LOPES, Adriana C.; TAVARES, Janaina. "Os saraus são as bibliotecas
sonoras as periferias": uma narrativa sobre letramentos e o direito à
cidade. PragMATIZES - Revista Latino-
Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 11, n. 20, p. 51-68
, março 2021.
“Os saraus são as bibliotecas sonoras das periferias”:
letramentos e o direito à cidade
DOI:
https://doi.org/10.22409/pragmatizes.v11i20.45797
Resumo
: As produções culturais
trabalho e de participação político
uma poderosa agência de letramento (KLEIMAN, 1995). Fundamentadas pela nossa experiência e
um sarau periférico, chamado Sarau V (de Viral), realizado na cidade de Nova Iguaçu, região
metropolitana do estado do Rio de Janeiro, idealizado e organizado pela coautora Janaina Tavares;
tecemos uma narrativa constituída por uma ‘dupla autoria’ em doi
(BAKHTIN, 1997), que chamamos de escrita
Fundamentadas pelo campo de estudos dos letramentos (STREET, 2001), argumentamos que as
práticas do sarau evidenciam uma escrita multissemiótic
desnaturaliza as projeções escalares hegemônicas (
urbanos (GUATTARI; ROLNIK, 2010) e reivindica o direito à cidade (HARVEY, 2016).
Palavras-chave: L
“Los saraos son las bibliotecas sonoras de las periferias”
el derecho a la ciudad
Resumen:
Las producciones culturales periféricas, además de ser una opción de recreo, producción,
trabajo y participación político-
cultural para los jóvenes periféricos, pueden entenderse como una
poderosa agencia de letramiento (KLEIMAN, 1995). A partir de nuestra
periférica, denominada Sarau V (Viral), realizada en la ciudad de Nova Iguaçu, región metropolitana
del estado de Río de Janeiro, idealizada y organizada por Janaina Tavares, una de las autoras de
este texto, tejemos una narrativ
(BAKTHIN, 1997), que llamamos escritura de escena y escritura de fondo (GOFFMAN, 1985).
Partiendo del campo de los estudios de letramiento (STREET, 2001), argumentamos que las
prácticas do Sarau
V muestran una escritura multisemiótica y multisensorial (MILLS, 2016) que
1
Adriana Carvalho Lopes. Doutora em Linguística
Departamento de Educação e Sociedade do Instituto Multidisciplinar da Universidade Federal Rural
do Rio de Janeiro (IM/UFRRJ). Professora do Programa de Pós
Demandas Populares –
PPGDUC/UFRRJ e do Programa Interdiscipl
Linguística Aplicada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PIPGLA/UFRJ), Brasil.
adrianaclopes14@gmail.com -
https://orcid.org/
2
Janaina Tavares. Mestranda no Programa Interdisciplinar de Pós
Aplicada da Universidade Federal do Rio de Janeiro
janaa.tavaresv@gmail.com -
https://orcid.org/0000
Texto recebido em 06/09/20
20
LOPES, Adriana C.; TAVARES, Janaina. "Os saraus são as bibliotecas
sonoras as periferias": uma narrativa sobre letramentos e o direito à
Americana de Estudos em Cultura,
, março 2021.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
(Dossiê "Tramas entre cultura e educação")
“Os saraus são as bibliotecas sonoras das periferias”:
uma narrativa sobre
letramentos e o direito à cidade
https://doi.org/10.22409/pragmatizes.v11i20.45797
Adriana Carvalho Lopes
Janaina Tavares
: As produções culturais
periféricas, além de serem uma
opção de lazer, de produção, de
trabalho e de participação político
-
cultural para as juventudes periféricas, podem ser entendidas como
uma poderosa agência de letramento (KLEIMAN, 1995). Fundamentadas pela nossa experiência e
um sarau periférico, chamado Sarau V (de Viral), realizado na cidade de Nova Iguaçu, região
metropolitana do estado do Rio de Janeiro, idealizado e organizado pela coautora Janaina Tavares;
tecemos uma narrativa constituída por uma ‘dupla autoria em doi
s gêneros textuais distintos
(BAKHTIN, 1997), que chamamos de escrita
-cena e de escrita-
bastidor (GOFFMAN,1985).
Fundamentadas pelo campo de estudos dos letramentos (STREET, 2001), argumentamos que as
práticas do sarau evidenciam uma escrita multissemiótic
a e multissensória (MILLS, 2016) que
desnaturaliza as projeções escalares hegemônicas (
CARR; LEMPERT, 2016),
reterritorializa espaços
urbanos (GUATTARI; ROLNIK, 2010) e reivindica o direito à cidade (HARVEY, 2016).
etramentos; juventudes
periféricas; direito à cidade.
“Los saraos son las bibliotecas sonoras de las periferias”
: una narrativa sobre letramientos y
Las producciones culturales periféricas, además de ser una opción de recreo, producción,
cultural para los jóvenes periféricos, pueden entenderse como una
poderosa agencia de letramiento (KLEIMAN, 1995). A partir de nuestra
experiencia en una velada
periférica, denominada Sarau V (Viral), realizada en la ciudad de Nova Iguaçu, región metropolitana
del estado de Río de Janeiro, idealizada y organizada por Janaina Tavares, una de las autoras de
este texto, tejemos una narrativ
a por una "doble autoría" en dos neros textuales distintos
(BAKTHIN, 1997), que llamamos escritura de escena y escritura de fondo (GOFFMAN, 1985).
