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PIRES, Andréa da Silva Montechiare; GIANNERINI, Gisela; MONTECHIARE,
Renata. Memória como construção de caminhos plurais: o conhecimento
a partir da escuta e da palavra. PragMATIZES - Revista Latino-Americana
de Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.207-228, set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
Memória como construção de caminhos plurais: o conhecimento a partir da
escuta e da palavra
Andréa da Silva Montechiare Pires
1
Gisela Giannerini
2
Renata Montechiare
3
DOI: https://doi.org/10.22409/pragmatizes.v15i29.67203
Resumo: O artigo aponta para uma direção ético-teórica que se opõe ao que usualmente vem sendo
tomado como “discurso do outro”, pressuposto apoiado na ideia de um “eu” universal. Parte da
necessidade de revisitar as bases sob as quais o campo acadêmico tem produzido e eleito, com maior
ou menor aprovação, determinados saberes. Discute, a partir desta perspectiva, modos de conhecer
que ouçam a pluralidade de vozes existentes e reconheçam o caráter múltiplo das histórias. Por meio
de abordagens sobre memória e seus debates, propõe um diálogo entre episódios e histórias,
representações e narrativas que disputam quais vozes ecoam registros coletivos. O discurso
hegemônico passa a ser, então, confrontado quando mais narrativas são consideradas e reconhecidas
enquanto saberes. O trabalho sugere consideração sobre a produção de conhecimento que reposiciona
os sujeitos, usualmente tomados como objetos de pesquisa, como voz ativa.
Palavras-chave: memória; patrimônio cultural e histórico; história oral; narrativas; sujeitos; histórias
plurais.
Memory as the construction of plural paths: listening as a common reference point and
knowledge through words
Abstract: The article explores an ethical-theoretical perspective that challenges the dominant notion of
the discourse of the other,” which assumes a universal “I.” It calls for a reassessment of the foundations
on which academic knowledge is produced and legitimized. From this perspective, it highlights the
1
Doutoranda no Programa de Pós-graduação em Psicologia da Universidade Federal Fluminense
(UFF). Mestre em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio
de Janeiro (UERJ). Psicóloga atuante no campo da saúde mental pública, pelo município de Niterói e
pela UFF. E-mail: andreasmp@id.uff.br. ORCID: https://orcid.org/0009-0009-8805-9683.
2
Mestre em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de
Janeiro (UERJ). Integrou o Projeto de História Oral e o Programa de Memória e Formação do Inst.
Municipal Nise da Silveira/RJ. Servidora da Fundação Municipal de Saúde de Niterói. E-mail:
gisela.giannerini@gmail.com. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-6040-6078.
3
Doutora em Antropologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Pesquisadora da
Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais - Flacso Brasil, E-mail: rmontechiare@gmail.com.
ORCID: https://orcid.org/0000-0003-2466-5843.
Recebido em 31/03/2025, aceito para publicação em 06/10/2025.
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PIRES, Andréa da Silva Montechiare; GIANNERINI, Gisela; MONTECHIARE,
Renata. Memória como construção de caminhos plurais: o conhecimento
a partir da escuta e da palavra. PragMATIZES - Revista Latino-Americana
de Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.207-228, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
importance of engaging with multiple voices and histories. By addressing memory and its debates, the
article examines how narratives, representations, and accounts compete to define which voices shape
collective records. It argues that hegemonic discourse is challenged when diverse narratives are
considered. Finally, it advocates for a knowledge production process that repositions research people -
traditionally treated as objects of research - as active voices.
Keywords: memory; cultural and historic heritage; oral history; narratives; subjects; plural stories.
Memoria como construcción de caminos plurales: la escucha como marco común y el
conocimiento desde la palabra
Resumen: El artículo apunta a una dirección ético-teórica que se opone a lo que habitualmente se ha
entendido como “discurso del otro”, y que tenía como presupuesto fundacional un “yo” universal. Parte
de la necesidad de revisar las bases sobre las cuales el campo académico ha producido y elegido, con
más o menos aprobación, ciertos conocimientos. Desde esta perspectiva, se discuten formas de saber
que escuchan la pluralidad de voces existentes y reconocen múltiples historias. A través de
aproximaciones a la memoria y sus debates, propone un diálogo entre episodios e historias,
representaciones y narrativas que disputan qué voces hacen eco de registros colectivos. Luego se
confronta el discurso hegemónico cuando se consideran más narrativas. El trabajo sugiere considerar
la producción de conocimientos que reposiciona a los sujetos, objetos de investigación, como una voz
activa.
Palabras clave: memoria; patrimonio cultural e histórico; historia oral; narrativas; sujetos; historias
plurales.
Memória como construção de caminhos plurais: o conhecimento a partir da
escuta e da palavra
De qual Sujeito se trata?
Em diálogo entre saberes,
tomamos as diferentes contribuições do
campo das ciências sociais, da
antropologia, da história, da psicanálise
e da psicologia social para discutir a
categoria “memória” e a perspectiva
das “narrativas” enquanto
possibilidades epistêmico-
metodológicas que ofereçam suporte a
pesquisas e projetos, em vistas de uma
direção decolonial.
Partimos de uma posição de que
é preciso revisitar criticamente sob
quais bases o campo acadêmico tem
majoritariamente construído, ao longo
do tempo, o seu acervo de produções e
elegido com maior ou menor aprovação
determinados saberes na produção de
conhecimento.
Sob o olhar foucaultiano com o
conceito de “dispositivo” (Foucault,
1979, apud Carneiro, 2023, p. 27) “um
conjunto decididamente heterogêneo
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
que engloba discursos, instituições,
organizações arquitetônicas, decisões
regulamentares [...] enunciados
científicos, proposições filosóficas,
morais” o qual desvela articulações e
opera poder interessa-nos pensar
que também historicamente a produção
de conhecimento, em especial
acadêmica, não esteve desatrelada da
disputa de forças, e consequentemente
de suas hegemonias de poder e
político-sociais.
