ISSN 2237-1508
PragMATIZES-Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura
Niterói/RJ, Ano 16, n. 30, jan. a dez. 2026
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica”, volume II.
Como citar:
RODRIGUES, Ana Cabral; CARON, Daniele; ARAÚJO, Flavia de Sousa. Narrar e dar lugar ao que pulsa. PragMATIZES-
Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 16, n. 30, p. 01-06, 2026. DOI:
https://doi.org/10.22409/pragmatizes.v16i30.72140.
1
Narrar e dar lugar ao que pulsa
Apresentação do Dossiê 30
Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica, volume II
Ana Cabral Rodrigues
1
Daniele Caron
2
Flavia de Sousa Araújo
3
Recebido em: 06/07/26
Publicado em: 08/07/26
1
Doutora em Planejamento Urbano e Regional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Docente
no curso de Graduação em Psicologia, campus Volta Redonda, e no Programa de Pós-Graduação em
Psicologia da Universidade Federal Fluminense (UFF). E-mail: acrodrigues@id.uff.br. ORCID:
https://orcid.org/0000-0002-0317-5346.
2
Doutora em Urbanismo pela Universitat Politècnica de Catalunya (UPC). Docente na Faculdade de
Arquitetura e no Programa de Pós-Graduação em Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal
do Rio Grande do Sul (UFRGS). E-mail: daniele.caron@ufrgs.br. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-
6546-6579.
3
Doutora em Planejamento Urbano e Regional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Docente
na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Alagoas (UFAL). E-mail:
flavia.araujo@fau.ufal.br. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-8296-7423.
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Narrar e dar espessura ao tempo. Dizê-lo. Dizer-se nele.
Reconhecer na fala, no gesto, na imagem aquilo que resta: ruína da instância e do
instante da experiência. Espiralar o tempo (Martins, 2021).
Dar lugar ao que pulsa na palavra, na letra, no que se calou.
Contar. Contar mais uma vez, e outra ainda. À exaustão do verbo e corpo.
E tomar da narrativa a urgência do que por ela advém no campo da pesquisa como
indagação aos modos de fazer, às alianças sustentadas, aos protagonismos reiterados, às
centralidades naturalizadas e suas maquinarias de outremização (Morrison, 2017); à
própria forma do texto, e à voz que toma lugar nos processos de produção do
conhecimento.
Reafirmando o interesse pelas transversalidades disciplinares e a presença de
saberes decoloniais, contracoloniais e feministas inescapáveis diante das ruínas do
antropoceno (Tsing, 2019), este segundo volume do Dossiê Narrar: gesto
metodológico e indagação epistemológica continuidade a seu movimento de
reconhecer na palavra “narrativa” suas forças germinativas (Santos, 2023). Buscamos
acompanhar nas perspectivas diversas o esforço conceitual que, para além de um
trabalho teórico e filosófico, comparece enlaçado a um compromisso com as forças de
resistência, reexistência e de reparação histórica que exigem novos posicionamentos do
fazer acadêmico e fôlego em sua (auto) criticidade.
Na perspectiva da proposta que inaugurou este Dossiê apontamos a importância
da insistência nos exercícios criativos, fabulatórios e experimentais na escrita. Esses que
não abrem mão nem do risco intrínseco ao que é experimental, nem do rigor de um
conhecimento que se sustenta no que é compartilhável e passível de ser questionado;
nem tampouco de que as feituras, os processos e os percursos constituídos com outras
autorias nas diversas dimensões do pesquisar companheiras e companheiros na
produção do conhecimento tornem-se texto e proposição estético-política. Isto é,
tornem-se grafia e rastro em prol de uma transmissão, de um fazer ciência capaz de
sustentar presenças. Em prol de que, ainda que tarde, a academia se reconheça e se
responsabilize em se colocar a escutar aquilo que nunca esteve ausente (Ribeiro, 2017).
Entendemos que a narrativa como problemática e estratégia metodológica
convoca, nesta chamada, o interesse de reconhecer gestos, dispositivos, ferramentas e
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suportes capazes de operar a partir das co-emergências (Caron, Cabral, 2024) de saberes
e modos de sustentar mundos. Reconhecê-las. Recolhê-las. Tomar as co-emergências
como signo de uma autorização compartilhada das pessoas que deixam de ser reiterada
e historicamente tomadas como folclóricas e passam a ser reconhecidas como sujeitos
que são (González, 1982): políticos, culturais, do conhecimento. Assim, a presença da
narrativa alia-se a uma aposta pelas co-emergências, operando junto aos movimentos de
descentramento e de partilha da margem em sua potência epistêmica para interrogar o
presente e o porvir.
Em nosso primeiro volume, iniciamos um caminho pelas narrativas
compartilhadas desde perspectivas anticapacitistas na formação de um mundo comum e
heterogêneo; passando, posteriormente, pela força da oralitura nos corpos femininos
negros em disputas urbanas (Martins, 2021). Também nos aproximamos das estratégias
de contação de histórias como interrupção de violências sobre os corpos das mulheres;
e, em outro movimento, foram as construções de histórias conjuntas, por montagens,
mapas e gestos brincantes junto às infâncias que evidenciaram o lugar da narrativa na
luta pela garantia de direitos.
