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COSTA, Ana Elísia da. As caixas de Salete: tecituras de narrativas da e na
Cozinha Solidária da Vila Barracão. PragMATIZES - Revista Latino-
Americana de Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.156-178,
set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
As caixas de Salete: tecituras de narrativas da e na Cozinha Solidária da Vila
Barracão
Ana Elísia da Costa
1
DOI: https://doi.org/10.22409/pragmatizes.v15i29.66403
Resumo: Exploro neste texto memórias de mulheres que atuam na cozinha solidária da Vila Barracão,
na periferia de Porto Alegre. Entre essas mulheres, destaco Salete que, ao guardar sonhos e dores em
“caixas”, mobiliza sentimentos e reflexões que me atravessam nesta escrita. Meu encontro com elas
foi promovido por um projeto de ensino-extensão-pesquisa que registrou suas narrativas e revelou
histórias de abandono e opressão, bem como de resistência e insurgência. Visibilizar tais histórias e
refletir sobre os papéis das mulheres nas cozinhas solidárias e nas periferias urbanas o objetivos
deste trabalho. Em uma escrita experimental, ao mesmo tempo em que documento e reflito sobre o
tema, também busco pensar sobre os sentidos pessoais deste trabalho e sobre a pesquisa por
narrativas. O estudo é construído como uma tecitura frouxa, aberta. Ato “nós”, mas também deixo
“pontas soltas” para a composição de ficções por vir ou de histórias sem fim.
Palavras-chave: narrativas; cozinhas solidárias; mulheres; periferia; Vila Barracão.
The Salete boxes: weavings of narratives from and in solidarity kitchen of Vila Barracão
Abstract: In this text, I explore memories of women who work in the solidarity kitchen of Vila Barracão,
on the outskirts of Porto Alegre. Among these women, I highlight Salete who, by keeping dreams and
pain in “boxes”, mobilizes feelings and reflections in me that permeate this writing. My meeting with
these women was promoted by a teaching-extension-research project that recorded their narratives and
revealed stories of abandonment and oppression, as well as resistance and insurgency. Making these
stories visible and reflecting on the roles of women in solidarity kitchens and urban outskirts are the
objectives of this work. In experimental writing, at the same time as I document and reflect on this topic,
I also seek to think about the personal meanings of this work and about researchs based on narratives.
The study is assembled as a loose, open fabric. I act “knots”, but I also leave “loose ends” for the
composition of fictions to come or endless stories.
Keywords: narratives; solidarity kitchens; women; periphery; Vila Barracão.
Cajas de Salete: tela de narrativas desde y en la Cocina Solidaria de Vila Barracão
1
Doutora em Arquitetura pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Docente do
Departamento de Arquitetura e do Programa de Pós-Graduação em Planejamento Urbano e Regional
da UFRGS. E-mail: ana_elisia_costa@hotmail.com. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-4829-5699.
Recebido em 30/01/2025, aceito para publicação em 22/08/2025.
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COSTA, Ana Elísia da. As caixas de Salete: tecituras de narrativas da e na
Cozinha Solidária da Vila Barracão. PragMATIZES - Revista Latino-
Americana de Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.156-178,
set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
Resumen: En este texto exploro memorias de mujeres que trabajan en la cocina solidaria de la Vila
Barracão, en la periferia de Porto Alegre. Entre estas mujeres destaco a Salete quien, al mantener en
“cajas” sueños y el dolor, moviliza en sentimientos y reflexiones que permean este escrito. Mi
encuentro con estas mujeres fue promovido por un proyecto de enseñanza, extensión e investigación
que registró sus narrativas y reveló historias de abandono y opresión, así como de resistencia e
insurgencia. Visibilizar estas historias y reflexionar sobre los roles de las mujeres en los comedores
solidarios y en la periferia urbana son objetivos de este trabajo. En una escritura experimental, al mismo
tiempo que documento y reflexiono sobre este tema, también busco pensar en los significados
personales de este trabajo y en investigaciones basadas de narrativas. El estudio se ensambla como
una tela suelta y abierta. Hago “nudos”, pero también dejo “hilos sueltos” para la composición de
ficciones por venir o de historias sin fín.
Palabras clave: narrativas; cocinas solidarias; mujer; periferia; Vila Barracão.
As caixas de Salete: tecituras de narrativas da e na Cozinha Solidária da Vila
Barracão
Salete vem a mim com um
sorriso incomum na cozinha
solidária da Vila Barracão. É
dia de encerramento de nossas
atividades, após três meses de
trabalho conjunto.
“Tenho uma coisa para te
mostrar”, diz ela. Retira da
bolsa cópias amareladas de
páginas de uma revista. Com
os dentes à mostra, explica que
ali eu encontraria parte da
história da Vila Barracão e dela
própria! Folheia a revista e
mostra uma foto sua em frente
à casa própria. Destaca que
tinha cabelos curtos e que
naquela época foi até “garota
propaganda” da prefeitura
sobre o loteamento da Vila.
Gargalha.
Sorrio também e pergunto se
posso fotografar o material,
porque gostaria de lê-lo com
mais atenção depois.
A história anterior tem como
personagem central Salete, uma
mulher negra, idosa, voluntária em uma
cozinha solidária e moradora da Vila
Barracão, na periferia de Porto Alegre.
Ela mobiliza em mim o exercício da
escrita, talvez pelas circunstâncias dos
nossos encontros e desencontros,
conversas e silêncios. Talvez por me
fazer olhar para mim mesma,
principalmente quando soube das
“caixas” em que guardou dores e
sonhos até conquistar sua casa.
Além de Salete e suas
memórias, habitam nestas páginas as
memórias narradas por suas
companheiras da cozinha solidária,
cujas histórias de vida se entrelaçam.
Eu também figuro no texto, que a
matéria-prima desta escrita gira em
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
torno de registros observações,
escutas, sentimentos e reflexões
feitos na, e a partir da, convivência com
essas mulheres, promovida por um
projeto de ensino-extensão-pesquisa
desenvolvido entre agosto de 2024 e
janeiro de 2025.
O enredo que aqui se ensaia o
tem heróis, nem conquistas
glamorosas. Falo sobre cotidianos
silenciosos, histórias de abandono e
opressão, de resistência e insurgência,
muitas vezes expressas no gesto banal
de guardar, prover famílias e fruir vidas.
