Estudos Culturais e Mídia e dos Programas de Pós
-
municação (PPGCOM) e em Cultura e Territorialidades (PPCULT) da
klebermendonca@id.uff.br
-
Doutor em Ciência da Literatura (UFRJ 2005), Professor Associado do
Graduação em Cultura
, Niterói/RJ, Brasil
. Email:
e disponibilizado online
DAEMON, Flora; MENDONÇA, Kleber; NERCOLINI, Marildo
de Mim Sou Eu": práticas culturais e comunicacionais como
instrumentos pedagógicos junto a jovens em vulnerabilidade.
PragMATIZES - Revista Latino-
Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 1
1, n. 20
, p.
109
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, março 202
"Quem Sabe de Mim Sou Eu": prácticas culturales y comunicativas como herramientas
pedagógicas para
jóvenes vulnerables
Resumen:
Este artículo propone una reflexión teórico
acumulada en el ámbito de un proyecto universitario de extensión que, durante los últimos ocho años,
promueve actividades dirigidas a jóvenes
herramientas utilizadas y reflexionar sobre los problemas y desafíos enfrentados, buscamos
desarrollar una metodología que sea capaz de acceder a estos jóvenes. Nuestro objetivo es explicar
cómo es po
sible articular prácticas culturales y herramientas de comunicación, capaces de contribuir
a un proceso de subjetivación emancipatorio, con el propósito de desarmar “profecías
autocumplidas”, comunes a las trayectorias de estos jóvenes. A lo largo de nuest
activado formas de acercar la experiencia, la memoria, la corporeidad y el discurso como
posibilidades de expresión de las subjetividades singulares de estos jóvenes, que todavía son
atravesados
constantemente por estructuras, violencia
Palabras clave: Cultura y e
ducación;
"Quem Sabe de Mim Sou Eu": cultural and communicative practices as pedagogical tools for
vulnerable young people
Abstract:
This article proposes a
experience in the field of a university extension project that, during the last eight years, promotes
activities aimed at young people in social vulnerability situations. By presenting the tool
reflecting on the problems and challenges faced, we seek to develop a methodology that could be
able to access these young people. Our goal is to explain how it is possible to use cultural practices
and communication tools as a support for an em
of dismantling "self-
fulfilling prophecies" common to the trajectories of these young people.
Throughout our work, we have activated ways of bringing experience, memory, corporeity and speech
as possib
ilities of expression of the unique subjectivities of these young people, who are still
constantly traversed by structures, violence and hierarchy.
Keywords: Culture and e
ducation;
"Quem Sabe de Mim Sou Eu"
instrumentos pedagógicos junto a jovens em vulnerabilidade
1. Introdução
Propomos uma reflexão a partir
da experiência acumulada no âmbito
de um projeto universitário de caráter
extensionista que, ao longo dos
últimos oito anos, promove atividades
voltadas para jovens em situação de
vulnerabilidade social. Objetivamos
DAEMON, Flora; MENDONÇA, Kleber; NERCOLINI, Marildo
. "Quem Sabe
de Mim Sou Eu": práticas culturais e comunicacionais como
instrumentos pedagógicos junto a jovens em vulnerabilidade.
Americana de Estudos em Cultura,
, março 202
1
.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
(Dossiê "
Tramas entre cultura e educação")
"Quem Sabe de Mim Sou Eu": prácticas culturales y comunicativas como herramientas
jóvenes vulnerables
Este artículo propone una reflexión teórico
-
metodológica a partir de la experiencia
acumulada en el ámbito de un proyecto universitario de extensión que, durante los últimos ocho años,
promueve actividades dirigidas a jóvenes
en situación de vulnerabilidad social. Al presentar las
herramientas utilizadas y reflexionar sobre los problemas y desafíos enfrentados, buscamos
desarrollar una metodología que sea capaz de acceder a estos jóvenes. Nuestro objetivo es explicar
sible articular prácticas culturales y herramientas de comunicación, capaces de contribuir
a un proceso de subjetivación emancipatorio, con el propósito de desarmar “profecías
autocumplidas”, comunes a las trayectorias de estos jóvenes. A lo largo de nuest
activado formas de acercar la experiencia, la memoria, la corporeidad y el discurso como
posibilidades de expresión de las subjetividades singulares de estos jóvenes, que todavía son
constantemente por estructuras, violencia
y jerárquico.
ducación;
favela; juventud; universidad; e
xtensionismo
"Quem Sabe de Mim Sou Eu": cultural and communicative practices as pedagogical tools for
This article proposes a
theoretical-
methodological reflection based on the accumulated
experience in the field of a university extension project that, during the last eight years, promotes
activities aimed at young people in social vulnerability situations. By presenting the tool
reflecting on the problems and challenges faced, we seek to develop a methodology that could be
able to access these young people. Our goal is to explain how it is possible to use cultural practices
and communication tools as a support for an em
ancipatory process of subjectivation, with the purpose
fulfilling prophecies" common to the trajectories of these young people.
Throughout our work, we have activated ways of bringing experience, memory, corporeity and speech
ilities of expression of the unique subjectivities of these young people, who are still
constantly traversed by structures, violence and hierarchy.
ducation;
favela; youth; university; extensionism.
"Quem Sabe de Mim Sou Eu"
: prát
icas culturais e comunicacionais como
instrumentos pedagógicos junto a jovens em vulnerabilidade
Propomos uma reflexão a partir
da experiência acumulada no âmbito
de um projeto universitário de caráter
extensionista que, ao longo dos
últimos oito anos, promove atividades
voltadas para jovens em situação de
vulnerabilidade social. Objetivamos
apresenta
r as ferramentas usadas,
questões e desafios enfrentados, bem
como desenvolver um referencial
teórico metodológico norteador das
ações. Nossa meta é pensar como
articular práticas culturais e
ferramentas comunicacionais capazes
de contribuir para um proces
110
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
- ISSN 2237-1508
Tramas entre cultura e educação")
"Quem Sabe de Mim Sou Eu": prácticas culturales y comunicativas como herramientas
metodológica a partir de la experiencia
acumulada en el ámbito de un proyecto universitario de extensión que, durante los últimos ocho años,
en situación de vulnerabilidad social. Al presentar las
herramientas utilizadas y reflexionar sobre los problemas y desafíos enfrentados, buscamos
desarrollar una metodología que sea capaz de acceder a estos jóvenes. Nuestro objetivo es explicar
sible articular prácticas culturales y herramientas de comunicación, capaces de contribuir
a un proceso de subjetivación emancipatorio, con el propósito de desarmar “profecías
autocumplidas”, comunes a las trayectorias de estos jóvenes. A lo largo de nuest
ro trabajo, hemos
activado formas de acercar la experiencia, la memoria, la corporeidad y el discurso como
posibilidades de expresión de las subjetividades singulares de estos jóvenes, que todavía son
xtensionismo
.
"Quem Sabe de Mim Sou Eu": cultural and communicative practices as pedagogical tools for
methodological reflection based on the accumulated
experience in the field of a university extension project that, during the last eight years, promotes
activities aimed at young people in social vulnerability situations. By presenting the tool
s used and
reflecting on the problems and challenges faced, we seek to develop a methodology that could be
able to access these young people. Our goal is to explain how it is possible to use cultural practices
ancipatory process of subjectivation, with the purpose
fulfilling prophecies" common to the trajectories of these young people.
