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SCHNEIDER, Mariana Cunha; FROHLICH, Nícolas Braga, COSTA, Luciano
Bedin da; ALMEIDA, Tiago Alexandre Fernandes. Cartografias infantis:
narrativas das infâncias enquanto uma metodologia do encanto.
PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.118-135, set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
Cartografias infantis: narrativas das infâncias enquanto uma metodologia do
encanto
Mariana Cunha Schneider
1
Nícolas Braga Fröhlich
2
Luciano Bedin da Costa
3
Tiago Alexandre Fernandes Almeida
4
DOI: https://doi.org/10.22409/pragmatizes.v15i29.67188
Resumo: Este artigo investiga as narrativas infantis como metodologia de pesquisa, enfatizando o
encantamento como princípio epistemológico e político. Partindo da ética cartográfica e da integração
da poesia como ferramenta metodológica, argumentamos que pesquisar com as infâncias exige uma
escuta sensível e uma abordagem que valorize suas formas singulares de narrar o mundo. As crianças,
longe de serem somente sujeitos em formação, apresentam-se como potências criativas e ancestrais,
capazes de tensionar estruturas adultocêntricas e coloniais. A pesquisa com narrativas infantis
possibilita uma reconfiguração das relações de poder e do conhecimento, promovendo um olhar que
conecta o visível e o invisível. Inspirados em autores como Renato Noguera, Luiz Antonio Simas, Luiz
Rufino e Ailton Krenak, propomos que o encantamento, presente nas experiências infantis, atua como
uma ferramenta contracolonial e uma prática de resistência. A cartografia infantil, entendida como
metodologia, permite reescrever a vida por meio da brincadeira e da alegria, questionando hierarquias
e promovendo uma política do sensível. Assim, reafirmamos a importância de uma pesquisa que, ao
1
Doutoranda e Mestra em Psicologia Social e Institucional pela Universidade Federal do Rio Grande
do Sul (UFRGS). Integrante do Grupo Políticas do Texto. E-mail: mari.cunha.s@hotmail.com. ORCID:
https://orcid.org/0000-0002-7577-1710.
2
Mestrando em Psicologia Social e Institucional pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul
(UFRGS). Integrante do Grupo Políticas do Texto. E-mail: nbfrohlich@gmail.com. ORCID:
https://orcid.org/0009-0005-1718-0321.
3
Doutor em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Docente na
Faculdade de Educação e no Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social e Institucional da
UFRGS. Coordenador do Grupo Políticas do Texto. E-mail: bedin.costa@gmail.com. ORCID:
https://orcid.org/0000-0002-6350-2644.
4
Doutor em Psicologia Educacional pelo Instituto Universitário de Ciências Psicológicas Sociais e da
Vida, Portugal. Docente no Instituto Politecnico de Lisboa, Escola Superior de Educação; CI&DEI -
Centro de Estudos em Educação e Inovação. E-mail: tiagoa@eselx.ipl.pt. ORCID:
https://orcid.org/0000-0002-3557-0623.
Recebido em 30/03/2025, aceito para publicação em 08/08/2025.
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Bedin da; ALMEIDA, Tiago Alexandre Fernandes. Cartografias infantis:
narrativas das infâncias enquanto uma metodologia do encanto.
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Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.118-135, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
invés de traduzir e domesticar a infância, caminhe junto a ela, aprendendo com suas múltiplas formas
de fabular o mundo.
Palavras-chave: narrativas infantis, encantamento, cartografia infantil, epistemologia,
contracolonialidade.
Children's Cartographies: childhood narratives as a methodology of enchantment
Abstract: This article explores children's narratives as a research methodology, emphasizing
enchantment as an epistemological and political principle. Drawing from cartographic ethics and
incorporating poetry as a methodological tool, we argue that researching with childhood requires
attentive listening and an approach that values their unique ways of narrating the world. Children are
not merely subjects in development; they embody creative and ancestral forces capable of challenging
adult-centric and colonial structures. Researching enchanted narratives enables a reconfiguration of
power relations and knowledge production, fostering a perspective that intertwines the visible and the
invisible. Inspired by scholars such as Renato Noguera, Luiz Antonio Simas, Luiz Rufino, and Ailton
Krenak, we propose that enchantment, inherent in childhood experiences, functions as a counter-
colonial tool and a form of resistance. The concept of children's cartography as a methodology allows
for rewriting life through play and joy, subverting hierarchies and promoting a politics of the sensitive.
Thus, we reaffirm the importance of research that does not seek to translate and domesticate childhood
but rather walks alongside it, learning from its multiple ways of fabulating the world.
Keywords: children's narratives, enchantment, children's cartography, epistemology, counter-
coloniality.
