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CURI, Paula Land; SOUZA, Luiza Christina Marques de. Narrar com
Mulheres: um convite para outras práticas éticas-estéticas-políticas de
pesquisa. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em
Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.95-117, set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
Narrar com Mulheres: um convite para outras práticas éticas-estéticas-
políticas de pesquisa
Paula Land Curi
1
Luiza Christina Marques de Souza
2
DOI: https://doi.org/10.22409/pragmatizes.v15i29.66775
Resumo: O presente artigo surge de inquietações provocadas pelo pesquisar com mulheres em
situações de violências de gênero, tendo como plano de fundo encontros grupais em um ambulatório
universitário especializado. Empreende-se uma trajetória que assume uma indissociabilidade entre
estética e política, conteúdo e forma, para convocarmos um projeto ético-estético-político que se
contrapõe aos ideais da neutralidade científica e à violência da objetificação dos que coexistem nos
processos de construção de uma pesquisa. Partiremos, pois, de um esforço crítico-analítico e
experimental-ensaístico situado e parcial, a partir do qual exploraremos formas outras de produção
acadêmica. Em específico, apostar-sena contação de histórias como uma das possíveis ferramentas
que permitem o materializar por meio da linguagem criativa, da vibração da violência nos corpos das
mulheres e, especialmente, em nosso corpo que pesquisa e escuta. Isso posto, coloca-se um convite
para idealizarmos a produção de conhecimentos que tentem dar contorno e existencialização aos
processos de construção e destruição que ali são acompanhados, de forma a facilitar a emergência de
mundos pautados na multiplicidade e dignidade das formas de vida das mulheres.
Palavras-chave: violências de gênero; narrativas; metodologias de pesquisa; feminismos.
Storytelling with Women: an invitation to other ethical-aesthetic-political research practices
Abstract: This article emerges from concerns arising from research conducted with women
experiencing gender-based violence, within the context of group meetings held at a specialized
university clinic. It embarks on a trajectory that posits the inseparability of political and aesthetics,
content and form, to advocate for an ethical-aesthetic-political project that stands in opposition to the
ideals of scientific neutrality and the violence of objectification of those who coexist in the processes of
research construction. Consequently, we initiate a situated and partial critical-analytical and
experimental-essayistic endeavor, from which we explore alternative modes of academic production.
Specifically, we propose storytelling as a potential tool that enables the materialization, through creative
language, of the reverberation of violence within the bodies of women, and particularly within our own
1
Doutora em Psicologia (Psicologia Clínica) pela Pontifícia Universidade Católica de o Paulo,
(PUC/SP). Docente no Instituto de Psicologia e do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da
Universidade Federal Fluminense (UFF). E-mail: paulalandcuri@id.uff.br. ORCID:
https://orcid.org/0000-0003-4204-8785.
2
Psicóloga. Mestranda em Psicologia pelo Programa de Pós Graduação da Universidade Federal
Fluminense (UFF) E-mail: luizacms@id.uff.br. ORCID: https://orcid.org/0009-0008-8841-406X.
Recebido em 28/02/2025, aceito para publicação em 21/07/2025.
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CURI, Paula Land; SOUZA, Luiza Christina Marques de. Narrar com
Mulheres: um convite para outras práticas éticas-estéticas-políticas de
pesquisa. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em
Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.95-117, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
bodies as researchers and listeners. In light of this, we extend an invitation to conceive of knowledge
production that seeks to delineate and lend existential weight to the processes of construction and
destruction observed therein, so as to facilitate the emergence of worlds grounded in the multiplicity and
dignity of women's life forms.
Keywords: gender-based violence; narratives; research methodology; feminisms.
Narrar con Mujeres: una invitación a otras prácticas ético-estéticas-políticas de investigación
Resumen: El presente artículo surge de inquietudes provocadas por la investigación con mujeres en
situaciones de violencias de género, teniendo como telón de fondo encuentros grupales en un
ambulatorio universitario especializado. Se emprende una trayectoria que asume una indisociabilidad
entre estética y política, contenido y forma, para convocar un proyecto ético-estético-político que se
contrapone a los ideales de la neutralidad científica y a la violencia de la objetificación de quienes
coexisten en los procesos de construcción de una investigación. Partiremos, pues, de un esfuerzo
crítico-analítico y experimental-ensayístico situado y parcial, a partir del cual exploraremos otras formas
de producción académica. En específico, se apostará por la narración de historias como una de las
posibles herramientas que permite materializar, por medio del lenguaje creativo, la vibración de la
violencia en los cuerpos de las mujeres y, especialmente, en nuestro cuerpo que investiga y escucha.
Esto puesto, se plantea una invitación para idealizar la producción de conocimientos que intenten dar
contorno y existencialización a los procesos de construcción y destrucción que allí son acompañados,
de forma a facilitar la emergencia de mundos pautados en la multiplicidad y dignidad de las formas de
vida de las mujeres.
Palabras clave: violencias de género; narrativas; metodologías de investigación; feminismos.
Narrar com Mulheres: um convite para outras práticas éticas-estéticas-
políticas de pesquisa
Introdução
[...] a mulher calada não
incomoda. a mulher calada
acomoda o outro. e se
incomoda. a mulher que fala
incomoda. ela devolve o
incômodo como quem devolve
uma compra danificada. a
mulher que fala entende que
para sobreviver é preciso
colocar o ar dos pulmões pra
fora. inspirar sim. mas expirar
também. a mulher que fala é
um perigo. pro outro. a mulher
calada é um perigo. para si. já
nascemos sendo um perigo.
mas é preciso escolher para
quem. (Scheid, 2024)
Encontramo-nos em uma
peculiar encruzilhada como
pesquisadoras psicólogas que atuam
em um programa extensionista, em um
ambulatório especializado em
violências de gênero contra mulheres,
localizado em uma universidade
federal, oferecendo atendimento
psicológico às mulheres que se
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Mulheres: um convite para outras práticas éticas-estéticas-políticas de
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
inserem em nossa proposta. Nesse
programa, intitulado Programa
Extensionista Mulherio: tecendo redes
de resistência e cuidados, que também
articula outros braços da formação
universitária a saber, ensino e
pesquisa , entramos em contato com
diversas narrativas de mulheres que
sofreram algum tipo de violência de
gênero. Perdidas, imersas em
angústias e dúvidas, sentindo-se
estranguladas e cansadas de tanto
nadar contra marés, essas mulheres,
em nossos encontros grupais, precisam
realizar um novo trabalho: o de ritmar,
o de nomear afetos, experiências e
intensidades que viveram e vivem.
