136
RODRIGUES, Ana Cabral; GUIMARÃES, Jordana; SILVA, Anna Clara;
DONNINI, Monica; LEANDRO, Flavia.; SOUZA, Adriana de; SOUZA, Eliana
de; PEDROSA, Milena; NUNES, Beatriz. Direito à cidade em terra de
brincar: narrar começos, articular pedaços de chão. PragMATIZES -
Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n.
29, p.136-155, set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
Direito à cidade em terra de brincar: narrar começos, articular pedaços de
chão
Ana Cabral Rodrigues
1
Jordana Neves de Almeida Guimarães
2
Anna Clara Fernandes Silva
3
Monica Helena Rado Donnini
4
Flavia Siqueira Lemos Leandro
5
Adriana Aparecida de Souza
6
Eliana Gonçalves de Souza
7
Milena Pedrosa
8
Beatriz Regina M. Nunes
9
DOI: https://doi.org/10.22409/pragmatizes.v15i29.69680
1
Doutora em Planejamento Urbano e Regional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Docente dos cursos de Graduação em Psicologia, campus Volta Redonda, e do Programa de Pós-
Graduação em Psicologia da Universidade Federal Fluminense (UFF). E-mail: acrodrigues@id.uff.br.
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-0317-5346.
2
Discente do Curso de Graduação em Psicologia, campus Volta Redonda, da Universidade Federal
Fluminense (UFF). E-mail: jordana08dez@gmail.com. ORCID: https://orcid.org/0009-0008-4340-3703.
3
Discente do Curso de Graduação em Psicologia, campus Volta Redonda, da Universidade Federal
Fluminense (UFF). E-mail: annaclarafernandessilva25@gmail.com. ORCID: https://orcid.org/0009-
0005-6326-004X.
4
Discente do Curso de Graduação em Psicologia, campus Volta Redonda, da Universidade Federal
Fluminense (UFF). E-mail: monicahrd@id.uff.br. ORCID: https://orcid.org/0009-0006-7004-5222.
5
Líder Comunitária da Ocupação Dom Waldyr Calheiros, estudante, equipe de pesquisa GPDU/UFF.
E-mail: 998843386f@gmail.com.
6
Líder Comunitária da Ocupação Dom Waldyr Calheiros, equipe de pesquisa GPDU/UFF.
7
Psicóloga. Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal
Fluminense (UFF). E-mail: souzaeliana@id.uff.br. ORCID: https://orcid.org/0009-0009-7384-7425.
8
Psicóloga; equipe de pesquisa GPDU/UFF. E-mail: milenapvf@id.uff.br. ORCID:
https://orcid.org/0009-0005-2059-9836.
9
Psicóloga. Agente cultural. Especialista em Gestão de Projetos Culturais pelo Centro de Estudos
Latino-Americanos de Comunicação e Cultura (CELACC/USP). E-mail: beatriz_nunes@id.uff.br.
ORCID: https://orcid.org/0009-0000-3202-067X.
Recebido em 01/04/2025, aceito para publicação em 12/11/2025.
137
RODRIGUES, Ana Cabral; GUIMARÃES, Jordana; SILVA, Anna Clara;
DONNINI, Monica; LEANDRO, Flavia.; SOUZA, Adriana de; SOUZA, Eliana
de; PEDROSA, Milena; NUNES, Beatriz. Direito à cidade em terra de
brincar: narrar começos, articular pedaços de chão. PragMATIZES -
Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n.
29, p.136-155, set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
Resumo: O artigo parte de um encontro: aquele tecido no chão de universidade composto,
majoritariamente, por mulheres pesquisadoras do Grupo de Pesquisa em Desutilidades Urbanas (UFF-
VR), que carregam a problemática das políticas urbanas como políticas de subjetivação desde uma
visada interseccional, e o chão da ocupação Dom Waldyr Calheiros, sustentado pelos saberes e
coragens de mulheres-líderes-mães junto aos sonhos e à força brincante de crianças artistas e arteiras,
fazedoras de cultura. Um encontro que nasce junto à cotidianidade e urgência da luta por moradia e
dignidade de vida na cidade. A partir de uma política de escrita narrativa por vozes diversas que ora
se distinguem, ora se misturam, e orientada pela estética do fragmento na montagem benjaminiana
como método, propomos fazer comparecer a densidade da produção de um mínimo comum como
condição de possibilidade para uma psicologia que pensaCOM os territórios. O que se recolhe da
produção deste percurso de pesquisa e extensão é a presença de uma convocação ético-político-
epistemológica de partilha da margem e descentramento de lugares de produção do conhecimento.
Palavras-chave: processos de subjetivação; cidade; narrativa; infâncias; método da montagem.
Right to the city in play territory: narrating beginnings, articulating pieces of ground
Abstract: This article begins with an encounter: one that arises between a university campus comprised
mostly of women researchers from the Urban Disutilities Research Group (UFF-VR), who address the
problematic of urban policies as policies of subjectivation from an intersectional perspective, and the
ground of the Dom Waldyr Calheiros occupation, sustained by the knowledge and courage of women-
leaders-mothers alongside the dreams and playful energy of artistic and crafty children, creators of
culture. An encounter that arises from the daily reality and urgency of the struggle for housing and dignity
in the city. Based on a policy of narrative writing by diverse voices that sometimes distinguish
themselves, sometimes blend, and guided by the aesthetics of the fragment in Benjaminian montage as
a method, we propose to highlight the density of the production of a common minimum as a condition
of possibility for a psychology that thinks WITH territories. What can be gathered from the production of
this research and extension path is the presence of an ethical-political-epistemological call for sharing
the margin and decentering places of knowledge production.
Keywords: subjectivation processes; city; narrative; childhoods; montage.