Busco visibilizar histórias apagadas ou
silenciadas, dar luz à existência das
mulheres e dos territórios que ocupam,
como o “barracão” da cozinha e a Vila
Barracão. Mas não só. Busco também
refletir e ampliar os sentidos dos papéis
das mulheres nas cozinhas solidárias e
periferias urbanas. Por outro lado, uso
esta oportunidade para experimentar
uma escrita que, no seu fazer-pensar-
sentir, permita-me refletir sobre os
sentidos pessoais do trabalho para, e
com, a cozinha da Vila Barracão e da
pesquisa por narrativas.
Este texto é, em si, um
experimento. Tramo, de modo não
linear ou cronológico, anotações de
campo e extracampo, como as
primeiras indicadas no texto em recuo e
itálico, desde dispensadas de serem
referenciadas. Neste exercício, ora
deixo algumas “pontas soltas”,
compondo um narrar sem pretensão de
ser verdadeiro ou definitivo; ora “ato
s”, explicando a natureza acadêmica
do trabalho e fazendo conexões com
referências bibliográficas e possíveis
cronologias.
Desde uma estética-ética-
política de pesquisa que refuta a
objetivação, persigo a composição de
um conhecimento como uma tecitura
frouxa, inconclusa (Ingold, 2022).
Talvez a mesma tecitura de que são
feitas as cestas nas ficções de Le Guin
(1989, p. 6-7): recipientes que são
“útero de coisas em gestação e esse
túmulo de coisas que um dia foram,
essa história sem fim”.
Contexto
Salete esboça alguns sorrisos.
Estamos no evento II Encontro
Cozinhas-Território, no saguão
da Faculdade de Arquitetura da
Universidade Federal do Rio
Grande do Sul. Ali, um móbile
de marmitas e fotografias
homenageia Salete e suas
companheiras na Cozinha
Barracão. Fico imaginando se
ela se surpreendeu por figurar
na universidade e se entendeu
que estava ali por
considerarmos que ela tem
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“bagagem” para ensinar a
academia.
Seus sorrisos, contudo,
cessam quando é convidada a
compor a mesa do evento com
representantes de outras
cozinhas solidárias presentes.
Um pouco a contragosto,
protesta: Não vou falar nada,
hein?”.
Apesar de a mesa querer dar
protagonismo às comunidades
das cozinhas, seu silêncio é
inicialmente respeitado. A
plateia, todavia, o ressente e
protesta, mobilizando-me uma
defesa com tom carinhoso e
brincalhão: “Gente, deixem a
Salete! Ela veio para a mesa já
dizendo que não queria falar!”.
Ela confirma a relutância com
uma expressão engraçada,
causando risos no público.
O silêncio de Salete parece
timidez. Teria meu respeito à sua
condição mobilizado algum sentimento
de confiança nela? Isso poderia
explicar o fato de, no dia seguinte, após
três meses de trabalho, ela finalmente
me entregar informações que tanto
demandava? Teríamos vivido, enfim,
um ‘verdadeiro encontro’ naquela
situação?
***
Na Cozinha, Beth avisa: “Ana,
a Salete vai também ajudar na
oficina de reboco! Ela também
entende de construção!”.
Recordo-me de que, de fato,
Salete nos havia contado
sobre sua participação na
construção do barracão da
cozinha: “nós, mulher,
construímos isso aqui!”.
Acolhi com alegria sua
atuação! Uma mulher da
cozinha se juntaria ao Will e ao
Victor, jovens moradores da
Vila, para ensinar aos (às)
estudantes de Arquitetura da
Universidade a arte do reboco.
A intenção era transformar o
Barracão em um canteiro
experimental, contando com
‘professores’ da comunidade
capazes de destituir papéis de
quem pode ensinar. Com
Salete, destituiríamos não só a
academia, mas também os
homens, dominantes nos
canteiros de obra.
Mantendo seriedade, Salete
observa os dois ‘guris’ que
misturavam areia e cimento,
marcavam guias do reboco e,
com a colher de pedreiro,
lançavam gordas porções de
argamassa na parede do
barracão. Discretamente, lhe
pergunto: “Você acha que está
certo?”. Responde com poucas
letras: “Cada um faz de um
jeito, né?!”.
A sua atitude isenta se desfaz
quando alguns estudantes
arriscam usar a
desempenadeira sobre o
reboco úmido. Vendo a
insegurança de um deles, solta
uma piadinha em meio a um
sorriso maroto: “Ele está ali
acariciando a namorada?”.
Salete prefere dar protagonismo
aos mais jovens ou se subjuga à
condição masculina deles? De
qualquer forma, é elegante! Não julga
ou, se julga, faz isso com bom humor.
Ali, aprendo sobre respeito e sobre
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táticas do ensinar-aprender. Vou
tateando aproximações com aquela
mulher, sem certezas sobre os
caminhos a trilhar.
***
Ao redor da mesa da Cozinha
Barracão, Dona Fátima, antiga líder
comunitária, fala às cozinheiras e aos
meus estudantes. Conta-nos sobre sua
vida e sobre a Vila Barracão, histórias
que se confundem. A Vila teria se
originado de uma ocupação, seguida
de contínuas reivindicações por
melhorias:
“Em 1990, eu entrei na
comunidade. Eu morava de
aluguel e, nesse meio tempo,
apertou o pagamento do
aluguel e eu tive que fazer uma
casa no meio da rua [...].
começamos a entrar na
comunidade para ver o que
seria dessas pessoas que
moravam no meio da rua, que
tinham as vilas com casas em
cima das outras, todos
apertados. [...] abrimos a
[Associação] União de Vilas da
Grande Cruzeiro [...]. E foi indo,
e foi crescendo, e as vilas
foram se esgotando, não
tinha mais lugar para construir
casa. Em 1993, [...] a gente
resolveu invadir isso aqui, era
mato, tudo mato. de cima
até a faixa [...], a gente invadiu
em umas dez pessoas mais ou
menos. veio a polícia e
correu todo mundo. o
pessoal começou a se unir
mais, aí a gente programou em
invadir na sexta à noite, porque
sábado e domingo não tem
polícia.
[...]
Então, assim, a gente lutava
com unhas e dentes por tudo.
tinha aquelas reuniões na
paróquia, na reunião do
orçamento participativo, e
apareceu o Alceu Collares. [...]
E não prestou! Eu levantei ‘tu
falando porque tu tem, o povo
aqui ninguém tem’ e ele me
mandou botar pra fora.
Ganhamos tudo na briga”
(Depoimento de Fátima
Andreola. P2, 2024, p. 21).
Sinto-me tocada (e
provavelmente também os demais
presentes) pela história de vida e luta
daquela mulher, no alto de seus oitenta
anos. Carismática, ela centraliza as
falas. Quero dar protagonismo também
às outras mulheres, em especial à
Salete que observa de canto, quieta.
