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PIRES, Andréa da Silva Montechiare; GIANNERINI, Gisela; MONTECHIARE,
Renata. Memória como construção de caminhos plurais: o conhecimento
a partir da escuta e da palavra. PragMATIZES - Revista Latino-Americana
de Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.207-228, set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
de que os conhecimentos tomados
como oficiais são escolhas por
determinadas perspectivas, as quais
podem, neste processo, ocultar outras
existentes.
Isto porque, em um diálogo
aparentemente próximo à psicanálise
freudiana, Gonzalez aponta que há um
saber na consciência, mas que este
ocupa um lugar de alienação pelo fato
de ignorar outros saberes igualmente
existentes e por ela encobertos. Tal
qual a orientação freudiana
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, conteúdos
da consciência não correspondem à
totalidade da dinâmica psíquica, mas
apenas a uma parte, àquela que foi
possível vir à tona a partir de processos
psíquicos que bloqueiam outros
conteúdos através do encobrimento, do
esquecimento. Conteúdos “latentes”,
no entanto, podem vir a manifestar-se.
Já a memória para autora,
estaria a um nível menos visível,
referida a um saber que ainda tem a
potência em emergir, em restituir a
história que não foi escrita, ou mesmo
rejeitada a ser conhecida pelo próprio
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“Tudo que é consciente tem um estágio
preliminar inconsciente, ao passo que aquilo
que é inconsciente pode permanecer nesse
estágio, e, não obstante, reclamar que lhe seja
atribuído o valor pleno de um processo
psíquico. O inconsciente é a verdadeira
processo da consciência. Segundo
Gonzalez (2020, p.79), o tipo de saber
da memória não apenas porta
conhecimento, como também carrega
em si o poder de modificar uma história.
Ao trazer tais noções, Gonzalez
problematiza como, portanto, a
depender da cultura e contexto dos
Sujeitos a quem a palavra é mais ou
menos ouvida, a memória poderá ser
colocada à margem, enquanto a
consciência – no seu lugar de
racionalidade – poderá ser tomada
socialmente como discurso dominante.
Por isso, a gente vai trabalhar
com duas noções que ajudarão
a sacar o que a gente pretende
caracterizar. A gente tá falando
das noções de consciência e
memória. Como consciência a
gente entende o lugar do
desconhecimento, do
encobrimento, da alienação, do
esquecimento e até do saber. É
por aí que o discurso ideológico
se faz presente. Já a memória,
a gente considera como o não
saber que conhece, esse lugar
de inscrições que restituem
uma história que não foi escrita,
o lugar da emergência da
verdade que se estrutura como
ficção. Consciência exclui o
que memória inclui. Daí, na
medida em que é o lugar da
rejeição, a consciência se
realidade psíquica [...] e é apresentado de
forma tão incompleta pelos dados da
consciência quanto o mundo externo pelas
comunicações de nossos órgãos sensoriais”
(Freud, [1900] 2001, p.584).