Ano IX nº 16 - out/2018 a mar/2019
www.pragmatizes.uff.br
ISSN 2237-1508
DOSSIÊ “ELEMENTOS PARA
POLÍTICAS BRASILEIRAS DE ACERVOS DIGITAIS
EM MEMÓRIA E CULTURA”
DOSSIER “ELEMENTS FOR BRAZILIAN POLICIES
OF DIGITAL ACCOUNTS IN MEMORY AND CULTURE”
Apresentação do Dossiê
Dossier’s presentation
CARLOS HENRIQUE MARCONDES (editor)
GLAM e Instituições de Memória em Rede:
uma ‘Infosfera’ de Floridi?
GLAM and Network Memory Institutions: an ‘Infosphere’ by Floridi?
JOSÉ MURILO COSTA CARVALHO JUNIOR
DALTON LOPES MARTINS
LEONARDO BARBOSA GERMANI
Elementos para uma política brasileira
de acesso integrado, utilização e preservação
de acervos digitais em memória e cultura
Elements for a Brazilian policy of integrated access,
use and preservation of digital collections in memory and culture
ANGELA M. BETTENCOURT
CARLOS H. MARCONDES
Objetos digitais:
da maleabilidade do não-nito à uma ontologia
Digital objects: from malleability the non-nite to an ontology
RENAN MARINHO DE CASTRO
Wikipédia e museus: uma parceria possível?
Wikipedia and museums: a possible partnership?
JULIANA MONTEIRO
REDE WEB DE MUSEUS:
Relato de experiência na gestão e acesso
aos acervos culturais do Estado do Rio de Janeiro
MUSEUM WEB NETWORK:
Report of experience in management and access
to the cultural collections of the State of Rio de Janeiro
ELENORA NOBRE MACHADO
ÉRICKA MADEIRA DE SOUZA
Política de indexação no contexto da política
arquivística de preservação digital do Centro de
Documentação e Memória da UNESP – CEDEM
Indexing policy in the context of the digital preservation
archival policy of the Documentation
and Memory Center of UNESP – CEDEM
MARIÂNGELA SPOTTI LOPES FUJITA
SONIA TROITIÑO
Desenvolvimento da nova Biblioteca Digital da
Biblioteca Brasiliana USP: Relato de Experiência
Development of the new Digital Library of the Brasiliana
Library USP: Experience Report
RODRIGO MOREIRA GARCIA
Acervos digitais e o Uso das Tecnologias de
Informação e Comunicação
em Arquivos Brasileiros
Digital Collections and the Use of Information
and Communication Technologies in Brazilian Archives
LUCIANA PIAZZON BARBOSA LIMA
ISABELA BERTOLINI COELHO
Patrimonio cultural europeo digitalizado: Europeana
European digital cultural heritage: Europeana
MARÍA-ANTONIA GARCÍA-MORENO
TONY HERNÁNDEZ-PÉREZ
PragMATIZES
Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
Ano IX nº 16 - out/2018 a mar/2019
EDITORES
1. Flávia Lages, Universidade Federal Fluminense, Instituto de Arte e
Comunicação Social, Departamento de Arte, Curso de Produção Cultural, Brasil
2. Luiz Augusto Rodrigues, Universidade Federal Fluminense, Instituto de Arte e
Comunicação Social, Departamento de Arte, Curso de Produção Cultural, Brasil
3. Ana Enne, Universidade Federal Fluminense, Instituto de Arte e Comunicação
Social, Departamento de Estudos de Mídia, Brasil
CONSELHO EDITORIAL
1. Adriana Facina, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Museu Nacional, Brasil
2. Christina Vital, Universidade Federal Fluminense, Departamento de Sociologia, Brasil
3. Danielle Brasiliense, Universidade Federal Fluminense, Departamento de
Comunicação, Brasil
4. João Domingues, Universidade Federal Fluminense, Instituto de Arte e
Comunicação Social, Departamento de Arte, Curso de Produção Cultural, Brasil
5. José Maurício Saldanha Alvarez, Universidade Federal Fluminense,
Departamento de Estudos de Mídia, Brasil
6. Leandro Riodades, Universidade Federal Fluminense, Departamento de Artes
e Estudos Culturais, Brasil
7. Leonardo Guelman, Universidade Federal Fluminense, Departamento de Arte, Brasil
8. Lívia de Tommasi, Universidade Federal Fluminense, Departamento de
Sociologia, Brasil
9. Lygia Segala, Universidade Federal Fluminense, Departamento de
Fundamentos Pedagógicos, Brasil
10. Marildo Nercolini, Universidade Federal Fluminense, Departamento de
Estudos de Mídia, Brasil
11. Paulo Carrano, Universidade Federal Fluminense, Departamento Sociedade,
Educação e Conhecimento, Brasil
12. Rossi Alves, Universidade Federal Fluminense, Departamento de Artes e
Estudos Culturais, Brasil
13. Wallace de Deus Barbosa, Universidade Federal Fluminense, Departamento
de Arte, Brasil
COMITÊ EDITORIAL
1. Adair Rocha, Universidade do Estado do Rio de Janeiro e Pontifícia Universidade
Católica do Rio de Janeiro, Departamento de Comunicação Social, Brasil
2. Alberto Fesser, Socio Director de La Fabrica em Ingenieria Cultural / Director
de La Fundación Contemporánea, Espanha
3. Alessandra Meleiro, Universidade Federal de São Carlos, Brasil
4. Alexandre Barbalho, Universidade Estadual do Ceará e Universidade Federal
do Ceará, PPG Cultura e Sociedade, Brasil
5. Allan Rocha de Souza, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Direito /
UFRJ/PPG em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento, Brasil
6. Angel Mestres Vila, Universitat de Barcelona, Master en Gestión Cultural /
Director geral de Transit projectes, Espanha
7. Antônio Albino Canela Rubin, Universidade Federal da Bahia, Instituto de
Humanidades, Artes e Ciências / Pesquisador do CNPq, Brasil
8. Carlos Henrique Marcondes, Universidade Federal Fluminense, Departamento
de Ciência da Informação, Brasil
9. Cristina Amélia Pereira de Carvalho, Universidade Federal do Rio Grande do
