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FONSECA, Vanessa do Nascimento. Narrativa e memória na análise das
transformações relacionadas a intervenções sociais em gênero.
PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.179-206, set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
Narrativa e memória na análise das transformações relacionadas a
intervenções sociais em gênero
Vanessa do Nascimento Fonseca
1
DOI: https://doi.org/10.22409/pragmatizes.v15i29.67190
Resumo: O artigo disserta sobre as metodologias utilizadas em duas pesquisas da autora. Ambas as
investigações analisaram experiências de intervenções sociais no campo da sexualidade, da saúde
reprodutiva e do gênero, sobretudo envolvendo as masculinidades. As fontes utilizadas foram
documentos diversos, como diários de campo, cadernos elaborados para as atividades, relatórios,
artigos, entre outros. Uma das pesquisas incluiu o relato das trajetórias de pessoas egressas em
projetos sociais sobre a temática mencionada, no início dos anos 2000. Realizadas participativamente,
por meio dos preceitos da educação popular e da pesquisa-intervenção, as práticas sociais geraram
um grande volume de registros, ao longo dos quinze anos de trabalhos. Tais escritos, retomados em
sua análise, acionaram outras memórias, atravessadas pelos acontecimentos do presente. A
cartografia da memória, concebida como uma narrativa que acompanha os acontecimentos, aberta à
produção de novas problematizações, deslocou concepções teóricas e questões de pesquisa, fruto
ainda da ampliação dos debates sobre feminismo no Brasil. Considerando a narrativa como política,
este texto busca expor os meandros e o percurso realizado nas análises e na escrita da investigação,
apontando seus efeitos e diferenças com modos hegemônicos de produção de saber.
Palavras-chave: narrativa; memória; pesquisa-intervenção; cartografia; gênero.
Narrative and memory in the analysis of transformations related to social interventions in gender
Abstract: The article discusses the methodologies used in two of the author's research projects. Both
studies analyzed experiences of social interventions in the field of sexuality, reproductive health and
gender, especially involving masculinities. The sources used were various documents, such as field
diaries, notebooks prepared for the activities, reports, articles, among others. One of the studies
included the account of the trajectories of former inmates in social projects on the mentioned themes,
in the early 2000s. Conducted in a participatory manner, through the precepts of popular education and
intervention research, the social practices generated a large volume of records over the fifteen years of
work. These writings, revisited in her analysis, triggered other memories, interspersed with the events
of the present. The cartography of memory, conceived as a narrative that follows the events, open to
the production of new problematizations, displaced theoretical concepts and research questions, also
resulting from the expansion of debates on feminism in Brazil. Considering the narrative as political, this
text seeks to expose the intricacies and the path taken in the analyses and writing of the investigation,
pointing out its effects and differences with hegemonic modes of knowledge production.
1
Doutora em Psicologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Docente no Departamento de
Psicologia da UFF, campus Volta Redonda. E-mail: vnfonseca@id.uff.br. ORCID:
https://orcid.org/0000-0003-4423-3298.
Recebido em 01/04/2025, aceito para publicação em 21/07/2025.
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transformações relacionadas a intervenções sociais em gênero.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
Keywords: narrative; memory; intervention-research; cartography; gender.
Narrativa y memoria en el análisis de las transformaciones relacionadas con las intervenciones
sociales en género
Resumen: El artículo analiza las metodologías utilizadas en dos proyectos de investigación del autor.
Ambas investigaciones analizaron experiencias de intervenciones sociales en el campo de la
sexualidad, la salud reproductiva y el género, especialmente involucrando las masculinidades. Las
fuentes utilizadas fueron diversos documentos, como diarios de campo, cuadernos elaborados para las
actividades, informes, artículos, entre otros. Uno de los estudios incluyó el relato de las trayectorias de
exparticipantes en proyectos sociales sobre la temática mencionada, a inicios de la década del 2000.
Realizadas de manera participativa, a través de los preceptos de la educación popular y la
investigación-intervención, las prácticas sociales generaron un gran volumen de registros, a lo largo de
los quince años de trabajo. Tales escritos, revisados en su análisis, desencadenaron otros recuerdos,
atravesados por los acontecimientos del presente. La cartografía de la memoria, concebida como una
narrativa que acompaña los acontecimientos, abierta a la producción de nuevas problematizaciones,
concepciones teóricas desplazadas y preguntas de investigación, resultantes también de la expansión
de los debates sobre el feminismo en Brasil. Considerando la narrativa como política, este texto busca
exponer las complejidades y el camino recorrido en los análisis y escritura de la investigación,
señalando sus efectos y diferencias con los modos hegemónicos de producción de conocimiento.
Palabras clave: narrativa; memoria; investigación-intervención; cartografía; género.
Narrativa e memória na análise das transformações relacionadas a
intervenções sociais em gênero
Introdução
Este texto disserta sobre as
metodologias utilizadas em dois de
meus trabalhos de pesquisa: a tese de
doutoramento e uma investigação
realizada no pós-doutorado. O modelo
de investigação aplicado nos estudos
de doutorado, que recebeu o nome de
“cartografia da memória” por um dos
membros da banca, pôs em análise
onze anos da experiência em
intervenções nas masculinidades para
a equidade de gênero, com base em
documentos (diários de campo,
relatórios, cadernos de atividades de
grupo, materiais de campanhas, entre
outros) e na memória da participação
em tais intervenções, acionada em sua
narrativa. a pesquisa empreendida
como parte de um pós-doutorado
recorreu às histórias contadas por
pessoas egressas de projetos sociais
para a promoção da equidade de
gênero, direitos reprodutivos e
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sexualidade, realizados nos anos 2000.
As narrativas coletadas se referiam às
memórias de participação em tais
ações sociais e à reverberação das
atividades em suas vidas, ao longo dos
quinze anos após a finalização dos
projetos.
A retomada de tais estratégias
de pesquisa tem como intuito analisar o
modo como certas formas de narrar
costuraram os dados que sustentaram
seus objetivos. Defende-se que as
narrativas resultantes desse processo
se configuram como estratégias
políticas capazes de evidenciar e
confrontar relações de poder
ancoradas em práticas de pesquisa
tradicionais, ou sustentadas por fazeres
coloniais: neutralidade fictícia, por não
considerar, em campo, as posições das
pessoas pesquisadas; hierarquias
entre observadores e pessoas
observadas, em que essas o
consideradas externas aos resultados
de suas análises; valorização de certa
concepção da razão, em que se afetar
pelo contexto investigado é
desvalorizado; apreço pela imobilidade,
solidez, nas quais as contradições e
instabilidades das relações no território
pesquisado são apagadas.