Refletimos aqui sobre a
constatação de certa repetição sobre o
modo como sujeitos são falados,
pensados, discutidos, analisados,
dissecados em projetos, políticas e
pesquisas. Sujeitos que, colocados no
lugar de voz passiva, parecem ser
destituídos de seus lugares de Sujeitos
cognoscentes, produtores sociais
diminuídos da possibilidade de falar em
primeira pessoa, para a posição de
objeto. Objetos de pesquisa, passivos.
Curiosamente, neste processo
objetificante, aqueles que, pela lógica
tradicional de pesquisa, usualmente se
compreendem como pesquisadores
supostamente neutros, ocupam
posições bastante ativas e
determinantes sobre quem, e de que
modo, pode falar. Falar sobre e falar
por, na autocrítica acadêmica de
Spivak (2010), produz subalternidade.
Pelo sujeito silenciado falam contra, a
favor, em defesa, sob críticas, embora
nunca por meio de sua própria voz.
Por outro lado, ele é objeto de
investigação de “alteridade”,
“exotismo” –, do “intelectual”, sobretudo
europeu, mas também colonial, que
com frequência toma seus valores
próprios e forma de compreender o
mundo como premissas normativas
universais. Assim, a perspectiva
daquele que é subalternizado não é
computada e sua visão de mundo não
alcança a mesma possibilidade para
contribuir com a história e a memória
coletiva daqueles que podem falar.
Intervir ativamente nas formas
de produção de conhecimento,
revelando o sujeito supostamente
“transparente” sobre o qual se fala,
torna-se, portanto, a direção contra
hegemônica sugerida (Spivak, 2010).
Na autocrítica, a autora revela o esforço
de reescrever uma história alternativa à
dominante, reconhecendo, ainda
assim, a representação de uma voz que
segue ausente.
Nesta direção, Grada Kilomba
(2020) aponta que, nestes processos
metodológicos, um “mito de
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neutralidade”, tal como nomeia. Para a
autora, o conhecimento vem muito
tempo sendo produzido por outros
saberes e vozes que não as
dominantes, porém rejeitados “sob o
argumento de não constituir ciência
credível” (Kilomba, 2020, p.53). Isto
porque, pelo lugar de poder que
ocupam as vozes dominantes, as
perspectivas dos subalternizados são
com frequência tomadas pelo viés de
uma “subjetividade”, isto é, julgadas
como se menos racionais, menos
objetivas, mais imprecisas
cientificamente por supostamente
serem baseadas em interpretações
movidas pelo campo das emoções.
Visão esta que denuncia o olhar
dominante carregado das antigas
noções de primitivismo versus
civilização, ao ler sua própria voz como
uma ciência dita neutra, objetiva e
universal, livre e distante de posições
subjetivas e históricas, as quais são
colocadas, portanto, no “outro”.
O outro, visto que, subalterno,
pré-lógico, emocional, não constitui
ciência credível. O “eu universal”,
civilizado, racional, é quem produz
ciência. Segundo a autora (Kilomba,
2020, p.58), a afirmação de um
discurso científico neutro e objetivo,
usualmente racializado e
ocidentalizado, não reconhece o fato de
que a teoria é sempre escrita a partir de
alguma realidade, história e lugares
específicos, e por alguém, havendo
então aí, lugares de poder. De acordo
ainda com Kilomba, existindo
assimetria de poder entre grupos,
haverá também assimetria nos seus
acessos aos “recursos necessários
para implementar as próprias vozes”
(idem, p.52). Falar e ser escutado,
neste modelo, nunca foi uma
possibilidade para todos os grupos
sociais.
Em conformidade com a autora,
ao considerarmos que a epistemologia
e, consequentemente, seus métodos
para produção de conhecimento devam
ser problematizados e revisados em
suas bases, em uma perspectiva
decolonial, optamos por uma direção
ético-teórica que se reposiciona e se
opõe ao que usualmente vem sendo
tomado como “discurso do outro”, e que
contava com um pressuposto fundante
de um “eu” enquanto universal.
Atravessadas por diferentes
percursos relacionados a populações
minorizadas, frequentemente
relegadas ao lugar de atores ocultos na
história, reunimos aqui perspectivas
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
que nos conectam em direção à defesa
de modos de conhecer que ouçam a
pluralidade de vozes existentes,
reconheçam histórias múltiplas,
pluriversais, posto que as
compreendemos em permanentes
disputas, onde não nos interessam
somente as versões exclusivas dos
“vencedores”.
Deste modo, discutiremos neste
artigo a memória e o instrumento das
narrativas orais, enquanto ferramentas
capazes de possibilitar outro modo de
inscrição e pertencimento histórico, em
contraponto à ideia de história única,
alheia à noção de que ela é sempre
construída por alguém em um
determinado tempo.
Memória, saber, história, ideologias
Reconhecendo que os saberes
são plurais e que estão presentes nas
experiências dos diferentes sujeitos,
compreendemos que sua produção se
para além da concepção
hegemônica de se fazer ciência, no
discurso que, muitas vezes, é tomado
como marginal ou secundário a uma
pesquisa.
Pensar as matizes entre história
e memória sob a perspectiva do
particular e do universal nos leva de
encontro ao que, historicamente, tem
sido a construção dos saberes
universais a partir de uma perspectiva
predominantemente ocidental e
eurocentrada. Quem são os grupos que
detêm os lugares de saber e
reconhecimento? Pierre Nora (1993),
historiador francês, importante
pensador sobre memória, traz um
apontamento nesse sentido quando
cita que:
A memória emerge de um
grupo que ela une, o que quer
dizer, como Halbwachs o fez,
que tantas memórias
quantos grupos existem; que
ela é por natureza, múltipla e
desacelerada, coletiva, plural e
individualizada. A história, ao
contrário, pertence a todos e a
ninguém, o que lhe uma
vocação para o universal.
(Nora, 1993, p.9).