Como facilitadoras do
movimento grupal, convidamos as
mulheres que chegam ao programa a
comparecerem a encontros semanais
de aproximadamente uma hora e meia.
Esse espaço foi pensado como uma
forma de convidá-las a exercitar a
contação de histórias, a escuta e o
aprendizado coletivos, diante dos
temas comuns das violências e das
formas peculiares como estas se
manifestam e produzem efeitos em
suas vidas.
De acordo com a 10ª Pesquisa
Nacional de Violência contra a Mulher,
36% das mulheres cariocas relatam ter
sofrido violência doméstica ou familiar
perpetrada por um homem, taxa
superior à média nacional (30%)
(Datasenado, 2023). Além disso, a
percepção sobre o recrudescimento
dessas violências segue a mesma
tendência: enquanto a média nacional
chega a alarmantes 74%, entre as
fluminenses alcança 80%. É
fundamental atentar para aspectos
essenciais dessa leitura: a percepção
sobre a incidência da violência varia
segundo a cor/raça da mulher, sendo
que mulheres negras, pardas e
indígenas percebem aumento
expressivo em percentuais maiores do
que mulheres brancas e amarelas
(Datasenado, 2023).
Cumpre esclarecer que a
expressão “por um homem”,
apresentada de forma aparentemente
genérica, aparece assim no documento
oficial. Somente em determinado
momento são mencionadas as
diferentes ocupações que esses
homens possuem em suas vidas: 52%
da população feminina nacional é
agredida pelo marido ou companheiro;
15%, por ex-namorado, ex-marido ou
ex-companheiro; 7%, por pai ou
padrasto; 6%, por namorado; 5%, por
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Mulheres: um convite para outras práticas éticas-estéticas-políticas de
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
irmão ou cunhado; e 10%, por outros
não identificados (Datasenado, 2023).
Apesar de esses dados se limitarem às
formas de violência que ocorrem na
vida privada não abrangendo outras
que o referido programa de extensão
também acessa, como intolerâncias
religiosas, transfobias e assédios
morais e sexuais no ambiente de
trabalho , eles nos ajudam a
compreender o que Despentes (2016,
p. 28) expõe cruamente: Nunca iguais,
com nossos corpos de mulheres.
Nunca em segurança, nunca como
eles. Somos o sexo do medo, da
humilhação, o sexo estrangeiro”.
Desse lugar é que as mulheres,
em suas diferentes posições e
marcações sociais tal como
Crenshaw (1989) propõe em sua
categoria de análise das
interseccionalidades , partem: do
medo, da vergonha, da culpa e da
possibilidade de se aliarem ao
patriarcado, submetendo-se em troca
de migalhas; ou das resistências,
pagando o preço de se tornarem
mulheres desviantes. Nesse contexto
em que atuamos, notamos ser
necessária uma escuta atenta e
sensível, capaz de sustentar e
tensionar essas vivências tão comuns,
compreendendo essas pacientes como
partes singulares de uma maquinaria
patriarcal e racista que estrutura nosso
social o que Rolnik (2019) nomeia
como Regime Colonial-Capitalístico.
Nessa encruzilhada,
percebemos a produção de uma
diferença que nos atravessa e seduz
como corpos pesquisadores: supostas
detentoras de determinadas verdades
sobre essas pacientes, vistas como
alienadas ou ignorantes sobre si
mesmas. Somos apresentadas a uma
narrativa hegemônica de neutralidade
um olhar de “lugar nenhum” , tão
preconizado por teorias clássicas
acadêmicas e psicológicas, que nos
posiciona como meras ouvintes.
Se nos constituímos como
pesquisadoras nesses termos,
trilhamos um caminho que nos autoriza
a atribuir verdades sobre o mundo e
sobre a produção da ciência
propriamente dita, como se nossa
escrita fosse atemporal, ahistórica e
neutra, agindo como uma voz
transparente e sem corpo (Haraway,
2018). Assim seríamos, segundo Diniz
e Gebara (2022), um corpo intacto,
inacessível às provocações e aos
convites que o outro nos faz o que
pode domesticar a potência do
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Mulheres: um convite para outras práticas éticas-estéticas-políticas de
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
encontro (e de nossa pesquisa),
conduzindo-nos a práticas
metodológicas que negam o
reconhecimento das mulheres como
produtoras de mundos e de
conhecimentos, dentro e fora do círculo
acadêmico. Ao seguirmos essa lógica
metodológica, continuamos,
simbolicamente, a queimar bruxas,
reproduzindo uma história antiga
narrada por Federici (2017).
Imersas na busca por outras
práticas de pesquisa, somos sutilmente
convidadas a percebê-las por um outro
viés: o de contadoras de histórias.
Desde o nosso primeiro contato grupal,
elas nos convidam a pesquisar de outro
modo: por meio de seus
desestrangulamentos, tropeçamos
juntas na tentativa de (re)contar o
passado, de forma que possam ser
agentes de suas próprias vivências.
Transformamos o ouvir neutro e apático
em uma escuta que se deixa afetar, que
se oferece para apreender a vida de
outras mulheres, co-construindo
saberes que reconheçam suas
experiências, necessidades e direitos
(Diniz; Gebara, 2022). Entregamo-nos
a uma escuta que persiste na abertura
dos possíveis, na visibilização dos
processos de submissão e insurgência,
no estranhamento e na inquietação
constantes reafirmando a
possibilidade de circulação, de abertura
de sentidos e de (re)formulações das
condições de vida.