Throughout our work, we have activated ways of bringing experience, memory, corporeity and speech
ilities of expression of the unique subjectivities of these young people, who are still
icas culturais e comunicacionais como
instrumentos pedagógicos junto a jovens em vulnerabilidade
r as ferramentas usadas,
questões e desafios enfrentados, bem
como desenvolver um referencial
teórico metodológico norteador das
ações. Nossa meta é pensar como
articular práticas culturais e
ferramentas comunicacionais capazes
de contribuir para um proces
so de
DAEMON, Flora; MENDONÇA, Kleber; NERCOLINI, Marildo
de Mim Sou Eu": práticas culturais e comunicacionais como
instrumentos pedagógicos junto a jovens em vulnerabilidade.
PragMATIZES - Revista Latino-
Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 1
1, n. 20
, p.
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subjetivação emancipador que
desarme as chamadas “profecias auto
realizáveis”, comuns às trajetórias
desses jovens.
Ao longo de nossa atuação com
jovens em favelas cariocas, pudemos
constatar na vivência pedagógica as
dificuldades de elaborar e
implementar
ferramentas educacionais capazes de
mobilizar e engajar tal blico
Fomos nos deparando, gradualmente,
com o que chamamos de armadilhas
estruturais que, ao mesmo tempo,
ordenam a complexa e desigual
sociedade brasileira, e se atualizam no
plano dos indivíduos perpetuando os
processos de marginalização social e
de sujeição criminal de determinados
grupos.
As experiências profissional e
educacional dos integrantes do
projeto, bem como sua capacidades
de atuação junto aos jovens, se situam
na
interface entre o uso de
ferramentas comunicacionais e as
práticas culturais locais. Dessa forma,
nos dedicamos a construir uma linha
de atuação que pudesse usar
ferramentas diversas (a fotografia, o
audiovisual, a música e os relatos
pessoais memoráveis
locais, por
DAEMON, Flora; MENDONÇA, Kleber; NERCOLINI, Marildo
. "Quem Sabe
de Mim Sou Eu": práticas culturais e comunicacionais como
instrumentos pedagógicos junto a jovens em vulnerabilidade.
Americana de Estudos em Cultura,
, março 202
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(Dossiê "
Tramas entre cultura e educação")
subjetivação emancipador que
desarme as chamadas “profecias auto
realizáveis”, comuns às trajetórias
Ao longo de nossa atuação com
jovens em favelas cariocas, pudemos
constatar na vivência pedagógica as
implementar
ferramentas educacionais capazes de
mobilizar e engajar tal blico
-alvo.
Fomos nos deparando, gradualmente,
com o que chamamos de armadilhas
estruturais que, ao mesmo tempo,
ordenam a complexa e desigual
sociedade brasileira, e se atualizam no
plano dos indivíduos perpetuando os
processos de marginalização social e
de sujeição criminal de determinados
As experiências profissional e
educacional dos integrantes do
projeto, bem como sua capacidades
de atuação junto aos jovens, se situam
interface entre o uso de
ferramentas comunicacionais e as
práticas culturais locais. Dessa forma,
nos dedicamos a construir uma linha
de atuação que pudesse usar
ferramentas diversas (a fotografia, o
audiovisual, a música e os relatos
locais, por
exemplo) como argumentos
pedagógicos de transformação.
Assim, elaboramos uma
metodologia que une reflexão teórica,
observação participante e prática
horizontalizada de reconhecimento e
troca de saberes múltiplos. Com isso,
passamos a implement
capacitação destinadas à
transformação, tanto dos jovens
moradores de favelas cariocas, como
dos estudantes universitários que
participaram do projeto ao longo dos
últimos oito anos. Partimos do
entendimento de que para que a
universidade "se p
inte de negro, se
pinte de mulato, não somente entre os
alunos, mas também entre os
professores; que se pinte de
trabalhador e de campesino, que se
pinte de pueblo"
4
, conforme defendeu
Ernesto Guevara, é necessário que
esta instituição se volte para esses
indivíduos, não somente na condição
de objetos ou interlocutores de
pesquisas científicas, mas
fundamentalmente como potenciais
ocupantes de posições relevantes em
sua estrutura.
4
Trata-
se de discurso proferido em
28/12/1959, no recebimento do título de doutor
honoris causa
na Faculdade de Pedagogia da
Universidad Central de Las Villas, Cuba.
111
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
- ISSN 2237-1508
Tramas entre cultura e educação")
exemplo) como argumentos
pedagógicos de transformação.
Assim, elaboramos uma
metodologia que une reflexão teórica,
observação participante e prática
horizontalizada de reconhecimento e
troca de saberes múltiplos. Com isso,
passamos a implement
ar ações de
capacitação destinadas à
transformação, tanto dos jovens
moradores de favelas cariocas, como
dos estudantes universitários que
participaram do projeto ao longo dos
últimos oito anos. Partimos do
entendimento de que para que a
inte de negro, se
pinte de mulato, não somente entre os
alunos, mas também entre os
professores; que se pinte de
trabalhador e de campesino, que se
, conforme defendeu
Ernesto Guevara, é necessário que
esta instituição se volte para esses
indivíduos, não somente na condição
de objetos ou interlocutores de
pesquisas científicas, mas
fundamentalmente como potenciais
ocupantes de posições relevantes em
se de discurso proferido em
28/12/1959, no recebimento do título de doutor
na Faculdade de Pedagogia da
Universidad Central de Las Villas, Cuba.
DAEMON, Flora; MENDONÇA, Kleber; NERCOLINI, Marildo
de Mim Sou Eu": práticas culturais e comunicacionais como
instrumentos pedagógicos junto a jovens em vulnerabilidade.
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Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 1
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Durante o desenvolvimento do
trabalho nos deparamos com a
dificuldade dos j
ovens de vislumbrar
se como parte do ensino superior
público. Para além da questão
concreta das barreiras de seleção
baseadas em controversos critérios de
acúmulo e competência, como o
rendimento no ENEM, identificamos
um sentimento recorrente de não
pertencimento a priori
àquele lugar
que, embora mais próximo em função
do contato com o projeto de extensão,
ainda conservava distância no que se
refere à ideia de fazer parte.
A vivência sistemática do
projeto apontou, no entanto, para dois
movimentos elementa
res na mudança
de entendimento do papel e lugar
político e simbólico -
da universidade
por parte dos jovens: o primeiro se
refere à ideia de revelação. Para
quase a totalidade dos participantes do
projeto, a universidade pública se
apresentava como uma a
Neste sentido, tomar contato com uma
instituição de ensino de reconhecida
relevância por meio de um projeto que
sustenta práticas horizontais pode ter
contribuído de maneira significativa
para o desejo de desvelar um espaço
DAEMON, Flora; MENDONÇA, Kleber; NERCOLINI, Marildo
. "Quem Sabe
de Mim Sou Eu": práticas culturais e comunicacionais como
instrumentos pedagógicos junto a jovens em vulnerabilidade.
Americana de Estudos em Cultura,
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(Dossiê "
Tramas entre cultura e educação")
Durante o desenvolvimento do
trabalho nos deparamos com a
ovens de vislumbrar
-
se como parte do ensino superior
público. Para além da questão
concreta das barreiras de seleção
baseadas em controversos critérios de
acúmulo e competência, como o
rendimento no ENEM, identificamos
um sentimento recorrente de não
àquele lugar
que, embora mais próximo em função
do contato com o projeto de extensão,
ainda conservava distância no que se
refere à ideia de fazer parte.
