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FONSECA, Vanessa do Nascimento. Narrativa e memória na análise das
transformações relacionadas a intervenções sociais em gênero.
PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.179-206, set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
produção de analisadores
2
que faziam
operar as práticas com os grupos. Para
tal, o relato frequente em diários era
fundamental. A partir da anotação
cotidiana das vivências, inquietações,
estranhamentos, reações dos grupos,
indagações etc., era possível produzir
análises e recriar direcionamentos para
as intervenções. Os diários registravam
o que poderia ser acionado na redação
dos relatórios, ofereciam um plano de
pensamento e análise, além de recurso
na visibilização de deslocamentos que
as lentes das metodologias de
avaliação quantitativa, de mudança de
comportamentos e atitudes, não nos
permitiam enxergar. Eram instrumento
de defesa da reprodução ou da
alteração das práticas utilizadas. Novas
intervenções eram planejadas com os
grupos trabalhados a partir dos diários
de campo, além de facilitar a produção
de narrativas, alternativas às
mensurações quantitativas de
mudanças de comportamento, que
auxiliavam nas negociações com
agências bilaterais e organizações
parceiras, colocando em análise as
2
Na análise institucional, aquilo que se revela
para a análise. Analisador se refere a
"acontecimento, indivíduo, prática ou
dispositivo que revela, em seu próprio
encomendas feitas e suas demandas
por produtivos e métodos avaliativos
restritos. Os diários eram, portanto,
ferramenta metodológica, histórica e
política, tal como preconiza Lourau
(1993).
A formação como pesquisadora
a partir da abordagem etnográfica e,
posteriormente, os estudos sobre
análise-institucional, pesquisa-
intervenção e cartografia, embasaram
as escritas dos diários de campo. A
manutenção regular de anotações em
que quem observa mapeia os
acontecimentos do campo é
fundamental nessas práticas de
pesquisa e ação social. As reações, os
conflitos, os afetos, os cenários, as
paisagens, os movimentos, os relatos,
tudo o que foi ouvido e vivido é descrito,
para ser refletido, revisitado, analisado
e dar forma a novos mapeamentos dos
processos em campo. Não se trata
somente do relato de opiniões ou da
interpretação dos fatos, mas do registro
dos acontecimentos em sua
processualidade, em seu movimento,
com suas conexões e os afetos que
funcionamento, o impensado de uma estrutura
social – tanto a não conformidade com o
instituído como a natureza deste mesmo
instituído" (Rodrigues; Souza, 1987, p. 29).