ROCHA, Gilmar. A "arte da malandragem" entre a farsa e a tragédia
uma narrativa dramática de
longa duração
Latino-Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 1
358-385, março 2021.
A “arte da malandragem” entre a farsa e a tragédia
DOI: https://doi.org/10.22409/pragmatizes.v11i2
Resumo: A obra
literária não é uma fala sobre a realidade, mas um modo de falar a sociedade. Com
base nessa premissa etnográfica, o texto explora a relação simbólica da literatura com alguns
momentos da história cultural e política brasileira desde o Império. O objetivo
de significado da malandragem ao longo do tempo destacando suas aproximações e diferenças com
outras categorias do imaginário cultural e político brasileiro como o favor, o jeitinho, a corrupção, que
embora vistos com desconfiança e de
aspectos significativos da realidade contemporânea. Assim a “arte da malandragem”, entendida como
um conjunto de representações e práticas simbólicas, constitui uma narrativa de longa duração na
q
ual se revela o drama de uma sociedade cuja história oscila entre a farsa e a tragédia.
Palavras-chave:
Favor; malandragem; jeitinho; corrupção; farsa; tragédia.
El "arte de las artimañas" entre la farsa y la tragedia
duración
Resumen
sociedad. Basado en esta premisa etnográfica, el texto explora la relación simbólica de la literatura
con algunos momentos de la historia cultural y
analizar el cambio de significado de malandragem a lo largo del tiempo destacando sus
aproximaciones y diferencias con otras categorías del imaginario cultural y político brasileño, como el
favor, el cami
no, la corrupción, que aunque se ve con recelo y descrédito hoy en día, todavía revela
de una manera densa y crítica aspectos significativos de la realidad contemporánea. Así, el "arte de
malandragem", entendido como un conjunto de representaciones y práct
una narrativa duradera en la que se revela el drama de una sociedad cuya historia oscila
farsa y la tragedia.
Palabras clave
: Favor; engaño; sentido; corrupción; farsa; tragedia.
1
Gilmar Rocha.
Doutor Antropologia Cultural (PPGSA/IFCS/UFRJ). Professor do Departamento de
Artes e Estudos Culturais (RAE) e do Programa de Pós Graduação Cultura e Territorialidades
(PPCULT) da Universidade Federal Fluminense (UFF), Brasil. E
https://orcid.org/0000-0002-
1398
Texto recebido em 27/1
0/2020, aceit
ROCHA, Gilmar. A "arte da malandragem" entre a farsa e a tragédia
-
longa duração
. PragMATIZES - Revista
Niterói/RJ, Ano 1
1, n. 20, p.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
(
Fluxo Contínuo
A “arte da malandragem” entre a farsa e a tragédia
-
uma narrativa dramática
de longa duração
DOI: https://doi.org/10.22409/pragmatizes.v11i2
0.46951
literária não é uma fala sobre a realidade, mas um modo de falar a sociedade. Com
base nessa premissa etnográfica, o texto explora a relação simbólica da literatura com alguns
momentos da história cultural e política brasileira desde o Império. O objetivo
é analisar a mudança
de significado da malandragem ao longo do tempo destacando suas aproximações e diferenças com
outras categorias do imaginário cultural e político brasileiro como o favor, o jeitinho, a corrupção, que
embora vistos com desconfiança e de
scrédito hoje, ainda assim revelam de forma densa e critica
aspectos significativos da realidade contemporânea. Assim a “arte da malandragem”, entendida como
um conjunto de representações e práticas simbólicas, constitui uma narrativa de longa duração na
ual se revela o drama de uma sociedade cuja história oscila entre a farsa e a tragédia.
Favor; malandragem; jeitinho; corrupção; farsa; tragédia.
El "arte de las artimañas" entre la farsa y la tragedia
-
una narrativa dramática de larga
: La obra literaria no es un discurso sobre la realidad, sino una forma de hablar a la
sociedad. Basado en esta premisa etnográfica, el texto explora la relación simbólica de la literatura
con algunos momentos de la historia cultural y
política brasileña desde el Imperio. El objetivo es
analizar el cambio de significado de malandragem a lo largo del tiempo destacando sus
aproximaciones y diferencias con otras categorías del imaginario cultural y político brasileño, como el
no, la corrupción, que aunque se ve con recelo y descrédito hoy en día, todavía revela
de una manera densa y crítica aspectos significativos de la realidad contemporánea. Así, el "arte de
malandragem", entendido como un conjunto de representaciones y práct
icas simbólicas, constituye
una narrativa duradera en la que se revela el drama de una sociedad cuya historia oscila
: Favor; engaño; sentido; corrupción; farsa; tragedia.
Doutor Antropologia Cultural (PPGSA/IFCS/UFRJ). Professor do Departamento de
Artes e Estudos Culturais (RAE) e do Programa de Pós Graduação Cultura e Territorialidades
(PPCULT) da Universidade Federal Fluminense (UFF), Brasil. E
-mail:
gr@id.uff.br
1398
-3742
0/2020, aceit
o para publicação em 24/11
/2020 e disponibilizado online
em 01/03/2021.
358
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
- ISSN 2237-1508
Fluxo Contínuo
)
uma narrativa dramática
Gilmar Rocha
1
literária não é uma fala sobre a realidade, mas um modo de falar a sociedade. Com
base nessa premissa etnográfica, o texto explora a relação simbólica da literatura com alguns
é analisar a mudança
de significado da malandragem ao longo do tempo destacando suas aproximações e diferenças com
outras categorias do imaginário cultural e político brasileiro como o favor, o jeitinho, a corrupção, que
scrédito hoje, ainda assim revelam de forma densa e critica
aspectos significativos da realidade contemporânea. Assim a “arte da malandragem”, entendida como
um conjunto de representações e práticas simbólicas, constitui uma narrativa de longa duração na
ual se revela o drama de uma sociedade cuja história oscila entre a farsa e a tragédia.
una narrativa dramática de larga
: La obra literaria no es un discurso sobre la realidad, sino una forma de hablar a la
sociedad. Basado en esta premisa etnográfica, el texto explora la relación simbólica de la literatura
política brasileña desde el Imperio. El objetivo es
analizar el cambio de significado de malandragem a lo largo del tiempo destacando sus
aproximaciones y diferencias con otras categorías del imaginario cultural y político brasileño, como el
no, la corrupción, que aunque se ve con recelo y descrédito hoy en día, todavía revela
de una manera densa y crítica aspectos significativos de la realidad contemporánea. Así, el "arte de
icas simbólicas, constituye
una narrativa duradera en la que se revela el drama de una sociedad cuya historia oscila
entre la
Doutor Antropologia Cultural (PPGSA/IFCS/UFRJ). Professor do Departamento de
Artes e Estudos Culturais (RAE) e do Programa de Pós Graduação Cultura e Territorialidades
gr@id.uff.br
-
/2020 e disponibilizado online
ROCHA, Gilmar. A "arte da malandragem" entre a farsa e a tragédia
uma narrativa dramática de
longa duração
Latino-Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 1
358-385, março 2021.
The “art of trickery” between
burlesque and tragedy
Abstract:
This literary work is not a speech about reality, but a way of speaking to society. Based on
this ethnographic premise, the text explores the symbolic relationship between literature and
moments of Brazilian cultural and political history since the Empire. The objective is to analyze the
change in the meaning of trickery over time, highlighting its similarities and differences with other
categories of Brazilian cultural and political
which although viewed with suspicion and discredit today, still reveal in a dense and critical way
significant aspects of contemporary reality. Thus, the art of trickery”, understood as a set of sy
representations and practices, constitutes a long
whose history oscillates between mock and tragedy is revealed.