Nesse sentido, a proposta deste
trabalho é um convite: o de pensar
como nossas práticas acadêmicas, em
especial no campo dos saberes
psicológicos, podem produzir fissuras
nos modos instituídos de fazer ciência,
ao nos colocarmos como facilitadoras e
compositoras de histórias a partir dos
encontros com mulheres e daquilo que
se produz enquanto experimentamos
esses processos.
Como elas, buscamos nossas
palavras uma composição que
materialize aquilo que nos solicita
passagem; um organizar que, em
alguma medida, possa dar conta
daquele incômodo que move nosso
pesquisar. Assim como elas, estamos
em processo de (re)construção de
histórias, de (de)compor fios, de
materializar e nomear os caminhos e
vetores que nos fizeram estabelecer tal
compromisso ético, político e estético
de pesquisa.
Em vez de depurarmos, faremos
um chacoalhar de cristais, de
impurezas, daquelas visualidades tão
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Mulheres: um convite para outras práticas éticas-estéticas-políticas de
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difíceis de serem apreendidas pela
linguagem. Passamos de um campo
supostamente dado e conhecido das
violências de gênero à abertura de suas
diferentes maneiras de estar e produzir
efeitos na vida cotidiana das diversas
mulheres em vez de pré-conceitos,
trabalharemos com invenções e
reformulações.
Esta escrita diz menos sobre
acompanharmos, registrarmos e
pensarmos sobre essa mulher
acessando seus segredos mais íntimos
para dissecá-los, exumá-los, analisá-
los e reorganizá-los a partir de nossas
conclusões , e mais sobre como esses
encontros nos abrem a possibilidade de
exercermos a função de escutadeiras a
serviço da invenção, da potência
criativa dos corpos, convidando-os a
exercitar o pensamento de modo a
entrar em contato com as intensidades
e os afetos da vida cotidiana, dando-
lhes sentido, direcionamento, palavras
e materialidade.
Somos escutadeiras do fim do
mundo
A experiência de pesquisar
nesse ambulatório especializado,
situado em uma universidade, nos
coloca na posição de acompanhar as
estratégias de (sobre)vivência dessas
mulheres. Independentemente das
diversas perguntas de pesquisa
disparadas por meio desses encontros,
vemo-nos envoltas em um processo de
formações subjetivas e desejantes no
campo social, em um determinado
contexto histórico carioca. Deparamo-
nos com momentos que fecundam
sentidos para as vivências que as
trouxeram até nós.
Múltiplas são as nomeações e
adjetivações que elas atribuem a si e às
próprias histórias: raiva, culpa,
vingança, aceitação, submissão,
dominação, cegueira, resiliência,
fantasias. Possibilidades infinitas
emergem em nosso ambulatório;
porém, o que aqui nos caberá são as
afetações que surgem no encontro com
mulheres mesmo em posições
distintas. Nosso papel é facilitar que
histórias sejam produzidas, se
multipliquem em sentidos e efeitos,
sejam descartadas e (re)elaboradas.
Assim sendo, entendemos o grupo
como um encontro com o múltiplo, com
o infinito limitado que é a experiência de
viver.
Ao mesmo tempo, esse trabalho
grupal permite certo processo
pedagógico de compreensão das
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Mulheres: um convite para outras práticas éticas-estéticas-políticas de
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produções coletivas de subjetividade,
que introjetam ideais patriarcais e
embranquecidos, capazes de ditar
certos “destinos naturais”, a depender
da forma como o corpo é lido. Constrói-
se, em um jogo de diferenças nos níveis
material e econômico, uma oposição
entre masculino e feminino,
inaugurando uma diferença constitutiva
importante, com consequências
ontológicas o tal binarismo sexual
(Wittig, 2022).
Nessa produção discursiva, os
sujeitos são convocados a responder e
a se adequar ao que é esperado dentro
de seu grupo social, apagando o
caráter construído para ser entendido
no cotidiano como dado natural, como
destino biológico próprio daquele
grupo. Por conseguinte, às mulheres
resta a resiliência diante das mutilações
e abusos; a centralidade no exercício
do cuidado; os casamentos de
servidão; e a apropriação de seu
trabalho por terceiros (masculinos),
supostamente sem a possibilidade de
fuga (Wittig, 2022).
Nessa constelação em que
mergulhamos intrigadas pelo “o que
em cima, embaixo e por todos os
lados são intensidades buscando
expressão” (Rolnik, 2019, p. 67) ,
deparamo-nos com mulheres que
sentem o esgotamento das
experiências de violência que sofrem,
sobretudo no ambiente doméstico.
Gradualmente, elas revisitam suas
histórias, o cruas e vibrantes em seus
corpos, para experimentarem outra
forma de enxergá-las: a partir de uma
narração própria, usando termos que
lhes cabem e lhes parecem certos.
Nesse espaço, somos
convidadas a testemunhar a vivacidade
dessas situações, das cenas narradas
e dos processos que unem afetos e
linguagem no descobrimento de novas
maneiras de contar eventos passados,
até então contaminados pela captura
de um outro que colocava em xeque
sua autonomia. Essa vivacidade do
encontro grupal nos convoca e nos
enlaça de tal maneira que nos
posiciona na vibração na condição de
viventes que recebem e não
conseguem deixar de se afetar pelos
sentimentos, afetos e movimentações
(Palhares, 2008).
No par pesquisadora e mulher
participante da pesquisa, emerge um
tempo-espaço específico, no qual o
passado (re)acende formas de estar no
mundo hoje e amanhã, abrindo uma
gama de possibilidades a serem
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descobertas ou descartadas. Assim,
caminhamos em um processo de
elaboração de outros territórios
existenciais.
Repare: trabalhamos por meio
das fissuras, ansiosas por ver, em meio
àquele ambiente devastado, seco e
árido, ranhuras das quais brota água
tão essencial para quem tem sede de
vida. Seja qual for o contexto específico
que essa mulher apresente, conserva-
se esse manejo na direção das
resistências, do resgate de uma
construção de vir-a-ser não mais
limitada (e forçada) por um certo outro
que reproduz, na relação, o binômio
dominaçãosubmissão.