À luz de Lélia Gonzalez
intelectual, antropóloga, educadora e
ativista negra brasileira que, com seu
modo ímpar de produzir conhecimento,
articulava saberes ditos eruditos com a
cultura e modo de expressão popular,
tomamos uma fina e relevante distinção
que nos auxilia nesta compreensão. No
texto “Racismo e sexismo na cultura
brasileira” (Gonzalez, 2020), ao
diferenciar as noções de memória e de
consciência, Lélia nos apresenta a ideia
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de que os conhecimentos tomados
como oficiais são escolhas por
determinadas perspectivas, as quais
podem, neste processo, ocultar outras
existentes.
Isto porque, em um diálogo
aparentemente próximo à psicanálise
freudiana, Gonzalez aponta que um
saber na consciência, mas que este
ocupa um lugar de alienação pelo fato
de ignorar outros saberes igualmente
existentes e por ela encobertos. Tal
qual a orientação freudiana
4
, conteúdos
da consciência não correspondem à
totalidade da dinâmica psíquica, mas
apenas a uma parte, àquela que foi
possível vir à tona a partir de processos
psíquicos que bloqueiam outros
conteúdos através do encobrimento, do
esquecimento. Conteúdos “latentes”,
no entanto, podem vir a manifestar-se.
a memória para autora,
estaria a um nível menos visível,
referida a um saber que ainda tem a
potência em emergir, em restituir a
história que não foi escrita, ou mesmo
rejeitada a ser conhecida pelo próprio
4
Tudo que é consciente tem um estágio
preliminar inconsciente, ao passo que aquilo
que é inconsciente pode permanecer nesse
estágio, e, não obstante, reclamar que lhe seja
atribuído o valor pleno de um processo
psíquico. O inconsciente é a verdadeira
processo da consciência. Segundo
Gonzalez (2020, p.79), o tipo de saber
da memória não apenas porta
conhecimento, como também carrega
em si o poder de modificar uma história.
Ao trazer tais noções, Gonzalez
problematiza como, portanto, a
depender da cultura e contexto dos
Sujeitos a quem a palavra é mais ou
menos ouvida, a memória poderá ser
colocada à margem, enquanto a
consciência no seu lugar de
racionalidade poderá ser tomada
socialmente como discurso dominante.
Por isso, a gente vai trabalhar
com duas noções que ajudarão
a sacar o que a gente pretende
caracterizar. A gente tá falando
das noções de consciência e
memória. Como consciência a
gente entende o lugar do
desconhecimento, do
encobrimento, da alienação, do
esquecimento e até do saber. É
por que o discurso ideológico
se faz presente. Já a memória,
a gente considera como o não
saber que conhece, esse lugar
de inscrições que restituem
uma história que não foi escrita,
o lugar da emergência da
verdade que se estrutura como
ficção. Consciência exclui o
que memória inclui. Daí, na
medida em que é o lugar da
rejeição, a consciência se
realidade psíquica [...] e é apresentado de
forma tão incompleta pelos dados da
consciência quanto o mundo externo pelas
comunicações de nossos órgãos sensoriais”
(Freud, [1900] 2001, p.584).
213
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
expressa como discurso
dominante (ou efeitos desse
discurso) numa dada cultura,
ocultando a memória, mediante
a imposição do que ela, a
consciência, afirma como a
verdade. Mas a memória tem
suas astúcias, seu jogo de
cintura; por isso, ela fala
através das mancadas do
discurso da consciência [...] E
no que se refere à gente, à
crioulada, a gente saca que a
consciência faz tudo pra nossa
história ser esquecida, tirada
de cena. E apela pra tudo
nesse sentido. que isso tá
aí… e fala (Gonzalez, 2020,
p.79).
Tomamos essa diferenciação
trazida por Lélia, aproximando ainda a
“consciência”, nesta relação com o
discurso dominante, à ideia da “história
oficial”, à história registrada justo como
lugar de discurso representante de uma
verdade. Em contraponto, o espaço à
memória e às existências de outras
narrativas poderia evitar o risco o qual
aponta a escritora negra nigeriana,
Chimamanda Ngozi Adichie (2019), do
“perigo de uma história única”.
Conforme proferiu na palestra
que deu origem à publicação, através
de diversas cenas cotidianas vividas
oriundas de colonialismos em que a
autora ora se viu enxergando o mundo
apenas por uma história única, e
outras, foi vista por este prisma, Adichie
nos chama a refletir sobre o quanto
fragilizamos a experiência e os Sujeitos
diante de histórias que são contadas e
cristalizadas apenas por um ângulo.
A história tratada como única e
universal deduz antecipadamente,
espera com certezas, e cria
estereótipos, que tal como a autora
afirma, são incompletos. Suas
consequências, segundo a mesma, são
o roubo da dignidade das pessoas e
obstruções ao reconhecimento de suas
humanidades. Adichie (2019, p.23)
demonstra, contudo, que as histórias
não se tornam únicas por mero acaso,
mas por uma repetição insistente ligada
a um exercício de poder, o qual apaga
outras possibilidades e estreita a visão,
encobrindo e simplificando o debate.
É impossível falar sobre
história única sem falar sobre
poder. Existe uma palavra em
igbo no qual sempre penso
quando considero as estruturas
de poder no mundo: nkali. É um
substantivo que, em tradução
livre, quer dizer “ser maior do
que outro”. Assim como o
mundo econômico e político, as
histórias também são definidas
pelo princípio do nkali: como
elas são contadas e quantas
são contadas depende muito
de poder. O poder é a
habilidade não apenas de
contar a história de outra
pessoa, mas de fazer que ela
seja sua história definitiva
(Adichie, 2019, p.23).
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Nesse sentido, em conformidade
com a perspectiva da pesquisa
centrada em sujeitos, trazemos as
narrativas como instrumentos
metodológicos que tratam a ênfase nas
percepções e discursividades dos
Sujeitos que sejam transmitidas por
eles próprios. Onde “tem-se o direito de
ser um sujeito político, social e
individual em vez da materialização
da Outridade, encarcerada no reino da
objetividade.” (Kilomba, 2019, p.81).
