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GOMES, Nathália Pedrozo; CARON, Daniele. A narrativa na construção da
memória do corpo negro. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de
Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.76-94, set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
A narrativa na construção da memória do corpo negro
Nathália Pedrozo Gomes
1
Daniele Caron
2
DOI: https://doi.org/10.22409/pragmatizes.v15i29.67221
Resumo: As práticas, corporeidades e a luta pelo direito à terra nos quilombos urbanos de Porto
Alegre/RS têm a mulher negra como figura central. Diante desse contexto, este artigo reflete sobre as
lutas conduzidas por estas mulheres, que, conectadas por uma rede aquilombada, emergem nesses
territórios por meio de ações de resistência que desafiam o modelo hegemônico de produção da cidade,
estruturado a partir da cor da pele e da valorização da terra privada. A partir da vivência com o Quilombo
dos Flores, em Porto Alegre, buscamos refletir como essas práticas afirmam uma produção de espaço
urbano quilombola que confronta esse padrão. Para tal, adotamos a narrativa como abordagem teórico-
metodológica, a fim de incorporar a linguagem da oralitura, expressa no corpo e na voz, como teoria
de luta dessas mulheres. Durante o percurso, observamos que a luta do quilombo urbano é
fundamentada pelo direito à terra ancestral, mas também pela prática de cuidado coletivo acionada
cotidianamente pelas mulheres negras, aqui compreendidas como ìyálodès. São elas que atuam como
elos de força ao sustentar uma rede de resistência mobilizada contra o racismo institucional, ao mesmo
tempo em que promovem articulações comunitárias no bairro, rompendo com a visão do quilombo
urbano como território isolado. Eles transcendem os limites impostos pelo padrão de cidade racista
como uma rede de liberdade e luta, sustentada e interligada por estas protagonistas.
Palavras-chave: mulher negra; narrativa; quilombo urbano; Ìyálodès; Quilombo dos Flores.
Narrative in the construction of Black Body Memory
Abstract: The practices, corporealities, and the struggle for land rights in the urban quilombos of Porto
Alegre/RS have Black women as central figures. In this context, this article reflects on the struggles led
by Black women, who, connected through an aquilombamento network, emerge in these territories
through acts of resistance. These actions challenge the hegemonic model of urban production,
structured around skin color and the valorization of private land. Drawing from experiences with the
Quilombo dos Flores in Porto Alegre, we seek to reflect on how these practices affirm a quilombola
mode of urban space production that confronts this pattern. For this, we adopt narrative as a theoretical-
methodological approach, to incorporate the language of orality, expressed through body and voice, as
a theory of struggle for these women. Throughout this process, we observe that the struggle of the urban
1
Mestre em Planejamento Urbano e Regional pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul
(UFRGS). E-mail: nathipgo@gmail.com. ORCID: https://orcid.org/0009-0000-1472-2117.
2
Doutora em Urbanismo pela Universitat Politècnica de Catalunya (UPC). Docente da Faculdade de
Arquitetura e do Programa de Pós-Graduação em Planejamento Urbano e Regional da Universidade
Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). E-mail: daniele.caron@ufrgs.br. ORCID:
https://orcid.org/0000-0002-6546-6579.
Recebido em 01/04/2025, aceito para publicação em 25/08/2025.
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GOMES, Nathália Pedrozo; CARON, Daniele. A narrativa na construção da
memória do corpo negro. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de
Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.76-94, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
quilombo is grounded in the right to ancestral land, but also in the practice of collective care, led by
Black women. These women act as bonds of strength that sustain a resistance network, mobilized
against institutional racism at the same time as they promote community-based articulations in the
neighborhood, breaking with the perception of the urban quilombo as an isolated territory. They
transcend the limits imposed by the racist urban model as a network of freedom and resistance,
sustained and interconnected by their leadership.
Keywords: black woman; narrative; urban quilombo; Ìyálodès; Quilombo dos Flores.
La narrativa en la construcción de la memoria del cuerpo negro
Resumen: Las prácticas, corporalidades y la lucha por el derecho a la tierra en los quilombos urbanos
de Porto Alegre/RS tienen a la mujer negra como figura central. Ante este contexto, este artículo
reflexiona sobre las luchas lideradas por estas mujeres, quienes, conectadas a través de una red
aquilombada, emergen en estos territorios mediante acciones de resistência que desafían el modelo
hegemónico de producción de la ciudad, estructurado a partir del color de piel y la valorización de la
tierra privada. A partir de la experiencia con el Quilombo dos Flores, en Porto Alegre, buscamos
reflexionar sobre cómo estas prácticas afirman una producción del espacio urbano quilombola que
confronta este patrón. Para ello, adoptamos la narrativa como enfoque teórico-metodológico, com al
intención de incorporar el lenguaje de la oralitura, expresado en el cuerpo y la voz, como teoría de lucha
de estas mujeres. A lo largo del recorrido, observamos que la lucha del quilombo urbano se fundamenta
en el derecho a la tierra ancestral, pero también en la práctica del cuidado colectivo accionada por las
mujeres negras, aqui comprendidas como ìyálodès. Son ellas que actúan como vínculos de fuerza que
sostienen una red de resistencia movilizada contra el racismo institucional, al mismo tiempo que
promueven articulaciones comunitarias en el barrio, rompiendo con la visión del quilombo urbano como
un territorio aislado. Trascienden los límites impuestos por el modelo de ciudad racista como una red
de libertad y lucha, sostenida e interconectada por estas protagonistas.