Prevalecendo-me da posição de quem
pode perguntar (e talvez questionável),
arrisco convidar Salete para contar
também sua versão.
Timidamente, ela se manifesta,
sem desmerecer a versão anterior
“Ela pegou a mais tempo que eu. Eu
vim para cá e já tava pronto” –. Sua voz
é baixa, quase inaudível:
“Bom, nós viemos aqui porque
eu morava no morro Santa
Teresa, lá em cima. Nós íamos
morar embaixo, mas como
tinha que sair aquelas casas
atrás do posto [...], a gente
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deu lugar para aquelas
pessoas ficarem ali.
disseram assim ‘bom, vocês
vão ganhar casas de dois
pisos’. Aí nos interessemo [...].
Ai a gente veio para [o
edifício ‘barracão’]. Era
madeira, tava caindo aos
pedaços. a gente derrubou
tudo e fizemos aqui, pra nós vir
almoçar aqui, tomar café, tudo
aqui. nós fizemos em cima
16 casas, 16 casinhas. Nós
vinha aqui de meio dia para
almoçar. Foi isso o que
aconteceu em 19 [oscila]...
1994. Aí lá a gente trabalhou 3
anos e meio, [...] sábado,
domingo e feriado. E depois no
dia que tava tudo pronto, iam
invadir e nós precisamos
ocupar sem rebocar, sem nada.
[...] Fomos sorteados e daí eu
peguei a casa 3 [...] e fiquei
morando ali até hoje, 40 anos
já” (Depoimento de Maria
Salete Oliveira. P2, 2024, p.
22).
Percebo contradições entre as
datações que elas apresentam. Sem
salientar isso, pergunto à D. Fátima
como foi a experiência de construção
de sua casa. Ela revela a construção
das casas em mutirão, a da Salete veio
depois. Antes, cada um construía sua
casa como podia, a partir de uma
infraestrutura mínima oferecida:
“Não sei se foi o DEHMAB ou a
prefeitura que fizeram umas
casinhas de compensado, a tal
casinha de emergência, e fazia
na frente da casinha um buraco
pra fazer xixi! Era o buraco
com aquela coisa. Era feio,
aquele monte de casinha,
umas com telhado de lona,
outras com telhado de zinco, ai
como era feio! A gente passava
de ônibus embaixo e era uma
malocada!
[...]
Eu trabalhava em uma casa de
família e minha patroa me deu
um ano de salário e me deu os
materiais, e um sobrinho meu
construiu a minha casa. Eu
fiquei um ano sem receber,
com quatro crianças, as
passagens. E muitos se
sacrificaram também para
fazer as suas casas, então foi
uma vida muito difícil. Eu
separada do marido, com filho,
construí, graças a Deus. Tenho
minha casa” (Depoimento de
Fátima Andreola. P2, 2024, p.
22-23).
Os relatos, visivelmente, afetam
a todos: a mim, aos(às) estudantes e às
demais cozinheiras. Segue um almoço
coletivo. Mais uma vez, a comida ao
redor da mesa tem uma espécie de
magia que dilui dores e recompõe o
clima afetuoso.
Fátima e Salete, em comum,
vieram de ocupações e lutaram pelo
direito de morar. Revelam orgulho por
resistirem aos abandonos e às
opressões impostas às mulheres por
governos e pela vida. Suas
“experiências” pessoais, ao serem
entrecruzadas, constroem “vivências”
coletivas, histórias-do-comum
(Mizoguchi, 2015).
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Apesar dessas semelhanças, há
nuances que as diferenciam no lento
processo de construção da Vila: Fátima
assume poderes junto à associação de
moradores, enquanto Salete se
subordina a uma massa homogênea de
mutirantes. Igualmente, Fátima é mais
eloquente sobre suas conquistas
pessoais e políticas, enquanto Salete é
mais contida, pouco revelando sobre
sua vida pessoal. A primeira é branca
assim como eu, que pergunto ; a
segunda é negra assim como a
maioria das mulheres ali presentes, que
escutam. Ali estão demarcados
diferentes lugares de fala!
O que se apresentava era uma
ficção: memórias únicas de mulheres
que, mesmo atuando coletivamente,
guardavam segredos de vidas íntimas,
alegrias e traumas. Se a memória
narrada expressa uma “visão de
mundo” e uma “liberdade de expressão
dada a si” como protagonista e
testemunha de uma história coletiva
(Brum, 2006. p. 59), as narrativas de
Salete eram atravessadas por silêncios
impostos à cor de sua pele.
***
Chego na cozinha, pela segunda
vez, mas agora com meus alunos. Café
e pães na mesa, o que iria se repetir em
todos os encontros seguintes.
Integrantes do grupo Mulheres de Luta
que coordenam a cozinha vão sendo
apresentadas. A maioria delas mora na
Vila. A acolhida afetuosa causa
estranhamentos para quem vem da
frieza do mundo acadêmico. Salete se
mantém meio arredia. Um jeito de
corpo. Um jeito de olhar.
Começa ali nossa relação.
Contexto
O trabalho na Cozinha Solidária
da Vila Barracão integra o projeto de
extensão ‘Espaços de Convergência
Comunitária e Social’, desenvolvido
pelo Margem_Lab (Laboratório de
Narrativas Urbanas) da Universidade
Federal do Rio Grande do Sul
(UFRGS). O projeto emergiu durante as
enchentes que atingiram o Rio Grande
do Sul em maio de 2024, motivado pelo
reconhecimento da fundamental
importância dos espaços de
convergência social para apoiar
comunidades antes, durante e após
calamidades.
Neste contexto, destacaram-se
as cozinhas solidárias, especialmente
aquelas atuantes nas periferias da
cidade. Essas cozinhas, para além de
oferecerem comida, são espaços de
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trocas, de educação e de cidadania.
Nelas, laços de vizinhança são
fortalecidos e lutas por direitos
articuladas, o que é especialmente
relevante em contextos historicamente
abandonados e/ou convertidos em
palcos de disputas pela moradia segura
e digna no s-catástrofes (Caron et
al., 2024; Caron; Rodrigues; Isoppo,
2024).
