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MATZENAUER, Alessandra Rudiger; SZUCHMAN, Karine Shamash; COSTA,
Luis Artur; SILVA, Thayna Miranda da; CARDOSO, Vanessa Branco.
Tramando políticas do narrar: pistas ético-estéticas para pesquisas
especulativas. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em
Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.229-255, set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
Tramando políticas do narrar: pistas ético-estéticas para pesquisas
especulativas
Alessandra Rudiger Matzenauer
1
Karine Shamash Szuchman
2
Luis Artur Costa
3
Thayna Miranda da Silva
4
Vanessa Branco Cardoso
5
DOI: https://doi.org/10.22409/pragmatizes.v15i29.67191
Resumo: O presente artigo apresenta uma definição do narrar e seu gesto que ultrapassa os esquadros
do verbo e do humano, delimitando os conceitos de políticas narrativas e ecossistemas narrativos,
nos/pelos quais (des)constituímos nossas territorialidades existenciais. Desde tal imanência entre
narrar e viver se evidencia, então, o caráter inerentemente político da constituição de narrativas ao
tramarem nossas modulações coletivas de afetações. A partir de tal perspectiva, o artigo define e afirma
uma posicionalidade ético-estético-política especulativo-ficcional do narrar, apresentando pistas para
orientar estas experimentações no campo das pesquisas acadêmicas.
Palavras-chave: narrativa; especulativo; ficção; coletivo; ético-estético-político.
Plotting politics of narrating: ethical-aesthetic clues for speculative research
1
Mestranda em Psicologia Social e Institucional na Universidade Federal do Rio Grande do Sul
(UFRGS). E-mail: alessandra.matzenauer@hotmail.com. ORCID: https://orcid.org/0009-0005-5600-
550X.
2
Psicóloga. Mestra e Doutoranda em Psicologia Social e Institucional na Universidade Federal do Rio
Grande do Sul (UFRGS). E-mail: karineszuchman@gmail.com. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-
3136-6366.
3
Doutor em Informática na Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Docente no Departamento de Psicologia Social e Institucional e no Programa de Pós-Graduação em
Psicologia Social e Institucional da UFRGS. E-mail: larturcosta@gmail.com. ORCID:
https://orcid.org/0000-0001-6110-7512.
4
Psicóloga. Mestranda em Psicologia Social e Institucional na Universidade Federal do Rio Grande do
Sul (UFRGS). E-mail: thaynamirandas@gmail.com. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-9271-4016.
5
Psicóloga. Doutoranda em Psicologia Social e Institucional na Universidade Federal do Rio Grande
do Sul (UFRGS). E-mail: vanessabrancoc@gmail.com. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-2210-0515.
Recebido em 31/03/2025, aceito para publicação em 13/10/2025.
230
MATZENAUER, Alessandra Rudiger; SZUCHMAN, Karine Shamash; COSTA,
Luis Artur; SILVA, Thayna Miranda da; CARDOSO, Vanessa Branco.
Tramando políticas do narrar: pistas ético-estéticas para pesquisas
especulativas. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em
Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.229-255, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
Abstract: This article presents a definition of narration and its gesture, which surpasses the boundaries
of the verb and the human, delineating the concepts of narrative politics and narrative ecosystems,
in/through which we (de)constitute our existential territorialities. From this immanence between narrating
and living, the inherently political nature of the constitution of narratives becomes evident, as they shape
our collective modulations of affect. From this perspective, the article defines and affirms a speculative-
fictional ethical-aesthetic-political positionality of narrating, presenting clues to guide these experiments
in the field of academic research.
Keywords: narrative; speculative; fiction; collective; ethical-aesthetic-political.
Trazando políticas del narrar: pistas ético-estéticas para la investigación especulativa
Resumen: Este artículo presenta una definición de narración y su gesto que va más allá de las fronteras
del verbo y de lo humano, delimitando los conceptos de políticas narrativas y ecosistemas narrativos,
en/a través de los cuales (des)constituimos nuestras territorialidades existenciales. Desde tal
inmanencia entre narrar y vivir, entonces, se hace evidente el carácter inherentemente político de la
constitución de las narrativas al tramar nuestras modulaciones colectivas de afectaciones. Desde esta
perspectiva, el artículo define y afirma una posicionalidad ético-estética-política especulativa-ficticia del
narrar, presentando pistas para guiar estos experimentos en el campo de la investigación académica.
Palabras clave: narrativa; especulativo; ficción; colectivo; ético-estético-político.
Tramando políticas do narrar: pistas ético-estéticas para pesquisas
especulativas
O narrar como gesto do mundo:
ecossistemas narrativos e suas
políticas
O mundo é uma trama de
gestos-acontecimentos-narrativas em
devir. Cada gesto conjura uma nova
territorialidade sobre a anterior,
reiterando-transformando a
possibilidade de novos gestos porvir
desde então. Como propõem Deleuze e
Guattari (2013), o acontecimento não é
um fato isolado, mas uma modulação
intensiva que atravessa corpos,
territórios e temporalidades,
instaurando novas possibilidades de
existência. A formação de uma
territorialidade é a constituição de
composições, ritmos e modos
existenciais em relação que
constituem, também, um campo de
possibilidades de surgimento de novas
composições. Uma territorialidade,
assim, tal como um tambor que marca
um tempo, é a produção de um jogo
possível, de um campo narrativo de
possibilidades do narrar. Tal como em
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MATZENAUER, Alessandra Rudiger; SZUCHMAN, Karine Shamash; COSTA,
Luis Artur; SILVA, Thayna Miranda da; CARDOSO, Vanessa Branco.
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especulativas. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em
Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.229-255, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
Deleuze e Guattari (1996), o jogo aqui
é compreendido como um
agenciamento rizomático, uma
composição de forças que não se fixa,
mas sim se transforma/devém em cada
novo gesto. Um jogo é um
agenciamento de gestos que conjura
uma territorialidade em suas
possibilidades de ação-acontecimento,
entendida aqui como a potência de um
gesto que produz afetações no mundo,
sempre em transformação a cada novo
acontecimento-ação. Por sua vez,
marca um instante de instauração de
novas modulações que configura
tendências, possibilidades,
virtualidades e intempestivos. A ação-
acontecimento desdobra o gesto como
potência, como devir; enquanto o
acontecimento-ação atualiza
constantemente esta potência de
criação de mundos possíveis.
Contar uma história. Cantar uma
melodia. Construir um hábito. Erguer
uma cidade. Escrever uma carta. Tecer
um tecido. Bordar um pano. Fazer uma
amizade. Cultivar plantas. Conjurar um
rito. Compor com um ritmo. Sustentar
uma conversa. Confluir uma dança.
Cuidar de um coletivo. Perceber uma
paisagem. Diagnosticar uma doença.