Derecho a la ciudad en territorio de juego: narrando inícios, articulando terrenos
Resumen: Este artículo comienza con un encuentro entre un campus universitario compuesto
mayoritariamente por investigadoras del Grupo de Investigación en Desutilidades Urbanas (UFF-VR),
quienes abordan la problemática de las políticas urbanas como políticas de subjetivación desde una
perspectiva interseccional, y el contexto de la ocupación Dom Waldyr Calheiros, sustentada por el
conocimiento y la valentía de mujeres-líderes-madres, junto con los sueños y la energía lúdica de niños
artistas y creativos, creadores de cultura. Un encuentro que surge de la realidad cotidiana y la urgencia
de la lucha por la vivienda y la dignidad en la ciudad. A partir de una política de escritura narrativa con
voces diversas que a veces se distinguen, a veces se fusionan, y guiadas por la estética del fragmento
en el montaje benjaminiano como método, proponemos destacar la densidad de la producción de un
mínimo común como condición de posibilidad para una psicología que piensa CON territorios. Lo que
se desprende de la producción de este camino de investigación y extensión es la presencia de un
llamado ético-político-epistemológico a compartir los márgenes y descentrar los lugares de producción
de conocimiento.
Palabras clave: procesos de subjetivación; ciudad; narrativa; infancias; montaje.
138
RODRIGUES, Ana Cabral; GUIMARÃES, Jordana; SILVA, Anna Clara;
DONNINI, Monica; LEANDRO, Flavia.; SOUZA, Adriana de; SOUZA, Eliana
de; PEDROSA, Milena; NUNES, Beatriz. Direito à cidade em terra de
brincar: narrar começos, articular pedaços de chão. PragMATIZES -
Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n.
29, p.136-155, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
Direito à cidade em terra de brincar: narrar começos, articular pedaços de
chão
10
Para que uma outra ciência
seja possível (...) não bastam
iniciativas interdisciplinares
que ocorrem isoladamente e
com o respeito mútuo das
fronteiras disciplinares. Trata-
se de aceitar o experimento do
encontro, em torno de uma
situação que lhes concerne,
com outros protagonistas,
cujos saberes diferem e não
respondem aos critérios das
ciências (...) O experimento
para os pesquisadores
consiste em aceitar não estar
no centro do encontro, aceitar
serem situados por esses
outros, aprender com eles
aquilo que negligenciam e
eliminam, sem usar como
proteção categorias como
objetividade ou racionalidade
Isabelle Stengers, Uma outra
ciência é possível
A curiosidade que nos movia
levou-nos aos contornos de uma
palavra: ocupação. Por ela tateamos,
balbuciamos sonoridades e
experimentamos consistências de
usos, sentidos e domínios do que nos
era corpo e pluralidade. Iniciávamos o
10
Os “pedaços de chão” que aqui se articulam consiste em uma imagem que pegamos emprestado do
trabalho publicado de dissertação de Bel Mayer (2022), a quem admiramos e que nos mostrou, por
suas partilhas, saberes e afetos, muitos começos.
11
Do projeto de extensão: “Oficinas de Montagens: construções metodológicas e experimentações
estéticas em direito à cidade” (2018 - atual), inscrito como parte do Programa de Extensão
“Observatório dos Direitos Humanos do Sul Fluminense” - PROEX/UFF.
que se denominou, em trechos de
títulos posteriores de projetos
submetidos às instâncias universitárias
e órgão de fomento, como:
“construções metodológicas e
experimentações estéticas”
11
. Era um
movimento de cultivo de uma atitude
atencional como abertura acolhedora a
encontros com o que nos força a pensar
e desencadeia em nós processos de
criação (Kastrup, 2010) a partir dos
enroscos entre o banal e o
extraordinário da arte e da vida, da
ciência e das artesanias. Nisso
encontramos as bordas de um campus
e, com ele, a pergunta do que
significava ocupar um lugar na
universidade pública, e quem (não) o
tem ocupado. Das grades que cercam
um gramado muitas vezes esvaziado e
uma calçada de caminhos apressados,
resolvemos puxar fios. A lã vermelha ia
convocando olhares e criando
139
RODRIGUES, Ana Cabral; GUIMARÃES, Jordana; SILVA, Anna Clara;
DONNINI, Monica; LEANDRO, Flavia.; SOUZA, Adriana de; SOUZA, Eliana
de; PEDROSA, Milena; NUNES, Beatriz. Direito à cidade em terra de
brincar: narrar começos, articular pedaços de chão. PragMATIZES -
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
movimentos reticulados por entre um
dentro e um fora, encontrando
porosidades, criando texturas,
presenças, bordados. Fios apenas,
talvez; mas também gestos, caminhos,
desenhos, sem palavras ainda, dos
limites e amplitudes de uma educação,
de uma formação que se queria
“embolada com a vida, com os
cotidianos, suas invenções e
intermináveis formas de fazer” (Rufino,
2023, p.7). Assim, os riscos vermelhos
na paisagem iam escapando do
aramado e, esticados, buscavam o
chão da calçada, produzindo alguns
engasgos a pressas individuais. Ou que
se amarravam às árvores, circulavam
arbustos, inventaram formas sobre os
bancos de concreto, convidando a um
tempo e lugar de criançamento (Barros,
2010) dos corpos e de compromisso
aguerrido com os encontros e afetos
capazes de acolher conflitualidades e
abrir caminho para outras margens.
Os primeiros encontros
aconteceram quando ainda se
capinava o mato alto por entre
estruturas arruinadas, sujas; bichos
mortos. As ruínas de um projeto
12
Trecho reproduzido parcialmente do posfácio
do livro “Onde o Sonho Pode Morar: receitas de
abandonado na cidade, que prometia
progresso e oportunidades de
investimento, eram o chão onde cabiam
as tábuas que seriam as camas das
primeiras noites ali onde muitas
dormiriam juntas por muitas noites,
naquele começo de tanta coisa. Se
alguns temiam que talvez aquele ainda
não fosse o momento, que ainda seria
preciso melhor se organizarem, elas,
no entanto, sabiam que era aquela a
hora precisa de ocupar. As famílias
carregavam consigo suas histórias,
seus saberes, ferramentas, crianças no
colo, na barriga; esperanças. As
mulheres davam o caminho, tomavam
a palavra, articulavam a luta, o café e o
dia a dia da cria. As crias se
achegavam, mostravam que o chão era
terra de brincar, que os restos de tijolo
contavam histórias, que até lençol
podia criar lar e acolhida, que quando a
força da ordem pública chega, deixa a
casa bagunçada, mas que a voz e o
corpo servem para cantar cantiga de
roda e para fazer com que sejam
ouvidas. E que elas sabiam muito bem
o que faziam ali, naquela ocupação,
naquele pedaço de chão
12
.
cidades e infâncias em ocupação” (Cabral, et
al. 2024).