Uma pausa: esse processo
grupal, inserido em uma prática ético-
política de psicanálise crítica, abre
espaço para um campo ilimitado de
possibilidades de manejo e de sentidos,
de produção constante de universos
finitos. Diante dessas mulheres e de
nossas implicações na pesquisa,
exercitamos o estranhamento do
cotidiano o despertar de um corpo
que, em si, contém possibilidades
infinitas e limitadas de se colocar no
mundo.
Criamos, conjuntamente, um
espaço que busca acompanhar os
movimentos do desejo, bem como as
estratégias da vida que se colocam ora
em um polo ativo, de reafirmação da
criação; ora em um polo reativo, de
reafirmação do outro, do repetitivo, do
comum.
Considerando que elas chegam
mergulhadas no desespero da
infinidade finita diante do rompimento
(ou de sua mera possibilidade) com
aquele que as violenta, tentamos
promover a passagem dos afetos,
atribuindo-lhes sentido, ao passo que
facilitamos a (des)construção de
mundos.
Todo esse acompanhamento
não pode se desvincular do desejo
peculiar de correntes coletivas de
sentido, de processos de produção de
subjetividade que colocam em voga a
hegemonia de certas existências em
detrimento de outras. Foucault (1979)
aponta para uma captura que se por
meio das relações de poder, nas quais
a vida entra em jogo no campo político
a famosa postura estatal moderna de
“fazer viver, deixar morrer”. Nesse
sentido, as políticas de controle social
se fortalecem a partir de saberes como
a demografia e a estatística, que
enquadram a vida, conhecendo certos
padrões esperados da população e
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Mulheres: um convite para outras práticas éticas-estéticas-políticas de
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buscando corrigir os sujeitos
desviantes, “normalizando-os”.
Além disso, não podemos
esquecer que se trata de um
acompanhamento que nos coloca em
jogo como mulheres que pesquisam
violência contra outras mulheres.
Tomar o próprio conceito de mulher de
forma ingênua é um imbróglio do qual
não devemos escapar, tratando-se de
uma construção que entra em disputa a
partir dos estudos queer, que
compreendem haver múltiplas formas
de existir e performar o “ser mulher”.
É, pois, uma categoria política
e não um fato biológico ou natural
(Wittig, 2022; Butler, 2017). Assim
sendo, o conceito é utilizado não como
sinônimo de uma experiência universal
do ser-mulher, mas pensado em termos
de um devir-mulher, que coloca em
questão corpos que, dentro de uma
estrutura binária de gênero, encontram-
se mais próximos do polo “mulher”, a
partir de determinadas performances e
leituras sociais de gênero.
Esses mundos possíveis
pontuados requerem o reconhecimento
de suas produções a partir do
emaranhado de espécies
companheiras humanas ou não. A
mundificação, em Haraway (2016), nos
coloca diante de nosso
comprometimento ao adentrarmos os
jogos das relações, a partir dos quais
habitamos certos mundos (materiais e
subjetivos) e destruímos outros. Esses
jogos se materializam por meio da
interação entre corpos e linguagem,
que engendram subjetividades
habitantes e construtoras de certos
mundos, sustentando-os e
modificando-os.
Mundos esses recheados de
perspectivas, experiências,
construções coletivas e individuais,
visões parciais sobre a realidade e
modos de vida num misto de
realidade e ficção. Vivemos em rede,
conectados, e cada ator ou atriz com
quem entramos em contato contribui,
de alguma forma, para nosso vir-a-ser,
para nossa própria existência.
Por conseguinte, convidá-las a
reviver o passado segundo um
testemunho próprio atualizando-o a
partir da necessidade de dar-lhe novo
sentido, de sair daquela névoa que
encobria tantas situações difíceis e
insuportáveis coloca em movimento a
linguagem criativa, o exercício da
produção autobiográfica oralizada. Elas
experimentam o fim de um mundo para
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que, com os destroços, consigam
construir outro.
Para que aquela terra árida se
torne pronta para o plantio, a água
precisa escorrer para fora. Depois
disso, será necessário escolher as
sementes que desejam plantar as
possibilidades de composição de um
jardim próprio. A contação, aqui, se
mostra primordial não apenas para a
água escorrer e, do caos, algo se
construa, mas também porque coloca
em movimento o ato de escolher para si
os possíveis vir-a-ser: o mundo que
querem habitar, o que precisam
descartar e o que desejam reforçar.
Narrar é colocar esse processo em
perspectiva além de materializá-lo.
Destruição, recomposição e
nascimento: um ciclo infinito que, no
caso dessas mulheres e de nossas
pesquisas, é disparado a partir de um
grande acontecimento o esgotamento
provocado pelo contato violento.
Geralmente, elas chegam até
nós não por um evento específico, mas
pelo cansaço extremo causado pela
falta de ar, pelas palavras engolidas,
pelo perder-se diante do espelho. Após
tanto engolirem, têm sede de falar, de
narrar, de escolher as próprias palavras
mesmo que tímidas e incertas. Sede
de compor, de viver, de destruir.
Essa força de rompimento e
conexão propiciada pela contação
coloca em perspectiva a linguagem
como remédio e veneno aquilo que
estabelece os meios pelos quais
(re)elaboramos o passado enquanto
projetamos um novo futuro (Menezes,
2023). O próprio ato de narrar
configura-se como um meio de situar o
sujeito no mundo, dando-lhe
reconhecimento na rede de atores e
atrizes que o compõem.
Esse singelo ato, aparentemente
vinculado a um espaço e tempo
específicos o do encontro conosco ,
dispara processos diversos que
reverberam por sua vida e pela nossa,
extrapolando o momento íntimo. Ou
seja: nessas experimentações, nesse
tensionar e dar sentido, extravasar
intensidades e nomear momentos,
conseguimos dar consistência a uma
vontade de vida capaz de resistir aos
choques do cotidiano (Menezes, 2023),
às situações que outrora eram
completamente desestabilizadoras.
