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RODRIGUES, Ana Cabral; CARON, Daniele; ARAÚJO, Flavia de Sousa.
Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica. PragMATIZES -
Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n.
29, p.13-30, set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
enquanto capacidade de depreciar ou
de “deprimir” o colonialismo. É a
capacidade de transformar saberes e
modos de transmissão na formação
das gerações que vêm, para que não
mais ataquem as gerações de outros
povos. A contracolonialidade, para
Nêgo Bispo, diferentemente, diz de
modos de existir cotidianamente, de
maneira viva, criativa, em resiliência e
enfrentamento à colonialidade. Um
modo de existir que nunca se deixou
colonizar. E, por isso mesmo, as
práticas contracoloniais, inclusive
quilombolas, são capazes de
desmantelar o projeto totalitário que
estrutura nosso mundo.
Assim, assentada na práxis dos
quilombolas, dos Povos Originários e
demais povos da floresta, a partir de
suas cosmopercepções (Oyěwùmí,
2020), a contracolonialidade pode ser
enunciada tanto pelo banal de um
cotidiano praticado, quanto por sua
radical alteridade, enquanto forma de
pensamento e de sustentação de
saberes que não se significam nem se
submetem à ordem de um mundo
erigido pelos ideais de
desenvolvimento, exploração e
controle. Ela pode ser dita como defesa
a essas forças que operam através da
desterritorialização e pela retirada de
cada ente vivente de sua cosmologia,
distanciando-o de seus sagrados,
impondo-lhe novos modos de vida e
colocando-lhe outro nome (Santos,
2023). Então, desse banal e dessa
radicalidade, o que resta – e cintila
como chance – é a possibilidade de
seguir contando, narrando aquilo que
liga um ser a outro, o que territorializa,
o que constitui experiência de
envolvimento, o que é sagrado e,
igualmente, a possibilidade de seguir
“praticando nossos nomes” (Santos,
2021). O que se aponta é um caminho
traçado pelas palavras, lavradas na
oralidade, na escrita e na imagem, que
comparecem como sementes a
germinar e a se ligar àquilo que é
passado, sentido e pertencimento.
Trata-se de uma tomada estratégica da
palavra que, diante da colonialidade
que tudo nomeia, pode também dizer
dela. Não por vontade de dominação
(aquela que esquadrinha os saberes ao
nomeá-los como conhecimento popular
ou empírico), mas pela urgência de
contrariar a palavra dos colonizadores
e seus saberes sintéticos, que seguem
incansavelmente destituindo os
saberes orgânicos e cosmológicos, tal
como os nomeia Nêgo Bispo.