quem é guiado, entre quem segue e
quem é seguido, entre quem fala e
quem é ouvido, entre quem detém as
informações e quem irá adquiri-las. E
no caso dos cães-guias, o que se
passa? Se, por um lado, historicamente
nos relacionamos com os animais de
modo a docilizá-los, a desacreditar de
suas habilidades de inteligência,
aprendizagem e comunicação, por
outro lado, quando uma pessoa cega
aceita constituir uma parceria com um
cão, precisa creditar a ele a sabedoria
na condução de seus passos e
decisões que serão por ele tomadas.
Longe de serem objetos neutros,
produtores da independência das
pessoas cegas, o cão-guia é agente e
garantia de que a pessoa cega não
estará sozinha. No caso de uma de nós,
mulher-cega-com-guia, não estar mais
sozinha, diz respeito a colocar em
xeque o isolamento que pessoas com
deficiência experimentam num mundo
corponormativo e capacitista. Tal
isolamento restringe nossas
articulações com as pessoas, com o
mundo. Neste ponto, é importante
sublinhar os efeitos que os cães-guia
produzem na cidade, nas instituições,
nas vidas de outras pessoas e,
principalmente, nas vidas das pessoas
com deficiência: são efeitos que os
colocam, é nossa afirmação, mais
próximos de ações mediadoras do que
do exercício de um guia.
A hora de voltar para casa já se
aproximava. Com duas
amigas, fui almoçar antes de
voltar. Uma delas me levaria
até o táxi... Que alívio! Aquela
tensão que parecia dizer
respeito só à minha vida, de
repente foi dividida com ela.
Uma tensão constante de não
saber o que me espera quando
circulo pela cidade com a
Pucca. Pela nossa
proximidade, por já saber dos
desafios que Pucca e eu
enfrentávamos em nossas
andanças, dessa vez eu não
precisei lançar mão de
nenhuma instrução, afinal de
contas ela já as conhecia. O
local onde eu pegaria um táxi
era a saída de um shopping.
Em geral, por ali se formava
uma fila, era um ponto onde
taxistas deixavam pessoas que
chegavam ao local e levavam
as que queriam sair. Para
minha surpresa, naquela hora
em que chegamos, não havia
fila. Chegarei rapidinho em
casa, pensei! Pensei como
alguém que vez ou outra insiste
em acreditar que os caminhos
não são feitos de atritos, de
pedras rochosas... Como se o
próprio ato de circular não
trouxesse consigo um trabalho,
uma tradução de mundo. O
primeiro taxista dos muitos que,
diferente do que acontecia de
manhã, estavam livres, não
quis fazer a corrida, disse que
não transportava cães. O
segundo pouco quis ouvir a
minha amiga a respeito da
presença do cão. À medida que