A vivência sistemática do
projeto apontou, no entanto, para dois
res na mudança
de entendimento do papel e lugar
-
da universidade
por parte dos jovens: o primeiro se
refere à ideia de revelação. Para
quase a totalidade dos participantes do
projeto, a universidade pública se
apresentava como uma a
bstração.
Neste sentido, tomar contato com uma
instituição de ensino de reconhecida
relevância por meio de um projeto que
sustenta práticas horizontais pode ter
contribuído de maneira significativa
para o desejo de desvelar um espaço
que, até então, o pa
direito e por princípio.
O segundo movimento,
decorrente do anterior, refere
introjeção do olhar do outro sobre si.
Sabemos que cotidianamente esses
jovens são interpelados como
criminosos -
concretos ou em potencial
- a partir de confo
rmação da sujeição
criminal (
MISSE, 2008)
entendimento deste mecanismo
perverso, por parte de meninos e
meninas pretos, pardos e pobres,
efetiva no próprio corpo uma interdição
que impossibilita postulações de
ocupação de lugares com os quais não
são id
entificados em função do caráter
racista e classista da sociedade.
Acreditamos que ao tomarem contato
com um novo olhar sobre si, partindo
de indivíduos associados ao Estado e
à coisa pública -
aqui materializados
pela ideia de universidade, seus
estudante
s e professores
sentirem interpelados pelo que
supostamente falta ou pela referência
ao risco, esses jovens começam a se
enxergar possíveis.
Uma das evidências de tal
embaralhamento de lugares político
sociais é a perceptível motivação de
vários
jovens que faziam parte do
112
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
- ISSN 2237-1508
Tramas entre cultura e educação")
que, até então, o pa
recia seu, por
direito e por princípio.
O segundo movimento,
decorrente do anterior, refere
-se à
introjeção do olhar do outro sobre si.
Sabemos que cotidianamente esses
jovens são interpelados como
concretos ou em potencial
rmação da sujeição
MISSE, 2008)
. O
entendimento deste mecanismo
perverso, por parte de meninos e
meninas pretos, pardos e pobres,
efetiva no próprio corpo uma interdição
que impossibilita postulações de
ocupação de lugares com os quais não
entificados em função do caráter
racista e classista da sociedade.
Acreditamos que ao tomarem contato
com um novo olhar sobre si, partindo
de indivíduos associados ao Estado e
aqui materializados
pela ideia de universidade, seus
s e professores
-, sem se
sentirem interpelados pelo que
supostamente falta ou pela referência
ao risco, esses jovens começam a se
Uma das evidências de tal
embaralhamento de lugares político
-
sociais é a perceptível motivação de
jovens que faziam parte do
DAEMON, Flora; MENDONÇA, Kleber; NERCOLINI, Marildo
de Mim Sou Eu": práticas culturais e comunicacionais como
instrumentos pedagógicos junto a jovens em vulnerabilidade.
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Americana de Estudos em Cultura,
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projeto de extensão a se tornarem,
eles também, estudantes na
universidade pública. Foi dessa
maneira que alguns ingressaram no
ensino superior e, também, passaram
a desafiar a ideia de presença do
Estado nas favelas e periferia
como instrumento repressor das
populações.
A partir de tais postulados e
posturas ético-
políticas o projeto
Sabe de Mim Sou Eu
atuou, desde
2012, em favelas como Chapéu
Mangueira, Babilônia, Cantagalo e
Pavão-
Pavãozinho, bem como em
escolas p
úblicas próximas às
comunidades da zona norte do Rio de
Janeiro. Decidimos, atualmente,
ampliar o escopo e passar a trabalhar
também junto aos jovens que
cumprem medidas socioeducativas, na
cidade de Niterói. Essa ação passa a
ser desenvolvida no Centro de
Recursos Integrados de Atendimento
ao Adolescente de Niterói (CRIAAD),
envolvendo parceria entre a UFF e a
Prefeitura.
Quanto à equipe, o projeto
contou, ao longo desses anos, com 25
bolsistas de extensão, seis bolsistas
Pibic/CNPq e duas bolsistas PIBIC
Ensino Médio/CNPq. Alguns, inclusive,
DAEMON, Flora; MENDONÇA, Kleber; NERCOLINI, Marildo
. "Quem Sabe
de Mim Sou Eu": práticas culturais e comunicacionais como
instrumentos pedagógicos junto a jovens em vulnerabilidade.
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www.periodicos.uff.br/pragmatizes
(Dossiê "
Tramas entre cultura e educação")
projeto de extensão a se tornarem,
eles também, estudantes na
universidade pública. Foi dessa
maneira que alguns ingressaram no
ensino superior e, também, passaram
a desafiar a ideia de presença do
Estado nas favelas e periferia
s apenas
como instrumento repressor das
A partir de tais postulados e
políticas o projeto
Quem
atuou, desde
2012, em favelas como Chapéu
Mangueira, Babilônia, Cantagalo e
Pavãozinho, bem como em
úblicas próximas às
comunidades da zona norte do Rio de
Janeiro. Decidimos, atualmente,
ampliar o escopo e passar a trabalhar
também junto aos jovens que
cumprem medidas socioeducativas, na
cidade de Niterói. Essa ação passa a
ser desenvolvida no Centro de
Recursos Integrados de Atendimento
ao Adolescente de Niterói (CRIAAD),
envolvendo parceria entre a UFF e a
Quanto à equipe, o projeto
contou, ao longo desses anos, com 25
bolsistas de extensão, seis bolsistas
Pibic/CNPq e duas bolsistas PIBIC
-
Ensino Médio/CNPq. Alguns, inclusive,
moradores de favelas. Além disso, é
coordenado por três professores que
são docentes de duas universidades
federais e que possuem experiência
nos campos da Violência, da
Juventude, da Comunicação, da
Música e dos Estud
Quem Sabe de Mim Sou Eu
financiado por diferentes agências,
tendo sido contemplado, entre outros,
pelos editais PROEXT 2015
(CAPES/MEC) e Humanidades 2013,
da FAPERJ. Ressalta
fundamentais parcerias com iniciativas
de base c
omunitária tais como o
projeto
Teu Papo
Percussão Mirim do Mestre
projeto de passinho desenvolvido por
Key Tetra, o
Núcleo de Comunicação
Popular
(Nucopo), além de instituições
parceiras, como o
Agostinho Fincias
equipamentos culturais do Rio de
Janeiro.
2. Aspectos estruturais da
sociedade brasileira e as profecias
auto realizáveis
"Favela tem história. Uma longa
batalhadora história. E eu ainda
espero escrever relatando o dia
em que esses dois mundos forem
um só, com os mesmos direitos,
oportunidades e respeito. Eu não
113
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
- ISSN 2237-1508
Tramas entre cultura e educação")
moradores de favelas. Além disso, é
coordenado por três professores que
são docentes de duas universidades
federais e que possuem experiência
nos campos da Violência, da
Juventude, da Comunicação, da
Música e dos Estud
os de Gênero.