Cartografías infantiles: narrativas de las infancias como una metodología del encanto
Resumen: Este artículo investiga las narrativas infantiles como metodología de investigación,
enfatizando el encantamiento como un principio epistemológico y político. Partiendo de la ética
cartográfica y la integración de la poesía como herramienta metodológica, argumentamos que
investigar con las infancias exige una escucha sensible y un enfoque que valore sus formas singulares
de narrar el mundo. Las niñas y los niños, lejos de ser solo sujetos en formación, se presentan como
potencias creativas y ancestrales, capaces de tensionar las estructuras adultocéntricas y coloniales. La
investigación con narrativas infantiles posibilita una reconfiguración de las relaciones de poder y del
conocimiento, promoviendo una mirada que conecta lo visible con lo invisible. Inspirados en autores
como Renato Noguera, Luiz Antonio Simas, Luiz Rufino y Ailton Krenak, proponemos que el
encantamiento, presente en las experiencias infantiles, actúa como una herramienta contracolonial y
una práctica de resistencia. La cartografía infantil, entendida como metodología, permite reescribir la
vida a través del juego y la alegría, cuestionando jerarquías y promoviendo una política de lo sensible.
De este modo, reafirmamos la importancia de una investigación que, en lugar de traducir y domesticar
la infancia, camine junto a ella, aprendiendo de sus múltiples formas de fabular el mundo.
Palabras clave: narrativas infantiles, encantamiento, cartografía infantil, epistemología,
contracolonialidad.
Cartografias infantis: narrativas das infâncias enquanto uma metodologia do
encanto
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
O sorriso do soldado
5
Naquela tarde, as crianças
haviam saído da escola com seus
adesivos em mãos. Eram uma espécie
de gritos de guerra que ficariam
ecoando em plano baixo pelas paredes,
postes e muros da cidade. Entre as
doze crianças, havia quatro crianças
maiores ora, alguém precisava dirigir
os carros! e elas faziam movimentos
de acompanhar os demais, lutando
contra a dureza que ser uma criança
maior deixa na gente. Semanas antes,
aquele passeio fora sido desenhado em
mapa de papel e tudo: um
reconhecimento do campo, a seleção
afetiva necessária e o planejamento
itinerante. Acontece que, ao sair para a
cidade, os mapas e planos não dão
conta de toda sua vida e potência
trânsito, fluxo de pessoas, eventos,
exposições, como estarão aqueles
corpos no dia, e por vai a cidade vai
apontando a necessidade de desvios e
a possibilidade de redesenhar o
caminho a ser percorrido. As crianças
grandes, ao chegarem no primeiro
destino, a Casa de Cultura, não
encontravam estacionamento e
5
Claquete escrita por um/a dos/as autores/as
durante o desenvolvimento da dissertação de
pararam na quadra anterior, o que fez
com que passássemos em frente a um
lugar que não constava no
planejamento do dia, e muito menos no
imaginário de uma das crianças
maiores: a que atende, quando não
está em seu devir criança grande, como
aquela que escreve essa pesquisa: a
psicóloga pesquisadora.
Era, acreditem, um museu
militar.
Uma dificuldade e uma realidade
de ser uma criança maior, é que a
passagem do tempo às vezes nos faz
aprender e vivenciar coisas no mundo,
principalmente nesse mundo de
adultos, que machucam a gente. Saber
o que a instituição militar significava em
um país que matou mais de
quatrocentos e torturou mais de vinte
mil vidas, entre elas, de algumas
crianças, que segue (por militarizada
ser a polícia) matando jovens pretos e
pobres, além de ter vivenciado nos
últimos quatro anos um avanço e um
retorno das forças militares que
enquadram, ditam, normatizam e
violentam, no governo federal, era de
uma dor inominável para essa criança
mestrado da qual esse texto resulta.
(Schneider, 2024).
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maior. Entrar em um museu militar era
a sua última ideia no mundo. Ver os
olhos dos soldados, suas fardas, sua
postura nada infantil, sua inocência
sendo arrancada... não eram os planos
para aquela tarde entre crianças que
queriam inscrever marcas para uma
cidade melhor. Mas as crianças
pequenas insistiram! havia tanques
de guerra, furgões, carros blindados,
capacetes de soldados à disposição. E
era tudo interativo... parecia até que era
feito mesmo para brincar. Entramos.
Na brincadeira, teatralizamos
cenas de guerra. Crianças pequenas
dirigiam os carros, as grandes estavam
um pouco perdidas. Olhavam as
crianças pequenas que sumiam nos
labirintos do museu, entre tanques,
motos, cavalos, soldados, carros e
armas. “Brrrrrum, brrrrum,
brrrrrummmmm (trocas de marcha)”,
“pah, pah, pah”, “olha aqui, meu, pode
colocar até o capacete”. Os soldados
que tomavam conta do museu
permaneciam intactos: em suas fardas,
honravam a postura que lhes era
ensinada, estavam sérios, zelavam
pelo patrimônio, nenhum sorriso cabia.