Sul, Departamento de Administração / Pesquisadora do CNPq, Brasil
10. Daniel Mato, Universidade Nacional Tres de Febrero, Instituto
Interdisciplinario de Estudios Avanzados/CONICET: Consejo Nacional de
Investigaciones Cientí cas y Técnicas, Argentina
11. Eduardo Paiva, Universidade Estadual de Campinas, Departamento de
Multimeios, Mídia e Comunicação, Brasil
12. Edwin Juno-Delgado, Université de Bourgogne / ESC Dijon, campus de
Paris, Faculdad Gestión, Derecho y Finanzas , França
13. Fernando Arias, Observatorio de Industrias Creativas de la Ciudad de
Buenos Aires, Argentina
14. Gizlene Neder, Universidade Federal Fluminense, PPG em História, Brasil
15. Guilherme Werlang, Universidade Federal Fluminense, Departamento de Arte, Brasil
16. Guillermo Mastrini, Universidad Nacional de Quilmes, Maestría en Industrias
Culturales, Argentina
17. Hugo Achugar, Universidad de la Republica, Uruguai
18. Isabel Babo - Universidade Lusófona do Porto, Portugal
19. Jaime Ruiz-Gutierrez, Universidad de los Andes, Colombia
20. Jeferson Francisco Selbach, Universidade Federal do Pampa, curso de
Produção e Política Cultural, Brasil
21. José Luis Mariscal Orozco, Universidad de Guadalajara, Instituto de Gestion
del conocimiento y del aprendizaje en ambientes virtuales, México
22. José Márcio Barros, Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, PPG
em Comunicação, Brasil
23. Julio Seoane Pinilla, Universidad de Alcalá, Master Estudios Culturales, Espanha
24. Lia Calabre, Fundação Casa de Rui Barbosa, Brasil
25. Lilian Fessler Vaz, Universidade Federal do Rio de Janeiro, PPG em
Urbanismo, Brasil
26. Lívia Reis, Universidade Federal Fluminense, Instituto de Letras, Brasil
27. Luiz Guilherme Vergara, Universidade Federal Fluminense, Departamento
de Arte, Brasil
28. Manoel Marcondes Machado Neto, Universidade do Estado do Rio de
Janeiro, Departamento de Ciências Administrativas, Brasil
29. Márcia Ferran, Universidade Federal Fluminense, Departamento de Artes e
Estudos Culturais, Brasil
30. Maria Adelaida Jaramillo Gonzalez, Universidad de Antioquia, Colômbia
31. Maria Manoel Baptista, Universidade de Aveiro, Departamento de Línguas e
Culturas, Portugal
32. Marialva Barbosa, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Escola de
Comunicação / Pesquisadora do CNPq, Brasil
33. Marta Elena Bravo, Universidad Nacional de Colombia – sede Medellín, Profesora
jubilada y honoraria da Faculdad de Ciencias Humanas y Económicas, Colombia
34. Martín A. Becerra, Universidad Nacional de Quilmes / CONICET: Consejo
Nacional de Investigaciones Cientí cas y Técnicas, Argentina
35. Mónica Bernabé, Universidad Nacional de Rosario, Maestria en Estudios
Culturales, Argentina
36. Muniz Sodré, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Escola de
Comunicação / Pesquisador do CNPq, Brasil
37. Orlando Alves dos Santos Jr., Universidade Federal do Rio de Janeiro,
Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional, Brasil
38. Patricio Rivas, Escola de Gobierno de la Universidad de Chile, Chile
39. Paulo Miguez, Universidade Federal da Bahia, Instituto de Humanidades,
Artes e Ciências, Brasil
40. Ricardo Gomes Lima, Universidade Estadual do Rio de Janeiro,
Departamento de Artes e Cultura Popular, Brasil
41. Stefano Cristante, Università del Salento, Professore associato in Sociologia
dei processi culturali, Italia
42. Teresa Muñoz Gutiérrez, Universidad de La Habana, Profesora Titular del
Departamento de Sociologia, Cuba
43. Tunico Amâncio, Universidade Federal Fluminense, Departamento de Cinema, Brasil
44. Valmor Rhoden, Universidade Federal do Pampa, curso de Relações
Públicas [com ênfase em Produção Cultural], Brasil
45. Victor Miguel Vich Flórez, Pontifícia Universidad Católica del Perú, Maestría
de Estudios Culturales, Peru
46. Zandra Pedraza Gomez, Universidad de Los Andes / Maestria em Estudios
Culturales, Colômbia
EDITORES ASSOCIADOS JUNIOR:
1. Bárbara Duarte, doutoranda em Sociologia, Universidade Federal da Paraíba
2. Deborah Rebello Lima, mestranda em História, Política e Bens Culturais pelo
CPDOC, Fundação Getúlio Vargas / pesquisadora pela Fundação Casa de Rui Barbosa
3. Gabriel Cid, doutorando em Sociologia pelo Instituto de Estudos Sociais e
Políticos, Universidade do Estado do Rio de Janeiro
4. Leandro de Paula Santos, doutorando em Comunicação pela ECO, Universi-
dade Federal do Rio de Janeiro
5. Marine Lila Corde, doutoranda em Antropologia Social pelo Museu Nacional,
Universidade Federal do Rio de Janeiro
6. Sávio Tadeu Guimarães, doutorando em Planejamento Urbano e Regional
pelo IPPUR, Universidade Federal do Rio de Janeiro
7. Virginia Totti Guimarães, doutoranda em Direito, Pontifícia Universidade Cató-
lica do Rio de Janeiro / professora de Direito Ambiental (PUC-Rio)
CRIADOR DA MARCA:
Laert Andrade
DIAGRAMAÇÃO:
Ubirajara Leal
REALIZAÇÃO:
APOIO:
PARCEIROS:
Universidade Federal Fluminense - UFF
Instituto de Artes e Comunicação Social - IACS | Laboratório de Ações Culturais - LABAC
Rua Lara Vilela, 126 - São Domingos - Niterói / RJ - Brasil - CEP: 24210-590
+55 21 2629-9755 / 2629-9756 | pragmatizes@gmail.com
PragMATIZES – Revista Latino Americana de Estudos em Cultura.