Keywords:
Favor; trickery; Brazilian way; corruption; humbug; tragedy.
A “arte da malandragem” entre a farsa e a tragédia
Introdução
Este ensaio nasce
inquietação germinada com os
acontecimentos dos últimos anos no
país. O ponto de partida é
a impressão
de que vivemos hoje, à exemplo de
outros momentos na história, uma
infeliz repetição que traz de volta o
apotegma de Marx n’
Brumário de
Luís Bonaparte
ele diz: “Hegel observa em uma de
suas obras que todos os fatos e
personagens de grande importância na
história do mundo ocorrem, por assim
dizer, duas vezes. E esqueceu
acrescentar: a primeira vez como
tragédia, a segunda como
(MARX,
1978, p. 329). Mas, nossa
história parece ser mais trágica, talvez
porque encompasse a farsa;
ROCHA, Gilmar. A "arte da malandragem" entre a farsa e a tragédia
-
longa duração
. PragMATIZES - Revista
Niterói/RJ, Ano 1
1, n. 20, p.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
(
Fluxo Contínuo
burlesque and tragedy
- a long-
lasting dramatic narrative
This literary work is not a speech about reality, but a way of speaking to society. Based on
this ethnographic premise, the text explores the symbolic relationship between literature and
moments of Brazilian cultural and political history since the Empire. The objective is to analyze the
change in the meaning of trickery over time, highlighting its similarities and differences with other
categories of Brazilian cultural and political
imagery such as favor, the Brazilian way, the corruption,
which although viewed with suspicion and discredit today, still reveal in a dense and critical way
significant aspects of contemporary reality. Thus, the art of trickery”, understood as a set of sy
representations and practices, constitutes a long
-
lasting narrative in which the drama of a society
whose history oscillates between mock and tragedy is revealed.
Favor; trickery; Brazilian way; corruption; humbug; tragedy.
A “arte da malandragem” entre a farsa e a tragédia
-
uma narrativa dramática
de longa duração
Este ensaio nasce
de uma
inquietação germinada com os
acontecimentos dos últimos anos no
a impressão
de que vivemos hoje, à exemplo de
outros momentos na história, uma
infeliz repetição que traz de volta o
apotegma de Marx n’
O Dezoito
Luís Bonaparte
quando
ele diz: “Hegel observa em uma de
suas obras que todos os fatos e
personagens de grande importância na
história do mundo ocorrem, por assim
dizer, duas vezes. E esqueceu
-se de
acrescentar: a primeira vez como
tragédia, a segunda como
farsa"
1978, p. 329). Mas, nossa
história parece ser mais trágica, talvez
porque encompasse a farsa;
invertendo, por assim dizer, o
veredicto de Marx.
O interesse pelo tema da
malandragem no momento em que os
escândalos de corrupção, então
espetacu
larizados nos meios de
comunicação tomam conta do país,
denuncia mais do que uma farsa
senão um trágico parentesco de
origem que reverbera estruturalmente
como gênero de drama social que
atravessa nossa história desde ao
menos o “tempo do rei”
acentua no curso da história
republicana.
2
Referência a frase inicial de Manuel Antônio
de Almeida em
Memórias de um sargento de
milícias
, romance que na leitura de Antônio
Cândido (1988) introduz o malandro na
novelística nacional brasileira.
359
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
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Fluxo Contínuo
)
lasting dramatic narrative
This literary work is not a speech about reality, but a way of speaking to society. Based on
this ethnographic premise, the text explores the symbolic relationship between literature and
some
moments of Brazilian cultural and political history since the Empire. The objective is to analyze the
change in the meaning of trickery over time, highlighting its similarities and differences with other
imagery such as favor, the Brazilian way, the corruption,
which although viewed with suspicion and discredit today, still reveal in a dense and critical way
significant aspects of contemporary reality. Thus, the art of trickery”, understood as a set of sy
mbolic
lasting narrative in which the drama of a society
uma narrativa dramática
invertendo, por assim dizer, o
O interesse pelo tema da
malandragem no momento em que os
escândalos de corrupção, então
larizados nos meios de
comunicação tomam conta do país,
denuncia mais do que uma farsa
senão um trágico parentesco de
origem que reverbera estruturalmente
como gênero de drama social que
atravessa nossa história desde ao
menos o “tempo do rei”
2
, e que se
acentua no curso da história
Referência a frase inicial de Manuel Antônio
Memórias de um sargento de
, romance que na leitura de Antônio
Cândido (1988) introduz o malandro na
novelística nacional brasileira.
ROCHA, Gilmar. A "arte da malandragem" entre a farsa e a tragédia
uma narrativa dramática de
longa duração
Latino-Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 1
358-385, março 2021.
Qual o significado da
malandragem no Brasil hoje? A
pergunta tem razão de ser, pois o
significado da malandragem no Brasil
de ontem, parece nos conduzir a uma
visão contrária ao drama vivido
atualmente com relação
escândalos de corrupção e de
violência; muito embora escandalosa
mesmo é a desigualdade social
fenômeno estrutural -
no “país da
malandragem”. Frente às inúmeras
denúncias de corrupção que, para
além dos escândalos trazidos à tona
com a “Lava Jato”
3
,
grassam nos mais
variados setores da vida pública no
país em nível municipal, estadual e
federal, nas mais variadas áreas como
saúde, educação, segurança,
envolvendo empreiteiras, prestadores
de serviços, políticos, milicianos,
servidores públicos, empres
juízes etc., a malandragem ganha
contornos românticos e nostálgicos
como símbolo de uma época distante
3
Um dos mais famosos esquemas de
corrupção já denunc
iado no país, cuja
espetacularização política e moralista
encapsula o verdadeiro problema da
sociedade brasileira: a nossa colonial
desigualdade social.
ROCHA, Gilmar. A "arte da malandragem" entre a farsa e a tragédia
-
longa duração
. PragMATIZES - Revista
Niterói/RJ, Ano 1
1, n. 20, p.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
(
Fluxo Contínuo
Qual o significado da
malandragem no Brasil hoje? A
pergunta tem razão de ser, pois o
significado da malandragem no Brasil
de ontem, parece nos conduzir a uma
visão contrária ao drama vivido
atualmente com relação
aos
escândalos de corrupção e de
violência; muito embora escandalosa
mesmo é a desigualdade social
-
no “país da
malandragem”. Frente às inúmeras
denúncias de corrupção que, para
além dos escândalos trazidos à tona
grassam nos mais
variados setores da vida pública no
país em nível municipal, estadual e
federal, nas mais variadas áreas como
saúde, educação, segurança,
envolvendo empreiteiras, prestadores
de serviços, políticos, milicianos,
servidores públicos, empres
ários,
juízes etc., a malandragem ganha
contornos românticos e nostálgicos
como símbolo de uma época distante
Um dos mais famosos esquemas de
iado no país, cuja
espetacularização política e moralista
encapsula o verdadeiro problema da
sociedade brasileira: a nossa colonial
e, até certo ponto, de um “mundo sem
culpa”
4
.
A verdade é que a
malandragem constitui um sistema
amplo, complexo e desafiador, se se
leva em con
ta a multivocalidade das
categorias que a compõem, tais como:
favor, jeitinho, corrupção, gambiarra
(NASCIMENTO, 2017). Embora
subscrevam práticas sociais diferentes
desenvolvidas ao longo do tempo,
muitas vezes essas categorias são
tomadas como sinônimas,
exemplo, Roberto DaMatta define o
malandro um “profissional do jeitinho”
(1986, p. 102). Podemos então nos
perguntar: qual o grau de parentesco
entre essas categorias? A corrupção
de hoje é filha da malandragem de
ontem? um
continnum
en
tre esses fenômenos? São eles a
dupla face de Jano? Malandros,
bandidos, políticos e milicianos, quiçá,
empresários, são a expressão facial de
um hipodigma?