Declarar o amor a alguém. Atar ou
romper uma relação. Nomear. Sentir-
pensar o que não tem nome. Fechar ou
abrir um sentido. Fazer ou desfazer um
grupo. Constituir ou destituir um
pertencimento. Uma floresta que
emerge. Um clima que aquece. Um
planeta que orbita em torno de uma
estrela. Cada um, ao seu modo, é um
gesto-acontecimento que delimita um
campo de possibilidades de afetação,
constituem um arranjo sensível que
circunscreve possibilidades de afetar e
ser afetado, possibilidades de narrar.
Um gesto não precisa de mãos,
muito menos de mãos humanas, para
ser gesto, do mesmo modo que uma
narrativa não precisa de palavras para
narrar. Aqui, um gesto não é
determinado por uma intenção prévia,
uma deliberação ou algo parecido, mas
sim pelas intensidades que deste gesto
se efetivam como efeito no mundo. A
chuva que marca o final da tarde nos
trópicos da Améfrica (Gonzalez, 1984).
A agitação telúrica de um tremor de
terra na noite de San Francisco. Um
soco direto desferido no queixo de um
antigo inimigo. Um pássaro que canta.
Uma palavra é dita ao do ouvido.
Uma árvore em sua silenciosa dança
do crescimento. Uma cadeira vazia no
meio de uma sala de estar. Cada uma
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MATZENAUER, Alessandra Rudiger; SZUCHMAN, Karine Shamash; COSTA,
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Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.229-255, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
delas é uma descrição de um
acontecimento e, como acontecimentos
que são, afirmam perspectivas de
relações possíveis junto ao mundo,
delimitam tendências de novos
aconteceres. Proporcionam um campo
de possibilidades de relações,
afetações, percepções, pensamentos,
comportamentos, cotidianos, etc.
Produzem efeitos no mundo com suas
existências-gestos-acontecimentos-
narrares independentemente da
presença ou ausência de intenções,
pois, mesmo onde intenções,
existem antes, depois e para além
destas, intensidades que insistem,
duram e afirmam ao estabelecerem
tramas de relações virtuais e atuais
(Deleuze, 1988) que ultrapassam
qualquer intenção com suas
intensidades a reverberarem nas
tramas relacionais-narrativas que nos
constituem.
Afirmamos um gesto que é afeto,
sensibilidade e pensamento. O mundo
é um acontecimento. Todo
acontecimento é um ato. Todo ato é um
acontecimento. A multidão de atos-
atores (Latour, 2012) tece a trama de
acontecimentos à qual damos o nome
de mundo. Uma composição polifônica
que vai da pedra ao pão, passando pelo
solo, pelo trigo, pelo fungo e pela mão,
são composições poéticas (ético-
estético-políticas) de mundos possíveis
aos quais especulamos entre agências
humanas, vegetais, minerais,
climáticas, microbióticas,
sociotécnicas, virais, etc., que
constituem corpos, enxames, bandos,
cardumes, multidões, sociedades,
enfim, ecossistemas em uma dança-
jogo de conjurar territorialidades
comuns: ecossistemas narrativos
(Costa, 2022) que tramam planos de
composições, coordenadas e
imanência (Deleuze; Guattari, 2013)
entre diferentes dimensões da
produção, libido, comunicação e mais
(Guattari, 1990). Tais ecossistemas-
jogos-territorialidades narrativas
delimitam-se e são delimitados, por sua
vez, pela operação de diferentes
políticas narrativas (Costa, 2021) a
partir das quais modulam-se certas
estilísticas coletivas do viver junto e
suas paisagens existenciais
Ao modo da atmosfera ou do
incômodo som da geladeira, ao
qual não escutávamos (por
sua constância), mas que,
mesmo assim, percebemos
com imenso alívio o seu fim e,
apenas então, finalmente nos
tornamos sensíveis ao
incômodo que nos assolava.
Também nossa imersão nos
ecossistemas narrativos pelos
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Luis Artur; SILVA, Thayna Miranda da; CARDOSO, Vanessa Branco.
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Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.229-255, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
quais narramos a nós mesmes,
nossas histórias, nossos
encontros etc., podemos
perceber apenas quando
finalmente conseguimos
deslocá-los ou nos
deslocarmos neles (Costa,
2022, p.105).
Se compreendemos que tanto
um corpo quanto o universo não são
passíveis de serem compreendidos
simplesmente como substantivos
(substâncias) ou adjetivos (formas),
mas sim como um campo
acontecimental-relacional de
possibilidades de afetar e ser afetado
(Espinosa, 1973; Deleuze, 2008;
Whitehead, 1956) expresso em verbos-
advérbios infinitivos e infinitesimais,
logo concluímos que todo corpo-
universo é uma composição de
afetações atuais e virtuais, ou seja,
uma composição de algumas
territorialidades-jogos narrativos.
Assim, por sua vez, todo narrar é a
composição de possíveis corpos-
universos (Costa, 2020).
Não tomamos a narrativa aqui
como algo relacionado à
“representação” do mundo, algo
circunscrito às palavras e imagens
“sobre” as coisas do mundo, pois
concebemos os narrares como coisas-
acontecimento do mundo em si
mesmas: verbais, imagéticas,
corpóreas, afetivas, tecnológicas,
urbanas, ecossistêmicas, etc.,
tramadas entre si. As narrativas são
modulações heterogêneas que
compõem cardumes de afetos, bandos
de percepções possíveis, constituindo
corpos coletivos, múltiplos e
heterogêneos, de produções de
sentido.
Logo percebemos que aqui tanto
nós quanto nossas produções de
conhecimento somos todos narrativos,
constituindo-nos mutuamente a todo
momento: o conhecer é parte dos
modos de ser, pois estes e aqueles são,
ambos, modulações de agências. Tal
perspectiva se alia à ética cartográfica
e sua imanência vida-pesquisa, sujeito-
objeto, ser-saber, etc. Em meio a tantos
ecossistemas narrativos, se perde a
posição privilegiada do “externo”, do
“neutro”, daquele que fala “sobre” algo,
restando um inerente e imanente falar
“com” até mesmo quando se pretende
falar “sobre”, pois, neste último caso, o
que se operam são objetificações e
transparências estigmatizantes
(Glissant, 2021) “com” aqueles falados
por nós desde posições de autoritária
autoridade e, assim, são
subalternizados na relação conosco.
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MATZENAUER, Alessandra Rudiger; SZUCHMAN, Karine Shamash; COSTA,
Luis Artur; SILVA, Thayna Miranda da; CARDOSO, Vanessa Branco.
