ISSN 2237-1508
PragMATIZES-Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura
Niterói/RJ, Ano 16, n. 30, jan. a dez. 2026
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
Como citar:
MANCOSO, Kaique; LYCARIÃO, Diógenes. Justiça ou vingança? O papel do discurso de ódio e do ostracismo na cultura do
cancelamento. PragMATIZES-Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 16, n. 30, p. 1-25, 2026.
DOI: https://doi.org/10.22409/pragmatizes.v16i30.69654.
1
Justiça ou vingança? O papel do discurso de ódio e do ostracismo
na cultura do cancelamento
Kaique Mancoso
1
Diógenes Lycarião
2
RESUMO: A cultura do cancelamento (CC) emergiu como um fenômeno sociocultural
dominante na era digital, remodelando fundamentalmente a capacidade de grupos e
ativistas de amplificar e disseminar rapidamente julgamentos e condenações públicas.
Este estudo investiga as dinâmicas do discurso de ódio e ostracismo em episódios de CC
envolvendo figuras públicas brasileiras, focando especificamente nos principais casos de
celebridades canceladas no Twitter/X em 2022: Monark, Deolane Bezerra, Gkay, Jade
Picon e Luísa Sonza. Metodologicamente, a pesquisa emprega uma abordagem mista que
englobou análise de conteúdo e pesquisa documental, através da qual selecionamos e
analisamos os casos aqui estudados. Após a seleção dos cinco episódios de cancelamento,
recuperamos 1.750 tweets postados durante as semanas em que cada cancelamento foi
mais discutido. Os achados revelam uma forte presença de discurso de ódio,
caracterizado por ataques e insultos direcionados às celebridades canceladas (25%).
Apesar das suposições de que o cancelamento se relaciona a debates morais ou baseados
em identidade, a análise mostrou que esses temas foram frequentemente ofuscados por
um foco em exigir penalidades (ostracismo) para os indivíduos envolvidos (24%). Os
achados contribuem para uma compreensão mais ampla da CC como um fenômeno
multifacetado, destacando seu potencial tanto para mudanças sociais democráticas
quanto para consequências sociais prejudiciais.
Palavras-chave: cultura do cancelamento; discurso de ódio; ostracismo; redes sociais;
Twitter/X.
Recebido em: 24/10/25 | Avaliado em: 21/07/26
Publicado em: 28/10/26
1
Doutor em Comunicação Social pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Docente do
Departamento de Jornalismo e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal
do Ceará. Coordenador de Comunicação e Divulgação Científica do Instituto Nacional de Ciência e
Tecnologia em Disputas e Soberanias Informacionais (INCT/DSI) e bolsista de Produtividade do CNPq
(Nível C). E-mail: lycariao-d@ufc.br. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-8924-7442.
2
Mestre em Comunicação pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Graduado em Comunicação Social,
com foco em Publicidade e Propaganda, pela FIB (Faculdades Integradas de Bauru). E-mail:
kaique.mancoso@gmail.com. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-9924-0340.
PragMATIZES, Niterói/RJ, v. 16, n. 30, jan-dez. 2026. 2
Introdução
A cultura do cancelamento (CC) emergiu como um fenômeno sociocultural
dominante na era digital, remodelando fundamentalmente a capacidade de grupos e
ativistas de amplificar e disseminar rapidamente julgamentos e condenações públicas
(Blitvich, 2022; Bouvier; Machin, 2021; Clark, 2020; Mueller, 2021; Norris, 2023;
Orlandini; Cassiano, 2021; Sá; Alberto, 2021; Saint-Louis, 2021; Simons, 2021; Tandoc et
al., 2022). O termo ganhou proeminência como uma descrição de esforços coordenados
para responsabilizar indivíduos por transgressões éticas ou morais percebidas (Ronson,
2015; Deslandes, 2018). Esses esforços são frequentemente enquadrados como uma
justiça corretiva, abordando queixas históricas e desigualdades contínuas que os
sistemas de justiça tradicionais podem falhar em abordar adequadamente (Melo;
Vasques, 2021; Mueller, 2021; Sailofsky, 2021). A exposição pública de racismo, sexismo
ou abuso através da CC são exemplos de como as plataformas digitais amplificam vozes
que poderiam permanecer não ouvidas (Bouvier; Machin, 2021; Deslandes, 2018).
No entanto, as mesmas características que tornam a CC uma ferramenta poderosa
para a justiça social, também a tornam suscetível ao mau uso. A disseminação rápida de
informações, frequentemente acompanhada por apelos emocionais e enquadramentos
sensacionalistas, pode levar a uma reação desproporcional contra indivíduos. O
anonimato proporcionado pelas plataformas digitais exacerba ainda mais essa questão,
permitindo que os usuários participem de campanhas sem assumir a responsabilidade
por suas ações. Consequentemente, a CC corre o risco de se tornar uma forma de
vigilantismo digital, onde a busca por justiça é ofuscada por excessos punitivos e
vinganças (Blitvich, 2022; Simons, 2021). A internet, particularmente plataformas como
o Twitter/X
3
, amplificou esse fenômeno transformando queixas isoladas em campanhas
virais com consequências de longo alcance, incluindo o ostracismo de indivíduos visados
(Deslandes, 2018).
Enraizada em práticas históricas de ostracismo e humilhação pública, a CC reflete
tendências sociais de punir transgressões através de mecanismos coletivos (Anderson-
3
A rede social Twitter teve seu nome alterado para X, em julho de 2023. Para fins acadêmicos - e
considerando o termo mais popular - utilizaremos nessa pesquisa tanto o nome antigo Twitter quanto o
atual X, ou seja, Twitter/X. Cf. Twitter muda de nome e agora se chama ‘X’; plataforma vai incluir funções
de mensagens e pagamentos. Disponível em: https://www.estadao.com.br/link/empresas/musk-anuncia-
twitter-se-tornara-x-plataforma-nprei/. Acesso em: 13 jun. 2024.
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Lopez; Lambert; Budaj, 2021; Blitvich, 2022; Sá; Alberto, 2021; Saint-Louis, 2021; Tandoc
et al., 2022; Velasco, 2020). Enquanto o ostracismo nas sociedades antigas servia como
meio de manter a ordem social, a CC na era digital transformou esse conceito, permitindo
que coletivos anônimos exerçam influência sem precedentes. Outra preocupação comum
em relação à CC é sua associação frequente com discurso de ódio, que é caracterizado por
expressões de hostilidade, desrespeito ou desprezo em relação a indivíduos ou grupos
marcados por sua identidade (Sponholz, 2023). A literatura atual indica que o discurso
de ódio serve tanto como gatilho
4
à CC quanto como arma brandida contra seus alvos
(Bittencourt, 2021; Bouvier, 2020; Cook et al., 21; Fahey; Roberts; Utych, 2022; Melo;
Vasques, 2021; Norris, 2023; Orlandini; Cassiano, 2021; Sá; Alberto, 2021; Silva, 2021).