140
RODRIGUES, Ana Cabral; GUIMARÃES, Jordana; SILVA, Anna Clara;
DONNINI, Monica; LEANDRO, Flavia.; SOUZA, Adriana de; SOUZA, Eliana
de; PEDROSA, Milena; NUNES, Beatriz. Direito à cidade em terra de
brincar: narrar começos, articular pedaços de chão. PragMATIZES -
Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n.
29, p.136-155, set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
***
Realizar um sonho. Era isso que
chegar e ficar aqui significou. Adriana
13
é uma dessas mulheres que sonhou e,
após 18 anos sem casa, encontrou um
lar neste lugar onde colocamos nossa
primeira bandeira: “Minha casa, nossa
luta”. Porque foi assim que a ocupação
se fez, com nomes de mulheres: Flávia,
Franciele, Liliana… Se fez quando não
aceitamos ficar andando pela rua com
as crianças, em albergues, em casas
que não mais podíamos morar.
Algumas de nós tinham somente 20
anos e tudo pela frente. Mas nos
reunimos, nos articulamos, tomamos
coragem e resolvemos entrar. Muitas
coisas ainda não sabíamos… Nós não
sabíamos que o terreno era tão grande.
Como também não sabíamos o
tamanho do que estava por acontecer
quando, diante da possibilidade de
termos uma casa para a gente, algo nos
foi perguntado: vocês querem apenas
ocupar ou querem algo maior?
***
13
Todos os nomes presentes neste artigo não
são fictícios. Trazer os nomes dessas mulheres
e meninas, desde seus lugares no mundo e
saberes, aqui, é uma das estratégias possíveis
de evidenciar suas autorias.
14
Bairro onde se localiza a ocupação Dom
Waldyr Calheiros, em Volta Redonda.
Marielle Franco é o nome da rua.
Mas a mulher aguardada por aquelas
que davam colo aos miúdos não
chegou a caminhar pela ladeira que
sobe da Beira-Rio até o chão de terra
batida do Belmonte
14
; antes, veio o
vazio. A roda no salão nunca
testemunhou sua presença ou escutou
sua voz; antes, veio o silêncio. A corda
de pular, a bolha de sabão, a pipa no
céu não se enroscaram com sua
gargalhada solta no ar; o desencanto
veio antes.
Mas se essa rua fosse minha…
se essa rua fosse nossa… ela teria o
nome dessa mulher para que ela,
enfim, pudesse chegar. E, de fato, a rua
ganhou CEP
15
, fez festa, semente e
história de outras meninas miúdas e
mulheres gigantes que continuam
caminhando pela ladeira que sobe da
Beira-Rio até o chão de terra batida;
porque antes, veio o começo.
***
15
No dia 11 de junho de 2021, a Câmara
Municipal de Volta Redonda, pela lei 5805,
passa a denominar a rua projetada com acesso
pela Avenida Bahia na ocupação Dom Waldyr
Calheiros de rua “Marielle Franco”.
141
RODRIGUES, Ana Cabral; GUIMARÃES, Jordana; SILVA, Anna Clara;
DONNINI, Monica; LEANDRO, Flavia.; SOUZA, Adriana de; SOUZA, Eliana
de; PEDROSA, Milena; NUNES, Beatriz. Direito à cidade em terra de
brincar: narrar começos, articular pedaços de chão. PragMATIZES -
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
Myllena é o nome da primeira de
todas. Ela chegou à ocupação e ao
mundo ao mesmo tempo. Ela foi a
primeira que nasceu aqui. Por isso é
uma verdadeira “sem-teto”, o que é
motivo de orgulho. Isso nos foi
ensinado pelas mais velhas. Com ela, a
ocupação ganha o tamanho do mundo.
E ela é desse tamanho, veio com
essa força. É filha dessa luta. E vai
seguir crescendo com isso.
***
Maria Vitória é o nome da
autora. Foi ela quem trouxe para a
escola o livro que vocês fizeram com as
crianças da ocupação Dom Waldyr
Calheiros
16
. Nós, daqui da E.M. João
Paulo I, soubemos do livro assim: a
atividade proposta era recriarmos
contos clássicos, e as crianças eram
convidadas a inventarem para eles
novos acontecimentos, personagens e
até mesmo outros fins para essas
histórias que sempre se contam para
16
Trazemos aqui parte do diálogo que nossa
equipe teve com a escola de algumas das
crianças autoras do livro Onde o sonho pode
morar: receitas de cidades e infâncias em
ocupação” (Cabral, et al. 2024).
17
O livro Onde o Sonho Pode Morar teve seu
pré-lançamento na Feira Internacional de
elas. Isso produziu em sala um certo
alvoroço; as crianças perceberam que
poderiam ser as autoras desses
escritos. Foi bem interessante, e foi
esse o combinado. Mas na aula
seguinte, um inesperado. Aquela
menina, que era autora de um livro
todo ilustrado, sobre direito à cidade,
com histórias e receitas das infâncias
em ocupação, lançado na Feira
Literária Internacional de Paraty e na
Biblioteca Pública da cidade
17
, chegou
carregando-o cuidadosamente, junto a
um orgulho cheio de felicidade e de
outros fins de sua história que mal
cabiam em suas pequenas mãos.
***
coisas que não têm nome.
Algumas delas são possíveis de se
encontrar nos bolsos ou no dobrado da
blusa que vira bolsinha sobre a
barriga… Umas quinquilharias desúteis
mesmo (Barros, 2010; Cabral, 2013),
pequenos tesouros, por vezes
Paraty e, em novembro, na Biblioteca Municipal
Raul de Leoni, em Volta Redonda, com a
presença das crianças e adolescentes autores,
familiares, amigos, autoridades e o GPDU-UFF.