Tramando políticas do narrar: pistas ético-estéticas para pesquisas
especulativas. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em
Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.229-255, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
Deste modo, toda relação de saber é
uma relação de “saber com”, sendo
distintas, no entanto, em suas
modulações éticas que podem convidar
para uma construção coletiva de
múltiplas agências-narrares ou, por
outro lado, impor narrativas únicas e
objetificantes que anulam as agências-
narrares das posições objetificadas
desde a autoridade instituída político-
onto-epistemicamente. Tanto o sujeito
do cogito cartesiano quanto do
exercício do juízo no entendimento
kantiano aqui são, portanto, destituídos
de sua âncora epistêmica para serem
jogados à deriva em um oceânico
experimento ético-estético-político de
estilística trágica, uma vez que está
pleno de opacidades que lhe conferem
uma potência de errância intempestiva
sempre a afirmar o colapso da pretensa
consciência e intenção diante das
intensidades da opacidade (Glissant,
2021). Com a destituição de tal âncora,
se desfaz também a fantasia filiativa
das purezas, origens, categorias
absolutas, sujeitos transcendentais,
entre outras ferramentas de
subjetivação que sustentam os modos
de existência moderno-coloniais
(Grosfoguel, 2016).
Se as proposições (afirmações-
expressões), para Deleuze (1975), têm
quatro dimensões, sendo estas o
referente (delimitação indutiva de
coordenadas objetificantes que
determinam localização, existência,
qualidade), o significado (delimitação
dedutiva de uma abstração
definicional), o manifesto (transdutiva
constituição em ato de uma
perspectiva-posicionalidade) e o
sentido (transdutiva-abdutiva
efetuação-reverberação-produção de
mundo), logo percebemos que
enquanto a produção dos planos de
coordenadas das ciências moderno-
coloniais (Deleuze; Guattari, 1992), em
sua busca por objetificação,
dominação, previsão, controle,
priorizam as duas primeiras dimensões
da proposição e seu caráter referente-
representacional (indutivo-dedutivo)
que busca substantivar-simplificar-
simetrizar o mundo, pacificar
controvérsias em filiações comuns,
homogeneizar-estabelecer objetos, as
duas últimas dimensões da proposição,
por sua vez, são aquelas operações
transdutivas (Simondon, 2003) e
abdutivas (Pierce, 1974) mais caras à
nossa política narrativa especulativa e
sua ético-estética ficcional (Costa,
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Luis Artur; SILVA, Thayna Miranda da; CARDOSO, Vanessa Branco.
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Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.229-255, set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
2021). Uma ética focada não na
interpretação, mas sim na composição,
não na representação, mas sim na
transformação, o na simplificação-
homogeneização indutivo-dedutiva,
mas sim na plural multiplicação-
complexificação transdutivo-abdutiva
(Costa, 2014). Deste modo, ainda que
todo gesto-acontecimento-mundo seja
narrativo, constituinte e constituído
de/por políticas e ecossistemas
narrativos, aqui estamos afirmando um
gesto narrativo que se exercita ético-
estético-politicamente na busca de um
cultivo singular de um narrar
especulativo-ficcional pelo qual
buscamos acontecimentalizar
(Foucault, 1990) o campo dos narrares
possíveis, com o objetivo de
transformar nosso mundo para além do
que é imaginável no regime de
sensibilidade-pensabilidade moderno-
colonial. Desta forma, desde e através
da escrita, que vamos tecendo junto às
questões tramadas e destramadas com
as políticas do narrar, nos propomos
aqui a entrar neste jogo-gesto de se
enlaçar na produção de uma ético-
estético-política especulativo-ficcional
do narrar.
Os avessos da escrita: tecer
coletivos enlaçando afetações-
experiências encontro COM pessoas
cegas
Qual é o avesso da escrita?
Enquanto escrevemos, traçamos
também as linhas do avesso daquilo
que vamos costurando. Como em um
início de bordado, quem escreve não
sabe, ainda, o que ao final vai formar
naquele conjunto de palavras tramadas
nas linhas do texto. Enquanto isso,
enquanto se escreve, a vida está lá,
sendo tecida sem pausas, como o
palpitar do coração que não cessa de
bater consonante e dissonante do
piscar da barra ao final da última
palavra digitada. Mas o que é possível
se ver de uma escrita? Quantas mais
são as linhas que seu avesso esconde
e revela na trama da sua composição?
O avesso não seria propriamente o
“oculto”, o “outro” lado, mas sim aquilo
que se faz presente na opacidade da
palavra (Glissant, 2021). A agulha que
fura o tecido segue atrás do rastro de
seu fio por vir. Conectado de um buraco
ao outro, o fio forma uma constelação
de traços, deixando a marca sobre a
superfície daquilo que jamais foi um
ponto: um buraco não é uma ausência,
mas tampouco a presença de um
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Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.229-255, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
ponto, o furo é a fuga, uma relação de
ruptura e mudança que marca um novo
campo de possibilidades para o tramar.
Se de grão em grão a galinha enche o
papo, de ponto em ponto a linha traça o
bordado. Transpassar, transgredir uma
superfície é ao mesmo tempo torná-la
mais porosa-complexa e nos
articularmos mais densamente com a
mesma, ampliando nosso campo de
relações possíveis. (Des)fazimento
bem ao modo dos processos de
(des)territorialização acionados pelas
contranarrativas (Hartman, 2021; 2022)
que tramam fugas nas formas dadas.
Apesar de alguns bordados se
pautarem pelas linhas duras ao
orientarem um caminho programado,
aquele que prevê uma forma que se
sabe ao início, tantas outras formas
de bordar possíveis. quem zigue-
zague-zeie sem se preocupar com a
ordem, quem se utilize de
bastidores, gráficos, amostras. Nos
bordados tradicionais, o avesso segue
à risca a linha tracejada, reduzindo ao
máximo os rastros de seus rodeios. Ao
final de um trabalho, o que o olho vê, o
que a mão toca? Se afirma a pretensa
transparência transcendente das
ciências, nega que a figura formada nas
linhas duras é o resultado de uma
complexa trama que ficou no avesso,
uma opacidade inerente e imanente a
uma transparência sempre relativa
(Glissant, 2021) na qual a constelação
de furos e tramares são relações
presentes que desfazem a fantasia do
puramente transparente: sempre tem
algo mais, um transbordar, um
excedente, que passa pelo furo-fuga e
retorna outro na forma-figura.
Na lógica das escritas-pesquisas
hegemônicas da modernidade-
colonialidade de uma academia que se
quer limpa, previsível, calculável,
branca, uma fantasia do narrar como
representação e não como tecitura de
mundo. Para estas autoridades
epistêmicas transcendentais, entra no
clube do bordado somente quem
sabe todas as condições de
possibilidade adequadas ao bordar, e
de preferência, que se utilize das
mesmas técnicas protocolarmente
replicáveis. Como se deixassem de ser
linhas, superfícies, mãos e furos por se
pautarem em tais políticas narrativas.
