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MATZENAUER, Alessandra Rudiger; SZUCHMAN, Karine Shamash; COSTA,
Luis Artur; SILVA, Thayna Miranda da; CARDOSO, Vanessa Branco.
Tramando políticas do narrar: pistas ético-estéticas para pesquisas
especulativas. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em
Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.229-255, set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
delas é uma descrição de um
acontecimento e, como acontecimentos
que são, afirmam perspectivas de
relações possíveis junto ao mundo,
delimitam tendências de novos
aconteceres. Proporcionam um campo
de possibilidades de relações,
afetações, percepções, pensamentos,
comportamentos, cotidianos, etc.
Produzem efeitos no mundo com suas
existências-gestos-acontecimentos-
narrares independentemente da
presença ou ausência de intenções,
pois, mesmo onde há intenções,
existem antes, depois e para além
destas, intensidades que insistem,
duram e afirmam ao estabelecerem
tramas de relações virtuais e atuais
(Deleuze, 1988) que ultrapassam
qualquer intenção com suas
intensidades a reverberarem nas
tramas relacionais-narrativas que nos
constituem.
Afirmamos um gesto que é afeto,
sensibilidade e pensamento. O mundo
é um acontecimento. Todo
acontecimento é um ato. Todo ato é um
acontecimento. A multidão de atos-
atores (Latour, 2012) tece a trama de
acontecimentos à qual damos o nome
de mundo. Uma composição polifônica
que vai da pedra ao pão, passando pelo
solo, pelo trigo, pelo fungo e pela mão,
são composições poéticas (ético-
estético-políticas) de mundos possíveis
aos quais especulamos entre agências
humanas, vegetais, minerais,
climáticas, microbióticas,
sociotécnicas, virais, etc., que
constituem corpos, enxames, bandos,
cardumes, multidões, sociedades,
enfim, ecossistemas em uma dança-
jogo de conjurar territorialidades
comuns: ecossistemas narrativos
(Costa, 2022) que tramam planos de
composições, coordenadas e
imanência (Deleuze; Guattari, 2013)
entre diferentes dimensões da
produção, libido, comunicação e mais
(Guattari, 1990). Tais ecossistemas-
jogos-territorialidades narrativas
delimitam-se e são delimitados, por sua
vez, pela operação de diferentes
políticas narrativas (Costa, 2021) a
partir das quais modulam-se certas
estilísticas coletivas do viver junto e
suas paisagens existenciais
Ao modo da atmosfera ou do
incômodo som da geladeira, ao
qual já não escutávamos (por
sua constância), mas que,
mesmo assim, percebemos
com imenso alívio o seu fim e,
apenas então, finalmente nos
tornamos sensíveis ao
incômodo que nos assolava.
Também nossa imersão nos
ecossistemas narrativos pelos