5
4
De certa forma, a tese do “mundo sem
culpa”, enunciada por Antônio Candido
começa a ser idealizada já
1950, segundo Michel Misse (1999).
5
Conceito utilizado por Cavalcanti Proença
(1978), para caracterizar
Macunaíma o herói
sem nenhum caráter
cujo significado remete a
ideia do personagem ser portador de todos os
caracteres conhecidos de
espécie, no caso, o malandro.
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- ISSN 2237-1508
Fluxo Contínuo
)
e, até certo ponto, de um “mundo sem
A verdade é que a
malandragem constitui um sistema
amplo, complexo e desafiador, se se
ta a multivocalidade das
categorias que a compõem, tais como:
favor, jeitinho, corrupção, gambiarra
(NASCIMENTO, 2017). Embora
subscrevam práticas sociais diferentes
desenvolvidas ao longo do tempo,
muitas vezes essas categorias são
tomadas como sinônimas,
por
exemplo, Roberto DaMatta define o
malandro um “profissional do jeitinho”
(1986, p. 102). Podemos então nos
perguntar: qual o grau de parentesco
entre essas categorias? A corrupção
de hoje é filha da malandragem de
continnum
sociológico
tre esses fenômenos? São eles a
dupla face de Jano? Malandros,
bandidos, políticos e milicianos, quiçá,
empresários, são a expressão facial de
Sem pretender
De certa forma, a tese do “mundo sem
culpa”, enunciada por Antônio Candido
começa a ser idealizada já
nos idos dos anos
1950, segundo Michel Misse (1999).
Conceito utilizado por Cavalcanti Proença
Macunaíma o herói
cujo significado remete a
ideia do personagem ser portador de todos os
determinada
espécie, no caso, o malandro.
ROCHA, Gilmar. A "arte da malandragem" entre a farsa e a tragédia
uma narrativa dramática de
longa duração
Latino-Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 1
358-385, março 2021.
estabelecer a hereditariedade entre
uma e outra, interessa pensar o
significado da m
alandragem ao longo
do tempo tomando a literatura como
caminho da análise simbólica.
A verdade é que o
carnaval, do futebol, do samba e da
malandragem” é também o país das
mazelas sociais, dos assassinatos de
jovens negros pobres da periferia, da
intolerância religiosa, do agronegócio e
do agrotóxico, dos desmatamentos e
das grilagens de terras indígenas,
enfim, um país que parece fiel à sua
história desde a colônia. À pergunta:
Que país é este?; uma reposta, entre
outras: este é o país entre os d
pior índice de desigualdade social do
mundo. “O país que não é sério e onde
tudo acaba em festa”, terra do “homem
cordial”
comumente confundido com
“doçura” ou “bondade natural”
mesmo tempo se revela desigual,
violento, excludente e conservad
Farsa ou tragédia, eis a questão?
Um drama social de longa duração
Sem perder de vista a
diversidade de tipos, práticas e
representações que a “cultura da
malandragem” incorporou na
ROCHA, Gilmar. A "arte da malandragem" entre a farsa e a tragédia
-
longa duração
. PragMATIZES - Revista
Niterói/RJ, Ano 1
1, n. 20, p.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
(
Fluxo Contínuo
estabelecer a hereditariedade entre
uma e outra, interessa pensar o
alandragem ao longo
do tempo tomando a literatura como
caminho da análise simbólica.
A verdade é que o
"país do
carnaval, do futebol, do samba e da
malandragem” é também o país das
mazelas sociais, dos assassinatos de
jovens negros pobres da periferia, da
intolerância religiosa, do agronegócio e
do agrotóxico, dos desmatamentos e
das grilagens de terras indígenas,
enfim, um país que parece fiel à sua
história desde a colônia. À pergunta:
Que país é este?; uma reposta, entre
outras: este é o país entre os d
ez com
pior índice de desigualdade social do
mundo. “O país que não é sério e onde
tudo acaba em festa”, terra do “homem
comumente confundido com
“doçura” ou “bondade natural”
- ao
mesmo tempo se revela desigual,
violento, excludente e conservad
or.
Farsa ou tragédia, eis a questão?
Um drama social de longa duração
Sem perder de vista a
diversidade de tipos, práticas e
representações que a “cultura da
malandragem” incorporou na
sociedade brasileira
ponto de partida a leitura de Lívia
Barbosa (1992) sobre o “jeitinho
brasileiro” a fim de expor meu
argumento exploratório e, por isso
mesmo, (in)conclusivo. Do ponto de
vista da antropóloga, o “jeitinho” pode
ser assim representado
estruturalmente:
(+) (+) / (-
)
____________________________
Favor Jeito
O esquema ilustra a dificuldade
em se definir o “jeitinho” no universo
social brasileiro, pois “o que é e o que
não é jeito
varia bastante”, adverte
Barbosa
(1992, p. 33)
elemento que pudéssemos assinalar
cuja presença configuraria uma
situação que fosse definida por todos
como jeito
”. Assim sendo, o jeitinho se
localiza em meio às categorias afins
“favor” e “corrupção” estabelecendo
um continuum
entre elas à medida que
se aproxima ora positivamente de
uma, ora negativamente de outra,
convivendo muitas vezes
6
Pode-
se destacar desde a figura jurídica do
vadio às figuras simbólicas do sambista, do
valente, do cafajeste, do pilantra, do
contraventor, do bicheiro, do “despachante”,
do "171” ao “bicho solto” e tantos outr
361
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
- ISSN 2237-1508
Fluxo Contínuo
)
sociedade brasileira
6
, tomo como
ponto de partida a leitura de Lívia
Barbosa (1992) sobre o “jeitinho
brasileiro” a fim de expor meu
argumento exploratório e, por isso
mesmo, (in)conclusivo. Do ponto de
vista da antropóloga, o “jeitinho” pode
ser assim representado
)
(-)
____________________________
Corrupção
O esquema ilustra a dificuldade
em se definir o “jeitinho” no universo
social brasileiro, pois “o que é e o que
varia bastante”, adverte
-nos
(1992, p. 33)
: “Não existe um
elemento que pudéssemos assinalar
cuja presença configuraria uma
situação que fosse definida por todos
”. Assim sendo, o jeitinho se
localiza em meio às categorias afins
“favor” e “corrupção” estabelecendo
entre elas à medida que
se aproxima ora positivamente de
uma, ora negativamente de outra,
convivendo muitas vezes
se destacar desde a figura jurídica do
vadio às figuras simbólicas do sambista, do
valente, do cafajeste, do pilantra, do
contraventor, do bicheiro, do “despachante”,
do "171” ao “bicho solto” e tantos outr
os.
ROCHA, Gilmar. A "arte da malandragem" entre a farsa e a tragédia
uma narrativa dramática de
longa duração
Latino-Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 1
358-385, março 2021.
transversalmente. À primeira vista,
trata-
se de um movimento
interativo/conflitivo que varia no
espaço e no tempo, muito embora o
“favor” a
presente maior sintonia com
os sistemas de características
tradicionais e a “corrupção” se
aproxime dos sistemas sociais
contemporâneos individualizados. A
depender da situação, isso não
impede de se ver a combinação
desses expedientes em um mesmo
personag
em ou mesmo ambiente
social simultaneamente.