Indivíduos acusados de má conduta frequentemente enfrentam enxurradas de ataques
online, incluindo ameaças, insultos e difamação (Blitvich, 2022). Essas dinâmicas borram
a linha entre responsabilidade e abuso, levantando questões sobre as implicações éticas
da CC como forma de justiça pública.
Embora "cultura do cancelamento" tenha sido reconhecida como a palavra do ano
em 2019 pelo Dicionário Macquarie, a pesquisa nessa área ainda está em estágios iniciais.
Uma revisão sistemática da literatura (RSL) de artigos acadêmicos sobre o tópico,
publicados em inglês, português e espanhol, revela que estudos neste campo começaram
em 2020 (Mancoso et al., 2023). Até março de 2022, 29 artigos haviam sido publicados.
No entanto, entre os 24 artigos analisados, apenas 11 abordam efetivamente pelo menos
um episódio específico da cultura do cancelamento. Os 13 restantes são análises
puramente conceituais. No Brasil, sete artigos em português foram identificados, mas
apenas dois incluem investigações empíricas (Mancoso et al., 2023).
Apesar disso, há uma percepção crescente de que tais fenômenos estão se
tornando cada vez mais prevalentes no país (Folha De São Paulo, 2020; Gomes, 2020;
Rufino, 2022; Teixeira, 2020). Dada a escassez de pesquisas empíricas sobre este assunto
no Brasil e no mundo, este estudo investiga as dinâmicas do discurso de ódio e ostracismo
em episódios de CC envolvendo figuras públicas brasileiras. Especificamente, foca em
casos de celebridades canceladas no Twitter/X em 2022: Monark, Deolane Bezerra, Gkay,
4
O termo 'gatilho' é aqui empregado no sentido de fator desencadeante de um episódio de cancelamento.
O termo também ganhou popularidade nas redes sociais em um sentido mais específico, associado a
conteúdos que provocam reações emocionais intensas ou traumáticas (daí a expressão 'trigger warning',
ou aviso de gatilho). O uso feito neste artigo refere-se ao sentido mais amplo – a causa ou o estopim que
inicia um cancelamento –, e não necessariamente ao sentido psicológico-emocional popularizado nas redes.
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Jade Picon e Luísa Sonza. Estes casos foram selecionados com base em sua proeminência
na mídia digital e sua relevância para debates contemporâneos sobre CC.
A metodologia integra métodos digitais (Rogers, 2013), pesquisa documental
(Mcculloch, 2019; Sá-Silva et al., 2009) e análise de conteúdo (Neuendorf, 2002;
Krippendorff, 2016) para garantir seleção de casos de cancelamento relevantes e devidas
análises confiáveis. Os métodos digitais, na acepção de Rogers (2013), consistem em
explorar os próprios dispositivos nativos do ambiente digital – como APIs, hashtags e
mecanismos de indexação das plataformas – como instrumentos de pesquisa, em vez de
simplesmente migrar para o ambiente online técnicas concebidas para contextos offline.
No presente estudo, essa abordagem se traduziu na recuperação de tweets diretamente
pela API do Twitter/X e no uso de hashtags e palavras-chave associadas a cada figura
pública como critérios de busca (detalhado na seção 3.1), permitindo capturar o discurso
tal como ele naturalmente circulou na plataforma, sem intermediação de instrumentos
externos como questionários ou entrevistas.
Por meio da estratégia metodológica, procedeu-se à análise de artigos jornalísticos
sobre "celebridades canceladas em 2022", o que possibilitou a seleção e o estudo dos
cinco episódios de cancelamento de maior relevância. Esta abordagem possibilita um
exame abrangente das interações no Twitter/X durante os episódios de cancelamento,
compreendendo a prevalência e o impacto do discurso de ódio e do ostracismo. Após a
seleção dos 5 episódios de cancelamento, recuperamos 1.750 tweets postados durante as
semanas em que cada episódio de cancelamento foi mais discutido.
Os achados revelam uma forte presença de discurso de ódio, caracterizado por
ataques e insultos direcionados às celebridades canceladas (25%). Apesar das suposições
de que o cancelamento se relaciona a debates morais ou baseados em questões de
identidade, a análise mostrou que esses temas foram frequentemente ofuscados ao
darem espaço para exigências de penalidades aos indivíduos envolvidos (24%). Os
achados contribuem para uma compreensão mais ampla da CC como um fenômeno
multifacetado, destacando seu potencial tanto para mudanças sociais democráticas
quanto para consequências sociais prejudiciais.
Este artigo está organizado da seguinte forma: a próxima seção explora
intersecções teóricas e implicações da cultura do cancelamento, do discurso de ódio e do
ostracismo. A seção metodológica delineia o desenho da pesquisa, incluindo a seleção dos
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casos e as técnicas analíticas. A seção subsequente apresenta achados derivados de nossa
análise de conteúdo dos 5 episódios selecionados de cancelamento. Finalmente, a seção
conclusiva interpreta os resultados, abordando suas implicações societárias e
acadêmicas mais amplas, enquanto também propõe direções para pesquisas futuras
baseadas nas limitações do presente estudo.
A relação entre cultura do cancelamento, discurso de ódio e ostracismo
A cultura do cancelamento (CC) tornou-se um fenômeno definidor da era digital,
caracterizada por ações coletivas para expor e punir indivíduos – tipicamente figuras
públicas – cujos comportamentos ou declarações são considerados socialmente
inaceitáveis. Emergindo proeminentemente em plataformas como o Twitter/X, a CC
aproveita a velocidade e a viralidade da comunicação online para mobilizar campanhas
direcionadas à condenação. Em seu núcleo, a CC busca responsabilizar indivíduos por
transgressões contra normas e valores sociais.
Originando-se como uma forma de ativismo digital, a CC inicialmente serviu como
plataforma para grupos marginalizados combaterem questões sistêmicas como racismo,
sexismo e outras formas de discriminação (Clark, 2020; Tandoc et al., 2022). Movimentos
como o Black Twitter exemplificam esse potencial para mudanças sociais positivas,
usando esforços coletivos para amplificar vozes minoritárias e desafiar estruturas de
poder arraigadas (Barrera; Aramburu, 2020; Clark, 2020; Cook et al., 2021; Fahey;
Florini, 2014; Roberts; Utych, 2022; Sailofsky, 2021; Saint-Louis, 2021).
