MACHADO, Maria Cláudia de J.; YOKOTA, Rosa. Geopolítica, identidade
cultural e a língua espanhola no contexto brasileiro
Revista Latino-
Americana de Estudos em Cultura,
20, p. 386-405, março 2021.
Geopolítica, identidade cultural e a língua espanhola no contexto brasileiro
DOI:
https://doi.org/10.22409/pragmatizes.v11i20.
Resumo: Neste trabalho,busca-
se refletir sobre a relação entre questões geopolíticas e identitárias e
a língua espanhola no contexto brasileiro, bem como mostrar como o entrelaçamento destes
elementos pode ser tratado nasala de aula sob uma perspectiva int
língua, fomentar o conhecimento de história da América Ibérica e promover a aproximação do aluno
brasileiro ao universo dos povos vizinhos.Para tanto, apoiamo
associamos às relações de pod
atribuído às línguas. Defendemos que a abordagem destes componentes na sala de aula sensibiliza
o aluno e o faz entender que o estudo de uma língua estrangeira deve transcender ideologias e
contr
ibuir para aproximar culturas,olhar para o mundo sob diferentes perspectivas e evoluir como ser
humano.
Palavras-chave:
Geopolítica; identidade cultural;
Geopolítica, identidad cultural y la lengua
Resumen:
En este trabajo, buscamos reflexionar sobre la relación entre las cuestiones geopolíticas e
identitarias y la lengua española en el contexto brasileño, además de mostrar como el
entrelazamiento de estos elementos
intercultural con el objetivo de enseñar. el idioma, fomentar el conocimiento de la historia de
Iberoamérica y promover el acercamiento del estudiante brasileño al universo de los pueblos vecinos.
Para
para mostrar cómo influyen en el grado de importancia atribuido a las lenguas. Argumentamos que el
abordaje de estos componentes en el aula sensibiliza al alumno y
de una lengua extranjera debe trascender las ideologías y contribuir a acercar las culturas, mirar el
mundo desde diferentes perspectivas y evolucionar como ser humano.
Palabras clave:
Geopolítica; identidad cultural; com
1
Maria Cláudia de Jesus Machado. Doutoranda em Letras pela Universidade Federal de São Carlos,
Brasil. E-
mail: afamariaclaudia@outlook.com
2
Rosa Yokota. Doutora em Letras. Professora da Universidade Federal de São Carlos, Brasil. E
rosayokota@yahoo.com -
https://orcid.org/0000
Texto recebido em 05/10/20
20,
MACHADO, Maria Cláudia de J.; YOKOTA, Rosa. Geopolítica, identidade
cultural e a língua espanhola no contexto brasileiro
. PragMATIZES -
Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 11, n.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
Geopolítica, identidade cultural e a língua espanhola no contexto brasileiro
https://doi.org/10.22409/pragmatizes.v11i20.
46446
Maria Cláudia de Jesus Machado
se refletir sobre a relação entre questões geopolíticas e identitárias e
a língua espanhola no contexto brasileiro, bem como mostrar como o entrelaçamento destes
elementos pode ser tratado nasala de aula sob uma perspectiva int
ercultural objetivando ensinar a
língua, fomentar o conhecimento de história da América Ibérica e promover a aproximação do aluno
brasileiro ao universo dos povos vizinhos.Para tanto, apoiamo
-
nos no conceito de geopolítica e o
associamos às relações de pod
er para mostrar como estas influenciam o grau de importância
atribuído às línguas. Defendemos que a abordagem destes componentes na sala de aula sensibiliza
o aluno e o faz entender que o estudo de uma língua estrangeira deve transcender ideologias e
ibuir para aproximar culturas,olhar para o mundo sob diferentes perspectivas e evoluir como ser
Geopolítica; identidade cultural;
comunicação intercultural; l
íngua espanhola; Brasil.