A criança maior, aquela que escreveria
esse texto depois, começa a amolecer
o corpo... entra na brincadeira, torce o
olhar. Retoma uma definição que havia
trazido antes em seu texto, a do infante
guerrilheiro. Crianças fazendo de um
cenário de vestígio de guerra um
campo de brincadeira. Tinha algo ali...
ainda não sabia bem. Até que uma das
crianças pequenas faz um gesto, um
pequeno gesto, que passa a mudar
tudo no rumo desse pesquisar.
Com um adesivo que fez
semanas antes em mãos, do qual
falaremos mais posteriormente, escrito
“homens têm que parar de bater nas
mulheres”, inscrição que achou que
cabia permanecer ali, naquele canto da
cidade, que o quartel é formado
majoritariamente por homens, caminha
em direção a um soldado. Com a
coragem e a transgressão que somente
uma criança poderia carregar, faz uma
improvável pergunta: “posso colar esse
adesivo em um dos tanques de
guerra?”. A criança grande que mal se
autorizou a dar oi aos soldados que
cumpriam seu papel de serem...
soldados, jamais pensaria ser possível
questionar algo que sabíamos de
antemão a resposta a uma instituição
de tamanha dureza. Mas uma das
crianças pequenas o fez. Foi até o
soldado e fez a improvável pergunta,
certo de que, com a autorização, faria
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daquele lugar que abrigou tamanha
brincadeira naquela tarde, um lugar
ainda melhor. A inscrição de seu
adesivo, de suas palavras que
desejavam um mundo com menos
violência contra as mulheres, não foi
possível. Quem for ao museu não verá
seu grito de guerra ali explicitado. A
resposta final foi um não. Mas aqui não
importa... a inscrição necessária para
que essa história se contasse e a
mudança sutil, mas radical, na ordem
daquela cidade, veio não com a palavra
daquele homem que cumpria guarda.
A pergunta da criança foi tão
improvável, mudou tanto a conjuntura a
que todas nós, crianças grandes,
estamos habituadas, que produziu uma
marca ainda mais necessária e
aparentemente impossível naquele dia:
A inscrição da força da infância,
sua arma de guerra, surgiu quando,
surpreso com a pergunta do menino, o
soldado desfez sua cara de sério. O
soldado, naquela tarde, foi obrigado a
sorrir.
A pergunta infantil e seu encanto
Aqui, ao iniciarmos essa escrita,
cabe uma breve contextualização. A
cena que inaugura o texto ocorreu na
área central do município de Porto
Alegre, capital do Rio Grande do Sul -
RS. O grupo de crianças que compõe a
cena estuda em uma escola da periferia
do município e foi constituído como
parte da investigação de mestrado de
uma das autoras. A ocupação do centro
urbano foi uma das propostas
construídas por esta grupalidade, cuja
pergunta disparadora consistia em
saber o que aquelas crianças gostariam
de inscrever na cidade.
A ideia de entrarem no museu
militar não foi previamente programada.
Na verdade, o museu se encontra na
mesma rua do nosso primeiro destino,
mas não havíamos cogitado que aquele
espaço pudesse interessar aquelas
crianças. Foi no deslocamento a que
elas fizeram seu primeiro pouso. Pouso
este que fez daquele espaço
endurecido nossa primeira parada.
Estranhados com a escolha do grupo,
fomos acompanhando seus passos,
também temerosos com as durezas
dos homens fardados e suas máquinas
de guerra que, apesar de obsoletas e
úteis somente para um museu, ali
permaneciam a fazer marcas na
cidade.
Aquelas crianças foram se
apropriando daquela maquinaria. Volta
e meia, chamavam-nos para olhar,
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brincar e também transgredir junto. E
foi nessa apropriação territorial que
uma delas decidiu ir ao encontro de um
soldado. Um jovem não tão mais velho
que ela. Talvez 10 anos a mais? Bom,
não sabemos. A criança perguntou se
poderia colar seus adesivos naquele
espaço, na tentativa de dar visibilidade
a um local que precisa se haver com as
vozes que insistem em calar. A
negativa do soldado já era esperada
por nós, bastante óbvia para os adultos,
em verdade. Não sabemos o que levou
aquela criança a indagar o soldado. Por
romper com a obviedade da resposta
porvir, por acreditar ainda que seria,
sim, possível, por dirigir-lhe a palavra,
não sabemos: sua pergunta-encanto o
fez sorrir.
Aquele sorriso-surpresa nos leva
a tomar a pergunta infantil como
disparadora de movimentos instituintes.