Nesta ocasião, além de uma roda de conversa
sobre o processo de criação do livro, leitura
pública de trechos do livro, todas as pessoas
autoras tiveram um momento de autógrafo.
142
RODRIGUES, Ana Cabral; GUIMARÃES, Jordana; SILVA, Anna Clara;
DONNINI, Monica; LEANDRO, Flavia.; SOUZA, Adriana de; SOUZA, Eliana
de; PEDROSA, Milena; NUNES, Beatriz. Direito à cidade em terra de
brincar: narrar começos, articular pedaços de chão. PragMATIZES -
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
chamados de trequinhos ou lixinhos
quaisquer encontrados por aí. Mas é
preciso reconhecer que, apesar de não
terem serventia alguma, funcionam
muito bem para tempo à toa, desenho
no chão, presentes inesperados,
traçados de mapas inventados,
banquetes de panelinha…
Há, igualmente, coisas que
carregam nomes bonitos. Essas,
muitas vezes, estão também sendo
carregadas em sacolas, bolsas, panos
amarrados, cuias, cumbucas, patuás
que se levam para cá e para lá no sobe
e desce do ônibus, no vai e vem da
ladeira, no passo a passo da casa à
rua, de uma casa a outra, nas idas e
vindas dos dias. Bolinho-de-chuva é
uma dessas que tem nome bonito.
Poucas palavras aguam tanto a língua
antes mesmo de chegar à boca… além
de conseguir deixar rastros adocicados
na ponta dos dedos e nas lembranças
das gentilezas das avós, tias e vizinhas
em dias nublados. Neném é outra. É
uma palavra que se fala na pontinha da
língua com dois saltitos, deixando um
sonzinho gostoso no fim para vir se
apoiar sobre o osso da bacia, onde uma
18
Referência à lenda dos povos tupi que
contam a origem dessa raiz "Manioca”.
parte se ajeita para um lado e outra
para o outro, agarradinhas. Seu rastro
tem uma capacidade realmente
bagunçante, de fazer as coisas virarem
de ponta-cabeça. E que mesmo
quando por ela o tempo passa, segue
cambalhotando roteiros e rotinas e se
acocorando para ganhar intimidade
com o chão, desde onde inventa de
fazer perguntas sobre outras palavras,
como “estrela”, “imaginação”, “sonho” e
“pesquisa”. mandioca é palavra que
precisa ser descascada. E que, quando
carregada aos montes, em abundância
e generosidade da terra e das mãos
que as cultivaram na última safra ou há
mais de quatro mil anos, acorda a “casa
de Mani” e as lágrimas que a
aguaram
18
, acorda todas as casas
vazias e as forças que as ocuparam.
Acorda as raízes e o desejo de coletar
as histórias nunca antes contadas de
gestos e cuidados ancestrais (Le Guin,
2021). Ou que precisam ser mais uma
vez proseadas em rodas no fim do dia
na calçada. De fofocas e facas
empunhadas para preparar a noite e o
caldo; “roçar o terreno da memória”
(Rufino, 2023, p.42) para ganhar
143
RODRIGUES, Ana Cabral; GUIMARÃES, Jordana; SILVA, Anna Clara;
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intimidade com o tempo (Martins, 2002)
que estala em saudades e esperanças
nas fogueiras de festejos juninos,
capazes de fazer arder a cidade.
***
Do centro, as gigantescas
chaminés vomitam o que vai se
tornando toda a espessura do ar que se
respira, todas as capilaridades dos
pulmões, as vísceras. Mas também
provocam a tosse. As chaminés
essas prodigiosas construções do
humano sobre o mundo, recursos e
seres não-humanos à espera de serem
conquistados e explorados (Tsing,
2023) criam a pregnância do que se
tornou a paisagem que se impõe ao
espírito e aos olhos. Para onde sempre
se olha. Paisagem em uma
imutabilidade asfixiante, pelo silêncio
de uma maquinaria esquecida
(Certeau, 1994), esquecível, para ser
esquecida, onde correm acúmulos,
obsolescências, investimentos, curtos
prazos, escalabilidades,
produtividades, todas elas caras e
19
“urihi wapopë”, termo traduzido por Albert e
Kopenawa (2015) como “comedores de terra,
comedores de floresta”.
benfazejas aos "comedores de terra"
19
,
e impagáveis aos que da terra são
expulsos, sempre ditos como não
pertencentes e não produtivos. Eis o
ensurdecedor silêncio da catástrofe
(Benjamin, 1987), que diz, a cada
baforada de fogo no céu, que nada
mudou, nem de mudar; que as
coisas continuem assim, é o que se
pode esperar. É o que nesta
paisagem monocultora (Tsing, 2023;
Bispo, 2023) onde “a alteridade, a
diferença, é sempre um problema a ser
resolvido” (Segato, 2022, p. 87).
Acontece que, desde a margem,
o problema a ser resolvido é de outra
ordem: é ele a própria
insustentabilidade da lógica
centro/margem; categoria de análise
amplamente lançada no ar pelos
gabinetes e laboratórios, aquela que só
serve às centralidades (Caron e Cabral,
2024). E que abastece o cinismo do
projeto civilizatório instrumentalizado e
alicerçado no urbanismo e na
urbanização, como “forma específica
de relação tecnologia-sociedade-
natureza que é base material, meio e
144
RODRIGUES, Ana Cabral; GUIMARÃES, Jordana; SILVA, Anna Clara;
DONNINI, Monica; LEANDRO, Flavia.; SOUZA, Adriana de; SOUZA, Eliana
de; PEDROSA, Milena; NUNES, Beatriz. Direito à cidade em terra de
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
mediação das relações sociais
capitalistas, cis-heteropatriarcais,
coloniais, [capacitistas] e raciais”
(Helene et al., 2022, p. 68). Um cinismo
capaz de arrefecer até mesmo dados e
estudos (Rolnik, 2015) que evidenciam
que a cidade, apesar de ser um modo
de vida amplamente disseminado no
globo, ela, como direito e experiência
de dignidade humana, não está nem
perto de estar garantida; tal é a fantasia
que “nina a casa grande” (Evaristo,
2017), a de que é somente para alguns
poucos que a urbanização e a cidade
não estão disponíveis. Bastando, pois,
apenas, ou que esses poucos
anômalos se “endireitem”, ou que as
engrenagens da maquinaria do
desenvolvimento se façam um pouco
mais azeitadas e aceleradas para
eliminar, enfim, tal rangido e resolver
sua (ainda) incompleta consecução.
