ISSN 2237-1508
PragMATIZES-Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura
Niterói/RJ, Ano 16, n. 30, jan. a dez. 2026
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica”, volume II.
Como citar:
BITENCOURT, Lara Machado. Notas sobre planejamento urbano, trabalho quilombista, e planos territoriais geridos por
mulheres quilombolas em Porto Alegre/RS. PragMATIZES-Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura, Niterói/RJ,
Ano 16, n. 30, p. 01-31, 2026. DOI: https://doi.org/10.22409/pragmatizes.v16i30.67016.
1
Notas sobre planejamento urbano, trabalho quilombista, e planos
territoriais geridos por mulheres quilombolas em Porto Alegre/RS
Lara Machado Bitencourt
1
RESUMO: Este artigo explora as interconexões entre o planejamento urbano, o trabalho
quilombista e os planos territoriais geridos por mulheres quilombolas em Porto Alegre,
Rio Grande do Sul. O estudo investiga como a gestão territorial realizada por essas
mulheres se articula com as dinâmicas urbanas e as políticas públicas, além de discutir o
impacto do trabalho quilombista nas estratégias de organização e resistência das
comunidades quilombolas na cidade. A pesquisa aborda, ainda, os desafios enfrentados
por essas mulheres no processo de fortalecimento do protagonismo feminino no contexto
urbano e as formas como elas buscam afirmar seus direitos territoriais frente às pressões
urbanísticas. Por fim, o artigo destaca a importância do reconhecimento e da valorização
dos saberes e práticas quilombolas no planejamento urbano, propondo reflexões sobre
como integrar essas perspectivas nas políticas urbanas de maneira mais inclusiva e justa.
Palavras-chave: quilombos urbanos; planejamento e gestão territorial quilombola;
mulheres quilombolas.
Recebido em: 17/04/25 | Avaliado em: 10/01/25
Publicado em: 26/05/26
1
Doutora em Geografia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Pesquisadora
extensionista do Núcleo de Estudos Geografia e Ambiente (NEGA/UFRGS). Email:
laaarabientecourt@gmail.com. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-0679-7079.
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Considerações iniciais
Este artigo é parte integrante da tese Urbanismo Quilombola: Notas
GeoQuilombistas sobre planejamento urbano em Porto Alegre/RS, defendida em março
de 2025 através da linha de pesquisa em análise territorial do Programa de Pós-
Graduação em Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PósGea/UFRGS),
sob a orientação da professora doutora Cláudia Luisa Zeferino Pires. Para este, recorte
apresentaremos as narrativas teórico-metodológicas que conduzem nossa pesquisa e
refletem a situacionalidade de ser realizada por uma mulher mestiça, de classe média
baixa, mas com o privilégio de acesso à educação continuada em uma conceituada
instituição de ensino público. Apresentar essa condição é determinante para
compreender a estrutura desta pesquisa realizada a partir do olhar de uma pessoa não
quilombola sobre o quilombo contemporâneo e suas experiências territoriais em Porto
Alegre/RS.
Enquanto forma de expressão humana, a narrativa mescla duas competências que
se misturam e se confundem na criação de imaginários. De modo que uma narrativa é em
parte descrição do real percebido e em parte criação imaginada a partir do narrador. Para
a linguista Maria da Conceição Passegi (2010), vivemos em uma sociedade biográfica
onde registrar nossos caminhos é também dominá-los pela presença, pois:
Ao longo da história da humanidade, os instrumentos tornaram-se cada vez mais
sofisticados e as biografias, reservadas inicialmente a fatos memoráveis de
personalidades históricas, democratizaram-se. A escrita de si tornou-se o usual
que podemos falar de uma sociedade biográfica. Desde a liberdade dos web sites,
que atingem cifras inimagináveis de usuários - Second Life, Facebook, Orkut,
Twitter, MySpace, Nègrepouruninconuu, Museu da Pessoa…- ao imperativo
biográfico dos curriculum vitae, dos projetos de vida, dos memoriais. Ao longo
da vida de cada indivíduo, a escrita de si pode se tornar um objeto de desejo a
efetivar-se, ou jamais fazer parte do eu querer e/ou poder. Portanto, se narrar é
humano, o trabalho de biografização é uma ação civilizatória, que exige
manuseio de tecnologias marcadas pela cultura, que arrastam consigo relações
de poder e implicam saberes, quereres e deveres. (Passegi, 2010, p. 104).
Na mesma linha da biografização do mundo enquanto prática civilizatória, o
filósofo francês Henri Lefebvre nos fala sobre a Produção do Espaço (1974) enquanto
uma trialética do espaço. Neste local, no qual se compreende o mundo vivido enquanto
experimentação coletiva, o mundo percebido como a soma das experiências coletivas aos
julgamentos e percepções do indivíduo e o mundo concebido como a capacidade do
sujeito de representar suas percepções individuais sobre o mundo compartilhado. A
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concepção do mundo vivido não deixa de ser, por sua vez, uma narrativa e, como tal, está
composta pelas ideologias e julgamentos do sujeito que a enuncia, atentando aos limites
do lugar de onde se projeta esse enunciado, sejam eles limites de situação - do lugar
enquanto cidade/campo e tempo presente/passado, ou os limites de condição - do lugar
enquanto corpo feminino/masculino, negro/branco/mestiço, jovem/velho, etc.
Nas narrativas do mundo concebido, devemos pensar para além das
características de situação e condição dos narradores, também o aspecto da memória
enquanto elemento fundamental para a elaboração dessas narrativas. É a partir da
memória e seus elementos de compreensão que se constroem as representações do
mundo concebido, visto que é necessário respeitar o tempo de acomodação das ideias e
significados (TARDIF, 2002) para a assimilação e afirmação dos acontecimentos no
torvelinho do mundo vivido, e isso não é diferente quando as narrativas se referem às
afirmações de ser.
Para a geógrafa brasileira Nola Gamalho (2016), as narrativas são espaços de
criação através dos quais atores recriam suas trajetórias e elaboram seus pertencimentos
(Gamalho, 2016, p. 43). para a geógrafa mexicana Alicia Lindón (2000), el
redescubrimiento de la inmaterialidad como parte del espacio ha contribuido al hallazgo
(hecho por las teorías espaciales) del lenguaje [...], las narrativas y los relatos [...] como
constructores de los lugares (Lindón, 2000, p. 18). As narrativas das mulheres
quilombolas não são formadas por histórias únicas (Adichie, 2019) mas sim por múltiplas
e coetâneas histórias e geografias (Massey, 2008) que promovem a tecitura de Porto
Alegre que não pode ser negligenciada em seu planejamento urbano.
Atualmente, são onze as comunidades quilombolas em contexto urbano de Porto
Alegre. São elas, o Quilombo da Família Silva, o Quilombo do Areal, o Quilombo da Família
Fidélix, o Quilombo dos Alpes, o Quilombo da Família Machado, o Quilombo da Família
Flores, o Quilombo da Família Lemos, o Quilombo da MOCAMBO, o Quilombo Família de
Ouro - Ilê de Oxum e Ossanha, o Quilombo Kédi e o Quilombo Santa Luzia. Dez das onze
comunidades quilombolas de Porto Alegre são certificadas pela Fundação Cultural
Palmares (FCP).