Ano IX nº 16, (OUT/2018 a MAR/2019). – Niterói, RJ: [s. N.], 2019.
(Universidade Federal Fluminense / Laboratório de Ações Culturais -
LABAC)
Semestral
ISSN 2237-1508 (versão on line)
1. Estudos culturais. 2. Planejamento e gestão cultural.
3. Teorias da Arte e da Cultura. 4. Linguagens e expressões
artísticas. I. Título.
CDD 306
Sumário / Summary
APRESENTAÇÃO DO DOSSIÊ / DOSSIER’S PRESENTATION
DOSSIÊ: Elementos para políticas brasileiras de acervos digitais em memória e cultura
DOSSIER: Elements for brasilian policies of digital accounts in memory and culture
CARLOS HENRIQUE MARCONDES 06
DOSSIÊ / DOSSIER 10
GLAM e Instituições de Memória em Rede: uma ‘Infosfera’ de Floridi?
GLAM and Network Memory Institutions: an ‘Infosphere’ by Floridi?
JOSÉ MURILO COSTA CARVALHO JUNIOR, DOLTON LOPES MARTINS e LEONARDO BARBOSA GERMANI 11
Objetos digitais: da maleabilidade do não-nito à uma ontologia
Digital objects: from malleability the non-nite to an ontology
RENAN MARINHO DE CASTRO 31
Elementos para uma política brasileira de acesso integrado,
utilização e preservação de acervos digitais em memória e cultura
Elements for a Brazilian policy of integrated access,
use and preservation of digital collections in memory and culture
ANGELA M. BETTENCOURT e CARLOS H. MARCONDES 44
Wikipédia e museus: uma parceria possível?
Wikipedia and museums: a possible partnership?
JULIANA MONTEIRO 62
REDE WEB DE MUSEUS: Relato de experiência na gestão
e acesso aos acervos culturais do Estado do Rio de Janeiro
“MUSEUM WEB NETWORK: Report of experience in management
and access to the cultural collections of the State of Rio de Janeiro
ELENORA NOBRE MACHADO e ÉRICKA MADEIRA DE SOUZA 74
Política de indexação no contexto da política arquivística de preservação digital
do Centro de Documentação e Memória da UNESP – CEDEM
Indexing policy in the context of the digital preservation archival policy
of the Documentation and Memory Center of UNESP – CEDEM
MARIÂNGELA SPOTTI LOPES FUJITA e SONIA TROITIÑO 91
Desenvolvimento da nova Biblioteca Digital da Biblioteca Brasiliana USP:
Relato de Experiência
Development of the new Digital Library of the Brasiliana Library USP:
Experience Report
RODRIGO MOREIRA GARCIA 111
Acervos digitais e o Uso das Tecnologias de Informação
e Comunicação em Arquivos Brasileiros
Digital Collections and the Use of Information
and Communication Technologies in Brazilian Archives
LUCIANA PIAZZON BARBOSA LIMA e ISABELA BERTOLINI COELHO 127
Patrimonio cultural europeo digitalizado: Europeana
European digital cultural heritage: Europeana
MARÍA-ANTONIA GARCÍA-MORENO e TONY HERNÁNDEZ-PÉREZ 140
6
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
Apresentação do Dossiê
“Elementos para políticas
brasileiras de acervos digitais
em memória e cultura”
7
Ano 9, número 16, semestral, out/2018 a mar/ 2019
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
Discutir políticas públicas no Brasil
em tempos de predomínio das ideologias
de estado mínimo e privatizações se torna
um desao. No entanto, é esse tipo de de-
sao que tem que ser enfrentado pela Uni-
versidade e por um periódico acadêmico
como PragMATIZES. Estamos numa época
em que qualquer um que dispõe de audi-
ência nos meios de comunicação se arvora
com autoridade para falar supercialidades
(que nada mais são do que suas próprias
opiniões desinformadas). Ao contrário do
que sugerem as mentalidades tacanhas e
superciais, cada vez é mais necessário
discutirmos e reetirmos sobre as questões
da Cultura em nosso país. O presente Dos-
siê é uma oportunidade para isso, em um
tema ainda pouco discutido, inclusive pela
academia, o das políticas públicas para
acervos digitais em Memória e Cultura.