No entanto, os mecanismos da CC não estão livres de críticas. Lemos (2020)
compara os cancelamentos em massa às multidões de revoluções históricas incitadas por
discursos demagógicos, dispostas a cometer violências e injustiças sob o automatismo de
reações em manada – um sentido de 'multidão' associado à diluição da responsabilidade
individual e ao enfraquecimento do julgamento nuançado, e não à mobilização coletiva
legítima em torno de causas sociais. Atitudes socialmente inaceitáveis que desencadeiam
cancelamento podem variar desde ações manifestamente prejudiciais, como discurso de
ódio e apropriação cultural, até infrações mais nuançadas como opiniões controversas.
Duas dinâmicas centrais atravessam esses episódios de cancelamento: o discurso
de ódio e o ostracismo. O discurso de ódio desempenha um papel duplo nas dinâmicas da
CC: serve como gatilho para o cancelamento ou como arma brandida contra aqueles
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visados. Definido como expressões que incitam violência, discriminação ou hostilidade, o
discurso de ódio é um elemento pervasivo da CC. A pesquisa destaca como tal retórica
alimenta a indignação, motivando indivíduos a participar de campanhas de cancelamento
enquanto simultaneamente intensifica a hostilidade enfrentada pelos cancelados
(Bouvier, 2020; Cook et al., 2021).
Em espaços digitais, o discurso de ódio manifesta-se como ataques pessoais,
insultos e comentários depreciativos direcionados a desacreditar e isolar indivíduos
(Bouvier, 2020; Cook et al., 2021). O caso do YouTuber Júlio Cocielo exemplifica esse
fenômeno: seu comentário racialmente insensível durante a Copa do Mundo de 2018
desencadeou reação generalizada, levando a uma onda de respostas cheias de ódio que
se estendeu além da crítica para ameaças e difamação (Silva, 2021). Acadêmicos como
Bittencourt (2021) alertam que a prevalência do discurso de ódio mina o potencial
construtivo da CC, pois campanhas frequentemente escalam para trocas agressivas e
improdutivas.
Paralelamente ao discurso de ódio, a CC também se apoia fortemente no
ostracismo como mecanismo de punição. O ostracismo, entendido como exclusão
deliberada de indivíduos de comunidades sociais ou profissionais, é outra consequência
significativa da CC (Anderson-Lopez; Lambert; Budaj, 2021; Bittencourt, 2021; Camilloto;
Urashima, 2020; Melo; Vasques, 2021; Norris, 2023; Saint-Louis, 2021; Simons, 2021;
Tandoc et al., 2022). Práticas históricas de ostracismo, como execuções públicas e prisão,
ressoam com práticas digitais contemporâneas, onde a pressão coletiva leva à
marginalização social e econômica dos cancelados (Anderson-Lopez, Lambert; Budaj,
2021).
No contexto da CC, o ostracismo frequentemente implica a perda de emprego, de
posição pública e/ou de seguidores online, refletindo um esforço sistemático para apagar
a influência do indivíduo (Norris, 2023; Saint-Louis, 2021). Enquanto proponentes da CC
veem o ostracismo como penalidade legítima por violações morais ou éticas, críticos
destacam suas ramificações psicológicas e sociais. Estudos indicam que indivíduos
cancelados frequentemente experimentam estresse significativo, incluindo ansiedade,
depressão e alienação (Sá; Alberto, 2021). Além disso, a natureza volátil e performativa
das campanhas de CC sugere que as medidas punitivas impostas são frequentemente
mais simbólicas que substantivas, falhando em efetuar mudança social significativa
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(Bittencourt, 2021).
A combinação entre discurso de ódio e ostracismo levanta, por fim, questões éticas
mais amplas sobre a legitimidade da responsabilização digital. A interação entre CC,
discurso de ódio e ostracismo levanta questões críticas sobre a ética e eficácia da
responsabilização digital. Embora a CC tenha o potencial de promover justiça social ao
amplificar vozes marginalizadas, sua dependência de mecanismos punitivos e retórica
movida por ódio frequentemente mina seus objetivos declarados. Como Teixeira (2020)
observa, a CC encarna um paradoxo: aspira à justiça, mas frequentemente perpetua dano
através de punição excessiva e indiscriminada.
As implicações da CC estendem-se além de casos individuais para dinâmicas
sociais mais amplas. A tendência de campanhas de cancelamento de focar em resultados
punitivos em vez de diálogo e reforma reflete uma mudança cultural em direção à justiça
performativa. Essa mudança não apenas corrói oportunidades para engajamento
construtivo, mas também reforça um clima de medo e conformidade, onde indivíduos
hesitam em expressar opiniões dissidentes por medo de serem cancelados (Ronson,
2015). Esse mecanismo dialoga diretamente com a teoria da espiral do silêncio,
formulada originalmente por Noëlle-Neumann na década de 1970 (Noelle-Neumann,
2017), segundo a qual indivíduos tendem a suprimir opiniões percebidas como
minoritárias por temerem o isolamento social decorrente da desaprovação coletiva. Na
cultura do cancelamento, esse efeito parece intensificado pela visibilidade e permanência
das redes sociais, que tornam a punição pela dissidência não apenas mais provável, mas
também mais pública e duradoura – ampliando o potencial silenciador sobre vozes
divergentes.
A relação da cultura do cancelamento com discurso de ódio e ostracismo ressalta
sua natureza multifacetada como tanto ferramenta de responsabilização quanto fonte de
dano. Embora a CC tenha promessa como mecanismo para abordar injustiças sociais, sua
dependência de táticas agressivas e excludentes requer uma reavaliação de seus métodos
e objetivos. Avançando, uma abordagem mais nuançada à responsabilização digital - que
enfatize diálogo, resposta proporcional e justiça restaurativa - pode oferecer uma
estrutura mais ética e eficaz para abordar transgressões sociais.
À luz disso, este estudo foi concebido baseado na seguinte questão de pesquisa:
QP: Qual é a magnitude do discurso de ódio e ostracismo (demandas por
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penalidades) em episódios de cancelamento envolvendo celebridades brasileiras?.
Metodologia
Esta seção descreve o quadro metodológico adotado para investigar as dinâmicas
da cultura do cancelamento, focando no discurso de ódio e ostracismo através da lente de
cinco casos de cancelamento de alta visibilidade de figuras públicas brasileiras no
Twitter/X em 2022. A metodologia integra métodos digitais (Rogers, 2013), pesquisa
documental (Mcculloch, 2019; Sá-Silva et al., 2009) e análise de conteúdo (Neuendorf,
2002; Krippendorff, 2016) para garantir seleção de casos de cancelamento relevantes e
devidas análises confiáveis.