Entender a complexidade das onze comunidades quilombolas de Porto Alegre é
um trabalho que vai muito além de uma pesquisa de doutorado, desta forma, elegemos as
comunidades do Quilombo dos Alpes, Flores, Lemos, Kédi e Machado como escopo desta
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pesquisa. De todo modo, o cenário geral nos mostra que evidentemente existe um plano
de destruição e segregação urbana vigente em Porto Alegre, e insinuá-lo é uma ideia
perversa, mas insistir neste modelo saturado é um crime ambiental, social e cultural.
Entretanto, o projeto de cidade quilombola resiste aos ataques das gestões
mercadológicas, despontando enquanto alternativa para a diminuição das desigualdades,
reivindicando titulação e regularização fundiária como parcela fundamental para o
pagamento da dívida histórica e geográfica do Estado Brasileiro aos crimes de lesa
humanidade praticados durante o período escravista. Demonstrando que o racismo
estrutural que atravessa a questão quilombola, seja em contexto urbano ou rural, não se
trata apenas de um problema pontual de gestão, mas que é sim um problema social, que
exige uma abordagem pedagógica multiplicadora.
Por essa razão, o trabalho de campo, enquanto procedimento metodológico, se
apresenta como componente conceitual fundamental para o desenvolvimento deste
trabalho. A vivência continuada nos territórios quilombolas contribui para a
compreensão e o desenvolvimento das epistemologias geradas pelos sujeitos e seus
saberes a partir e para além de seus territórios. Desta forma, essa pesquisa possui uma
trajetória conceitual e metodológica atravessada pelas vivências junto aos territórios
quilombolas do Alpes, Flores, Kédi, Lemos e Machado.
Encontrando o pensamento quilombista no planejamento urbano das
comunidades quilombolas de Porto Alegre/RS
Na intersecção do pensamento acadêmico e do pensamento quilombola, encontra-
se, no quilombismo, uma defesa política e intelectual, proposta pelo filósofo e dramaturgo
paulista Abdias do Nascimento, para a fundamentação de nossas intencionalidades.
Assim, conforme definido por Abdias (2019 [1980]), o pensamento quilombista é uma
práxis engendrada pelo povo afro-brasileiro para sobreviver à violência do período
escravista e colonizar proficuamente a formação socioespacial brasileira. Desta forma,
como destaca o autor:
Um ponto importante do quilombismo: o caráter nacionalista do movimento.
Nacionalismo aqui não deve ser traduzido como xenofobismo. Sendo o
quilombismo uma luta anti-imperialista, se articula ao pan-africanismo e
sustenta a radical solidariedade com todos os povos em luta contra a exploração,
a opressão, o racismo e as desigualdades motivadas por raça, cor, religião ou
ideologia. (Nascimento, 2019 [1980], p. 283-284).
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Portanto, a proposta desta pesquisa é de uma abordagem teórico-metodológica
em formato de práxis, tomando o quilombismo como orientação conceitual e
metodológica. As dimensões da pesquisa co-participante e situada de Paulo Freire (2018
[1972]) e da pesquisa-ação de Michel Thiollent (1998 [1986]) como modos de ler-pensar-
agir sobre a urbanização produzida pelas comunidades quilombolas em Porto Alegre.
Deste modo, se faz indispensável compreender a múltipla identidade do quilombo
contemporâneo, que também é experienciado a partir do quilombo cotidiano. Pois, se o
quilombo jurídico é a face identitária do quilombo vista primeiramente pelos não
quilombolas, o quilombo cotidiano é a primeira dimensão da identidade quilombola,
compreendida e vivenciada diariamente pelos sujeitos quilombolas.
No recorte desta pesquisa, aborda-se a dimensão do quilombo cotidiano a partir
da ótica das mulheres quilombolas, que cederam, em entrevistas qualitativas semi-
estruturadas, ferramentas para entender e desenhar as propostas existentes e desejadas
para a qualificação do bem-viver de suas comunidades, consequentemente, contribuindo
para os projetos de urbanização quilombola da cidade. Corroborando-se pelas palavras
da antropóloga Ilka Leite, compreendem-se as propostas trazidas pelas mulheres
quilombolas em contexto urbano como um projeto político quilombola, em que:
O quilombo passa paulatinamente a condensar, a integrar diversas noções de
direito que abrangem não só o direito a terra mas todos os demais; quando esse
vai do território as manifestações artísticas; quando o direito quilombola quer
dizer educação, água, luz, saneamento, saúde, todos os direitos sociais até então
negados a essas populações; quando o direito vai o campo à cidade, do individual
ao coletivo; e, principalmente, quando o quilombo como direito confronta
projetos e modelos de desenvolvimentos, questiona certas formas de ser e viver,
certos usos dos recursos naturais, seus usufrutos, o parentesco, a herança, as
representações políticas e muito mais; quando o quilombo deixa de ser
exclusivamente o direito à terra para ser a expressão de uma pauta de mudanças
que, para serem instauradas, precisam de um procedimento de desnaturalização
dos direitos anteriores: de propriedade, dos saberes supostos sobre a história,
dos direitos baseados nas concepções de público e privado, entre tantos outros.
(Leite, 2008, p. 974-975).
Logo, a trajetória desta tese reflete a complexidade e multiplicidade do quilombo
contemporâneo e em contexto urbano, a partir das narrativas de e sobre Porto Alegre.
Evidenciando que, para além da titulação, fundamental à segurança territorial das
comunidades quilombolas, existe também um projeto de ações e desejos em curso,
protagonizado pelas mulheres quilombolas por meio das construções cotidianas
engendradas em seus territórios.
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Quilombo Cotidiano
Para o geógrafo baiano Milton Santos, o cotidiano deve ser lido como uma
importante dimensão do espaço, pois se encontram no cotidiano três dimensões da
existência. São elas: (1) a dimensão da corporeidade, (2) a dimensão da individualidade
e (3) a dimensão da socialidade, fundamentais para uma leitura espacial em sua
complexidade. O Quilombo Cotidiano se apresenta então como uma dimensão
espacializada das identidades quilombolas, construída pela herança do passado e as
perspectivas do futuro, e que, conforme Santos:
O cotidiano supõe o passado como herança. O cotidiano supõe o futuro como
projeto. O presente é esta estreita nesga entre o passado e o futuro e cuja
definição depende das definições de passado e de futuro: desta existência do
passado, da qual não nos podemos libertar porque já se deu; e desse futuro, que
oferece margem para todas as nossas esperanças, exatamente porque ainda não
existe. (Santos, 1996, p. 10).
Desta forma, o cotidiano quilombola está entranhado pelas heranças de
resistência, forjadas por seus ancestrais, na mesma medida em que cria experiências e
expectativas para os seus sujeitos no futuro. Não se pode então negar as lacunas deixadas
por um passado de exclusão e as sequelas que trezentos anos de escravidão provocam na
sociedade brasileira. Portanto, o espaço do quilombo cotidiano é marcado por traços de
pobreza material, infraestrutura precária ou inexistente, mobilidade dificultada e acesso
a serviços de saúde e educação que não reconhecem suas particularidades e/ou se
encontram distantes de seus territórios, ou estão superlotados, de modo que as
comunidades quilombolas contemporâneas nas grandes cidades e metrópoles podem ser
confundidas com favelas.