Efetivamente, o problema em jogo seria
da ordem da vergonha se ainda o que
sustentasse o laço fosse a
possibilidade dela mas é mesmo o
cinismo, o absurdo, a verdadeira
20
As ocupações urbanas são comumente
denominadas pelo Estado, pela mídia e pelo
mercado como invasão, e, até o ano de 2024,
eram nomeadas pelo IBGE como "aglomerado
subnormal" para referir-se à diversidade dos
assentamentos irregulares existentes no país.
barbárie, o limite do insustentável, pois
toca direta e amplamente a própria
habitabilidade da Terra, da
possibilidade de continuarmos a dividir
o planeta. E neste limite é a margem
não como topos, localidade, mas como
ethos, como posicionalidade que se
a ver na paisagem viva, movente,
friccional do encontro, do
amontoamento e agenciamento de tudo
que é feito resto e é contragolpe (Simas
e Rufino, 2018), de tudo aquilo que foi
e é sistematicamente suprimido e
apagado. Mas, como presença -
aquilombada, articulada, aldeada,
infancializada (Noguera e Alves, 2020),
assentada, nomadizada, etc - oferece
as chances do que ainda, a partir dali,
e nas ruínas do Antropoceno (Tsing,
2023), é possível. A visada aqui é o
avesso, e é avessa à centralidade, à
urbanidade que significa, classifica,
escrutina e expele tudo aquilo que ela
mesma decretou como outro,
subnormal
20
, marginal É, pois, a
ocupação que de falar da cidade,
que de falar à cidade e indagá-la.
Sobre a eliminação o recente desta
denominação, ver:
https://www.observatoriodasmetropoles.net.br/i
bge-muda-denominacao-dos-aglomerados-
subnormais-para-favelas-e-comunidades-
urbanas/. Acesso em: 24 mar.2025.
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RODRIGUES, Ana Cabral; GUIMARÃES, Jordana; SILVA, Anna Clara;
DONNINI, Monica; LEANDRO, Flavia.; SOUZA, Adriana de; SOUZA, Eliana
de; PEDROSA, Milena; NUNES, Beatriz. Direito à cidade em terra de
brincar: narrar começos, articular pedaços de chão. PragMATIZES -
Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n.
29, p.136-155, set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
Não porque as margens guardem as
respostas. Mas, porque nos escombros
têm gestado o improvável e sustentado
a desconfiança de que nada acontece
ou de que estamos simplesmente
diante do fim
21
.
Desde as margens, sabe-se
bem que nas centralidades que
vomitam leis, salvações, soluções,
objetificam-se vidas, produzem-se
anomalias e se organizam expurgos
(Segato, 2022). A ordem é: manter a
margem à margem, a bagunça longe
das sensibilidades mais finas e impedir
invasões, infiltrações, pelas sempre
reeditadas estratégias de desacreditar
falas, clamores, pautas, demandas.
Esvaziar os sentidos de mutirões e
conselhos sem que esses precisem ser
extintos; instaurar ausências e
esquecimentos. Deixar as palavras se
perderem ao vento ou surrupiá-las,
21
“Fim” como o que é prenunciado pelos
discursos conservadores no que toca questões
como a crise climática global que, se não é
recusada pelo negacionismo, é apresentada
com fatalismo, posição amplamente eficaz em
criar invisibilidades às forças de resistência
multiespécies (caras ao pensamento de Anna
Tsing) e esvaziar práticas revolucionárias, de
esperança e que evidenciam a urgência de
interrupção de certas lógicas e funcionamentos
vigentes. Assim também “fim” como aquele
presente na tese de Francis Fukuyama na qual
o liberalismo, ideia-força dominante e
vencedora no cenário pós Segunda-Guerra, é
degluti-las, usá-las, fazê-las nada
dizerem, torná-las “cartas extraviadas,
perdidas” (Brum, 2016). E, por fim,
administrar minúsculas gotas de
esperança na próxima obra, na próxima
visita, na próxima audiência, na
próxima lei, no próximo mandato, na
próxima oportunidade… Para acalmar
os ânimos e arrefecer a força, a tosse,
até que, pelas incontáveis frustrações,
o último fôlego se encerre em exaustão.
***
Nós vamos juntar jornais,
revistas, papel e também algumas
dessas quinquilharias que encontramos
e carregamos nos bolsos. Recortamos
algumas peças. São curvas,
quadrados, papéis amassadinhos,
fiapos, retângulos, triângulos, círculos.
Não se preocupem, eles encontrarão
visto como o destino cumprido da evolução
natural da humanidade, e que, em tendo sido
cumprido frente à então derrota do fascismo, os
possíveis caminhos da história estariam
todos contados e à disposição. Além desta tese
não poder ser pensada como uma realidade
global, os valores do liberalismo aclamado por
Fukuyama, como liberdade e igualdade, estão
longe de terem se realizado frente ao cenário
de amplo massacre dos direitos sociais por
parte do capital financeiro, o que exige
repensar e fortalecer combates para se criar
caminhos de dignidade humana ainda por se
fazer.
146
RODRIGUES, Ana Cabral; GUIMARÃES, Jordana; SILVA, Anna Clara;
DONNINI, Monica; LEANDRO, Flavia.; SOUZA, Adriana de; SOUZA, Eliana
de; PEDROSA, Milena; NUNES, Beatriz. Direito à cidade em terra de
brincar: narrar começos, articular pedaços de chão. PragMATIZES -
Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n.
29, p.136-155, set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
um espaço. Podemos experimentar
juntar alguns deles…
Vamos montando e
desmontando.