Mais que uma resposta negativa ou
positiva, trata-se de uma pergunta
reverberadora, que não se encerra
naquele instante. Nós, sujeitos
adultecidos, encontramo-nos
desabilitados a formular um
questionamento como esse, seja por
vergonha ou mesmo medo. Mas
também porque não é uma pergunta
que nos ocorre. Sua resposta quase
certa nos interdita, de modo que nossa
condição impossibilita intervenções
como a que presenciamos.
Nas palavras de Noguera
(2019a, p. 137), “adultecer é abrir mão
da mais-valia da vida. Adultecer é a
forma por excelência de corrupção da
vida, algo contra o qual não temos um
remédio salvador”. Adultecer, tal qual
posto aqui, é adoecer. E assim como na
doença, nos vemos limitados
fisicamente a fazer determinadas
coisas. Deste modo, são as crianças,
por excelência, capazes de produzir
alegria através do seu brincar. (Id.,
2019b).
Seria então o adultecimento um
destino trágico para o sujeito que
envelhece? A depender, sim. Mas,
então, o que é preciso para subverter
este destino trágico? Para Benjamin, “é
o jogo, e nada mais, que à luz todo
hábito”. (2009, p. 102). Em outras
palavras, é brincando que introjetamos
uma cultura e assim vamos
aprendendo seus acordos tácitos e
expressos. Enquanto crescemos, mais
a cultura se introjeta em nós,
diferentemente da infância, onde “o
hábito ainda não fez sua obra”. (Id.,
2012, p. 44). Por isso, o olhar infantil
nos é tão caro. Trata-se de um olhar
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cartográfico por excelência. Capaz de
provocar gestos instituintes.
Mas o que é preciso fazer para
deter o adultecimento e sua condição
adoecedora? Se o hábito é um destino
comum a todos, inclusive que se
inaugura precocemente através do
brincar, o que nos resta fazer?
Primeiramente, é importante salientar
que “o brincar é uma atividade entre
mundos; não se entre pessoas e
objetos isolados.”. (Sekkel, 2016, p.
91). Ademais, ainda que o brincar
carregue consigo uma série de
elementos culturais que se reproduzem
através do seu ato, não se trata de uma
atividade meramente reprodutiva.
Benjamin (2009) salientava que a
brincadeira é a forma como as crianças
estabelecem um diálogo com seu povo.
Ou seja, trata-se de um diálogo de
trocas permanentes, em que tanto o
hábito como as infâncias fazem sua
obra. Para Noguera “a infância opera
pelos desígnios da transformação, da
produção de realidades porque
reconfigura através de sua potência
criadora”. (2019a, p. 135). Ao brincar a
criança também cria, transforma,
inventa.
Benjamin ainda nos lembra que
“o hábito entra na vida como
brincadeira, e nele, mesmo em suas
formas mais enrijecidas, sobrevive até
o final um restinho de brincadeira”.
(Benjamin, 2009, p. 102). E é nesse
“restinho” que o hábito guarda em si a
sua origem. A brincadeira. E assim o
autor continua, ao dizer que “mesmo o
pedante mais insípido brinca, sem o
saber, de maneira pueril, não infantil,
brinca ao máximo quando é pedante ao
máximo”. (Ibid.). Se assim for, o adulto
guarda em si sua origem infantil. Ainda
que um “restinho”. Por isso, a
insistência de Noguera em pensar uma
política brincante endereçada também
aos adultos. Pois é brincando que
somos capazes deter o adultecimento
em sua condição mais totalitária.
(Noguera, 2019a). Reavivar o “restinho”
da infância que guardamos conosco
talvez seja aquilo que nos resta de
saída. Neste sentido, a presença
infantil nos convoca a fazer “com”. A
fazer pouso mesmo no lugar mais
insípido para nós, adultos (e por que é
insípido?), transformando-o em parque
de diversões, como se operasse um
milagre. “Um milagre brincante”, como
sugere Noguera. (Id., 2019b).
Somente o restabelecimento da
infância, conforme sugere Noguera,
será capaz de deter o adultecimento.
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(Id., 2019a). Por isso, a urgência de
uma política brincante endereçada
também aos adultos. Ainda assim,
teremos muito o que aprender com as
crianças a fim de resgatar nossas
infâncias adormecidas, pois no final das
contas, são elas que detêm no olhar e
no gesto modos de fazer inclusive um
soldado sorrir.
Caminhando e contando:
cartografias infantis e a poesia das
narrativas que desenham o mundo
Como mencionamos
anteriormente, reconhecemos as
crianças como aquelas que, por
excelência, corporificam a ética
cartográfica. Isso porque seu gesto
serelepe de habitar os territórios não
teme a sujeira. A cartografia exige tal
gesto: o de se sujar (Costa, 2014), sem
temer a contaminação do corpo, pois
ao mergulhar no plano da existência
não nos fazemos mais neutros, tão
pouco os mesmos de outrora; não
obstante, não se faz simples este
mergulho. É preciso coragem.
