PragMATIZES, Niterói/RJ, v. 16, n. 30, jan-dez. 2026. 17
contrárias à censura levadas à Subcomissão.
Por fim, a participação do Ministro da Cultura Celso Furtado nos debates da
Subcomissão – realizada posteriormente às audiências públicas e em cumprimento de
sua função como representante obrigatório do governo Sarney – conferiu ao debate sobre
a cultura e sua significação uma densidade singular. Sua contribuição foi particularmente
interessante porque buscou articular diretamente a constituição da lei de benefícios
fiscais – popularmente conhecida na época de sua gestão como “Lei Sarney” –, com a
legitimidade, a ela conferida, pelo conceito antropológico de cultura.
No ver de Furtado, “a política de desenvolvimento não pode existir sem uma
política cultural”, ou, mais precisamente, a racionalidade econômica deveria ser presidida
pelos “valores das coletividades e os sistemas simbólicos que constituem as culturas”
(ANC, 1987b, Supl. 99, p. 212-213). Daí emerge, necessariamente, o problema valorativo
referente ao significado de tais “sistemas simbólicos” – questão logo levantada, no
momento de debate, pelos constituintes. A Louremberg Nunes Rocha (PMDB-MT), o
Ministro responderá:
O SR. CELSO FURTADO - O problema do perfil cultural ou da identidade cultural
do povo brasileiro, evidentemente, é uma coisa muito elusiva. São essas coisas
que nós sabemos, temos intuição do que é, mas não podemos equacionar, ou
definir, porque definir, na realidade, é analisar, é traduzir em coisa mais simples,
e nada mais simples do que a identidade, ela vem antes de tudo o mais. Ela está
em cada parte e ao mesmo tempo está no todo. Portanto, o Ministério não se
atreveria, ele mesmo, como organização, como uma instituição pública, a
estabelecer um perfil. O que fazemos é buscar na sociedade aqueles valores que,
sendo inalienáveis na sociedade, são parte desse patrimônio cultural e
contribuem para formar esse perfil. O que nós temos em conta, o que nos parece
ponto completamente fora de controvérsia, é que o Brasil, dentro de sua
identidade cultural, comporta importante pluralismo cultural. Hoje em dia o
Brasil está numa fase de afirmação do seu pluralismo cultural. Por exemplo, as
etnias do Sul do Brasil, que durante muito tempo se pensava apenas num
processo de assimilação, que eles eram parte de um todo, evidentemente que
eles também têm uma identidade própria e aí por diante. Então, nós estaremos
hoje numa fase, aqui está o Professor Florestan Fernandes, que entende mais
disso do que eu, porque ele é Sociólogo, e eu sou um simples Economista, é que
existe liberdade nessa identidade indubitável do Brasil, da sua cultura, que vem
do fato de que o Brasil se formou, durante três séculos, dentro de um processo
cultural bastante isolado [...]. Esse isolamento do Brasil fez com que a identidade
do brasileiro fosse muito marcada. Se houvesse, digamos assim, esse núcleo
inicial, essa matriz inicial da cultura brasileira é hoje perfeitamente identificável,
e todo o pluralismo atual se faz a partir dela, o que faz com que o Brasil sendo
um País completamente novo, porque o País não vem de um processo de
conquista e sim de ocupação, porque as civilizações que estavam aqui
anteriormente ou foram dispersas ou foram rejeitadas ou expulsas, ou
destruídas, e o que se criou aqui foi um processo cultural novo, a partir dos
portugueses, da matriz portuguesa, dos recursos africanos, que se aproveitou e
tudo o mais. Essa cultura nossa é perfeitamente identificável (ANC, 1987b, Supl