Não em uma esperança de que
surjam mulheres maravilhas, mas na
desconstrução de Amélias presas em
tecituras que repetem e/ou aprofundam
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
as violências sofridas nos diversos
ambientes, diminuindo-as a que
caibam na pequenez que a dominação
exige.
Essa contação, pois, corrobora a
criação de recursos para a reinserção
nos fluxos e na realidade material em
que vivem, possibilitando-lhes
experimentar outras estratégias de
vivenciar o real. Ela questiona, indaga,
divaga, conserta, estraga, amarga,
adoça, contradiz e reafirma mundos.
é tarde, tudo está certo,
cada coisa posta em seu lugar.
Filho dorme, ela arruma o
uniforme, tudo pronto pra
quando despertar. O ensejo a
fez tão prendada, ela foi
educada pra cuidar e servir.
De costume, esquecia-se dela,
sempre a última a sair.
Disfarça e segue em frente,
todo dia, até cansar. E eis que,
de repente, ela resolve então
mudar.
Vira a mesa, assume o jogo,
faz questão de se cuidar. Nem
serva, nem objeto, não quer
ser o outro, hoje ela é um
também. (Pitty; Mendonça,
2009).
Num certo sentido, adentramos,
como pesquisadoras, em um processo
de deriva, entendido como um
ressignificar dos elementos que
compõem o espaço urbano e que
imbricam a criação de narrativas
artísticas voltadas à materialização
dessa experimentação do local
(Laterza; Barros, 2023). Escutar
histórias trágicas de naufrágio de um
certo mundo convida-nos a romper
representações dominantes, a
estranhar determinadas estratégias de
vida e a destruir nossas próprias
certezas diante de um campo
supostamente conhecido por nós.
O movimento de pesquisar
costuma se iniciar pela bibliografia, na
qual somos seduzidas a torná-la
verdade e a submeter as experiências
de campo aos seus ditames. Se nos
deixarmos levar por verdades
inteligíveis, picotamos as histórias a
partir do que nos cabe, buscando
reafirmar hipóteses e repetindo
discursos pré-construídos.
Como psis inseridas em práticas
de pesquisa, podemos seguir a lógica
médica que justamente promove tal
picotar um corte e colagem que
almeja repetir o conhecido,
enquadrar, tornar o singular redundante
e encaixá-lo em algo relatado pela
bibliografia técnica (Clavreul, 1983).
Como feministas, podemos
igualmente nos ensurdecer e, de modo
violento, fazê-las engolir nossas
próprias palavras, reafirmando-as
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CURI, Paula Land; SOUZA, Luiza Christina Marques de. Narrar com
Mulheres: um convite para outras práticas éticas-estéticas-políticas de
pesquisa. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em
Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.95-117, set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
como pessoas trágicas a serem
tuteladas. Num convite à produção de
fissuras nessa lógica, tentamos adaptar
essa deriva como uma perspectiva a
ser adotada no campo dos territórios
existenciais: deixamo-nos conduzir
pelas solicitações do terreno e pelos
encontros que travamos com ele,
seguimos seus fluxos e abrimos espaço
para os acasos e o caos (Laterza;
Barros, 2023).
Isso significa estarmos
preparadas para sermos tocadas pelos
mais diversos sentimentos e
expressões emocionais, permitindo fluir
o acontecimento e esse ciclo de vida e
morte, sem que abandonemos a
conexão que mantém o encontro vivo.
Sob uma perspectiva psicanalítica,
coloca-se a transferência como
facilitadora e condição desses
movimentos.
Recordamos, brevemente, que,
no olhar psicanalítico, a transferência
tal como Freud a define é o meio pelo
qual conseguimos trabalhar
psiquicamente em conjunto com o(s)
sujeito(s). Pode ser compreendida
como uma reedição de impulsos e
fantasias que são despertadas e
tornadas conscientes no progresso dos
encontros (Pinheiro; Carvalho, 2014).
Esse caminhar despretensioso (porém
implicado) permite-nos entrar em
contato com aquilo que ainda não há,
mas que pode brotar (Tiberghien, 2013,
apud Laterza; Barros, 2023). Podemos
transformar e criar a partir de situações
aparentemente sem escapatória, desde
que estejamos abertas a novos
significados e percepções.
Em vez de pesquisarmos sobre
mulheres, preferimos o FazerCOM, que
envolve invariavelmente escutar
histórias de reinvenção a partir de um
acontecimento doloroso e que, nesse
escutar, nos coloca diante de nossas
próprias centralidades e certezas
acerca do mundo (Moraes; Tsallis,
2016).
Assim sendo, tornamo-nos
escutadeiras da caminhada dessas
mulheres, colocando em voga um
mundo povoado, composto por
diversos mundos ou seria melhor
dizer: mundos que se encontram e, nas
suas bordas de contato, formam o
compartilhado? Somos contestadas,
surpreendidas, reposicionadas e
deslocadas a partir desses encontros e,
ao percebermos sua riqueza de
composições, podemos modelar novos
arranjos e novas formas de lidar com
esse corpo pesquisador.
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CURI, Paula Land; SOUZA, Luiza Christina Marques de. Narrar com
Mulheres: um convite para outras práticas éticas-estéticas-políticas de
pesquisa. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
Estarmos abertas a esse outro
caminhar metodológico nos apresenta
uma riqueza de novas experiências e
histórias que, anteriormente, foram
ignoradas em prol da construção do
mundo hegemônico, masculinista,
branco e burguês que as torna
indignas de serem ouvidas e citadas
nas histórias convencionais (Scott,
1998).
Quando saímos da
transcendência do olhar de lugar
nenhum, aquele que tudo enxerga ,
percebemos a existência de histórias
que desmascaram as performances
naturalizadas de diversos fenômenos
sociais, como o gênero, os
relacionamentos afetivos, as violências
em sua forma cotidiana, as supostas
faltas e incapacidades de certos grupos
e a compulsória cis-heterossexualidade
(entre outros).