Geopolítica, identidad cultural y la lengua
española en el contexto brasileño
En este trabajo, buscamos reflexionar sobre la relación entre las cuestiones geopolíticas e
identitarias y la lengua española en el contexto brasileño, además de mostrar como el
entrelazamiento de estos elementos
pueden ser tratados en el aula desde una perspectiva
intercultural con el objetivo de enseñar. el idioma, fomentar el conocimiento de la historia de
Iberoamérica y promover el acercamiento del estudiante brasileño al universo de los pueblos vecinos.
ello, nos apoyamos en el concepto de geopolítica y lo asociamos con las relaciones de poder
para mostrar cómo influyen en el grado de importancia atribuido a las lenguas. Argumentamos que el
abordaje de estos componentes en el aula sensibiliza al alumno y
le hace comprender que el estudio
de una lengua extranjera debe trascender las ideologías y contribuir a acercar las culturas, mirar el
mundo desde diferentes perspectivas y evolucionar como ser humano.
Geopolítica; identidad cultural; com
unicación intercultural; lengua española; Brasil.
Maria Cláudia de Jesus Machado. Doutoranda em Letras pela Universidade Federal de São Carlos,
mail: afamariaclaudia@outlook.com
- https://orcid.org/0000-0002-3220-
4732
Rosa Yokota. Doutora em Letras. Professora da Universidade Federal de São Carlos, Brasil. E
https://orcid.org/0000
-0002-1672-1430
20,
aceito para pu
blicação em 24/11/2020 e disponibilizado online
em 01/03/2021.
386
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
- ISSN 2237-1508
(Ensaio)
Geopolítica, identidade cultural e a língua espanhola no contexto brasileiro
Maria Cláudia de Jesus Machado
1
Rosa Yokota
2
se refletir sobre a relação entre questões geopolíticas e identitárias e
a língua espanhola no contexto brasileiro, bem como mostrar como o entrelaçamento destes
ercultural objetivando ensinar a
língua, fomentar o conhecimento de história da América Ibérica e promover a aproximação do aluno
nos no conceito de geopolítica e o
er para mostrar como estas influenciam o grau de importância
atribuído às línguas. Defendemos que a abordagem destes componentes na sala de aula sensibiliza
o aluno e o faz entender que o estudo de uma língua estrangeira deve transcender ideologias e
ibuir para aproximar culturas,olhar para o mundo sob diferentes perspectivas e evoluir como ser
íngua espanhola; Brasil.
española en el contexto brasileño
En este trabajo, buscamos reflexionar sobre la relación entre las cuestiones geopolíticas e
identitarias y la lengua española en el contexto brasileño, además de mostrar como el
pueden ser tratados en el aula desde una perspectiva
intercultural con el objetivo de enseñar. el idioma, fomentar el conocimiento de la historia de
Iberoamérica y promover el acercamiento del estudiante brasileño al universo de los pueblos vecinos.
ello, nos apoyamos en el concepto de geopolítica y lo asociamos con las relaciones de poder
para mostrar cómo influyen en el grado de importancia atribuido a las lenguas. Argumentamos que el
le hace comprender que el estudio
de una lengua extranjera debe trascender las ideologías y contribuir a acercar las culturas, mirar el
unicación intercultural; lengua española; Brasil.
Maria Cláudia de Jesus Machado. Doutoranda em Letras pela Universidade Federal de São Carlos,
4732
Rosa Yokota. Doutora em Letras. Professora da Universidade Federal de São Carlos, Brasil. E
-mail:
blicação em 24/11/2020 e disponibilizado online
MACHADO, Maria Cláudia de J.; YOKOTA, Rosa. Geopolítica, identidade
cultural e a língua espanhola no contexto brasileiro
Revista Latino-
Americana de Estudos em Cultura,
20, p. 386-405, março 2021.
Geopolitics, cultural identity and the Spanish language in the Brazilian context
Abstract:
This paper seeks to reflect on the relationship between geopolitical and identity issues and
the Spanish language
in the Brazilian context, as well as to showhow the intertwining of these
elements can be treated in the Spanish language class from an intercultural perspective aiming, at the
same time, to teach the language, foster the knowledge of the history of Iberi
the approximation of the Brazilian student to the universe of neighboring peoples. To this end, we rely
on the concept of geopolitics and associate it with power relations to show how they influence the
degree of importance attribute
d to languages. We argue that the approach of these components in the
classroom sensitizes the student and makes him understand that the study of a foreign language must
transcend ideologies and contribute to bringing cultures together, looking at the worl
perspectives and evolving as a human being.