O desenho metodológico mais amplo desta investigação também incluiu análise
de redes sociais (grafos de interação e coocorrência de hashtags), cujos resultados
extrapolam o escopo deste artigo e serão explorados em publicação futura. Aqui, o foco
recai exclusivamente sobre os achados da análise de conteúdo.
O estudo identificou e selecionou cinco casos de cancelamento baseados em três
critérios principais:
1. Os indivíduos eram figuras públicas no Brasil.
2. Os episódios de cancelamento ocorreram em 2022.
3. Os incidentes geraram atenção significativa tanto no Twitter/X quanto na mídia
mainstream.
Uma fase inicial de pesquisa documental identificou os dez casos de cancelamento
mais mencionados em matérias jornalísticas sobre 'famosos cancelados em 2022': Cássia
Kis, Gkay, Deolane Bezerra, Monark, Léo Lins, Antônia Fontenelle, Tirullipa, Jade Picon,
Luísa Sonza e Zé Neto. A partir dessa lista, o critério para a seleção dos cinco casos aqui
estudados foi o volume de publicações no Twitter/X durante a semana de cada
cancelamento – ou seja, as cinco figuras públicas com maior repercussão mensurável na
plataforma foram as selecionadas: Monark (8.311 tweets), Deolane Bezerra (6.346), Gkay
(2.853), Jade Picon (2.339) e Luísa Sonza (1.140). Esse critério quantitativo e replicável
garante que a amostra reflita os episódios de cancelamento com maior repercussão social
mensurável na própria plataforma estudada, embora, como discutido a seguir, essa
métrica também tenda a privilegiar figuras cuja notoriedade já está fortemente ancorada
no ambiente digital.
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Os casos selecionados são os seguintes:
Monark: Um podcaster cancelado após defender a legalização de um partido
político nazista durante uma transmissão ao vivo
5
, que levou à indignação pública e sua
remoção do Flow Podcast.
Deolane Bezerra: Uma advogada e influenciadora criticada por seu
comportamento agressivo e comentários ofensivos durante o reality show A Fazenda.
Gkay: Uma influenciadora digital cujos comentários controversos e disputas na
televisão e redes sociais desencadearam uma onda de críticas.
Jade Picon: Uma participante do Big Brother Brasil 22, que enfrentou reação
negativa por sua arrogância percebida e comportamento egocêntrico.
Luísa Sonza: Uma cantora cujo incidente passado envolvendo comentários
racialmente insensíveis ressurgiu em 2022, reacendendo críticas.
Os episódios levantados destacam gatilhos variados de cancelamento, desde
comentários ofensivos explícitos até falhas de personalidade percebidas, refletindo a
natureza multifacetada da cultura do cancelamento.
É importante notar que a maioria das figuras selecionadas construiu sua
visibilidade pública majoritariamente no próprio ambiente digital: Monark ascendeu
como podcaster no YouTube; Gkay consolidou sua carreira como influenciadora e
comediante nas redes sociais antes de migrar para a televisão; e Jade Picon tornou-se
conhecida como digital influencer no Instagram antes de sua participação no Big Brother
Brasil. Luísa Sonza e Deolane Bezerra, por sua vez, têm trajetórias parcialmente distintas:
Sonza consolidou-se pela indústria fonográfica mainstream, e Deolane Bezerra ganhou
notoriedade nacional a partir de sua exposição na mídia tradicional associada ao
falecimento de seu então marido, o cantor MC Kevin, migrando para o ambiente digital
apenas posteriormente. Essa concentração de casos entre figuras cuja fama foi
constituída, ao menos parcialmente, no próprio ambiente das redes sociais constitui uma
limitação a ser considerada: figuras públicas cuja visibilidade se consolidou em arenas
mais institucionalizadas ou mainstream – como a indústria cultural tradicional, a política
ou o jornalismo – podem dispor de estruturas de suporte (assessorias de imprensa,
5
A declaração pode ser vista através do vídeo "Veja o corte do Monark no flow com a Tabata Amaral e o
Kim Kataguiri". Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=WaFBYWLHCXE. Acesso em: 14 jun.
2024.
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contratos institucionais, redes profissionais consolidadas) que oferecem maior
resistência aos efeitos do cancelamento, uma dinâmica que este estudo não captura
plenamente. Pesquisas futuras poderiam comparar diretamente esses dois perfis para
investigar se a origem da fama – nativa digital versus mainstream/institucional – modula
a intensidade ou a duração dos efeitos do cancelamento.
Coleta de Dados
O Twitter/X serviu como plataforma principal para coleta de dados, dada sua
proeminência na formação do discurso público em torno dos casos selecionados. O
processo de coleta de dados envolveu os seguintes passos:
1. Identificação de palavras-chave: Palavras-chave relevantes, incluindo os nomes
das figuras públicas e hashtags associadas, foram identificadas para localizar tweets
relacionados aos eventos de cancelamento.
2. Recuperação via API
6
: Os tweets foram recuperados usando a API do Twitter/X,
focando nas semanas de pico das discussões públicas de cada caso para capturar as
interações mais ativas e relevantes.
3. Filtragem: Retweets, respostas genéricas e posts não-textuais foram excluídos
para simplificar o conjunto de dados e enfatizar contribuições originais dos usuários.
Respostas direcionadas às contas oficiais das figuras canceladas foram mantidas, pois
frequentemente forneciam insights críticos sobre o sentimento dos usuários.
O conjunto de dados resultante foi substancial, como mostra a Tabela 1. Para cada
caso, o tamanho da amostra apresentada na Tabela 1 foi calibrado a partir de um cálculo
de dimensionamento amostral, de modo a viabilizar uma leitura e codificação manual
confiável do conjunto de tweets. Esse cálculo orientou o volume mínimo de publicações a
serem submetidas à análise de conteúdo, mas não implica amostragem aleatória: a
seleção dos tweets dentro de cada amostra seguiu um critério de relevância, ordenando
as publicações do universo filtrado por engajamento (número de retweets, curtidas e
respostas, nessa ordem) e priorizando as de maior repercussão. Tweets sem conteúdo
textual (apenas imagens ou vídeos) ou com mensagens sem sentido interpretável foram
6
API (Application Programming Interface, ou Interface de Programação de Aplicações) é um conjunto de
protocolos que permite a comunicação programática entre sistemas, possibilitando a pesquisadores
recuperar de forma sistemática e automatizada dados públicos disponibilizados pela plataforma – como o
conteúdo, a data de publicação e outros metadados dos tweets –, sem necessidade de coleta manual.