O modo de tecer narrativas, seja
pelas histórias contadas por ex-
participantes de projetos sociais, seja
pela cartografia da memória dos
documentos e diários de campo, a
partir de um processo em que fazer e
pensar não se separam, alinhou-se às
práticas de formação coletivas, críticas
às relações de poder entre formadores
e formandos. Em tais práticas, metas
são negociadas no curso do trabalho, a
partir das problematizações das
relações, das contradições, dos
conflitos, entre outros elementos que
atravessam sua execução. Neste texto,
ensaio uma reflexão a respeito de como
o próprio narrar os acontecimentos
buscou incluir a complexidade dos fatos
e conduziu a novas perspectivas de
ação.
Cartografia, narrativa e memória
Cartografar é um conceito que
extrapolou sua origem na geografia.
Não se trata de produzir mapas que
traduzem a realidade, mas se baseia na
narrativa das experiências espaciais. O
espaço, composto por nossas
vivências, apenas pode ser acessado
narrativamente. Ou ainda, segundo
Freitas e Bredas (2019), as narrativas
têm como potencialidade a
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possibilidade de evocar as experiências
espaciais. Nesse sentido, tanto a
pesquisa com base na narrativa das
pessoas egressas de projetos sociais
sobre sua trajetória de vida, quanto a
que utilizou a cartografia da memória,
são investigações narrativas e,
portanto, pertinentes ao dossiê “Narrar:
gesto metodológico e indagação
epistemológica”.
Outrossim, é que um trabalho de
pesquisa envolve sempre a seleção de
maneiras de contar o vivido
entrevistas, questionários, grupos
focais, observação participante
(Passos e Barros, 2009). Uma pesquisa
é a narrativa de um fato, a partir de uma
certa posição (Haraway, 1995). Um
investigador está sempre localizado, tal
como evidenciaram diversas feministas
em sua crítica aos saberes que
hierarquizam sujeitos a partir de uma
neutralidade fictícia, da construção de
um conhecimento sem origem no
conhecedor, mas disperso em um
mundo a ser desvelado. Todavia, “não
verdades a serem reveladas, mas
perguntas que abrem e encerram
questões” (Franco, 2016, p. 14).
Igualmente, com Luciana O. P. Franco
(2016), defendemos que não se trata
de diferentes posições de um mesmo
fato, mas que tal fato existe a partir
de suas versões.
Ao publicar o fruto de uma
investigação, apresentamos uma
versão de nossa experiência (Franco,
2016), que envolve os caminhos
percorridos por um corpo interessado e
atento a certos elementos circunscritos
em determinado espaço e tempo. Eis
então, o que caracteriza uma pesquisa
ética e responsável que pode
responder por seus achados. Trata-se
daquela que põe à disposição do leitor
a trajetória traçada na construção de
seu saber; que compreende as
relações e amarrações necessárias à
sustentação de determinado
argumento. Nisso consiste um
conhecimento que se localiza. Aqui,
novamente, é possível perceber uma
aproximação entre cartografia e
narrativa, uma vez que envolve
mapeamento das posições que
construíram saberes, por meio de uma
história que é contada.
Afirmar que toda pesquisa é uma
narrativa, decorrente da escolha de um
modo de contar sobre o observado ou
coletado no campo , é um ato político,
uma vez que interfere nas relações e
posições de poder que articulam
saberes e normas que regem o meio
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social. Do mesmo modo, é possível
pensar uma “política da narratividade
como uma posição que tomamos
quando, em relação ao mundo e a si
mesmo, definimos uma forma de
expressão do que se passa, do que
acontece” (Passos e Barros, 2009, p.
151). A partir desse ponto, podemos
presumir que, se todo o conhecimento
que extraímos do mundo não é a
descoberta da verdade, mas uma
produção política, é preciso cuidar das
relações e compreender que todo saber
é uma composição feita entre
interlocutores (pesquisadores e
pessoas observadas) e tudo mais que
atravessa o campo de investigação,
incluindo o tempo.
Portanto, como será debatido
adiante, a análise realizada das
abordagens empreendidas nas
pesquisas de doutorado e pós-
doutorado não tem a pretensão de
concluir qual o melhor método para se
extrair a verdade de um fato. As
pesquisas não visavam alcançar
qualquer verdade a respeito de fatos,
mas buscaram produzir recortes que
visibilizassem determinadas
problemáticas, dar sentido aos afetos
em campo, mapear efeitos etc., abrindo
espaço para elaborações, ou hipóteses
que nos levassem a percorrer novos
caminhos, desviar de certos obstáculos
e produzir conexões com trabalhos
semelhantes. Conjugadas às práticas
sociais, refletindo-as, produziram
deslocamentos nos modos de fazer
analisados.
As relações em campo foram
profundamente refletidas de gênero,
de faixa etária, de raça, de
regionalidade, de nível educacional , a
partir de uma crítica às hierarquias
entre quem pesquisa e a pessoa
pesquisada. Ambos os estudos
produziram uma mirada para o
passado, dispondo do trabalho do
tempo na elaboração da experiência.
Tempo e espaço são
inseparáveis do processo narrativo. Se
as narrativas são tecituras das
significações atribuídas à experiência
pelo sujeito em seu movimento no
espaço, do mesmo modo, são
possíveis no tempo. De acordo com
Larrosa (2017), a experiência é
significada no tempo, pela memória.
Enquanto experiência é o próprio
acontecimento, memória é o que
sentido à experiência, a partir de uma
elaboração presente do vivido, como
será aprofundado à frente. É assim que
o tempo é um componente importante
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da própria experiência. Se, para o
autor, a experiência é algo que nos
acontece, nos toca, é necessário um
gesto de interrupção, de parada: para
pensar, para escutar, pensar mais
devagar, ouvir mais devagar. Cabe
destacar que a memória não é o retrato
mental do passado, mas a constante
elaboração da experiência. Por
constante, refiro-me a que tal
elaboração não se repete, se modifica
a todo instante, agenciando-se aos
fatos do momento em que a memória é
convocada. Nesse sentido, a
cartografia da memória, ou a narrativa
que deu sentido aos eventos passados,
pode ser considerada a rememoração
agenciada com os fatos presentes,
prerrogativa evidente na execução das
duas pesquisas, com como também
será mencionado adiante.
As investigações, dessa
maneira, instauraram uma pausa, ou
instituíram outra velocidade na minha
prática de trabalho social. Isso nada
tem a ver com uma separação entre
teoria e prática. De modo algum, me
refiro a um olhar externo, que se volta
das alturas para um fazer. Mas se,
segundo Larrosa (2017), a experiência
é o que nos toca, nos acontece e, para
tal, é preciso calma e lentidão para que
haja afetação, a disputa é contra a
aceleração do tempo, própria aos
fazeres da contemporaneidade.