Esse discurso, preconizado pela historiadora Beatriz Nascimento (1981) e
reiterado pelo geógrafo carioca Andrelino Campos (2010), do percurso do quilombo à
favela, contribui para compreender as complexidades das resistências negras e
pindorâmicas, marginalizadas pelo projeto colonial, mas também sugere ambiguidade se
lido superficialmente. A favela é um projeto do colonizador de manutenção da pobreza, o
quilombo é um projeto de insubordinação e cidadania, mesmo que essa última seja
constantemente mutilada pela estruturação racista da sociedade brasileira.
Os traços de solidariedade e insubordinação ao individualismo e à pobreza,
material e cultural, sendo atribuídos à favela quando esta é entendida como o quarto de
despejo das grandes cidades, são uma característica quilombola identitária presente
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ontologicamente nos sujeitos, de modo a reiterar a máxima de Beatriz Nascimento,
quando diz que o seu corpo é um quilombo. Neste capítulo, o foco será a dimensão do
quilombo cotidiano e sua espacialidade territorial, mas, em breve, retornaremos à
dimensão do quilombo ontológico.
Portanto, o quilombo cotidiano é formado pela reunião espacial de muitos sujeitos
que também são e vivenciam o quilombo ontológico, criando nos sentidos dados às suas
relações com o espaço compartilhado, e entre os seus, os significados de lugar, por afeto
e solidariedade, e de território por refúgio e defesa. Toda favela pode ser lida como
quilombo quando os sujeitos favelados possuem, em sua existência, os valores
quilombolas, exercitando as dimensões identitárias e sociais de solidariedade,
comunitarismo, família, acolhimento e partilha associadas à defesa e manutenção de seus
territórios. Do mesmo modo como todo quilombo se fragiliza e se faveliza quando deixa
que a ladaia promovida pelos sujeitos não quilombolas, mas que com eles repartem o
território, enfraqueça os sentidos comunitários de família e proteção.
Conceitualmente, ladaia, nesta pesquisa, é um termo construído junto às mulheres
quilombolas da Família Machado, para expor pontos de conflitos promovidos pelos
moradores do território quilombola que contribuem para a desarticulação dos projetos
coletivos promovidos a partir das associações quilombolas, formalizadas ou
embrionárias. Conforme foi observado posteriormente nas entrevistas com as mulheres
quilombolas das demais comunidades, a ladaia é uma estratégia de desarticulação
presente em todos os territórios, que surge sempre carregada de muitos desencontros,
evidenciando proposições individualistas, com pouca ou nenhuma proposição coletiva.
Assim, a ladaia é entendida pelas mulheres e compartilhada pelos demais
quilombolas, como uma atitude leviana, vaidosa e, não raro, de -fé. As ladaias são
constantemente criadas por sujeitos que vivem o território quilombola, e se
reconhecem como tal quando benefícios, mas quando este não existe, ou são
trabalhosos de se alcançar, o ladaiero apresenta obstáculos que contribuem para a
desarticulação dos sentidos quilombolas de coletividade.
A intenção aqui o é desenhar um cenário utópico de harmonia sobre o quilombo
cotidiano, ou pior, autoritário, onde não existem divergências, contrariedades,
indisposições e incompreensões genuínas do processo de conviver. Contudo, cabe
ressaltar que, quando as lideranças quilombolas assumem a parcela da identidade que
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compete ao quilombo jurídico, é exigido delas um compromisso integral com a identidade
quilombola em sua complexidade, não podendo negociá-las conforme o sentido do vento.
E essa postura é esperada e incentivada para toda a sua comunidade. Conforme reflete
Rosangela da Silva Ellias, a Janja, liderança do Quilombo dos Alpes, em uma entrevista de
2017:
Eu conto, sempre, que são 170 anos de existência e de resistência. Existência,
porque a gente continua existindo, lá, na área, e resistindo, por conta do
reconhecimento, de quando nós nos autoidentificamos como comunidade
quilombola. Do momento, em que a gente se autorreconheceu como comunidade
quilombola, eu perdi minha identidade; não, de resistência, porque continuamos
resistindo, cada vez, com mais força. Mas perdi a identidade, porque, a partir daí,
tem todo um processo de reconhecimento, que passa por todos os estudos e as
pesquisas, para a titulação. E isso, para mim e para todos nós, era tudo novo; é
mexer com documentação, com leis, com coisas do governo. Eu sempre lutava
para estar bem longe de política, mas, a partir daí, eu virei uma cidadã! Comecei
a votar, porque, a então, eu não me preocupava com título; me mantinha e
conseguia me manter, sem nada disso. Conseguia sobreviver e criar meus filhos
e meus sobrinhos, sem precisar estar indo votar e ver toda essa safadeza, que
está acontecendo, aí, com o nosso país, e entregar nossa existência na mão de
pessoas que não tem o nimo de respeito. Daí, eu perdi uma identidade, mas
estou sobrevivendo; estou conseguindo resistir e estou levando adiante, até
porque, no momento, em que a gente se autorreconhece, nós passamos a ter todo
uma documentação, para poder manter e para registrar a associação, podendo, a
partir de então, encaminhar e reivindicar os direitos de trazer melhorias e
estruturas para a comunidade. (Ellias, 2021 [2017], p. 733-734).
As dimensões espaciais do cotidiano também abarcam a contradição, e do mesmo
modo como as heranças de alguns sujeitos podem ser palmarinas , as heranças de outros
podem ser de capitães do mato. O quilombo cotidiano se constrói apoiado nas heranças
de coletividade e de partilha, contemporaneamente travando processos de
insubordinação contra o individualismo, este que é uma forma de escravização moderna.
O cotidiano dessa pesquisa se organiza a partir da vivência junto ao Quilombo dos
Alpes, e se constrói coletivamente no trabalho realizado pelo Núcleo de Estudos Geografia
e Ambiente, do curso de Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul,
estendendo-se para os demais quilombos que compõem nosso recorte. O trabalho de
mapeamento co-participativo (Pires; Bitencourt, 2021), iniciado em 2013 no Quilombo
dos Alpes, possibilita, desde então, as construções políticas e metodológicas desta
pesquisa de doutorado realizada entre os anos de 2021 e 2024.
Modos de fazer da pesquisa
Não raro, fazer pesquisa é como montar um quebra-cabeça, exige tempo,
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paciência, alguma coisa de obsessão e o movimento contínuo de enxergar o micro no
macro e vice-versa para se conseguir uma composição. A diferença, no entanto, da
pesquisa para o quebra-cabeça é que o jogo não termina, por mais cuidado que se tenha,
sempre faltam muitas peças e, às vezes, a gente insiste em encaixar peças que se parecem,
mas não são, nos lugares que nos convêm, porque pesquisar é sempre um jogo de
escolhas e interpretações de um sujeito a partir de seu lugar de vivência, incluindo a fala
e a escuta dos pares, dos diferentes e de si mesmo.
De todo modo, como no quebra-cabeça, para pesquisar também se faz
indispensável escolher um método de organização espacial e de conteúdo. Com o quebra-
cabeça, normalmente começo montando as bordas e depois vou seguindo encaixando as
peças de baixo para cima. Vou deixando o centro da imagem, seu interior, para o final da
composição que o quebra-cabeça promove. Com a pesquisa também é assim.
Sobre a composição da imagem de um quebra-cabeça, o que tenho notado é que,
quanto mais informação tem a imagem, mais elementos de cor, de formas e detalhes, mais
fácil é de montar. Quanto mais monotemático e monocromático é o quebra-cabeça, mais
difícil é montá-lo. Neste trabalho, pego-me montando um quebra-cabeça de muitas peças
coloridas e de formatos diferentes.