Quem Sabe de Mim Sou Eu
foi
financiado por diferentes agências,
tendo sido contemplado, entre outros,
pelos editais PROEXT 2015
(CAPES/MEC) e Humanidades 2013,
da FAPERJ. Ressalta
-se, ainda, as
fundamentais parcerias com iniciativas
omunitária tais como o
Teu Papo
, a Orquestra de
Percussão Mirim do Mestre
, o
projeto de passinho desenvolvido por
Núcleo de Comunicação
(Nucopo), além de instituições
parceiras, como o
CIEP 205 Frei
Agostinho Fincias
e alguns
equipamentos culturais do Rio de
2. Aspectos estruturais da
sociedade brasileira e as profecias
"Favela tem história. Uma longa
batalhadora história. E eu ainda
espero escrever relatando o dia
em que esses dois mundos forem
um só, com os mesmos direitos,
oportunidades e respeito. Eu não
DAEMON, Flora; MENDONÇA, Kleber; NERCOLINI, Marildo
de Mim Sou Eu": práticas culturais e comunicacionais como
instrumentos pedagógicos junto a jovens em vulnerabilidade.
PragMATIZES - Revista Latino-
Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 1
1, n. 20
, p.
109
-
13
, março 202
terei palavras para descrever o
sentimento. Mas espero um dia
que pessoas como vocês
enxerguem a gente."
(Thayná Rodrigues, Bolsista Pibic
Ensino Médio -
Quem Sabe de
Uma vez que
propomos uma
metodologia educacional de
atravessamento e de (re)construção
de subjetividades no momento mesmo
em que os jovens se apoderam de
ferramentas da comunicação e das
práticas culturais, é fundamental levar
em conta dois pontos de partida que
se inter-
relacionam: as características
específicas das localidades desses
jovens e a forma desigual e violenta
com a qual a sociedade brasileira
historicamente se organiza.
Notamos, assim, como as
potências criativas desses jovens,
ainda pouco percebidas por
mesmos e não reconhecidas
socialmente, acabam sendo
silenciadas por uma complexa trama
de agenciamentos e de controles
sociais. Tal modo de funcionamento
dos aparatos estatais de administração
de conflitos e de vigilância articula
aspectos ligados ao
(GOFFMAN, 2008) atribuído a esses
jovens, por meio de marcadores
raciais e de classe de modo a torná
DAEMON, Flora; MENDONÇA, Kleber; NERCOLINI, Marildo
. "Quem Sabe
de Mim Sou Eu": práticas culturais e comunicacionais como
instrumentos pedagógicos junto a jovens em vulnerabilidade.
Americana de Estudos em Cultura,
, março 202
1
.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
(Dossiê "
Tramas entre cultura e educação")
terei palavras para descrever o
sentimento. Mas espero um dia
que pessoas como vocês
enxerguem a gente."
(Thayná Rodrigues, Bolsista Pibic
Quem Sabe de
Mim Sou Eu)
propomos uma
metodologia educacional de
atravessamento e de (re)construção
de subjetividades no momento mesmo
em que os jovens se apoderam de
ferramentas da comunicação e das
práticas culturais, é fundamental levar
em conta dois pontos de partida que
relacionam: as características
específicas das localidades desses
jovens e a forma desigual e violenta
com a qual a sociedade brasileira
historicamente se organiza.
Notamos, assim, como as
potências criativas desses jovens,
ainda pouco percebidas por
eles
mesmos e não reconhecidas
socialmente, acabam sendo
silenciadas por uma complexa trama
de agenciamentos e de controles
sociais. Tal modo de funcionamento
dos aparatos estatais de administração
de conflitos e de vigilância articula
aspectos ligados ao
estigma
(GOFFMAN, 2008) atribuído a esses
jovens, por meio de marcadores
raciais e de classe de modo a torná
-los
alvos preferenciais de um complexo
mecanismo de sujeição criminal
(MISSE, 2008). Este processo se
apresenta de maneira dissimulada a
partir do
estabelecimento de
determinados tipos ideais que se
tornam, desde sempre, “suspeitos” de
condutas criminais antes mesmo da
prática de qualquer ação,
característica que não justificaria
como demandaria a vigilância
constante por parte dos agentes do
Esta
do. Uma combinação de
invisibilidade (dos sujeitos, de seus
direitos fundamentais e de suas
capacidades) com uma visibilidade
acionada apenas para inserir esses
jovens no aparato repressor e punitivo
das instituições de vigilância, punição
e encarceramento
(quando não das
ações de extermínio).
Em cada favela onde o projeto
aconteceu buscou-
se sempre inserir a
discussão a respeito dos saberes
locais conjuntamente com o seu
processo histórico de formação. Tal
estratégia se apresenta como um
antídoto ao risco
de homogeneizar
realidades a respeito da complexidade
inerente aos diferentes sítios que
compõem grandes cidades. Esta
preocupação é uma forma eficiente de
114
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
- ISSN 2237-1508
Tramas entre cultura e educação")
alvos preferenciais de um complexo
mecanismo de sujeição criminal
(MISSE, 2008). Este processo se
apresenta de maneira dissimulada a
estabelecimento de
determinados tipos ideais que se
tornam, desde sempre, “suspeitos” de
condutas criminais antes mesmo da
prática de qualquer ação,
característica que não justificaria
como demandaria a vigilância
constante por parte dos agentes do
do. Uma combinação de
invisibilidade (dos sujeitos, de seus
direitos fundamentais e de suas
capacidades) com uma visibilidade
acionada apenas para inserir esses
jovens no aparato repressor e punitivo
das instituições de vigilância, punição
(quando não das
ações de extermínio).
Em cada favela onde o projeto
se sempre inserir a
discussão a respeito dos saberes
locais conjuntamente com o seu
processo histórico de formação. Tal
estratégia se apresenta como um
de homogeneizar
realidades a respeito da complexidade
inerente aos diferentes sítios que
compõem grandes cidades. Esta
preocupação é uma forma eficiente de
DAEMON, Flora; MENDONÇA, Kleber; NERCOLINI, Marildo
de Mim Sou Eu": práticas culturais e comunicacionais como
instrumentos pedagógicos junto a jovens em vulnerabilidade.
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Niterói/RJ, Ano 1
1, n. 20
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, março 202
problematizar o debate acerca da
implicação juvenil, bem como de seus
modos de instrumentalizar apar
comunicacionais a favor de suas
táticas e práticas culturais.
Do contrário incorreríamos no
erro, bastante habitual conforme
ressalta Valladares, de acreditar que
ter contato com uma favela é conhecer
a realidade de todas:
A favela é obrigatoriamente
morro, uma zona ocupada
ilegalmente, fora da lei, um espaço
subequipado, lugar de concentração
dos pobres na cidade. Numa mesma
denominação genérica, a palavra
favela unifica situações com
características muito diferentes nos
planos geográfico, demográf
urbanístico e social (VALLADARES,
2005, p. 152).
Percebe-
se, assim, como
instrumento fundamental de
mobilização e diálogo a preocupação
de levar em conta as especificidades
históricas, geográficas e culturais dos
diferentes lugares bem como as
caract
erísticas singulares de seus
jovens moradores. É tarefa prioritária
do educador atentar para o que é
diverso e múltiplo. Sem perder de
vista, igualmente, o caráter agenciador
de alguns padrões que acabam por se
replicar, uma vez que a estrutura
perversa da
sociedade brasileira, por
razões políticas e históricas, direciona
DAEMON, Flora; MENDONÇA, Kleber; NERCOLINI, Marildo
. "Quem Sabe
de Mim Sou Eu": práticas culturais e comunicacionais como
instrumentos pedagógicos junto a jovens em vulnerabilidade.
