expressamos quem somos, o que nos
move, o que nos forma, e também o
que nos compreende enquanto grupo e
comunidade (ibidem, 2021).
Grafar o saber não era, então,
sinônimo de domínio de um
idioma escrito alfabeticamente.
Grafar o saber era, sim,
sinônimo de uma experiência
corporificada, de um saber
encorpado, que encontrava
nesse corpo em performance
seu lugar de ambiente de
inscrição. Dançava-se a
palavra, cantava-se o gesto,
em todo movimento ressoava
uma coreografia de voz, uma
partitura de dicção, uma
pigmentação gratificada da
pele, uma sonoridade de cores
(Martins, 2021, p.36).
À margem de uma produção
urbana contemporânea que continua a
homogeneizar e a invisibilizar as
expressividades negras, a mulher
negra e quilombola atravessa padrões
discriminatórios de um Estado que
produz a mortificação da vida negra
(Mbembe, 2018). Esses padrões
disparam a necessidade de que elas
adotem ações de empoderamento
baseadas na ancestralidade, que
amparam seus corpos conforme o
contexto em que estão inseridos, seja
ele urbano, político, comunitário, seja
no território quilombola.
Diante da multiplicidade de
agenciamentos urbanos, uns baseados
no capital, outros na sobrevivência, é
necessário compreender a realidade da
cidade “como um campo discursivo em
permanente disputa” (Caron et al.,
2020, p. 62). Precisamos nos apoiar em
elementos analíticos que nos permitam
ver modos de existência, pessoas,
comunidades e organizações que têm
sido silenciadas. Para tal, o ato de
escuta se torna um elemento basilar
para compreender a complexidade
urbana dos territórios, exigindo atenção
ampliada às diferentes dimensões que
constituem o ato de narrar.
Deste modo, em consonância
com a perspectiva da oralitura,
assumimos a narrativa como
abordagem teórico-metodológica,
buscando realizar um esforço crítico
que abra passagem para as
discursividades que foram e, ainda
hoje, são deliberadamente aniquiladas
pelas forças coloniais em permanente
atualização. Entendemos o ato de
narrar como um fazer conjunto que
exige, sobretudo, um reposicionamento
ético e político de quem pesquisa. E
assim, sustentar alianças que evoquem
projetos societários que se pautem pela
ruptura de um regime discursivo que