Keywords:
Geopolitics; cultural identity; intercultural communication; Spanish language; Brazil.
Geopolítica, identidade cultural e a língua espanhola no contexto brasileiro
Introdução
No presente trabalho
destacar o entrelaçamento entre
questões geopolíticas, identitárias e a
presença da língua espanhola no
contexto brasileiro, uma vez que tanto
o Brasil quanto os países hispano
falantes foram colonizados por povos
ibéricos e compartilham, em muito
aspectos, características adquiridas ao
longo e após o processo de
colonização. No que tange ao ensino
de língua estrangeira no contexto
brasileiro, as questões geopolíticas e
identitárias acabam interferindo no
grau de importância atribuído às
línguas e
na sua escolha para compor
a grade curricular dos cursos nas
instituições de ensino. Desse modo, a
escolha o gira em torno apenas do
MACHADO, Maria Cláudia de J.; YOKOTA, Rosa. Geopolítica, identidade
cultural e a língua espanhola no contexto brasileiro
. PragMATIZES -
Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 11, n.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
Geopolitics, cultural identity and the Spanish language in the Brazilian context
This paper seeks to reflect on the relationship between geopolitical and identity issues and
in the Brazilian context, as well as to showhow the intertwining of these
elements can be treated in the Spanish language class from an intercultural perspective aiming, at the
same time, to teach the language, foster the knowledge of the history of Iberi
an America and promote
the approximation of the Brazilian student to the universe of neighboring peoples. To this end, we rely
on the concept of geopolitics and associate it with power relations to show how they influence the
d to languages. We argue that the approach of these components in the
classroom sensitizes the student and makes him understand that the study of a foreign language must
transcend ideologies and contribute to bringing cultures together, looking at the worl
perspectives and evolving as a human being.
Geopolitics; cultural identity; intercultural communication; Spanish language; Brazil.
Geopolítica, identidade cultural e a língua espanhola no contexto brasileiro
No presente trabalho
buscamos
destacar o entrelaçamento entre
questões geopolíticas, identitárias e a
presença da língua espanhola no
contexto brasileiro, uma vez que tanto
o Brasil quanto os países hispano
-
falantes foram colonizados por povos
ibéricos e compartilham, em muito
s
aspectos, características adquiridas ao
longo e após o processo de
colonização. No que tange ao ensino
de língua estrangeira no contexto
brasileiro, as questões geopolíticas e
identitárias acabam interferindo no
grau de importância atribuído às
na sua escolha para compor
a grade curricular dos cursos nas
instituições de ensino. Desse modo, a
escolha o gira em torno apenas do
fator instrumental, ou seja, de sua
finalidade comunicativa.
Iniciamos este trabalho
abordando
alguns fatores
geopolítico, histórico e social
compartilhados que acabaram
incutindo
nos povos ibero
traços culturais comuns ou, até
mesmo, uma tênue confluência de
identidades, visto que, apesar da
proximidade geográfica, social e
histórica, nota-
se que a re
está plenamente integrada, unida,
interdependente, com convergência de
interesses e objetivos, e confiança
recíproca. Posteriormente, vinculado
às questões identitárias, tratamos as
representações socioculturais do outro
e propomos o diálogo inter
como forma de aproximação entre o
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- ISSN 2237-1508
(Ensaio)
Geopolitics, cultural identity and the Spanish language in the Brazilian context
This paper seeks to reflect on the relationship between geopolitical and identity issues and
in the Brazilian context, as well as to showhow the intertwining of these
elements can be treated in the Spanish language class from an intercultural perspective aiming, at the
an America and promote
the approximation of the Brazilian student to the universe of neighboring peoples. To this end, we rely
on the concept of geopolitics and associate it with power relations to show how they influence the
d to languages. We argue that the approach of these components in the
classroom sensitizes the student and makes him understand that the study of a foreign language must
transcend ideologies and contribute to bringing cultures together, looking at the worl
d from different
Geopolitics; cultural identity; intercultural communication; Spanish language; Brazil.
Geopolítica, identidade cultural e a língua espanhola no contexto brasileiro
fator instrumental, ou seja, de sua
finalidade comunicativa.