Embora o Brasil tenha uma longa
trajetória de estado intervencionista e de
planejamento econômico e social, o setor
de Cultura tem sido pouco contemplado.
Se comparado, por exemplo, ao setor de
pesquisa em Ciência & Tecnologia e pós-
-graduação, o Brasil tem uma larga ex-
periência de planejamento e implantação
de, não somente políticas de governo,
mas sim políticas de estado, que perdu-
ram ao longo de décadas e de governos.
Os governos militares, desde a década de
1970, implantaram os PBDCTs – Planos
Básicos de Desenvolvimento Cientíco e
Tecnológico – o I, de 1973 a 1974, o II, de
1975-1977, e o III, de 1980 a 1985. Essas
políticas tiveram continuidade com a rede-
mocratização, foram raticadas e mesmo
ampliadas com a Constituição de 1988,
que ampliou as fontes de nanciamento,
destinando percentagens do orçamento
nacional para o desenvolvimento cientíco
e tecnológico. A Constituição de 1988 tam-
bém inuenciou fortemente as legislações
estaduais, que criaram as fundações de
amparo à pesquisa por estado e também
destinaram percentagens dos orçamentos
estaduais para fomento à C&T. Essa ten-
dência de fortalecimento de uma política
de estado para a C&T continuou a evoluir
até o golpe de 2016, que depôs a presi-
dente Dilma Rousseff e iniciou a desmon-
tagem do estado democrático no Brasil.
O processo que se deu com C&T não
teve paralelos na Cultura. Embora discus-
sões sobre uma política de cultura tenham
sido fomentadas principalmente a partir do
marco estabelecido pela Constituição de
1988, um Plano Nacional de Cultura só foi
instituído em 2010, através da Lei 12.343.
Em um periódico como PragMATI-
ZES é desnecessário repetir a importância
da Memória e da Cultura para a construção
da identidade de um povo. O que talvez
seja novidade são os registros digitais e o
papel atual da informação digital em Me-
mória e da Cultura, processo que estamos
vivendo atualmente. Em uma ecologia do
digital, com uma capilaridade extraordiná-
ria, atingindo a todos, registros digitais em
Memória e Cultura têm potenciais cultu-
rais, educacionais, para a cidadania novas
e extraordinárias, que os acervos conven-
cionais não possuem: um alcance, poden-
do ser consultados por qualquer um, de
qualquer lugar e a qualquer tempo; e uma
plasticidade, podendo ser copiados, e re-
combinados de várias maneiras. Inclusive
do ponto de vista econômico estes regis-
tros vêm sendo considerados um insumo
para as chamadas indústrias criativas,
como pode ser constatado na página do
projeto Europeana Creative
I
:
The project aims to support and promo-
te the re-use of cultural resources that
are made available via Europeana - a
website that provides access to digital
resources of Europe’s museums, libra-
ries, archives and audio-visual collec-
tions. Europeana Creative stimulated
the re-use of this wealth of material by
creative industries active in Design,
History Education, Natural History Edu-
cation, Social Media and Tourism.
8
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
De fato, estes potenciais ainda
são pouco conhecidos e explorados. Re-
querem maior conhecimento, conceituali-
zação, planejamento e políticas públicas
para que essas potencialidades sejam
maximizadas. Levantar essa discussão é
o objetivo do presente Dossiê.
Marco importante para as políticas
públicas para acervos digitais em Memó-
ria e Cultura foi a proposta de Roberto
Tadei, de 2010, “Políticas públicas para
acervos digitais: propostas para o Minis-
tério da Cultura e para o setor”, produzido
no contexto do Plano Nacional de Cultura
(PNC), que prevê entre suas metas a digi-
talização de acervos e sua disponibiliza-
ção na Web. A proposta de Tadei nunca
foi publicada formalmente e, até onde se
sabe, nunca saiu do papel. Aí estão colo-
cados os pontos chaves para o sucesso e
implementação de políticas públicas para
acervos digitais.
A pergunta que não quer calar é
porque não temos no país, implementa-
da e consolidada, políticas públicas para
acervos digitais? Embora tenham havido
apoios a projetos de digitalização de acer-
vos desde a primeira década de 2000,
esses apoios foram em nível de institui-
ções e acervos isolados, com um viés de
preservação digital desses acervos. Não
houve ainda projetos interinstitucionais,
que demandem articulação entre diferen-
tes instituições, fóruns comuns. Talvez ai
esteja o caminho para uma resposta. Nem
o estado brasileiro enxerga a necessidade
de uma política brasileira para acervos em
Memória e Cultura (ao contrário do caso
europeu, em que a Biblioteca Europeana
é uma política do Parlamento Europeu),
nem as instituições de Memória e Cultura
Brasileiras se vêm (ou estão preparadas
para) como participantes de projetos inte-
rinstitucionais de relativos a acervos digi-
tais em Memória e Cultura. Talvez a im-
portância desse Dossiê seja exatamente
colocar esta questão.
Os trabalhos iniciais discutem
questões mais teóricas. Os trabalhos de
Carvalho Junior, Martins e Germani junta-
mente com o de Castro, discutem e con-
ceitualizam os objetos digitais, questão
essencial para qualquer agenciamento
desses objetos.