Partiendo del campo de los estudios de letramiento (STREET, 2001), argumentamos que las
V muestran una escritura multisemiótica y multisensorial (MILLS, 2016) que
Adriana Carvalho Lopes. Doutora em Linguística
pela Universidade de Campinas.
Departamento de Educação e Sociedade do Instituto Multidisciplinar da Universidade Federal Rural
do Rio de Janeiro (IM/UFRRJ). Professora do Programa de Pós
-
Graduação em Educação e
PPGDUC/UFRRJ e do Programa Interdiscipl
inar de Pós-
Graduação em
Linguística Aplicada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PIPGLA/UFRJ), Brasil.
https://orcid.org/
0000-0002-6068-8308
Janaina Tavares. Mestranda no Programa Interdisciplinar de Pós
-Gradu
ação em Linguística
Aplicada da Universidade Federal do Rio de Janeiro
– PIPGLA/UFRJ, Brasil. E-
mail:
https://orcid.org/0000
-02-8436-4842
20
, aceito para publicação em 12/10/2020
e disponibilizado onlin
em 01/03/2021.
51
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
- ISSN 2237-1508
(Dossiê "Tramas entre cultura e educação")
uma narrativa sobre
Adriana Carvalho Lopes
1
Janaina Tavares
2
opção de lazer, de produção, de
cultural para as juventudes periféricas, podem ser entendidas como
uma poderosa agência de letramento (KLEIMAN, 1995). Fundamentadas pela nossa experiência e
m
um sarau periférico, chamado Sarau V (de Viral), realizado na cidade de Nova Iguaçu, região
metropolitana do estado do Rio de Janeiro, idealizado e organizado pela coautora Janaina Tavares;
s gêneros textuais distintos
bastidor (GOFFMAN,1985).
Fundamentadas pelo campo de estudos dos letramentos (STREET, 2001), argumentamos que as
a e multissensória (MILLS, 2016) que
reterritorializa espaços
urbanos (GUATTARI; ROLNIK, 2010) e reivindica o direito à cidade (HARVEY, 2016).
: una narrativa sobre letramientos y
Las producciones culturales periféricas, además de ser una opción de recreo, producción,
cultural para los jóvenes periféricos, pueden entenderse como una
experiencia en una velada
periférica, denominada Sarau V (Viral), realizada en la ciudad de Nova Iguaçu, región metropolitana
del estado de Río de Janeiro, idealizada y organizada por Janaina Tavares, una de las autoras de
a por una "doble autoría" en dos neros textuales distintos
(BAKTHIN, 1997), que llamamos escritura de escena y escritura de fondo (GOFFMAN, 1985).
Partiendo del campo de los estudios de letramiento (STREET, 2001), argumentamos que las
V muestran una escritura multisemiótica y multisensorial (MILLS, 2016) que
pela Universidade de Campinas.
Professora de
Departamento de Educação e Sociedade do Instituto Multidisciplinar da Universidade Federal Rural
Graduação em Educação e
Graduação em
Linguística Aplicada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PIPGLA/UFRJ), Brasil.
E-mail:
ação em Linguística
mail:
e disponibilizado onlin
e
LOPES, Adriana C.; TAVARES, Janaina. "Os saraus são as bibliotecas
sonoras as periferias": uma narrativa sobre letramentos e o direito à
cidade. PragMATIZES - Revista Latino-
Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 11, n. 20, p. 51-68
, março 2021.
desnaturaliza las proyecciones escalares hegemónicas (CARR; LEMPERT, 2016), reterritorializa los
espacios urbanos (GUATTARI; ROLNIK, 2010) y reivindica el derecho a la ciudad (HARVE
Palabras clave
: Letramientos; juventud periférica; derecho a la ciudad
“The soirées are the sound
libraries
right to the city
Abstract
: Peripheral cultural productions, in addition
and political-
cultural participation for peripheral youths, can be understood as a powerful literacy
agency (KLEIMAN, 1995). Based on our experience in a peripheral soirée, Sarau V (Viral), held in the
city
of Nova Iguaçu, metropolitan region of the state of Rio de Janeiro, idealized and organized by
coauthor Janaina Tavares, we weave a narrative by a 'double authorship' in two distinct textual genres
(BAKTHIN, 1997), which we call scene
of literacy studies (STREET, 2001), we argue that the practices of the Sarau V show a multisemiotic
and multisensory writing (MILLS, 2016) that denaturalizes hegemonic scalar projections (CARR;
LEMPERT, 2016), re-te
rritorializes urban spaces (GUATTARI; ROLNIK, 2010) and claims the right to
the city (HARVEY, 2016).
Keywords: Literacies; p
eripheral youth;
“Os saraus são as bibliotecas sonoras das periferias”:
le
Eu amo a rua. Esse
sentimento de natureza toda
íntima não vos seria revelado
por mim se não julgasse, e
razões não tivesse para julgar,
que este amor assim absoluto
e assim exagerado é
pa
rtilhado por todos vós. Nós
somos irmãos, nós nos
sentimos parecidos e iguais,
nas cidades, nas aldeias, nos
povoados, não porque
soframos, com a dor e os
desprazeres, a lei e a polícia,
mas porque nos une, nos
nivela e agremia o amor da
rua.