Iniciamos este trabalho
alguns fatores
de caráter
geopolítico, histórico e social
compartilhados que acabaram
nos povos ibero
-americanos
traços culturais comuns ou, até
mesmo, uma tênue confluência de
identidades, visto que, apesar da
proximidade geográfica, social e
se que a re
gião não
está plenamente integrada, unida,
interdependente, com convergência de
interesses e objetivos, e confiança
recíproca. Posteriormente, vinculado
às questões identitárias, tratamos as
representações socioculturais do outro
e propomos o diálogo inter
cultural
como forma de aproximação entre o
MACHADO, Maria Cláudia de J.; YOKOTA, Rosa. Geopolítica, identidade
cultural e a língua espanhola no contexto brasileiro
Revista Latino-
Americana de Estudos em Cultura,
20, p. 386-405, março 2021.
Brasil e os povos hispano-
americanos.
Finalizamos com uma proposta para a
aula de língua espanhola baseada em
conteúdos históricos, geográficos,
políticos e culturais relacionados ao
contexto sul-
americano, e em u
abordagem intercultural.
Entendemos
que não é possível dissociar o espaço
da sala de aula de língua estrangeira
do espaço sociopolítico externo, dado
que ela própria se converte em um
espaço sociopolítico.
Um professor de ngua
espanhola que tenha
ciência da função
política do ensino desta ngua no
Brasil e de que este tem relação com a
formação para a cidadania, que seja
sensível à abordagem intercultural e
que tenha conhecimento das culturas
que compõem a América Ibérica, de
sua história, de sua
geografia e,
inclusive, de sua literatura,tanto
hispano-
americana quanto brasileira,
visto que muitas de suas obras
a compreender aspectos históricos e
sociais que envolvem essa
região,poderá, ao mesmo tempo,
ensinar a língua, fomentar o
conheciment
o de história e promover a
aproximação do aluno brasileiro
realidade dos povos vizinhos.
fazemos menção à história, referimo
MACHADO, Maria Cláudia de J.; YOKOTA, Rosa. Geopolítica, identidade
cultural e a língua espanhola no contexto brasileiro
. PragMATIZES -
Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 11, n.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
americanos.
Finalizamos com uma proposta para a
aula de língua espanhola baseada em
conteúdos históricos, geográficos,
políticos e culturais relacionados ao
americano, e em u
ma
Entendemos
que não é possível dissociar o espaço
da sala de aula de língua estrangeira
do espaço sociopolítico externo, dado
que ela própria se converte em um
Um professor de ngua
ciência da função
política do ensino desta ngua no
Brasil e de que este tem relação com a
formação para a cidadania, que seja
sensível à abordagem intercultural e
que tenha conhecimento das culturas
que compõem a América Ibérica, de
geografia e,
inclusive, de sua literatura,tanto
americana quanto brasileira,
visto que muitas de suas obras
ajudam
a compreender aspectos históricos e
sociais que envolvem essa
região,poderá, ao mesmo tempo,
ensinar a língua, fomentar o
o de história e promover a
aproximação do aluno brasileiro
à
realidade dos povos vizinhos.
Quando
fazemos menção à história, referimo
-
nos a toda a trajetória desde a
presença das civilizações pré
colombianas no território, passando
pelo encontro dos coloni
os nativos e os choques culturais dele
derivados, pela formação da
sociedade latino-
americana, pelas
guerras de independência e suas
motivações, pela intervenção
estrangeira, e por quaisquer fatos de
ordem política, econômica e social que
marca
ram e marcam essa trajetória e
contribuíram e contribuem para a
formação da nossa identidade ou
identidades latino-
americanas.
Destacamos que o professor
como interculturalista colabora com a
construção de pontes que o acesso
à cultura do outro. Segundo
(2018, p. 21) “a perspectiva
intercultural pressupõe uma série de
ações em prol do reconhecimento da
diversidade que nos constitui e do
combate a atitudes de discriminação
para com o outro”.