A relação aqui proposta entre
costura e escrita, bordado e pesquisa,
busca evidenciar não apenas seu
aspecto de tecitura enquanto arte
plástica, mas, também, enquanto
constituinte de dispositivos voltados
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Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.229-255, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
para a formação e modulação de
coletivos. Assim, o narrar aqui
evidencia uma vez mais seu
ultrapassamento de uma dimensão
representacional-simbólica e seu
caráter expressivo plástico, para
evidenciar suas ltiplas dimensões do
artesanar que envolvem atores não
humanos e humanos, vivos e não-
vivos, na composição de distintas
modulações de coletivos, os quais, na
singularização da linguagem do bordar,
podem também tensionar
singularizações em seus modos de
viverem juntos.
Nos grupos nos quais o bordado
se intersecciona com saúde mental,
arte e/ou educação, por exemplo, as
bordadeiras costumam dar grande
importância aos avessos. Experiências
como as da oficina de bordado da
GerAção POA, serviço da RAPS de
Porto Alegre com foco em geração de
trabalho e renda (Cardozo, 2022), da
Oficina de Criatividade do Hospital
Psiquiátrico São Pedro do mesmo
município (Cappra, 2014; Gryschek,
Neubarth, 2020), do coletivo Bordazul,
que desenvolve práticas de cuidado em
saúde a partir do bordado em Maceió,
Alagoas (Pereira, 2019), e do projeto de
arte e educação Mãos que Falam e
Bordam, no qual um grupo de pessoas
surdas aprendem a artesania do
bordado enquanto discutem sobre a
cultura afro-brasileira em Canavieiras -
Bahia (Pereira, 2024), contam sobre
fazer rede a partir de gestos coletivos e
de composição, buscando
complexificar e singularizar as tramas
narrativas em um jogo de cooperação
democratizante. Em todas essas rodas
bordadeiras, mais vale a trama de
relações que tece o avesso do que a
arte final de autoria pretensamente
individual. As suas participantes fazem
questão de anunciar com quem
aprenderam cada ponto e cada gesto,
dando o tom inerentemente coletivo
daquela arte e marcando os rastros
deixados pelos fios, os quais são
também aquele bordado, a despeito de
qualquer arremate.
As arpilleras, técnica de costura
popular criada por bordadeiras na Isla
Negra, litoral do Chile, também tornam-
se inspiração para a aposta
metodológica deste trabalho na ética
ficcional-cartográfica, apontando um
caminho possível para uma política do
narrar que busca não a ideia de uma
representação idealizada (referentes e
significados transparentes), mas sim
um trabalho composto por criações
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MATZENAUER, Alessandra Rudiger; SZUCHMAN, Karine Shamash; COSTA,
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
entre rasgos e resistências
(transdutivo-abdutivos). Inicialmente
usadas por mulheres como forma de
subsistência, as arpilleras se tornaram
uma verdadeira arma ético-estético-
política contra as violências da ditadura
Pinochet. De técnica têxtil à ferramenta
política, as mulheres passaram a
denunciar, através do bordado com
retalhos de panos, os abusos do
governo e os nomes dos desaparecidos
políticos em uma fuga contra-narrativa
diante da tentativa do regime de
representar a si mesmo como total
transparência (Glissant, 2021).
Dobrando fronteiras e lutas, a técnica
foi aprendida pela cantora e folclorista
Violeta Parra e, no Brasil, as arpilleras
inspiraram um coletivo de mulheres do
Movimento dos Atingidos pelas
Barragens, tornando-se ferramenta de
educação popular para acolhimento e
organização de lutas socioambientais
(Nicolav, 2023).
Ainda que não haja várias
pessoas sentadas em roda bordando
juntas, a narrativa bordadeira segue
sendo coletiva, como no caso de Arthur
Bispo do Rosário, homem negro, pobre,
nordestino e manicolonizado, que
passou pelo menos sete anos isolado
na Colônia Juliano Moreira no Rio de
Janeiro. Suas companhias foram
fragmentos de tecido, agulhas e linhas
azuis desfiadas dos uniformes dos
internos, material com que Bispo
bordava as palavras que precisava
em uma de suas obras, ele escreve “eu
preciso destas palavras escrita”
(Nascimento, Lima Neto, Nóbrega,
2022). Como dizer que o avesso do que
a arte, os gestos e o corpo de Bispo do
Rosario narram não está tramado nas
relações com tantos outros sujeitos
negros e pobres que foram e seguem
sendo alvo das violências
manicoloniais (Gomes, 2019; David,
2022; 2024)? Como dizer que o que
narram está tramado somente a essas
relações e não a tudo aquilo que
complexifica o que trama Bispo à
amplitude relacional da existência?
Bispo contranarrou as uniformidades
manicoloniais e seus estigmas que lhe
fincaram no confinamento ao desfazer
as antigas roupas dos internos em
mantos sagrados com os quais fez um
inventário do mundo, fazendo furos-
fugas nos aprisionamentos que lhe
narravam manicolonialmente mesmo
sem poder sair além dos muros da
instituição asilar. Se lhe narravam pelas
tecnologias disciplinares (Foucault,
2008), pelas práticas de prender em
239
MATZENAUER, Alessandra Rudiger; SZUCHMAN, Karine Shamash; COSTA,
Luis Artur; SILVA, Thayna Miranda da; CARDOSO, Vanessa Branco.
Tramando políticas do narrar: pistas ético-estéticas para pesquisas
especulativas. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em
Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.229-255, set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
porões de tumbeiros (Ferdinand, 2022),
pelas necropolíticas de ampla negação
da vida (Mbembe, 2017), ele, por sua
vez, re-existia tensionando o possível
pela especulação com agulha e linha,
transpassando DSMs, CIDs, estigmas
e amesmo muros, se pensarmos na
vida a reverberar em suas obras que
seguem a lhe narrar para além da
instituição manicolonial.
Gesto de narrar tão pessoal
quanto político, tão íntimo quanto
coletivo, tal como as obras cerzidas
pela artista Rosana Paulino (2009) em
seu gesto de costurar memórias
contranarrativas diante da neurose
cultural brasileira (Gonzales, 1984) e
sua dupla face de misoginia e racismo.
Em “Parede da memória”, criado em
1994, fotos de familiares se tornam
patuás delicadamente emoldurados por
uma costura, formando uma
constelação de referências que
auxiliam a guiar os rumos pelos quais
Rosana Paulino narra a si mesma. Em
“Bastidores”, obra de 1997, fotos de
mulheres negras em uma composição
que recorda as fotos elaboradas como
provas ou testemunhos. Costuras
rasuram bocas e olhos, em uma ação
que nos remete ao ato de calar,
invisibilizar, violências outras também
muito vividas por estas mulheres. As
obras presentificam mulheres vitimadas
pelas violências de gênero e raça tão
presentes em nosso país. A agulha e a
linha perdem o caráter delicado
usualmente presente na prática do
bordado, adquirindo uma pesada
densidade. O bastidor redondo que
sustenta as fotos impressas em tecidos
pode ser uma referência ao objeto
utilizado para o bordado que permite
acompanhar os dois lados do tecido. O
avesso e a superfície sobre a qual se
borda a figura desejada. Trazendo um
objeto e prática em geral associados ao
“feminino” para fazer ver a violência
que perpassa esses cotidianos: o
avesso de uma figuração “na estética
tradicional do bordado, o verso
‘denuncia’ a boa bordadeira, pois deve
ser o bem acabado quanto o lado da
frente do bordado” (Alves; Silveira,
2018, p.159). O bordado em seu
avesso também é o espaço coletivo de
encontro entre mulheres bordadeiras e
pode, assim, operar como território de
compartilhamento e deslocamento
narrativo diante das políticas narrativas
patriarcais e seus ecossistemas
opressivos de gênero. Nas palavras da
própria artista:
240
MATZENAUER, Alessandra Rudiger; SZUCHMAN, Karine Shamash; COSTA,
Luis Artur; SILVA, Thayna Miranda da; CARDOSO, Vanessa Branco.
