PragMATIZES, Niterói/RJ, v. 16, n. 30, jan-dez. 2026. 7
raça.
E, se é verdade que o poder político para a guerra, faz reinar ou tenta fazer reinar
uma paz na sociedade civil, não é de modo algum para suspender os efeitos da
guerra ou para neutralizar o desequilíbrio que se manifestou na batalha final da
guerra. O poder político, nessa hipótese, teria como função reinserir
perpetuamente essa relação de força, mediante uma espécie de guerra silenciosa,
e de reinseri-la nas instituições, nas desigualdades econômicas, na linguagem,
até nos corpos de uns e de outros. (Foucault, 2005, p. 23)
O campo de batalha se deslocaria de forma particular na esfera da subjetividade,
por meio do qual o vencedor é sempre o mesmo. Sem necessidade de assumir um lado,
mantém o monopólio da palavra, do diagnóstico, da lei, do registro, da história, do que
será esquecido e lembrado – em suma, da verdade. E, ancorado na legitimidade,
defenderá, reclamará, fará valer juridicamente os seus interesses particulares. No caso da
Europa Moderna, interessava às elites burguesas, por exemplo, o sacramento à
inviolabilidade da propriedade individual; a lealdade das instituições ao mercado; a livre
iniciativa para acumular capital; o progresso científico e a inteligibilidade do mundo sob
pressupostos objetivos; a moral judaico-cristã para regular a sexualidade e o trabalho
reprodutivo sob o manto do patriarcado e; - transversal à todos estes -, o pressuposto da
segmentação biológica da espécie conforme uma hierarquia de natureza racial, de modo
que, com isso, pudesse o caucasiano europeu nivelar, tendo a si mesmo como matriz
comparativa, o grau de licenciamento do outro no pacto social.
A raça, o racismo, explicava Foucault, “é a condição de aceitabilidade da
condenação à morte numa sociedade de normalização”. E conclui: “A função assassina do
Estado só pode ser garantida, funcionando o Estado no modo do biopoder, através do
racismo” (Foucault, 2005, p. 67). Nesse ponto de vista, a raça, simultaneamente situada
como ideologia, funciona também como um dispositivo de segurança, uma tecnologia de
governo (Foucault, 2005, p. 71), um catalisador para a salvaguarda de uma identidade
comum por exclusão. Incompleta será a análise sobre a Modernidade, segundo o autor,
enquanto não for reconhecida a denúncia de que seu advento se coaduna com uma nova
concepção do princípio de raça.
Com efeito, que é o racismo? É, primeiro, o meio de introduzir afinal, nesse
domínio da vida de que o poder se incumbiu, um corte: o corte entre o que deve
viver e o que deve morrer. No contínuo biológico da espécie humana, o
aparecimento das raças, a distribuição das raças, a distinção das raças como boas
e de outras, ao contrário, como inferiores, tudo isso vai ser uma maneira de
fragmentar esse campo do biológico de que o poder se incumbiu; uma maneira
de defasar, no interior da população, uns grupos em relação aos outros. Em