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- ISSN 2237-1508
(Ensaio)
nos a toda a trajetória desde a
presença das civilizações pré
-
colombianas no território, passando
pelo encontro dos coloni
zadores com
os nativos e os choques culturais dele
derivados, pela formação da
americana, pelas
guerras de independência e suas
motivações, pela intervenção
estrangeira, e por quaisquer fatos de
ordem política, econômica e social que
ram e marcam essa trajetória e
contribuíram e contribuem para a
formação da nossa identidade ou
americanas.
Destacamos que o professor
como interculturalista colabora com a
construção de pontes que o acesso
à cultura do outro. Segundo
Matos
(2018, p. 21) “a perspectiva
intercultural pressupõe uma série de
ações em prol do reconhecimento da
diversidade que nos constitui e do
combate a atitudes de discriminação
MACHADO, Maria Cláudia de J.; YOKOTA, Rosa. Geopolítica, identidade
cultural e a língua espanhola no contexto brasileiro
Revista Latino-
Americana de Estudos em Cultura,
20, p. 386-405, março 2021.
Aspectos geopolíticos, sociais e
históricos da América
Ibérica e as
relações de poder
Com o intuito de apresentar o
entrelaçamento entre questões
linguísticas, geopolíticas e de poder,
iniciamos
com o conceito de
Geopolítica, pois a palavra está
associada aos assuntos que envolvem
relações internacionais, aco
diplomáticos e todo tipo de conflito
entre países, culturas ou disputas
territoriais.O conceito formulado por
Mattos (2002, p. 33) resume o
pensamento: “Geopolítica é a Política
aplicada aos espaços geográficos sob
a inspiração da experiência históric
A Geopolítica tem caráter
dinâmico, pois considera
operacionalidade do homem no
espaço geográfico para o seu uso
político, cujo objetivo é a geração de
poder, que, por sua vez, pode dar um
novo direcionamento ao destino das
nações, contribuindo pa
construção ou reconstrução da
história.Portanto,a exploração do
espaço geográfico é a base de
sustentação da geopolítica, uma vez
que esta resulta da interação da
geografia, da história e da política, e
está relacionada ao poder do Estado.
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cultural e a língua espanhola no contexto brasileiro
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Niterói/RJ, Ano 11, n.
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Aspectos geopolíticos, sociais e
Ibérica e as
Com o intuito de apresentar o
entrelaçamento entre questões
linguísticas, geopolíticas e de poder,
com o conceito de
Geopolítica, pois a palavra está
associada aos assuntos que envolvem
relações internacionais, aco
rdos
diplomáticos e todo tipo de conflito
entre países, culturas ou disputas
territoriais.O conceito formulado por
Mattos (2002, p. 33) resume o
pensamento: “Geopolítica é a Política
aplicada aos espaços geográficos sob
a inspiração da experiência históric
a”.
A Geopolítica tem caráter
dinâmico, pois considera
-se a
operacionalidade do homem no
espaço geográfico para o seu uso
político, cujo objetivo é a geração de
poder, que, por sua vez, pode dar um
novo direcionamento ao destino das
nações, contribuindo pa
ra a
construção ou reconstrução da
história.Portanto,a exploração do
espaço geográfico é a base de
sustentação da geopolítica, uma vez
que esta resulta da interação da
geografia, da história e da política, e
está relacionada ao poder do Estado.
Se fizermos
um percurso pela
história, veremos que ela
inteiramente marcada pela apoderação
de espaços que foram transformados
pela ação de conquistadores. É
preciso notar que o fato de delimitar
parcelas, de marcá
também envolve a questão da
alte
ridade, ou seja, as relações com os
indivíduos ou grupos que se
inserem. Essa interação modifica tanto
as relações com a natureza quanto as
relações sociais, e os atores se
automodificam também.
territorialidade também funciona como
um instrumento par
a comunicar um
ideário: a preservação ou
de uma identidade.
Após a chegada dos povos
ibéricos no continente americano,
iniciou-
se uma reconfiguração
geopolítica, pois os tratados de divisão
da América, como o de Tordesilhas
(Figura 1), demarca
ram as fronteiras
entre terras espanholas e portuguesas.