Num exercício de “imaginação
poética” (em devaneio com Bachelard,
1988) vejo nas obras de Manuel
Antônio de Almeida (1988), Millôr
Fernandes (1981), Chico Buarque de
Holanda (1980) e Fernando Jorge
(2003), a ex
emplo dos ritos de
passagem, uma narrativa dramática
sobre a mudança de
malandro e da malandragem ao longo
do tempo, protagonizada pelos
personagens Leonardo Pataca, Max
Overseas e Piranha da Fonseca
Albuquerque (e seus contrários:
Vidigal, Inspe
tor Chaves e os
“militares”), cujo “parentesco
simbólico” os vinculam à tradição
malandra na cultura popular brasileira
ROCHA, Gilmar. A "arte da malandragem" entre a farsa e a tragédia
-
longa duração
. PragMATIZES - Revista
Niterói/RJ, Ano 1
1, n. 20, p.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
(
Fluxo Contínuo
transversalmente. À primeira vista,
se de um movimento
interativo/conflitivo que varia no
espaço e no tempo, muito embora o
presente maior sintonia com
os sistemas de características
tradicionais e a “corrupção” se
aproxime dos sistemas sociais
contemporâneos individualizados. A
depender da situação, isso não
impede de se ver a combinação
desses expedientes em um mesmo
em ou mesmo ambiente
Num exercício de “imaginação
poética” (em devaneio com Bachelard,
1988) vejo nas obras de Manuel
Antônio de Almeida (1988), Millôr
Fernandes (1981), Chico Buarque de
Holanda (1980) e Fernando Jorge
emplo dos ritos de
passagem, uma narrativa dramática
sobre a mudança de
status do
malandro e da malandragem ao longo
do tempo, protagonizada pelos
personagens Leonardo Pataca, Max
Overseas e Piranha da Fonseca
Albuquerque (e seus contrários:
tor Chaves e os
“militares”), cujo “parentesco
simbólico” os vinculam à tradição
malandra na cultura popular brasileira
na forma de literatura, teatro, sica,
cinema etc. O conjunto dessas obras
forma uma narrativa de longa duração
na qual se revelam algu
sociais mais arraigados no imaginário
cultural brasileiro aqui, definido, como
“arte da malandragem”
Não é demais lembrar que a
literatura constitui uma espécie de
narrativa etnográfica em que as obras
literárias podem ser vistas como
“nar
rativas míticas”, sugere DaMatta
(1993). Assim, combinando a
dramatização ritual e a narrativa mítica
que o conjunto das obras encenam,
proponho uma análise em três tempos
na qual se destaca: 1) a instituição do
favor em meio as
Memórias de um
sargento de
milícias;
memórias do
Vidigal
Fernandes, também seja ambientada
no “tempo do rei” constitui uma
metáfora do Estado militarizado dos
anos 1960, e divide com a
malandro,
ambientada na Lapa dos
anos 1940, o processo de
7
A definição visa circunscrever o campo da
observação e não a substância dos fatos
(Mauss, 1981). O drama social, nos termos de
Turner (2008), é entendido como metáfora ou
modelo por meio do qual se pode apreender
processualmente parte do comportamento
social humano como ação simbólica. Sobre a
relação imaginação e cultura ver Rocha
(2016).
362
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- ISSN 2237-1508
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)
na forma de literatura, teatro, sica,
cinema etc. O conjunto dessas obras
forma uma narrativa de longa duração
na qual se revelam algu
ns dos dramas
sociais mais arraigados no imaginário
cultural brasileiro aqui, definido, como
“arte da malandragem”
7
.
Não é demais lembrar que a
literatura constitui uma espécie de
narrativa etnográfica em que as obras
literárias podem ser vistas como
rativas míticas”, sugere DaMatta
(1993). Assim, combinando a
dramatização ritual e a narrativa mítica
que o conjunto das obras encenam,
proponho uma análise em três tempos
na qual se destaca: 1) a instituição do
Memórias de um
milícias;
2) embora as
Vidigal
, de Millôr
Fernandes, também seja ambientada
no “tempo do rei” constitui uma
metáfora do Estado militarizado dos
anos 1960, e divide com a
Ópera do
ambientada na Lapa dos
anos 1940, o processo de
A definição visa circunscrever o campo da
observação e não a substância dos fatos
(Mauss, 1981). O drama social, nos termos de
Turner (2008), é entendido como metáfora ou
modelo por meio do qual se pode apreender
processualmente parte do comportamento
social humano como ação simbólica. Sobre a
relação imaginação e cultura ver Rocha
ROCHA, Gilmar. A "arte da malandragem" entre a farsa e a tragédia
uma narrativa dramática de
longa duração
Latino-Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 1
358-385, março 2021.
“profis
sionalização” do malandro em
tempos de modernização e populismo
e de universalização do “jeitinho”; 3) a
saga de “Piranha da Fonseca
Albuquerque”, protagonista de
grande líder
, personagem corrupto
inclinado à todo tipo de vilania que
“para o bem de todos
e a felicidade
geral da nação” se sacrifica, ao
candidatar-
se à presidência da
república visando salvar a pátria
amada
8
.
Ao final, todo esse percurso nos
leva a pensar, inconclusivamente: qual
a eficácia simbólica da “arte da
malandragem”para se pensar
hoje?
A favor da malandragem
“Era no tempo do rei”. É assim
que Manuel Antônio de Almeida inicia
Memórias de um sargento de milícias
romance que na caracterização de
Antônio Cândido (1988) imita a
estrutura da sociedade brasileira do
século XIX
e revela a dialética da
ordem e da desordem que a coloca em
movimento. Leonardo filho, nascido de
8
Sabe-
se que momentos de crise nas
sociedades são férteis para a emergência de
líderes carismáticos, salvadores da pátria,
anunciando um novo mundo (LINDHOLM,
1993).
ROCHA, Gilmar. A "arte da malandragem" entre a farsa e a tragédia
-
longa duração
. PragMATIZES - Revista
Niterói/RJ, Ano 1
1, n. 20, p.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
(
Fluxo Contínuo
sionalização” do malandro em
tempos de modernização e populismo
e de universalização do “jeitinho”; 3) a
saga de “Piranha da Fonseca
Albuquerque”, protagonista de
O
, personagem corrupto
inclinado à todo tipo de vilania que
e a felicidade
geral da nação” se sacrifica, ao
se à presidência da
república visando salvar a pátria
Ao final, todo esse percurso nos
leva a pensar, inconclusivamente: qual
a eficácia simbólica da “arte da
malandragem”para se pensar
o Brasil
“Era no tempo do rei”. É assim
que Manuel Antônio de Almeida inicia
Memórias de um sargento de milícias
,
romance que na caracterização de
Antônio Cândido (1988) imita a
estrutura da sociedade brasileira do
e revela a dialética da
ordem e da desordem que a coloca em
movimento. Leonardo filho, nascido de
se que momentos de crise nas
sociedades são férteis para a emergência de
líderes carismáticos, salvadores da pátria,
anunciando um novo mundo (LINDHOLM,
uma “pisadela e um beliscão” tão logo
aprendeu a “andar e falar tornou
um flagelo”: “Era, além de traquinas,
guloso; quando não traquinava, comia.
A Maria
[a mãe] não lhe perdoava;
trazia-
lhe bem maltratada uma região
do corpo; porém ele não se emendava,
que era também teimoso, e as
travessuras recomeçavam mal
acabava a dor das palmadas”
(ALMEIDA, 1988, p. 11). Após ser
abandonado pelo pai, Leonardo será
cr
iado pelo padrinho e dele receberá
toda atenção e perdão pelos malfeitos
na escola ou na sacristia. Em verdade,
o padrinho haveria de protegê
mesmo depois de morto, deixando
algo em testamento.