Interessa-nos interrogar as
bases dessa construção e apostar em
metodologias de produção de
conhecimento por uma perspectiva que
multiplica o número de vozes pela
escuta de sujeitos que ocuparam
diferentes lugares. Assim, novos
testemunhos passam a integrar a
memória, a partir de um acervo de
histórias de vidas e situações
significativas vividas por diferentes
grupos de pessoas. O investimento na
dimensão coletiva da memória remete
a um de seus lugares na
contemporaneidade, o qual é o de
objeto de jogos de poder.
A memória é um objeto de luta
pelo poder travada entre
classes, grupos e indivíduos.
Decidir sobre o que deve ser
lembrando e também sobre o
que deve ser esquecido integra
os mecanismos de controle de
um grupo sobre o outro”
(Kessel, 2003, p.4).
Consideramos, portanto, que
capilarizar a narrativa histórica a partir
de outros campos e todos de
produção de conhecimento é o que
permite revisitar memórias variadas, de
atores sociais diversos, incluindo as
perspectivas daqueles que usualmente
têm sido vistos “abaixo”. A provocativa
ideia de uma “história vista de baixo”,
proposta pelo historiador Paul
Thompson (1966) subverte a tradição
histórica ao valorizar o fato de que a
palavra daqueles que têm suas
experiências minorizadas possa
construir saberes a partir de visões de
mundo. É nessa linha que temas,
culturas, costumes e eventos
historicamente negligenciados passam
a ocupar lugar, em oposição à história
concebida a partir de pessoas
estranhas e alheias à realidade sobre a
qual falavam.
Recuperar os debates mais
recentes sobre memória, portanto, nos
ajuda a localizar os Sujeitos, ora com
suas vozes únicas e histórias de
vitórias e conquistas, ora com vozes
subalternas (Spivak, 2010) e
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emergentes em um contexto de
proeminência dos estudos decoloniais
e antirracistas.
As várias memórias
A partir dos anos 1970, os
estudos da memória ganharam espaço
nas pesquisas acadêmicas, mas
também nas práticas cotidianas dos
diferentes grupos, em uma constante
retroalimentação. Esse universo
associa-se, então, ao campo do
patrimônio cultural, em função das
coleções de museus, mas também da
perspectiva histórica, das celebrações,
efemérides, monumentos e
marcadores simbólicos de narrativas
coletivas
5
. Há um lastro de abordagens
sobre memória e aqui nos interessa
refletir sobre em que medida lembrar,
representar e narrar encampam as
novas referências e disputas de poder,
como acima nos lembrou Chimamanda
Ngozi Adichie sobre o perigo da história
única.
Essa expansão dos estudos
sobre memória ocorre por meio da
5
Um dos exemplos desta expressão de
mudanças no campo das artes foi a Exposição
Histórias afro-atlânticas que ocorreu entre os
dias 29 de junho e 21 de outubro no Museu de
Arte de São Paulo (MASP). A Mostra contou
revisão das abordagens psicológicas,
biológicas e fisiológicas até então
predominantes nas primeiras décadas
do século XX. Lembrar tratava-se de
uma função orgânica do indivíduo,
deixando rastros de aprendizagem no
cérebro que davam pistas sobre
plasticidade neural, capacidade de
memorização e armazenamento,
reflexos e comportamentos
condicionados, numa leitura
mecanicista e empírica.
Maurice Halbwachs (2013),
intelectual que na primeira metade do
século XX restabeleceu os paradigmas
desses estudos, propõe a memória em
sua dimensão coletiva, extrapolando a
perspectiva individualizada e privada.
Para o autor, a memória não apenas é
coletiva, como é uma construção social,
o que significa que lembramos
enquanto nos reconhecemos como
parte, sendo a relação entre indivíduo e
coletividade encarregada de alimentar
e formatar a memória. Nesta chave, a
memória seria um “patrimônio comum
de recordações” (Rios, 2013, p. 4) que
com 450 obras de arte sobre as relações entre
América, Caribe, África e Europa, dando lugar
de destaque a artistas negros como Emanuel
Araújo, Maria Auxiliadora, Heitor dos Prazeres,
Rosana Paulino, entre outros.
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PIRES, Andréa da Silva Montechiare; GIANNERINI, Gisela; MONTECHIARE,
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
funciona na medida em que e
enquanto produz ressonância no
grupo (Gonçalves, 2005).
Se um grupo social é agente
gerador de memórias seja uma
família, um coletivo ou uma nação
estas são compostas por testemunhas
que reforçam ou enfraquecem aspectos
que serão contados sobre
determinados acontecimentos
circunscritos a um tempo. Para
Halbwachs (2013), o indivíduo é o
instrumento da memória do grupo, pois
só ele é capaz de lembrar.
Porém, ainda segundo o autor,
os acontecimentos do passado não têm
qualquer compromisso com a
correspondência exata de sua
reprodução. Grande parte desses
acontecimentos é esquecida e são
justamente os vínculos sociais que
determinarão o que será lembrado
coletivamente. Nesse debate, a
diferença entre lembrança e memória é
interessante, visto que a memória é
sempre uma produção, atualizada no
presente. A constituição da memória
alinha-se às conjunturas do atual: quem
tem voz amplamente ouvida para
manifestar sua lembrança? E quem
detém poder para fazer valer seu ponto
de vista sobre o que passou?
Dessa maneira, o passado é
constantemente reinterpretado à
medida que as condições do presente
se transformam continuamente. A
memória é, portanto, construída pelos
grupos sociais na exata medida em que
os constrói. Lembrar e esquecer
coletivamente são partes do mesmo
processo, que não ocorre sem
disputas, nem tampouco é
permanentemente estável.
Em diálogo com Halbwachs,
Myrian Sepúlveda dos Santos estuda
monumentos, museus e coleções como
celebradores de passados, mas
também como marcadores das
disputas sobre os vários passados.
um amplo debate sobre espaços e
materialidades que dariam suporte à
memória, seja nas ciências sociais
(Yates, 2007; Forty, 1999; Nora, 1993;
Didi-Huberman, 2013), seja na
literatura ficcional como na célebre
cena das madeleines mergulhadas na
xícara de chá que ativam a memória do
narrador em Em busca do tempo
perdido (Proust, 2006). Lugares e
objetos são acionados por meio de
imagens e narrativas como sendo
capazes de incidir sobre a forma como
indivíduos e grupos lembram, sentem e
expressam o passado.