Tramando políticas do narrar: pistas ético-estéticas para pesquisas
especulativas. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em
Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.229-255, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
Dentro desse pensar, faz parte
do meu fazer artístico
apropriar-me de objetos do
cotidiano ou elementos pouco
valorizados para produzir meus
trabalhos. Objetos banais, sem
importância. Utilizar-me de
objetos do domínio quase
exclusivo das mulheres.
Utilizar-me de tecidos e linhas.
Linhas que modificam o
sentido, costurando novos
significados, transformando um
objeto banal, ridículo,
alterando-o, tornando-o um
elemento de violência, de
repressão. O fio que torce,
puxa, modifica o formato do
rosto, produzindo bocas que
não gritam, dando nós na
garganta. Olhos costurados,
fechados para o mundo e,
principalmente, para sua
condição no mundo (Paulino,
2009).
O fio que tece suas obras traz
narrativas vivas que emaranham os fios
do pessoal e do político de modo nítido
e preciso. Os relatos compartilhados
em uma família (Paredes da Memória)
fazem um exercício de memória para
além de uma nação, mas também as
narrativas que transpassam as vidas
íntimas das mulheres negras em
nossos territórios se fazem ato político
coletivo (Bastidores). Assim como um
delicado trabalho de conjugação de
imagens diversas evidencia, denuncia
e subverte certas políticas narrativas
racistas-misóginas hegemônicas em
nossos ecossistemas narrativos: ao
constituir as obras A Permanência da
Estrutura (2017), O progresso das
nações (2017), O Amor pela Ciência
(2018), Atlântico Vermelho (2017),
Musa Paradisíaca (2018-2022),
Paraíso Tropical (2020), (de)enuncia
com nitidez e contundência o complexo
e heterogêneo emaranhamento de
narrares, para além das pretensas
divisões do espaço-tempo, que
produzem os duros arranjos das
políticas narrativas que seguem
reiterando os estigmas das imagens de
controle (Bueno, 2020), entrelaçando
ciência, polícia, mercado e muito mais
desde uma perspectiva moderno-
colonial.
Deste modo, Rosana Paulino,
assim como Arthur Bispo do Rosário,
destece as uniformidades tramadas em
nossas memórias e sensibilidades-
pensabilidades das políticas narrativas
e seus ecossistemas simbólico-
libidinais moderno-coloniais para,
então, tecer outros narrares possíveis
em uma ética da especulação que visa
estranhar a norma e ultrapassar os
limites do imaginável. Tal
tensionamento de nossas
possibilidades de imaginar opera para
romper com as formas que fixam
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MATZENAUER, Alessandra Rudiger; SZUCHMAN, Karine Shamash; COSTA,
Luis Artur; SILVA, Thayna Miranda da; CARDOSO, Vanessa Branco.
Tramando políticas do narrar: pistas ético-estéticas para pesquisas
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Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.229-255, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
estigmas ao atribuírem personagens e
enredos estereotipados, simplificados,
subalternizados para boa parte da
população em prol da manutenção de
uma política narrativa única que
estabelece um centro e delimita pela
negação narcísico-paranoide de si tudo
que está jogado para suas margens.
Do mesmo modo que tais
tessituras contranarrativas (Hartman,
2021; 2022) compõem coletivos que
escapam às dinâmicas normalizantes
da modernidade-colonialidade e
manicolonialidade, por outro lado,
muitas vezes o plano da artesanagem
narrativa toma como obra principal a
produção de um coletivo
contranarrativo que possa, por sua vez,
elaborar outras tecituras expressivas
para além daquelas instituídas nos
cânones das narrativas filiativas
(Glissant, 2021) únicas (Adichie, 2019).
O Quilombismo, enquanto arte da
composição de coletivos, foi
evidenciado nas obras de Abdias do
Nascimento (2002) e Beatriz
Nascimento (2022). Se recordarmos
que aqui, como na oralitura de Leda
Maria Martins (2021), os narrares não
estão circunscritos aos verbos e
imagens, mas são também feitos de
matéria, afetos, corpos, relevo, clima e
muito mais, se torna nítida a ação de
elaboração de um arranjo afetivo-
político que delimita a modulação de
territorialização de um coletivo que
passou a se denominar de
quilombismo. Pensado a partir das
experimentações políticas de
resistência à colonização e
escravização dos quilombos, a soma
do sufixo ismo evidencia que estamos
indo além destas importantes marcas
na história amefricana: aqui se trata da
constituição de uma linha de variação
pela qual delimitamos uma modulação
política singular dos processos de
territorialização de coletivos em contra-
narrativa aos modos hegemônicos de
arranjar agrupamentos sociais em
nosso mundo moderno-colonial.
O processo de construção de
coletivos afrocentrados baseados em
práticas políticas complexas de
acolhimento, apoio mútuo, invenção
social e criação artística, possibilitou a
emergência em nosso território dos
terreiros, das escolas de samba, dos
congados e muitas outras composições
artístico-políticas de coletivos, como
reterritorializações das territorialidades
africanas em conversa com as novas
territorialidades encontradas na
Améfrica (Nascimento, 2002; Sodré,
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MATZENAUER, Alessandra Rudiger; SZUCHMAN, Karine Shamash; COSTA,
Luis Artur; SILVA, Thayna Miranda da; CARDOSO, Vanessa Branco.