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excluídos. Trata-se, portanto, de uma amostragem por julgamento (purposive sampling),
não randômica – o que é consistente com a natureza exploratória do estudo, mas limita a
extrapolação estatística dos achados para o universo total de tweets de cada caso.
Tabela 1– Áreas recorrentes de atuação de egressos do curso.
Celebridade
Universo filtrado
Amostra
Monark
5745
400
Deolane Bezerra
3757
350
Gkay
2255
350
Jade Picon
1833
350
Luísa Sonza
768
300
Total
14358
1750
Fonte: Sistematizado pelos autores.
Análise de conteúdo
A análise de conteúdo foi empregada para avaliar sistematicamente os tweets,
seguindo a orientação metodológica de Neuendorf (2002) e Krippendorff (2016). Para
manter a consistência da análise, dois codificadores independentes foram encarregados
de categorizar tweets. Os codificadores receberam treinamento para garantir
compreensão compartilhada das variáveis.
O processo incluiu múltiplos pré-testes e refinamentos iterativos do livro de
códigos para garantir clareza e consistência nos critérios de codificação. Essas etapas
foram críticas para alcançar escores de confiabilidade aceitáveis entre os codificadores.
A análise usou uma abordagem quantitativa categorial para capturar padrões no
discurso.
Enquanto o projeto de pesquisa desenvolveu e aplicou 9 variáveis no total, o
presente artigo foca em duas variáveis principais:
1. Desrespeito: Identificando tweets contendo ataques pessoais, insultos ou
comentários depreciativos. (Kα = 0.771)
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2. Penalidades (ostracismo): Examinando tweets que defendiam ações punitivas
como boicotes, exclusão social ou repercussões profissionais contra os indivíduos
cancelados. (Kα = 0.791)
RESULTADOS
A análise dos dados coletados do Twitter/X forneceu insights críticos sobre as
dinâmicas da cultura do cancelamento, particularmente suas manifestações através do
discurso de ódio e ostracismo. Abaixo, os resultados são detalhados para cada episódio
de cancelamento. Ao final, fornecemos uma análise geral, apontando semelhanças e
diferenças entre os casos de cancelamento.
Tabela 2– Discurso de ódio e demandas de ostracismo por caso (%)
Celebridade
Discurso de ódio
Demandas de
ostracismo/penalidade
Monark
38%
49%
Deolane Bezerra
20%
30%
Gkay
14%
7%
Jade Picon
35%
11%
Luísa Sonza
14%
18%
Total7 (1750 tweets)
25%
24%
Fonte: Sistematizado pelos autores.
A análise de conteúdo revelou padrões significativos no discurso online durante
os episódios de cancelamento. O discurso de ódio, caracterizado por linguagem ofensiva,
ataques pessoais e termos desumanizadores, estava presente em uma porção substancial
dos tweets analisados, com variações baseadas na natureza da controvérsia e no
indivíduo envolvido. O estudo da análise de 1.750 tweets revelou que o discurso de ódio
7
Os valores de "Total" correspondem à média ponderada pelo tamanho da amostra de cada caso (conforme
Tabela 1), e não à média aritmética simples dos cinco percentuais.
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representou 25% do debate, variando de insultos diretos a críticas sociais mais amplas
direcionadas aos indivíduos cancelados.
O ostracismo foi igualmente significativo, com 24% dos tweets demandando
consequências tangíveis para os indivíduos envolvidos, incluindo chamados para
exclusão profissional, isolamento social e boicotes públicos. Essas demandas eram
frequentemente justificadas como medidas de responsabilização, variando de chamados
para demissões a boicotes de seu trabalho e exclusão de plataformas públicas. Por
exemplo, o caso de Monark, onde 49% dos tweets chamavam por penalidades, ilustra a
intensidade da demanda pública por exclusão profissional e social quando a transgressão
é considerada particularmente atroz.
Caso 1: Monark
Monark, cujo nome real é Bruno Aiub, é um proeminente criador de conteúdo
digital brasileiro e ex-apresentador do Flow Podcast, um dos podcasts no estilo talk show
mais populares do país. Conhecido por seus comentários sem filtros e posturas
provocativas, Monark construiu uma reputação como defensor libertário da liberdade de
expressão. Ele ganhou um seguimento significativo por suas discussões francas sobre
questões sociais e políticas, atraindo milhões de visualizadores e conquistando
patrocínios de grandes marcas.
O gatilho de seu cancelamento aconteceu em 7 de fevereiro de 2022, durante uma
transmissão ao vivo do Flow Podcast. Nesse programa, Monark argumentou pela
legalização de um partido político nazista, enquadrando-o como questão de liberdade de
expressão. Seus comentários desencadearam reação imediata por parecer trivializar as
atrocidades históricas associadas ao nazismo. A indignação pública espalhou-se
rapidamente pelas redes sociais, com usuários condenando Monark por promover ódio e
ideologias extremistas.
Monark tornou-se o ponto focal de intenso vitríolo online, com 38% dos tweets
analisados contendo discurso de ódio. Críticos o rotularam como "nazista", "fascista" e
"inimigo da democracia". A linguagem era frequentemente desumanizadora, retratando-
o como "um monstro" ou "lixo". Ataques pessoais também eram comuns, zombando de
sua percebida falta de inteligência e sobriedade com termos como "bêbado" e
"desorientado".
PragMATIZES, Niterói/RJ, v. 16, n. 30, jan-dez. 2026. 14
As demandas por ostracismo foram especialmente pronunciadas, com 49% dos
tweets pedindo penalidades tangíveis. Usuários defenderam sua remoção de plataformas
digitais, boicotes ao Flow Podcast e retirada de patrocínios. Muitos tweets foram além das
consequências profissionais, com alguns até incitando violência física contra Monark.
Esses esforços levaram a repercussões imediatas
8
, incluindo a perda de grandes
patrocinadores, demissão de Monark do Flow Podcast
9
e declínio em seus seguidores nas
redes sociais
10
.
Caso 2: Deolane Bezerra
Deolane Bezerra é advogada, influenciadora digital e socialite conhecida por sua
personalidade extrovertida e estilo de vida luxuoso. Ela ganhou proeminência nas redes
sociais por seu trabalho como advogada de defesa, bem como por seu casamento de alto
perfil com o falecido cantor de funk MC Kevin. Deolane aproveitou sua fama para
construir uma marca como influenciadora, acumulando milhões de seguidores e
garantindo parcerias com grandes marcas.