Assim, a partir das questões
levantadas nesta breve introdução,
discutirei, neste artigo, os processos
que subsidiaram a escrita dos
documentos, produtos das pesquisas
implementadas no doutorado e no pós-
doutorado.
Diários de uma mulher latino-
americana na transformação das
masculinidades
Por onze anos, atuei na
realização de pesquisas, produção,
testagem e adaptação internacional de
metodologias para o envolvimento dos
homens na equidade de gênero, por
meio da crítica às masculinidades. Tais
atividades incluíam a criação de jogos,
literatura, exercícios de grupo e
campanhas de marketing social, e são
frutos de demandas e financiamentos
de organizações bilaterais na busca
para reduzir desigualdades de gênero
nos países do Sul-Global,
principalmente.
Desde a segunda metade da
década de 1990, iniciativas sociais que
convocavam os homens cis a também
revisitar seu papel nas relações de
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gênero foram impulsionadas por alguns
fatores: a ampliação dos estudos sobre
masculinidades; as pesquisas sobre
globalização e desenvolvimento e seu
impacto na vida das mulheres (Connell,
2016); as grandes conferências
internacionais que ajudaram a chamar
a atenção dos governos para as
reivindicações feministas, sobretudo a
Conferência Internacional sobre
População e Desenvolvimento de 1994,
no Cairo, e a IV Conferência Mundial
sobre a Mulher em Beijing, em 1995
(Keijzer, 2004; Oliveira, 2004); o
desenvolvimento de estratégias de
enfrentamento do HIV/Aids e o
levantamento de questões em relação
à eficácia das ações preventivas caso
não fossem discutidas as relações de
subordinação às quais mulheres e gays
estavam submetidos (Heilborn e
Carrara, 1998). Esses e outros
acontecimentos favoreceram uma
crescente oportunidade de
financiamentos de pesquisas e
intervenções voltadas para o
conhecimento dos homens, cisgêneros
sobretudo, e a alteração de seus
comportamentos (Fonseca, 2023).
Com isso, institutos de pesquisa e
organizações da sociedade civil que
começaram a se formar naquele
período se engajaram na realização
de estudos que correlacionavam a
transformação das masculinidades a
resultados positivos no enfrentamento
e cuidado da aids, na redução da
violência contra mulheres e crianças e
na promoção dos direitos reprodutivos.
Um dos motes orientadores dos
esforços para a mobilização dos
homens cis na crítica de seus lugares
nas relações de gênero foi lançado pelo
diretor executivo da UNAIDS, Peter
Piot, em 2000, quando anunciou que,
se os homens são parte do problema,
deveriam também ser parte da solução
(Arilha, 2010). Tais financiamentos
também favoreceram a partilha de
experiências e metodologias entre
países, em que, não raro, o Norte
Global teorizava e criava escopos de
intervenção, enquanto o Sul fornecia as
experiências (Connell, 2012; Ballestrin,
2013).
Como parte de uma organização
co-fundadora de uma aliança
internacional para o engajamento de
homens cis na promoção de justiça de
gênero e direitos humanos, e dirigida
por um importante estudioso
estadunidense das masculinidades, fui
convocada a realizar consultorias para
a adaptação de metodologias
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consideradas transformadoras das
masculinidades em países da América
Latina (Peru, Paraguai, Bolívia,
Nicarágua, Guatemala, El Salvador e
Honduras, além do Brasil) e da África
(Moçambique, Mali e Costa do Marfim).
A encomenda, desse modo, era “como
transformar os homens [cis] para o
alcance de melhores resultados em
saúde e direitos humanos,
especificamente no que diz respeito à
igualdade de gênero?”. O trabalho de
assessoria a esta questão era realizado
através de formações que visavam
adaptar ferramentas elaboradas e
avaliadas, no Brasil, por meio de teorias
e escalas de atitudes e
comportamentos masculinos, criadas
em universidades do Norte Global.
As atividades realizadas para a
adaptação de técnicas de mudanças de
comportamentos masculinos em
contextos culturalmente muito diversos,
geraram muitos desafios, mas,
sobretudo, estranhamentos,
incômodos, afetos que precisavam ser
significados. O que significa
transformar masculinidades? Debater
novos modelos de homens cis
transforma relações de poder? Quem
produz tais modelos? Como se
configura a demanda pela
transformação? Uma mulher cis é
capaz de convencer os homens cis a
refletirem sobre seus modos de ser?
Como uma estrangeira pode estimular
o debate em outros países? É o
machismo o principal problema na
relação de uma mulher latino-
americana com os homens cis brancos
do Norte-Global? Ocasionalmente,
havia dúvidas e interpelações a
respeito do fato de uma mulher cis
brasileira, jovem na época, trabalhar
para sensibilizar os homens cis para
assumirem um papel no enfrentamento
das desigualdades de gênero.
Acreditava-se que homens cis
conseguiriam de ouvir a outros homens
cis. Essas e outras indagações, bem
como situações diversas, embasaram a
produção de notas e diários de campo
usados na confecção da tese.
Formada pelas pesquisas-
participantes na área da psicologia
social, as intervenções realizadas ao
longo de meu trabalho no campo do
gênero não estavam separadas da
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produção de analisadores
2
que faziam
operar as práticas com os grupos. Para
tal, o relato frequente em diários era
fundamental. A partir da anotação
cotidiana das vivências, inquietações,
estranhamentos, reações dos grupos,
indagações etc., era possível produzir
análises e recriar direcionamentos para
as intervenções. Os diários registravam
o que poderia ser acionado na redação
dos relatórios, ofereciam um plano de
pensamento e análise, além de recurso
na visibilização de deslocamentos que
as lentes das metodologias de
avaliação quantitativa, de mudança de
comportamentos e atitudes, não nos
permitiam enxergar. Eram instrumento
de defesa da reprodução ou da
alteração das práticas utilizadas. Novas
intervenções eram planejadas com os
grupos trabalhados a partir dos diários
de campo, além de facilitar a produção
de narrativas, alternativas às
mensurações quantitativas de
mudanças de comportamento, que
auxiliavam nas negociações com
agências bilaterais e organizações
parceiras, colocando em análise as
2
Na análise institucional, aquilo que se revela
para a análise. Analisador se refere a
"acontecimento, indivíduo, prática ou
dispositivo que revela, em seu próprio
encomendas feitas e suas demandas
por produtivos e métodos avaliativos
restritos. Os diários eram, portanto,
ferramenta metodológica, histórica e
política, tal como preconiza Lourau
(1993).