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PIRES, Andréa da Silva Montechiare; GIANNERINI, Gisela; MONTECHIARE,
Renata. Memória como construção de caminhos plurais: o conhecimento
a partir da escuta e da palavra. PragMATIZES - Revista Latino-Americana
de Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.207-228, set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
Os estudos de Sepúlveda sobre
arquivos e documentos da tortura na
ditadura militar brasileira utilizam os
mesmos suportes, objetos,
documentos, fotografias que antes
legitimaram a ação do Estado: “Os
arquivos, artefatos e relatos do
passado têm sido utilizados como
provas de um passado que foi
deliberadamente esquecido pelas
versões oficiais da história” (Santos,
2006, p. 99). Assim, as posteriores
iniciativas de reparação às vítimas
ativam testemunhas materiais antes
deixadas de lado nos relatos
autorizados e na história oficial.
Portanto, os índices que conferem
veracidade aos fatos não são
absolutos, pois o exaltados ou
diluídos em meio às disputas em torno
de interesses conflitantes (Araújo &
Santos, 2007).
Esses estudos da memória que
recuperam dimensões de traumas
coletivos ganharam impulso nas
análises sobre o Holocausto nos anos
1980, numa série de acontecimentos
sociais e midiáticos que recuperaram
tanto a história dos judeus quanto do
nazismo (Huyssen, 2004). Passado,
presente, memória e esquecimento são
os pilares de análises como as de
Andreas Huyssen (2004) e Adrian Forty
(1999, que expõem o confronto entre
pelo menos, duas grandes escolhas:
destacar material e simbolicamente um
acontecimento para ser lembrado, ou
construir estratégias para apagar a
lembrança, enfatizando o direito a
esquecer. Em ambos os casos, não
sem disputas e negociações.
O debate em torno da
pertinência ou não da produção e
lugares de memória relacionados a
eventos traumáticos e desumanos,
somado, eventualmente, ao uso de
recursos de simplificação ou de
recursos estéticos, desdobra-se de
forma interessante a ser notada.
Memórias difíceis precisam ser
amortecidas ou “embelezadas” para
tornar mais palatável de serem
contadas? verdade quando são
criados lugares quase fictícios
destinados a lembrar uma memória
traumática?
O filósofo e historiador Georges
Didi-Huberman, no livro “Cascas”
(2017), registro de sua visita ao museu
de Auschwitz-Birkenau, faz uma
interrogação sutil à produção de
memória do Holocausto, que aqui
apostamos poder se estender para
pensar a disseminação de temas
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PIRES, Andréa da Silva Montechiare; GIANNERINI, Gisela; MONTECHIARE,
Renata. Memória como construção de caminhos plurais: o conhecimento
a partir da escuta e da palavra. PragMATIZES - Revista Latino-Americana
de Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.207-228, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
sensíveis. Sobre o livro que começa a
partir de três lascas de árvores,
tomadas como três lascas de tempo,
“pedaços de memória”, Ilana Feldman
na contracapa faz menção a uma
entrevista feita com o autor em que
afirma que seu trabalho consiste em:
fazer da dor, e, logo, da história
e das emoções que a
acompanham, nossos bens
comuns, isto é, partilháveis e
transmissíveis. Pois é somente
com a transmissão que nos
tornamos capazes de não nos
resignar diante dos impasses
do entendimento (Didi-
Huberman, 2017, p.95).
O argumento do extermínio
étnico torna-se manifesto em questões
sociais nos anos 1990, em especial no
que se refere aos refugiados e
imigrantes, à dissolução da Iugoslávia e
à escravidão africana nas ex-colônias.
Na América Latina, crescem as
manifestações e a visibilidade em torno
dos desaparecidos políticos das
ditaduras cívico-militares, com
movimentos sociais como as Abuelas
de Plaza de Mayo, na Argentina, e o
Grupo Tortura Nunca Mais, no Brasil.
Movimentos com forte trabalho de
6
A Lei12.528/2011, de 18 de novembro de
2011, determinou a instalação da Comissão
Nacional da Verdade (CNV). Efetivamente
inaugurada em 16 de maio de 2012, a CNV foi
produção de uma memória coletiva,
que Michael Pollak lembrará da ligação
desta com aquilo que a sociologia
nomeia como “identidades coletivas":
Por identidades coletivas,
estou aludindo a todos os
investimentos que um grupo
deve fazer ao longo do tempo,
todo o trabalho necessário para
dar a cada membro do grupo
[...] o sentimento de unidade,
de continuidade e de
coerência” (Pollak, 1992, p.7).
Assim, construções de museus,
audiovisuais e centros de cultura e
pesquisa, o pagamento de
indenizações às vítimas da violência de
Estado, celebração de efemérides e
manifestações públicas de revisão do
passado entram na ordem do dia,
culminando na experiência brasileira
contemporânea, a Comissão da
Verdade
6
, experiência anteriormente
adotada na África do Sul s-Apartheid.
De nossa parte,
compreendemos que a transmissão por
meio da produção de memórias é o
caminho fundamental para não haver
dilemas ou relativizações na
compreensão de memórias difíceis.
Recentemente, por exemplo, o Brasil
criada para apuração das violações de direitos
humanos ocorridas no país entre 1946 e 1988,
no âmbito da repressão praticada pelos
governos militares.
219
PIRES, Andréa da Silva Montechiare; GIANNERINI, Gisela; MONTECHIARE,
Renata. Memória como construção de caminhos plurais: o conhecimento
a partir da escuta e da palavra. PragMATIZES - Revista Latino-Americana
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
viveu um retrocesso político, somado a
um avanço da extrema direita
mundialmente, que teve como um dos
efeitos o questionamento ou mesmo
ironização quanto à existência da
ditadura militar no país. Michael Pollak
aponta que:
se é possível o confronto entre
a memória individual e a
memória dos outros, isso
mostra que a memória e a
identidade são valores
disputados em conflitos sociais
e intergrupais, e
particularmente em conflitos
que opõem grupos políticos
diversos” (Pollak, 1992, p.5).