Americana de Estudos em Cultura,
, março 202
1
.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
(Dossiê "
Tramas entre cultura e educação")
problematizar o debate acerca da
implicação juvenil, bem como de seus
modos de instrumentalizar apar
atos
comunicacionais a favor de suas
Do contrário incorreríamos no
erro, bastante habitual conforme
ressalta Valladares, de acreditar que
ter contato com uma favela é conhecer
A favela é obrigatoriamente
um
morro, uma zona ocupada
ilegalmente, fora da lei, um espaço
subequipado, lugar de concentração
dos pobres na cidade. Numa mesma
denominação genérica, a palavra
favela unifica situações com
características muito diferentes nos
planos geográfico, demográf
ico,
urbanístico e social (VALLADARES,
se, assim, como
instrumento fundamental de
mobilização e diálogo a preocupação
de levar em conta as especificidades
históricas, geográficas e culturais dos
diferentes lugares bem como as
erísticas singulares de seus
jovens moradores. É tarefa prioritária
do educador atentar para o que é
diverso e múltiplo. Sem perder de
vista, igualmente, o caráter agenciador
de alguns padrões que acabam por se
replicar, uma vez que a estrutura
sociedade brasileira, por
razões políticas e históricas, direciona
sua
máquina de moer gente
(RIBEIRO, 1995) prioritariamente
àqueles mesmos cidadãos postos,
violentamente, à margem do processo
produtivo e, portanto, em situação de
vulnerabilidade socioec
expostos cotidianamente à
sociabilidade violenta (MACHADO
SILVA, 2008).
Por conta da natureza da
atuação do poder público que falhou
sistematicamente em garantir o acesso
a condições fundamentais de
subsistência, uma das facetas da
inclusão precá
ria capitalista apenas
pelo acesso a bens de consumo não
essenciais, as favelas foram
associadas historicamente à ideia de
berço de um certo tipo de violência.
Partilhamos da premissa de Misse
(2008) de que a emergência de grupos
de extermínio, nos anos 19
buscavam eliminar criminosos de
baixa periculosidade, efetivou a
impossibilidade de monopólio da
violência pelo Estado e fez insurgir, a
partir de suas ações, reações violentas
que culminaram no crescimento da
criminalidade, gerando o efeito
denomi
nado pelo sociólogo como
acumulação social da violência
115
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- ISSN 2237-1508
Tramas entre cultura e educação")
máquina de moer gente
(RIBEIRO, 1995) prioritariamente
àqueles mesmos cidadãos postos,
violentamente, à margem do processo
produtivo e, portanto, em situação de
vulnerabilidade socioec
onômica e
expostos cotidianamente à
sociabilidade violenta (MACHADO
Por conta da natureza da
atuação do poder público que falhou
sistematicamente em garantir o acesso
a condições fundamentais de
subsistência, uma das facetas da
ria capitalista apenas
pelo acesso a bens de consumo não
essenciais, as favelas foram
associadas historicamente à ideia de
berço de um certo tipo de violência.
Partilhamos da premissa de Misse
(2008) de que a emergência de grupos
de extermínio, nos anos 19
50, que
buscavam eliminar criminosos de
baixa periculosidade, efetivou a
impossibilidade de monopólio da
violência pelo Estado e fez insurgir, a
partir de suas ações, reações violentas
que culminaram no crescimento da
criminalidade, gerando o efeito
nado pelo sociólogo como
acumulação social da violência
.
DAEMON, Flora; MENDONÇA, Kleber; NERCOLINI, Marildo
de Mim Sou Eu": práticas culturais e comunicacionais como
instrumentos pedagógicos junto a jovens em vulnerabilidade.
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Ao analisar a forma peculiar
como se dá, historicamente, a
administração dos conflitos no Brasil,
Kant de Lima mostra como os
princípios igualitários do ideal
republicano esbarram em múltiplas
práticas hierárquicas que no Brasil se
mantém e se perpetuam em virtude de
nossa herança colonial ainda presente
e atuante. Neste arranjo paradoxal, a
ordem pública, que
seria o resultado do conflito oriundo
da oposição de interesses entre
iguais, de uma s
ociedade igualitária,
se transforma, no modelo brasileiro,
numa reunião de diferentes práticas
jurídicas cujo objetivo principal é
manter implícitos o conflito e a
estrutura desigual da sociedade
(KANT DE LIMA, 1996, p. 167).
Nossa experiência no campo
ta
mbém identificou a recorrência do
entendimento, por parte de alguns
moradores, de que o sentimento de
orgulho da história de resistência da
favela muitas vezes se situava ao lado
do discurso velado de
(auto)culpabilização pelo abandono do
poder público. Si
nteticamente, estas
falas pareciam apontar para uma
assunção de certa responsabilidade
pela concentração espacial da
violência no chão da favela que teve
início no momento de ocupação
DAEMON, Flora; MENDONÇA, Kleber; NERCOLINI, Marildo
. "Quem Sabe
de Mim Sou Eu": práticas culturais e comunicacionais como
instrumentos pedagógicos junto a jovens em vulnerabilidade.
Americana de Estudos em Cultura,
, março 202
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.
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(Dossiê "
Tramas entre cultura e educação")
Ao analisar a forma peculiar
como se dá, historicamente, a
administração dos conflitos no Brasil,
Kant de Lima mostra como os
princípios igualitários do ideal
republicano esbarram em múltiplas
práticas hierárquicas que no Brasil se
mantém e se perpetuam em virtude de
nossa herança colonial ainda presente
e atuante. Neste arranjo paradoxal, a
seria o resultado do conflito oriundo
da oposição de interesses entre
ociedade igualitária,
se transforma, no modelo brasileiro,
numa reunião de diferentes práticas
jurídicas cujo objetivo principal é
manter implícitos o conflito e a
estrutura desigual da sociedade
(KANT DE LIMA, 1996, p. 167).
Nossa experiência no campo
mbém identificou a recorrência do
entendimento, por parte de alguns
moradores, de que o sentimento de
orgulho da história de resistência da
favela muitas vezes se situava ao lado
do discurso velado de
(auto)culpabilização pelo abandono do
nteticamente, estas
falas pareciam apontar para uma
assunção de certa responsabilidade
pela concentração espacial da
violência no chão da favela que teve
início no momento de ocupação
territorial dos espaços outros da
cidade:
A favela ficou também registra
oficialmente como a área de
habitações irregularmente
construídas, sem arruamentos, sem
plano urbano, sem esgotos, sem
água e sem luz. Dessa precariedade
urbana, resultado da pobreza de
seus habitantes e do descaso do
poder público, surgiram as imagens
que fizeram da favela o lugar da
carência, da falta, do vazio a ser
preenchido pelos sentimentos
humanitários, do perigo a ser
erradicado pelas estratégias políticas
(ZALUAR;
ALVITO, 2006, p. 6)
Parece-
nos central a percepção
das artimanhas capitalistas
h
istoricamente forjadas no processo
de gestão territorial das favelas.