Em apoio às cozinhas, o projeto
objetiva mapeá-las cartográfica e
narrativamente (Sonário Cozinhas-
Território, 2024) e desenvolver
assessoria técnica para as cozinhas
ligadas aos movimentos sociais
2
,
principalmente na perspectiva de
qualificar seus espaços físicos
precários. O projeto também promove o
encontro entre cozinhas nos eventos
‘Encontro Cozinhas-Territórios’, um
deles mencionado no início deste
trabalho. Em todos esses âmbitos, as
narrativas registros de relatos dos
atores envolvidos são tomadas como
formas fundamentais de
conhecimentos vividos e subjetivos
para a compreensão e produção da
cidade (Margem_Lab, n.d).
2
Movimento de Trabalhadores Sem Teto
(MTST), Movimento Nacional de Luta pela
Especificamente junto à Cozinha
Barracão, ligada ao Levante Popular da
Juventude (MST), foi desenvolvido um
projeto participativo de ativação dos
seus espaços, envolvendo a disciplina
de graduação ‘Projeto Arquitetônico 2’
(P2) e o projeto de pesquisa ‘Inventariar
e Inventar Cidades’, ambos da
Faculdade de Arquitetura da UFRGS.
Articulam-se aqui, portanto, extensão-
ensino-pesquisa.
A Cozinha Barracão
A cozinha se encontra em um
“barracão”, na Praça Rejane Vieira da
Vila Barracão. Essa vila faz parte da
região conhecida como Grande
Cruzeiro, um território periférico, com
ocupações irregulares desde a década
de 1950 e que, historicamente, é
desassistida e marginalizada pelos
governos e pela sociedade.
O “barracão” é sede da
Associação de Moradores União de
Vilas, espaço do grupo Mulheres de
Luta, e da cozinha solidária,
consolidada na urgência da catástrofe
com o apoio do Levante da Juventude.
As funções desenvolvidas, contudo,
Moradia (MNLM) e Levante Popular da
Juventude (LPJ-MST).
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passaram a ser comprometidas pelas
reduzidas dimensões e pela
precariedade do espaço, o que
mobilizou a comunidade local a buscar
apoio dos Engenheiros Sem Fronteiras
e da UFRGS para qualificar,
respectivamente, seus espaços
internos e externos.
Foi demandada à Universidade
a promoção de encontros no entorno da
cozinha, com vistas a efetivá-la como
espaço de convergência social e a
estimular cuidados que reduzissem
recorrentes vandalismos e descartes
de lixo. As ações propostas se
basearam na ideia de que cuidados são
mobilizados por sentimentos de
pertencimento. Sentimentos esses que,
por sua vez, poderiam ser estimulados
pelo reconhecimento dos significados
do espaço no passado e no presente,
assim como pela garantia do direito de
toda comunidade de pensar-agir sobre
esse espaço, prospectando futuros
possíveis.
Sobre o passado da Vila e do
edifício “barracão” pouquíssimas
bibliografias, destacando-se apenas a
atuação da União de Vilas, na Grande
Cruzeiro. Em verdade, o apagamento
da história da Vila Barracão é um
capítulo do apagamento da própria
Grande Cruzeiro. Apesar de existir
como uma reunião de vilas
geograficamente próximas e
historicamente com uma identidade
comum, a Cruzeiro não existe como
região para a gestão pública e como
produtora de cultura para a sociedade.
Neste contexto, assim como
Brum (2006) questiona o que as
histórias da Grande Cruzeiro revelam
sobre a própria cidade em suas
desigualdades e lutas, nos
questionamos sobre a história da Vila
Barracão: o que, desde nosso
encontro, as memórias dessa
comunidade poderiam nos contar sobre
a territorialidade historicamente
abandonada e ameaçada?
Narrativas
É sobre ausências e silêncios
impostos no passado e sobre reações
ou táticas individuais e coletivas para
sobreviver a isso que as memórias
falam. Elas, acionadas pelo ato de
narrar, não descrevem um passado
real, mas são ficções que revelam
sutilezas, maneiras de saber e de
manipular. Envolvem um certo “tato
para driblar ordens impostas, que
podem ensinar sobre alternativas e
invenções para o enfrentamento da
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imprevisibilidade do futuro. Resgatar
memórias, portanto, é uma ação que se
dá na temporalidade do agora, tecendo
relações entre passado-presente-futuro
(Mizoguchi, 2015; De Certeau,1998).
Conforme a perspectiva teórica
apresentada, a estratégia do trabalho
foi promover encontros para discutir o
momento presente da cozinha, suas
potencialidades e desafios, com o
objetivo de construir um projeto de
futuro para o espaço. Neste processo,
memórias do passado foram
naturalmente acionadas e narradas em
rodas de conversa, na partilha de um
almoço coletivo ou em um mutirão
comunitário conforme ilustra a
Imagem 1 a seguir. O foco era escutar
e observar o dito e o não-dito,
esquivando-se de realizar entrevistas
voltadas a um mero coletar de dados.
Imagem 1: Cozinha Solidária da Vila Barracão.
Porto Alegre. 2024. Fonte: Acervo João
Henrique Ramos.
As narrativas emergentes sobre
táticas de viver da Vila no presente e
no passado foram subsidiando a
concepção do projeto futuro, sem
obedecer a roteiros pré-definidos. Não
reduzindo a noção de “projeto” a mero
“desenho” de espaços (Ingold, 2022),
foram propostas oficinas e pequenas
intervenções espaciais. As sugestões
foram testadas e refletidas no ato da
ação de sua execução, o que afetou
mutuamente as comunidades da
cozinha e da Universidade, unindo-as
em expectativas e sonhos de
transformar realidades (Ingold, 2022).
As memórias que emergiram do
processo, como demonstram relatos
anteriores e como outros irão
evidenciar, são registros de
resistências, de lutas pela vida e pela
moradia, de protagonismo feminino e
negro. Revelam também uma política
de cuidados que se mostra
desobediente às ordens colonialistas,
exploratórias, patriarcais e racistas
dominantes.
A revista e outras narrativas
Abro as fotos das páginas da
revista que Salete me repassou. É um
material publicitário ou prestação de
contas da Prefeitura, de 1996. Ali,
166
COSTA, Ana Elísia da. As caixas de Salete: tecituras de narrativas da e na
Cozinha Solidária da Vila Barracão. PragMATIZES - Revista Latino-
Americana de Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.156-178,
set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
encontro algumas informações sobre a
ocupação da Vila e pistas para
empreender novas pesquisas, mas,
especialmente, para conhecer melhor
Salete.
Salete nasceu em Getúlio
Vargas e é mãe de quatro filhos. Morou
onze anos na Vila Nossa Senhora do
Brasil, no bairro Santa Tereza, em um
precário casebre de uma única peça:
“Lá, eu não tinha banheiro, nem água,
nem tanque. Era obrigada a lavar a
roupa na vizinha” (PMPA, 1996, n. p.).