A Rua. João d
As
produções culturais
periféricas, além de serem uma
de lazer, de produção, de trabalho e
de participação político-
cultural para as
juventudes que habitam territórios que
LOPES, Adriana C.; TAVARES, Janaina. "Os saraus são as bibliotecas
sonoras as periferias": uma narrativa sobre letramentos e o direito à
Americana de Estudos em Cultura,
, março 2021.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
(Dossiê "Tramas entre cultura e educação")
desnaturaliza las proyecciones escalares hegemónicas (CARR; LEMPERT, 2016), reterritorializa los
espacios urbanos (GUATTARI; ROLNIK, 2010) y reivindica el derecho a la ciudad (HARVE
: Letramientos; juventud periférica; derecho a la ciudad
.
libraries
of the peripheries”: A narrative
about
: Peripheral cultural productions, in addition
to being an option for leisure, production, labor
cultural participation for peripheral youths, can be understood as a powerful literacy
agency (KLEIMAN, 1995). Based on our experience in a peripheral soirée, Sarau V (Viral), held in the
of Nova Iguaçu, metropolitan region of the state of Rio de Janeiro, idealized and organized by
coauthor Janaina Tavares, we weave a narrative by a 'double authorship' in two distinct textual genres
(BAKTHIN, 1997), which we call scene
-writing and back-wri
ting (GOFFMAN, 1985). Based on the field
of literacy studies (STREET, 2001), we argue that the practices of the Sarau V show a multisemiotic
and multisensory writing (MILLS, 2016) that denaturalizes hegemonic scalar projections (CARR;
rritorializes urban spaces (GUATTARI; ROLNIK, 2010) and claims the right to
eripheral youth;
right to the city.
“Os saraus são as bibliotecas sonoras das periferias”:
uma narrativa sobre
le
tramentos e o direito à cidade
Eu amo a rua. Esse
sentimento de natureza toda
íntima não vos seria revelado
por mim se não julgasse, e
razões não tivesse para julgar,
que este amor assim absoluto
e assim exagerado é
rtilhado por todos vós. Nós
somos irmãos, nós nos
sentimos parecidos e iguais,
nas cidades, nas aldeias, nos
povoados, não porque
soframos, com a dor e os
desprazeres, a lei e a polícia,
mas porque nos une, nos
nivela e agremia o amor da
A Rua. João d
o Rio.
produções culturais
periféricas, além de serem uma
opção
de lazer, de produção, de trabalho e
cultural para as
juventudes que habitam territórios que
margeiam centros geográficos,
econômicos e urbanos, podem ser
entendidas também como uma
poderosa agência de letramento
(KLEIMAN, 1995). Nos saraus, nos
slams
ou batalhas de poesia, nos
bailes funk e nas diversas
manifestações do hip hop (break,
grafite,rap) circulam
es
critas que desafiam um
racionalista, economicista e
individualista (SCOLLON; SCOLLON,
1995) sobre os letramentos.
Considerando as nossas vivências, em
um sarau periférico, chamado Sarau V
(de Viral), realizado na cidade de Nova
52
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
- ISSN 2237-1508
(Dossiê "Tramas entre cultura e educação")
desnaturaliza las proyecciones escalares hegemónicas (CARR; LEMPERT, 2016), reterritorializa los
espacios urbanos (GUATTARI; ROLNIK, 2010) y reivindica el derecho a la ciudad (HARVE
Y, 2016).
about
literacies and the
to being an option for leisure, production, labor
cultural participation for peripheral youths, can be understood as a powerful literacy
agency (KLEIMAN, 1995). Based on our experience in a peripheral soirée, Sarau V (Viral), held in the
of Nova Iguaçu, metropolitan region of the state of Rio de Janeiro, idealized and organized by
coauthor Janaina Tavares, we weave a narrative by a 'double authorship' in two distinct textual genres
ting (GOFFMAN, 1985). Based on the field
of literacy studies (STREET, 2001), we argue that the practices of the Sarau V show a multisemiotic
and multisensory writing (MILLS, 2016) that denaturalizes hegemonic scalar projections (CARR;
rritorializes urban spaces (GUATTARI; ROLNIK, 2010) and claims the right to
uma narrativa sobre
margeiam centros geográficos,
econômicos e urbanos, podem ser
entendidas também como uma
poderosa agência de letramento
(KLEIMAN, 1995). Nos saraus, nos
ou batalhas de poesia, nos
bailes funk e nas diversas
manifestações do hip hop (break,
vários tipos de
critas que desafiam um
a visão
racionalista, economicista e
individualista (SCOLLON; SCOLLON,
1995) sobre os letramentos.
Considerando as nossas vivências, em
um sarau periférico, chamado Sarau V
(de Viral), realizado na cidade de Nova
LOPES, Adriana C.; TAVARES, Janaina. "Os saraus são as bibliotecas
sonoras as periferias": uma narrativa sobre letramentos e o direito à
cidade. PragMATIZES - Revista Latino-
Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 11, n. 20, p. 51-68
, março 2021.