A formação como pesquisadora
a partir da abordagem etnográfica e,
posteriormente, os estudos sobre
análise-institucional, pesquisa-
intervenção e cartografia, embasaram
as escritas dos diários de campo. A
manutenção regular de anotações em
que quem observa mapeia os
acontecimentos do campo é
fundamental nessas práticas de
pesquisa e ação social. As reações, os
conflitos, os afetos, os cenários, as
paisagens, os movimentos, os relatos,
tudo o que foi ouvido e vivido é descrito,
para ser refletido, revisitado, analisado
e dar forma a novos mapeamentos dos
processos em campo. Não se trata
somente do relato de opiniões ou da
interpretação dos fatos, mas do registro
dos acontecimentos em sua
processualidade, em seu movimento,
com suas conexões e os afetos que
funcionamento, o impensado de uma estrutura
social tanto a não conformidade com o
instituído como a natureza deste mesmo
instituído" (Rodrigues; Souza, 1987, p. 29).
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atravessam o ato de investigar,
“sempre considerando os efeitos do
processo do pesquisar sobre o objeto
da pesquisa, o pesquisador e seus
resultados” (Passos; Barros, 2009, p.
17).
Cartografia envolve, por meio de
uma narrativa, acompanhar processos
que se dão no território existencial, no
plano da experiência, sem encobrir
“tensionamentos de um movimento que
se inscreve em uma realidade
complexa e multireferencializada”
(Aguiar; Rocha, 2007, p. 651).
Processo é curso, deslocamento, e um
campo de pesquisa é uma rede
complexa de atores, negociações e
fluxos que geram instabilidades, de
modo que cartografia “é menos a
descrição de estados de coisas”
(Alvarez; Passos, 2009, p.135), do que
o acompanhamento de trajetórias. Não
enquadramento ou fotografia que
conta do que se passa no campo.
Narrar implica em seguir a
inconstância.
Com base nesses preceitos, os
onze anos que atravessaram o trabalho
social nas transformações das relações
de gênero a partir dos homens cis,
geraram um acúmulo de materiais
(projetos, encomendas, diários de
campo, relatórios, cadernos de
atividades, artigos, cartazes, folhetos
de campanha) que incitaram, então, o
desejo de analisar essa experiência de
trabalho a partir de novos olhares. Além
dos interlocutores do programa de pós-
graduação e das novas leituras, novas
articulações eram também feitas com
os membros de organizações para o
envolvimento dos homens cis na
equidade de gênero. A aproximação
para busca de documentos, materiais e
produções bibliográficas possibilitava
conversas que inspiravam análises
também registradas em diários. Dessa
forma, os conteúdos analisados não se
restringiam ao passado, envolveram
novas buscas, e eram a reverberação
da memória no presente, expressos em
uma narrativa confeccionada durante
um período de efervescência do debate
sobre gênero e sexualidade: tentativa
de desmontes de conquistas em prol da
equidade e diversidade, crescimento de
grupos masculinistas e reacendimento
do conservadorismo, ao lado de novos
levantes de mulheres, grande volume
de traduções e debates sobre
feminismo. A cartografia da memória
documentada nos diários, materiais
educativos e de campanha foi
entremeada/ costurada em uma
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narrativa que aciona as memórias
registradas no corpo e os
acontecimentos presentes, novas
leituras, novas problematizações,
novos encontros.
O trabalho de tese se inscreveu,
assim, no tempo tão adiado de parar e
pensar sobre as práticas que
constituíram minha luta no campo
feminista, seus desafios e
complexidades, sendo agraciado pelo
adensamento do debate feminista no
Brasil e suas novas problematizações.
Todavia, como mencionado
previamente, essa temporalidade não
opõe teoria à prática, pesquisa à
intervenção. A recuperação dos
documentos, a busca pelos materiais
das intervenções produziu novas
interlocuções e inserções no campo,
que se desdobraram em novas
análises, outras práticas, que se
entremeavam e ofereciam novos
conteúdos e perspectivas dos arquivos
antigos. Intervenção e pesquisa
andavam juntas.
O intuito da pesquisa, portanto,
não foi o olhar para o passado a partir
de uma posição distante e desvelar a
realidade dos fatos vividos. Mas,
organizar as ideias e narrá-las a partir
de um encadeamento lógico, tecido em
colaboração com autores que tratam de
assuntos semelhantes. Nesse sentido,
o propósito foi possibilitar novas
interpretações em diálogo com novas
produções no campo; ampliar os
sentidos do vivido; produzir indagações
sobre hábitos, práticas impensadas
pela automatização de sua realização
e, ao contá-las, facilitar ressonâncias
com outros fazeres, continuar
experimentando desafiar as normas de
gênero a partir de novas práticas,
horizontes, lugares outros, favorecer
heterotopias. Nesse sentido, não é uma
utopia, um ponto a ser vislumbrado no
futuro, mas, de acordo com Foucault
(2013), um espaço intenso e
transformador. Uma transformação,
portanto, como uma condição subjetiva,
de abertura aos acontecimentos, e não
uma meta estabelecida previamente.
Tempo e transformação: contra a
aceleração das práticas sociais
Ao fazer uma análise crítica das
avaliações dos projetos de
transformação das masculinidades,
depreendemos que transformação não
é algo que se estabelece de antemão.
Transformação é processo, não o
objetivo de nossas intervenções. É
nesse sentido que a transformação é a
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FONSECA, Vanessa do Nascimento. Narrativa e memória na análise das
transformações relacionadas a intervenções sociais em gênero.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
criação de possíveis (Rocha e Aguiar,
2003), a partir da produção de
analisadores, problemas, questões
“que favorecem a produção de
acontecimentos” (Paulon, 2005, p. 22).
A transformação, o deslocamento, é a
própria intervenção. A definição dos
lugares de chegada previamente
como a noção de um homem cis
transformado a partir de
comportamentos definidos por um
contratante externo ao coletivo
participante dos processos de
formação não é senão a reprodução
das relações de poder na ciência e na
política, nos quais os ditames do Norte
Global orientam os rumos do mundo,
com suas fórmulas simplificadoras das
contradições e da complexidade da
vida humana.
A pesquisa-intervenção e a
cartografia, críticas às tradicionais
relações de poder entre quem pesquisa
e a quem se pesquisa, afirmam que
metas devem ser traçadas no percurso
do estudo (Passos; Barros, 2009),
assim como é no encontro com os
coletivos que as transformações se
dão. Entretanto, contrariamente às
demandas para averiguação da
alteração dos comportamentos
masculinos em intervalos temporais
curtos, a partir de um conjunto de
técnicas específicas, era possível notar
que, além de imprevisíveis, as
mudanças se davam ao longo de um
tempo que extrapolava os encontros
coletivos.