Ainda bem que os saberes quilombolas nos permitem mestiçar ideias, cores,
gentes, ciências, artes, quebra-cabeças, sentidos e espiritualidades. A fim de promover os
recortes científicos dessa pesquisa, cabem algumas justificativas concretas e
metodológicas acerca das comunidades e mulheres quilombolas escolhidas para a
composição final deste quebra-cabeça. No tempo do doutorado, sem uma equipe
permanente, mas contando com o apoio esporádico de amigas pesquisadoras dedicadas,
se faz impossível dar conta de um trabalho aprofundado nas onze comunidades
quilombolas de Porto Alegre.
Assim, a escolha por trabalhar com as mulheres do Quilombo dos Alpes, do
Quilombo dos Flores, do Quilombo Kédi, do Quilombo Lemos, e do Quilombo Machado se
pela razão sensível da iniciação, acolhida e continuidade destas comunidades com o
meu trabalho. Cultuando a proteção, o ímpeto e a compreensão dessas senhoras, escolho
os limites metodológicos deste trabalho, sobretudo um trabalho geográfico, e, portanto,
cabem algumas considerações acerca das questões cartográficas aqui apresentadas.
As produções cartográficas apresentadas e desenvolvidas ao longo desta tese são
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fruto do acúmulo de trabalho junto ao Núcleo de Estudos Geografia e Ambiente
(NEGA/UFRGS) em sua caminhada metodológica com os quilombos em contextos
urbanos de Porto Alegre. Atualmente, o principal produto desta trajetória é o Atlas da
Presença Quilombola em Porto Alegre/RS (Pires; Bitencourt, 2021), que reúne, de forma
sistematizada, as experimentações consolidadas em cartografia social e co-participativa,
desenvolvidas junto às comunidades quilombolas entre os anos de 2013 e 2020,
mapeando nove das onze comunidades quilombolas da capital. Após o
autorreconhecimento dos Quilombos Santa Luzia e Kédi, realizou-se o mapeamento co-
participativo das duas comunidades nos anos de 2022 e 2023, respectivamente (Pires;
Duque; Bitencourt, 2023).
A cartografia social, ou cartografia co-participante, é uma metodologia de
mapeamento que utiliza a técnica de escutar os sujeitos que narram a organização
espacial do seu lugar, associada ao instrumental cartográfico das imagens de satélite e
softwares de georreferenciamento. A definição dos marcadores territoriais (Henriques,
2003) e o desenvolvimento das legendas são elaborações coletivas e dialógicas entre os
sujeitos quilombolas e a equipe técnica da geografia.
Os marcadores territoriais são o conjunto de marcas no espaço que possuem
significados compartilhados por todos os sujeitos de uma comunidade. A historiadora
portuguesa Isabel de Castro Henriques organiza os marcadores territoriais em quatro
tipos, a partir do seu estudo sobre a Angola colonial. Os marcadores podem ser vivos, ou
seja, aqueles criados pela natureza; podem ser históricos, ou seja, aqueles que possuem o
mesmo lugar e significado compartilhado entre gerações; podem ser musicais e sonoros,
ou seja, aqueles engendrados pelos sujeitos e reconhecidos pelos seus pares por meio do
uso de instrumentos percussivos ou de sopro; e os marcadores funcionais, aqueles que
estão associados às redes de comércio e informação forjados pelos sujeitos e
reconhecidos por seus pares.
Costuram-se, em nossas cartografias, as dimensões conceituais de marcadores
territoriais, elencados no contexto da Angola colonial, aos valores civilizatórios afro-
brasileiros, propostos pela pedagoga carioca Azoilda Loretto da Trindade (2010). Esses
valores são entendidos como contribuições civilizatórias do povo negro em diáspora, e
suas estratégias de sobrevivência às violências coloniais, que se refletem
contemporaneamente na construção dos cotidianos de comunidades negras, podendo ser
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observados nas comunidades quilombolas estudadas.
Os valores civilizatórios afro-brasileiros são a oralidade, ou seja, as ideias, os
costumes, os saberes e as culturas compartilhadas entre gerações por intermédio da
conversa, de narrativas e contações de histórias; a circularidade, ou seja, o entendimento
do tempo e dos processos contínuos de nascimento, vida e morte, de tudo o que é vivo; a
religiosidade, ou seja, a produção de cultura para além da materialidade, a partir de
dimensões metafísicas e espirituais; a corporeidade, ou seja, o sentido de eu, enquanto
único e coletivo; a musicalidade, ou seja, a produção e o entendimento dos ritmos da
existência, em suas múltiplas paisagens sonoras; o cooperativismo/comunitarismo, ou
seja, o sentido do fazer coletivo para a proteção, manutenção e desenvolvimento de um
grupo; a ancestralidade e a memória, ou seja, o reconhecimento e o resgate no presente
dos legados deixados pelos antepassados; a ludicidade, ou seja, a diversão como direito
humano, e a energia vital, ou seja, o poder, a força, e o desejo pela vida.
A partir dessa constelação conceitual, são elaboradas as cartografias. Assim, no
período desta pesquisa, foi possível desenvolver uma série de exercícios cartográficos
que auxiliam na defesa desta tese sobre urbanismo quilombola. Organizou-se o mapa das
Territorialidades Tradicionais de Porto Alegre (Mapa 1), a partir de uma atividade
realizada durante a VI Assembleia dos Povos, sediada no Quilombo dos Alpes entre os
dias 12 e 13 de novembro de 2022. A Assembleia dos Povos é uma reunião popular
periódica, organizada a partir do movimento social Frente Quilombola do RS e demais
parceiros autônomos, cujo objetivo é reunir e debater, a partir da região metropolitana
de Porto Alegre, as demandas por bem-viver e as estratégias de enfrentamentos às
desigualdades, desenvolvidas pelas comunidades tradicionais quilombolas,
pindorâmicas, povos de terreiro e demais segmentos de trabalhadores organizados de
forma autonomista e apartidária.
Assim, na VI Assembleia dos Povos, propõe-se, enquanto atividade do NEGA, a
realização de um mapeamento coletivo (Figura 1), em que os sujeitos presentes na
assembleia grafaram suas comunidades, grupos e coletivos em um mapa de Porto Alegre
confeccionado por projeção em um papel pardo. O mapa 1 é fruto da adaptação desta
atividade, destacando apenas as comunidades tradicionais quilombolas e pindorâmicas .
Para a revisão e finalização deste mapa, foi realizada uma consulta a Roberto Liebgott,
professor e coordenador do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), na Região Sul, em
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24 de março de 2023, durante o seminário de lançamento do livro Projeto Político do
Povo Negro para o Brasil: Construindo uma Nação Inclusiva, de Yedo Ferreira e Eustáquio
Lawa.
Este seminário e a VI Assembleia dos Povos foram duas atividades realizadas pelo
NEGA em parceria com a Frente Quilombola do RS dentro de um projeto chamado
Universidade Livre Quilombola, desenvolvido pela iniciativa do Quilombo da Família
Lemos. Este projeto teve dois objetivos distintos: 1. Elaborar o relatório antropológico de
caracterização histórica, econômica, ambiental e sócio-cultural do Quilombo da Família
Lemos; 2. Promover ações de formação territorial junto às comunidades quilombolas do
de Lemos, Flores, Machado e Alpes.
Figura 1 - Registro da produção coletiva do mapa das territorialidades tradicionais de Porto Alegre
durante a VI Assembleia dos Povos.