As goteiras da casa faziam com que a
umidade destruísse as paredes de
madeira.
Nos anos 1990, obras de
regularização da Grande Cruzeiro
demandaram a remoção da casa por
obstruir um acesso. Em contrapartida,
lhe foi dada a oportunidade de construir
uma nova casa na Vila Barracão com
um sistema de mutirões promovidos
pelo programa habitacional do
município de ajuda mútua.
Durante o processo, ela
trabalhava como diarista em sete
casas, fazia bonecas de tricô e panos
de louça para garantir renda extra e,
aos fins de semana, era pedreira e
pintora no mutirão das casas. Enquanto
erguia paredes, também sonhava: “a
casa ainda nem existia, mas a gente
imaginava onde colocaria os móveis”
(PMPA, 1996, n. p.).
Para realizar tal sonho, começou
a comprar tudo novo, juntando as
roupas de cama e louças que ganhava
de suas patroas. Guardou tudo em
caixas, até a nova casa ficar pronta.
Este gesto de guardar foi
sensivelmente explorado na matéria,
cujo autor não consigo identificar:
“E foi guardando, como quem
guarda um tesouro. [...]
Deixou tudo empacotado. [...]
Por não ter lugar para distribuir
os móveis na casa de uma
peça, achou melhor nem abrir
os pacotes e guardar para o
novo sobrado. Era uma forma
de proteger tudo da umidade. E
por quase dois anos almoçou e
jantou sentada na cama. Assim
fez com o forno micro-ondas,
com a máquina de lavar roupa
e com o edredom estampado.
Tudo comprado aos poucos, a
prazo. As caixas foram sendo
empilhadas pelos cantos da
minúscula casa. Dentro delas
tinha muito mais do que
simples eletrodomésticos ou
móveis desmontados. As
caixas guardavam o dia de
amanhã.
[...]
Na casa da Salete, de cada
caixa que é aberta, saem
pedaços de um sonho. Um
sonho sonhado dia e noite
dentro da única peça de um
casebre que não existe mais”
(PMPA, 1996, n. p., grifos da
autora).
167
COSTA, Ana Elísia da. As caixas de Salete: tecituras de narrativas da e na
Cozinha Solidária da Vila Barracão. PragMATIZES - Revista Latino-
Americana de Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.156-178,
set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
Esta poética escrita é
empreendida a partir de uma visita à
casa da Salete, como revela alguns de
seus detalhados e precisos registros:
Em cima, fica o quarto bastante
amplo. Televisão aos pés da
cama e um aparelho de som
que fica sempre ligado quando
ela está em casa. Em cada
degrau da escada espiral que
leva ao quarto, Salete colocou
harmonicamente um vaso de
Violeta.
[...]
Lajotas brancas no chão da
cozinha, parede branca na
sala, janelas, porta e escada
com cor areia. Salete tem
tudo programado na cabeça,
mas confessa que ainda não
definiu a cor das paredes do
quarto. “Estou pensando com
carinho que cor eu vou colocar
no meu quarto”, diz sorrindo.
No piso da sala e do quarto
nada de carpete. E, com a
experiência de quem limpa
anos a casa dos outros,
explica: “Dá muito trabalho
para limpar, por isso prefiro um
piso onde possa passar uma
cerinha prática” (PMPA, 1996,
n. p.).
Na visita a casa, provavelmente
houve perguntas, coleta de dados, mas
também registros atentos de gestos e
de silêncios. Quem escreve não
descreve, interpreta, luz ao sensível,
deixando-se afetar por Salete, da
mesma forma que fui afetada. O que
me prende nas caixas de Salete,
entretanto, não são seus sonhos,
mas também as dores que ela deixa
escapar.
As caixas de Salete e as cestas de Le
Guin e Krenak
As caixas de Salete são
suportes ou recipientes que, na
aparente insignificância do exercício de
guardar, permitem contar histórias ou
estórias sobre conquistas cotidianas,
táticas silenciosas diante de
adversidades de múltiplas ordens,
especialmente impostas às mulheres.
Das caixas emergem ficções
similares às que Úrsula Le Guin (1989)
se propõe a resgatar de bolsas, cestas
e panelas cotidianas como forma de
superação de esquecimentos e
apagamentos impostos pela
dominância de histórias heroicas e
violentas que envolvem artefatos
longos e duros, quase sempre
masculinos.
Nós ouvimos isso, todos nós já
ouvimos tudo sobre as varas e
lanças e espadas, as coisas
para bater e cutucar e golpear,
as coisas longas e duras, mas
nós não ouvimos sobre algo
para colocar ou guardar as
coisas, ao recipiente para a
coisa contida. Essa é uma nova
história. Isso é novidade (Le
Guin,1989, p.3).
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COSTA, Ana Elísia da. As caixas de Salete: tecituras de narrativas da e na
Cozinha Solidária da Vila Barracão. PragMATIZES - Revista Latino-
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
A importância dos recipientes
para guardar, para Le Guin (1989), é
que eles, antes de lançarem a energia
para frente, trazem a energia para
casa. Isso é o que historicamente
sustentou, e sustenta, a humanidade,
abrindo também espaços-tempos para
que a própria vida cotidiana se
constitua por outros interesses além de
lutar, guerrear ou ser produtivo, como
quer a lógica capitalista. de se ter
tempo para plantar, escutar um filho,
cantarolar uma música, coisas
importantes para a humanidade que
têm sido desprezadas por não serem
rentáveis e não gerarem histórias tão
“emocionantes”.
É sobre a arte de “guardar para
sobreviver e dispensar tempo para o
viver” que também versam as cestas ou
balaios de Ailton Krenak (Krenak;
Campos, 2022). Ao contestar a
demanda de mil balaios iguais de uma
rede de supermercados às
comunidades indígenas, ele observa
que cestos produzidos por esses povos
atendem demandas efetivas de
“guardar” algo e que, após feitos, um
indígena “tem 10 mil outras coisas
interessantes para fazer” e completa
“brancos é que são capazes de ficar
fazendo 10 mil objetos iguais” (Krenak;
Campos, 2022, p. 74). Na luta para
atender lógicas de produção fordista e
de consumo, brancos abdicam do fruir
a vida e da própria “arte”, que esta
envolve fazer coisas únicas. Cada
cesto é único, é arte! O lento processo
de produzi-lo envolve a subjetivação de
pensar-sentir sobre o tramar, o que vai
transformando o próprio cesto e
construindo um valioso campo de
significação. A sua produção, portanto,
envolve tramas da própria vida
cotidiana: tempos para tramar em meio
a tempos para banhar-se no rio e
dançar com a aldeia, tempos que não
são momentos de luta.