A continuidade da minha relação
com ex-participantes dos projetos
sociais para a equidade de gênero me
permitia perceber deslocamentos que
permaneciam acontecendo em suas
trajetórias, a partir da circulação por
novos espaços e novas inserções de
trabalho. A ocupação de novos lugares
fazia ressoar a memória de suas
vivências nos projetos sociais,
possibilitando novos sentidos para sua
atuação no mundo.
Assim, interessada em ouvir
mais profundamente a perspectiva das
pessoas egressas dos projetos sociais
sobre suas mudanças ao longo dos
anos e, com base na ideia de que as
transformações requerem um tempo
para acontecer, a proposta de pesquisa
no pós-doutorado objetivava analisar a
trajetória de mulheres e homens, cis e
trans, de uma favela do Rio de Janeiro,
ex-participantes de projetos sociais
voltados para promoção da saúde
sexual e reprodutiva e equidade de
gênero, no início dos anos 2000.
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FONSECA, Vanessa do Nascimento. Narrativa e memória na análise das
transformações relacionadas a intervenções sociais em gênero.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
Tratou-se de um estudo
socioantropológico que envolveu
análise documental, entrevistas com a
equipe de coordenação de dois
projetos sociais desenvolvidos na
favela em questão, além da coleta das
narrativas de dez ex-participantes de
projetos sociais. Cabe mencionar que
atuei como educadora em um dos
projetos no qual o trabalho de
pesquisa-intervenção também gerou
grande número de materiais escritos,
reflexões e marcas no meu modo de
pensar e fazer trabalhos sociais.
Os conflitos entre o grupo,
oriundos da negociação entre
demandas dos financiadores, o
controle para avaliação de impacto e as
ações criativas dos jovens, bem como
suas vontades de alteração das
práticas, provocaram problematizações
acerca das relações de poder, as zonas
de invisibilidade dos cursos das
práticas sociais e a desvalorização da
potência criativa dos coletivos. Desse
modo, é inegável que a narrativa das
pessoas entrevistadas tenha ganhado
recortes e interpretações a partir de
minhas próprias memórias, fato
analisado e explicitado na tecitura dos
textos analíticos.
Outro fator motivador da
pesquisa foi o desmonte das políticas
sociais na área da saúde e dos direitos
sexuais e reprodutivos, a partir dos
primeiros anos de 2010. Além de cada
vez mais esvaziadas de uma
perspectiva de direitos humanos e de
crítica às desigualdades sociais, ações
de prevenção à Aids voltadas ao
público jovem, LGBTQIA+ e prostitutas
foram censuradas, com uma crescente
resistência ao debate sobre gênero e
sexualidade nas escolas. Tem havido
uma evidente redução de intervenções
educativas, nacionais e locais, sobre o
tema (Paiva et al., 2020; Seffner;
Parker, 2016). Tal redução foi notada
por minhas andanças na favela, quinze
anos depois da participação em um dos
projetos sociais mencionados. Ao voltar
ao território, para a realização de uma
pesquisa (anterior ao projeto de pós-
doutorado), notei a ausência de ações
dirigidas à educação em sexualidade,
cuidado com a saúde e prevenção do
HIV/Aids, que antes eram abundantes.
O cenário atual contrasta com as
iniciativas governamentais e não
governamentais da década passada,
caracterizadas pela criação de espaços
de aprendizagem e diálogo (Russo;
Arreguy, 2015; Paiva et al., 2020;
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Monteiro et al., 2019). Embora nunca
tenhamos alcançado uma sociedade
com amplo apoio aos direitos sexuais e
reprodutivos, tivemos avanços
relevantes no rompimento do silêncio
em torno da sexualidade, que incluíram
diversas políticas e programas,
resultantes da mobilização para o
enfrentamento ao HIV/ Aids e das
negociações da ONU em torno do
gênero e da saúde reprodutiva, na
década de 1990 (Corrêa, 2008). A
resposta brasileira para a Aids até o
início da década de 2010, ainda que
não ausente de críticas, era
considerada exemplar, o que rendeu ao
país um lugar de destaque no cenário
internacional, além de recursos para a
experimentação e aprimoramento de
estratégias inovadoras e a cooperação
com outros países. Sobretudo nas três
primeiras décadas de epidemia de
HIV/Aids, foram desenvolvidas
intervenções criativas e afinadas às
demandas de diferentes grupos sociais
e resultantes do ativismo e da
articulação de diversos atores, como
artistas, gestores públicos,
acadêmicos, empresas privadas,
pessoas vivendo com HIV/Aids e até
grupos religiosos (Seffner; Parker,
2016; Agostine et al., 2019).
A ação vinculada desses grupos,
frente às questões sociais, permitiu o
reconhecimento das limitações das
propostas preventivas centradas
apenas na divulgação de informações e
na responsabilização individual,
apontando para as condições de
vulnerabilidade às IST/Aids, que
considerem também fatores sociais e
programáticos (Fonseca; Monteiro;
Nascimento, 2022). Ainda, tendo em
vista a complexidade que cercou o
problema da Aids no Brasil, afetando a
grupos com condições de
vulnerabilidade variadas (jovens,
mulheres, moradores de favela etc.), as
agendas de trabalho para o
enfrentamento da epidemia de
HIV/Aids foram associadas a temáticas
diversas, críticas às desigualdades de
gênero, faixa etária, orientação sexual,
raça e classe social.
Cabe ressaltar a influência do
pensamento de Paulo Freire na
formulação de políticas de saúde
baseadas na promoção da cidadania
e não na de consumidores indi¬viduais
de serviços e produtos (Paiva; Peres;
Blessa, 2002). A abordagem da
educação popular freireana, presente
em projetos de formação em favelas e
comunidades populares antes mesmo
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da emergência da Aids, foi compatível
com a ideia de que os comportamentos
e atitudes são impregnados pelo
contexto social. Na metodologia de
educação popular, os participantes são
engajados no questionamento das
forças que os oprimem (Freire, 1979). A
conjuntura de disseminação do vírus
HIV entre populações mais vulneráveis
demandou uma ação problematizadora
da realidade, com vistas a à sua
transformação, assim como difundiu
Freire.
Em síntese, as intervenções
para o enfrentamento da Aids, dirigidas
aos grupos mais vulnerabilizados,
afirmaram a importância do trabalho
crítico-emancipatório das
desigualdades sociais, em que a
participação dos mais afetados na
construção de estratégias de
prevenção possibilitou respostas mais
sensíveis às suas necessidades e
realidades. O enfrentamento às
diversas opressões foi uma marca da
resposta para a Aids, relacionada à
ampliação do acesso aos direitos
humanos e de recursos para o cuidado
com a saúde sexual e reprodutiva.