A parada no Museu Militar só se
fez possível em razão da insistência
daquelas crianças. Não fosse isso,
talvez passássemos sem olhar para
dentro daquele pavilhão, temerosos em
reavivar as lembranças de um tempo
que não foi o nosso (mas que passa a
ser), mas que ainda assim nos dói. A
ditadura civil militar que assolou os
territórios latino americanos é uma
marca que permanece inscrita nas
paredes e nos corpos que habitam a
cidade. Ainda assim, aquelas crianças
nos asseguram de que aquele espaço
poderia ser divertido. Era preciso ser
criança, para tanto. Deixar que o
“restinho” de brincadeira que nos habita
enquanto adultos ganhe passagem,
para tornar aquele pavilhão repleto de
equipamentos de guerra em um parque
de diversões.
E foi assim que foi possível
cartografar aquelas cenas. Foi preciso
reavivar nossas lentes infantis,
viabilizando, assim, uma coragem
adormecida. Uma coragem que vai se
perdendo com o passar dos anos. As
crianças que nos acompanhavam,
agora na condição de guias, nos
ensinavam com maestria a habitar
aqueles “brinquedos”. Pediam fotos.
Tiravam fotos. Corriam de um lado para
o outro como quem tem pressa para
viver tudo. Farejam aquele “parque de
diversões” para que não deixassem
nem um daqueles “brinquedos” sem a
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sua marca. Uma marca que o
precisou de adesivos.
Sendo assim, não nos parece
inadequado aventar que, em se
tratando de cartografia, a dimensão
ética é o que parece chegar primeiro.
Tomando como problematização a
dimensão brincante da cena que, por
suposição, poderia se restringir a uma
“sujeira” militar, a ética posta em
questão diz respeito ao acolhimento
das circunstâncias que se fazem ao
acaso dos encontros. Contudo, de
se considerar a necessidade de
explicitar o que estamos, aqui,
compreendendo por ética.
Em síntese, podemos dizer que
ética: 1) não é algo dado a
priori, e não deve ser
confundido com valores,
normas, códigos ou moral; 2)
envolve-se com práticas de
liberdade, das possibilidades
de relação com e no mundo; 3)
não é um lugar de chegada a
ser ocupado (ethos enquanto
morada do ser), mas uma
disposição ao abandono (ethos
enquanto movimento de
partida). (Costa, 2020, p. 15).
Na leitura das três observações
supracitadas, e considerando seu
direcionamento à prática de pesquisa
cartográfica, encontramos respaldo
para fazer uma leitura ético-
metodológica do que se passou no
domínio dos corpos. Ora, nossa
indigestibilidade diante do que se
mostrava um caminho possível e
desejável às crianças - o ingresso ao
museu militar -, não poderia ser um
empecilho para que todos (inclusive
nós, pesquisadores) pudessem acolher
a experiência. Sob o prisma da moral
(observação ética 1), muito
provavelmente diríamos o ao convite
que nos foi apresentado pelas crianças,
uma negativa não necessariamente
posta de modo explícito, “não iremos
entrar no museu”, mas que poderia se
fazer enquanto tal. Poderíamos
simplesmente “fazer vista grossa”,
expressão idiomática que nos soa
bastante interessante na situação em
questão, dado que, em uma cartografia
com crianças, de se sutilizar a
grossura/grosseria de nossas condutas
adultocêntricas de controle. É aqui que
chegamos à observação 2, quando,
diante de uma vida social que exige dos
corpos um contínuo controle, somos
conduzidos a pensar a ética enquanto
uma prática de liberdade em um mundo
que se impõe em relação a nós e que
também criamos. O último ponto
(observação 3) nos leva a pensar a
ética enquanto uma condição de saída:
no lugar de morada do ser (que nos
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
conduz a uma ideia de repouso), o
ethos cartográfico diz respeito ao
movimento propriamente dito,
compreendendo a liberdade não como
um valor outorgado a outrem por
alguém, mas algo que se produz em
ato, na relação com o outro e com o
mundo.
Recorrendo a certa licença
poética, diríamos que não é
aconselhável sair para uma cartografia
com a mochila pesada demais,
carregada de preceitos e prescrições
acerca do que fazer ou não fazer.
Façamos, aqui, uma pequena pausa
para pensar a dimensão da narrativa
poética que por vezes se subleva em
uma escrita de cunho cartográfico
como a que apresentamos neste artigo.