389
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
- ISSN 2237-1508
(Ensaio)
um percurso pela
história, veremos que ela
está
inteiramente marcada pela apoderação
de espaços que foram transformados
pela ação de conquistadores. É
preciso notar que o fato de delimitar
parcelas, de marcá
-las, cercá-las
também envolve a questão da
ridade, ou seja, as relações com os
indivíduos ou grupos que se
inserem. Essa interação modifica tanto
as relações com a natureza quanto as
relações sociais, e os atores se
automodificam também.
A
territorialidade também funciona como
a comunicar um
ideário: a preservação ou
a construção
Após a chegada dos povos
ibéricos no continente americano,
se uma reconfiguração
geopolítica, pois os tratados de divisão
da América, como o de Tordesilhas
ram as fronteiras
entre terras espanholas e portuguesas.
MACHADO, Maria Cláudia de J.; YOKOTA, Rosa. Geopolítica, identidade
cultural e a língua espanhola no contexto brasileiro
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20, p. 386-405, março 2021.
Figura 1.Mapa do Tratado de Tordesilhas
Fonte:
https://commons.wikimedia.org/wiki/File:
Spain_and_Portugal.png
Os
espanhóis criaram um
império que se estendia desde o sul
que é atualmente Estados Unidos a
a Terra do Fogo. Invadiram e
colonizaram territórios extensos,
fundaram cidades, dividiram terras,
construíram vias de comunicação,
pontes e portos; desenvolver
agricultura, a produção de
manufaturas e o comércio e
exploraram os recursos minerais;
mataram e subjugaram
originários sobreviventes e importaram
escravos africanos (QUESADA, 2001).
Houve a divisão tripartida a serviço do
poder: a população,
o território e os
recursos, o que não foi diferente no
Brasil, considerando que o poder é
inerente a toda relação.
Após o processo de
independência, houve mudanças
significativas na reconfiguração
geopolítica do território ibero
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cultural e a língua espanhola no contexto brasileiro
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Figura 1.Mapa do Tratado de Tordesilhas
https://commons.wikimedia.org/wiki/File:
Spain_and_Portugal.png
espanhóis criaram um
império que se estendia desde o sul
do
que é atualmente Estados Unidos a
a Terra do Fogo. Invadiram e
colonizaram territórios extensos,
fundaram cidades, dividiram terras,
construíram vias de comunicação,
pontes e portos; desenvolver
am a
agricultura, a produção de
manufaturas e o comércio e
exploraram os recursos minerais;
os povos
originários sobreviventes e importaram
escravos africanos (QUESADA, 2001).
Houve a divisão tripartida a serviço do
o território e os
recursos, o que não foi diferente no
Brasil, considerando que o poder é
Após o processo de
independência, houve mudanças
significativas na reconfiguração
geopolítica do território ibero
-
americano: os vice
divididos, tornaram
-
adotaram o sistema republicano de
governo, ao contrário do Brasil que,
após sua independência em 1822,
manteve a sua unidade e adotou a
monarquia constitucional (Figura 2 e
Figura 3).
Figura 2.
Mapa da América Ibéri
independência
Fonte:
commons.wikimedia.org/wiki/File:
añol_America_1800.png
390
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(Ensaio)
americano: os vice
-reinos foram
-
se Estados e
adotaram o sistema republicano de
governo, ao contrário do Brasil que,
após sua independência em 1822,
manteve a sua unidade e adotou a
monarquia constitucional (Figura 2 e
Mapa da América Ibéri
ca antes da
independência
Fonte:
commons.wikimedia.org/wiki/File:
Imperio_Esp
añol_America_1800.png
MACHADO, Maria Cláudia de J.; YOKOTA, Rosa. Geopolítica, identidade
cultural e a língua espanhola no contexto brasileiro
Revista Latino-
Americana de Estudos em Cultura,
20, p. 386-405, março 2021.
Figura 3.
Mapa da América Ibérica
após a independência
Fonte:
openei.org/wiki/File:Mapa_de_Centros_
ergías_Renovables_en_Latinoamérica.png
A
independência da América
Hispânica
e da América Portuguesa,
por um lado, favoreceu
financeiramente e politicamente a
aristocracia e não contribuiu para a
diminuição das desigualdades e
injustiças sociais. As aspirações
regionalistas não tardaram em
promove
r a desagregação da grande
nação.