Essas práticas foram consideradas
lições que, como mencionado,
renderam ao Brasil um lugar de
destaque no cenário internacional, e
investimentos no campo das ações
educativas voltadas à sexualidade e ao
cuidado com a saúde reprodutiva que,
atualmente, passam por um período de
desmantelamento.
De acordo com Seffner e Parker
(2016, p. 294) o desmonte “da
capacidade das políticas públicas
brasileiras em reduzir a homofobia; de
cuidar das pessoas vivendo com
HIV/Aids; de educar jovens sobre
questões de sexualidade, gênero e
doenças sexualmente transmissíveis”,
somado à valorização do tratamento
em detrimento das abordagens de
questões sociais, seria “fruto de longo
processo de desperdício da
experiência” (idem).
O desperdício da experiência
está relacionado à limitação da
experiência por uma ideia de razão
moderna. Na medida em que avança
uma nova racionalidade na
modernidade, “o tempo passou a ser
administrado a favor de certos
métodos, com o objetivo de alcançar
determinados fins” (Aguiar, 2012, p.
61). Na atualidade, o tempo se estreita
ainda mais, realidade reproduzida,
inclusive, nas ações sociais no campo
da saúde e dos direitos humanos. Com
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
a necessidade de justificar recursos
empregados, exige-se que o tempo e a
escala de alcance se adequem às
relações de custo-benefício: um maior
número de pessoas alcançadas em
menor tempo é de mais fácil apoio
financeiro, em que métodos sintéticos,
de simples replicação e curto prazo
ganham a preferência (Fonseca, 2023).
O lugar da experiência e da maturação
dos acontecimentos não previstos tem
sido lançado a segundo plano
décadas, e de forma cada vez mais
brusca nos modos atuais de
organização da sociedade. Walter
Benjamin (1987, p.198), ao falar de
uma perda crescente da capacidade
narrativa, explica que “uma das causas
desse fenômeno é óbvia: as ações da
experiência estão em baixa, e tudo
indica que continuarão caindo até que
seu valor desapareça de todo”.
Com Larrosa (2017, p.18),
pensador de influência benjaminiana,
consideramos que “experiência é o que
nos passa, o que nos acontece, o que
nos toca. Não o que se passa, o que
acontece, o que toca”. Para que algo
nos toque, crie experiência, é
necessário tempo para suspender a
juízo e a automação da ação, requer
parar para pensar, olhar e escutar, ou
fazê-lo mais devagar, algo cada vez
mais difícil nos tempos que correm.
Embora de significados distintos,
experiência e memória são
dependentes uma da outra. Se a
experiência é o próprio acontecimento,
memória é o que sentido à
experiência, a partir de uma elaboração
presente do vivido. É assim que o
tempo é um componente importante da
própria experiência.
No projeto de pesquisa sobre as
trajetórias de ex-participantes de
projetos sociais, a memória serviu de
artifício político no enfrentamento do
desmonte das conquistas sociais para
a redução das desigualdades, uma vez
que ajudou a evocar as condições de
possibilidade, zonas de invisibilidade,
contradições, conflitos, relações
impensadas, além de afirmar as lições
aprendidas com seus processos.
Ainda, com a privação crescente do
tempo e da experiência, o exercício
narrativo, a partir da memória das
trajetórias de participantes em projetos
sociais nos anos 2000, se constituiu
como estratégia política pela afirmação
de práticas de investigação contrárias
aos reducionismos científicos,
sustentados pela ilusão da
neutralidade, da estabilidade e de certo
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modo de racionalidade denunciados
pelos diversos feminismos (Haraway,
1995; Collins,2019).
As reverberações do presente na
memória: modos de tecer narrativas
Refletindo o intervalo que se deu
entre a interrupção das intervenções
analisadas e o tempo da memória
relatada, a elaboração da experiência
como fonte de análise aqui, não tem a
intenção de representar “prova
incontestável” (Scott, 1998, p. 301) dos
acontecimentos, mas produzir
elementos que interrompam as
perspectivas únicas. Seguindo as
críticas de Jeanne Marie Gagnebin
(2006) sobre a naturalização da relação
entre presente e passado, não se trata
de um resgate do passado pela
memória, nem de perseguir a verdade
sobre o que foi. Isso posto, não se
tratou, nos projetos de pesquisa, de
avaliar as práticas sociais realizadas ou
apresentá-las como exemplos a serem
copiados. Todavia, a partir do exame
das lições, oportunidades, princípios
ético-políticos e metodológicos dos
projetos sociais, intentava-se olhar para
a multiplicidade de eventos que
atravessaram as intervenções e
permitiram escapar de práticas
reducionistas, individualizantes e
homogeneizantes (Fonseca; Monteiro;
Nascimento, 2022). Destaco que,
quando me refiro à multiplicidade de
eventos que produzem e deslocam os
acontecimentos, não tenho a intenção
de contabilizá-los, de rastreá-los no
sentido de cobrir a totalidade dos
processos. Tenho, sobretudo, o intuito
de contradizer os reducionismos
simplistas das técnicas que
homogeneízam e capturam
subjetividades.
Considerando a chegada do
momento de analisar a experiência
(Corazza, 1996), as pesquisas forjaram
uma parada no tempo de trabalho, ou
melhor, um novo curso na
temporalidade das práticas, uma vez
que essas nunca pararam totalmente e
interferiam nos arranjos dos
acontecimentos passados necessários
à composição da narrativa da tese e
dos artigos. Tal momento de análise
coincidiu, por um lado, com uma série
de retrocessos políticos no campo dos
direitos humanos, sobretudo do gênero,
e reações conservadoras aos
movimentos emancipatórios. Por outro
lado, aconteceu concomitantemente a
expansão do acesso a abordagens e a
feminismos contra-hegemônicos, bem
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FONSECA, Vanessa do Nascimento. Narrativa e memória na análise das
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
como a ampliação da diversidade de
movimentos de mulheres no Brasil.
Todos esses fatores
movimentaram as questões e reflexões
levantadas ao longo da escrita dos
textos resultantes das pesquisas,
alterando o foco e os sentidos
oferecidos aos acontecimentos postos
em análise. A narrativa era o próprio
movimento de análise que, ao buscar
costurar os fatos documentados (nos
diários de campo, materiais educativos
e de campanha, relatórios, artigos,
transcrições de entrevistas), alterou
antigas formas de pensar o campo. Por
exemplo, não se tratava mais de pensar
como os homens cis podiam ser
transformados, como eu tentava
entender no início da tese, mas que
práticas, tensões e relações de poder
são invisibilizadas quando o alcance e
o conteúdo das transformações
subjetivas são estabelecidos de
antemão.
