PragMATIZES, Niterói/RJ, v. 16, n. 30, jan-dez. 2026. 19
Segundo Davis (2016, p. 39), mulheres escravizadas eram tratadas como “animais
reprodutores para que seus filhos se tornassem força de trabalho”. A desumanização
também está presente na trajetória de Tiana: o fato de ela se apresentar sob a forma de
um sapo em grande parte da narrativa do filme reitera o preconceito contra mulheres
negras. Seu corpo negro quase não está presente durante o filme. Gomes (2022) afirma
que a princesa é retratada de forma ambígua, como se a Disney quisesse aderir às
pressões por representatividade, mas sem romper certo padrão de estereótipo do corpo
feminino negro. Segundo ela, personagens negras ou pardas são construídas a partir de
uma certa passabilidade, ou seja, possuem uma pele negra mais clara, o cabelo é no
máximo cacheado, os traços de nariz, testa e lábios são mais afinados.
Lélia Gonzalez (2020) afirma que mulheres não brancas são definidas por um
sistema ideológico de dominação, patriarcal e racista, que impõe o branqueamento
através dos meios de comunicação de massa, das narrativas que perpetuam valores
eurocentrados como universais. A história de Tiana revela como “o desejo de
embranquecer é internalizado, com a simultânea recusa da própria raça, da própria
cultura” (Gonzalez, 2020, p. 131). Sob esse aspecto, a ideologia do branqueamento
promove a imagem de controle da mulata de traços delicados, nariz fino, lábios bem
desenhados e personalidade obediente. Tiana traz elementos que dialogam com a crítica
de Gonzalez, sobretudo se considerarmos que:
A mulher negra é vista na sociedade brasileira como um corpo que trabalha e é
superexplorado economicamente: ela é faxineira, arrumadeira, cozinheira, a
mula de carga de seus empregadores brancos, corpo que fornece prazer e é
superexplorado sexualmente. Ela é a mulata do carnaval, cuja sensualidade recai
na categoria do erótico-exótico (Gonzalez, 2020, p. 170).
Gonzalez (2020, p. 216), ao mencionar a beleza negra promovida pelo Ilê-Aiyê no
Brasil (Salvador), desde os anos 1970 e 80, ressalta que as corporeidades apreciadas
articulavam a elegância dos trajes e dos gestos, o modo altaneiro de se apresentar e se
portar, o cuidado com os cabelos (sem alisamento), a presença que demonstrava
confiança nos próprios saberes, crenças e desejos.
De maneira semelhante, podemos indagar acerca da maneira como as princesas
autônomas, como Moana e as irmãs Anna e Elsa, vivenciam a possibilidade de
construírem uma corporeidade que escapa às definições tradicionais. Elas encarnam
mulheres mais fortes e confiantes em suas próprias experiências (amparadas sempre nas
experiências de outras mulheres próximas), utilizando saberes, intuições e alianças como