O saber ancestral indígena é
também comum em comunidades que
possuem memórias de viver e instituir
sujeitos coletivos, como as
comunidades negras (Krenak; Campos,
2022). É o que revelam memórias de
mulheres da Grande Cruzeiro (Ávila,
2006), da Vila Barracão, da Salete.
Pela imposição de lógicas
exploratórias, machistas e racistas,
elas aprenderam a produzir e guardar,
provendo suas famílias quase sempre
sozinhas. No árduo cotidiano entre
casa e trabalho, contudo, elas ainda
encontram tempos e forças para viver a
“aldeia-vila”. Desde longa data,
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COSTA, Ana Elísia da. As caixas de Salete: tecituras de narrativas da e na
Cozinha Solidária da Vila Barracão. PragMATIZES - Revista Latino-
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
promovem festas e ações de cuidado,
costuram e cozinham juntas. Nestes
momentos, mais do que produzir,
divertem-se e partilham tempos: para
piadas e gargalhadas, para pedir e
conseguir ajuda, para histórias de si, de
seus filhos, de manhãs para driblar o
patrão e a polícia, de plantas que curam
e de santos que ajudam. Nesta lógica
“improdutiva”, resistem!
Elas também resistem ao
produzirem marmitas únicas, mesmo
quando um grande volume de
produção. A cada dia, alimentos são
transformados pelo tempero de uma
mulher que se voluntaria, pela
criatividade de outra que improvisa com
a falta de um ingrediente, pela receita
nova que experimentam. Ou seja, os
alimentos são temperados por suas
histórias individuais e coletivas. Cada
marmita é um recipiente que guarda
forças e fraquezas do ontem e sonhos
para o amanhã; está cheia “de
começos sem fins, de iniciações, de
perdas, de transformações e traduções,
e de muito mais truques do que
conflitos” (Le Guin,1989, p. 6, grifo da
autora).
Nas cozinhas, panelas e
marmitas são recipientes onde as
mulheres compartilham o que
guardaram, e guardam,
retroalimentando de energia suas
próprias casas e a Vila Barracão, além
de fazerem dela um sujeito coletivo
como ilustrado na Imagem 2:
Imagem 2: Cozinha Solidária da Vila Barracão.
Porto Alegre. 2024. Fonte: Acervo João
Henrique Ramos.
Enlaçando uma história ou quase
atando-a em nós
A tecitura de fragmentos dessas
memórias, por vezes contraditórios e
nem sempre linearmente compostos,
permitiu ensaiar uma versão inicial da
história da Vila Barracão. Tal história foi
relacionada a fatos históricos e
confrontada com referências
bibliográficas sobre memórias da
Grande Cruzeiro, das quais muitas
foram escritas por mulheres: Fátima
Ávila (2006), Rosemary Brum (2006),
Ana Patrícia Barbosa (2020; 2016) e
Ane Briscke Prates (2020), por
exemplo. Recolho delas reflexões e
depoimentos em “segunda mão que,
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COSTA, Ana Elísia da. As caixas de Salete: tecituras de narrativas da e na
Cozinha Solidária da Vila Barracão. PragMATIZES - Revista Latino-
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
somados à minha própria voz,
compõem uma segunda versão com
várias vozes que, ainda assim,
reconhecem distanciamentos raciais,
etários e econômicos entre quem fala e
de quem se fala.
Esta versão é inédita e, apesar
de objetiva e de repetir fatos
expostos aqui, talvez tenha importância
por seu conjunto por dar luz à origem e
à existência da Vila e do seu “barracão”.
Este texto é um exercício de “fazer
política”, pois, como observa Brum
(2006, p. 55), no ato de reconstituir
memórias, comunidades
historicamente abandonadas e
ameaçadas se reconstituem como
personagens sociais das políticas
urbanas.
A Vila Barracão originou-se de
uma ocupação de terras do Instituto de
Previdência Ipê, nos anos 1980.
Estiveram envolvidas na ocupação
pessoas com dificuldades de acesso à
moradia e que se articularam na
3
A União de Vilas foi fundada entre 1979 e
1980, evolvendo inicialmente vinte e seis
Associações de Moradores da Região da
Grande Cruzeiro. Seu objetivo foi articular as
demandas comuns das vilas da região e lutar
coletivamente por melhorias nas condições de
vida da população.
Associação União de Vilas
3
. Entre eles,
estão D. Fátima Andreola
4
e seu ex-
esposo, Sr. Ézio, que relatam:
“Aqui no Barracão,
especialmente, fui um dos que
levantou a bandeira de que
aqui teria que ser ocupada
essa terra, que estava
desocupada” (Depoimento
Ézio. Ferreira, 2020, n.p.).
“[...] a gente invadiu em umas
dez pessoas mais ou menos.
veio a polícia e correu todo
mundo. o pessoal começou
a se unir mais, a gente
programou em invadir na sexta
à noite, porque sábado e
domingo não tem polícia”
(Depoimento tima Andreola.
P2, 2024, p. 22-23).
Na luta pelo direito de morar
nesse território, a União de Vilas foi
muito atuante nos Conselhos
Populares do governo municipal de
Alceu Collares (1986-1989) e em ações
insurgentes. Como relata D. Fátima,
tudo que foi conquistado na Vila, foi na
“briga”, com “unhas e dentes” (P2,
2024).
Entre inúmeras conquistas
dessa época
5
, está a atual escola
4
D. Fátima data o evento em 1983, mas
subentende-se que tenha sido 1983, durante o
governo de Alceu Collares em Porto Alegre.
5
Pode-se citar a formação da Cooperativa de
Trabalho, Produção e Comercialização dos
Trabalhadores Autônomos das Vilas de Porto
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COSTA, Ana Elísia da. As caixas de Salete: tecituras de narrativas da e na
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
estadual Almirante Álvaro Alberto da
Motta e Silva. Sua história se articula
com a origem do “barracão”, edifício
localizado na praça Rejane Vieira que
nome à Vila e onde hoje operam a
União de Vilas e uma cozinha solidária.
O barracão surgiu como uma estrutura
de lona usada por moradores para
pressionar a prefeitura a construir uma
escola no terreno ao lado da praça,
relata D. Fátima (P2, 2024). A ação
surtiu efeito. Enquanto a nova escola
era construída, a antiga lona deu lugar
a um “barracão” provisório de madeira
que serviu de espaço escolar (Barbosa,
2016; Ávila, 2006)
6
:
Em 1986, início de 1987, a
comunidade estava se
mobilizando e solicitando ao
governo municipal a instalação
de uma escola na comunidade.