Os países hispano-
americanos,
cuja história se parece muito à
brasileira, compartilham aspectos
como a conquista, a colonização, o
intervencionismo estrangeiro, os
regimes políticos, a luta pelo
desenvolvimento, a proximi
geográfica e a abundância de recursos
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Mapa da América Ibérica
após a independência
openei.org/wiki/File:Mapa_de_Centros_
de_En
ergías_Renovables_en_Latinoamérica.png
independência da América
e da América Portuguesa,
por um lado, favoreceu
financeiramente e politicamente a
aristocracia e não contribuiu para a
diminuição das desigualdades e
injustiças sociais. As aspirações
regionalistas não tardaram em
r a desagregação da grande
americanos,
cuja história se parece muito à
brasileira, compartilham aspectos
como a conquista, a colonização, o
intervencionismo estrangeiro, os
regimes políticos, a luta pelo
desenvolvimento, a proximi
dade
geográfica e a abundância de recursos
naturais. No entanto, muito tempo se
passou desde a independência e o
ideal de uma aproximação de fato
entre ambas as partes
concretizou. O distanciamento que se
produziu entre o Brasil e os demais
pa
íses da América do Sul desde a
época colonial, resultante das
demarcações territoriais, da diferença
entre as línguas maternas, entre
outros fatores, pode ter contribuído
para a crença em identidades
divergentes. A América Ibérica e, em
uma dimensão menor,
vizinhos hispano-
americanos parecem
formar um grande quebra
cujas peças ainda não se encaixaram
efetivamente apesar das tentativas
ocorridas de integração,
principalmente no plano econômico
com a formação de blocos.Aparentam
ser
dois mundos abraçados no plano
geográfico, e histórico, mas um tanto
afastados no plano identitário. Essa
desagregação se reflete no plano
linguístico, pois
desvalorização do ensino da língua
espanhola
no Brasil, principalmente
pela entrada em
vigor da
de 16 de fevereiro de 2017 (BRASIL,
2017)
pela qual a obrigatoriedade do
ensino de Língua Estrangeira Moderna
391
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- ISSN 2237-1508
(Ensaio)
naturais. No entanto, muito tempo se
passou desde a independência e o
ideal de uma aproximação de fato
entre ambas as partes
ainda não se
concretizou. O distanciamento que se
produziu entre o Brasil e os demais
íses da América do Sul desde a
época colonial, resultante das
demarcações territoriais, da diferença
entre as línguas maternas, entre
outros fatores, pode ter contribuído
para a crença em identidades
divergentes. A América Ibérica e, em
uma dimensão menor,
o Brasil e seus
americanos parecem
formar um grande quebra
-cabeça
cujas peças ainda não se encaixaram
efetivamente apesar das tentativas
ocorridas de integração,
principalmente no plano econômico
com a formação de blocos.Aparentam
dois mundos abraçados no plano
geográfico, e histórico, mas um tanto
afastados no plano identitário. Essa
desagregação se reflete no plano
assistimos à
desvalorização do ensino da língua
no Brasil, principalmente
vigor da
Lei 13415,
de 16 de fevereiro de 2017 (BRASIL,
pela qual a obrigatoriedade do
ensino de Língua Estrangeira Moderna
MACHADO, Maria Cláudia de J.; YOKOTA, Rosa. Geopolítica, identidade
cultural e a língua espanhola no contexto brasileiro
Revista Latino-
Americana de Estudos em Cultura,
20, p. 386-405, março 2021.
passou a restringir-
se à Língua
Inglesa. Tal fato deixa claro o
entrelaçamento entre as questões
geopolíticas, identitária
s e linguísticas.
Altera-
se a política de governo no
Brasil, ocorre um afastamento dos
países hispano-
americanos e,
consequentemente, altera-
se a política
linguística também
3
.Uma política que
não defende o plurilinguismo é uma
política que defende o isolam
anula as diferenças culturais e impõe
uma única racionalidade, pois a língua
é vetor da cultura de um povo e um
dos elementos que constituem sua
identidade.