(Re)descobrimos uma
imensidão de vetores de pesquisa e de
práxis que organizam nossas
representações sociais
compartilhadas, que nos fazem refletir
sobre como operamos dentro dessas
produções de conhecimento: que
mundo ajudamos a construir com
nossas pesquisas?
Chegamos a outra encruzilhada:
pensar, a partir da contação de
histórias, uma política de escrita que
potencialize as possibilidades de futuro
(Menezes, 2023) especialmente das
que convivem com a destruição e o
estrangulamento, possibilitando a
emergência de água para quem tem
sede.
Neste percurso, se somos tão
afetadas pelo encontro com essas
histórias, por que não transpor para a
escrita acadêmica esse mesmo formato
de contato e transmutação com e pelo
outro?
Somos facilitadoras da construção
de outros mundos
Reafirmamos, nesta escrita,
uma composição de trabalho feminista,
construída a partir de corpos de
mulheres. Assim, assumimos os riscos
de certos embaraços provenientes de
uma prática de pesquisa que costuma
reafirmar um neutro redigido no
masculino (Moraes; Tsallis, 2016).
Situar nosso olhar implica trazer à tona
outra perspectiva prática de ética de
pesquisa, que mescla uma estética
política ao ato do trabalho acadêmico.
Ao longo dos encontros grupais,
construímos uma relação o tal
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Mulheres: um convite para outras práticas éticas-estéticas-políticas de
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
vínculo, ou transferência, a quem
preferir que nos convoca a compor
com, deslocando-nos das certezas
construídas em direção aos inéditos,
aos estranhamentos, a um
estremecimento de nossos próprios
contornos (Rolnik, 1993). Desse
encontro com a diferença, nascem
marcas vivas, tão peculiares quanto
exigentes. Desprevenidas, somos
capturadas por suas histórias, por suas
formas de vida singulares, que
produzem em nós questionamentos e
estremecimentos inaugurando o
processo sutil de “morte” de nossas
certezas e composições atuais e
abrindo espaço para o surgimento de
um novo corpo, de uma nova rede de
pensamentos, emoções e percepções.
Como caranguejos-eremitas,
precisamos buscar uma nova concha
uma nova forma no mundo que se
adapte ao estado inédito no qual nos
encontramos. Se essa marca, efeito do
encontro, se instaura e impõe uma
exigência de trabalho a criação de um
corpo que materialize epassagem a
uma nova composição , o pensamento
é uma das ferramentas possíveis para
tal (Rolnik, 1993).
Assim sendo, o trabalho
acadêmico aqui é concebido como um
entrecruzamento de constrangimento,
acaso e conexão: afetar e ser afetado
no encontro, disparando processos de
busca por uma nova concha. Reafirmar
tal conexão se coloca como um modo
de conhecer que se desenrola em
partilha num receber, acolher e
devolver (Moraes; Tsallis, 2016).
Nesse outro manejo da
pesquisa, imbricamos processos de
construção de saberes situados e
criativos, exigindo formas menos
tradicionais de escrita. Se estamos nos
distanciando da ciência neutra e
masculinista, nada mais significativo do
que nos aliarmos a outras formas de
fazer ciência a serviço de um
potencial criativo e disjuntivo das forças
que invisibilizam nossos corpos,
nossos saberes e nossas narrativas.
Ser mulheres, então, é menos
sobre uma categoria universal que se
fecha em si mesma na criação de
saberes e mais sobre um modo outro
de produção acadêmica: o de
operarmos e criarmos pesquisas
implicadas e éticas, em que as histórias
contra-hegemônicas importam
(Moraes; Tsallis, 2016). Se estamos em
uma jornada de quebrar silêncios e
instituídos sociais, de tornar dignas
outras formas de existir, precisamos de
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Mulheres: um convite para outras práticas éticas-estéticas-políticas de
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
evidências de um mundo de práticas e
valores alternativos, iluminando a vida
desses outros em nossos trabalhos.
A partir da permissão ao
estranhamento e das marcas que se
instalam, iniciamos outro tipo de
trabalho: o de arrumação e seleção
daquilo que cabe em nossa pesquisa
os contornos necessários à produção
de uma escrita satisfatória. Aqui,
deparamo-nos com mais um desafio: o
de escolher palavras, de compor um
texto que busque materializar
processos que se passam no corpo que
vibra na dimensão das sensações,
dos fluxos e das diferenças mais do
que propriamente no material (Rolnik,
2019).
Aqueles encontros se estendem,
reavivam questões, atualizam formas
de enxergar o mundo e nos convocam
a pensar, em termos de pesquisa,
modos de caminhar com mulheres, de
forma a tornar a diferença e a potência
dos afetos mais acessíveis, mais
possíveis.
Como podemos trabalhar com
essas experiências, essas histórias que
nos são narradas? De que forma
operamos com tal FazerCOM?
De antemão, precisamos nos
recordar do que Scott (1998) aponta
como armadilha: tratarmos a
experiência como origem do
conhecimento, de modo a criarmos um
enrijecimento da identidade do grupo
com o qual estamos em contato.
Sutilmente, podemos cair em uma
escrita reafirmadora e expositora de
uma certa diferença, sem nos
aprofundarmos nas fissuras que essas
histórias comportam e nas condições
de possibilidade de sua sustentação.
O que levou essas mulheres a
se sentirem presas nas relações com
quem as violentava? Como processos
revolucionários ou desviantes se
instauraram, levando-as a buscar ajuda
na criação de estratégias outras de
vida? Como se deu o processo de
estranhamento de viver no próprio
mundo, abrindo-se à experimentação?
Um pensar crítico se faz
necessário para expor as lógicas por
trás tanto das violências de gênero
quanto das estratégias de resistência,
das categorias sociais envolvidas nos
processos observados. Escutar
histórias nos permite, como
colocado, tornar certas experiências
visíveis; porém, como pesquisadoras,
precisamos estar atentas às categorias
que podem emergir e que, muitas
vezes, tratamos como a-históricas
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CURI, Paula Land; SOUZA, Luiza Christina Marques de. Narrar com
Mulheres: um convite para outras práticas éticas-estéticas-políticas de
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
(Scott, 1998): mulheridade,
masculinidades, violências, desejos,
atos de servidão, relacionamentos
amorosos, família, dominação, entre
outros.