Iguaçu, região metrop
olitana do estado
do Rio de Janeiro, idealizado e
organizado por Janaina
Tavares,tecemos uma narrativa
multissemiótica
constituída por uma
‘dupla autoria’
resultante de um
diálogo entre orientadora/orientanda,
mas também da interação entre
vozes
3
que ocupa
m distintos espaços
de observação e atuação
produção cultural
4
.
Tomamos de empréstimo as
metáforas ‘bastidor’ e ‘cena’ de Erving
Goffman (1985) como uma forma de
organizar a nossa construção textual,
pois assim como Goffman argumenta
que a definiçã
o das situações
cotidianas não são uma prerrogativa
individual, mas um trabalho de
equipe”, entendemos que este artigo é
também um tipo de ação escalar
coletiva, ou melhor, uma perspectiva
de equipe que se constrói permeada
por duas
formas de linguagem
si
tuadas em locais e gêneros
discursivos diferentes
: uma escrita
3
Utilizamos vozes sociais como distintas
posições sócio-
históricas que comparecem em
textos (cf. BLOMMAERT, 2008)
4
Enquanto Janaína Tavares pode ser
compreendida como um ator do evento social
em análise, uma vez que é a produtora do
Sarau, Adriana Lopes, ainda que tenha
participado de uma das edições do Sarau,
ocupa um espaço de analista.
LOPES, Adriana C.; TAVARES, Janaina. "Os saraus são as bibliotecas
sonoras as periferias": uma narrativa sobre letramentos e o direito à
Americana de Estudos em Cultura,
, março 2021.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
(Dossiê "Tramas entre cultura e educação")
olitana do estado
do Rio de Janeiro, idealizado e
organizado por Janaina
Tavares,tecemos uma narrativa
constituída por uma
resultante de um
diálogo entre orientadora/orientanda,
mas também da interação entre
m distintos espaços
de observação e atuação
nessa
Tomamos de empréstimo as
metáforas ‘bastidor’ e ‘cena’ de Erving
Goffman (1985) como uma forma de
organizar a nossa construção textual,
pois assim como Goffman argumenta
o das situações
cotidianas não são uma prerrogativa
individual, mas um trabalho de
equipe”, entendemos que este artigo é
também um tipo de ação escalar
coletiva, ou melhor, uma perspectiva
de equipe que se constrói permeada
formas de linguagem
tuadas em locais e gêneros
: uma escrita
-
Utilizamos vozes sociais como distintas
históricas que comparecem em
textos (cf. BLOMMAERT, 2008)
Enquanto Janaína Tavares pode ser
compreendida como um ator do evento social
em análise, uma vez que é a produtora do
Sarau, Adriana Lopes, ainda que tenha
participado de uma das edições do Sarau,
bastidor, que segue um gênero
discursivo acadêmico teorizando as
práticas; e uma
escrita
por fotografias e por pequenos
fragmentos
que chamaremos de
cartas, que foram escritas em
poética na primeira pessoa e
endereçadas à rua,
memórias das cenas vividas. Isso não
quer dizer que essas escritas possam
ser compreendidas de forma
separada, tampouco que a
escrita/cena seja objeto de análise da
escrita/bastidor. Organiz
gêneros discursivos distintos, ambas
têm como objeto de reflexão as
práticas de letramentos do Sarau V
trata-
se, portanto, de escritas que
dialogam, se complementam e se
contaminam, construindo uma
perspectiva narrativa para a nossa
dupla observação.
De saída, vale destacar que
integramos grupos de interlocução e
de pesquisa
5
que investigam
sobretudo práticas de letramentos que
5
As reflexões aqui apresenta
fruto do diálogo em grupos de pesquisa
interdisciplinares, Oicult e CELeC, que reúnem
pesquisadoras/es das áreas da cultura, da
educação e da linguística que investigam as
produções culturais periféricas e suas práticas
de letramentos (cf.
MAIA, 2017; LOPES
Adriana et al.,
2017; SILVA, 2019; LOPES;
FACINA; SILVA, 2019)
53
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
- ISSN 2237-1508
(Dossiê "Tramas entre cultura e educação")
bastidor, que segue um gênero
discursivo acadêmico teorizando as
escrita
-cena composta
por fotografias e por pequenos
que chamaremos de
cartas, que foram escritas em
prosa-
poética na primeira pessoa e
endereçadas à rua,
trazendo as
memórias das cenas vividas. Isso não
quer dizer que essas escritas possam
ser compreendidas de forma
separada, tampouco que a
escrita/cena seja objeto de análise da
escrita/bastidor. Organiz
adas como
gêneros discursivos distintos, ambas
têm como objeto de reflexão as
práticas de letramentos do Sarau V
se, portanto, de escritas que
dialogam, se complementam e se
contaminam, construindo uma
perspectiva narrativa para a nossa
De saída, vale destacar que
integramos grupos de interlocução e
que investigam
sobretudo práticas de letramentos que
As reflexões aqui apresenta
das também são
fruto do diálogo em grupos de pesquisa
interdisciplinares, Oicult e CELeC, que reúnem
pesquisadoras/es das áreas da cultura, da
educação e da linguística que investigam as
produções culturais periféricas e suas práticas
MAIA, 2017; LOPES
,
2017; SILVA, 2019; LOPES;
LOPES, Adriana C.; TAVARES, Janaina. "Os saraus são as bibliotecas
sonoras as periferias": uma narrativa sobre letramentos e o direito à
cidade. PragMATIZES - Revista Latino-
Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 11, n. 20, p. 51-68
, março 2021.