Como bem observa Antônio
Cândido (1988)
, suprimin
romance as classes dominantes e o
escravo, Manuel Antônio de Almeida
coloca em destaque os setores baixo e
médio da sociedade revelando a
estrutura e a dialética que movimenta
tanto as personagens do romance
quanto a própria sociedade. O
romance imit
a a história. Assim, é em
meio ao jogo bruxuleante entre a
ordem e a desordem que o malandro
navega à exemplo da própria
sociedade que ele representa. Embora
363
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
- ISSN 2237-1508
Fluxo Contínuo
)
uma “pisadela e um beliscão” tão logo
aprendeu a “andar e falar tornou
-se
um flagelo”: “Era, além de traquinas,
guloso; quando não traquinava, comia.
[a mãe] não lhe perdoava;
lhe bem maltratada uma região
do corpo; porém ele não se emendava,
que era também teimoso, e as
travessuras recomeçavam mal
acabava a dor das palmadas”
(ALMEIDA, 1988, p. 11). Após ser
abandonado pelo pai, Leonardo será
iado pelo padrinho e dele receberá
toda atenção e perdão pelos malfeitos
na escola ou na sacristia. Em verdade,
o padrinho haveria de protegê
-lo até
mesmo depois de morto, deixando
-lhe
Como bem observa Antônio
, suprimin
do do
romance as classes dominantes e o
escravo, Manuel Antônio de Almeida
coloca em destaque os setores baixo e
médio da sociedade revelando a
estrutura e a dialética que movimenta
tanto as personagens do romance
quanto a própria sociedade. O
a a história. Assim, é em
meio ao jogo bruxuleante entre a
ordem e a desordem que o malandro
navega à exemplo da própria
sociedade que ele representa. Embora
ROCHA, Gilmar. A "arte da malandragem" entre a farsa e a tragédia
uma narrativa dramática de
longa duração
Latino-Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 1
358-385, março 2021.
longa, a citação a seguir ilustra o que o
sociólogo desvela nas aventuras e
desventuras de Leonard
o Pataca no
Rio de Janeiro do “tempo do rei”:
É burla e é sério, porque a sociedade
que formiga nas Memórias é
sugestiva, não tanto por causa das
descrições de festejos ou indicações
de usos e lugares; mas porque
manifesta num plano mais fundo e
eficiente
o referido jogo dialético da
ordem e da desordem, funcionando
como correlativo ao que se
manifestava na sociedade daquele
tempo. Ordem dificilmente imposta e
mantida, cercada de todos os lados
por uma desordem vivaz, que
antepunha vinte mancebias a cada
ca
samento e mil uniões fortuitas a
cada mancebia. Sociedade na qual
uns poucos livres trabalhavam e os
outros flauteavam ao deus
colhendo as sobras do parasitismo,
dos expedientes, das munificências,
da sorte ou do roubo miúdo.
Suprimindo o escravo, Ma
Antônio suprimiu quase totalmente o
trabalho, suprimindo as classes
dirigentes, suprimiu os controles do
mando. Ficou o ar de jogo dessa
organização bruxuleante fissurada
pela anomia, que se traduz na dança
dos personagens entre lícito e ilícito,
sem
que possamos afinal dizer o que
é um e o que é o outro, porque todos
acabam circulando de um para outro
com uma naturalidade que lembra o
modo de formação das famílias, dos
prestígios, das fortunas, das
reputações, no Brasil urbano da
primeira metade do
Romance profundamente social,
pois, não por ser documentário, mas
por ser construído segundo o ritmo
geral da sociedade, vista através de
um dos seus setores. E sobretudo
porque dissolve o que de
sociologicamente essencial nos
meandros da cons
trução literária”
(CÂNDIDO,
1988, p. 209).
Não é preciso muito esforço
para se perceber que toda essa
ROCHA, Gilmar. A "arte da malandragem" entre a farsa e a tragédia
-
longa duração
. PragMATIZES - Revista
Niterói/RJ, Ano 1
1, n. 20, p.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
(
Fluxo Contínuo
longa, a citação a seguir ilustra o que o
sociólogo desvela nas aventuras e
o Pataca no
Rio de Janeiro do “tempo do rei”:
É burla e é sério, porque a sociedade
que formiga nas Memórias é
sugestiva, não tanto por causa das
descrições de festejos ou indicações
de usos e lugares; mas porque
manifesta num plano mais fundo e
o referido jogo dialético da
ordem e da desordem, funcionando
como correlativo ao que se
manifestava na sociedade daquele
tempo. Ordem dificilmente imposta e
mantida, cercada de todos os lados
por uma desordem vivaz, que
antepunha vinte mancebias a cada
samento e mil uniões fortuitas a
cada mancebia. Sociedade na qual
uns poucos livres trabalhavam e os
outros flauteavam ao deus
-dará,
colhendo as sobras do parasitismo,
dos expedientes, das munificências,
da sorte ou do roubo miúdo.
Suprimindo o escravo, Ma
nuel
Antônio suprimiu quase totalmente o
trabalho, suprimindo as classes
dirigentes, suprimiu os controles do
mando. Ficou o ar de jogo dessa
organização bruxuleante fissurada
pela anomia, que se traduz na dança
dos personagens entre lícito e ilícito,
que possamos afinal dizer o que
é um e o que é o outro, porque todos
acabam circulando de um para outro
com uma naturalidade que lembra o
modo de formação das famílias, dos
prestígios, das fortunas, das
reputações, no Brasil urbano da
primeira metade do
culo XIX.
Romance profundamente social,
pois, não por ser documentário, mas
por ser construído segundo o ritmo
geral da sociedade, vista através de
um dos seus setores. E sobretudo
porque dissolve o que de
sociologicamente essencial nos
trução literária”
1988, p. 209).
Não é preciso muito esforço
para se perceber que toda essa
“cultura da malandragem” que se
desenvolve desde então, apresenta
grande afinidade com a instituição do
“favor” como nos sugere Roberto
Schwarz em suas “Ideias fora do
lugar”. A categoria
favor
mundo de representações e práticas
que no dizer de
Schwarz
“atravessou e afetou no conjunto a
existência nacional” desde a nossa
formação colonial. O
no mecanismo sico de estruturação
das relações sociais, sobretudo, entre
o senhor e os homens livres, que o
escravo pe
rmaneceu à margem por
quase toda a colonização fora dessa
“economia simbólica”.
nossa mediação quase universal
destaca o crítico literário, pois “sendo
mais simpático do que o nexo
escravista, a outra relação que a
colônia nos legara, é comp
que os escritores tenham baseado
nele a sua interpretação do Brasil,
involuntariamente disfarçando a
violência, que sempre reinou na esfera
da produção”, dirá o autor
(SCHWARZ, 1981, p. 16). E, a se
julgar o desfecho das
sargento d
e milícias
dialética da malandragem que
estrutura e movimenta o romance e a
364
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
- ISSN 2237-1508
Fluxo Contínuo
)
“cultura da malandragem” que se
desenvolve desde então, apresenta
grande afinidade com a instituição do
“favor” como nos sugere Roberto
Schwarz em suas “Ideias fora do
favor
remete a um
mundo de representações e práticas
Schwarz
(1981, p. 16)
“atravessou e afetou no conjunto a
existência nacional” desde a nossa
formação colonial. O
favor se constitui
no mecanismo sico de estruturação
das relações sociais, sobretudo, entre
o senhor e os homens livres, que o
rmaneceu à margem por
quase toda a colonização fora dessa
“economia simbólica”.