O peculiar nos pistas do
coletivo, do mundo hegemônico em que
estamos inseridas e das roupagens que
o patriarcado masculinista branco
assume em nosso contexto histórico-
social específico. Dito isso, é
fundamental exercermos uma escrita
que acompanhe as produções
discursivas dos sujeitos, tomando as
contações não como evidências
legitimadoras e/ou referências de certa
identidade grupal, mas como modos de
historicizar e acompanhar os processos
que as tornaram possíveis.
Por que isso aconteceu dessa
forma, e não de outra? O que
consideramos como violências de
gênero? De que forma são permitidas
no cotidiano? Quem pode exercer quais
tipos de violência e por quê? O que se
coloca em jogo quando uma mulher
decide permanecer com quem a
violenta? E o que lhe permite romper
com a relação? Como facilitamos os
processos de resistência? Como
performamos feminilidades? Como é
ensinado às mulheres a serem
resilientes no contato com a violência?
Independentemente dos
objetivos diversos que possam surgir
de uma pesquisa a partir desse contato,
entendemos que uma ferramenta
possível e ainda timidamente
explorada no campo acadêmico é a
de compor histórias. Assim, tornamo-
nos autoras de contos, cenas e/ou
crônicas que tentam dar contorno
àquilo que nos levou ao
estranhamento.
Não se trata, aqui, do conhecido
método de “estudo de caso”,
amplamente utilizado no campo da
saúde, mas, sim, de a partir dos
afetos que emergem, dos
estranhamentos e deslocamentos que
sofremos em campo ativarmos nossa
própria criação, de modo a tornar
visíveis os bastidores e processos
destrutivos, para que possamos
vislumbrar um mundo a ser construído
(Menezes, 2023). Um convite, portanto,
a darmos espaço à nossa própria
escuta fantasiosa sobre esses
encontros.
Entendendo que a linguagem,
enquanto meio de expor diferentes
dores e sofrimentos, não é estável
está cotidianamente se reformulando
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Mulheres: um convite para outras práticas éticas-estéticas-políticas de
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
, aproximamo-nos do ponto levantado
por Das (2020, p. 68): “algumas
realidades precisam ser ficcionadas
antes que possam ser apreendidas”.
Assim, essas cenas, crônicas e contos
se colocam como um recurso de
visibilização e viabilização do
assimilado acerca dos processos de
violência nas diferentes esferas sociais
no nosso caso, especialmente na vida
privada , entremeando-se com
reflexões sobre as categorias de
análise com as quais buscamos
trabalhar.
Isso se torna essencial em
nosso contexto atual de retorno de
governos de extrema direita, que tratam
as questões de violência de gênero
como falácias ou exageros, reforçando
a negação do reconhecimento dos
sofrimentos e dores das mulheres. De
2019 a 2022, tivemos a ascensão de
Jair Bolsonaro à Presidência da
República político conhecido pela
defesa da “família e dos tradicionais
costumes” e, desde então,
observamos um aumento expressivo
de cargos políticos ocupados por
pessoas alinhadas a esses ideais
patriarcais, racistas e classistas.
Faz-se, então, um convite para
expandirmos as bordas das
metodologias: sair da objetividade que
parte de um corpo transparente, em
direção à criação também nas formas
com as quais escrevemos e narramos
nossas pesquisas e os encontros que o
campo nos propiciou. Isso significa
abandonarmos não apenas a
inteligibilidade de quem pesquisa, mas
também nos permitirmos a própria
mutação e a impossibilidade de darmos
conta do mundo em sua constante
metamorfose.
Não pensamos, aqui, em formas
de contar histórias e experiências que
afirmem uma identidade, mas em
modos pelos quais os fluxos se
organizam e se capturam naquele
instante tal como em um pequeno
documentário, datado em um certo
tempo-espaço. Trata-se de tornar
conhecida uma experiência de vida, de
modo que possamos, junto de quem
nos lê, desfiar os fios das práticas
discursivas ali presentes e,
simultaneamente, tornar dignas as
vidas retratadas, concedendo-lhes
reconhecimento e uma forma de
reverberar no mundo.
Não basta estarmos receptivas
ao encontro: precisamos ser
conjuntamente com o outro,
construindo um espaço capaz de
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CURI, Paula Land; SOUZA, Luiza Christina Marques de. Narrar com
Mulheres: um convite para outras práticas éticas-estéticas-políticas de
pesquisa. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
facilitar a fermentação do incriado e do
impensável. Essa escuta grupal nos
convoca a encenar papéis que, embora
renovem o passado, se imbricam nos
processos de criação de um vir-a-ser
num anseio de deslocamento que, em
alguma medida, depende de nossa
própria abertura para o novo (Palhares,
2008). “Ambos [analista/analisando]
continuam a buscar a expansão de sua
ontologia seguir sendo para poder
continuar vivo para si mesmo, para o
outro e para o mundo” (Palhares, 2008,
p. 109). Abandonamos a suposta
neutralidade da pesquisa e reavivamos
a autoria por trás da construção de
nossos trabalhos “a marca do escritor
não é mais do que a singularidade de
sua ausência: é preciso que ele faça o
papel do morto no jogo da escrita”
(Foucault, 2006, p. 36).
O corpo morre em nome de uma
assinatura que transcende. Há,
contudo, uma necessidade de
produção de saberes voltados à
previsão e ao controle de certos
fenômenos; todavia, é preciso permitir
(e validar) a criação de outras formas
de pensar e perceber o conhecimento,
aliadas a uma nova linguagem e à
passagem dos afetos, dos incertos e
das aberturas estruturantes sem a
exigência de um novo fechamento
(Costa, 2016).