Nesse sentido, o trabalho da
Comissão da Verdade e a insistência
em produzir memória e dar a ela lugar
são também reafirmar um estatuto ético
e político para elas, possibilitando um
sentido e compromisso partilhados
socialmente, para que não se repitam.
Todo este movimento
internacional que atravessou o século
XX influenciou e foi influenciado pela
diplomacia. Ainda que as políticas de
memória sejam contemporaneamente
7
No original: Rather than memory loss taking
place through the passive attrition of time, as in
the Aristotelian model, Freud posited it as the
active force; rather than being natural and
involuntary, Freud stressed that ‘forgetting is
often intentional and desired’. In a sense, the
purpose of psychoanalysis was not a memory
concebidas como elos de articulação
social e reparação histórica, estão
imersas em seus campos de disputa.
Na perspectiva de Forty (1999), para
fazer parte é preciso estabelecer
consensos sobre quais memórias se
quer apagar, ainda que o próprio autor
se alinhe à perspectiva freudiana sobre
o não apagamento por completo,
mantendo-se registrado de forma
inconsciente e ativado de tempos em
tempos:
Em vez de a perda de memória
ocorrer através do desgaste
passivo do tempo, como no
modelo aristotélico, Freud
postulou-a como a força ativa;
em vez de ser natural e
involuntário, Freud enfatizou
que “o esquecimento é muitas
vezes intencional e desejado”.
Em certo sentido, o propósito
da psicanálise não era a cura
da memória, mas sim fornecer
ao paciente os meios para
esquecer verdadeiramente o
material reprimido do qual ele
seria vítima. Como Freud
observou certa vez. O objetivo
era dar aos pacientes a
“liberdade de decidir de uma
forma ou de outra”, se lembram
ou esquecem (Forty, 1999, p. 5,
tradução nossa).
7
cure, but rather to provide the patient with the
means to truly forget the repressed material of
which they were otherwise the victim. As Freud
once remarked. The aim was to give patients
the ‘freedom to decide one way or the other’,
whether to remember or forget" (Forty, 1999, p.
5).
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PIRES, Andréa da Silva Montechiare; GIANNERINI, Gisela; MONTECHIARE,
Renata. Memória como construção de caminhos plurais: o conhecimento
a partir da escuta e da palavra. PragMATIZES - Revista Latino-Americana
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
No contexto dos traumas
coletivos aos quais Forty se dedica,
estabelecer consensos sobre o que
reter na memória e o que esquecer
coletivamente são parte do programa
socialmente estabelecido. No debate
aqui presente, que evoca
prioritariamente experiências afro
centradas e “subalternas”, conforme o
conceito de Spivak (2010), remetemos
ao seu ainda não incomum
apagamento compulsório, ou mesmo
uso de lembranças de um modo
meramente exotizante e caricatural de
culturas, personalidades e histórias que
divergem dos padrões brancos
europeus. Nas palavras de Françoise
Vergès,
O regime neoliberal [...]
expondo o reconhecimento do
erro e do crime pelo Estado,
vem explorando um novo filão:
a representação ‘positiva’
dos/as negros/as e dos/as
racializados/as. Para preservar
a ideologia do progresso, a
decolonização está se
tornando um elemento da
narrativa nacional” (Vergès,
2023, p.246).
8
(...) “Sortirons-nous du rôle de tapisseries
banlieusardes et de décors sauvages
savamment domestiqués mais parfaitement
authentiques?” (MARBOEUF, 2020). Tradução
VERGÈS, F. Descolonizar o museu - programa
Narrativa à qual a autora
radicalmente se opõe e nos instiga a
pensar, junto a Olivier Marboeuf (2020),
como “fugir da plantation”, isto é, como
recusar posturas que enaltecem
narrativas negras como “figurantes
suburbanos e cenários selvagens
habilmente domesticados, mas
perfeitamente autênticos" (Marbouef,
apud Vergès, 2023, p. 246)
8
.
Discursos que, em acordo com a
autora, entendemos que podem
apenas alterar sua forma, mas manter
a posição igualmente caricata e
dominada sobre as diferenças.
No Brasil atual, a memória e as
representações afro-brasileiras
ocupam o espaço disputado e
conquistado por ativistas, artistas e
intelectuais negros, como o recente
“Projeto Memória Lélia Gonzalez:
Caminhos e Reflexões Antirracistas e
Antissexistas” (2025)
9
realizado pelo
Instituto Memorial lia Gonzalez em
parceria com a Fundação Banco do
Brasil e Associação dos Amigos do
Cinema. O projeto retratou
de desordem absoluta. São Paulo: Ubu Editora,
2023, p. 246.
9
Cf: <https://projetoleliagonzalez.com.br/site/>.
Acesso em: 26 mar. 2025.
221
PIRES, Andréa da Silva Montechiare; GIANNERINI, Gisela; MONTECHIARE,
Renata. Memória como construção de caminhos plurais: o conhecimento
a partir da escuta e da palavra. PragMATIZES - Revista Latino-Americana
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
biograficamente, por meio de mostras,
debates e painéis, “uma das vozes
mais proeminentes na abordagem das
questões raciais e de gênero no Brasil”,
Lélia Gonzalez, a qual completaria 90
anos em 2025.
Destacamos também como
registros de memória, a permanência
desde 2021 da imponente e inédita
obra intelectual e artista plástica Grada
Kilomba na Galeria Galpão no Instituto
Inhotim. Na obra “O Barco”
10
, 134
blocos de madeira queimada
relembram corpos negros escravizados
dispostos em um porão da embarcação
conhecida como tumbeiro. Neles estão
inscritas frases de um impactante
poema da autora que remontam à dura
travessia da diáspora, memórias,
esquecimentos, dores, mortes e
revoluções.