tem lugar em contextos não
escolarizados, pois um
entendimento de que essas práticas
possibilitam certa desconstr
alargamento das fronteiras daquilo
que, tradicionalmente, foi entendido
como leitura e escrita não nas
práticas pedagógicas escolarizadas,
mas nos discursos hegemônicos que
circulam em espaços de poder. Como
enfatiza Roy Harrys (2000), repensa
escrita escolarizada e alfabética é, de
alguma maneira, refletir sobre algo que
está para além das práticas
comunicacionais, que, nas
narrativas coloniais, o mundo moderno
foi dividido, ranqueado e hierarquizado
territorialmente, de acordo com
crité
rios civilizacionais, medidos em
função das
práticas de letramentos
dos grupos sociais.
A história recente de
ocidentalização do mundo foi
acompanhada pela difusão da escrita
alfabética. Para Walter Mignolo
(2000), a colonização foi um momento
em que im
portava fornecer a escrita e
a história para aqueles povos que, em
uma perspectiva grafocêntrica e
eurocêntrica, seriam considerados
povos ‘sem escrita’ e ‘sem história.’
Em diálogo com os Novos Estudos dos
LOPES, Adriana C.; TAVARES, Janaina. "Os saraus são as bibliotecas
sonoras as periferias": uma narrativa sobre letramentos e o direito à
Americana de Estudos em Cultura,
, março 2021.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
(Dossiê "Tramas entre cultura e educação")
tem lugar em contextos não
-
escolarizados, pois um
entendimento de que essas práticas
possibilitam certa desconstr
ução e um
alargamento das fronteiras daquilo
que, tradicionalmente, foi entendido
como leitura e escrita não nas
práticas pedagógicas escolarizadas,
mas nos discursos hegemônicos que
circulam em espaços de poder. Como
enfatiza Roy Harrys (2000), repensa
r a
escrita escolarizada e alfabética é, de
alguma maneira, refletir sobre algo que
está para além das práticas
comunicacionais, que, nas
narrativas coloniais, o mundo moderno
foi dividido, ranqueado e hierarquizado
territorialmente, de acordo com
rios civilizacionais, medidos em
práticas de letramentos
A história recente de
ocidentalização do mundo foi
acompanhada pela difusão da escrita
alfabética. Para Walter Mignolo
(2000), a colonização foi um momento
portava fornecer a escrita e
a história para aqueles povos que, em
uma perspectiva grafocêntrica e
eurocêntrica, seriam considerados
povos ‘sem escrita’ e ‘sem história.’
Em diálogo com os Novos Estudos dos
Letramentos (STREET, 2001), que
compreendem a esc
prática social atravessada por relações
de poder, trazemos essa reflexão pós
colonial por dois motivos. Primeiro,
para mostrar como a disseminação da
escrita não é a difusão de uma técnica
neutra, mas está, intrinsecamente,
relacionada às ide
processos de dominação dos povos.
Segundo, porque entendemos que os
sujeitos não são passivos diante desse
movimento. Pelo contrário, nesse
processo não a escrita alfabética é
modificada, como também a maneira
pela qual essa passa a ser
co
mpreendida e utilizada.
Considerando a escrita
alfabética como uma tecnologia de
poder, algumas perguntas sobre
escritas produzidas por sujeitos
periféricos são norteadoras de nossas
pesquisas e moldam as reflexões
construídas neste texto. Uma questão
cara para nós
é compreender o que as
pessoas produzem em termos de
cultura e de letramentos em contextos
não-
escolarizados. Desse modo, com
um olhar etnográfico
6
6
A postura etnográfica diante das práticas de
escrita é colocada pelos Novos Estudos dos
Letramentos (STREET, 2014). Já que a escrita
não é uma técnica de valor universal,ob
54
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
- ISSN 2237-1508
(Dossiê "Tramas entre cultura e educação")
Letramentos (STREET, 2001), que
compreendem a esc
rita como uma
prática social atravessada por relações
de poder, trazemos essa reflexão pós
-
colonial por dois motivos. Primeiro,
para mostrar como a disseminação da
escrita não é a difusão de uma técnica
neutra, mas está, intrinsecamente,
relacionada às ide
ologias e aos
processos de dominação dos povos.
Segundo, porque entendemos que os
sujeitos não são passivos diante desse
movimento. Pelo contrário, nesse
processo não a escrita alfabética é
modificada, como também a maneira
pela qual essa passa a ser
mpreendida e utilizada.