Às vezes, aproximando assim,
aparece uma casa. Algumas coloridas
têm portinhas que abrem e telhados da
cor do céu. Será que dá pra ver quando
chove?
Vamos desmontando e
montando.
Veja só: um prédio
pequenininho, cheio de janelas miúdas.
Quem será que vive aí? Joaninhas?!
ficando interessante... Com um fio de
barbante, vai aparecendo um caminho,
uma rota, uma rua… Quem é que vai
chegando por ela?
Vamos montando e
desmontando.
E trocando também. Pode dar
para o outro uma partezinha que vo
inventou: um presente. Agora, tem
algumas coisas que não podem faltar:
pula-pula pra flutuar, balão pra voar,
piscina pra mergulhar. Poderia ter
ainda uma jangadinha, assim a gente
poderia seguir pelo rio até colocar os
pés na praia ou numa ilha no meio do
oceano. O que você levaria pra lá? Ou
o que você traria de lá pra cá?
Tragam também as plantas que
recolhemos, assim teremos jardins,
florestas e gramas boas pra rolar, fazer
estrelinha e tirar soneca. A canetinha
faz outros detalhes: a rede, o muro, a
lua (que surge brilhante e redonda,
devagarzinho, por detrás dele). Muros
servem muito bem pra isso: fazer a
surpresa da lua. Tem até umas nuvens
no céu colorido e iluminado: rosa, azul,
lilás. Algodão-doce, com certeza! Bem
lembrado, comidas gostosas. Este
círculo é um prato, e aquele também:
arroz, peixe, tomate, macarrão... Se
dividir, dá sempre pra todo o mundo.
E o que é isso? Uma passagem
secreta?! Então se eu chego aqui, logo
posso encontrar alguém ali? Uau! Um
cinema pertinho, um parquinho ao lado,
a escola toda bonitaE então a cidade
fica parecendo até uma rede... Acolhe
bem a gente...
Vamos desmontando e
montando.
***
Aquelas que um dia foram
chamadas de bruxas se sentavam em
roda.
Elas, ainda hoje, continuam em
roda.
147
RODRIGUES, Ana Cabral; GUIMARÃES, Jordana; SILVA, Anna Clara;
DONNINI, Monica; LEANDRO, Flavia.; SOUZA, Adriana de; SOUZA, Eliana
de; PEDROSA, Milena; NUNES, Beatriz. Direito à cidade em terra de
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
E continuam sendo chamadas
de bruxas, baderneiras, barraqueiras,
arruaceiras, loucas, desequilibradas,
vagabundas, insuficientes, histéricas,
incontroláveis, invasoras…
E, mesmo assim,
continuam.
Porque insistem na roda.
E nela
circulam os fios, a vida e as
crias,
pelas rodas.
Em favor delas.
Por elas.
Pois isso,
é preciso contar.
A mulher inventou a roda.
Tecnologia primeva do que os
homens chamaram de Humano.
E girou de ponta-cabeça o conto
da Origem,
pra ver nascerem narrativas dos
começos
inumeráveis,
embaraçados de histórias.
Outras.
Sempre as Outras
da História.
Ávidas por se recontarem
22
Este fragmento é a íntegra do poema “Roda”,
de autoria de Ana Cabral (não publicado),
criado em homenagem às mulheres da
Em volta do fogo
dominado
e alimentado pelas palavras
cruas e cozidas,
que alimentaram a todas,
que amamentaram a todos,
que pariram o mundo
de cócoras:
posição e substantivo feminino
plural
22
.
***
A teoria pode ser um lugar de
cura e prática de liberdade. É o que
afirma bell hooks (2017) ao tomar as
recordações de uma infância difícil e
recolher dela tanto a força que foi poder
nomear, muitos anos depois, a
violência do racismo e do patriarcado
que atravessava a história de seus pais
e chegava a ela em forma de agressão
e humilhação, quanto a incisividade
(rechaçada) de suas perguntas infantis
desconfiadas da naturalidade com que
os adultos tomavam a ordem
(necessária) das coisas. Esse escrito
de bell reconhece na infância um modo
Ocupação Dom Waldyr e às redes de mulheres
que apoiam e participam deste projeto de
pesquisa e extensão.
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RODRIGUES, Ana Cabral; GUIMARÃES, Jordana; SILVA, Anna Clara;
DONNINI, Monica; LEANDRO, Flavia.; SOUZA, Adriana de; SOUZA, Eliana
de; PEDROSA, Milena; NUNES, Beatriz. Direito à cidade em terra de
brincar: narrar começos, articular pedaços de chão. PragMATIZES -
Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n.
29, p.136-155, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
de habitar a linguagem, uma maestria
em sua capacidade de teorizar e
indagar o mundo. Mas a autora
enfatiza: a teoria pode ser isso;
sobretudo quando se pede isso dela,
assumindo, com ela, outras relações,
especialmente aquelas que não opõem
teoria e prática. Sobretudo quando não
se usa a teoria de maneira instrumental
para perpetuar a hierarquização de um
pensamento sobre outro e determinar a
indignidade ou desinteresse absoluto
de determinados modos de
dizer/escrever/investigar. A partir daí, é
possível se contrapor à função
(igualmente não intrínseca) da teoria de
produzir e manter distâncias. se
abrem as veredas por onde bell hooks
pode sustentar a teoria como prática de
criação de alianças e de
desindividualização de histórias que
careciam de nome e conceito para
reinaugurar a alma das palavras no
corpo.
Veredas também de idas e
vi(n)das
23
de outra “Bel” que
encruzilhou nossos percursos e melhor
instrumentalizou um pensamento que
nasce, então, COM o território (Moraes
23
Em referência ao título do livro de Bel Mayer
(2023).
e Quadros, 2020; Cabral e Caron,
2024) e se torna ideia compartilhada: a
criação de um livro junto às crianças,
pensado junto às infâncias que
coabitam o território “ocupação
urbana”. Aquele que abrigava um salão
coletivo em obras no qual ainda não era
possível imaginar uma estante cheia de
livros, almofadas e tapetes para as
histórias ali se aconchegarem e
produzirem mobilidade e
deslocamentos… E se ainda o era
possível povoá-lo com os livros dos
autores que vínhamos trazendo em
nossas oficinagens (Cabral e Lobo,
2024), talvez fosse possível fazermos
outros deslocamentos através dos
caminhos de inventar imagens,
personagens, textos… E a nós todos
como co-autores.