Incapaz de garantir à totalidade de
seus cidadãos condições dignas, o
Estado brasileiro inverteu esta
interpretação por meio de discursos de
ascensão pelo esforço individual. A
consequên
cia visível deste projeto
político de cidade se materializou nas
diversas gerações de jovens que
encontraram nos mercados ilegais,
sobretudo aquele voltado para o
narcotráfico, a condição "ideal" (às
vezes única) de subsistência.
Concordamos com a
perspect
iva da Criminologia Crítica de
que se o crime é parte constitutiva das
sociedades, inevitavelmente este faz
116
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
- ISSN 2237-1508
Tramas entre cultura e educação")
territorial dos espaços outros da
A favela ficou também registra
da
oficialmente como a área de
habitações irregularmente
construídas, sem arruamentos, sem
plano urbano, sem esgotos, sem
água e sem luz. Dessa precariedade
urbana, resultado da pobreza de
seus habitantes e do descaso do
poder público, surgiram as imagens
que fizeram da favela o lugar da
carência, da falta, do vazio a ser
preenchido pelos sentimentos
humanitários, do perigo a ser
erradicado pelas estratégias políticas
ALVITO, 2006, p. 6)
nos central a percepção
das artimanhas capitalistas
istoricamente forjadas no processo
de gestão territorial das favelas.
Incapaz de garantir à totalidade de
seus cidadãos condições dignas, o
Estado brasileiro inverteu esta
interpretação por meio de discursos de
ascensão pelo esforço individual. A
cia visível deste projeto
político de cidade se materializou nas
diversas gerações de jovens que
encontraram nos mercados ilegais,
sobretudo aquele voltado para o
narcotráfico, a condição "ideal" (às
vezes única) de subsistência.
Concordamos com a
iva da Criminologia Crítica de
que se o crime é parte constitutiva das
sociedades, inevitavelmente este faz
DAEMON, Flora; MENDONÇA, Kleber; NERCOLINI, Marildo
de Mim Sou Eu": práticas culturais e comunicacionais como
instrumentos pedagógicos junto a jovens em vulnerabilidade.
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parte de sua sociabilidade. Ainda
assim, jogar luz sobre isso não
significa fazer apologia ao crime, mas
compreender que não há sociedade
livre do d
elito e que definir quais ações
serão tipificadas ou criminalizadas é
também um gesto político. A questão
que se coloca é que muitos que
enveredaram pelas atividades ilegais
não o fizeram num cardápio justo de
oportunidades.
A história se repete pelo país:
sem escola, primeiramente, e sem
trabalho, num segundo momento,
seguem rumo às opções mais
perigosas e, por isso,
proporcionalmente, mais rentáveis. O
desenvolvimento desta narrativa
parece evidente: ao longo de décadas,
moradores das favelas assistiram a
emergência, ascensão e declínio fatal
de diversos jovens
seus filhos,
companheiros e vizinhos
se tornado parte da cadeia do
comércio ilegal de entorpecentes.
Torna-
seainda mais urgente
desenvolvermos metodologias
pedagógicas que consigam
es
tabelecer diálogo com essa parcela
da população de modo a
conseguirmos desarmar tal poderosa
armadilha histórica. Nesse sentido,
DAEMON, Flora; MENDONÇA, Kleber; NERCOLINI, Marildo
. "Quem Sabe
de Mim Sou Eu": práticas culturais e comunicacionais como
instrumentos pedagógicos junto a jovens em vulnerabilidade.
Americana de Estudos em Cultura,
, março 202
1
.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
(Dossiê "
Tramas entre cultura e educação")
parte de sua sociabilidade. Ainda
assim, jogar luz sobre isso não
significa fazer apologia ao crime, mas
compreender que não há sociedade
elito e que definir quais ações
serão tipificadas ou criminalizadas é
também um gesto político. A questão
que se coloca é que muitos que
enveredaram pelas atividades ilegais
não o fizeram num cardápio justo de
A história se repete pelo país:
sem escola, primeiramente, e sem
trabalho, num segundo momento,
seguem rumo às opções mais
perigosas e, por isso,
proporcionalmente, mais rentáveis. O
desenvolvimento desta narrativa
parece evidente: ao longo de décadas,
moradores das favelas assistiram a
emergência, ascensão e declínio fatal
seus filhos,
, por terem
se tornado parte da cadeia do
comércio ilegal de entorpecentes.
seainda mais urgente
desenvolvermos metodologias
pedagógicas que consigam
tabelecer diálogo com essa parcela
da população de modo a
conseguirmos desarmar tal poderosa
armadilha histórica. Nesse sentido,
concordamos com Faustini de que a
potência do trabalho junto à juventude
é, definitivamente, transformadora,
especialmente quan
alteridade: “Imagine a cabeça de um
jovem que sabe da sua potência, mas
só encontra enquadramentos na sua
frente. É um crime histórico, com
raízes nas estruturas elitizadas e
escravocratas da nossa cidade, mas
que não pode ser naturalizado”
(FAUSTINI, 2012, p.
169).
O caminho seria, então,
fortalecer uma nova chave conceitual
que permita "a invenção de um
espaço/tempo que potencialize
sobretudo a novidade
desse jovem, considerado por muitos
como inorgânico, de promover
invenções
de formas de se estar na
vida e expressões estéticas” (
Nesse cenário, focar parte das ações
utilizando ferramentas comunica
cionais contemporâneas e de fácil
manuseio (como o celular e os
aparatos de audiovisual) cumpre,
como veremos adiante, a f
articular, ao mesmo tempo, as
singularidades com as quais nos
deparamos e as possibilidades de
práticas culturais específicas que
117
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
- ISSN 2237-1508
Tramas entre cultura e educação")
concordamos com Faustini de que a
potência do trabalho junto à juventude
é, definitivamente, transformadora,
do exercita a
alteridade: “Imagine a cabeça de um
jovem que sabe da sua potência, mas
só encontra enquadramentos na sua
frente. É um crime histórico, com
raízes nas estruturas elitizadas e
escravocratas da nossa cidade, mas
que não pode ser naturalizado”
169).
O caminho seria, então,
fortalecer uma nova chave conceitual
que permita "a invenção de um
espaço/tempo que potencialize
sobretudo a novidade
a capacidade
desse jovem, considerado por muitos
como inorgânico, de promover
de formas de se estar na
vida e expressões estéticas” (
ibidem).
Nesse cenário, focar parte das ações
utilizando ferramentas comunica
-
cionais contemporâneas e de fácil
manuseio (como o celular e os
aparatos de audiovisual) cumpre,
como veremos adiante, a f
unção de
articular, ao mesmo tempo, as
singularidades com as quais nos
deparamos e as possibilidades de
práticas culturais específicas que
DAEMON, Flora; MENDONÇA, Kleber; NERCOLINI, Marildo
de Mim Sou Eu": práticas culturais e comunicacionais como
instrumentos pedagógicos junto a jovens em vulnerabilidade.
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serão tematizadas pelos jovens em
suas produções.