Palabras clave: mujer negra; narrativa; quilombo urbano; Ìyálodès; Quilombo dos Flores.
A narrativa na construção da memória do corpo negro
Introdução
A presença dos quilombos no
meio urbano, marcada pelos corpos
negros que os constituem, interpela o
modelo hegemônico de produção da
cidade. Esse modelo, sustentado por
um sistema de poder que opera a partir
de padrões racistas, capitalistas e
individualistas, impõe normas que
regulam aspectos político-sociais,
impactando diretamente as práticas
culturais e religiosas de grupos que não
se alinham ao padrão estabelecido.
Mas de que maneira esses corpos
seguem subvertendo essas normas?
Para compreender essa dinâmica, é
fundamental reconhecer a cidade como
“um campo discursivo em permanente
disputa” (Caron et al., 2020, p. 62).
Quais discursividades atravessam o
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
cotidiano urbano sem serem
amplificadas na trama da cidade? São
narrativas negras que reverberam em
nossos corpos, gestos, olhares e falas.
Para este texto, partimos da
premissa da indissociabilidade entre a
construção dos nossos corpos
enquanto sujeitas-mulheres e
pesquisadoras
3
e as histórias de vida
dos corpos negros que encontramos ao
longo do caminho de pesquisarCOM
(Moraes, 2014). A experiência de
pesquisar com mulheres negras
evidencia que a luta negra, em especial
a quilombola, não está apartada da
realidade urbana que nos circunda. Foi
nesse percurso, entre “andanças
aquilombadas”, que nos aproximamos
do Quilombo dos Flores, liderado por
Geneci Flores em Porto Alegre. Este
texto se desdobra entre vivências,
memórias e as relações comunitárias
3
Aqui cabe sinalizar que este texto resulta da
dissertação “Oralituras das Ìyálodès na luta
pela produção do espaço urbano quilombola
em Porto Alegre”, cujo processo se
desenvolveu entre 2022 e 2024 no Programa
de Pós-Graduação em Planejamento Urbano e
Regional da UFRGS. A aliança entre nós,
orientanda e orientadora, foi forjada pela
diferença na cor da pele e, ao mesmo tempo,
pelo mesmo entendimento sobre as exigências
ético-políticas que se afiguram em pesquisas
que buscam modos colaborativos e não
extrativistas de fazer ciência. Neste sentido, as
vivências no território quilombola foram
que esse território estabelece com a
cidade.
A base da luta quilombola é a
luta pelo direito à terra: embora a
Constituição Federal de 1988 “garanta”
o direito à terra quilombola, na prática,
a emissão dos títulos não se concretiza.
A morosidade desses processos impõe
a esses territórios um estado constante
de vulnerabilidade, submetendo suas
comunidades a violências psicológicas,
morais e sicas diante da iminência de
despejos, remoções forçadas e
ameaças à vida. A família Flores está
no território aproximadamente
cinquenta anos, e o processo de
titulação iniciou apenas em 2014. Ainda
sem a segurança da terra em mãos, o
quilombo enfrenta desafios constantes,
como tentativas de apropriação do
espaço e estigmatização da vizinhança.
Após um episódio de esbulho
possessório
4
causado por uma
realizadas somente por Nathália, ainda que
todo o processo tenha sido amplamente
discutido durante as orientações da pesquisa.
4
Esbulho possessório é um termo jurídico que
se refere à situação em que alguém é privado
da posse de um bem ou propriedade de forma
ilegítima, ou seja, é despojado da posse de um
bem contra a sua vontade e sem a devida
autorização legal. No caso das comunidades
quilombolas, o termo é utilizado,
principalmente, para referir-se a situações nas
quais as comunidades são despejadas ou
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
instituição de educação privada vizinha,
que usurpou e desconfigurou
significativamente a área do terreno, as
pessoas que habitam o quilombo
uniram esforços com outras
comunidades e movimentos sociais,
que enfrentam desafios semelhantes
relacionados ao direito à terra, para
continuar no território.