Bel Mayer (2022), que traz a
radicalidade de um compromisso com o
protagonismo das infâncias e
juventudes periféricas a partir da
abertura de mundo “pelo encontro com
a palavra” (Mayer, 2024, p.8), insuflou
ânimo nas histórias que sustentávamos
em malabarismos e invenções em um
momento no qual subir a ladeira da
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DONNINI, Monica; LEANDRO, Flavia.; SOUZA, Adriana de; SOUZA, Eliana
de; PEDROSA, Milena; NUNES, Beatriz. Direito à cidade em terra de
brincar: narrar começos, articular pedaços de chão. PragMATIZES -
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29, p.136-155, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
Beira-rio até o chão de terra batida
salpicado de criança era inviável. Era
um momento no qual falar de direito à
cidade mediante a realidade de um
isolamento sanitário impossível para as
infâncias em ocupação exigia
estreitar laços de confiança. E, mais do
que nunca, reconhecer nos gestos, nas
histórias contadas, nas brincadeiras
compartilhadas, via mensagens por
“caixas de histórias” virtuais
24
, modos
como essas infâncias dizem-cidade,
dizem-direito à cidade e indagam o
mundo através de sua desconfiança e
curiocidade
25
. Assim como exigia
revisitar o lugar de “simples pontes com
as crianças” que as mulheres-mães
tinham e trazê-las para o centro do
trabalho, em movimentos de produção
24
Durante a pandemia, criamos um dispositivo
chamado “caixa de histórias” que enviávamos
às crianças da ocupação através de
mensagens de whatsapp para os contatos de
seus responsáveis. Nelas contávamos histórias
que se desdobravam em brincadeiras, alguns
jogos e desafios a serem compartilhados por
fotos, escritos e áudios. Nossa proposta era
manter vínculos, criar presenças e
endereçamentos possíveis.
25
Esta é uma palavra-conceito inventada por
Mariana Cunha Schneider durante o Curso
“Construções metodológicas e
experimentações estéticas nas políticas de
escrita acadêmica” (Propur/UFRGS). Refere-se
à “supercapacidade das infâncias em se
fazerem curiosas das paisagens e miudezas
de cuidado, escuta, acolhimento
26
e
apostas conjuntas.
O tempo do reencontro é
também o tempo de recolher o que
restou das histórias de sereias,
tempestades e mapas; das
tempestades da vida, maternidades e
lutas; dos mapas de pesquisa, teorias e
alianças. O que restou de nós. De quem
éramos nós. O que restou dos lugares
que nos demos, que nos foi dado, que
pudemos sustentar em análises de
implicação (Rocha e Aguiar, 2003) de
uma pesquisa-extensão que a todo
tempo exige recomeçar e pensar que
criar presenças é sempre intervir. E,
então, fazer disso, mais uma vez e a
cada vez, matéria-prima de um
trabalho, do chão de nossos encontros.
Assim como eram os fragmentos
das cidades. Curiocidade é palavra relativa a
quem se põe a imaginar, fabular, inventar e
transformar as ruas, as casas, a vizinhança, os
lugares aos quais pertencemos e onde
moramos, queremos morar e de que vamos nos
lembrar pra toda vida. E assim vai se criando
um porvir mais bonito, gentil e acolhedor a
todas as gentes” (Cabral, et al. 2024, p.66).
26
Durante a pandemia uma das ações foi a
proposição de breves encontros virtuais de
conversa sobre o que era ser mãe na pandemia
a partir de suas realidades, e da oferta de apoio
e escuta via telefone por profissionais da
psicologia membros do Grupo de Pesquisa em
Desutilidades Urbanas (GPDU) pelo Programa
de Pós-Graduação em Psicologia da
Universidade Federal Fluminense.
150
RODRIGUES, Ana Cabral; GUIMARÃES, Jordana; SILVA, Anna Clara;
DONNINI, Monica; LEANDRO, Flavia.; SOUZA, Adriana de; SOUZA, Eliana
de; PEDROSA, Milena; NUNES, Beatriz. Direito à cidade em terra de
brincar: narrar começos, articular pedaços de chão. PragMATIZES -
Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n.
29, p.136-155, set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
aquilo que não remonta totalidades ou
mesmidades que foram sendo
construídos e recolhidos em nossos
diários de campo e a cada vez que
abríamos uma nova caixa: agora de
papelão, em forma de um livro gigante,
recheada de pequenos tesouros (como
às vezes são os textos que nos encanta
escrever). Esses mesmos fragmentos
que foram se tornando os ingredientes
de cada uma das receitas de “como se
constrói uma rua”, uma casa, uma
vizinhança, uma ocupação, uma
cidade, um livro
27
. E criaram o chão
feito desses cacos, pedrinhas, bolhas
de sabão, passagens secretas onde
uma menina e uma capivara,
experimentadas por rabiscos e jogos de
teatro, puderam pisar através das
páginas que fabulamos juntos; através
de nossas histórias e corpos que
infancializamos juntos (Noguera e
Alves, 2020).
O tempo da escrita o é o
tempo do relato ou do simples registro
do acontecido. O tempo da escrita é o
tempo da (des)montagem, como
(des)invenção de um campo, do
pensamento, do corpo, da própria
27
Nome de cada capítulo do livro Onde o
sonho pode morar.
pesquisa. A escrita é também um
tempo do desacelerar, de fazer falar as
fricções, as hesitações, os engasgos;
isso que nos lembra que não estamos
sozinhos, e nos torna novamente
“capazes de aprender, de encontrar e
de reconhecer o que nos une e nos
mantém unidos, de pensar, imaginar e,
no mesmo processo, criar, junto a
outros, vínculos que não sejam de
captura” (Stengers, 223, p. 116).