É evidente o peso dos
processos históricos que fazem a
manutenção d
a exclusão de pobres
neste país e que limitam as
possibilidades de agência dos sujeitos
focalizados em nossas ações. Ainda
assim, nos alinhamos com a
perspectiva de Enne e Passos que
defendem ser importante
considerarmos que
as estruturas são estruturantes
também estruturadas, não perdendo
de vista o papel de sujeitos ativos,
agentes sociais, dessas múltiplas
juventudes. Entendemos que mesmo
diante de campos de possibilidades
diferenciados, sujeitos projetam e
constroem realidades, disputando
sentidos,
se reapropriando e
ressignificando o mundo. Mas, para
além das idiossincrasias das
subjetividades, compreendemos que
estruturas sociais diferenciadas vão
requerer estratégias e táticas
também múltiplas para que essas
várias juventudes agenciem e se
coloqu
em como sujeitos de suas
realidades (ENNE; PASSOS, 2018,
p. 130).
É justamente por entendermos
os jovens como sujeitos das próprias
narrativas e trajetórias, passíveis de
autorreflexão e dotados de capacidade
de agência e mobilidade, que
desenvolvemos as
ações do projeto.
Foi possível perceber vários
momentos nos quais rompeu
DAEMON, Flora; MENDONÇA, Kleber; NERCOLINI, Marildo
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de Mim Sou Eu": práticas culturais e comunicacionais como
instrumentos pedagógicos junto a jovens em vulnerabilidade.
Americana de Estudos em Cultura,
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.
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serão tematizadas pelos jovens em
É evidente o peso dos
processos históricos que fazem a
a exclusão de pobres
neste país e que limitam as
possibilidades de agência dos sujeitos
focalizados em nossas ações. Ainda
assim, nos alinhamos com a
perspectiva de Enne e Passos que
defendem ser importante
as estruturas são estruturantes
, mas
também estruturadas, não perdendo
de vista o papel de sujeitos ativos,
agentes sociais, dessas múltiplas
juventudes. Entendemos que mesmo
diante de campos de possibilidades
diferenciados, sujeitos projetam e
constroem realidades, disputando
se reapropriando e
ressignificando o mundo. Mas, para
além das idiossincrasias das
subjetividades, compreendemos que
estruturas sociais diferenciadas vão
requerer estratégias e táticas
também múltiplas para que essas
várias juventudes agenciem e se
em como sujeitos de suas
realidades (ENNE; PASSOS, 2018,
É justamente por entendermos
os jovens como sujeitos das próprias
narrativas e trajetórias, passíveis de
autorreflexão e dotados de capacidade
de agência e mobilidade, que
ações do projeto.
Foi possível perceber vários
momentos nos quais rompeu
-se o ciclo
perverso que acomete jovens em
posição de vulnerabilidade que, por
sua vez, poderiam se tornar vetores da
sociabilidade violenta como uma
profecia autorrealizável (SOARES
BILL;
ATHAYDE, 2005).
Uma das condições prioritárias
para o sucesso dessa empreitada, que
mereceu um olhar teórico mais detido
de nossa parte, foi justamente
problematizar lugares de poder que
atravessam, institucional e
subjetivamente, a forma como os
sab
eres agenciam professores e
hierarquizam sujeitos e possibilidades
de existência.
3. Embaralhando hierarquias: a
importância de descentrar o olhar
Foucault, ao mapear o
funcionamento das instituições
disciplinares e os modos como os
discursos se organizam, aponta como
as formas de saber, historicamente
produzidas, engendram estruturas
hierárquicas de poder (FOUCAULT,
1987). Assim, os grupos que ocupa
lugar daqueles que detém saber sobre
outrem autorizam-
se a exercer sobre
seus
objetos do conhecimento
relações de dominação e controle.
118
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
- ISSN 2237-1508
Tramas entre cultura e educação")
perverso que acomete jovens em
posição de vulnerabilidade que, por
sua vez, poderiam se tornar vetores da
sociabilidade violenta como uma
profecia autorrealizável (SOARES
;
ATHAYDE, 2005).
Uma das condições prioritárias
para o sucesso dessa empreitada, que
mereceu um olhar teórico mais detido
de nossa parte, foi justamente
problematizar lugares de poder que
atravessam, institucional e
subjetivamente, a forma como os
eres agenciam professores e
hierarquizam sujeitos e possibilidades
3. Embaralhando hierarquias: a
importância de descentrar o olhar
Foucault, ao mapear o
funcionamento das instituições
disciplinares e os modos como os
discursos se organizam, aponta como
as formas de saber, historicamente
produzidas, engendram estruturas
hierárquicas de poder (FOUCAULT,
1987). Assim, os grupos que ocupa
m o
lugar daqueles que detém saber sobre
se a exercer sobre
objetos do conhecimento
relações de dominação e controle.
DAEMON, Flora; MENDONÇA, Kleber; NERCOLINI, Marildo
de Mim Sou Eu": práticas culturais e comunicacionais como
instrumentos pedagógicos junto a jovens em vulnerabilidade.
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Aspectos dos agenciamentos
presentes na articulação entre saber e
poder se reproduzem, muitas vezes,
no funcionament
o cotidiano das
instituições de ensino, em seus
diferentes níveis. Não raro, de modo
mais ou menos inconsciente, tais
relações hierárquicas acabam
norteando e se atualizando
em práticas pedagógicas que buscam,
de forma bem intencionada,
intervenções
empoderadoras junto aos
jovens atendidos.
Uma reflexão que pode ajudar a
explicitar essas matrizes hierárquicas
do pensamento e das práticas de
ensino e aprendizado é desenvolvida
por Doreen Massey (2008). A autora
propõe uma relação entre geografia,
polí
tica e estratégias de legitimação
dos saberes para pensar criticamente
a proliferação mundial de tecnopolos
universitários (
Science Parks)
moldes do Vale do Silício. A geógrafa
defende que tais espaços de
conhecimento atualizam historicidades
porque “a
rticulam, de forma física,
tanto a espacialidade social da
produção do conhecimento quanto
uma espacialidade imaginada da
relação do conhecimento” (MASSEY,
2008, p.
209). Nos tecnopólos uma
DAEMON, Flora; MENDONÇA, Kleber; NERCOLINI, Marildo
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Tramas entre cultura e educação")
Aspectos dos agenciamentos
presentes na articulação entre saber e
poder se reproduzem, muitas vezes,
o cotidiano das
instituições de ensino, em seus
diferentes níveis. Não raro, de modo
mais ou menos inconsciente, tais
relações hierárquicas acabam
norteando e se atualizando
, mesmo
em práticas pedagógicas que buscam,
de forma bem intencionada,
empoderadoras junto aos
Uma reflexão que pode ajudar a
explicitar essas matrizes hierárquicas
do pensamento e das práticas de
ensino e aprendizado é desenvolvida
por Doreen Massey (2008). A autora
propõe uma relação entre geografia,
tica e estratégias de legitimação
dos saberes para pensar criticamente
a proliferação mundial de tecnopolos
Science Parks)
nos
moldes do Vale do Silício. A geógrafa
defende que tais espaços de
conhecimento atualizam historicidades
rticulam, de forma física,
tanto a espacialidade social da
produção do conhecimento quanto
uma espacialidade imaginada da
relação do conhecimento” (MASSEY,
209). Nos tecnopólos uma
atualização de três trajetórias do
pensamento hegemônico
que dizem respeito aos modos como a
ciência e a educação são pensadas
hoje, quem pode praticá
saberes “legítimos” em nossa
sociedade.
