as violências sofridas nos diversos
ambientes, diminuindo-as até que
caibam na pequenez que a dominação
exige.
Essa contação, pois, corrobora a
criação de recursos para a reinserção
nos fluxos e na realidade material em
que vivem, possibilitando-lhes
experimentar outras estratégias de
vivenciar o real. Ela questiona, indaga,
divaga, conserta, estraga, amarga,
adoça, contradiz e reafirma mundos.
Já é tarde, tudo está certo,
cada coisa posta em seu lugar.
Filho dorme, ela arruma o
uniforme, tudo pronto pra
quando despertar. O ensejo a
fez tão prendada, ela foi
educada pra cuidar e servir.
De costume, esquecia-se dela,
sempre a última a sair.
Disfarça e segue em frente,
todo dia, até cansar. E eis que,
de repente, ela resolve então
mudar.
Vira a mesa, assume o jogo,
faz questão de se cuidar. Nem
serva, nem objeto, já não quer
ser o outro, hoje ela é um
também. (Pitty; Mendonça,
2009).
Num certo sentido, adentramos,
como pesquisadoras, em um processo
de deriva, entendido como um
ressignificar dos elementos que
compõem o espaço urbano e que
imbricam a criação de narrativas
artísticas voltadas à materialização
dessa experimentação do local
(Laterza; Barros, 2023). Escutar
histórias trágicas – de naufrágio de um
certo mundo – convida-nos a romper
representações dominantes, a
estranhar determinadas estratégias de
vida e a destruir nossas próprias
certezas diante de um campo
supostamente conhecido por nós.
O movimento de pesquisar
costuma se iniciar pela bibliografia, na
qual somos seduzidas a torná-la
verdade e a submeter as experiências
de campo aos seus ditames. Se nos
deixarmos levar por verdades
inteligíveis, picotamos as histórias a
partir do que nos cabe, buscando
reafirmar hipóteses e repetindo
discursos pré-construídos.
Como psis inseridas em práticas
de pesquisa, podemos seguir a lógica
médica que justamente promove tal
picotar – um corte e colagem que
almeja repetir o já conhecido,
enquadrar, tornar o singular redundante
e encaixá-lo em algo já relatado pela
bibliografia técnica (Clavreul, 1983).
Como feministas, podemos
igualmente nos ensurdecer e, de modo
violento, fazê-las engolir nossas
próprias palavras, reafirmando-as