A seguir, o trabalho de Betten-
court e Marcondes apresenta as ques-
tões técnicas e tecnológicas acerca do
acesso integrado a acervos digitais, cha-
mando a atenção para o fato de que as
questões tecnológicas para se lograr o
acesso integrado já estarem praticamen-
te equacionadas.
Os trabalhos seguintes destacam
vários casos e experiências brasileiras de
digitalização e acesso a acervos digitais.
Em primeiro lugar é relatada a experiência
recente da Wikipedia brasileira e seu gru-
po GLAM (sigla para Galeries, Libraries,
Archives, and Museums) em digitalizar e
disponibilizar através dessa plataforma
acervos brasileiros de diversos museus.
Cabe aí destacar o papel cada vez mais
importante que joga a Wikipédia na dispo-
nibilização de acervos digitais em Memó-
ria e Cultura (KLEIN; KYRIOS, 2013).
A seguir, o trabalho de Machado e
Souza relata a experiência da rede Web
de Museus do estado do Rio de Janeiro
em disponibilizar, através de seu portal
na Web, acervos digitalizados de diversos
museus do estado, públicos e privados;
a experiência é relevante pois mostra um
trabalho em rede e cooperativo entre dife-
rentes instituições, caso raro no Brasil.
O próximo trabalho, de Fujita e
Troitiño, relata a experiência do CEDEM
- Centro de Documentação e Memória da
UNESP, na formulação de políticas para
tratamento e digitalização de acervos
relevantes para a história política social
recente do Brasil, os dos movimentos
político-sociais.
9
Ano 9, número 16, semestral, out/2018 a mar/ 2019
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
O trabalho seguinte, de Garcia,
mostra a experiência da Biblioteca Bra-
siliana da USP na digitalização do seu
acervo, destacando as questões técnicas
e compromissos que tiveram que ser as-
sumidos na realidade de desenvolver um
projeto de digitalização no nosso contexto.
A seguir, o trabalho de Lima e Coelho des-
taca questões técnicas relativas à digita-
lização de acervos de um dos tipos mais
disseminados e importantes de instituição
de Memória e Cultura, os arquivos.
Finalmente o último trabalho, de
Garcia-Moreno e Hernández-Perez, des-
taca de forma clara e ilustrativa as polí-
ticas europeias para acervos digitais em
Memória e Cultura, centrados em torno
do Projeto da Biblioteca Brasiliana. Te-
mos muito que aprender com a experi-
ência internacional, que não se restringe
aos países do Primeiro Mundo; o México
lançou recentemente a experiência da
Mexicana - Repositório del Patrimonio
Cultural de Mexico
II
.
O conjunto de trabalhos deste
Dossiê toca em várias questões impor-
tantes, mas também várias outras ca-
ram por discutir. Esperamos que este
Dossiê possa disseminar experiências
e incentivar as instituições brasileira de
Memória e Cultura e os prossionais que
nelas trabalham para seu protagonismo
na formulação do uma política brasileira
de acervos digitais. Que ele seja tão so-
mente o início de uma discussão.
Carlos Henrique Marcondes,
editor do dossiê
Niterói, janeiro de 2019
Bibliograa
BRASIL. Ministério da Cultura. Plano Nacional de
Cultura. 2010. Disponível em: <http://pnc.cultura.
gov.br/>. Acesso em: 31 jan. 2019.
BRASIL. Presidência da República. Plano Bási-
co de Desenvolvimento Cientíco e Tecnológico,
1973/74. Brasília: IBGE, 1973.
BRASIL. Presidência da República. II Plano Básico
de Desenvolvimento Cientíco e Tecnológico. Bra-
sília: IBGE, [197_].
BRASIL. SEPLAN - CNPq. III PBDCT: Plano Bá-
sico de Desenvolvimento Cientíco e Tecnológico.
Brasília, 1980.
KLEIN, M.; KYRIOS, A. VIAFbot and the integra-
tion of library data on Wikipedia. Code4Lib journal,
v. 2, p. 85-107, 2013.
TADDEI, Roberto. Políticas públicas para acer-
vos digitais: propostas para o Ministério da Cultu-
ra e para o setor. São Paulo: [s.n.], 2010. Dispo-
nível em: <https://pt.slideshare.net/Culturadigital/
politicas-publicas-para-acervos-digitais>. Acesso
em: 13 dez. 2017.
I https://euroclio.eu/projects/partner-europeana-
creative/.
II Ver https://mexicana.cultura.gob.mx/
10
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
Dossiê
11
Ano 9, número 16, semestral, out/2018 a mar/ 2019
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
GLAM e Instituições de Memória em Rede: uma ‘Infosfera’ de Floridi?
¿GLAM e Instituciones de Memoria en Red: una ‘Infosfera’ de Floridi¿
GLAM and Network Memory Institutions: an ‘Infosphere’ by Floridi?