Considerando a escrita
alfabética como uma tecnologia de
poder, algumas perguntas sobre
escritas produzidas por sujeitos
periféricos são norteadoras de nossas
pesquisas e moldam as reflexões
construídas neste texto. Uma questão
é compreender o que as
pessoas produzem em termos de
cultura e de letramentos em contextos
escolarizados. Desse modo, com
observamos qual
A postura etnográfica diante das práticas de
escrita é colocada pelos Novos Estudos dos
Letramentos (STREET, 2014). Já que a escrita
não é uma técnica de valor universal,ob
servá-
LOPES, Adriana C.; TAVARES, Janaina. "Os saraus são as bibliotecas
sonoras as periferias": uma narrativa sobre letramentos e o direito à
cidade. PragMATIZES - Revista Latino-
Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 11, n. 20, p. 51-68
, março 2021.
o movimento da escrita quando esta
passa a ser uma tecnologia central na
organização das práticas de pessoas
que habitam as periferias brasileiras
locais que, hegemonicamente, são
imaginados como territórios marcados
pela “carência”, pela “falta” de cultu
pela “ausência” de educação e pelo
iletramento. Tendo, então, essa
reflexão em mente é que
nossa dupla experiência no Sarau V.
No ano de 2013, Janaína
Tavares deu início ao
primeiro sarau
de artes integradas (audiovisual,
teatro, dança, mús
ica etc.) que
debateu política, direito à cidade,
cultura e direitos humanos, em uma
praça pública de Nova Iguaçu.
dois anos, o Sarau, que ocorria
mensalmente, fomentou e movimentou
uma nova geração de leitoras, de
escritoras, de poetas, de atrizes
fazedoras culturais, promovendo um
contrafluxo da juventude na cidade. O
V, como era carinhosamente chamado
por suas frequentadoras, buscava
chamar a atenção de certos grupos de
jovens de que não era necessário
deslocar-
se da periferia para o centro
la envolve uma reflexividade crítica da
pesquisadora para um fenômeno global que
sempre adquire valores, sentidos e usos
locais.
LOPES, Adriana C.; TAVARES, Janaina. "Os saraus são as bibliotecas
sonoras as periferias": uma narrativa sobre letramentos e o direito à
Americana de Estudos em Cultura,
, março 2021.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
(Dossiê "Tramas entre cultura e educação")
o movimento da escrita quando esta
passa a ser uma tecnologia central na
organização das práticas de pessoas
que habitam as periferias brasileiras
locais que, hegemonicamente, são
imaginados como territórios marcados
pela “carência”, pela “falta” de cultu
ra,
pela “ausência” de educação e pelo
iletramento. Tendo, então, essa
reflexão em mente é que
trazemos a
nossa dupla experiência no Sarau V.
No ano de 2013, Janaína
primeiro sarau
de artes integradas (audiovisual,
ica etc.) que
debateu política, direito à cidade,
cultura e direitos humanos, em uma
praça pública de Nova Iguaçu.
Durante
dois anos, o Sarau, que ocorria
mensalmente, fomentou e movimentou
uma nova geração de leitoras, de
escritoras, de poetas, de atrizes
e de
fazedoras culturais, promovendo um
contrafluxo da juventude na cidade. O
V, como era carinhosamente chamado
por suas frequentadoras, buscava
chamar a atenção de certos grupos de
jovens de que não era necessário
se da periferia para o centro
la envolve uma reflexividade crítica da
pesquisadora para um fenômeno global que
sempre adquire valores, sentidos e usos
em busca de diversão e de cultura
(nesse caso, sair da região da Baixada
Fluminense em direção à cidade do
Rio de Janeiro). Aliás, podemos
observar um movimento contrário:
várias vezes
o V contou com a
presença de jovens habitantes de
áreas centrais da cid
Janeiro, não apenas como convidados
especiais para debater sobre alguma
temática, mas também como
expectadoras que ali estavam para
ouvirem o que a Baixada produz e tem
a dizer. O Sarau V,durante seus dois
anos de existência, estimulou a idei
de produção e de consumo de cultura
dentro do próprio território, conectando
pessoas de diversos locais com
a
quelas que escrevem e são escritas
na/pela periferia.
Vale lembrar que “centro” e
“periferia” não são conceitos
essenciais, termos que apenas
r
efletem ou descrevem, de forma
neutra, os espaços físicos e urbanos
das cidades. Em diálogo com os
estudos da linguagem, Silva (2019), ao
teorizar sobre os letramentos em
periferias brasileiras, destaca como
periferia é um conceito escalar, ou
seja, são p
rojeções simbólicas
construídas por processos formais de
55
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
- ISSN 2237-1508
(Dossiê "Tramas entre cultura e educação")
em busca de diversão e de cultura
(nesse caso, sair da região da Baixada
Fluminense em direção à cidade do
Rio de Janeiro). Aliás, podemos
observar um movimento contrário:
o V contou com a
presença de jovens habitantes de
áreas centrais da cid
ade do Rio de
Janeiro, não apenas como convidados
especiais para debater sobre alguma
temática, mas também como
expectadoras que ali estavam para
ouvirem o que a Baixada produz e tem
a dizer. O Sarau V,durante seus dois
anos de existência, estimulou a idei
a
de produção e de consumo de cultura
dentro do próprio território, conectando
pessoas de diversos locais com
quelas que escrevem e são escritas
Vale lembrar que “centro” e
“periferia” não são conceitos
essenciais, termos que apenas
efletem ou descrevem, de forma
neutra, os espaços físicos e urbanos
das cidades. Em diálogo com os
estudos da linguagem, Silva (2019), ao
teorizar sobre os letramentos em
periferias brasileiras, destaca como
periferia é um conceito escalar, ou
rojeções simbólicas
construídas por processos formais de
LOPES, Adriana C.; TAVARES, Janaina. "Os saraus são as bibliotecas
sonoras as periferias": uma narrativa sobre letramentos e o direito à
cidade. PragMATIZES - Revista Latino-
Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 11, n. 20, p. 51-68
, março 2021.
