PragMATIZES, Niterói/RJ, v. 16, n. 30, jan-dez. 2026. 3
possibilitadas pelas diversas e imprevisíveis ambiências de seus rincões – não seriam
determinantes da bildung (Choay, 1979; Choay, 1985; Magalhães; Brandão, 2023)
independentemente de em determinada cidade haver a realização recorrente de políticas
públicas aderentes aos princípios da Carta das Cidades Educadoras?
Essa linha de questionamento é antiga (Trilla Bernet, 1997). Ainda assim, parece
que seguimos problematizando pouco a mobilização desse conceito no planejamento das
cidades. No âmbito mais específico das cidades cunhadas como educadoras pela AICE, as
informações apresentadas nas “experiências destacadas” – selecionadas pela própria
Associação e publicadas em boletim homônimo – parecem avançar pouco sobre o mérito
do jogo de valorizações e apagamentos culturais legitimados por meio de intervenções
para o “desenvolvimento urbano”. Esse é um primeiro ponto de atenção.
Outra questão que me salta aos olhos é a reprodução do conceito de “cidade
educadora” no campo do urbanismo/planejamento urbano sem observação da
“politicidade” inerente a projetos de intervenção para “desenvolvimento urbano”. Como
se a mera evocação do conceito e/ou dos princípios da Carta garantisse ao projeto de
intervenção urbana propósitos inquestionáveis, uma vez que fundamentados em
intenções educativas. O sentido de politicidade, tal como enunciado por Paulo Freire,
aponta para a inerente parcialidade política de qualquer projeto educativo:
(...) É a isto que eu chamo de politicidade na educação, isto é, a qualidade que tem
a educação de ser política. A questão que se coloca é saber que política é essa, a
favor de quê e de quem, contra o quê e contra quem se realiza. É por isso que
podemos afirmar, sem medo de errar, que, se a política educacional de um
partido progressista e sua prática educacional forem iguais às de um partido
conservador um dos dois está radicalmente errado. Daí a imperiosa necessidade
que temos, educadoras e educadores progressistas, de ser coerentes, de diminuir
a distância entre o que dizemos e o que fazemos (Freire, 1989, p. 28).
Argan, em seu clássico Projeto como destino, de 1965, já salientava o ato de
projetar como uma reação “contra a resignação ao imprevisível, ao acaso e à desordem”,
condição que torna “impossível considerar a metodologia e a técnica do projetista como
zonas de imunidade ideológica” (2000, p. 53). Avançando no reconhecimento da natureza
parcial do ato projetual, posicionamentos críticos sobre a produção urbana
contemporânea vêm questionando a suposta imparcialidade da tecnocracia urbanística,
relativizando os efeitos da implementação de infraestrutura urbana para o bem-estar
social (O’Dwyer, 2020; Helene et al., 2022).
Como apontado por Carlos Nelson F. dos Santos, há séculos existe um esforço