Porque a escrita não é isso, mas pode
ser. Sobretudo quando se pede isso
dela, assumindo, com ela, outras
relações, especialmente aquelas que
não opõem teoria e prática, infância e
maestria. se abrem as veredas por
onde sustentamos práticas de criação
de alianças e de desindividualização de
histórias que apontam para nós a
importância do nome e conceito
capazes de reinaugurar a alma das
palavras no corpo.
***
Da escuta de uma dor sentida
junto à pele em um corpo ainda miúdo,
mas que ecoa tantas “vozes mudas
151
RODRIGUES, Ana Cabral; GUIMARÃES, Jordana; SILVA, Anna Clara;
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de; PEDROSA, Milena; NUNES, Beatriz. Direito à cidade em terra de
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29, p.136-155, set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
caladas, engasgadas nas gargantas”
(Evaristo, 2021, p. 24), surge uma
rainha na roda que é teatro e
brincadeira de se inventar junto. Com
seu leque, venta e guia os pequenos
olhares curiosos, que o pouco a
pouco se tornando cúmplices da
história que ali se conta, em
movimentos delicados de começarem a
se sentir e se perceber como seus
outros personagens.
A grande rainha de pele ébano
vive num lugar nem tão longe, nem tão
perto, onde crianças gostam de sair
para brincar, fazer desenho no chão e
em seus corpos, cambalhota e
28
, e
subir nas árvores para colher as frutas
mais docinhas. Tal como Nzinga
29
, ela
governa com generosidade e
sabedoria, e combate reinos invasores
que gostam muito de ouro e pouco de
árvores e frutas docinhas, movidos por
seus desejos de serem os donos de
tudo que encontram: cultivos, ciências,
artes, e tecnologias. Contando dos
muitos combates e resistências, a
28
Movimento de esquiva de golpes rasteiros; é
amplamente brincado pelas crianças na
capoeira.
29
Mwene Nzinga Mbandi (1582-1663) rainha do
Reino do Dongo (atual Angola), conhecida por
sua grande capacidade estratégica e política na
rainha que temia pela perda da
esperança de seu povo, envia aos
reinos irmãos seu melhor mensageiro
aquele que carregava a arte da escuta.
E recebe, entre tantas mensagens, um
presente de uma velha amiga, vindo
da outra ponta da roda que vai
passando de mão em mão achegar
às suas: um novelo de vermelha.
Como aquelas com que sua mãe
costumava tecer e contar histórias.
Tomada de lembranças e de um vento
em leque, a rainha que reina no reino e
na roda que é teatro e brincadeira de se
inventar e se curar junto, segura o
novelo nas mãos. E desfia, para
olhares hipnotizados, a antiga história
de Ananse
30
uma divindade da cultura
Ashanti que toma forma de aranha e,
em sua astúcia, desafia o deus Nyame
num tempo imemorial em que ele era o
único ser que detinha todas as histórias
do mundo. Ananse, então, fia uma
longa teia até os domínios desse deus.
E do alto insiste que lhe ceda a
cabaça das histórias para que possa
busca de acordos de paz ante o colonialismo
português.
30
Tomamos aqui como referência a narração
oral da contadora de Histórias Zélia Amador de
Deus. Disponível em:
https://www.youtube.com/watch?v=Za3Wx7VZ
A6k. Acesso em: 21 fev. 2025.
152
RODRIGUES, Ana Cabral; GUIMARÃES, Jordana; SILVA, Anna Clara;
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de; PEDROSA, Milena; NUNES, Beatriz. Direito à cidade em terra de
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levá-las aos humanos. Nyame aceita,
mas com a condição de que Ananse
cumprisse, uma-a-uma, suas dificílimas
tarefas. Em uma jornada desafiadora,
Ananse cumpre todas e recebe o
retorno prometido. No entanto, ao
descer pelo fio de sua teia, em sua
euforia, vira a cabaça inadvertidamente
e as histórias todas se espalham pelo
mundo. Assim como estava espalhado
o encantamento em forma de miçangas
e fitinhas caídas de um cesto de palha
no meio daquela roda, no meio daquele
salão, no centro da ocupação.
A grande rainha que conta a
antiga lenda, puxa um fio para fora dela,
e vai criando um movimento reticulado
por um dentro e fora, criando texturas,
presenças, bordados; encontrando
porosidades, entre os contos dos povos
de vozes que fizeram se ouvir (que
seguiram e seguem até o dia de hoje
em resistência) e as crianças-
personagens-mensageiras-
pesquisadoras-artistas-rainhas-reis-
amigas ali em roda recolhendo, em
cada uma daquelas palavras, daquelas
vozes, o “eco de vida-liberdade”
(Evaristo, 2021, p.25). Pois sabem bem
que nesse tempo não foram as
batalhas que fizeram o povo existir. São
as histórias que caminham com elas e
eles que os fazem ainda mais vivos,
fortes, orgulhosos da boniteza de suas
raízes e peles e, sobretudo, os fazem
capazes de continuar brincando.
A rainha-pesquisadora-rainha
de pele ébano enovela mais uma vez o
fio da vermelha. Como se aquele
encanto fosse pouco a pouco se
dissipando, ou, quem sabe, realmente
se infiltrando ali, naquele espaço,
naquele salão, onde tantas coisas
criaram seus começos: lares, festas,
oficinas, livros… laços de confiança,
partilhas.
São fios apenas, talvez; mas
também gestos, caminhos, desenhos,
cheios de palavras que vão contando
das delicadezas e forças de um espaço
que começa a ser sonhado junto, para
ser casa de histórias, de causos, de
lendas e parlendas para brincar a
língua, o corpo, o sonho em palavras
bonitas de carregar, como em patuás.
Assim é Ananse: uma biblioteca
comunitária que se inventa e se quer
“embolada com a vida, com os
cotidianos, suas invenções e
intermináveis formas de fazer” (Rufino,
2023, p.7) cidade, ocupação, cultura,
escrita, pesquisa, arte, ciência, luta e
universidade.
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RODRIGUES, Ana Cabral; GUIMARÃES, Jordana; SILVA, Anna Clara;
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