Nêgo Bispo (2023), líder
quilombola, ensina-nos que a terra não
nos pertence: somos s que
pertencemos a ela. Entendemos com
Bispo a diferença entre o “bem viver” e
o “viver bem”. Enquanto o “bem viver”
se refere ao saber orgânico da vida,
relacionado ao envolvimento com o ser
e à valorização da coletividade,
impulsionada pelo aquilombamento, o
“viver bem” está relacionado ao
conhecimento sintético, que valoriza a
posse material e o capital. Geneci
Flores
5
, atual liderança do Quilombo
dos Flores, faz eco às palavras de Nêgo
Bispo quando diz que o território dos
Flores é seu próprio umbigo, um
espaço de valor ancestral. Um território
que, atualmente, se estende para além
da demarcação, subvertendo a lógica
sofrem alguma ação sobre a terra de forma
ilegal ou injusta.
privada de cidade para algo mais
profundo, voltado para o uso
comunitário.
Além da falta de coletividade, na
perspectiva colonial, temos também a
falta de envolvimento com aquilo que
não é concreto, o que não está escrito
ou não está visto. Durante a
experiência de pesquisarCOM
(Moraes, 2014), entendemos que,
diferente das narrativas ocidentais que
privilegiam a linguagem discursiva
escrita, os povos africanos têm a
ancestralidade relacionada a todas as
suas práticas sociais. Não dependem
somente da linguagem escrita como
modo de transmissão de
conhecimento, mas têm como cerne a
inscrição das grafias performadas pelo
corpo e pela oralidade (Martins, 2021;
Bispo dos Santos, 2023).
Este texto tem a intenção de
discutir os caminhos percorridos
durante uma experiência de pesquisa
com Geneci Flores, refletindo sobre
como a narrativa enquanto abordagem
metodológica contribui para a
compreensão e valorização das
práticas coletivas, da resistência
5
Geneci Flores autorizou o uso de voz e
imagem no corpo do presente texto.
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memória do corpo negro. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de
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quilombola e das práticas de cuidado
que emergem nesses territórios
urbanos. Por meio da narrativa e da
oralidade, buscamos também apontar
para a potência dessas metodologias
no contexto acadêmico relacionado aos
estudos urbanos, uma vez que acionam
um tipo de produção do conhecimento
que se a partir das experiências
vividas com comunidades quilombolas,
em uma relação dialógica que
reconhece a diferença em suas
diferentes dimensões.
Corpo, memória e narrativa
Nosso conhecimento é moldado
pelas histórias que ouvimos. Quanto
maior for a quantidade, os
encantamentos (Simas, 2019) e os re-
dizeres (Cabral et al., 2021)
6
dessas
histórias, mais completa se torna a
nossa compreensão sobre a vida, além
da construção de memórias e de
saberes. A escrita, um instrumento de
inscrição da memória, é considerada o
modo de expressão mais valorizado do
Ocidente. Nessa linha de raciocínio,
6
Neste texto de Ana Cabral Rodrigues, em
conjunto com outras coautorias o redizer nos
remete a uma operação tecida por “diferentes
linguagens, superfícies, temporalidades:
enquanto rasura e resto; enquanto recusa a um
reencontro com um mesmo e rastros dos não-
ditos, entreditos, do sem-nome (GPMC, 2018);
segundo Leda Martins (2021), os meios
de conhecimento e de preservação da
memória, disseminados pela
hegemonia ocidental, concentram-se
em livros, museus e documentos
escritos. Com ênfase em um único
modo de transmissão do saber, são
elaboradas estratégias de exclusão e
apagamento dos saberes de outros
povos, que privilegiam outras formas de
expansão e fixação de conhecimento,
que para os europeus, eram
“considerados hereges e indesejáveis”
(Martins, 2021, p.34).
Em resposta a essas tentativas
de apagamento do povo negro,
Chimamanda Ngozi Adichie (2019)
chama a atenção para o “perigo da
história única”, alertando para os riscos
que surgem quando acreditamos em
narrativas influenciadas pelo princípio
de nkali, um substantivo africano que
significa “ser maior do que o outro”.
Esses dizeres, a partir de lugares de
poder, na maioria das vezes, não
refletem a realidade de um povo em sua
complexidade.
enquanto abertura, incompletude, um ‘sempre
por se fazer’ e também jogo palavrório, como
uma parlenda ou perlenga que nos inscreve
(corpos e dizeres) tanto em travessias e
travessuras das palavras, quanto em suas
disputas.” (2021, p. 119).
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[...] comece a história com as
flechas dos indígenas
americanos, e não com a
chegada dos britânicos [...]
comece a história com o
fracasso do Estado africano, e
não com a criação colonial do
Estado africano, e a história
será completamente diferente
(Adichie, 2019, p. 23).
Apesar de todas as formas de
repressão e de demonização de outras
culturas, disseminadas pelo
colonialismo, por meio de um
continuum (Nascimento, 2021) de
resistências, a memória e as histórias
vinculadas ao corpo negro não são
estáticas, elas atualizam-se em uma
série de práticas corporais e
ritualísticas (Touam Bona, 2020). Ao
longo de um tempo que elegeu contar-
se pela perspectiva colonialista, essas
práticas garantiram a sobrevivência de
uma corporificação de memória e de
saberes, que resistiram ao domínio
colonial, “seja por camuflagem, por sua
transformação, seja por inúmeros
modos de recriação” (Martins, 2021, p.