Até a escola ficar pronta nós
dávamos aula num barracão
que foi construído com três
salas de aula. Em março de
1988, foi inaugurada a escola
(Depoimento Heloisa Simões -
Ávila, 2006, p. 43).
“O único colégio que existia
nessa zona aqui era embaixo
no Nonoai. Demorou muito pra
ter outras escolas e nós
tivemos que lutar muito pra
isso. A comunidade se
mobilizou e a Prefeitura
Alegre Ltda. (COOTRAVIPA 1985) e a luta
pelo posto médico da Cruzeiro (1998).
6
Supostamente, os depoimentos referem-se ao
“barracão” da Vila Barracão, não havendo,
construiu uma escola. Até a
escola ficar pronta as aulas
eram dadas num barracão de
madeira” (Depoimento Alberi
da Silveira Barbosa, 2016,
p.105).
Durante o governo de Olívio
Dutra (1989-1992), quando foram
implementados o Orçamento
Participativo (OP - 1989) e um
Programa de Regularização Fundiária
(1990) (DEMHAB, 2007), a “ocupação
barracão” sofreu mudanças. Ela foi
regularizada como loteamento Ipê-
Barracão, no qual moradores
deslocados por obras de urbanização
da Grande Cruzeiro foram
reassentados estrategicamente
próximos aos lugares de vida (Alegretti,
2005; PMPA, 1996). Depoimentos de
integrantes da cozinha solidária da Vila
ilustram as mudanças e os impactos
em suas vidas, como Elisabeth de
Sousa (Beth), deslocada pela abertura
da Av. Orfanotrófio; e Salete Oliveira,
pela desobstrução de um acesso na
Vila Nossa Senhora do Brasil (P2,
2024).
contudo, certezas em decorrência dos
depoimentos serem apresentados nas
referências sem maiores informações e
contextualizações.
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COSTA, Ana Elísia da. As caixas de Salete: tecituras de narrativas da e na
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Os primeiros reassentados
ocuparam lotes de 6x15m com
recursos próprios
7
, usufruindo de uma
infraestrutura básica oferecida pela
Prefeitura: uma casa de compensado e
um buraco como sanitário. Ao
recorrerem a materiais precários
pedaços de madeira, telhas de zinco
etc. , a paisagem da vila foi por muito
tempo “feia”, conta e julga D. Fátima
(P2, 2024).
Com o governo de Tarso Genro
(1993-1996), programas de incentivo a
cooperativas habitacionais (DEMHAB,
2007) levaram à Vila a experiência-
piloto do “Programa de Ajuda Mútua”
(1993). Este programa previa a
cedência de materiais para a
construção por meio de um sistema de
mutirão de 16 casas geminadas e
assobradadas de 52m2. Nos mutirões,
cada família deveria trabalhar no
mínimo 20h semanais, tal como fez a
mutirante D. Salete nos sábados,
domingos e feriados de três anos
consecutivos (P2, 2024; Alegretti, 2005;
7
As dimensões foram alvo de discussões na
época, objetivavam uma maior densidade e
evitavam que lotes padrões de 12x30m
sofressem futuras fragmentações.
8
Salete relata que ele estava “caindo aos
pedaços” (P2, 2024), o que converge com o
PMPA, 1996). Ao longo deste período,
as mulheres mutirantes tomaram a
iniciativa de reformar o antigo
“barracão”, então precário
8
, para
instalar ali uma cozinha de apoio onde
se reuniam para o café e o chimarrão,
além de almoçarem juntas (P2, 2024).
D. Salete relembra que elas próprias
demoliram parte do corpo de madeira
do “barracão” e construíram seu atual
corpo em alvenaria.
Em 1996, as casas foram
inauguradas e ocupadas às pressas
diante de ameaças de ocupação,
mesmo não finalizados os
acabamentos internos, como nos
revelam Salete e uma matéria da época
(P2, 2024; PMPA, 1996). Neste mesmo
ano, o “barracão” passou a ser a sede
da União de Vilas, sendo também
alugado para festas. Uma foto,
publicada em 2006, documenta a placa
da associação sustentada pelos corpos
de madeira e de alvenaria do
“barracão” (Ávila, 2006), como também
depoimento: “O barracão era um barracão
mesmo, de madeira com telhas de zinco.
Quando chovia era cheio de goteiras, a gente
tinha que estar se cuidando para não cair água
em cima. Quando o vento batia forte quase não
escutávamos as pessoas falarem” (Depoimento
Leontina da Silva. Ávila, 2006, p. 46).
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COSTA, Ana Elísia da. As caixas de Salete: tecituras de narrativas da e na
Cozinha Solidária da Vila Barracão. PragMATIZES - Revista Latino-
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
fotos de D. Beth retratam a ocorrência
de festas no espaço.
Novas tentativas de invasões na
Vila ocorreram no início dos anos 2000,
quando o loteamento ainda não estava
plenamente ocupado. O fato foi tomado
como consequência de uma atuação
lenta e ineficiente do DEMHAB e
mobilizou apoios de alguns vereadores
que registram em ata: “600 pessoas
que, cansadas de esperar por uma
solução do DEMHAB, resolveram
ocupar um terreno que estava três
anos abandonado [...] ocupou o
Conjunto do Ipê Barracão” (CMVPA,
2000, n.p.).
Ainda nos anos 2000, a União de
Vilas abandonou o “barracão” e o
Levante Popular da Juventude (LPJ)
passou a atuar no território em 2006,
com ações ligadas à educação, cultura
e saúde (P2, 2024). Na década de
2010, a Vila foi marcada por
inseguranças advindas das obras da
copa que, com o objetivo de duplicar a
limítrofe Avenida Tronco, removeu
inúmeras famílias da região da Grande
Cruzeiro em 2014.
Em 2021, a União de Vilas
retomou o “barracão” como sede, relata
a sua atual presidente, Beatris Souza
(Bia). Depredado ao longo de anos de
abandono, ele foi reformado nesse
período, em um mutirão conduzido e
documentado em fotos pelo Levante.
Ali, passou a atuar o grupo Mulheres de
Luta, organizado em torno de
atividades de costura e artesanato (P2,
2024). Durante a pandemia, o espaço
distribuiu alimentos, promoveu eventos
solidários e partilhou informações,
como no programa “Marmitas
Educativas” (Ferreira, 2020) e no “Dia
da Solidariedade” (Fraga, 2021).