O cancelamento de Deolane desenrolou-se durante sua participação no reality
show A Fazenda
11
. Seu comportamento combativo, incluindo altercações verbais e
acusações de manipulação psicológica contra colegas participantes, provocou indignação
entre os telespectadores. Críticos a acusaram de criar um ambiente tóxico e demandaram
sua remoção do programa.
Deolane enfrentou críticas online significativas, com 20% dos tweets direcionados
a ela contendo discurso de ódio. Muitos usuários a descreveram como "tóxica", "nojenta"
e "manipuladora". Alguns tweets a acusaram de praticar "tortura psicológica", refletindo
a gravidade da percepção pública sobre suas ações no programa. A retórica era
frequentemente marcada por questões de gênero, com ataques focando em sua aparência
8
Cf. GAZETA DO POVO. YouTube cancela monetização de vídeos de Monark, ex-Flow Podcast. Disponível
em: https://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/youtube-cancela-monetizacao-de-videos-
monark-flow-podcast/. Acesso em: 15/06/24.
9
Cf. CARTA CAPITAL. Flow perde patrocinadores e demite Monark após defesa de ‘partido nazista’.
Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/sociedade/flow-perde-patrocinadores-e-demite-
monark-apos-defesa-de-partido-nazista/. Acesso em: 14 jun. 2024.
10
Cf. METRÓPOLE. Após fala sobre nazismo, Monark perdeu seguidores, mas Adrilles ganhou. Disponível
em: https://www.metropoles.com/brasil/apos-fala-sobre-nazismo-monark-perdeu-seguidores-mas-
adrilles-ganhou. Acesso em: 15/06/24.
11
Cf. POPLINE. Jogo de Deolane em “A Fazenda” pode prejudicar sua popularidade? Disponível em:
https://portalpopline.com.br/jogo-deolane-a-fazenda-prejudicar-popularidade/. Acesso em: 14 jun. 2024.
PragMATIZES, Niterói/RJ, v. 16, n. 30, jan-dez. 2026. 15
e traços de personalidade.
As demandas de penalidade centraram-se na remoção de Deolane de A Fazenda.
Aproximadamente 30% dos tweets pediam sua expulsão, com muitos usuários
aproveitando hashtags para amplificar suas demandas. Outros sugeriram que marcas se
distanciassem dela, argumentando que seu comportamento era incompatível com a
imagem de uma influenciadora digital. Apesar desses chamados, Deolane permaneceu no
programa devido a votos da audiência
12
, sublinhando as complexidades das dinâmicas de
cancelamento quando a opinião pública está dividida.
Caso 3: Gkay
Gessica Kayane, popularmente conhecida como Gkay, é uma comediante, atriz e
influenciadora digital brasileira. Ela ganhou fama através de conteúdo cômico em
plataformas de redes sociais, conquistando um grande seguimento por seu humor
relacionável e personalidade vibrante. Gkay fez a transição para a mídia mainstream com
aparições em programas de televisão e filmes, solidificando seu status como entertainer
multiplataforma.
Gkay enfrentou cancelamento após uma aparição controversa no talk show Lady
Night
13
, onde suas respostas às piadas da apresentadora foram percebidas como
defensivas e sem humor. Este incidente foi agravado por uma briga pública com o
comediante Fábio Porchat
14
, que alienou ainda mais sua audiência. A reação negativa
centrou-se em sua arrogância percebida e incapacidade de aceitar críticas,
desencadeando críticas generalizadas nas redes sociais.
Críticos atacaram Gkay com termos depreciativos como "irritante", "louca" e "sem
talento". Os tweets frequentemente zombavam de seu comportamento, enquadrando-a
como "desesperada por atenção" e "um exemplo da cultura influenciadora que deu
errado". Embora o volume de discurso de ódio (14%) fosse menor que em outros casos,
12
Cf. OBSERVATORIO DOS FAMOSOS. A Fazenda 14: Deolane volta da roça, debocha de peões e briga
generalizada é formada. Disponível em: https://observatoriodosfamosos.uol.com.br/noticias/a-fazenda-
14-deolane-volta-da-roca-debocha-de-peoes-e-briga-generalizada-e-formada. Acesso em: 15/06/24.
13
Cf. FOLHA DE SÃO PAULO. Entrevista constrangedora de Gkay no Lady Night rende críticas: 'Vergonha
alheia'. Disponível em: https://f5.folha.uol.com.br/celebridades/2022/11/entrevista-constrangedora-de-
gkay-no- lady-night-rende-criticas-vergonha-alheia.shtml. Acesso em: 15/06/24.
14
Cf. GZH TV. Entenda a polêmica envolvendo piada de Fábio Porchat sobre Gkay no Melhores do Ano da
Globo. Disponível em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/cultura-e-lazer/tv/noticia/2022/12/entenda-a-
polemica-envolvendo-piada-de-fabio-porchat-sobre-gkay-no-melhores-do-ano-da-globo-
clc4wlhad001v01cc6i0e6z7r.html. Acesso em: 14 jun. 2024.
PragMATIZES, Niterói/RJ, v. 16, n. 30, jan-dez. 2026. 16
seu tom era consistentemente severo.
As demandas de penalidade para Gkay foram relativamente silenciosas, com 7%
dos tweets defendendo consequências como término de patrocínios e desengajamento da
audiência. Usuários argumentaram que ela não merecia mais apoio público, incitando
seguidores a deixarem de segui-la nas redes sociais e marcas a cortarem laços. As
demandas de ostracismo comparativamente limitadas sugerem que a base de fãs leal de
Gkay pode ter mitigado o impacto da campanha de cancelamento.
Caso 4: Jade Picon
Jade Picon é uma influenciadora, atriz e empresária brasileira que ganhou fama
nas redes sociais por seu conteúdo de estilo de vida. Antes de sua participação no Big
Brother Brasil 22, ela havia se estabelecido como uma personalidade digital proeminente,
aproveitando sua popularidade para lançar sua própria marca de moda e seguir papéis
de atuação.
A participação de Jade no Big Brother Brasil 22 a tornou alvo de críticas devido à
sua arrogância percebida e táticas manipuladoras
15
. Telespectadores a acusaram de
explorar alianças e exibir uma atitude condescendente em relação a outros participantes.
A percepção negativa de suas ações no programa alimentou campanhas online pedindo
sua eliminação e consequências reputacionais mais amplas.