35).
Os conhecimentos trazidos
oralmente são importantes para a
elaboração epistêmica africana, na qual
a oralidade é dominante, mas não é
exclusiva no campo do conhecimento
cultural, pois o corpo também assume
um lugar importante. Nessa via de
raciocínio, Leda Martins traz o sentido
da palavra oraliturizada, que “se
inscreve no corpo e em suas
escansões. E produz conhecimento.”
(2021, p. 32). A poética que se forma
entre um repertório oral e corporal
constitui a oralitura enquanto
linguagem e saber.
A oralitura vai além da
transmissão pela fala, ela envolve
aspectos performáticos, corporais,
rítmicos e simbólicos fundamentais
para a comunicação e a preservação
da memória coletiva e afrodiaspórica.
Ou seja, a oralitura não é apresentada
somente pela palavra proferida, mas
também por outros aspectos narrativos
de composição dessa possibilidade de
narrar, que está ligado à gestualidade,
musicalidade, visualidade e
sonoridades expressas pelo corpo.
A linguagem vinda das
manifestações vocais e corporais
reativa memórias do corpo, que se
manifestam em práticas culturais e
sociais, e que “oferecerão o antídoto à
zumbificação escravista” (Touam Bona,
2021, p. 23). O corpo e a voz assumem
um modo de expressão,
empoderamento e transmissão de
conhecimento, pois, através deles,
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
expressamos quem somos, o que nos
move, o que nos forma, e também o
que nos compreende enquanto grupo e
comunidade (ibidem, 2021).
Grafar o saber não era, então,
sinônimo de domínio de um
idioma escrito alfabeticamente.
Grafar o saber era, sim,
sinônimo de uma experiência
corporificada, de um saber
encorpado, que encontrava
nesse corpo em performance
seu lugar de ambiente de
inscrição. Dançava-se a
palavra, cantava-se o gesto,
em todo movimento ressoava
uma coreografia de voz, uma
partitura de dicção, uma
pigmentação gratificada da
pele, uma sonoridade de cores
(Martins, 2021, p.36).
À margem de uma produção
urbana contemporânea que continua a
homogeneizar e a invisibilizar as
expressividades negras, a mulher
negra e quilombola atravessa padrões
discriminatórios de um Estado que
produz a mortificação da vida negra
(Mbembe, 2018). Esses padrões
disparam a necessidade de que elas
adotem ações de empoderamento
baseadas na ancestralidade, que
amparam seus corpos conforme o
contexto em que estão inseridos, seja
ele urbano, político, comunitário, seja
no território quilombola.
Diante da multiplicidade de
agenciamentos urbanos, uns baseados
no capital, outros na sobrevivência, é
necessário compreender a realidade da
cidade “como um campo discursivo em
permanente disputa” (Caron et al.,
2020, p. 62). Precisamos nos apoiar em
elementos analíticos que nos permitam
ver modos de existência, pessoas,
comunidades e organizações que têm
sido silenciadas. Para tal, o ato de
escuta se torna um elemento basilar
para compreender a complexidade
urbana dos territórios, exigindo atenção
ampliada às diferentes dimensões que
constituem o ato de narrar.
Deste modo, em consonância
com a perspectiva da oralitura,
assumimos a narrativa como
abordagem teórico-metodológica,
buscando realizar um esforço crítico
que abra passagem para as
discursividades que foram e, ainda
hoje, são deliberadamente aniquiladas
pelas forças coloniais em permanente
atualização. Entendemos o ato de
narrar como um fazer conjunto que
exige, sobretudo, um reposicionamento
ético e político de quem pesquisa. E
assim, sustentar alianças que evoquem
projetos societários que se pautem pela
ruptura de um regime discursivo que
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memória do corpo negro. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de
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instaura modos exploratórios, racistas e
patriarcais de fazer cidade.
Na experiência de pesquisa com
o Quilombo dos Flores, evocamos
modos de narrar com mulheres negras
para compreender os conflitos e as
tensões provocadas pelo sistema
mundo moderno-colonial (Quijano,
2005). Quando aliada à palavra
oraliturizada, expressa pelo corpo e
pela voz como linguagem, a
experiência de pesquisa abre
passagem para memórias
afrodiaspóricas como expressão da
experiência, entendidas aqui como
teoria de luta para os estudos urbanos
(Caron et al., 2020).
Ao longo da pesquisa com estas
mulheres, pudemos aprofundar a
compreensão do processo de
transmissão implicado na narrativa,
acolhendo com a oralitura os gestos,
ritmos, formas e sons inscritos no
corpo, e que ressignificam as memórias
e experiências negras. Na aproximação
e convívio com essa oralidade,
ancestral e ao mesmo tempo cotidiana,
7
As comunidades negras têm o seu
funcionamento a partir da mãe, da avó, da tia
ou da matriarca, ocupando o eixo estruturante
das relações. Portanto, para abarcar essa
significância, trazemos a simbologia da
evocada corporal e performaticamente,
forjamos um tipo de pesquisa que
busca lugar na experiência
compartilhada das vivências com o
quilombo.