Em ambas as pesquisas,
depreendeu-se que as restrições
impostas ao tempo dos projetos se
apresentaram como limitadoras das
possibilidades de criação nos
encontros com os coletivos. Na
administração cerceadora do tempo, as
metas de transformação são
estabelecidas de antemão, por quem
tem o controle dos recursos financeiros
e domina as lógicas de linguagem, de
apresentação sucinta dos dados, a
simplificação das relações e de
ocultamento das contradições, que são
próprias da colonialidade do saber.
Teorias críticas da colonialidade
indicaram que relações de poder entre
o Norte e o Sul Globais se baseiam em
hierarquias de conhecimento que se
atualizam tanto nas formações
acadêmicas quanto nas lutas
emancipatórias, quando não põem em
análise pressupostos dominantes na
produção de conhecimento, que
valorizam a estabilidade, a ordem e a
regularidade (Fonseca, 2023). Os
saberes provenientes das ditas
metrópoles mundiais assumiram status
de verdade por meio de uma série de
artifícios que privilegiaram uma lógica
única na produção de conhecimentos,
útil ao domínio colonial moderno. Tal
colonialidade se mantém viva “nos
manuais de aprendizagem, nos
critérios para os trabalhos acadêmicos,
na cultura, no senso comum, na
autoimagem dos povos, nas aspirações
dos sujeitos, e em tantos outros
aspectos de nossa experiência
moderna” (Maldonado-Torres, 2007,
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FONSECA, Vanessa do Nascimento. Narrativa e memória na análise das
transformações relacionadas a intervenções sociais em gênero.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
p.131). Os códigos hegemônicos de
produção de saberes começam a ser
assimilados desde muito cedo, de
modo “que o universalismo, a
linearidade, a verdade, o causalismo e
os dualismos se constituem como eixos
centrais na formação dos rituais
escolares, atualizando-se através dos
dispositivos do conhecimento científico”
(Rocha; Aguiar, 1992, p. 89). Assim, a
colonialidade atravessa o planejamento
e a execução das práticas sociais, bem
como os modos de as analisar, registrar
e divulgar.
Nessa racionalidade científica, de
metas definidas previamente, a
pesquisa costuma ser de confirmação
ou refutação do percurso elaborado.
Trata-se de averiguar se a rota traçada
leva ou não ao ponto estimulado pelos
critérios de verdade. No caso das
intervenções nas masculinidades,
recomendava-se averiguar se
determinadas técnicas mudavam
comportamentos para o que era
considerado um “homem
transformado”. No caso dos projetos de
saúde sexual e reprodutiva com jovens,
muitas vezes, avalia-se a aquisição de
certos comportamentos preventivos de
ISTs e de gravidezes. Todavia, como
possibilitar a criação de novas práticas?
Novas interrogações? O acesso a
outros lugares? A produção de novos
caminhos? Nessa lógica, perdem-se os
desvios, os conflitos que impõem novas
questões, as instabilidades que
convocam a novas perspectivas do
problema.
Nas práticas de educação popular, de
pesquisa-intervenção, feministas,
decoloniais, ou seja, práticas que
rompem com as hierarquias de
conhecimento entre participantes da
pesquisa (quem pesquisa/a quem se
pesquisa, quem educa/ a quem se
educa), as metas são feitas e refeitas
nos encontros, que são saturados de
embates, reviravoltas e complexidades
próprias às relações humanas. Esse
modo de fazer das práticas sociais é
também o modo de as analisar. Um
fazer crítico às relações de poder
coloniais, incluindo nero, raça e
classe, que permeiam as práticas
sociais, supõe também um novo modo
de as pensar e as registrar. Assim, o
acompanhamento dos processos e de
suas intensidades requer postura de
abertura ao que tais processos podem
gerar. Nesse sentido, ainda, a narrativa
não é descrição dos fatos, ou a
reprodução das ideias no papel, mas
supõe a própria construção do
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pensamento, é algo que acontece em
ato.
Era desse modo que as transformações
se apresentavam para mim em campo,
como processos que se desvelavam
sem previsão ou controle, frutos de
uma a realidade móvel, a todo tempo
em processo de construção, com
múltiplas entradas possíveis de
interrogação das práticas, tal como
expressam Katia Aguiar e Marisa
Rocha (2007). O próprio curso da
escrita deve produzir analisadores e
estar atento à possibilidade de desvios
de rota e recolocação de questões.
Ao longo da pesquisa iniciada
para a tese, entendi que a análise das
práticas de engajamento de homens,
cis e trans, na transformação de suas
masculinidades, ou para a aquisição de
hábitos saudáveis e equânimes entre
jovens nos projetos de prevenção ao
HIV/Aids, não se daria pela tentativa de
responder o que consegue produzir
mudanças, ou não. Tratava-se de
formular questões sobre concepções
que sustentam as próprias práticas, os
lugares de quem as compõe e o
conteúdo e o modo como as
encomendas são feitas. Quanto mais
eu me aproximava de novas leituras
sobre os feminismos interseccionais e
decoloniais e sobre micropolítica, mais
sentia a necessidade de indagar minha
própria experiência e perspectivas
teóricas. As leituras se conectavam
imediatamente com minhas
inquietações sobre o campo, em um
processo no qual os estímulos do
presente construíam a memória do
passado. Foi desse modo que a
memória a que me referi nos trabalhos
de pesquisa discutidos aqui, dizia
respeito aos documentos guardados e
à memória gerada a partir da escrita.
Isso significa que memória é também
criação e não um retrato fiel de eventos
passados. Nesse processo, as
condições do presente davam contorno
a escrita do passado.
Os registros, ao ganharem
novos recortes e composições para
caberem nos limites de uma tese,
adquiriam novas nuances e
problemáticas, a partir do movimento
do pensamento, conjugado às
possibilidades de análise oferecidas
pelas diferentes autoras das quais me
aproximava. A aproximação entre as
referências bibliográficas e a
experiência narrada não é, mais uma
vez, de qualquer comprovação da
verdade ou tentativa de universalidade
dos fatos, mas de busca de sintonia e
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FONSECA, Vanessa do Nascimento. Narrativa e memória na análise das
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apoio na produção de sentidos comuns.
Meu compromisso era, portanto, com
“um conhecimento afinado à
ressonância, não à dicotomia”
(Haraway, 1995, p.29).