No universo do samba, onde a
temática sempre esteve presente,
recentemente dois nomes tornaram-se
muito comentados e ativaram
contestações sobre memória: Dandara
e Luisa Mahin. As mulheres foram
cantadas pelo samba-enredo da escola
de samba Mangueira no carnaval
10
Cf:
<https://www.inhotim.org.br/eventos/grada-
carioca de 2019, que expôs a fissura
social aberta a partir do assassinato da
vereadora Marielle Franco, em 2018.
A memória das duas heroínas
negras brasileiras foi celebrada na
canção e, logo após, em abril do
mesmo ano, o país as reconheceu por
meio da inscrição de seus nomes no
“Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria”,
no Pantheon da Pátria, na Praça dos
Três Poderes em Brasília. Dandara dos
Palmares é símbolo da resistência e
combate à escravidão no século XVII,
assim como Luisa Mahin, participante
dos levantes de escravos na Bahia, no
início do século XIX.
Este ato, no entanto, não passou
sem controvérsias. O debate em torno
de sua inscrição no Livro foi
documentado pelo jornal The Intercept
Brasil, publicando duas matérias
simultaneamente: uma contra e outra a
favor (Araújo, 2019; Santos, 2019).
Ambos os lados, porém, estão de
acordo que Dandara e Luisa Mahin são
aclamadas heroínas brasileiras,
combatentes da escravidão e símbolo
da resistência negra feminina.
Concordam também que o racismo e o
kilomba-o-barco-2021/>. Acesso em: 26 mar.
2025.
222
PIRES, Andréa da Silva Montechiare; GIANNERINI, Gisela; MONTECHIARE,
Renata. Memória como construção de caminhos plurais: o conhecimento
a partir da escuta e da palavra. PragMATIZES - Revista Latino-Americana
de Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.207-228, set. 2025.
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machismo negaram e apagaram suas
histórias e, consequentemente, a
memória em torno de seus nomes.
Apagaram também as de outras tantas
mulheres negras, num mundo em que o
protagonismo masculino e branco
ainda prevalece.
O ponto de discordância está na
possibilidade de afirmar ou não se
ambas foram pessoas reais ou se são
mitos construídos a partir de relatos. Os
que acusam a academia de racista
afirmam que o etnocentrismo científico
é tamanho que não permite reconhecer
na tradição oral a validade que
comprove a existência das heroínas e
de seus feitos (Santos, 2019). Do ponto
de vista historicista, contrário à
inscrição (Araújo, 2019), o problema
está em comprar como verdade uma
memória alçada a símbolo legítimo da
população negra brasileira, mas que
imortaliza e valida uma alegoria como
memória nacional
11
.
11
Considerando a discussão sobre veracidade,
mitos e etnocentrismos, não podemos deixar de
lembrar dos apontamentos de Mbembe sobre o
próprio projeto moderno de conhecimento, que
teve suas bases firmadas na tendência do
pensamento europeu ser considerado em seu
próprio espelho, como uma “lógica de
autoficção, de autocontemplação e até mesmo
enclausuramento” (2018, p.11), bem como que
as diferentes formas de violência racial
Recuperamos aqui este caso
para destacarmos de maneira viva e
contundente a discussão empreendida
neste texto: o quanto memórias e
patrimônios culturais estão
essencialmente em disputa político-
social, assim como as narrativas, alvos
em batalhas envolvendo quem e como
se produz conhecimento e legitimidade
histórica.
A cada tempo, determinadas
visões de mundo ressaltam aspectos,
acontecimentos, objetos, monumentos
e histórias, utilizando-se dos recursos
do patrimônio e da memória para alçar
sua perspectiva à condição de verdade
e de identidade. Nesse sentido, importa
conhecer as contradições dos
processos de salvaguarda das
memórias e de apropriações narrativas,
analisando as tensões: de onde partem
as proposições e quais vozes, a cada
tempo, podem narrar o que será
contado.
exercidas pelo pensamento etnocêntrico
passam por uma mitologização, em que a “base
desse mito não está apenas na separação
original entre “eles e nós”. O verdadeiro
problema é o seguinte: que eles o sejam
como nós está errado. Mas que eles se tornem
como nós também está. Para o dominador,
ambas as opções são tão absurdas quanto
insuportáveis” (Mbembe, 2020, p.140).
223
PIRES, Andréa da Silva Montechiare; GIANNERINI, Gisela; MONTECHIARE,
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a partir da escuta e da palavra. PragMATIZES - Revista Latino-Americana
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
O caminho das narrativas orais
como uma saída protagonizada por
sujeitos
Conforme discutimos até aqui,
constatamos que, a cada tempo e
contexto histórico, político e social, o
valor de verdade e de reconhecimento
epistêmico e cultural é permeado pelas
disputas em vigor. Apontamos, assim, o
quanto que, neste percurso, sujeitos e
grupos podem ter mais ou menos
visibilizadas suas vozes e experiências
nos processos históricos.
Nesse sentido, tomando sujeitos
como atores sociais, entendemos o
instrumento das narrativas orais como
vias de “performar a subjetividade”
(Kilomba, 2019), de rememorar
experiências que podem ser lidas não
somente como pertencentes às suas
individualidades, mas também em
referência aos seus pares e coletivos,
como também inscreverem, com suas
posições e perspectivas, as próprias
histórias.
Afirmamos a escuta como o
marco comum capaz de conjugar novas
metodologias de trabalho e produção
de conhecimento a partir da palavra.
Por essa via, elegemos a História Oral
como uma fonte e forma de pesquisar,
a qual Paul Thompson compreende
como:
a interpretação da história e
das sociedades e culturas em
processo de transformação,
por intermédio da escuta às
pessoas, e do registro de suas
histórias de vidas. A habilidade
fundamental da história oral é
aprender a escutar"
(Thompson, 2006, p.20).