significação e de distinção social. Vale
lembrar que o conceito de escala,
oriundo da geografia, relaciona
as formas de organização espaço
temporal da experiência humana e
que, nos últimos ano
s, foi apropriado
por diversos campos do saber. Desse
modo, em consonância com debates
da sociolinguística da globalização e
da antropologia linguística (
2019),
entendemos que definir
e a “periferia” como escala
que as circunscriç
ões desses espaços
sociais são
perspectivas (
LEMPERT, 2016)
interessadas e investidas por relações
de poder e por disputas institucionais
que definem as formas de segmentar,
de separar, de territorializar e de dizer,
logo de circular e de
viver na cidade.
Nas palavras de Silva, (2019, p.17)
A organização de uma escala sobre
esse espaço confere a ele
relevância, em condições e lutas
institucionais específicas. Escalas
são úteis para nos lembrar que
diferenças são acompanhadas de
hierarquias e disputas pelo poder
encaixadas na ação de
contextualizar.
Nesse sentido, vale lembrar o
trabalho etnográfico de É
rica Peçanha
do Nascimento sobre um dos primeiros
saraus na periferia da cidade de São
Paulo, o Sarau da Cooperifa,
LOPES, Adriana C.; TAVARES, Janaina. "Os saraus são as bibliotecas
sonoras as periferias": uma narrativa sobre letramentos e o direito à
Americana de Estudos em Cultura,
, março 2021.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
(Dossiê "Tramas entre cultura e educação")
significação e de distinção social. Vale
lembrar que o conceito de escala,
oriundo da geografia, relaciona
-se com
as formas de organização espaço
-
temporal da experiência humana e
s, foi apropriado
por diversos campos do saber. Desse
modo, em consonância com debates
da sociolinguística da globalização e
da antropologia linguística (
SILVA,
entendemos que definir
“centro”
e a “periferia” como escala
é assumir
ões desses espaços
perspectivas (
CARR;
socialmente
interessadas e investidas por relações
de poder e por disputas institucionais
que definem as formas de segmentar,
de separar, de territorializar e de dizer,
viver na cidade.
Nas palavras de Silva, (2019, p.17)
A organização de uma escala sobre
esse espaço confere a ele
relevância, em condições e lutas
institucionais específicas. Escalas
são úteis para nos lembrar que
diferenças são acompanhadas de
hierarquias e disputas pelo poder
encaixadas na ação de
Nesse sentido, vale lembrar o
rica Peçanha
do Nascimento sobre um dos primeiros
saraus na periferia da cidade de São
Paulo, o Sarau da Cooperifa,
idealizado e organizado pelo artista e
poeta Sergio Vaz. A autora argumenta
que a cultura de periferia não é algo
dado, mas é
produzida por ativistas e
artistas por meio da
junção de modos
de vida, de comportamentos coletivos,
de valores, de práticas, de linguagens
e de vestimentas dos membros das
classes populares situados nos b
ditos periféricos.Desse modo, essa
cultura fez emergir “novos sujeitos
políticos” que publicizam discursos,
demandas e práticas coletivas que
estão relacionadas às esferas de
produção e de consumo cultural.
Nesse movimento, novos sujeitos
aparecem n
a cena, tomam a palavra e
a periferia é (res)significada. Segundo
Nascimento (2011, p.11),
Favelados, periféricos, suburbanos,
marginais e marginalizados, que
sempre foram tema ou inspiração de
criações artísticas, passam de
objetos a sujeitos e esforçam
transformar suas próprias
experiências em linguagem
específica. E tudo aquilo que um dia
faltou
acesso, infraestrutura, bens,
técnica, dentre outros
matéria-
prima para a estética que
está sendo edificada.
Podemos compreender,
portant
o, que nessa cultura periférica,
a projeção escalar centro
questionada.
De acordo com
Lempert (2016), modelos escalares
56
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
- ISSN 2237-1508
(Dossiê "Tramas entre cultura e educação")
idealizado e organizado pelo artista e
poeta Sergio Vaz. A autora argumenta
que a cultura de periferia não é algo
produzida por ativistas e
junção de modos
de vida, de comportamentos coletivos,
de valores, de práticas, de linguagens
e de vestimentas dos membros das
classes populares situados nos b
airros
ditos periféricos.Desse modo, essa
cultura fez emergir “novos sujeitos
políticos” que publicizam discursos,
demandas e práticas coletivas que
estão relacionadas às esferas de
produção e de consumo cultural.
Nesse movimento, novos sujeitos
a cena, tomam a palavra e
a periferia é (res)significada. Segundo
Nascimento (2011, p.11),
Favelados, periféricos, suburbanos,
marginais e marginalizados, que
sempre foram tema ou inspiração de
criações artísticas, passam de
objetos a sujeitos e esforçam
-se para
transformar suas próprias
experiências em linguagem
específica. E tudo aquilo que um dia
acesso, infraestrutura, bens,
técnica, dentre outros
torna-se
prima para a estética que
está sendo edificada.