Com as enchentes que atingiram
Porto Alegre, em 2024, as máquinas de
costura do “barracão” foram
desativadas e o espaço reassumiu a
sua antiga função de cozinha, agora
uma cozinha solidária conduzida pelo
Levante em conjunto com Mulheres de
Luta e voluntários. Fogões, panelas e
lonas ao lado do “barracão” foram
incialmente improvisados. Com a
crescente demanda, a cozinha foi aos
poucos equipada e abastecida, e o
espaço ampliado com uma varanda
lateral. Ali, chegaram a ser produzidas
cerca de mil marmitas por dia (P2,
2024; LPJ, 2024).
No mesmo ano, o grupo
Engenheiros Sem Fronteiras executou
outras obras de ampliação do espaço,
com vistas a retomar as antigas
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atividades de costura. Além do mais,
um projeto de extensão da Faculdade
de Arquitetura da Universidade Federal
do Rio Grande do Sul promoveu ações
e intervenções nos espaços externos
da cozinha, voltadas a consolidá-la
como lugar de convergência social (P2,
2024).
Na cronologia de fatos expostos,
observa-se que a origem e a
consolidação da Vila envolvem
processos conflitivos relativos ao direito
de morar e, também, gestos de
resistência articulados especialmente
junto ao “barracão”.
A Vila, hoje, está consolidada
com infraestrutura, serviços básicos e
melhorias nas casas, mas ainda
enfrenta grandes desafios. Além da
fome combatida pela cozinha, jovens
moradores reclamam por espaços de
lazer e cultura, como sinaliza Victor
Lisboa (P2, 2024). Igualmente, os
jovens desejam oportunidades de
trabalho, cuja escassez é agravada
pela baixa escolaridade e por altos
índices de evasão escolar, como ilustra
um depoimento de 2016: “Esse pessoal
da minha idade, poucos estão na
9
Supostamente, os depoimentos dizem sobre
a Praça Rejane Vieira.
escola e quase ninguém trabalha.
Ficamos em casa ou aqui na praça o
dia todo” (Barbosa, 2016, p. 109)
9
.
Manter as crianças e os
adolescentes na escola e oferecer
atividades de geração de renda são
metas da União de Vilas, nos explica
Bia (P2, 2024). No entanto, disputas
com o tráfico de drogas são obstáculos
para isso, como ela mesma sinaliza
em 2016: “É muito difícil, cada vez eles
começam mais cedo no tráfico. Eles
não querem estudar, trabalhar. Dizem
que podem ganhar dinheiro mais fácil e
mais rápido” (Barbosa, 2016, p. 107).
O tráfico de drogas, somado à
atuação abusiva da polícia, estigmatiza
a região como violenta e perigosa
(Prates, 2020; Barbosa, 2016; Brum,
2006). A violência é uma realidade,
como expressam crianças da escola
que temem frequentar a praça por
causa da presença de armas e drogas.
Contudo, essa violência também é uma
construção da política, polícia e mídia
que engendram preconceitos contra os
moradores. Por outro lado, a presença
e a ação da cozinha, assim como do
cursinho popular Gui Soares que ocupa
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COSTA, Ana Elísia da. As caixas de Salete: tecituras de narrativas da e na
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
a praça, têm dinamizado e inibido a
violência na área, conforme observa
Mariana Dambrós, integrante do
Levante (P2, 2024).
De qualquer modo, o território se
mantém em meio a disputas. Na
ausência de políticas sociais do Estado,
outros poderes se impõem. O presente
reproduz o passado com conflitos que
assumem novas roupagens.
Em contraponto, emergem
também formas de resistências,
mobilizadas pela solidariedade e pela
criatividade que são picas dos que
sobrevivem nas periferias (Barbosa,
2024; Margem, n.p). As cozinhas
solidárias expressam uma dessas
formas de resistências, cujas “táticas”
podem inspirar a construção de outros
possíveis futuros.
Tecituras de pontas ainda soltas ou
sementes a plantar
Enquanto amplio as fotos da
revista da Salete na tela do
computador, imagino que, ao me
entregar este material, ela quis formular
uma pergunta: “E agora, Ana, o que
muda na experiência de três meses a
partir das informações que te
repassei?”.
Abro um arquivo .doc e formulo
uma resposta para a pergunta que não
foi feita:
Querida Salete, saber sobre a
história do loteamento foi
importante, mas conhecer a
história das suas caixas foi
mais importante para mim. Elas
me remeteram à
ancestralidade: as “caixas” de
minha mãe que, em meio a
uma vida com dificuldades,
também sempre guardaram
sonhos. Parte das caixas dela
foi herdada por mim e tenho
acumulado outros pertences e
pertencimentos, outras dores e
esperanças.
As caixas dela e as minhas,
contudo, certamente não são
tão cheias de sofrimentos e
resistências quanto as suas.
Temos acúmulos muito
diferentes devido aos
privilégios concedidos, ou não,
pela sociedade. Por outro lado,
reconhecendo diferenças de
conteúdos, penso que a
habilidade de guardar coisas
em caixas nos une.
As caixas, Salete, nos colocam
em um lugar comum
feminino, maternal, cuidador,
provedor , um lugar de que
pertenço e de que me esqueço,
engolida pela vida produtiva
que a sociedade capitalista,
colonial e patriarcal inventou.
Falta-me capacidade de resistir
e insurgir contra o que me
oprime, uma capacidade que
fui percebendo em você.
Ao “abrir” suas caixas, Salete,
olho para mim, encaro minhas
fraquezas e busco resgatar
alguns sonhos. Um deles é ter
mais tempo para fruir da vida e
dos afetos. Quero ter tempo
para te escrever estas
palavras, sentar-me na
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COSTA, Ana Elísia da. As caixas de Salete: tecituras de narrativas da e na
Cozinha Solidária da Vila Barracão. PragMATIZES - Revista Latino-
Americana de Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.156-178,
set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
cozinha, tomar um café,
escutar uma piada, rebocar
paredes. Tempo para plantar
uma horta na cozinha solidária,
colher frutos amanhã e, nas
próximas estações, reiniciar
tudo de novo.
Tempo para compor uma
história sem fim, porque,
Salete, há, e sempre haverá,
sementes para plantarmos
juntas, nos rebrotarmos. Como
também esperançarmos um
mundo no qual o futuro não
reproduza as dores passadas
que escaparam de suas caixas
e que, provavelmente, são
semelhantes às que
escapariam das caixas de
tantas outras mulheres negras
das periferias.
Com afeto,
Ana
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