Jade enfrentou altos níveis de discurso de ódio (35%), com usuários a rotulando
como "arrogante", "egocêntrica" e "cobra". Hashtags como #ForaJadePicon tiveram ampla
tendência, amplificando as críticas. Os tweets a retrataram como um indivíduo
privilegiado desconectado da realidade, enfatizando sua riqueza e direito percebido
como fatores que exacerbaram o desdém público.
As demandas de ostracismo focaram principalmente na eliminação de Jade do
programa, com 11% dos tweets defendendo sua exclusão. Alguns usuários pediram
consequências mais amplas, incluindo boicotes à sua carreira de atuação e
empreendimentos de moda. Essas demandas destacam a interação entre cultura do
cancelamento e reality shows, onde julgamento moral frequentemente se estende além
15
Cf. METRÓPOLES. Jade Picon é cancelada na web e internautas afirmam: “Arrogante”. Disponível em:
https://www.metropoles.com/entretenimento/bbb/jade-picon-e-cancelada-na-web-e-internautas-
afirmam-arrogante. Acesso em: 14 jun. 2024.
PragMATIZES, Niterói/RJ, v. 16, n. 30, jan-dez. 2026. 17
da tela para influenciar percepções públicas da vida real dos participantes.
Caso 5: Luísa Sonza
Luísa Sonza é uma cantora, compositora e influenciadora digital brasileira
conhecida por sua música pop e persona pública ousada. Inicialmente, ela ganhou
reconhecimento como criadora de conteúdo no YouTube antes de fazer a transição para
uma carreira musical de sucesso, tornando-se uma das artistas mais transmitidas do
Brasil.
O cancelamento de Luísa originou-se de alegações ressurgidas de racismo ligadas
a um incidente de 2018 onde ela supostamente confundiu uma mulher negra com uma
funcionária em um hotel
16
. A crítica renovada em 2022 a enquadrou como símbolo de
privilégio, com usuários a acusando de falhar em assumir responsabilidade por suas
ações e perpetuar desigualdades sistêmicas.
Tweets direcionados a Luísa frequentemente incluíam termos como 'racista',
'mimada' e 'privilegiada', com 14% das publicações analisadas contendo alguma
afirmação de cunho desrespeitoso à artista. Críticos questionaram sua sinceridade em
abordar as alegações e criticaram seu privilégio como proteção contra repercussões mais
severas. De fato, a cor da pele de Luísa foi trazida para os insultos, com expressões como
'vai se f***r, garota rica branca mimada' e 'vadia branca', como observamos nos exemplos.
As demandas de penalidade incluíram boicotes à música de Luísa e exclusão de
plataformas públicas, com 18% dos tweets defendendo consequências. Alguns usuários
pediram ação legal, argumentando que seu comportamento garantia respostas mais
severas. O discurso em torno de Luísa enfatizou debates mais amplos sobre privilégio e
injustiça sistêmica, ilustrando como a cultura do cancelamento frequentemente se
intersecciona com questões sociais maiores.
Uma visão geral dos 5 casos
Embora os casos variem em intensidade e foco, eles coletivamente destacam a
relevância do discurso de ódio e ostracismo dentro da cultura do cancelamento. O
discurso de ódio frequentemente funcionou tanto como saída para indignação quanto
16
Cf. G1. Luisa Sonza é processada por suposto racismo; ela diz que 'jamais teria esse tipo de atitude'.
Disponível em: https://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2020/09/18/luisa-sonza-se-pronuncia-apos-
acusacao-de-racismo-eu- jamais-teria-esse-tipo-de-atitude.ghtml. Acesso em: 14 jun. 2023.
PragMATIZES, Niterói/RJ, v. 16, n. 30, jan-dez. 2026. 18
como ferramenta para deslegitimar o indivíduo cancelado, enquanto demandas por
penalidades refletiram um impulso compartilhado por responsabilização. Os dados
também revelaram inconsistências no desenrolar de campanhas de cancelamento,
moldadas por fatores como a natureza da ofensa, a persona pública do indivíduo e as
dinâmicas da audiência em torno do caso.
Por exemplo, o caso de Monark, marcado por extremismo ideológico, provocou os
mais altos níveis de discurso de ódio e demandas de penalidade, sublinhando a gravidade
percebida de suas ações. Conversamente, Gkay e Luísa Sonza encontraram reação
comparativamente menos severa, sugerindo que nuances contextuais e percepções da
audiência influenciam significativamente a trajetória das campanhas de cancelamento.
Discussão e conclusão
O presente trabalho foi guiado pela seguinte questão de pesquisa: Qual é a
magnitude do discurso de ódio e ostracismo em episódios de cancelamento envolvendo
figuras públicas brasileiras? Através de pesquisa documental e análise de conteúdo de
cinco casos proeminentes no Twitter/X, os achados revelaram que discurso de ódio e
demandas por ostracismo são componentes altamente visíveis da cultura do
cancelamento, demonstrando seu papel significativo na formação de campanhas de
cancelamento.
Os resultados mostraram que o discurso de ódio, caracterizado por linguagem
ofensiva, ataques pessoais e termos desumanizadores, estava presente em uma porção
substancial dos tweets analisados, com variações baseadas na natureza da controvérsia e
no indivíduo envolvido. A análise do estudo de 1.750 tweets revelou que o discurso de
ódio representou 25% do discurso, variando de insultos diretos a críticas sociais mais
amplas direcionadas aos indivíduos cancelados. Essa prevalência alinha-se com
pesquisas anteriores destacando a normalização da hostilidade em campanhas digitais
de cancelamento (Blitvich, 2022; Clark, 2020).
O ostracismo foi igualmente significativo, com 24% dos tweets demandando
consequências tangíveis para os indivíduos envolvidos, incluindo chamados para
exclusão profissional, isolamento social e boicotes públicos. Essas demandas eram
frequentemente justificadas como medidas de responsabilização, variando de chamados
para demissões a boicotes de seu trabalho e exclusão de plataformas públicas.
PragMATIZES, Niterói/RJ, v. 16, n. 30, jan-dez. 2026. 19
Por exemplo, o caso de Monark, onde 49% dos tweets pediam penalidades, ilustra
a intensidade da demanda pública por exclusão profissional e social quando a
transgressão é considerada particularmente atroz. Esses achados afirmam que a cultura
do cancelamento amplifica essas dinâmicas, frequentemente transformando espaços
digitais em arenas para adjudicação moral e punição social.