As epistemologias feministas
que repercutiram no Brasil no momento
da elaboração de minha tese
influenciaram minhas análises das
práticas para transformação das
masculinidades e, consequentemente,
minha percepção dos projetos sociais
com jovens, dos quais fiz parte, e foram
analisados no pós-doutorado, a partir
das trajetórias de ex-participantes. A
perspectiva interseccional ampliou a
análise da localização do pesquisador
em campo, bem como as reflexões
sobre os efeitos dos lugares dos
propositores de projetos internacionais
de promoção de direitos humanos,
dentre os quais incluo os do campo do
gênero e da saúde reprodutiva.
Reconhecida como um paradigma de
pesquisa, a teoria da
interseccionalidade nome a um
compromisso teórico e político, com
mais ênfase a uma matriz de opressão/
privilégio (Nogueira, 2017). Fruto de
uma crítica das mulheres negras ao
feminismo liberal e a universalização
das mulheres, uma análise
interseccional captura, por exemplo,
como diferentes níveis de
discriminação criam oportunidades,
benefícios sociais e materiais para
aqueles que gozam de estatutos
normativos não marginalizados, como
homens cis, heterossexuais, brancos,
de classe alta (Nogueira, 2017), de
modo a colocar a questão também
sobre os como são formados os lugares
de privilégio muitas vezes
naturalizados e não percebidos em
projetos que reivindicam a justiça
social.
Em articulação com os debates
do feminismo decolonial, as
ferramentas propostas pela teoria da
interseccionalidade permitiram produzir
questões analisadoras das
metodologias e demandas para
projetos sobre masculinidades, uma
vez que reconhece que as tecnologias
produzidas no Norte Global não devem
pressupor um modelo de ser humano
universal. Tal pressuposição cria
indicadores e metas difíceis de serem
alcançadas pelos sujeitos, além de
tornarem invisíveis suas histórias.
Mantém o domínio das técnicas nas
mãos dos mesmos. Com isso, notei que
meu desconforto e as desigualdades na
relação com os especialistas das
200
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masculinidades não se deviam,
principalmente, ao fato de serem
homens cis, mas serem brancos e
oriundos de países que dominam a
linguagem e as lógicas hegemônicas
de comunicação e apresentação dos
saberes.
Por meio das críticas aos lugares
de saber, endossadas pela pesquisa-
intervenção e as epistemologias
feministas, considero que deve se
arrencar quem pesquisa de qualquer
estabilidade pré-suposta: seja do
conhecimento, seja de sua identidade.
Precisa haver abertura para criar zonas
de indagação e desestabilização que
favoreçam o coletivo a aflorar. Assim
sendo, posicionarmo-nos em nossas
produções escritas e de saber não se
reduz a indicar o ponto em que nos
situamos, mas seguir os rastros dos
caminhos percorridos que levaram aos
lugares ocupados.
A partir do reconhecimento de
que a neutralidade foi forjada em meio
à centralidade de determinadas
técnicas de produção de conhecimento,
teorias feministas demonstraram que
nenhuma luta social pode prescindir da
localização de si mesmo nas relações
de força que conduzem o curso e as
análises da sociedade. Desse modo,
“posicionar-se é uma prática chave
metodologicamente e responsável
politicamente” (Haraway, 1995, p. 27).
Localizar-se, posicionar-se, analisar
sua implicação, tem aqui o sentido de
refazer os caminhos, as experiências e
as marcas que direcionaram o olhar
sobre o observado. Não se trata
apenas de anunciar a ocupação de um
lugar fixo, como identidades definidas,
mas seus efeitos, relações presentes,
como se sustenta, os caminhos
percorridos, aberturas, entraves, rotas
de fuga etc.
A raça, a origem geográfica, o
gênero, a faixa etária, as habilidades
físicas são fatores que certamente
influenciaram as visões e as relações
entre quem forma e a quem se forma,
entre quem pesquisa e a quem se
pesquisa, pois tais posições produzem
ou o cumplicidade com o público de
interesse; rendem depoimentos
baseados em como tal público nos
(Schucman, 2016). Com base nesse
pressuposto, pude perceber que, em
muitas cenas, esses marcadores de
pertencimento apareceram como
analisadores importantes nas
formações para saúde sexual e
reprodutiva e desconstrução de gênero;
nos diários apareciam como fonte de
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
acolhimento, estranhamentos ou
questionamentos por parte dos
envolvidos nas intervenções,
resultavam em privilégios e obstáculos,
ofereciam outros pontos de vista, ou
limitavam minha compreensão dos
enunciados. No entanto, localizar
pressupõe um olhar atento para as
tramas de poder nas quais estamos
situados, fundamentalmente nossa
implicação com a instituição de um
saber (Paulon; Romangnoli, 2010). Não
deve servir às interdições de quem
pode, ou não pode pesquisar sobre
determinados grupos, mas reconhecer
e analisar as relações que envolvem a
investigação, ou os processos de
formação. Pude perceber que, tanto
nas intervenções, quanto na narrativa
delas, minhas posições subjetivas
engendravam o percurso analítico,
forneciam os problemas a serem
explorados.
Analisar minha própria
experiência no trabalho social não a
tornou inquestionável. Antes, se
constituiu como plano no qual se
inscreveram a heterogeneidade das
forças que atravessaram os encontros,
os deslocamentos produzidos pelos
corpos, a interseccionalidade das lutas
e das formas de opressão que se
atualizam em determinados momentos.
Desse modo, a cartografia das
práticas remeteu à atenção às relações
com as interlocutoras e os
interlocutores. Pensando com Luciana
Franco (2016), tive o desafio de como
cuidar da relação de confiança com as
pessoas que me apoiaram nesse
trabalho de pesquisa, que se tornou
público por meio de tese, livro e artigos.
As pessoas com quem dialoguei, ou
que entrevistei, o foram
sujeitos/objetos de pesquisa, mas
foram também referências consonantes
ou dissonantes ao que foi alinhavado
nas narrativas de pesquisa. Houve a
oportunidade de consultar algumas das
pessoas colaboradoras antes da
publicação dos trabalhos. Assim, além
de contarem sua experiência de leitura,
puderam decidir se seus nomes seriam
citados fielmente, ou em sigilo.
Por fim, na organização do texto da
tese, páginas em itálico marcavam o
relato da experiência, contavam uma
história, introduzindo os capítulos e as
seções da tese. Sua escrita em itálico
indicava a construção do campo
problemático por meio dos registros
refeitos. Todavia, é possível notar na
leitura do texto final que a narração da
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experiência vivida pouco se
diferenciava das análises sustentadas
pelas referências bibliográficas,
evidenciando a interposição entre
passado e presente, entre política,
construção de conhecimento e
memória.
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