Isto posto, fazemos um convite a
reanimar nossa escrita: enchê-la de
vida, fazer brotar dela possíveis
mundos outros, em que narrar se torne
parte da materialização de nossas
marcas. Contudo, essa proposta exige
atenção a uma armadilha que ela
mesma nos apresenta: requer-se
cuidado na composição das histórias e
no documentar dos bastidores da
pesquisa, de modo a não expor
desrespeitosamente as mulheres
participantes. Não podemos confundir a
experimentação artístico-política no
campo da escrita acadêmica com a
ausência de um passo ético anterior
o de refletirmos sobre a
responsabilidade diante dessa
produção. O como contamos torna-se,
assim, primordial.
Estamos reanimando um texto
marcado pela morte, em que nossa
própria autoria emerge no momento da
escrita (Foucault, 2006). Ou seja,
apesar de nossa história pregressa e
de nos entendermos como sujeitos
diante de um vasto mundo, o trabalho
acadêmico nasce em um contexto
específico: escrevemos porque
precisamos dar direção às marcas
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Mulheres: um convite para outras práticas éticas-estéticas-políticas de
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sendo esse espaço uma das formas
possíveis de materializar nossas
inquietações.
Dessa forma, nossa produção se
coloca a serviço de certos moldes e
regras, ainda que tentemos expandir
suas bordas. Apesar da abertura e
riqueza dos encontros, precisaremos,
em alguma medida, exercitar a criação
de cenas, contos e crônicas que se
aliem às chaves teóricas que buscamos
expor, construindo pontes entre nossa
ficção e nossos conceitos, dando limite
e direção a essas criações.
Podemos, pois, pensar em uma
contação que se coloque como parte de
uma discussão sobre o comum-
compartilhado não como uma
verdade imutável e inteligível,
tampouco como uma realidade
indiscutível em matérias de
subjetividade, mas como composições
narrativas que integram a construção
do saber e que, por isso, devem elas
mesmas passar pelo crivo da crítica, da
discussão e da controvérsia.
Considerações finais
No nosso contexto local
marcado pelo recrudescimento de
ideais patriarcais, racistas e violentos
, como pensar criticamente as
metodologias de pesquisa que
envolvem mulheres?
Como podemos, enquanto
pesquisadoras, ir ao encontro desse
grupo sem reproduzir a forma como as
histórias costumam ser contadas,
servindo-nos de uma escrita que, na
“purificação” da construção da
pesquisa, inviabiliza que movimentos
de resistência e dignidade aflorem?
Como produzir linhas que escapem, na
própria escrita do pensamento, da
reprodução da tutela do corpo feminino
entendido como alienado e destituído
de agência sobre si mesmo?
Com essas perguntas em
mente, objetivamos aqui colocar em
vislumbre uma prática ético-político-
estética de pesquisa, fundada em
encontros grupais que possibilitam a
escuta de diferentes histórias,
recusando-nos a nos aliar a certas
metodologias que se satisfazem com
moldes que reforçam pureza,
neutralidade e hierarquia discursivas.
Assim sendo, permitimo-nos
desbravar não somente a construção
de uma nova cartografia existencial de
nossas pacientes, mas também a
nossa própria numa dupla ativação de
potências que se colocam a serviço da
expansão da vida e dos saberes
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CURI, Paula Land; SOUZA, Luiza Christina Marques de. Narrar com
Mulheres: um convite para outras práticas éticas-estéticas-políticas de
pesquisa. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em
Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.95-117, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
decoloniais e contra-hegemônicos.
Percebemos, no dispositivo grupal, a
potencialidade de fazer ritmar e circular
afetos que outrora não encontravam
vias de organização ou de
existencialização, perdidos em meio ao
desamparo, à angústia e à invalidação.
Diante de situações violentas
que, por vezes, deixam marcas na
alma, precisamos descobrir
coletivamente figuras de linguagem que
tentem contornar ou, ao menos,
expressar a vivacidade dessas dores
em seus corpos, em seus múltiplos
efeitos e nas possibilidades de atos de
ruptura.
Nesses encontros, produzimo-
nos escutadeiras de histórias corpos
que escutam atenta e sensivelmente a
outra, ao passo que se deixam
contagiar pelos afetos e provocações.
É um convite ao estranhamento dos
caminhos até então certos e
conhecidos. Experimentamos e
compomos em conjunto, apostando
nos encontros como parte essencial de
provocar mudanças, deslocar
instituídos e (re)construir mundos.
Ao nos indagarmos sobre quais
caminhos traçar na escrita acadêmica
diante de tamanha riqueza do
FazerCOM, apostamos, como uma das
saídas possíveis, na produção ficcional
seja na forma de contos, crônicas ou
cenas. Essas produções estão a
serviço de um pensar que movimenta a
dimensão afetiva, entendendo-a como
parte essencial da experiência do ser
vivente e forçando-nos a reagir diante
de um mundo até então desconhecido
por nós.
Essa aposta comporta a
radicalidade que a antropóloga Rita
Segato (2020) demarca: não mais olhar
o outro para conhecê-lo, mas conhecer
a nós mesmas no olhar do outro um
fazer pesquisa que aceita ser
perguntado, que acolhe o caminhar
tateante e o método, ele próprio, como
desvio (Gagnebin, 1999). Costurar
conceitos é importante, mas, por si só,
raramente nos força ao encontro com o
múltiplo e o virtual, com as
possibilidades de porvires,
aprisionando-nos no (re)conhecido
passado.
Não basta sermos escutadeiras
do apocalipse: precisamos viabilizar o
vislumbre de (re)construções de
mundos aliados, de conexões outras
entre os seres que ali habitarão. Assim
sendo, usamos a ficção como
inspiração, inquietação e disparador da
diferença uma ferramenta que
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CURI, Paula Land; SOUZA, Luiza Christina Marques de. Narrar com
Mulheres: um convite para outras práticas éticas-estéticas-políticas de
pesquisa. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
mobiliza formas outras de viver, de ser
afetada, de afetar e de construir
conhecimentos.
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