Tramando políticas do narrar: pistas ético-estéticas para pesquisas
especulativas. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em
Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.229-255, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
2019; Martins, 2021). Arte, política,
religiosidade e produção de
conhecimento se mostram aqui
imanentes e inerentes a tais políticas
narrativas do quilombismo em sua
clínico-micropolítica afetiva da
produção de coletivos. Da obra
(bordado) ao coletivo ou do coletivo
como obra, vemos distintas variações
que se atravessam na busca por
afirmar políticas narrativas que
descolonizem nossos ecossistemas
(Ferdinand, 2022) em uma implicação
profunda (Ferreira da Silva, 2019) que
transversaliza as ditas “disciplinas” ou
“meios expressivos” do ocidente em um
emaranhado complexo de narrares
múltiplos que envolvem verbos,
números, corpos, objetos técnicos,
entidades, solo, rios, montanhas,
plantas, insetos, fungos, gestos,
danças, adornos e muito mais. O
avesso do narrar-bordar, assim, faz-se
avesso de mundo que nos permite
romper as narrativas metafísicas
ocidentais com suas pretensas
separabilidades, sequenciabilidades e
determinabilidades (Ferreira da Silva,
2019) que querem segmentar
categorias, tipos e hierarquias,
desfazendo-as em um rizoma-narrativo
como paradoxal imagem narrativa de
um pensamento sem imagem fixa
(Deleuze, 1988), a formar diferentes
ecossistemas em seus jogos
composicionais de afetações virtuais e
atuais.
O exercício ético especulativo-
ficcional de transgredir as linhas-tramas
instituídas, ampliando virtualidades
para além do possível, aliás, se torna
aqui ponto de confluência entre os
(des)fiares de Bispo, Rosana Paulino e
demais coletivos de bordadeiras
citados, assim como, também, opera o
encontro entre a figuração (Haraway,
2013), a fabulação crítica (Hartman,
2021; 2022), a Poética Negra Feminista
(Ferreira da Silva, 2019), a ética
ficcional (Coletivo Políticas do Narrar,
2022), a leitura reparadora anti-
paranóide (Sedgwick, 2020), a ética da
experimentação do CsO (Deleuze;
Guattari, 1996), entre outras milhares
de práticas que também tomam o
mundo como narrativa a ser ampliada
em suas possibilidades para além do
que é tomado como dado ao ser
naturalizado em nossos modos de
existir. Esta trama-rizoma de tantos
pontos que transpassam linhas
múltiplas, capazes de criar uma
quantidade infinita de ecossistemas
narrativos em constante devir, nos
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MATZENAUER, Alessandra Rudiger; SZUCHMAN, Karine Shamash; COSTA,
Luis Artur; SILVA, Thayna Miranda da; CARDOSO, Vanessa Branco.
Tramando políticas do narrar: pistas ético-estéticas para pesquisas
especulativas. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em
Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.229-255, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
possibilita imaginar possíveis pistas
para um exercício ético-especulativo na
produção e relação com políticas
narrativas nas pesquisas acadêmicas,
abrindo caminhos para outras tramas
em composição. A ética ficcional do “e
se”, “se, então”, “talvez”,
“possivelmente”, do “absurdo”, do
“delírio” (Costa, 2014), não apenas
como modo de erigir perspectivas
frágeis que cultivam suas opacidades
(Glissant, 2021), mas também como
território de experimentação e
tensionamento dos limites do possível.
Como podemos, diante de tal proposta,
constituir pistas éticas, estéticas,
epistêmicas e políticas para nos auxiliar
na composição dos referidos
trabalhos? Evidentemente, não se trata
de planificar um manual, em um plano
de coordenadas preciso, pelo qual
poderíamos assumir posições e
práticas seguras na composição dos
narrares. São apenas exercícios éticos
que fomentam uma prática crítica sobre
nossa própria produção, disparadores
de problematização, questões que
jamais podemos cessar de nos fazer.
Pistas para um exercício ético-
especulativo do narrar nas
pesquisas acadêmicas
Grande parte da comunidade
acadêmica ainda crê que quem realiza
pesquisas deve assumir uma posição
de neutralidade perante sua
investigação, para que assim ela seja
objetiva e, portanto, confiável, digna de
crédito. Mas o que seria a pressuposta
neutralidade desde uma perspectiva do
gesto narrativo? Seria a pretensão de
construção de uma centralidade
murada que paradoxalmente apaga a
visibilidade de quem narra ao mesmo
tempo que o torna narcisicamente
onipresente em tudo que é por ele
narrado. Uma posição um tanto
prejudicial às epistemologias e
metodologias científicas, uma vez que
estas ficam reduzidas a um olhar
supostamente universal por meio de
uma negação de sua localização e
parcialidade. Essa aparente
contradição ser universal e reduzido
pode ser compreendida à medida em
que agregamos um olhar crítico para o
que, durante tanto tempo tempo
demais foi lido como universal sem
qualquer problematização. O
apagamento universalizante desta
posicionalidade narrativa, negando sua
provincianidade imanente para
pressupor uma pretensa centralidade
onipresente (Glissant, 2021),
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MATZENAUER, Alessandra Rudiger; SZUCHMAN, Karine Shamash; COSTA,
Luis Artur; SILVA, Thayna Miranda da; CARDOSO, Vanessa Branco.
Tramando políticas do narrar: pistas ético-estéticas para pesquisas
especulativas. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em
Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.229-255, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
naturalizou as linhas e relevos deste
lugar singular como se fossem normas
universais prescritas pela natureza:
antropocentrismo, eurocentralidade,
burguesia, branquitude, patriarcado,
corponormatividade,
cisheteronormatividade se fizeram
condições de possibilidade
transcendentalizadas para a
construção de qualquer personagem e
enredo em nossas vidas.
A academia, enquanto lugar
socialmente reconhecido como centro
da produção de conhecimento, é
veementemente atravessada pelos
pilares da modernidade-colonialidade
(Restrepo; Rojas, 2010), a saber:
branco, masculino, cishétero e
burguês. Essas são as marcas daquilo
que foi cunhado de universal
justamente pelas pessoas que habitam
tais lugares. Ou seja, aqueles que
estavam “fazendo a ciência” eram os
que habitavam a norma, e portanto,
acreditavam que não precisavam
nomear a si próprios. Como bem
aponta Jota Mombaça (2017), não ser
nomeada nem questionada é o
privilégio da norma. Ver-se como
espelho do mundo é sua característica,
de forma que seu universo torna-se o
universal. Deste modo, a
universalização da ciência moderno-
colonial é uma política narrativa que
apaga não apenas as existências e
saberes não-eurocentrados (pelo
genocídio, epistemicídio e alterocídio
necropolíticos), como, também, busca
naturalizar seu modo de narrar como
único legítimo, apagando suas próprias
posicionalidades, interesses, vieses e
tudo mais que lhe outorga
singularidade ao tomar sua
posicionalidade-perspectiva como
ponto de referência normatizador para
qualquer juízo, que passa a ser
compreendido como transcendente
(Platão, 2017; Descartes, 1999) ou
transcendental (Kant, 1984) em sua
universalização de um modo de
compreensão como sendo “o”
entendimento. Tal apagamento-
universalização nos impede, por
exemplo, de colocarmos com nitidez a
complexa realidade do pesquisar em
suas múltiplas limitações e
parcialidades, algo fundamental para
incrementar nossa capacidade de
análise da realidade e do conhecimento
produzido: poder percorrer as tramas
narrativas das posicionalidades desde
as quais enunciamos práticas-mundo
nos permite complexificar nossas
relações com tal mundo e com nossas
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MATZENAUER, Alessandra Rudiger; SZUCHMAN, Karine Shamash; COSTA,
Luis Artur; SILVA, Thayna Miranda da; CARDOSO, Vanessa Branco.