Tendo ganhado maior
representatividade no Brasil a partir da
criação da Associação Brasileira de
História Oral, em 1994, a história oral
durante muito tempo foi alvo de
questionamentos sobre tratar-se de
uma metodologia, uma disciplina ou
uma linha de pensamento. Apesar do
testemunho oral existir ao longo da
história, seja na transmissão das
histórias familiares, habilidades e
ofícios, muito antes da era da imprensa
e da escrita, sua materialidade
enquanto fonte de conhecimento nem
sempre teve lugar, principalmente na
academia.
A ideia de uma “memória
histórica” se fez muito ancorada na
suposta materialidade e concretude de
documentos, arquivos e marcos
“universais”, por exemplo, que levam a
uma certa polarização nos estudos de
memória e história. Michael Pollak
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PIRES, Andréa da Silva Montechiare; GIANNERINI, Gisela; MONTECHIARE,
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
(1992) sinaliza a história como uma
“ciência de síntese que, por anos, se
apoiou numa posição de crítica das
fontes, o que, para o autor, guarda uma
certa “ingenuidade positivista primária”
que é acreditar que a reconstrução do
passado é sempre e necessariamente
intermediada pelo documento, por uma
ideia de superioridade da fonte escrita
sobre a fonte oral. Contudo, pouco se
desdobrou do fato de que a história
vinha sendo guardada sob fontes e
perspectivas narrativas “dos
vencedores”, aqueles que
historicamente têm o privilégio de
contar.
Do ponto de vista
epistemológico, Pollak aponta a
necessidade de se avançar a
discussão, uma vez que a história oral
abre novos campos de representações,
tornando-a um instrumento privilegiado
para a abertura de novas abordagens
disciplinares e para a produção de
conhecimento. A discussão que opõe
memória e história em polos subjetivos
e objetivos está ultrapassada, sendo
muito mais profícuo pensar em uma
continuidade potencial do que em uma
oposição, como sustenta o autor.
Por se tratar de um método
apoiado na memória, críticas
acadêmicas, principalmente do campo
da História, tensionavam não ser
possível pensar em uma reconstituição
do real pelo oral, fazendo uma alusão à
fonte escrita, como se a produção fosse
sempre uma perspectiva de
representações atravessada por um
viés de parcialidade. A isso, Pollak, que
inclusive considerou este como um
dilema inconsistente e a mesmo
superado, respondeu com rigor e
deixou uma importante baliza para a
sustentação do próprio conceito, ao
considerar que: “se a memória é
socialmente construída, é óbvio que
toda documentação também o é. Para
mim não diferença fundamental
sobre fonte escrita e fonte oral”
(Pollak,1992, p.8).
Thompson (2006) aponta que,
ainda que exista muito material
documentando a produção de coisas,
poucos são aqueles que tratam sobre a
produção de pessoas. É nesse sentido
que apostar na produção de memória
sob uma perspectiva da oralidade abre
novas possibilidades de fazer história:
Em termos de uso do
testemunho oral como
evidência por parte da história
das ciências sociais, a
reavaliação da comunicação
oral trouxe um alcance e uma
visão completamente novos.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
Isso também está vinculado à
valorização social do
testemunho e do património
oral. [...] A história oral é
considerada atualmente parte
essencial de nosso patrimônio
cultural. Essa é uma situação
muito nova e, olhando para o
futuro, acho que
possibilidades imensas, por
exemplo, para criar novas
conexões entre pessoas em
mundo sociais e geográficos
diferentes; através do oral,
criando novas solidariedades e
novos entendimentos.
(Thompson, 2006: p.19).
Desta forma, consideramos que
as narrativas orais podem mobilizar
indivíduos, grupos e comunidades,
enlaçando memórias e documentações
de tradições orais, histórias de vida,
favorecendo construções diversas,
plurais, e sobretudo, trazendo
importantes impactos para mudanças
sociais.
Considerações finais
Neste trabalho, procuramos
apresentar um panorama das
abordagens sobre memória, história e
narrativa para refletir sobre o papel e a
condição dos sujeitos representados.
Considerando a abordagem que nos
alerta sobre os riscos de uma história
única (Adichie, 2019) recuperamos
eventos, personagens, narrativas e
fatos para pensá-los sob as
contradições que atravessam seus
enquadramentos históricos e disputas.
Diante dos estudos que
problematizam e orientam sobre
traumas sociais, símbolos políticos,
reparação e renomeação históricas,
nos interessa pôr em diálogo autores e
pontos de vista que nos ajudem a
investigar sobre quem fala, de onde fala
e quem, por outro lado, escuta de forma
ativa.
O propósito final desta
investigação, contudo, é questionar a
produção de conhecimento dentro e
fora da academia que prescinde desse
debate e que se basta com o emprego
das referências tradicionalmente mais
aceitas, visto que estas não são
neutras, tampouco únicas. Desafiar
esse modo de construção do saber é,
em primeira medida, revisar nossas
próprias bases de criação intelectual,
que forjadas na maior parte das
disciplinas sob tais aspectos, ao
olharmos em primeiro lugar para o
modo como nós mesmas acionamos
referências para lidar com pesquisas,
intervenções, mas sobretudo com
Sujeitos.
Como proposição e provocação
trazida, portanto, entendemos que para
226
PIRES, Andréa da Silva Montechiare; GIANNERINI, Gisela; MONTECHIARE,
Renata. Memória como construção de caminhos plurais: o conhecimento
a partir da escuta e da palavra. PragMATIZES - Revista Latino-Americana
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
o imperativo deslocamento em direção
à decolonialidade, à diversidade de
histórias e perspectivas, retornos mais
complexos e múltiplos, é necessária
uma tomada de posição que sustente
rever quais vozes, histórias e memórias
mais têm sido ouvidas e legitimadas,
frequentemente em detrimento de
tantas outras serem silenciadas e
marginalizadas. Afinal, “ouvir é, nesse
sentido, o ato de autorização em
direção à/ao falante. Alguém pode falar
somente quando sua voz é ouvida.
Nessa dialética, aquelas/es que são
ouvidas/os são também aquelas/es que
´pertencem`.” (Kilomba, 2020, p.42).
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uma história única. São Paulo:
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