José Murilo Costa Carvalho Junior
I
Dalton Lopes Martins
II
Leonardo Barbosa Germani
III
Resumo:
A Ciência da Informação participa na promoção do termo ‘Instituição
de Memória’ como metáfora para a integração de bibliotecas, arquivos,
museus e centros de documentação. Uma das intenções assumidas foi
a de encorajar uma visão coerente sobre os recursos informacionais
que os acervos de tais instituições provêm. Em paralelo, a partir do
movimento em se integrar acervos digitalizados do campo da cultura
em rede emerge o acrônimo GLAM da língua inglesa, que integra
Galerias, Bibliotecas, Arquivos e Museus, e enfatiza a promoção do
acesso como missão principal. É justo armar que a demanda pela
interoperabilidade dos acervos dos diferentes domínios arquivísticos é
pautada pela possibilidade de integração dos conteúdos diversos via
web, cenário que propicia inovação no acesso e no processamento das
informações de patrimônio cultural pela sociedade. A partir de um foco
na reconstrução crítica de Richard Fyffe, sobre o papel do especialista
em CI na perspectiva da Infosfera de Floridi, buscamos identicar
como novos conceitos para o campo da Ciência da Informação,
derivados da FI e da Ética da Informação (EI) de Floridi, podem auxiliar
a compreensão de transformações radicais em curso no campo dos
acervos digitalizados de instituições de memória, e sua relação com as
questões éticas mais amplas no plano da Infosfera.
Palavras-chave:
Instituição de Memória
Cuidador do ambiente
semântico
Floridi
12
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
Resumen:
La Ciencia de la Información participa en la promoción del término
‘Institución de Memoria’ como metáfora para la integración de
bibliotecas, archivos, museos y centros de documentación. Una de las
intenciones asumidas fue la de alentar una visión coherente sobre los
recursos informativos que los acervos de tales instituciones provienen.
En paralelo, a partir del movimiento en integrar acervos digitalizados
del campo de la cultura en red emerge el acrónimo GLAM de la lengua
inglesa, que integra Galerías, Bibliotecas, Archivos y Museos, y enfatiza
la promoción del acceso como misión principal. Es justo armar que
la demanda por la interoperabilidad de los acervos de los diferentes
dominios archivísticos está pautada por la posibilidad de integración
de los contenidos diversos vía web, escenario que propicia innovación
en el acceso y en el procesamiento de las informaciones de patrimonio
cultural por la sociedad. A partir de un enfoque en la reconstrucción
crítica de Richard Fyffe, sobre el papel del especialista en CI en la
perspectiva de la Infosfera de Floridi, buscamos identicar como nuevos
conceptos para el campo de la Ciencia de la Información, derivados
del FI y de la Ética de la Información (EI) de Floridi, pueden auxiliar la
comprensión de transformaciones radicales en curso en el campo de
los acervos digitalizados de instituciones de memoria, y su relación con
las cuestiones éticas más amplias en el plano de la Infosfera.
Abstract:
Information Science participates in the promotion of the term ‘Memory
Institution’ as a metaphor for the integration of libraries, archives,
museums and documentation centers. One of the intentions was to
encourage a coherent view on the information resources that the
collections of such institutions come from. At the same time, the GLAM
acronym for the English language, which integrates Galleries, Libraries,
Archives and Museums, emphasizes the promotion of access as the
main mission. It is fair to say that the demand for the interoperability
of the collections of the different archival domains is based on the
possibility of integrating diverse contents via the web, a scenario that
provides innovation in the access and processing of information on
cultural heritage by society. From a focus on the critical reconstruction
of Richard Fyffe on the role of the CI specialist from the perspective of
the Floridi Infosphere, we sought to identify as new concepts for the
eld of Information Science, derived from FI and Information Ethics (EI)
by Floridi, can assist in the understanding of radical transformations
underway in the eld of digitized collections of memory institutions, and
their relation to broader ethical issues in the sphere of the Infosphere.
Palabras clave:
Institución de Memoria
Cuidador del ambiente
semántico
Floridi
Keywords:
Memory Institution
Caregiver of the
semantic enviroment
Floridi
13
Ano 9, número 16, semestral, out/2018 a mar/ 2019
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
GLAM e Instituições de Memória em
Rede: uma ‘Infosfera’ de Floridi?
Introdução
O campo da Ciência da Informação
está se expandindo de maneira vertigino-
sa. O fato de 90% do volume de dados
hoje presente na Internet ter sido produ-
zido nos últimos 2 anos
IV
-- desde 2016
-- indica que vivemos impacto informa-
cional em escala descomunal, que apre-
senta óbvias diculdades de assimilação.
Tal fenômeno cria situações de descom-
passo entre a realidade do que acontece
na rotina das pessoas, e a maneira como
funcionam as instituições e os marcos re-
gulatórios. A ciência, obviamente, é tam-
bém impactada diretamente pela explo-
são da informação digital, e coloca-se em
questão sua capacidade em responder
aos complexos dilemas informacionais da
sociedade contemporânea.
Neste contexto, o termo “Institui-
ção de Memória” têm ganhado proemi-
nência quando nos referimos a museus, bi-
bliotecas, arquivos, cinematecas, centros
de documentação cultural, e instituições
similares. Outra referência que representa
a agregação natural do campo na era da
cultura digital é o termo “GLAM
V
- um acrô-
nimo de “galerias, bibliotecas, arquivos
e museus”, e refere-se a instituições cul-
turais que têm o acesso ao conhecimen-
to como missão. Com a digitalização de
seus acervos, as vantagens destas insti-
tuições em promover a interoperabilidade
entre suas bases, e a necessidade logís-
tica de compartilhamento de infraestrutura
de software e hardware, vêm promovendo
a emergência de infraestruturas que per-
mitem a operação em ambientes digitais
contíguos e até permeáveis — claramente
um novo ambiente informacional.
Neste capítulo, iremos explorar a
Filosoa da Informação (FI) de Luciano
Floridi como arcabouço teórico para uma
Ciência da Informação (CI) contemporâ-
nea, com foco especial em questões es-
pecícas do processo de digitalização dos
acervos do patrimônio cultural, aqui repre-
sentado pelo denominado mundo GLAM.