Fonte: NEGA, 2022.
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Mapa 1 - Cartografia das territorialidades tradicionais de Porto Alegre.
Fonte: Produção Coletiva, 2023
Nessa etapa, cabe pontuar algumas reflexões levantadas em colaboração com o
movimento social acerca dos territórios tradicionais de Porto Alegre. Segundo o artigo
PragMATIZES, Niterói/RJ, v. 16, n. 30, jan-dez. 2026. 14
terceiro do Decreto n°6040/07, compreendem-se:
I - Povos e Comunidades Tradicionais: grupos culturalmente diferenciados e que
se reconhecem como tais, que possuem formas próprias de organização social,
que ocupam e usam territórios e recursos naturais como condição para sua
reprodução cultural, social, religiosa, ancestral e econômica, utilizando
conhecimentos, inovações e práticas gerados e transmitidos pela tradição; II -
Territórios Tradicionais: os espaços necessários a reprodução cultural, social e
econômica dos povos e comunidades tradicionais, sejam eles utilizados de forma
permanente ou temporária, observado, no que diz respeito aos povos indígenas
e quilombolas, respectivamente, o que dispõem os arts. 231 da Constituição e 68
do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias e demais regulamentações;
e III - Desenvolvimento Sustentável: o uso equilibrado dos recursos naturais,
voltado para a melhoria da qualidade de vida da presente geração, garantindo as
mesmas possibilidades para as gerações futuras. (Artigo 3, Decreto
6040/2007).
A capital gaúcha abriga onze comunidades quilombolas e treze retomadas
indígenas autodeclaradas. Somadas essas duas populações, conforme o Censo de 2022,
há pouco mais de 4% da população de Porto Alegre.
A cidade não possui escolas quilombolas nos territórios, e não raro, as escolas
próximas aos territórios e atendem as comunidades desconhecem as políticas públicas
para educação escolar quilombola, elaboradas no Parecer CNE/CP 03/2004 e na
Resolução CNE/CP 01/2004, que garantem, entre outros benefícios, recursos
adicionais para alimentação e insumos às escolas que acolhem estudantes quilombolas.
Em 2022, foi inaugurada, após dez anos de projeto, a Escola Estadual Indígena de Ensino
Médio Anhetenguá, no território Anhetenguá, no bairro Lomba do Pinheiro, zona leste de
Porto Alegre. Na página de comunicação social da Secretaria de Educação do Estado é
destacado que:
A escola, que existe desde 2004, funcionava com uma estrutura que não atendia
às necessidades da comunidade. Com um investimento de R$ 3,6 milhões do
Tesouro do Estado, a obra que era aguardada 10 anos teve início em 2019 e
foi concluída no fim do ano passado. Foram construídos dois prédios com 10
salas de aula, banheiros, parquinho infantil, laboratório de ciências, quadra
coberta para recreação, quadra coberta de esportes, além de áreas cobertas nas
passarelas. No prédio antigo, duas salas serão adaptadas para abrigar a
biblioteca e o laboratório de informática. (Secretaria de Educação RS, 2023).
O poder municipal, por sua vez, destina pouquíssima ou nenhuma atenção à
educação escolar quilombola ou indígena, assim como também é baixíssimo ou nenhum
o investimento municipal no bem-viver das comunidades tradicionais. Em 1997, o
Quilombo do Areal conseguiu realizar um projeto habitacional via Departamento
Municipal de Habitação (DEMHAB), que possibilitou a construção de dezessete novas
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unidades habitacionais no território quilombola. Ao passo que, após o arrefecimento da
pandemia do Coronavírus, em 2022, o mesmo DEMHAB passou a acossar os moradores
do Quilombo Kédi, mediando sua remoção em favor da construtora Melnick Even,
atualmente uma das principais especuladoras imobiliárias da cidade.
A lisura na defesa dos territórios tradicionais está sujeita ao entendimento das
políticas públicas, mas principalmente à vontade política das gestões em cumprir e
promover medidas de reparação histórica. As demandas dos territórios tradicionais
costumam ser atendidas após muita luta protagonizada pelas próprias comunidades.
Aquelas que optam estritamente pelos apoios partidários, não raro, enfrentam maiores
dificuldades em terem suas demandas resolvidas.
Para as comunidades tradicionais terem suas demandas atendidas, é preciso
articular com todos os atores que operam na organização da estrutura política, nas
múltiplas escalas em que estão divididas as questões quilombolas e indígenas, visando
sua aplicação no lócus do município. O movimento social, as entidades de classe, o partido
político, a universidade, as secretarias, autarquias e ministérios são alguns dos atores
políticos que podem estar articulados com a luta das comunidades tradicionais, porém, é
preciso também que esses atores sejam acessados por essas comunidades.
Porto Alegre é internacionalmente conhecida pelo Orçamento Participativo (OP),
modelo de gestão municipal, implementado no final da década de 1980 pela então gestão
de Olívio Dutra, do Partido dos Trabalhadores. Esta é uma alternativa de governabilidade
que possibilita, se não a repartição total com os pobres, um diálogo com o poder público
para o uso dos recursos públicos em demandas básicas elencadas pelas comunidades,
como acesso à infraestrutura, saúde e educação.
Atualmente, são dezessete as regiões do OP e seis eixos temáticos representados
por noventa e dois conselheiros, titulares e suplentes. Os eixos temáticos se dividem em
Circulação, Transporte e Mobilidade Urbana; Habitação, Organização da Cidade,
Desenvolvimento Urbano e Ambiental; Saúde e Assistência Social; Cultura e Juventude;
Desenvolvimento Econômico, Tributação, Turismo e Trabalho; e Educação, Esporte e
Lazer.
Os onze territórios quilombolas de Porto Alegre estão inseridos nas regiões do O
P. As regiões Centro e Glória reúnem a maior concentração de quilombos por região. No
Centro, estão os quilombos Arela, Fidélix e Mocambo, enquanto que, na Glória, estão os
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quilombos Alpes, Flores e Santa Luzia. Na região Cruzeiro está o Quilombo Lemos, e na
região Lomba do Pinheiro, o Quilombo Ouro. Na zona Norte da cidade, a continuidade
territorial dos quilombos Kedi e Silva é cortada respectivamente pelas regiões Nordeste
e Leste, enquanto o Quilombo dos Machado está localizado na região Norte.
O mapa 2 apresenta as presenças quilombolas e as regiões do Orçamento
Participativo. No entanto, apesar de inseridas em suas regiões, as demandas das
comunidades quilombolas carecem de um eixo temático especial, haja vista suas
particularidades. Do mesmo modo como as demais comunidades tradicionais, demandas
por reconhecimento e preservação de suas culturas não podem ser invisibilizadas no
planejamento urbano.
Após a implementação do OP, as associações comunitárias, e instituições da
sociedade civil dos setores mais populares passaram a ocupar nove, entre as vinte e oito
cadeiras disponíveis no Conselho Municipal de Desenvolvimento Urbano e Ambiental
(CMDUA), que desde o final da década de 1930, é formado por setores do governo, da elite
política e econômica da cidade. O CMDUA tem por finalidade formular políticas, planos,
programas e projetos de desenvolvimento urbano, conforme destacado no artigo 39 do
Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano e Ambiental PDDUA de Porto Alegre.
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Mapa 2 - Presenças quilombolas e regiões do OP em Porto Alegre/RS.