O favor é a
nossa mediação quase universal
”,
destaca o crítico literário, pois “sendo
mais simpático do que o nexo
escravista, a outra relação que a
colônia nos legara, é comp
reensível
que os escritores tenham baseado
nele a sua interpretação do Brasil,
involuntariamente disfarçando a
violência, que sempre reinou na esfera
da produção”, dirá o autor
(SCHWARZ, 1981, p. 16). E, a se
julgar o desfecho das
Memórias de um
e milícias
, de fato, na
dialética da malandragem que
estrutura e movimenta o romance e a
ROCHA, Gilmar. A "arte da malandragem" entre a farsa e a tragédia
uma narrativa dramática de
longa duração
Latino-Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 1
358-385, março 2021.
sociedade da época, o favor e o
jeitinho são vividos dramaticamente
pelas personagens Leonardo e seu
algoz, Major Vidigal. Cada um à sua
maneira irá contrariar o contr
outras palavras, ao final do romance a
personagem Leonardo filho
perseguido duramente pelo Major
Vidigal -
, acaba se transformando em
sargento da milícia e se casa com
Luisinha
sua paixão desde a
infância. Na verdade, sua promoção é
o resultad
o de um sistema de trocas
de favores, que envolve Leonardo e
sua madrinha Dona Maria que para
livrar o afilhado da prisão recorre a
Maria Regalada, objeto de desejo de
Vidigal que, no último momento, cede
à promessa de uma vida em conjunto,
ao que tudo indica
9
.
André Bueno
(2008)
dialética da malandragem à luz da
análise de Roberto Schwarz em
“Pressupostos, salvo engano, de
Dialética da malandragem para
destacar, salvo engano, o efeito da
“redução estrutural” produzida pela
9
Vale lembrar, a relação entre a polícia e a
malandragem sempre foi tensa e ambígua,
como se pode ver desde “Pelo telefone”,
gravada por Donga em 1910, a violenta
relação do famoso marginal Lucio Flavio Lírio
com o Esquadrão da morte nos idos de 1970,
e
os milicianos hoje (CANO; DUARTE, 2012).
ROCHA, Gilmar. A "arte da malandragem" entre a farsa e a tragédia
-
longa duração
. PragMATIZES - Revista
Niterói/RJ, Ano 1
1, n. 20, p.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
(
Fluxo Contínuo
sociedade da época, o favor e o
jeitinho são vividos dramaticamente
pelas personagens Leonardo e seu
algoz, Major Vidigal. Cada um à sua
maneira irá contrariar o contr
ário. Em
outras palavras, ao final do romance a
personagem Leonardo filho
-
perseguido duramente pelo Major
, acaba se transformando em
sargento da milícia e se casa com
sua paixão desde a
infância. Na verdade, sua promoção é
o de um sistema de trocas
de favores, que envolve Leonardo e
sua madrinha Dona Maria que para
livrar o afilhado da prisão recorre a
Maria Regalada, objeto de desejo de
Vidigal que, no último momento, cede
à promessa de uma vida em conjunto,
(2008)
retoma a
dialética da malandragem à luz da
análise de Roberto Schwarz em
“Pressupostos, salvo engano, de
Dialética da malandragem para
destacar, salvo engano, o efeito da
“redução estrutural” produzida pela
Vale lembrar, a relação entre a polícia e a
malandragem sempre foi tensa e ambígua,
como se pode ver desde “Pelo telefone”,
gravada por Donga em 1910, a violenta
relação do famoso marginal Lucio Flavio Lírio
com o Esquadrão da morte nos idos de 1970,
os milicianos hoje (CANO; DUARTE, 2012).
análise de Antônio
Candido sobre o
texto de Manuel Antônio de Almeida.
Ao enfatizar a supressão do senhor e
do escravo e tomar como referência os
setores intermediários da sociedade,
Antônio Candido suprimiu a
possibilidade do conflito, a “luta de
classes”, promovendo uma
in
terpretação em sintonia com outros
intérpretes do Brasil desde os anos
1930. Ratificando então a análise de
Schwarz, Bueno se pergunta: “por que
interpretar o Brasília partir desse
específico setor da totalidade, dos que
não trabalham regularmente, nem
man
dam e nem acumulam, localizando
uma longa tradição, a própria
dialética da malandragem?” (
2008, p. 60). O efeito então da
supressão do mundo do trabalho e do
mando, e a fixação nos homens livres,
porém, presos à cultura do favor, fez
com que a an
álise de Antônio Cândido
transformasse o que era próprio de um
setor de classe em traço do ser
nacional
10
.
10
Essa proposição se estende há outras
interpretações,
por exemplo, Schwarcz (1995).
Os historiadores
João Reis e Eduardo Silva
(1989), lembram que a escravidão não era de
todo incompatível com o liberalismo, posto
todo um amplo e complexo sistema relacional
de negociações, trocas e favores se infiltraria
nas instituições sociais, econômicas etc.,
ocupando os espaços deixados em aberto
pelo capital e a desigualdade social.
365
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
- ISSN 2237-1508
Fluxo Contínuo
)
Candido sobre o
texto de Manuel Antônio de Almeida.
Ao enfatizar a supressão do senhor e
do escravo e tomar como referência os
setores intermediários da sociedade,
Antônio Candido suprimiu a
possibilidade do conflito, a “luta de
classes”, promovendo uma
terpretação em sintonia com outros
intérpretes do Brasil desde os anos
1930. Ratificando então a análise de
Schwarz, Bueno se pergunta: “por que
interpretar o Brasília partir desse
específico setor da totalidade, dos que
não trabalham regularmente, nem
dam e nem acumulam, localizando
uma longa tradição, a própria
dialética da malandragem?” (
BUENO,
2008, p. 60). O efeito então da
supressão do mundo do trabalho e do
mando, e a fixação nos homens livres,
porém, presos à cultura do favor, fez
álise de Antônio Cândido
transformasse o que era próprio de um
setor de classe em traço do ser
Essa proposição se estende há outras
por exemplo, Schwarcz (1995).
João Reis e Eduardo Silva
(1989), lembram que a escravidão não era de
todo incompatível com o liberalismo, posto
que
todo um amplo e complexo sistema relacional
de negociações, trocas e favores se infiltraria
nas instituições sociais, econômicas etc.,
ocupando os espaços deixados em aberto
pelo capital e a desigualdade social.
ROCHA, Gilmar. A "arte da malandragem" entre a farsa e a tragédia
uma narrativa dramática de
longa duração
Latino-Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 1
358-385, março 2021.
Aos poucos a
persona
malandro Leonardo filho
entendido como símbolo de setores
populares-
irá dividir com outros
malandros e não-
malandros
menos não oficialmente trajando terno
de linho branco e sapato de duas
cores-
, um modo mais universal e
impessoal de malandragem que
atravessa as práticas diárias de todo
(sub)cidadão, até hoje. Não por acaso,
na abertura da segunda parte do
romance,
Manuel vaticinava: “Já veem
os leitores que a raça dos Leonardos
não de extinguir com facilidade”
(CÂNDIDO, 1988, p. 93).
Um século após a publicação da
obra de Manuel Antônio de Almeida,
Millôr Fernandes trazia à público a sua
versão das Memórias...
,
ponto de vista do Major Vidigal. Versão
que apr
esenta maior sintonia com o
tempo presente de sua encenação do
que com o “tempo do rei”. Um tempo
que, de certa forma, guarda muitas
afinidades com a Lapa dos anos 1940,
da Ópera do malandro.
A (des)ordem é a regra
O cenário da
malandro
é a Lapa dos anos 1940; o
país vivia sob o Estado Novo. Obra
ROCHA, Gilmar. A "arte da malandragem" entre a farsa e a tragédia
-
longa duração
. PragMATIZES - Revista
Niterói/RJ, Ano 1
1, n. 20, p.