Em correspondência com elas, as
Ìyálodès
A escolha de uma experiência
de pesquisa junto às Ìyálodès
7
mulheres do quilombo dos Flores não
estava clara desde sempre, tampouco
tínhamos conhecimento sobre a
potência delas como figuras de
liderança. Essas definições foram
emergindo por meio de um processo
que não se encerra, que é cíclico e se
repete ao longo de um continuum de
vivências experienciadas durante o
nosso pesquisarCOM (Moraes, 2014).
A aproximação junto à comunidade
exige uma postura de
responsabilidade, que impossibilita
separar a memória do nosso corpo das
trocas vividas. Dada a intenção de não
objetificar as pessoas com quem nos
relacionamos durante a experiência de
pesquisa, a preposição “comassume
Ialodê, a forma brasileira para a palavra em
iorubá Ìyálodè ou Ìyálóòde figura de
liderança política em regiões Iorubás na África,
representando também a líder entre as
mulheres.
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uma contraposição totalmente diferente
da locução “a partir de”.
A observação-participante
(Ingold, 2016) torna-se uma
possibilidade de trabalho coletivo, pois,
diferente de um método de coleta de
dados, ela assume um modo
antropológico de trabalho, que significa
‘estudar com as pessoas’ e ‘não fazer
estudos sobre elas’. A diferença está na
intenção de não buscar soluções finais,
mas outros caminhos nos quais as
trocas podem acontecer.
Esse modo de trabalho se
relaciona com a observação que vem
de dentro. Observar, nesse sentido,
não significa objetificar o outro; muito
pelo contrário, é mediante um
movimento de percepção atenta sobre
o que acontece no entorno e sobre o
que as pessoas envolvidas estão
dizendo e fazendo. É olhar, escutar e
participar e, assim, responder conforme
a nossa prática e momentos da vida.
Por essa razão, a observação-
participante estabelece um modo de
aprendizagem compartilhado.
Quando estamos no quilombo e
com a comunidade, escolhemos viver
“intencionalmente com os outros”
(Ingold, 2016, p. 408), como parte do
cotidiano da vida das pessoas
envolvidas, acionando uma prática de
correspondência com a outra. O termo
“correspondência” é utilizado para
designar uma composição de
movimentos que, à medida que se
desenrolam, respondem
concomitantemente uns aos outros.
Desse modo, a observação-
participante com a Geneci Flores, nas
entrelinhas do cotidiano, acontece
durante toda a experiência de
pesquisa. Sem a intenção de um rumo
ao fim preestabelecido, o processo e os
“resultados” dependem das
circunstâncias.
Para isso, é essencial
acompanhar as comunidades e as
lideranças em suas lutas cotidianas.
Isso implicou estar disponível para
apoio em questões administrativas e
organizativas que eram relevantes para
a comunidade, além do
acompanhamento em eventuais
demandas jurídicas, como audiências
públicas ou movimentos de militância
com outras comunidades quilombolas
de Porto Alegre.
O vínculo e a atitude de estar em
correspondência, sem a pretensão de
gerar “resultados” de pesquisa, não
significa perder o rigor ético do
trabalho, ou que, de alguma forma,
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
possamos nos distanciar da
problemática da proposta; ao invés
disso, significa que estamos aliadas às
pautas e às lutas da comunidade. A
disposição para esse tipo de
compartilhamento nasce com a
escuta ativa e com o tempo
compartilhado.
Além do envolvimento com o
cotidiano da comunidade em
colaboração com a liderança do
Quilombo dos Flores, Geneci Flores,
houve encontros que se desenrolaram
a partir de dispositivos geradores de
relatos, fazendo emergir memórias e
experiências de vida. A pergunta
geradora (Caron, 2017) é um
dispositivo e uma estratégia de trabalho
utilizada regularmente em atividades do
Grupo de Pesquisa Margem_Lab
(PROPUR/UFRGS)
8
. Colocada como
um dispositivo para provocar o relato, a
pergunta busca fazer emergir situações
do passado, do presente ou pretensões
para o futuro. A pergunta não tem a
função de ser respondida, mas
8
O grupo de pesquisa Margem_laboratório de
Narrativas Urbanas, vinculado ao Programa de
Pós-Graduação em Planejamento Urbano e
Regional (PROPUR) da Universidade Federal
do Rio Grande do Sul, vem construindo uma
produção do saber relacionado ao convívio e à
experiência vivida, no qual a pessoa
pesquisadora reconhece as exigências ético-
possibilita abrir caminhos para
reflexões e conversas sobre as
experiências de vida. Nesta pesquisa, a
pergunta parte deste enunciado: Para
você, quais são as táticas e estratégias
de resistência do Quilombo dos Flores
contra o racismo expresso no bairro
Glória e/ou na cidade?