Fonte: NEGA, 2024.
Das nove cadeiras populares, oito delas são destinadas para os representantes das
Regiões de Gestão do Planejamento, e uma delas para um representante da temática do
Orçamento Participativo - Organização da Cidade, Desenvolvimento Urbano Ambiental.
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As oito regiões de gestão do planejamento são uma proposta de aglutinamento das
dezessete regiões do OP, que segue uma proposta de regionalização das demandas
populares que acontecem nas dimensões dos bairros e territórios. De todo modo, ainda
não existe um assento garantido no conselho municipal que promove as políticas urbanas
de desenvolvimento social e ambiental, para nenhuma representação das vinte e quatro
comunidades tradicionais indígenas e quilombolas da cidade.
Ao longo do trabalho realizado junto ao NEGA, tenho observado, principalmente
pela experiência com o Quilombo dos Alpes, que o esforço de manutenção e construção
coletiva do território quilombola é um trabalho realizado quase que invariavelmente
pelas mulheres quilombolas. Sem que, contudo, elas sejam diretamente consultadas a
respeito de suas demandas e soluções para a qualificação de seus territórios. Desta forma,
elaborei a pergunta geradora desta tese que indaga: que cidade querem as mulheres
quilombolas?
Esse exercício gerou mapas sínteses, reunindo a condição dos territórios
quilombolas do Alpes, Flores, Kédi, Lemos e Machado, e cinco mapas narrativos,
apresentando as demandas particulares de cada comunidade. Portanto, cabe apresentar
a metodologia empregada na elaboração deste material que sugere contribuições para
um planejamento territorial quilombola em contexto urbano.
Em outubro de 2022, realizei uma entrevista qualitativa semi-estruturada teste
com Vanda Tamires da Silva Antunes, Karina Machado Camilo e Mayara Machado do
Quilombo dos Machados para afinar minhas questões, entender como realizá-las de modo
a cumprir o papel mediador das ideias. Saí de percebendo como os questionamentos
que estava propondo no momento eram abstratos, frente a coisas tão concretas que elas
tinham para me dizer, e que realmente significam demandas e soluções em relação à
qualificação do bem-viver do território delas.
Nessa ocasião é que a compreensão científica do conceito de ladaia se apresentou.
Assim, refiz minha entrevista e, então, entre os dias 28 de agosto e 02 de setembro de
2023, realizei as entrevistas finais deste trabalho. No Quilombo dos Alpes, conversei com
Rosangela da Silva Ellias e Karina Rejane da Silva Ellias; no Quilombo dos Machado,
conversei novamente com Vanda Tamires da Silva Antunes; no Quilombo da Família
Lemos, conversei com Sônia Lemos dos Santos e Sandra Valéria de Lemos Barbosa; no
Quilombo da Família Flores, conversei com Geneci de Lourdes Flores da Silva; e no
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Quilombo Kédi, conversei com Cláudia Fernanda Vargas.
Elaborei, para a condução dessas entrevistas, uma ficha com o questionário e duas
atividades. Os materiais levantados e sistematizados a partir destes instrumentos
possibilitam as elaborações inéditas desta pesquisa, realizada a partir da práxis
metodológica do ler-pensar-agir a partir da urbanização produzida pelas mulheres
quilombolas de Porto Alegre. Desta forma, organizou-se a montagem desse quebra-
cabeça em formato de pesquisa sobre urbanizações marginalizadas que estão presentes
nos interstícios da cidade, visto que essas presenças idealizam alternativas concretas de
reparação histórica e geográfica para seus territórios. Do mesmo modo como instigam o
despontar de outras propostas vindas de seus pares na margem, em um processo de
retroalimentação necessário para o equilíbrio de um organismo vivo e pulsante como é a
cidade.
Como proposta para o desenvolvimento de planos territoriais quilombolas, neste
trabalho realizamos entrevistas qualitativas semiestruturadas com sete mulheres
quilombolas. A partir dessa consulta prévia, construímos representações cartográficas
que registram os desejos dessas mulheres para seus territórios. Da mesma forma como
no Quadro 1, reunimos de forma sintética a maneira como as entrevistadas de cada
comunidade enxergam a si e aos demais territórios quilombolas de nosso recorte.
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Quadro 1 - Panorama da situação dos quilombos Alpes, Flores, Kédi, Lemos e Machado de acordo com
entrevistas realizadas no segundo semestre de 2023.
Fonte: Rosangela da Silva Ellias, Karina Rejane da Silva Ellias, Vanda Tamires da Silva Antunes, Sônia
Maria Lemos dos Santos, Sandra Valéria de Lemos Barbosa, Geneci de Lourdes Flores da Silva, Cláudia
Fernandes Vargas, Lara Bitencourt - 2023.
O Quadro 1 revela um panorama formado por nossas entrevistas e a compreensão
delas sobre os seus territórios e os demais territórios quilombolas referenciados nesta
pesquisa. Buscamos, com esta representação sintética, refletir como essas mulheres,
lideranças comunitárias, acompanham a organização de seus territórios e se encontram
na relação com demais territórios quilombolas.
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Fica evidente, neste recorte, os diferentes processos de organização e maturidade
da luta quilombola engendrada no Quilombo dos Alpes e no Quilombo Kédi. O primeiro
acumula uma luta pela titulação de mais de vinte anos, visto que a movimentação pelo
autorreconhecimento e título neste território acontece desde o começo dos anos 2000,
ao passo que o segundo encontra-se nas primeiras etapas do processo de
autorreconhecimento e título, sendo certificado pela FCP em 2023.
As diferentes maturidades no processo de autorreconhecimento e titulação das
comunidades quilombolas não interferem na compreensão de que as soluções para os
conflitos sobre a terra estão sob a responsabilidade do Instituto Nacional de Colonização
e Reforma Agrária (INCRA) e em esferas de decisões federais. Da mesma forma como é
unânime o entendimento de que os ataques sofridos pelos quilombos Flores e Lemos são
engendrados respectivamente pelos Maristas do Colégio Glória Assunção e pela direção
do Asilo Padre Cacique. Além desses atores, despontam as imobiliárias e as redes de
supermercados como principais especuladores das terras quilombolas.
Demandas por infraestrutura básica giram em torno da rede de iluminação
pública, saneamento básico e oferta de escolas nos diferentes níveis de educação. A partir
deste quadro e dos trabalhos de pesquisa, ensino e extensão realizados junto às
comunidades, elaboramos propostas de planos territoriais que consideram as trajetórias
históricas dos territórios quilombolas e as demandas elencadas por nossas entrevistadas.
O que fica evidente é que esses planos refletem a pedagogia urbana necessária para a
produção de uma cidade que enxergue os quilombos e consiga reparar as dívidas
históricas e geográficas de um processo de exclusão secular. Para isso, se faz
indispensável o acesso das comunidades tradicionais às ferramentas de planejamento
territorial, como, por exemplo, a presença garantida no conselho municipal de
desenvolvimento urbanístico e ambiental (CMDUA), do mesmo modo como se faz urgente
o desenvolvimento de ferramentas de consulta popular específicas para as comunidades
tradicionais.
Leite de peito, veias abertas
A categoria mulher, enquanto categoria de pesquisa, é tratada nesta pesquisa
como uma categoria existencial, imbricada de cultura, biologia, geografia, papéis sociais
e suas construções, sexualidade, raça, classe e outras múltiplas dimensões de profunda
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complexidade existencial que fazem parte de nosso cotidiano espacializado. Lembrando
que esse cotidiano espacializado é atravessado por vetores de poder, verticais e
horizontais (Santos, 1996), que atingem de formas diferentes homens e mulheres.