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persona
do
malandro Leonardo filho
-aqui
entendido como símbolo de setores
irá dividir com outros
malandros
- ao
menos não oficialmente trajando terno
de linho branco e sapato de duas
, um modo mais universal e
impessoal de malandragem que
atravessa as práticas diárias de todo
(sub)cidadão, até hoje. Não por acaso,
na abertura da segunda parte do
Manuel vaticinava: “Já veem
os leitores que a raça dos Leonardos
não de extinguir com facilidade”
Um século após a publicação da
obra de Manuel Antônio de Almeida,
Millôr Fernandes trazia à público a sua
,
agora, do
ponto de vista do Major Vidigal. Versão
esenta maior sintonia com o
tempo presente de sua encenação do
que com o “tempo do rei”. Um tempo
que, de certa forma, guarda muitas
afinidades com a Lapa dos anos 1940,
O cenário da
Ópera do
é a Lapa dos anos 1940; o
país vivia sob o Estado Novo. Obra
inspirada na
Ópera dos mendigos
Ópera dos três vinténs
Bertold Brecht & Kurt Weill,
respectivamente; a peça dramatiza o
processo
de modernização da
malandragem. No filme homônimo, de
Ruy Guerra (1986), a cena do “Desafio
do malandro” é exemplar, pois ilustra o
drama da disputa por certa imagem do
malandro. O ambiente é o salão de
bilhar, cronótopo da contenda entre
malandros escolad
os cuja disputa
ultrapassa a partida de sinuca para
revelar-
se um “jogo absorvente”. O
dueto é um duelo:
-
Você tá pensando que é da alta
sociedade
Ou vai montar exposição de souvenir
de gringo
Ou foi fazer a fé no bingo em chá de
caridade
Eu não sei não,
eu não sei não
Só sei que você vem com five
very well, my
friend
A curriola leva um choque, nego não
entende
E deita e rola e sai comentando
Que grande malandro é vo
-
Você tá fazendo piada ou vai querer
que eu chore
A sua estampa eu já conheço
museu do império
Ou mausoléu de cemitério, ou feira de
folclore
Eu não sei não, eu não sei não
Só sei que você vem com reco
berimbau, farofa
A curriola tem um treco, nego faz
galhofa
E deita e rola e sai comentando
Que grande malandro é vo
- Voc
ê que era um sujeito tipo jovial
Agora até mudou de nome
-
Você infelizmente continua igual
Fala bonito e passa fome
-
Vai ver que ainda vai virar
366
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- ISSN 2237-1508
Fluxo Contínuo
)
Ópera dos mendigos
e
Ópera dos três vinténs
, de John Gay e
Bertold Brecht & Kurt Weill,
respectivamente; a peça dramatiza o
de modernização da
malandragem. No filme homônimo, de
Ruy Guerra (1986), a cena do “Desafio
do malandro” é exemplar, pois ilustra o
drama da disputa por certa imagem do
malandro. O ambiente é o salão de
bilhar, cronótopo da contenda entre
os cuja disputa
ultrapassa a partida de sinuca para
se um “jogo absorvente”. O
Você tá pensando que é da alta
Ou vai montar exposição de souvenir
Ou foi fazer a fé no bingo em chá de
eu não sei não
Só sei que você vem com five
o'clock,
friend
A curriola leva um choque, nego não
E deita e rola e sai comentando
Que grande malandro é vo
Você tá fazendo piada ou vai querer
A sua estampa eu já conheço
do
museu do império
Ou mausoléu de cemitério, ou feira de
Eu não sei não, eu não sei não
Só sei que você vem com reco
-reco,
A curriola tem um treco, nego faz
E deita e rola e sai comentando
Que grande malandro é vo
ê que era um sujeito tipo jovial
Agora até mudou de nome
Você infelizmente continua igual
Fala bonito e passa fome
Vai ver que ainda vai virar
ROCHA, Gilmar. A "arte da malandragem" entre a farsa e a tragédia
uma narrativa dramática de
longa duração
Latino-Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 1
358-385, março 2021.
trabalhador
Que horror
-
Trabalho a minha nega e morro de
calor
-
Falta malandro se casar e ser avô
- Você nã
o sabe nem o que é o amor
Malandro infeliz
-
Amor igual ao seu, malandro tem
quarenta e não diz
-
Respeite uma mulher que é boa e
me sustenta
- Ela já foi aposentada
-
Ela me alisa e me alimenta
- A bolsa dela tá furada
- E a sua mãe tá na rua
- Se você nu
nca teve mãe, eu não
posso falar da sua
-
Eu não vou sujar a navalha nem sair
no tapa
-
É mais sutil sumir da Lapa
- Eu não jogo a toalha
-
Onde é que acaba essa batalha?
- Em fundo de caçapa
-
Eu não sei não, eu não sei não
-
Só sei que você perde a compo
quando eu pego o taco
A curriola não segura, nego coça o
saco
E deita e rola e sai comentando
que grande malandro é você
(Ruy Guerra,
Ópera do malandro
1986).
Não fazia muito tempo, Noel
Rosa e Wilson Batista também
protagonizaram uma disputa em
da imagem do malandro e que parece
prolongar-
se no jogo de bilhar entre
Max Overseas e Sátiro Bilhar
nome parece antecipar o resultado
da partida. Trajando seus indefectíveis
ternos de linho branco S-
120, Max é a
versão moderna, progressista
malandro que se recusa “usar a
navalha e a sair no tapa”; Sátiro
lembra o lado tradicional, o malandro
de antigamente, a encarnação
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longa duração
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1, n. 20, p.
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Fluxo Contínuo
Trabalho a minha nega e morro de
Falta malandro se casar e ser avô
o sabe nem o que é o amor
Amor igual ao seu, malandro tem
Respeite uma mulher que é boa e
Ela me alisa e me alimenta
nca teve mãe, eu não
Eu não vou sujar a navalha nem sair
É mais sutil sumir da Lapa
Onde é que acaba essa batalha?
Eu não sei não, eu não sei não
Só sei que você perde a compo
stura
A curriola não segura, nego coça o
E deita e rola e sai comentando
que grande malandro é você
Ópera do malandro
,
Não fazia muito tempo, Noel
Rosa e Wilson Batista também
protagonizaram uma disputa em
torno
da imagem do malandro e que parece
se no jogo de bilhar entre
Max Overseas e Sátiro Bilhar
-cujo
nome parece antecipar o resultado
da partida. Trajando seus indefectíveis
120, Max é a
versão moderna, progressista
do
malandro que se recusa “usar a
navalha e a sair no tapa”; Sátiro
lembra o lado tradicional, o malandro
de antigamente, a encarnação
folclórica de um personagem do
“tempo do império”. Tendo vencido a
partida, tiro recusa a forma de
pagamento proposta
isqueiro no valor de cem mil reis
alegando não servir para percussão.
Desmentindo a imagem consagrada
no imaginário popular na qual o
malandro usa a caixa de fósforo em
substituição ao pandeiro, Max combina
técnica corporal com criatividade e
realiza uma pequena performance com
o isqueiro de contrabando. À despeito
das diferenças, em comum ambos se
perguntam, afinal, que grande
malandro é você?
A verdade é que mais do que a
modernização é o fantasma da
tradição que parece assombrar o
malandro
dos tempos de Getúlio
Vargas e da Segunda Guerra. O
american way of life
americanismo se abrasileira via a
modernização conservadora e
excludente. O cientista político Luís
Werneck Vianna, em “O americanismo
da pirataria à modernização
a
utoritária (e o que se pode seguir)”,
texto de apresentação à
malandro
, lembra que no Brasil,
Ao contrário do padrão clássico de
americanismo, a hegemonia
burguesa não ‘nascerá das fábricas’.