Tramando políticas do narrar: pistas ético-estéticas para pesquisas
especulativas. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em
Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.229-255, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
práticas. Tais “limitações” de delimitar
com alguma nitidez as posicionalidades
afirmadas nos narrares, nos permitem,
de fato, ampliar a complexidade de
nossas análises sobre a realidade e
seu campo de possibilidades
relacionais-narrativos. Assim, talvez
contra-intuitivamente, fazer ver tais
assunções dos processos incluídos em
nossa produção de conhecimento-
mundo irá incrementar a objetividade
deste processo ao fazer ver sua
complexa parcialidade.
Contra essa lógica moderna
colonial da universalização
pretensamente neutra, portanto,
buscamos localizar os saberes, como
pontua Haraway (1995), nomeando o
lugar desde onde estamos situadas.
Uma vez que afirmamos não haver
neutralidade possível em nosso fazer
acadêmico, assumimos um
posicionamento ético em nossas
pesquisas e nos comprometemos a
marcar o lugar desde o qual nos
situamos. Com Haraway, acreditamos
ser com essa visão parcial - e não
universal - que é possível alcançarmos
uma visão objetiva do que pretendemos
transmitir: a única objetividade possível
não é a universalidade, mas sim a nítida
e complexa localização das limitações
inerentes a qualquer produção. A ideia
de que "uma ótica é uma política de
posicionamentos" (Haraway, 1995,
p.27) deflagra que a maneira como
compreendemos determinado
fenômeno não pode ser apartada da
epistemologia (que sempre carrega
uma ética e uma política) com a qual
pactuamos, mesmo que de maneira
indireta. O que significa que o lugar de
onde vemos (somos afetadas e
afetamos o mundo), junto da forma pela
qual escolhemos nomear tais
afetações, diz sobre uma determinada
compreensão de produção de
conhecimento. Assim, assumir um
olhar parcial em nossas pesquisas é
poder localizar desde onde vemos,
reconhecendo não haver como fazer
em nome de todos. A ciência
pretensamente neutra e universal
precisou excluir uma imensa gama de
sujeitos para fazer caber sua verdade
para aqueles que se entendem
enquanto a norma (Grosfoguel, 2016).
Tal posicionamento ético
converge com o que propõe o
paradigma da inflexão decolonial, uma
vez que ali se busca questionar os
critérios epistêmicos de produção de
conhecimento acadêmico,
reconhecendo que estes estão
246
MATZENAUER, Alessandra Rudiger; SZUCHMAN, Karine Shamash; COSTA,
Luis Artur; SILVA, Thayna Miranda da; CARDOSO, Vanessa Branco.
Tramando políticas do narrar: pistas ético-estéticas para pesquisas
especulativas. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em
Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.229-255, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
embasados no eurocentrismo e na
modernidade. Fazendo coro a Haraway
(1995) e Mombaça (2017), a crítica
consiste em reconhecer "que todo
conhecimento é um conhecimento
situado histórica, corporal e
geopoliticamente" (Restrepo; Rojas,
2010, p. 189). Deste modo, temos aqui
nossa primeira pista para um exercício
ético-especulativo do narrar-mundo:
tramar posicionalidades evidenciando
as territorialidades desde as quais
enunciamos nossos narrares-
existências.
Tal pista inicial (posicionar-se)
nos leva logo à segunda: evitar que tal
posicionalidade assuma a geometria
das centralidades ou a homogeneidade
das purezas (Mbembe, 2017) filiativas
(Glissant, 2021) que pretendem
inaugurar linhagens em hierarquias
com privilégios baseados em posições
de conforto e segurança. Evitar a
produção de novas centralidades, mas
sim assumir a provincianidade
periférica de toda e qualquer produção
existencial (Glissant, 2021). Evitar as
narrativas filiativas (Glissant, 2021) que
buscam produzir pontos zero de
origens ou homogeneizar processos
em busca de purezas, estabelecendo
linhagens consideradas superiores
diante das demais dinâmicas narcísico-
ressentidas de exclusão (Glissant,
2021; Mbembe, 2017). Deste modo,
tais posicionalidades são sempre
porosas, rizomáticas e em devir,
assumindo um caráter extensivo
(Glissant, 2021) de (des)fazimento
(in)constante em ontologias fronteiriças
(Anzaldúa, 1987; Cusicanqui, 2021),
complexas e errantes, sem por isso
perderem sua consistência própria de
agenciamento coletivo e heterogêneo
de enunciações.
Delimitado tal exercício de
posicionalidade desde uma ética
ficcional-especulativa, podemos passar
para a terceira pista: a produção de
(rel)ação deste narrar busca
constantemente complexificar e
singularizar sua trama-mundo.
Incrementar a complexidade e
singularidade de nossas relações com
o mundo é um modo de ampliar a
realidade do mesmo (tal como vimos
antes com a questão da
posicionalidade), deste modo,
especular outras possibilidades
relacionais é um modo de vascularizar
possíveis e tornar mais reais nossos
narrares (Saer, 2004). A ciência
moderno-colonial, em contraposição,
busca homogeneização, previsão-
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MATZENAUER, Alessandra Rudiger; SZUCHMAN, Karine Shamash; COSTA,
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
controle e objetificação. Seus
resultados buscam verdades
universais, absolutas, incontestáveis.
Esses discursos buscam ser
instrumentos de dominação, previsão e
controle. Ignoram a diferença, a
experimentação e os campos de
afetação que continuam a se produzir
após a tentativa de capturar fenômenos
em narrativas frias e rígidas que se
sobrecodificam e reterritorializam em
fronteiras amedrontadas (Costa, 2020).
Uma ciência que deseja controlar e
objetificar violentamente,
transformando-o em um objeto
manipulável, simplificado,
esquemático, passível de ser
desmontado e remontado segundo
nossa vontade de domínio (Mbembe,
2017).
Queremos nos mobilizar com a
escrita. Estamos interessadas em falar
sobre os seus rastros, suas
descontinuidades, os fragmentos que
os fazem singulares. Queremos
contagiar a nossa escrita com a nossa
dúvida, com as nossas indagações sem
nome. Queremos escrever sobre a
trama infindável de possibilidades de
um acontecimento (Costa, 2014). A
ficção chega até nós para nos ajudar a
expressar essas camadas de
realidades possíveis em uma
antropologia especulativa (Saer, 2004)
que nos permite imaginar outros
mundos nos quais o modo colonial de
contar histórias não seja a única via,
onde as lógicas da modernidade e do
capitalismo podem ser levadas ao
absurdo, onde podemos denunciar os
distanciamentos que não se sustentam,
binários e excludentes de determinadas
narrativas. Podemos ultrapassar esse
ecossistema discursivo operando uma
contranarrativa, desnaturalizando a
forma como são produzidas verdades
sobre o nosso mundo.