Pensamos com Pacheco e Fernandes
(2022, p. 209-210), quando situam a
escrita poética enquanto um lugar de
criação de problematizações, não
significando a criação de lugares de
descanso e repouso para a “seriedade
de um trabalho acadêmico”, mas a
tentativa de produção de um outro
terreno que possibilite a criação de
questões, nesse caso, apresentadas
por meio de forças expressivas que
fazem, por meio do esforço estético e
poiético, produzir pensamento. No caso
da vinheta cartográfica do “sorriso do
soldado”, quem diga que se poetizou
demais o que, no plano das cruezas e
crueldades institucionais (de uma
militarização do imaginário infantil, por
exemplo), pouco, ou nada, haveria de
poético. Diante de tais críticas, que nos
parecem justificadas levando-se em
conta a dureza do tempo presente,
respondemos que a poesia não é algo
inerente ao fato ou a algo vivido
(embora por vezes possa estar), mas
uma estratégia de posicionamento e, se
for o caso, de narrativa acerca do
acontecido. Talvez pudéssemos incluir
uma quarta observação em relação à
ética cartográfica, sugerindo-lhe
polinizações poéticas.
Não fazer vista grossa
Como, então, delinear um plano
cartográfico capaz de acolher a sutileza
do olhar em um mundo marcadamente
apressado? Como operar uma
cartografia que resista ao desejo de
sobrecodificação, este que nos leva a
fazer vista grossa em relação a
questões que cotidianamente
explodem diante dos nossos olhos?
Chegamos, nesse ponto, a uma
problematização importante ao campo
das pesquisas cartográficas, que diz
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SCHNEIDER, Mariana Cunha; FROHLICH, Nícolas Braga, COSTA, Luciano
Bedin da; ALMEIDA, Tiago Alexandre Fernandes. Cartografias infantis:
narrativas das infâncias enquanto uma metodologia do encanto.
PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.118-135, set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
respeito ao registro, uma vez que
estamos, enquanto pesquisadores(as)
cartógrafos(as), implicados nos
próprios movimentos por nós
analisados. “As narrativas produzidas
por meio de nossas investigações têm
o rastro de nossas próprias pegadas,
somadas às pegadas daquela(e)s que
conosco também caminham ou
caminharam” (Costa; Soares; Almeida,
2020, p.75). O certo é que as pegadas,
em se tratando de infâncias, são mais
leves, ainda que os deslocamentos
sejam, na maioria das vezes, maiores.
Como pensar, então, em estratégias
narrativas que sejam dignas à leveza
das pegadas das crianças? Como
pensar modos de narrar que sejam
boas companhias ao que
insistentemente e desejosamente
foge?
Com essa ênfase, é preciso dar
atenção à percepção do
movimento que organiza e
dispõe os elementos
convocados a povoar um
espaço, plano ou território,
estética que para além do ato
de visualizar as mutações de
deslocamento, envolve um
redimensionamento da noção
de tempo e pressupõe o
atualizar. (Cunha, 2020, p.33).
A citação acima nos leva a
pensar a narrativa cartográfica a partir
de dois prismas. O primeiro, lançado ao
que se passou, diz respeito a uma certa
circunspecção da experiência
propriamente dita, um processo
atencional projetado aos contornos do
ocorrido, movimento de organização e
disposição dos elementos constituintes
da cena narrada (O que? Quando?
Onde?). O segundo, seguramente
pouco mnemônico, diz respeito ao que
ainda se movimenta a partir do
ocorrido, virtualidades que habitam o
corpo daquele que se põe a escrever,
abrindo-lhe frestas para que o até então
não pensado, não visto, não sentido,
não problematizado, possa se fazer
presente. Se, no primeiro prisma, a
memória assume o protagonismo, no
segundo, são as sensações que
reivindicam tal papel: lembrar e
especular nos parecem movimentos
necessários em se tratando de
pesquisas cartográficas.
Narrativas infantes como uma
metodologia do encanto
Que a importância de uma
coisa não se mede com fita
métrica nem com balanças
nem barômetros etc. Que a
importância de uma coisa
que ser medida pelo
encantamento que a coisa
produza em nós. (Barros, 2015,
p.152).
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SCHNEIDER, Mariana Cunha; FROHLICH, Nícolas Braga, COSTA, Luciano
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narrativas das infâncias enquanto uma metodologia do encanto.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
Ao trabalharmos partindo da
ética cartográfica, vez ou outra
buscamos na caixa de ferramentas
aquilo que consideramos essencial
para a clínica, a pesquisa e uma práxis
em psicologia social: a poesia. Sim, ao
lado dos teóricos e teóricas que nos
ajudam a tecer ou romper sentidos do
mundo, encontram-se os poetas e as
poetisas, que parecem fazer com que
toda e qualquer teoria passe, antes,
pelo terreno sensível que a projeta em
devir. Pois, ao contrário de ocupar o
rígido espaço da prestação de contas a
uma determinada lógica de verdade
(Rancière, 2009), a poesia nos convida
a ficcionar (e também friccionar) a vida.