Sem seguir um cronograma pré-
estabelecido sobre quais pessoas iriam
participar das dinâmicas, os encontros
ocorreram conforme os
desdobramentos do envolvimento com
o quilombo. A pergunta geradora foi
realizada com cinco pessoas e, através
dela, os relatos não seguiram um
caminho comum, pois cada pessoa tem
uma compreensão diferente sobre a
problemática colocada pela pergunta.
Em um primeiro momento, o
questionamento mostrou-se complexo
e talvez um pouco inflexível para
alguns, mas quando o contexto do
trabalho é colocado junto às nossas
vivências, à problemática e aos modos
com que o racismo pode ser expresso
políticas de uma produção do conhecimento
situada, compartilhando habilidades e recursos
intelectuais com pessoas, comunidades e
organizações que têm sido historicamente e
sistematicamente estigmatizadas e/ou
aniquiladas pelo sistema mundo moderno-
colonial em permanente atualização.
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GOMES, Nathália Pedrozo; CARON, Daniele. A narrativa na construção da
memória do corpo negro. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de
Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.76-94, set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
na cidade, emergem diferentes
situações e histórias. O dispositivo da
pergunta permite criar uma relação
dialógica com as pessoas participantes,
fazendo emergir as diversas situações
nas quais o racismo expresso na
dinâmica da cidade pode se manifestar.
As vivências, provenientes de
contextos, experiências e
oportunidades diferentes, exigem que o
ato de fabular uma pergunta geradora
seja modificado a cada momento. Os
modos de re-dizer são necessários
para que também possamos ser
entendidas.
A fala da faculdade serve para
a faculdade, mas para
comunidade, para vila, não
serve. Porque a fala é
diferente, a fala é doutorada.
Agora o meu momento de fala,
serve para a comunidade, mas
também serve para a
faculdade. Porque o pessoal da
faculdade vai falar palavras que
o pessoal da comunidade não
vai entender. Agora o que eu
falo, tanto na comunidade
quanto na faculdade eles vão
entender. Então, o quilombo
também é uma escola.
(Narradora Geneci Flores,
2024).
É nesse caminho de
remodelações e adaptações que
percebemos a inacessibilidade da
linguagem acadêmica, trazendo-nos a
necessidade de repensar o modo como
nos comunicamos. O que demonstra o
quanto uma abordagem narrativa de
pesquisa é importante para uma
atenção continuada sobre modos de
dizer sobre a vida, sobre a cidade,
sobre o mundo. Isso também faz parte
da aliança, pois a pergunta geradora é
uma camada e uma experiência que
também nos atinge enquanto
pesquisadoras.
Através dos desdobramentos da
pergunta, as pessoas envolvidas são
convidadas a refletir e a narrar sobre o
significado do quilombo e da
comunidade para si, relacionando as
mudanças no bairro que impactam na
vivência em comunidade. Essa etapa
fortalece a compreensão das relações
comunitárias entre o quilombo, o bairro
e as impressões individuais e coletivas.
Naquele contexto de convívio e
de relatos, um muro de concreto e de
altura aproximada de três metros, que
divide o terreno da comunidade,
aparece como um elemento
significativo para o quilombo. Em razão
do esbulho no território ocorrido em
2014, o muro foi construído contra a
vontade do quilombo,
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
descaracterizando metade do território
e resultando em uma série de traumas
9
.
Figura 1 Intervenção no muro. Fonte: acervo
pessoal.
O muro passa a caracterizar-se
como um novo dispositivo a partir do
qual seria possível aprofundar a
reflexão sobre o modo como o
quilombo vem sendo afetado pelas
dinâmicas de produção urbanas
racistas, tanto no contexto do entorno
imediato como na cidade como um
todo. Conforme sugestão de Geneci
Flores, esta atividade com o muro foi
vinculada a uma Festa de Natal com
crianças do quilombo. Apesar do
convívio com a comunidade e com as
crianças, a realização de alguma
atividade diretamente vinculada a elas
o estava na linha de raciocínio da
pesquisa. Diante desse desafio, a
dinâmica da pergunta geradora foi
9
O muro foi construído pela instituição de
educação privada que ocupou área utilizada
anos pelo Quilombo dos Flores.
repensada para que houvesse um
envolvimento espontâneo com o muro
no sentido metodológico.
Com a participação de quinze
crianças, entre 4 e 14 anos de idade,
adotamos uma estratégia de
intervenção no muro, buscando a
expressão das crianças por meio do
desenho com tinta, spray, pincel e o
corpo, de um modo que a pintura
pudesse ser confortável para cada uma
delas. A pergunta geradora deslocou-
se, então, de uma formulação mais
rígida para indagações mais flexíveis
que pudessem fazer emergir situações,
lembranças ou pessoas vinculadas ao
quilombo como espaço da
cotidianidade: Quando vocês estão
no Quilombo, o que vocês têm? O que
veem? O que fazem? E o que gostam?
Figura 2 Intervenção no muro. Fonte: acervo
pessoal.