Bastaria, então, invertermos os
atores de um modelo de narrativa
heroica para construir uma
contranarrativa? Bastaria, talvez, a
ênfase em histórias de
excepcionalidade para contranarrar o
que se marca sobre um grupo não
normativo e universal? O que temos
discutido aqui nos garante que não é
suficiente uma inversão entre quem
ocupa o lugar de herói ou vítima,
tampouco o apego a histórias de
exceção que muito pouco se articulam
à experiência do coletivo. Para que
uma ética ficcional-especulativa nos
afete em um lugar de inteligibilização-
sensibilização contrário aos
248
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Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.229-255, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
ecossistemas narrativos normativos, é
preciso que ela tenha vascularização
com a realidade. A proposta é exercitar
movimentos que densifiquem
existências costumeiramente fixadas
ou nessa figura normativa-universal ou
no lugar do não-ser que fundamenta a
construção do ser (Carneiro, 2005).
Para Chinua Achebe (2021), uma
ficção benéfica se reconhece como tal;
uma ficção maléfica nunca chega a
saber que é ficção. Enquanto os
métodos científicos dessa comunidade
acadêmica que aposta em uma
pretensa neutralidade na produção de
conhecimento não são percebidos
como uma construção ficcional, a ética
ficcional-especulativa espaço para
tramarmos camadas de possibilidade
de relações sem buscar esconder que
trabalha a partir da ficção e de seus
limites.
Com isso, adentramos em nossa
quarta pista: cultivar opacidades
(Glissant, 2021) e fragilidades
(Sedgwick, 2020) de modo a manter
nítido o caráter condicional e
contingente de todo narrar (Achebe,
2021). Escrevemos sobre a
complexidade, incrementando novas
tramas de afetos com que vamos
entrando em contato com o campo de
pesquisa, criando uma abertura para
novos intelectíveis e sensíveis, de
repetição e não de equivalência-
generalidade dos nossos processos de
contágio (Deleuze, 1988). Assim, na
composição destes narrares desde
uma ética especulativo-ficcional,
desejamos promover breakdowns
(Maturana; Varela, 2001), colapsos,
para demonstrar que os princípios de
qualquer narrar estão sempre abertos à
incerteza, opacidade e fragilidade como
potências de virtualização, como fontes
da abertura de possíveis.
Nossa quinta pista parte deste
cultivo da opacidade-fragilidade como
modo de sustentar aberturas para
afirmar uma direção ético-estético-
política de tensionar os limites do
possível, transgredindo-os ao máximo
por meio da experimentação de
territorialidades existenciais
inimagináveis. A metodologia
tradicional tenta afastar o corpo das
pessoas pesquisadoras da intervenção
transformadora na sua produção
científica (conhecer para, depois,
transformar), mas uma ética
especulativo-ficcional assume o desafio
de transformar para (des)conhecer. De
acordo com Fonseca e Costa (2013), a
composição de narrativas ficcionais nos
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MATZENAUER, Alessandra Rudiger; SZUCHMAN, Karine Shamash; COSTA,
Luis Artur; SILVA, Thayna Miranda da; CARDOSO, Vanessa Branco.
Tramando políticas do narrar: pistas ético-estéticas para pesquisas
especulativas. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em
Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.229-255, set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
permite largar mão do compromisso
com a delimitação de evidências fixas
para evidenciar sensibilidades,
percepções e afetos que são
mobilizados durante a pesquisa nos
coletivos envolvidos em diferentes
posições. Tensionando as fronteiras
entre a ciência, a arte e a filosofia, entre
o objetivo e o subjetivo, entre a verdade
e o falso para inventar coletivamente
mundos impossíveis. As estratégias
abdutivas (Peirce, 1974) e delirantes do
conhecer multiplicam os “e se” à
intensidade do colapso do naturalizado.
A sexta pista para um exercício
ético especulativo-ficcional do narrar-
mundos é a necessidade de escapar da
redução de nossa luta contra a
colonialidade ser enquadrada em uma
estilística do heroísmo (LeGuin, 2021).
Ursula LeGuin nos alerta para o fato de
que as dinâmicas patriarcais e da
colonialidade se embasam em uma
estilística das “histórias matadoras”
pelas quais se erigem heróis, mártires,
salvadores, os quais individualmente
atuam em um patamar de
excepcionalidade de modo a
constituírem-se como protagonistas em
um enredo em contraposição aos
antagonistas. O engajamento afetivo de
tais histórias e sua consonância às
políticas de inimizade da colonialidade
(Mbembe, 2017) e às políticas
belicosas da competição
empreendedora do capital, fazem com
que facilmente elas tomem conta de
nossos ecossistemas narrativos como
esquadro de inteligibilização-
sensibilização do mundo. Estas
políticas narrativas heroicas
estabelecem, por exemplo, mitos de
origens violentos que estabelecem
linhagens filiativas (Glissant, 2021)
excludentes marcadas por um ato
original de “martírio” ou outros
processos de libidinização de
acontecimentos violentos, tais como a
invasão dos continentes hoje
conhecidos como América e África na
sua colonização-escravização por
europeus. Em contraposição a tal
política do narrar, Ursula LeGuin nos
desafia a experimentarmos não o
narrar dos heróis-caçadores, mas sim
dos coletores-cultivadores: um narrar
que não estabelece linhagens e
linearidades, que não se baseia em
binarismos entre protagonistas e
antagonistas, mas que busca a
repetição dos ciclos coletivos que
afirmam diferenças no mundo. Em uma
política do narrar do cultivo e da coleta,
viramos todos batatas ao adentrarmos
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MATZENAUER, Alessandra Rudiger; SZUCHMAN, Karine Shamash; COSTA,
Luis Artur; SILVA, Thayna Miranda da; CARDOSO, Vanessa Branco.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
o cesto, em um processo de
horizontalização, interdependência e
cuidado como ética para nossos
processos de experimentação.
Mudar a forma como
constituímos nossas narrativas de
pesquisa passa invariavelmente por
nos ressituarmos na narrativa que
fazemos de nós mesmos. Gesto esse
que requer um olhar descolonizado,
extensivo e não filiativo, menos heroico
e universal e mais parcial. Como aliada
nesse horizonte narrativo que escapa à
lógica representacional, a ficção
contribui de forma a cultivar as
opacidades-fragilidades e marcar uma
trama singular, aberta, incerta, de
múltiplos caminhos. Com isso,
propomos um exercício narrativo ético-
especulativo que busca ampliar nossos
horizontes nas pesquisas acadêmicas,
nomeando práticas que coletivizam os
modos de ser-estar-fazer no mundo e
fazem frente às narrativas
colonizadoras e normativas.
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