Seu ponto de partida virá das
367
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)
folclórica de um personagem do
“tempo do império”. Tendo vencido a
partida, tiro recusa a forma de
pagamento proposta
por Max -um
isqueiro no valor de cem mil reis
-,
alegando não servir para percussão.
Desmentindo a imagem consagrada
no imaginário popular na qual o
malandro usa a caixa de fósforo em
substituição ao pandeiro, Max combina
técnica corporal com criatividade e
realiza uma pequena performance com
o isqueiro de contrabando. À despeito
das diferenças, em comum ambos se
perguntam, afinal, que grande
A verdade é que mais do que a
modernização é o fantasma da
tradição que parece assombrar o
dos tempos de Getúlio
Vargas e da Segunda Guerra. O
invade o Rio; o
americanismo se abrasileira via a
modernização conservadora e
excludente. O cientista político Luís
Werneck Vianna, em “O americanismo
da pirataria à modernização
utoritária (e o que se pode seguir)”,
texto de apresentação à
Ópera do
, lembra que no Brasil,
Ao contrário do padrão clássico de
americanismo, a hegemonia
burguesa não ‘nascerá das fábricas’.
Seu ponto de partida virá das
ROCHA, Gilmar. A "arte da malandragem" entre a farsa e a tragédia
uma narrativa dramática de
longa duração
Latino-Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 1
358-385, março 2021.
chamadas regiões supraes
do Estado, da política, do Direito,
que irão traçar ‘de fora’ pelas mãos
dos nossos ‘junkers caboclos as
linhas mestras do processo de
modernização. E tempo de rolar
até que parte das novas frações
burguesas se sinta em condições
suprema audácia-
de reivindicar para
si o controle do arsenal político do
Estado (VIANNA
apud
1980, p. 8).
E continua o autor, no Brasil “o
novo se mantinha [e se mantém] preso
ao passado. Nosso capitalismo
continuava [e continua] preso com um
na Lapa,
em escusos galpões de
fundo de praia, enlevado pelas
mamatas, e nostálgico da capatazia de
fazenda” (VIANNA
apud
1980, p. 12). Impressiona a atualidade
do texto de Vianna cuja ressonância
nos lembra uma vez mais o apotegma
de Marx com a diferença
fatos e os personagens de grande
importância em nossa história
ocorrem, por assim dizer, a primeira
vez como farsa, a segunda como
tragédia.
Em especial, a
malandro
dramatiza esse processo de
modernização dando destaque à visão
de Terezinha -
filha do cafetão Duran e
de Vitória-
, futura esposa do malandro
Max Overseas. A moça tem tino
empreendedor e incorpora a
racionalidade empresarial no negócio
ROCHA, Gilmar. A "arte da malandragem" entre a farsa e a tragédia
-
longa duração
. PragMATIZES - Revista
Niterói/RJ, Ano 1
1, n. 20, p.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
(
Fluxo Contínuo
chamadas regiões supraes
truturais,
do Estado, da política, do Direito,
que irão traçar ‘de fora’ pelas mãos
dos nossos ‘junkers caboclos as
linhas mestras do processo de
modernização. E tempo de rolar
até que parte das novas frações
burguesas se sinta em condições
de reivindicar para
si o controle do arsenal político do
apud
HOLANDA,
E continua o autor, no Brasil “o
novo se mantinha [e se mantém] preso
ao passado. Nosso capitalismo
continuava [e continua] preso com um
em escusos galpões de
fundo de praia, enlevado pelas
mamatas, e nostálgico da capatazia de
apud
HOLANDA,
1980, p. 12). Impressiona a atualidade
do texto de Vianna cuja ressonância
nos lembra uma vez mais o apotegma
de que os
fatos e os personagens de grande
importância em nossa história
ocorrem, por assim dizer, a primeira
vez como farsa, a segunda como
Em especial, a
Ópera do
dramatiza esse processo de
modernização dando destaque à visão
filha do cafetão Duran e
, futura esposa do malandro
Max Overseas. A moça tem tino
empreendedor e incorpora a
racionalidade empresarial no negócio
de contrabando. Sua locução é
eloquente:
Mas é claro, querido, é claro.
Ninguém pedindo
de atividade. o que precisa é dar
um nome legal à tua organização.
Põe um “esse-
a” ou um “ele
atrás do nome e pronto, constituiu a
firma. Firma de importações, por
exemplo. É tão digno quanto
contrabando e não oferece perigo.
Voc
ê passa a ser pessoa jurídica,
igualzinho ao papai. Pessoa jurídica
não vai presa. Pessoa jurídica não
apanha da polícia... Acho até que é
imortal, pessoa jurídica (
1980, p. 109).
A malandragem deixa de ser
coisa de “malandrinhos” para se tornar
ação racional, coisa de profissional. E,
uma vez mais, é Teresinha quem
vislumbra o futuro:
Sangue novo! A nova civilização! É
claro que os malandrinhos, os
bandidinhos e os que acham que
sempre um jeitinho, esses vão
apodrecer debaixo da ponte. Mas
ne
sse povo fora não
vagabundo e marginal, não. E vai ter
um lugar ao sol pra quem quiser lutar
e souber vencer na vida. É daí que
vem o progresso, Max, do trabalho
dessa gente e da nossa imaginação.
Daqui a uns anos, você vai ver só.
Em cada sinal d
farol de carro, em cada nova sirene
de fábrica vai ter um dedo da nossa
firma. Você devia se orgulhar, Max
(HOLANDA,
1980, p. 170).
A percepção progressista de
Terezinha deve-
se, talvez, ao fato de
ser ela alguém que olha de fora e nã
estando envolta nas brumas da
malandragem tradicional introduz
sangue e espírito novo à tradição.
368
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
- ISSN 2237-1508
Fluxo Contínuo
)
de contrabando. Sua locução é
Mas é claro, querido, é claro.
Ninguém pedindo
pra você mudar
de atividade. o que precisa é dar
um nome legal à tua organização.
a” ou um “ele
-tê-dê-a”
atrás do nome e pronto, constituiu a
firma. Firma de importações, por
exemplo. É tão digno quanto
contrabando e não oferece perigo.
ê passa a ser pessoa jurídica,
igualzinho ao papai. Pessoa jurídica
não vai presa. Pessoa jurídica não
apanha da polícia... Acho até que é
imortal, pessoa jurídica (
HOLANDA,
A malandragem deixa de ser
coisa de “malandrinhos” para se tornar
ação racional, coisa de profissional. E,
uma vez mais, é Teresinha quem
Sangue novo! A nova civilização! É
claro que os malandrinhos, os
bandidinhos e os que acham que
sempre um jeitinho, esses vão
apodrecer debaixo da ponte. Mas
sse povo fora não
vagabundo e marginal, não. E vai ter
um lugar ao sol pra quem quiser lutar
e souber vencer na vida. É daí que
vem o progresso, Max, do trabalho
dessa gente e da nossa imaginação.
Daqui a uns anos, você vai ver só.
Em cada sinal d
e trânsito, em cada
farol de carro, em cada nova sirene
de fábrica vai ter um dedo da nossa
firma. Você devia se orgulhar, Max
1980, p. 170).
A percepção progressista de
se, talvez, ao fato de
ser ela alguém que olha de fora e nã
o
estando envolta nas brumas da
malandragem tradicional introduz
sangue e espírito novo à tradição.