Podemos compreender,
o, que nessa cultura periférica,
a projeção escalar centro
-periferia é
De acordo com
Carr e
Lempert (2016), modelos escalares
LOPES, Adriana C.; TAVARES, Janaina. "Os saraus são as bibliotecas
sonoras as periferias": uma narrativa sobre letramentos e o direito à
cidade. PragMATIZES - Revista Latino-
Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 11, n. 20, p. 51-68
, março 2021.
que são altamente naturalizados, ou
seja, um apagamento de sua
perspectiva sócio-
histórica, como se
fossem vind
os de “lugar nenhum”, um
modelo objetivo de descrição dos
espaços. Nesse sentido, uma região
densamente povoada e diversa
a Baixada Fluminense
(onde vivem
mais de dezesseis milhões de
pessoas, distribuídas em nove
municípios)
é, como diria a escritora
Chimamanda
Adichie (2010), vítima de
uma “história única”, pois essa é
naturalizada nos discursos somente
como um lugar homogêneo e carente
de tudo (de saneamento, de esgoto,
de cultura, de educação etc.) e,
extremante, “temida pelo seu excesso
de violência
, simbolizada nas imagens
de grupos de extermínio e seus
assassinos sanguinários” (HERALDO
HB, 2013, p.13).No entanto, como
veremos nas escritas/bastidores de
Janaina Tavares, tal projeção escalar
é questionada, uma vez que a Baixada
Fluminense transforma-
se em periferia
recontextualizada, ou melhor, periferia
reterritorializada (GUATARRI;
ROLNIK, 2010)
como local de
habitação, de afirmação de
identidades e de abundância de
culturas e de letramentos, afetando,
LOPES, Adriana C.; TAVARES, Janaina. "Os saraus são as bibliotecas
sonoras as periferias": uma narrativa sobre letramentos e o direito à
Americana de Estudos em Cultura,
, março 2021.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
(Dossiê "Tramas entre cultura e educação")
que são altamente naturalizados, ou
seja, um apagamento de sua
histórica, como se
os de “lugar nenhum”, um
modelo objetivo de descrição dos
espaços. Nesse sentido, uma região
densamente povoada e diversa
como
(onde vivem
mais de dezesseis milhões de
pessoas, distribuídas em nove
é, como diria a escritora
Adichie (2010), vítima de
uma “história única”, pois essa é
naturalizada nos discursos somente
como um lugar homogêneo e carente
de tudo (de saneamento, de esgoto,
de cultura, de educação etc.) e,
extremante, “temida pelo seu excesso
, simbolizada nas imagens
de grupos de extermínio e seus
assassinos sanguinários” (HERALDO
HB, 2013, p.13).No entanto, como
veremos nas escritas/bastidores de
Janaina Tavares, tal projeção escalar
é questionada, uma vez que a Baixada
se em periferia
recontextualizada, ou melhor, periferia
reterritorializada (GUATARRI;
como local de
habitação, de afirmação de
identidades e de abundância de
culturas e de letramentos, afetando,
assim, a maneira como as juventudes
experienc
iam o território e circulam
nas cidades. Passemos, então, para
as cartas, escritas/cenas do Sarau V.
Escritas-
cena: cartas de memória
Foram dois anos e mais de vinte
edições na rua.“Primeiro Beijo”,
“Projetando o nosso amor”,“Rua,
substantivo feminino”,
território”, “Pixo, logo existo”, “Alma
versada”, “Quadrilha de ideias” e
“Brincadeira é coisa séria” são os
títulos de sete cartas endereçadas à
rua que narram algumas edições. O
escritor e ativista Eduardo Galeano
(2001) disse, “a memória guard
que valer a pena. A memória sabe de
mim mais do que eu; e ela não perde o
que merece ser salvo”. As edições
narradas
guardam o que mais valeu a
pena e foram, afetuosamente,
recontextualizada
sem fotos e cartas
escritas por uma das autoras deste
texto e MC
7
do Sarau,
Tavares.
7
Abreviação para Mestre de Cerimônia; uma
abreviação que tem origem na cultura hip
para designar o rapper que canta
é utilizada também para nomear aqueles que
apresentam o Sarau.
57
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
- ISSN 2237-1508
(Dossiê "Tramas entre cultura e educação")
assim, a maneira como as juventudes
iam o território e circulam
nas cidades. Passemos, então, para
as cartas, escritas/cenas do Sarau V.
cena: cartas de memória
Foram dois anos e mais de vinte
edições na rua.“Primeiro Beijo”,
“Projetando o nosso amor”,“Rua,
substantivo feminino”,
“Ação no
território”, “Pixo, logo existo”, “Alma
versada”, “Quadrilha de ideias” e
“Brincadeira é coisa séria” são os
títulos de sete cartas endereçadas à
rua que narram algumas edições. O
escritor e ativista Eduardo Galeano
(2001) disse, “a memória guard
ará o
que valer a pena. A memória sabe de
mim mais do que eu; e ela não perde o
que merece ser salvo”. As edições
guardam o que mais valeu a
pena e foram, afetuosamente,
sem fotos e cartas
escritas por uma das autoras deste
do Sarau,
Janaina
Abreviação para Mestre de Cerimônia; uma
abreviação que tem origem na cultura hip
-hop
para designar o rapper que canta
as músicas;
é utilizada também para nomear aqueles que