PragMATIZES, Niterói/RJ, v. 16, n. 30, jan-dez. 2026. 8
compete ao quilombo jurídico, é exigido delas um compromisso integral com a identidade
quilombola em sua complexidade, não podendo negociá-las conforme o sentido do vento.
E essa postura é esperada e incentivada para toda a sua comunidade. Conforme reflete
Rosangela da Silva Ellias, a Janja, liderança do Quilombo dos Alpes, em uma entrevista de
2017:
Eu conto, sempre, que são 170 anos de existência e de resistência. Existência,
porque a gente continua existindo, lá, na área, e resistindo, por conta do
reconhecimento, de quando nós nos autoidentificamos como comunidade
quilombola. Do momento, em que a gente se autorreconheceu como comunidade
quilombola, eu perdi minha identidade; não, de resistência, porque continuamos
resistindo, cada vez, com mais força. Mas perdi a identidade, porque, a partir daí,
tem todo um processo de reconhecimento, que passa por todos os estudos e as
pesquisas, para a titulação. E isso, para mim e para todos nós, era tudo novo; é
mexer com documentação, com leis, com coisas do governo. Eu sempre lutava
para estar bem longe de política, mas, a partir daí, eu virei uma cidadã! Comecei
a votar, porque, até então, eu não me preocupava com título; me mantinha e
conseguia me manter, sem nada disso. Conseguia sobreviver e criar meus filhos
e meus sobrinhos, sem precisar estar indo votar e ver toda essa safadeza, que
está acontecendo, aí, com o nosso país, e entregar nossa existência na mão de
pessoas que não tem o mínimo de respeito. Daí, eu perdi uma identidade, mas
estou sobrevivendo; estou conseguindo resistir e estou levando adiante, até
porque, no momento, em que a gente se autorreconhece, nós passamos a ter todo
uma documentação, para poder manter e para registrar a associação, podendo, a
partir de então, encaminhar e reivindicar os direitos de trazer melhorias e
estruturas para a comunidade. (Ellias, 2021 [2017], p. 733-734).
As dimensões espaciais do cotidiano também abarcam a contradição, e do mesmo
modo como as heranças de alguns sujeitos podem ser palmarinas , as heranças de outros
podem ser de capitães do mato. O quilombo cotidiano se constrói apoiado nas heranças
de coletividade e de partilha, contemporaneamente travando processos de
insubordinação contra o individualismo, este que é uma forma de escravização moderna.
O cotidiano dessa pesquisa se organiza a partir da vivência junto ao Quilombo dos
Alpes, e se constrói coletivamente no trabalho realizado pelo Núcleo de Estudos Geografia
e Ambiente, do curso de Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul,
estendendo-se para os demais quilombos que compõem nosso recorte. O trabalho de
mapeamento co-participativo (Pires; Bitencourt, 2021), iniciado em 2013 no Quilombo
dos Alpes, possibilita, desde então, as construções políticas e metodológicas desta
pesquisa de doutorado realizada entre os anos de 2021 e 2024.
Modos de fazer da pesquisa
Não raro, fazer pesquisa é como montar um quebra-cabeça, exige tempo,