Conforme o Relatório Mundial
da UNESCO -
Investir na Diversidade
Cultural e no Diálogo Interc
(2009, p. 12):
As línguas são os vetores das
nossas experiências, dos nossos
contextos intelectuais e culturais, dos
nossos modos de relacionamento
com os grupos humanos, com os
nossos sistemas de valores, com os
nossos códigos sociais e
sentimentos de pertencimento, tanto
no plano coletivo como individual.[...]
as línguas não são somente um meio
de comunicação, mas representam a
própria estrutura das expressões
culturais e são portadoras de
identidade, valores e concepções de
mundo.
3
Cf. Rodrigues (2010) para informações a
respeito das políticas linguísticas para o
ensino de espanhol no Brasil a partir da
primeira metade do século XX.
MACHADO, Maria Cláudia de J.; YOKOTA, Rosa. Geopolítica, identidade
cultural e a língua espanhola no contexto brasileiro
. PragMATIZES -
Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 11, n.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
se à Língua
Inglesa. Tal fato deixa claro o
entrelaçamento entre as questões
s e linguísticas.
se a política de governo no
Brasil, ocorre um afastamento dos
americanos e,
se a política
.Uma política que
não defende o plurilinguismo é uma
política que defende o isolam
ento,
anula as diferenças culturais e impõe
uma única racionalidade, pois a língua
é vetor da cultura de um povo e um
dos elementos que constituem sua
Conforme o Relatório Mundial
Investir na Diversidade
Cultural e no Diálogo Interc
ultural
As línguas são os vetores das
nossas experiências, dos nossos
contextos intelectuais e culturais, dos
nossos modos de relacionamento
com os grupos humanos, com os
nossos sistemas de valores, com os
nossos códigos sociais e
sentimentos de pertencimento, tanto
no plano coletivo como individual.[...]
as línguas não são somente um meio
de comunicação, mas representam a
própria estrutura das expressões
culturais e são portadoras de
identidade, valores e concepções de
Cf. Rodrigues (2010) para informações a
respeito das políticas linguísticas para o
ensino de espanhol no Brasil a partir da
Na n
ova ordem, não
interesse
em que os modelos culturais
e as identidades locais se fortaleçam,
pois estes se opõem à ideia do
homogêneo e constituem uma
ameaça, visto que, segundo Raffestin
(1993), o ganho de poder está
vinculado ao ganho de espaço.
Portan
to, a língua como vetor de
cultura e componente da identidade de
um povo também é um instrumento de
poder. Conforme Raffestin (1993), o
poder é parte intrínseca de toda
relação. Uma das proposições de
Foucault (1988
apud
1993) é que as relações
estão em posição de exterioridade no
que diz respeito a outros tipos de
relações como as econômicas, de
conhecimento, sociais, sexuais etc.,
mas lhes são imanentes.
Paradoxalmente, ao mesmo
tempo que a nova ordem global
fomenta a homogeneizaçã
modelos culturais, a valorização
dos elementos locais frente à
interposição dos globais. Para Santos
(2006, p. 231), “cada lugar é, ao
mesmo tempo, objeto de uma razão
global e de uma razão local,
convivendo dialeticamente”. As ações
locais consti
tuem, muitas vezes, uma
392
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
- ISSN 2237-1508
(Ensaio)
ova ordem, não
em que os modelos culturais
e as identidades locais se fortaleçam,
pois estes se opõem à ideia do
homogêneo e constituem uma
ameaça, visto que, segundo Raffestin
(1993), o ganho de poder está
vinculado ao ganho de espaço.
to, a língua como vetor de
cultura e componente da identidade de
um povo também é um instrumento de
poder. Conforme Raffestin (1993), o
poder é parte intrínseca de toda
relação. Uma das proposições de
apud
RAFFESTIN,
1993) é que as relações
de poder não
estão em posição de exterioridade no
que diz respeito a outros tipos de
relações como as econômicas, de
conhecimento, sociais, sexuais etc.,
mas lhes são imanentes.
Paradoxalmente, ao mesmo
tempo que a nova ordem global
fomenta a homogeneizaçã
o dos
modelos culturais, a valorização
dos elementos locais frente à
interposição dos globais. Para Santos
(2006, p. 231), “cada lugar é, ao
mesmo tempo, objeto de uma razão
global e de uma razão local,
convivendo dialeticamente”. As ações
tuem, muitas vezes, uma