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A pergunta deixou de ser uma
formulação da fala/escuta e acolhe o
corpo, o gesto, a cor e o brincar: o
resultado foi surpreendente. A maioria
das crianças frequenta o quilombo por
meio de atividades culturais realizadas
ao longo do ano, enquanto outras têm
um vínculo mais cotidiano e familiar. As
crianças também apresentaram
experiências e percepções diferentes
sobre as vivências no espaço, dando
passagem a pistas que se relacionam
com as entrelinhas teóricas da
pesquisa e os relatos produzidos
pelas dinâmicas anteriores com
pessoas adultas.
Figura 3 “Amo quilombo”. Fonte: acervo
pessoal.
É por meio de atividades como
estas que emergem memórias e
vivências dificilmente apreensíveis em
modos de pesquisa tradicional e
distanciados do cotidiano, sobretudo
quando não acolhem as subjetividades
que participam ativamente do
pensar/fazer cidade. Pela escuta ativa,
a teoria e a prática se relacionam e,
sem a intenção de apartá-las,
reconhecemos que, para além de ser
uma abordagem pertinente aos estudos
e práticas urbanas, a perspectiva da
narrativa na pesquisa nos exige
presença e abertura, em um
revezamento da palavra que nunca se
encerra.
Movimento de aproximação
Localizado no bairro Glória em
Porto Alegre, o Quilombo dos Flores
ocupa o território desde 1975, quando
Rosalina da Costa Vasconcelos, a
matriarca da comunidade, mudou-se da
Estrada dos Alpes, próxima ao
Quilombo dos Alpes, para o território,
resultado da união com Adão
Vasconcelos.
No entanto, segundo o Atlas da
Presença Quilombola em Porto Alegre
(2022), os primeiros registros sobre o
território datam de 1848, quando a área
funcionava como uma sesmaria e
pessoas escravizadas trabalhavam no
entorno. Resultado da disputa pela
terra, uma série de conflitos está
relacionada ao local. A comunidade
iniciou as reivindicações territoriais na
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década de 1980, quando ainda não
existia legislação para atender às
demandas das comunidades
quilombolas, e o pedido de usucapião
era a única alternativa.
Figura 4 Localização em Porto Alegre e
acesso do Quilombo dos Flores. Fonte: acervo
pessoal.
Mas, desde 2014, o principal
conflito tem sido a disputa judicial
contra a Fundação Marista Unidade
Assunção instituição cristã localizada
ao lado do quilombo. Mesmo sem
registro da propriedade, em 2015, a
instituição apropriou-se de parte da
área de usufruto da comunidade para
construir um estacionamento. Como
resultado, na tentativa de forçar a
remoção dos moradores, o muro foi
construído, sendo este um grande
marco e trauma nas narrativas da
comunidade. Embora nenhuma família
tenha sido removida, o muro
desconfigurou toda a dinâmica do
território.
Da união de Adão e Rosalina, já
falecidos, formaram-se cerca de 48
famílias, ainda que, atualmente,
somente a família de Geneci, composta
por ela e seus três filhos, esteja na
área. O principal desejo da família é a
titulação definitiva da terra e a
derrubada do muro, para que também
outras pessoas da família Flores
possam retornar ao território, ocupado
há mais de 40 anos.
Além de ser uma liderança
política, Geneci é a referência para a
família, pois ser ela quem está à frente
de todas as demandas da comunidade.
Ela tem participado ativamente na
militância junto aos movimentos
sociais, além de estar envolvida em
diversos projetos de desenvolvimento
social do bairro.
O vínculo com a comunidade
dos Flores iniciou durante o movimento
que chamamos de “mapeamento corpo
a corpo”. Em junho de 2023, iniciaram-
se os envolvimentos com os principais
grupos dedicados à temática social e
quilombola em Porto Alegre,
paralelamente com as atividades com o
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grupo de pesquisa Margem_lab
10
.
também o grupo de pesquisa Núcleo de
Estudos e Geografia e Ambiente
(NEGA), vinculado ao Departamento de
Geografia da Universidade Federal do
Rio Grande do Sul (UFRGS). O núcleo,
coordenado pela Profa. Dra. Cláudia
Zeferino, desempenha um papel
importante em atividades relacionadas
a todos os quilombos da capital. Além
disso, o NEGA é responsável pelo Atlas
da Presença Quilombola em Porto
Alegre (2022), lançado em novembro
de 2023, que apresenta diversas
perspectivas de compreensão e de
dinâmicas territoriais quilombolas na
cidade, permeando questões teóricas e
metodológicas, entendidas como
“epistemologias quilombolas”.