Em nossa perspectiva, o conceito de “In-
fosfera”, que articula a construção teórica
de Floridi, descreve de maneira pertinente
o novo ambiente informacional e é ponto
de partida para a nova abordagem. O pró-
prio Floridi foi explícito em sua visão da
CI como Filosoa da Informação aplicada
(2002a), e na armação de que a Epistemo-
logia Social não poderia prover fundamen-
tos losócos adequados para a Ciência
da Informação. Em sua visão, no momento
em que o foco deixa de ser coleções lo-
cais, e passa a ser uma responsabilidade
compartilhada por uma rede de coleções
abrigadas em repositórios digitais, o pros-
sional especialista se torna um “cuidador
do ambiente semântico” (stewardship of
the semantic environment).
Na perspectiva da FI, a CI é uma
disciplina que se ocupa com “documentos,
seus ciclos de vida e os procedimentos,
técnicas e dispositivos pelos quais estes
são implementados, gerenciados e regu-
lados. A CI aplica os princípios fundamen-
tais e as técnicas gerais de FI para resolver
problemas concretos e lidar com fenôme-
nos especícos e práticos. Por sua vez, re-
aliza pesquisas empíricas orientadas para
serviços especícos (por exemplo, conser-
vação, valorização, educação, pesquisa,
comunicação e cooperação), contribuindo
assim para o desenvolvimento da pesquisa
básica em FI.” (FLORIDI, 2002a).
Com o intuito de ilustrar como a CI
pode iluminar os fenômenos especícos
e práticos do campo baseada em concei-
tos originados na FI de Floridi, apresenta-
mos a visão do especialista de CI como
“cuidador do ambiente semântico”, con-
14
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
forme apresentada na reconstrução crí-
tica do conceito de “fundo ontológico
(ontic trust) de Floridi realizada por Fyffe
(2015). Martens (2017), destaca Fyffe ar-
gumentando que “a reorientação proposta
por Floridi para a fundamentação losó-
ca da CI (LIS), saindo da epistemologia e
assumindo uma axiologia (value theory),
é especialmente oportuna pois mudamos
nosso foco de coleções locais para uma
responsabilidade mais ampla, comparti-
lhada entre uma rede de coleções realiza-
das em repositórios digitais e impressos
distribuídos” (FYFFE, 2015, p. 268).
Um aspecto crucial da FI de Flori-
di, que ao nosso ver atualiza de maneira
radical a CI para lidar com a explosão di-
gital, é sua atenção aos aspectos éticos
relacionados à informação. O movimento
de alargar o escopo de sua Ética da Infor-
mação (EI) para torná-la uma macro-ética
centrada na informação (FLORIDI, 2013),
gerou o que é considerado uma de suas
mais controvertidas armações: a de que
todas as entidades informacionais na in-
fosfera possuem um valor intrínseco. Para
Ess (2009) a FI de Floridi, inspirada pela
prevalência e signicado das tecnologias
digitais, constitui uma virada radical em
relação a toda uma base losóca anterior
ao declarar que tudo é fundamentalmen-
te informação.
Por m, cabe avaliar uma vantagem
crucial da Filosoa da Informação de Floridi
como framework para a Ciência da Infor-
mação, com reverberação direta no proces-
so de digitalização de acervos de bibliote-
cas, arquivos e museus. O universo GLAM
(Galerias, Bibliotecas, Arquivos e Museus)
abriga conteúdos muito além do sempre
destacado conhecimento técnico cientíco,
e a ênfase colocada nesta dimensão dos
documentos pela corrente Ciência da Infor-
mação tende a esconder este fato. O mo-
delo informacional de Floridi para conteúdo
semântico se adequa de maneira criativa
ao tratamento de ‘cção’, ou seja, o rico
imaginário que provê a maioria dos conte-
údos de patrimônio cultural, empregando
níveis apropriados de abstração para cada
tema, e sem cair em relativismo.
GLAM, e a ‘Infosfera’ de Floridi
Luciano Floridi, com a sua Filosoa
da Informação, nos convoca a reetir sobre
as novas questões práticas, conceituais
e éticas apresentadas por este ambiente
novo e totalmente digital. Ao enxergar a Ci-
ência da Informação (CI) como a aplicação
prática da FI, Floridi arma a necessidade
de uma nova e robusta análise teórica, ca-
paz de desenvolver os fundamentos con-
ceituais que irão capacitar o campo a res-
ponder e contribuir efetivamente com este
novo momento da sociedade.
Floridi (1999b, p. 8) arma que:
A descrição e o controle computadori-
zados do ambiente físico, juntamente
com a construção digital de um mundo
sintético, estão, nalmente, interliga-
dos com uma quarta área de aplica-
ção, representada pela transformação
do macrocosmo enciclopédico de da-
dos, informações, idéias, conhecimen-
to, crenças, experiências codicadas,
memórias, imagens, interpretações ar-
tísticas e outras criações mentais, em
uma área de informação global. A in-
fosfera é todo o sistema de serviços e
documentos, codicados em qualquer
mídia semiótica e física, cujos conte-
údos incluem qualquer tipo de dados,
informações e conhecimento. . . sem
limitações em tamanho, tipologia ou
estrutura lógica. Por isso, ele varia de
textos alfanuméricos (ou seja, textos,
incluindo letras, números e símbolos
diacríticos) e produtos multimídia para
dados estatísticos, desde lmes e hi-
pertextos até bancos de texto inteiros
e coleções de imagens, desde fórmu-
las matemáticas a sons e videoclipes.