A primeira trajetória materializa
uma ciência que se instaura pela
divisão e pela distância geogr
medida em que as universidade se
organizam em amplos espaços
confinados à margem das cidades (ou,
quando próximas, geograficamente,
ainda assim alijadas da vida cotidiana
local). Uma atualização
contemporânea da fuga monástica
medieval para o des
condição de buscar e manter o
conhecimento.
É a recapitulação de uma velha
estória da história ocidental: a
reclusão espacial do deserto para os
primeiros pensadores cristãos, o
surgimento de mosteiros como
lugares de elite e produção de
conheci
mento, as universidades
medievais. Todos eles lugares que
cristalizaram, através da
espacialização, uma separação entre
mente e corpo. (MASSEY, 2008, p.
207)
Esse
saber como produto do
afastamento do mundo se desdobra na
cesura entre
sujeito
objeto
do conhecimento, não por
119
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
- ISSN 2237-1508
Tramas entre cultura e educação")
atualização de três trajetórias do
pensamento hegemônico
ocidental
que dizem respeito aos modos como a
ciência e a educação são pensadas
hoje, quem pode praticá
-la e quais os
saberes “legítimos” em nossa
A primeira trajetória materializa
uma ciência que se instaura pela
divisão e pela distância geogr
áfica, na
medida em que as universidade se
organizam em amplos espaços
confinados à margem das cidades (ou,
quando próximas, geograficamente,
ainda assim alijadas da vida cotidiana
local). Uma atualização
contemporânea da fuga monástica
medieval para o des
erto como
condição de buscar e manter o
É a recapitulação de uma velha
estória da história ocidental: a
reclusão espacial do deserto para os
primeiros pensadores cristãos, o
surgimento de mosteiros como
lugares de elite e produção de
mento, as universidades
medievais. Todos eles lugares que
cristalizaram, através da
espacialização, uma separação entre
mente e corpo. (MASSEY, 2008, p.
saber como produto do
afastamento do mundo se desdobra na
sujeito
conhecedor e
do conhecimento, não por
DAEMON, Flora; MENDONÇA, Kleber; NERCOLINI, Marildo
de Mim Sou Eu": práticas culturais e comunicacionais como
instrumentos pedagógicos junto a jovens em vulnerabilidade.
PragMATIZES - Revista Latino-
Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 1
1, n. 20
, p.
109
-
13
, março 202
acaso o mesmo solo onde Foucault viu
florescer relações hierárquicas de
saber/poder. Além da objetividade
como paradigma, tal fuga estabelece
ainda outra paisagem na geografia do
saber: a distância dos homens em
relação às
mulheres. A hegemonia
masculina nos lugares de saber é
“resultado de uma história mais longa
e mais profunda da construção do
gênero que, ela própria foi/é incluída
espacialmente na construção de
“lugares de conhecimento” defensivos,
especializados” (ibid.,
Consolida-
se uma gestão da produção
de conhecimento calcada não nas
oposições sujeito/objeto e vida
cotidiana/isolamento reflexivo, mas
também na naturalização da hierarquia
entre “legítimos” pensadores fundada
em uma distinção (discriminação
histórica de gênero: pensar não seria,
evidentemente,
“coisa de mulher”.
uma última trajetória nas
instituições de saber contemporâneas:
a questão de classe: “esses lugares de
produção de conhecimento são,
também, lugares de elite, da produção
de con
hecimento legítimo,
reconhecido, autorizado” (
i
costura de objetividade distanciada,
masculinidade do pensamento e
DAEMON, Flora; MENDONÇA, Kleber; NERCOLINI, Marildo
. "Quem Sabe
de Mim Sou Eu": práticas culturais e comunicacionais como
instrumentos pedagógicos junto a jovens em vulnerabilidade.
Americana de Estudos em Cultura,
, março 202
1
.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
(Dossiê "
Tramas entre cultura e educação")
acaso o mesmo solo onde Foucault viu
florescer relações hierárquicas de
saber/poder. Além da objetividade
como paradigma, tal fuga estabelece
ainda outra paisagem na geografia do
saber: a distância dos homens em
mulheres. A hegemonia
masculina nos lugares de saber é
“resultado de uma história mais longa
e mais profunda da construção do
gênero que, ela própria foi/é incluída
espacialmente na construção de
“lugares de conhecimento” defensivos,
p. 208).
se uma gestão da produção
de conhecimento calcada não nas
oposições sujeito/objeto e vida
cotidiana/isolamento reflexivo, mas
também na naturalização da hierarquia
entre “legítimos” pensadores fundada
em uma distinção (discriminação
)
histórica de gênero: pensar não seria,
“coisa de mulher”.
uma última trajetória nas
instituições de saber contemporâneas:
a questão de classe: “esses lugares de
produção de conhecimento são,
também, lugares de elite, da produção
hecimento legítimo,
i
bidem). Tal
costura de objetividade distanciada,
masculinidade do pensamento e
legitimação dos saberes sedimenta um
amplo silenciamento de outras
possibilidades de conhecimento e
práticas. Tais formas outras,
situadas “para além dos muros”, são
constantemente aprimoradas,
repartidas e multiplicadas por parcelas
importantes e heterogêneas da
população.
Defendemos ser impossível
estabelecer atuações de fato efetivas
junto a jovens moradores de favelas
que
não sejam capazes de colocar em
diálogo os saberes universitários
quase sempre impregnados dessa
tripla relação de poder e distinção
com a sabedoria local, polifônica,
sedimentada e constantemente
atualizada por práticas culturais e
trocas cotidianas
silenciada como as formas de
conhecimento que são.
Reside igualmente na proposta
de desarmar as armadilhas de classe,
raça e gênero dessa geografia do
conhecimento o esforço pedagógico
proposto por bell hooks
diálogo com Paulo Fr
de uma educação para a liberdade.
Um dos desafios pedagógicos
5
Nota do editor: a grafia em letras minúsculas
é escolha da própria autora.
120
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
- ISSN 2237-1508
Tramas entre cultura e educação")
legitimação dos saberes sedimenta um
amplo silenciamento de outras
possibilidades de conhecimento e
práticas. Tais formas outras,
mesmo
situadas “para além dos muros”, são
constantemente aprimoradas,
repartidas e multiplicadas por parcelas
importantes e heterogêneas da
Defendemos ser impossível
estabelecer atuações de fato efetivas
junto a jovens moradores de favelas
não sejam capazes de colocar em
diálogo os saberes universitários
-
quase sempre impregnados dessa
tripla relação de poder e distinção
- ,
com a sabedoria local, polifônica,
sedimentada e constantemente
atualizada por práticas culturais e
muitas vezes
silenciada como as formas de
conhecimento que são.
Reside igualmente na proposta
de desarmar as armadilhas de classe,
raça e gênero dessa geografia do
conhecimento o esforço pedagógico
proposto por bell hooks
5
(2013), em
diálogo com Paulo Fr
eire, na defesa
de uma educação para a liberdade.
Um dos desafios pedagógicos
Nota do editor: a grafia em letras minúsculas
é escolha da própria autora.
DAEMON, Flora; MENDONÇA, Kleber; NERCOLINI, Marildo
de Mim Sou Eu": práticas culturais e comunicacionais como
instrumentos pedagógicos junto a jovens em vulnerabilidade.
PragMATIZES - Revista Latino-
Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 1
1, n. 20
, p.