Após o mapeamento corpo a
corpo e como resultado dele, foi
possível estar presente semanalmente
no território dos Flores, por meio do
projeto de curso pré-vestibular popular
denominado “Educação Popular
Quilombola”. O projeto iniciou em junho
de 2023, com a realização de aulas
10
O Margem_lab, laboratório de narrativas
urbanas da Universidade Federal do Rio
Grande do Sul, busca convocar modos de
pesquisar o urbano capazes de acolher as
práticas e as narrativas instauradas a partir de
semanais, às quartas-feiras, no período
noturno. Nesse momento, com a
autorização da Geneci Flores, o projeto
foi submetido ao comitê de ética e
iniciamos algumas atividades junto ao
NEGA, à medida que os dias passavam
outros eventos eram sobrepostos,
atividades e projetos sociais vinculados
ao quilombo e principalmente a esta
liderança.
Um projeto importante foi o
projeto Afèfé Sise criações em
performance Afro, por exemplo, que
ocupou dois meses da vivência com o
território e está relacionado à dança,
samba e performance. As atividades do
projeto ocorriam aos sábados, com
aulas de dança afro e rodas de samba,
marcando significativamente a
importância cultural do quilombo no
bairro.
Posteriormente, abriu-se como
vivência para a pesquisa as visitas ao
projeto social Geração Tigres, onde
Geneci Flores é voluntária como
instrutora de futebol, apoiando crianças
de 6 a 15 anos de idade. As atividades
confrontos, perturbações, conflitos, desvios e
diferenças diante das heterogeneidades que
compõem a cidade. O vínculo com o grupo de
pesquisa foi essencial para o amadurecimento
do movimento de pesquisar-com.
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ocorrem aos sábados, no período da
manhã. Durante as “andanças” com a
Geneci, principalmente aquelas
relacionadas à comunidade do bairro,
pudemos observar claramente uma
rede de apoio, composta por mulheres,
algumas das quais ela considera suas
irmãs.
Na tecitura dessa rede de apoio,
revelam-se algumas pistas sobre a
rede comunitária formada no bairro,
especialmente aquelas que evidenciam
a presença das mulheres na linha de
frente. Muitas das mulheres que
cruzaram esta experiência de pesquisa
não residem no território dos Flores,
mas desempenham papéis de
liderança em seus núcleos familiares e
comunitários. Entre elas, fortalecem-se
as dinâmicas de valor comunitário e
matriarcal.
Todas as atividades sociais
relacionadas ao quilombo e aos morros
adjacentes são lideradas por grupos de
mulheres as Ìyálodès de seus
territórios. Mediante um movimento de
aquilombamento e empoderamento
que atinge outras mulheres ao redor,
essas líderes estão interconectadas.
Elas encontram-se sob um ponto em
comum, relacionado à luta pela
moradia digna, pela educação e pela
cultura de suas comunidades. Desse
modo, vista a relevância e presença
dessas mulheres na comunidade, a
pergunta geradora se desenvolve entre
os seus relatos, histórias e vivências.
Considerações finais
No decorrer do trabalho, à
medida que as relações e a
aproximação do tema aconteciam,
algumas linhas de conexão foram se
delineando. Uma delas consistiu na
construção de um caminho
metodológico que permitisse um
trabalho construído coletivamente.
Nesse sentido, partindo do movimento
de pesquisarCOM com as Ìyálodès e da
narrativa como abordagem teórico
metodológica por se tratar de uma
experiência com o corpo da mulher
negra como elemento basilar na
discussão sobre a produção de cidade
fez-se necessário a apropriação de
referenciais teóricos que falam sobre a
experiência negra diaspórica.
Os conhecimentos trazidos pela
tradição oral são importantes para a
elaboração epistêmica africana. Nos
apropriamos, então, da oralitura
(Martins, 2021) como linguagem,
relacionada à memória, ao corpo e à
voz da corporeidade afrodiaspórica,
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
para abarcar o processo de narração
quilombola durante as vivências
compartilhadas da pesquisa. Nesse
contexto, a narrativa nos coloca em
uma posição de relação com o campo
que impossibilita a separação entre
nossa vida e a comunidade. A partir de
um movimento de correspondência
com elas, a observação participante
(Ingold, 2016) entra em jogo a fim de
que a experiência seja construída
colaborativamente, onde as atividades
possam ser pensadas em conjunto.
Conforme a relação de
correspondência com a comunidade
acontecia, entendemos que é
possível desenvolver um estudo sobre
o direito ao território quilombola a partir
da convivência com o povo quilombola.
O quilombo, nesse contexto, não se
restringe a um espaço geograficamente
delimitado, mas se manifesta como um
movimento contínuo de resistência e
produção coletiva da cidade. Sua
existência desafia a lógica da
propriedade privada e reafirma a
territorialidade negra como um direito
ancestral e um modo de vida baseado
na coletividade.
A presença e atuação da Geneci
Flores não garante somente a
permanência da comunidade no
território, mas também fortalece
vínculos, promove a transmissão de
saberes e articula estratégias de
enfrentamento ao racismo estrutural.
Foi nesse percurso que se tornou
evidente que a luta quilombola não se
restringe à titulação da terra, mas
envolve também a construção de um
espaço vivo, dinâmico e vinculado à
memória e aos afetos.
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