Trabalhar com a categoria mulher nas ciências, se não for em formato de
dissecação, é sempre motivo de contestação e desconforto. Existe uma ilustração
acadêmica do cientista descorporificado de feminilidade ou racialidade. Felizmente, essa
pesquisa está imune a tais irracionalidades abstratas, pois o processo de construção de
nossa práxis foi sempre entre mulheres e com mulheres que aprendemos a observar e
entender a contribuição quilombola na urbanização de Porto Alegre.
O feminismo, quando entendido apenas como uma corrente política, mas não
científica, opera epistemicídios, ou seja, promove o silenciamento da diversidade.
Diferentes formas de olhar um mesmo problema apresentam diferentes soluções.
Tomemos a questão urbana, o amplamente observada pela geografia sob a ótica de
geógrafos positivistas, marxistas, culturalistas, diferentes formas de olhar o que uma
mesma cidade nos diz. O olhar sobre a cidade a partir da caminhada junto às comunidades
quilombolas nos permite exercitar uma ótica quilombista sobre Porto Alegre, refinando
essa mirada a partir das miradas que as mulheres quilombolas nos apresentam.
Não, não defendemos que a cidade deva ser um reduto de amazonas, ou uma ilha
de Lesbos, ou qualquer utopia misândrica. Não é isso que se está discutindo, senhores,
mas nesta pesquisa, em particular, as suas contribuições não são o foco de nossa atenção.
Esse segundo sexo, essa segunda classe onde nós, mulheres, somos posicionadas,
carrega impedimentos narrativos, que nos pressionam para falar mais baixo, nos
intimidam para falar menos detalhadamente, apesar de nossa natureza, de modo que,
para ser assertiva, nossa mensagem tenha que se masculinizar pela agressividade.
Qualquer outra sensibilidade parece carecer de tradução, mas que tradução é essa?
O feminismo das mulheres negras e pindorâmicas é interseccional desde sua
origem. E a racialização do pensamento feminista nos convida a atravessar uma fronteira
paradigmática ao entender o branco e a branquitude também como racializados. O
quilombo, no Brasil, se apresenta como entidade territorial transcultural, o que permite
pensar para além da divisão racial. Porém, não se pode ignorar o perverso sistema de
opressão racista e misógina que opera sobre as mulheres quilombolas.
A ancestralidade é uma dimensão civilizatória presente no cotidiano das mulheres
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quilombolas que lhes confere poder. No entanto, existe uma relação dialética com esse
poder, uma compreensão que a filósofa paulistana Sueli Carneiro chama de ‘Matriarcado
da Miséria’. Em que se forma uma dimensão ambígua e, portanto, dialética, entre poder e
exclusão, compartilhada entre gerações de mulheres negras, quilombolas, pindorâmicas
e periféricas. Em nenhum momento da história da formação territorial brasileira, essas
mulheres deixaram de trabalhar, produzindo lucro aos senhores e, posteriormente, às
suas famílias. Um trabalho de manutenção e cuidado silencioso e silenciado. Para
Carneiro (2011):
a conjugação do racismo com o sexismo produz sobre as mulheres negras uma
espécie de asfixia social com desdobramentos negativos sobre todas as
dimensões da vida, que se manifestam em sequelas emocionais com danos à
saúde mental e rebaixamento da autoestima; em uma expectativa de vida menor,
em cinco anos, em relação à das mulheres brancas, em um menor índice de
casamentos, sobretudo no confinamento nas ocupações de menor prestígio e
remuneração. De acordo com a declaração das Organizações de Mulheres Negras
Brasileiras, o trabalho doméstico ainda é, desde a escravidão negra no Brasil, o
lugar que a sociedade racista destinou como ocupação prioritária das mulheres
negras. Nele, ainda são relativamente poucos os ganhos trabalhistas e as relações
se caracterizam pelo servilismo. Em muitos lugares, as formas de recrutamento
são predominantemente neo-escravistas, em que meninas o trazidas do meio
rural, sob encomenda, e submetidas a condições sub-humanas no espaço
doméstico. (Carneiro, 2011, p. 127-128).
Apesar desta inegável asfixia social para fora de seus territórios, dialeticamente,
na dimensão de seus cotidianos, as mulheres quilombolas são figuras de referência para
suas famílias e comunidades. Passam a exercer papéis de liderança e de poder sobre as
tomadas de decisões e os rumos do desenvolvimento de seus territórios, porque, antes
de tudo, são elas as primeiras educadoras dos sujeitos quilombolas, sejam eles do sexo
feminino ou do sexo masculino. Existe, portanto, um processo pedagógico exercido por
essas mulheres em seus territórios que não pode ser ignorado.
Esse papel social é construído a partir da autoridade gerada pela categoria mãe.
Cada uma de nossas entrevistadas é mãe de pelo menos dois filhos, de modo que a
construção de suas autoridades territoriais passa também pela construção e o
reconhecimento de sua autoridade familiar reforçada pela maternidade.
Não sustentamos aqui uma defesa de que a maternidade é um sentido natural
entre as mulheres. Pelo contrário, o que está posto é que esse sentido é construído
conforme o contexto socioespacial. Podendo, sim, em contextos de marginalização, ser
desejado, visto que carrega consigo uma autoridade que funciona também como
estratégia de defesa e respeitabilidade entre as mais jovens.
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No mapa 3, Quilombos Urbanos de Porto Alegre - Ancestralidade, organizamos a
dimensão de ancestralidade das narrativas de nossas entrevistadas, pois, neste mapa, são
localizadas as matriarcas dos cinco territórios quilombolas desta pesquisa. No Quilombo
dos Alpes, a presença de Edwirges Francisca da Silva, que nome à associação
quilombola e é também uma das primeiras moradoras do bairro Glória, na zona Sul da
cidade. Vinda do município de Charqueadas, na primeira metade do século XX, viveu até
os cem anos, trabalhando como doméstica e lavadeira para as famílias mais
endinheiradas, analfabeta, criou quatro filhos e um incontável número de netos. Hoje, seu
legado é honrado e compartilhado pelas netas Rosangela e Karina Ellias, cotidianamente
na manutenção de seu território.
No Quilombo Lemos, existe a presença e a memória de Anna Júlia Gonçalves, que
por oitenta anos viveu entre o Quilombo de Maçambique, no município de Canguçu, e o
Quilombo Lemos, no bairro Santa Tereza, em Porto Alegre. Seus últimos vinte anos de
vida foram dedicados à consolidação territorial do quilombo Lemos, contribuindo na
construção da casa da família, na organização espacial dos cultivos, voltados aos tratos
medicinais, ao alimento e aos ritos sagrados, além do cuidado com os netos. Atualmente,
Sônia e Valéria Lemos, as mais velhas entre seis irmãos, compartilham os ensinamentos
da avó com as gerações mais novas.
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Mapa 3 - Cartografia indicativa dos territórios e das matriarcas quilombolas desta pesquisa,
referenciando o valor afro-civilizatório da ancestralidade.
Fonte: NEGA, 2024.