Guardar e contar dão seguimento aos caminhos do primeiro volume que ganha um
escopo poético no ato de inventariar e constituir uma memória compartilhada; assim
também as memórias narradas criam as bases para as intervenções sociais no campo da
sexualidade, da saúde reprodutiva e do gênero envolvendo as masculinidades. Por fim,
ainda no âmbito das memórias e da pluralidade de narrativas que reiteradamente têm
sido desautorizadas, nos encontramos com uma aposta radical da escuta e da dignidade
da palavra; e encerramos o volume anterior com um último texto que se debruça sobre
suas forças ficcionais junto aos movimentos de um bordado capaz de nos fazer tocar os
avessos da escrita acadêmica acompanhando éticas e estéticas de narrativas e
contranarrativas de artistas, coletivos e experiências situadas. Artivismos que são
contrafeitiços (Araújo et al, 2024; Rêgo, Gueiros, Araújo, 2025), rompem com o quebranto
do feitiço do capitalismo sobre os corpos (Stengers, Pignarre, 2011 apud Tsing, 2022). E
são acionados particularmente, por corpos dissidentes (Gorini, 2019), que escapam da
cisheteronormatividade.
Se encerramos o volume anterior tocando o avesso do texto e o lugar da pesquisa
na constituição das histórias que estão sendo narradas, aqui, abrimos o caminho de
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leitura a partir da narrativa como uma artesania onde mão e voz intervém na construção
das ligações entre a experiência transmitida, vivida, ouvida, recontada, para além e
aquém de qualquer individualidade, construindo borramentos entre o interno e o
externo, entre vida e escrita.
Assim, no artigo de Stallone Abrantes e Gabriel Mendes, a narrativa é apresentada
como uma abertura, um elemento mediador ou, ainda, uma palavra-ferramenta que
comparece com força num campo de sentidos compartilhados e que nos diz de um
movimento tão trivial quanto necessário: operar uma passagem. Em Janelas a produzir
Histórias: narrativas e gestos no contemporâneo a leitura caminha junto a fios
narrativos construindo o entendimento de que narrar é também uma forma de existir e
refletir sobre o mundo. Uma ética pode-se dizer que recai sobre o próprio ofício da
pesquisa articulando imagem, gesto e o contemporâneo, e que aponta para a intensidade
e a plasticidade das experiências humanas quando acompanha uma vida que ressoa no
tempo para além de si próprio.
É a vida narrada das mulheres quilombolas que toma lugar diante das políticas
urbanas mercantilistas e extrativistas. Elas são apresentadas no estudo Notas sobre
planejamento urbano, trabalho quilombista, e planos territoriais geridos por
mulheres quilombolas em Porto Alegre/RS. Fruto de tese desenvolvida em diálogo
com diversos quilombos urbanos da capital gaúcha, a autora Lara Machado Bitencourt,
apresenta as estratégias cartográficas utilizadas no reconhecimento de dinâmicas
territoriais, acompanhando processos a partir dos quais quilombo e quilombismo se
presentificam como forças comunitárias, realidade ontológica e projeto societário.
As relações entre palavra e ação são exploradas por Samira Bueno Chahin no
artigo A dimensão educativa de intervenções urbanas e seus espaços de
participação. A autora aborda o conceito muitas vezes pouco refletido de “cidades
educadoras” para tocar num elemento indispensável a sua compreensão e
problematização: a politicidade inerente à educação. Com isso, o artigo convoca à
desnaturalização do planejamento hegemônico no contexto latinoamericano, e o destaca
como campo de disputas narrativas, em que a participação popular muitas vezes é
restringida pela gestão pública.
Atento à privatização da experiência pelas forças do capitalismo como questão
nevrálgica da problemática da narrativa, Rodrigo Isoppo apresenta uma articulação entre
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os processos de subjetivação contemporâneos e os territórios urbanos marcados pelas
lógicas necropolíticas (Mbembe, 2018). Da ocupação à retomada: cartografando
processos de subjetivação em território urbano, traz para o centro do debate das
políticas urbanas o exercício de um pensamento racializado articulado aos saberes
aterrados e práticas cotidianas que interrogam destinos inescapáveis. É o próprio campo
da imaginação que se coloca em disputa na produção das cidades para que não sejam uma
perpétua maquinaria de violência. A presença do pesquisador junto aos territórios faz do
texto um testemunho vivo das lutas dos coletivos negros que ocupam, narram a cidade e
encontram instrumentos de sustentação para o direito aos territórios ancestrais.
Encerrando nosso Dossiê, o artigo Narrativas como arte da experiência
dialógica: entre textos verbais e multimodais Ilsa do Carmo Vieira Goulart aborda a
dialogia da transmissão da experiência, evidenciando como o revezamento da palavra
operado entre o escrever, contar, escutar e ler mobiliza relações e interações entre
sujeitos por meio da linguagem. Reside aí, um entrelaçamento de gestos e lugares que
potenciam o lugar da narrativa como conhecimento em permanente movimento, disputa
e partilha que atravessa o humano: o ato de contar histórias.
Compreendemos que este novo percurso de leitura em torno da narrativa e de sua
aposta como instrumento em recentes pesquisas por diversos campos do conhecimento
ofereça novas modulações para que seu crescente uso não venha desacompanhado de
uma reflexão sobre suas possibilidades, limites, exigências e aberturas.
Referências
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