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RODRIGUES, Ana Cabral; GUIMARÃES, Jordana; SILVA, Anna Clara;
DONNINI, Monica; LEANDRO, Flavia.; SOUZA, Adriana de; SOUZA, Eliana
de; PEDROSA, Milena; NUNES, Beatriz. Direito à cidade em terra de
brincar: narrar começos, articular pedaços de chão. PragMATIZES -
Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n.
29, p.136-155, set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
Não porque as margens guardem as
respostas. Mas, porque nos escombros
têm gestado o improvável e sustentado
a desconfiança de que nada acontece
ou de que estamos simplesmente
diante do fim
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.
Desde as margens, sabe-se
bem que nas centralidades que
vomitam leis, salvações, soluções,
objetificam-se vidas, produzem-se
anomalias e se organizam expurgos
(Segato, 2022). A ordem é: manter a
margem à margem, a bagunça longe
das sensibilidades mais finas e impedir
invasões, infiltrações, pelas sempre
reeditadas estratégias de desacreditar
falas, clamores, pautas, demandas.
Esvaziar os sentidos de mutirões e
conselhos sem que esses precisem ser
extintos; instaurar ausências e
esquecimentos. Deixar as palavras se
perderem ao vento ou surrupiá-las,
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“Fim” como o que é prenunciado pelos
discursos conservadores no que toca questões
como a crise climática global que, se não é
recusada pelo negacionismo, é apresentada
com fatalismo, posição amplamente eficaz em
criar invisibilidades às forças de resistência
multiespécies (caras ao pensamento de Anna
Tsing) e esvaziar práticas revolucionárias, de
esperança e que evidenciam a urgência de
interrupção de certas lógicas e funcionamentos
vigentes. Assim também “fim” como aquele
presente na tese de Francis Fukuyama na qual
o liberalismo, ideia-força dominante e
vencedora no cenário pós Segunda-Guerra, é
degluti-las, usá-las, fazê-las nada
dizerem, torná-las “cartas extraviadas,
perdidas” (Brum, 2016). E, por fim,
administrar minúsculas gotas de
esperança na próxima obra, na próxima
visita, na próxima audiência, na
próxima lei, no próximo mandato, na
próxima oportunidade… Para acalmar
os ânimos e arrefecer a força, a tosse,
até que, pelas incontáveis frustrações,
o último fôlego se encerre em exaustão.
***
Nós vamos juntar jornais,
revistas, papel e também algumas
dessas quinquilharias que encontramos
e carregamos nos bolsos. Recortamos
algumas peças. São curvas,
quadrados, papéis amassadinhos,
fiapos, retângulos, triângulos, círculos.
Não se preocupem, eles encontrarão
visto como o destino cumprido da evolução
natural da humanidade, e que, em tendo sido
cumprido frente à então derrota do fascismo, os
possíveis caminhos da história já estariam
todos contados e à disposição. Além desta tese
não poder ser pensada como uma realidade
global, os valores do liberalismo aclamado por
Fukuyama, como liberdade e igualdade, estão
longe de terem se realizado frente ao cenário
de amplo massacre dos direitos sociais por
parte do capital financeiro, o que exige
repensar e fortalecer combates para se criar
caminhos de dignidade humana ainda por se
fazer.