Por isso, ao pesquisarmos com
as infâncias, seria um erro abdicar da
poesia também como uma aposta
metodológica, pois isso significaria
jogar o jogo dos adultos que se ocupam
apenas em traduzir e reproduzir o
mundo, um mundo onde a invenção
não tem mais espaço para emergir. Isto
é, torna-se fundamental considerar a
poesia como um recurso metodológico
que amplia as possibilidades de leitura
e interpretação do mundo infantil.
Na escolha da poesia de
epígrafe desta seção encontramos o
encantamento que faz nascer o método
que guia nosso pesquisar. A partir da
poética presente nas palavras, nas
narrativas e nas imagens do mundo
que nos convidam a olhar as crianças,
vamos entendendo que o que temos
chamado de cartografias infantis se
torna, então, uma espécie de lente,
uma bússola ética que nos orienta
nessa escrita.
Pesquisar a partir das narrativas
infantis significa, então, fazer uma
pesquisa do encantamento. Isso
porque as infâncias, ao apresentar ao
mundo suas variadas formas de narrá-
lo, não se põem submetidas a palavra
a elas anteposta, tampouco se
amedrontam com aquelas que lhes são
interditadas. A pesquisa com as
narrativas infantis ultrapassa a simples
descrição da experiência e se inscreve
em uma epistemologia que valoriza a
criação e a potência expressiva da
infância. Pesquisando, não se aprisiona
à métrica ou à quantificação, tampouco
se referencia a partir da lógica de
reprodução do que vive ou vê. E, como
antecipa o poeta, pelo encantamento
acaba por escapar dos critérios de uma
métrica feita por balanças ou
barômetros, trazendo para a cena o
efeito que as experiências e histórias
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SCHNEIDER, Mariana Cunha; FROHLICH, Nícolas Braga, COSTA, Luciano
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narrativas das infâncias enquanto uma metodologia do encanto.
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nos provocam. Pesquisar com tais
narrativas encantadas pressupõe um
envolvimento com toda sua potência
criadora e transformadora - pequenas
no corpo, vastas na sensibilidade.
Vamos, assim, expandindo também as
nossas narrativas adultas, caminhando
de mãos dadas junto ao fascínio de um
mundo que não se limita à ordem da
razão, mas antes cresce pelo afeto e
pela beleza das descobertas.
Costurar a dimensão das
narrativas infantis emergentes dos
processos cartográficos à noção de
encantamento se torna também um
dispositivo para refletirmos sobre a
necessidade de integrarmos os
princípios de conexão entre o visível e
o invisível, como bem nos propõem
Luiz Antonio Simas e Luiz Rufino
(2020). Essa abordagem permite uma
leitura da infância não somente como
um período de desenvolvimento, mas
como um estado de existência pleno,
carregado de saberes, memórias e
potências. Isso significa olhar para as
crianças não mais como sujeitos em
formação, rompendo com a ideia de
infância enquanto uma etapa restrita do
desenvolvimento humano. Elas são
antes pontes que conectam
temporalidades distintas, trazendo em
si seu aspecto inaugural, mas também
marcas ancestrais, memórias que
transitam entre futuro, passado e
presente - também por isso,
encantadas. E, assim, passamos a
olhar para as infâncias e suas
narrativas como um modo de romper
com as separações impostas entre os
seres humanos e não humanos, e, ao
integrar tais saberes, podemos ensaiar
um rompimento com algumas amarras
coloniais e, reconhecendo-as enquanto
seres plenos de uma vida não apenas
inscrita em um porvir, mas em tudo que
carregam em si, afirmamos sua
potência em colocar em questão
relações de poder e integrar alteridade.
Desse modo, retomamos narrativas
enquanto um conceito dialógico: a
pesquisa com as infâncias parte
daquilo que dizem as crianças e seus
modos de dizer, mas exige também um
ato de escuta sensível e atenta. Uma
ética do cuidado que nos lembra que o
encantamento vem de modo a nos
reconectar com a ideia de que os
saberes precisam estar radicalmente
unidos à vivacidade do mundo.
A isso, soma-se o pensamento
do professor Renato Noguera (2017),
que traz o encantamento como aquilo
que se manifesta de modo a evidenciar
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narrativas das infâncias enquanto uma metodologia do encanto.
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as histórias das infâncias, seus saberes
e práticas outrora subalternizadas. O
encantamento, como a roda que
contrapõe a linearidade, surge como
uma ferramenta contracolonial que
ajuda a rever os processos educativos,
respeitando e integrando distintas
experiências e culturas e escapando do
lugar engessado da racionalidade: o
encantado chama à dança o sensível, a
memória e a espiritualidade. Falamos,
então, de uma transformação política.
Por isso, apostamos na pesquisa com
as infâncias. Aprendemos uma prática
sensível, suas palavras e gestos
revelam uma multiplicidade de
caminhos possíveis. Por isso
apostamos que narrativas infantis, são,
enfim, narrativas encantadas do
mundo.