Os achados também demonstram que a cultura do cancelamento no Twitter/X
serve como fenômeno de dupla face, amplificando discurso de ódio e ostracismo como
mecanismos de responsabilização e julgamento coletivo. A magnitude desses elementos,
como evidenciado por sua presença em todos os casos, destaca o papel importante que
desempenham na formação dos resultados de episódios de cancelamento. Embora esses
mecanismos sejam frequentemente enquadrados como ferramentas de justiça, sua
execução levanta preocupações éticas sobre a proporcionalidade e justiça da punição
pública.
Assim, a cultura do cancelamento parece operar como mecanismo social
complexo, incorporando dimensões tanto democráticas quanto prejudiciais. Por um lado,
fornece plataforma para vozes marginalizadas demandarem responsabilização de
indivíduos poderosos, alinhando-se com princípios de ativismo digital e justiça social
(Blitvich, 2022; Bouvier; Machin, 2021; Clark, 2020; Mueller, 2021; Norris, 2023;
Orlandini; Cassiano, 2021; Sá; Alberto, 2021; Saint-Louis, 2021; Simons, 2021; Tandoc et
al., 2022). Por outro lado, a dependência de discurso de ódio e ostracismo punitivo revela
os aspectos mais sombrios do julgamento coletivo, onde indignação moral
frequentemente substitui diálogo e reflexão crítica.
A natureza dual da cultura do cancelamento reflete tensões mais amplas em
sociedades plataformizadas, onde a velocidade e alcance das plataformas online podem
amplificar tanto ativismo orientado à justiça quanto comportamentos tóxicos. Como
Teixeira (2020) argumenta, a disseminação rápida de informações frequentemente
resulta em julgamentos superficiais, ofuscando nuances e complexidades das questões
em questão.
Outro aspecto da cultura do cancelamento é sua natureza multifacetada,
estendendo-se além de danos reputacionais imediatos para incluir efeitos psicológicos e
sociais de longo prazo. Como Sá e Alberto (2021) observam, o ostracismo
frequentemente resulta em sentimentos de depressão, ansiedade e isolamento,
PragMATIZES, Niterói/RJ, v. 16, n. 30, jan-dez. 2026. 20
particularmente quando associado à intensidade do discurso de ódio online.
Tendo dito isso, algumas ressalvas: este estudo focou em cinco casos de figuras
públicas brasileiras no Twitter/X, o que pode limitar a generalização de seus achados.
Além disso, como discutido na Seção 3.1, a amostragem não probabilística (por
julgamento) limita a extrapolação estatística dos achados para o universo total de tweets
de cada caso. Pesquisas futuras poderiam expandir o escopo para incluir diversos
contextos culturais e de plataforma, bem como estudos longitudinais para examinar os
efeitos de longo prazo de campanhas de cancelamento. Além disso, abordagens
qualitativas, como entrevistas com indivíduos cancelados, poderiam fornecer insights
mais profundos sobre suas experiências e mecanismos de enfrentamento."
Para concluir, a cultura do cancelamento permanece como fenômeno definidor da
era digital, refletindo dinâmicas de poder e dilemas éticos de sociedades plataformizadas.
Ao amplificar ação coletiva, discurso de ódio e ostracismo, a cultura do cancelamento
funciona tanto como mecanismo de responsabilização quanto como fonte de dano. Assim,
este estudo contribui para uma compreensão nuançada da cultura do cancelamento,
destacando sua natureza dual e a necessidade de abordagens mais equilibradas à justiça
digital. Em nossa visão, fomentar uma cultura online que priorize empatia, diálogo e
reflexão crítica será essencial para navegar as complexidades da cultura do cancelamento
impulsionada por plataformas online e seu impacto na sociedade.
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PragMATIZES, Niterói/RJ, v. 16, n. 30, jan-dez. 2026. 25
¿Justicia o venganza? El papel del discurso de odio y del ostracismo en la cultura de
la cancelación
Resumen: La cultura de la cancelación (CC) surgió como un fenómeno sociocultural
dominante en la era digital, reconfigurando fundamentalmente la capacidad de grupos y
activistas para amplificar y difundir rápidamente juicios y condenas públicas. Este
estudio investiga las dinámicas del discurso de odio y del ostracismo en episodios de CC
que involucran a figuras públicas brasileñas, centrándose específicamente en los
principales casos de celebridades canceladas en Twitter/X en 2022: Monark, Deolane
Bezerra, Gkay, Jade Picon y Luísa Sonza. Metodológicamente, la investigación emplea un
enfoque mixto que abarcó análisis de contenido e investigación documental, mediante el
cual seleccionamos y analizamos los casos aquí estudiados. Tras la selección de los cinco
episodios de cancelación, recuperamos 1.750 tuits publicados durante las semanas en
que cada cancelación fue más discutida. Los hallazgos revelan una fuerte presencia de
discurso de odio, caracterizado por ataques e insultos dirigidos a las celebridades
canceladas (25%). A pesar de los supuestos de que la cancelación se relaciona con
debates morales o basados en la identidad, el análisis mostró que estos temas fueron a
menudo eclipsados por un enfoque en exigir penalidades (ostracismo) para los
individuos involucrados (24%). Los hallazgos contribuyen a una comprensión más
amplia de la CC como un fenómeno multifacético, destacando su potencial tanto para
impulsar cambios sociales democráticos como para generar consecuencias sociales
perjudiciales.
Palabras clave: cultura de cancelación; discurso de odio; ostracismo; redes sociales;
Twitter/X.
Justice or Revenge? The Role of Hate Speech and Ostracism in Cancel Culture
Abstract: Cancel culture (CC) has emerged as a dominant socio-cultural phenomenon in
the digital era, fundamentally reshaping the ability of groups and activists to rapidly
amplify and spread public judgments and condemnations. This study examines the
dynamics of hate speech and ostracism in CC episodes involving Brazilian public figures,
focusing specifically on the main cases of celebrities who were canceled on Twitter/X in
2022: Monark, Deolane Bezerra, Gkay, Jade Picon, and Luísa Sonza. Methodologically, the
research employs a mixed-methods approach encompassing content analysis and
documentary research, through which we selected and analyzed the cases examined
here. After selecting the five cancellation episodes, we retrieved 1,750 tweets posted
during the weeks when each cancellation was most discussed. The findings reveal a
strong presence of hate speech, characterized by attacks and insults directed at the
canceled celebrities (25%). Despite assumptions that cancellation is tied to moral or
identity-based debates, the analysis showed that these themes were often overshadowed
by a focus on demanding penalties (ostracism) for the individuals involved (24%). These
findings contribute to a broader understanding of CC as a multifaceted phenomenon,
highlighting its potential both to drive democratic social change and to produce harmful
social consequences.
Keywords: cancel culture; hate speech; ostracism; social media; Twitter/X.