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A presença de Rosalina da Costa Gonçalves, no Quilombo Flores, deixa saudades
recentes. Atingida pela pandemia do Coronavírus, em 2021, viveu setenta e cinco anos
entre o Quilombo dos Alpes, de onde se origina sua família, e o Quilombo Flores, onde
passou a construir sua família junto ao companheiro Adão Flores. Durante mais de
quarenta anos, organizou o território do Quilombo Flores a partir da religiosidade,
analfabeta, trabalhou como doméstica e em serviços gerais a vida toda, além de criar e
educar seis filhos. Hoje, o legado político formado a partir da movimentação de Rosalina
no território quilombola é continuado por sua filha Geneci de Lourdes Flores da Silva.
Maria Olmira Machado, matriarca do Quilombo dos Machado, veio morar em Porto
Alegre no final da década de 1960, onde viveu até a primeira década dos anos 2000. Partiu
em diáspora, com a família, do município de São Francisco de Paula, e encontrou, no
bairro Sarandi, zona norte de Porto Alegre, condições para construir sua rede de
territorialidade quilombola. Analfabeta, criou e educou três filhos trabalhando como
doméstica e recicladora. Atualmente, a nora Vânda Tamires da Silva Antunes, casada com
seu filho Luis Rogério Machado, celebra o legado da matriarca que nome ao curso de
reforço escolar organizado no território quilombola.
Enquanto uma das representantes das matriarcas do Quilombo do di, está
Angela Maria, que recentemente nos deixou e é mãe de Cláudia Fernanda Vargas. Angela,
também analfabeta, como as outras matriarcas quilombolas deste grupo, criou os filhos
no território que ajudou a construir por toda sua vida. A partir dos preceitos religiosos e
culturais da terreira de sua avó, Otília Gonçalves, Angela Maria transmitiu os valores
civilizatórios e quilombolas para sua família, que atualmente mantém este legado.
O fato de todas as matriarcas deste recorte serem iletradas desperta em seus
descendentes a busca pela educação escolar a partir de seus territórios. Essas
construções realizadas autonomamente nos territórios quilombolas são reflexo das
estratégias de sobrevivência ensinadas por suas mais velhas.
Essa forma de conceber a existência em sociedade pode nos servir como exemplo
para uma pedagogia urbana quilombola, em que nossa compreensão de sociedade e de
cidade seja menos predatória, não em relação às vidas humanas, mas para a natureza
como um todo, para quem sabe, com sorte, possam surgir e prosperar novas gerações.
Fica evidente uma necessidade de lapidação mais profunda das dimensões do quilombo
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jurídico, visto que não é pacífica a ideia de terras quilombolas coletivas. Em meio a uma
realidade de terras privadas, fica evidente a falta de uma profunda educação da
sociedade, para que a titulação de uma terra quilombola não alimente motivos para
violência e segregação por parte dos sujeitos não quilombolas.
Mas, independentemente desse longo e necessário processo de reeducação social,
as terras quilombolas precisam ser tituladas com maior celeridade. Não é justa uma
espera de mais de vinte anos para a titulação de um território, como é o caso, em nosso
recorte, da luta por titulação enfrentada pelo Quilombo dos Alpes. É vergonhoso o
sucateamento do INCRA, que impossibilita que as comunidades do Quilombo Flores,
Lemos e Kédi não tenham equipe de trabalho para a realização de seus estudos técnicos.
E que o Quilombo dos Machado tenha que articular o cumprimento de peças cnicas com
parcerias da universidade, porque a autarquia não tem disponibilidade de equipe. Ações
como as promovidas pelo Lemos, de iniciativa para a contratação de suas equipes de
técnicos, devem ser incentivadas pelos governos, independentemente de legendas, e
acolhidas pelas instituições de pesquisa e o INCRA em acordos técnicos referendados por
ambas as instituições.
Assim como também se faz urgente o respeito à vida das famílias quilombolas ao
nível de cotidiano, no espaço dos municípios, por meio da oferta de infraestrutura básica.
É inadmissível que ainda estejamos discutindo as mesmas coisas de sempre, e solicitando
pelo básico primário, porque o Estado segue sendo o agente do extermínio das diferenças,
fundamentado em uma cultura de exploração e consequente manutenção da pobreza
material das mesmas populações escravizadas durante o período Colonial.
Precisamos nos reeducar enquanto sociedade, e isso passa pela autocrítica de não
romantizar a pobreza e a ignorância circunstancial de uma sociedade embrutecida pelas
lógicas de exploração e alienação pelo consumismo. A universidade, o partido político, o
movimento social precisam reconhecer seus privilégios e limitações enquanto parceiros
das comunidades quilombolas, respeitar suas autonomias sobre quaisquer
circunstâncias e demonstrar humildade em aprender com quem educa as comunidades
quilombolas.
A estrutura institucional precisa se reeducar para ser antirracista, mas, para as
instituições serem antirracistas, os sujeitos precisam se educar. A mediação branca
precisa, urgentemente, se tornar obsoleta e irrelevante. Os sujeitos quilombolas têm
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muito o que dizer, faltam melhores condições de acesso às ferramentas para serem
ouvidos, e isso passa, invariavelmente, pela escola. Porto Alegre, enquanto lócus de nossa
pesquisa e abrigo de onze comunidades quilombolas autorreconhecidas, carece
imediatamente de uma escola quilombola. Com um currículo territorial, e projetos de
formação de professores e estudantes, para que as próximas teses sobre urbanismo
quilombola sejam escritas diretamente por quilombolas, sem ladaia.
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Apuntes sobre planificación urbana, trabajo quilombista y planes territoriales
gestionados por mujeres quilombolas en Porto Alegre/RS
RESUMEN: Este artículo explora las interconexiones entre la planificación urbana, el
trabajo quilombista y los planes territoriales gestionados por mujeres quilombolas en
Porto Alegre, Rio Grande do Sul. El estudio investiga cómo la gestión territorial llevada a
cabo por estas mujeres se articula con las dinámicas urbanas y las políticas públicas,
además de analizar el impacto del trabajo quilombista en las estrategias organizativas y
de resistencia de las comunidades quilombolas en la ciudad. La investigación también
aborda los desafíos que enfrentan estas mujeres en el proceso de fortalecimiento del
protagonismo femenino en el contexto urbano y las formas en que buscan afirmar sus
derechos territoriales frente a las presiones urbanas. Finalmente, el artículo resalta la
importancia de reconocer y valorar los conocimientos y prácticas quilombolas en la
planificación urbana, proponiendo reflexiones sobre cómo integrar estas perspectivas en
las políticas urbanas de manera más inclusiva y justa.
Palabras clave: quilombos urbanos; planificación y gestión territorial quilombola;
mujeres quilombolas.
Notes on urban planning, quilombista work, and territorial plans managed by
quilombola women in Porto Alegre/RS
ABSTRACT: This article explores the interconnections between urban planning,
quilombista work, and territorial plans managed by quilombola women in Porto Alegre,
Rio Grande do Sul. The study investigates how territorial management carried out by
these women articulates with urban dynamics and public policies, in addition to
discussing the impact of quilombista work on the organizational and resistance strategies
of quilombola communities in the city. The research also addresses the challenges faced
by these women in the process of strengthening female protagonism in the urban context
and the ways in which they seek to assert their territorial rights in the face of urban
pressures. Finally, the article highlights the importance of recognizing and valuing
quilombola knowledge and practices in urban planning, proposing reflections on how to
integrate these perspectives into urban policies in a more inclusive and just way.
Keywords: urban quilombos; quilombola territorial planning and management;
quilombola women.