É preciso, contudo, um alerta:
para operar metodologicamente com o
encanto, é preciso também um ato de
escuta para o infans que nos habita.
Aquele que, por vezes, mantemos
adormecido. Ao pesquisar junto a
outras crianças, esta tarefa é
reavivada, afinal elas operam com
maestria o encanto. Afinal, como seria
possível transformar um pavilhão com
tanques de guerra, soldados eretos e
supostamente sem vida em um parque
de diversões? Como fazer de um
cenário onde a vida perde sua potência,
como na guerra, e ainda assim tornar
as ruínas palco de um esconde-
esconde? de um pega-pega? É preciso
prudência para não cairmos em
qualquer tipo de romantização dos
cenários de violência que acompanham
as infâncias. Não obstante, de se
ressaltar as estratégias que elas
utilizam para afrontar a morte que
segue à espreita. em seus
movimentos, em seus modos de narrar
a vida, algo que Noguera vai chamar de
“mais-valia de vida”. Para ele, o
conceito de infância “emerge como um
milagre brincante que restabelece a
mais-valia da vida”. (Noguera, 2019b,
p. 5). Em outras palavras, quer dizer a
capacidade inventiva do brincar como
produtor da alegria. (Ibid.). E a alegria,
bem como a infância, são inimigas
contumazes da morte.
Considerações finais
(...) nada nos intriga mais ao
pensar a interface infâncias e
cidades que a pergunta do
“quefazer” para transpor nosso
lugar marcado pela adultidade
e aquecer o corpo no processo
de infancializar a vida.
(Schneider; Costa; 2024, p.9).
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narrativas das infâncias enquanto uma metodologia do encanto.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
Krenak (2021) faz um exercício
de pensarmos em como as crianças
vivenciam a infância a partir de um
certo encurtamento da mesma. Isso
porque, ao serem lançadas cada vez
mais cedo em um mundo “como uma
chapa quente” (Krenak, 2021, p.98),
demandamos que respondam às
perguntas deste mundo em declínio, o
que pode incorrer em uma supressão
da infância como uma experimentação
da ordem do fantástico, do encantado.
Esse deslocamento da infância para
um estado de produtivismo e
racionalidade precoce impacta o
apenas as crianças, mas também a
própria sociedade, que perde sua
capacidade de sonhar e imaginar
outros mundos possíveis.
Se uma pergunta que nos
atravessa é: o que podemos aprender
com as crianças? Ao investigarmos
suas narrativas, percebemos que elas
nos apresentam mapas inesperados,
modos de ser e estar no mundo que
desafiam as lógicas adultocêntrica e
colonial. As cartografias infantis não
somente revelam uma outra maneira de
ver o mundo, mas também apontam
caminhos para transformações
profundas em nossas formas de pensar
a educação e a própria vida em
sociedade.
Lançamos as infâncias, assim,
na violenta ordem do mundo em
disputa. Convocar a infância a partir do
lugar das boas novas seria, sobretudo,
abrir a vida para a possibilidade criativa
e inventiva presente nas crianças e
possibilitar aprendermos com elas
outros mundos possíveis. O que o autor
nos apresenta é que, ao invés de nós,
adultos, apresentarmos mapas
possíveis para as crianças, são elas, ao
invés, que podem nos presentear com
uma cartografia do mundo que nos
oriente na adultez. Uma cartografia
capaz de “incluir abelhas, tatus,
baleias, golfinhos” (Ibid., p.101).
Por isso, convocamos a
provocação do neologismo do
“quefazer” enquanto uma orientação
que atravessa o seu sentido linguístico,
e pode se afirmar enquanto algo ético-
poético-político, levando-nos a pensar
em uma metodologia que possa
hospedar a tríade acima. No caso, a
cartografia infantil. Cartografar com as
infâncias e suas narrativas é acionar o
exercício de reescrever a vida a partir
da prática política da brincadeira, é
ativar o direito à experimentação, à
reinvenção dos sentidos e à
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SCHNEIDER, Mariana Cunha; FROHLICH, Nícolas Braga, COSTA, Luciano
Bedin da; ALMEIDA, Tiago Alexandre Fernandes. Cartografias infantis:
narrativas das infâncias enquanto uma metodologia do encanto.
PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.118-135, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
ressignificação dos espaços sociais.
Uma política que carrega em si a
felicidade, e que oportuniza
desestabilizar estruturas violentas de
poder - uma possibilidade brincante de
reorganizar a ordem social, de forma
mais livre e inclusiva e, por isso,
encantada. Mais do que um método,
trata-se de um gesto político que
reivindica a infância como protagonista
na produção de conhecimento e na
elaboração de outras possibilidades de
existir.
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