15
Ano 9, número 16, semestral, out/2018 a mar/ 2019
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
Algumas iniciativas pioneiras como
o Internet Archive
VI
, e outras mais recen-
tes como a Europeana
VII
, a Biblioteca Pú-
blica Digital da América (DPLA)
VIII
, além do
Trove e do DigitalNZ
X
, vem demonstrando
os méritos de uma estratégia mais global
e mais duradoura voltada para uma Infos-
fera global. Nestas iniciativas percebe-se
que a ênfase do prossional da Ciência da
Informação se desloca das preocupações
de gestão dos acervos e usuários locais
para a responsabilidade compartilhada
por coleções mais expansivas, “embora
certamente este não seja um caminho ine-
vitável” (MARTENS, 2017).
Uma amostra representativa das di-
mensões normativas atuais das práticas do
universo GLAM pode ser vista através da
lente de três grandes associações pros-
sionais do patrimônio cultural nos Estados
Unidos (MARTENS, 2017): a Associação
Americana de Bibliotecas (ALA), a Socie-
dade de Arquivistas Americanos (SAA) e a
Aliança Americana de Museus (AAM). Por
exemplo, a declaração “Valores Chave”
(Core Values) da Associação Americana
de Bibliotecas articula as convicções pro-
ssionais em “acesso, condencialidade
/ privacidade, democracia, diversidade,
educação e aprendizagem ao longo da
vida, liberdade intelectual, preservação,
bem público, prossionalismo, serviço e
responsabilidade social”
XI
. Da mesma for-
ma, os objetivos prossionais declarados
da Sociedade de Arquivistas Americanos
são “selecionar, preservar e disponibilizar
registros históricos e documentais de va-
lor duradouro”
XII
. Outras declarações es-
pecícas para as coleções indicam que os
arquivistas devem preservar e proteger a
autenticidade dos registros em suas explo-
rações, documentando sua criação e uso
em formatos impressos e eletrônicos, para
preservar a integridade intelectual e física
desses registros, promover acesso aberto
e equitativo de acordo com os requisitos
legais, sensibilidades culturais e políticas
institucionais e para proteger os direitos de
privacidade dos doadores de documentos,
assuntos e usuários conforme necessário.
Por sua vez, o Código de Ética da
Aliança Americana de Museus arma que o
caráter distintivo da ética do museu deriva
da apropriação, cuidado e uso de objetos,
espécimes e coleções vivas que represen-
tam a riqueza comum natural e cultural do
mundo para a conança pública (public
trust). Este sistema de valor para coleções
traz consigo presunções particulares de
propriedade ética e legal, prioridades de
proteção e permanência, cuidados ade-
quados e custódia, documentação e res-
ponsabilidade adequadas, adequação de
acessibilidade e responsabilidade na aqui-
sição, empréstimo e disposição
XIII
. Embora
essas três abordagens normativas possam
enfatizar valores particulares em diferentes
graus, vistas em conjunto representam as
várias facetas do que Osburn chama de
“curadoria da transcrição social” (stewar-
dship of the social transcript) (2009, pp.
228-229), e contemplam de maneira privi-
legiada a perspectiva dos acervos impres-
sos. Fyffe aponta a falta de qualquer con-
sideração explícita acerca do tempo, além
da menção geral de “preservação” em cer-
tos contextos, e também qualquer conside-
ração explícita de valor além das menções
de “duradoura” e “riqueza comum”.
Outra abordagem que considera-
mos relevante para este capítulo é a do
programa “Memória do Mundo” (Memory
of the World - MoW) da UNESCO, criado
para a preservação do patrimônio docu-
mental (documentary heritage) em 1993 –
antes portanto do aparecimento da Internet
como fenômeno cultural. O programa ala-
vancou uma reexão global sobre o papel
das instituições de memória, e constituiu a
primeira abordagem em nível internacional
propondo um modelo agregador que bus-
ca selecionar conteúdos em domínios de
bibliotecas, arquivos e museus com base
em critérios especícos. Em termos técni-
cos, começa a incorporar a digitalização
16
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
de conteúdos em CD-ROM, o que provoca
naquele momento as primeiras reexões
acerca das peculiaridades da mídia digital.
A novidade era que apesar de ser impor-
tante a preservação do suporte, ou seja,
do CD-ROM, a posse deste não garantia o
acesso ao conteúdo registrado, sendo ne-
cessário também a máquina capaz de “ler”
o CD-ROM. Ou como diria Floridi, “tire o
software e o computador será apenas um
pedaço inútil de plástico, silício e metal”.
Na época de criação do Programa
MoW, um documento era denido como a
unidade entre um conteúdo informativo e
o suporte ou meio físico no qual a informa-
ção residia, sendo ambos considerados
igualmente signicativos como fontes po-
tenciais de memória. O valor de um docu-
mento não se limitava ao seu conteúdo,
mas também podia ser anexado ao supor-
te físico por seus valores estéticos, histó-
ricos, cientícos, associativos ou outros
(MoW, 1995). No entanto, essa conceitua-
ção muda no caso de documentos digitais
– e retrospectivamente no caso de todos
os documentos legíveis por máquina. Por-
tanto, em um primeiro momento, o progra-
ma iniciou um processo de digitalização
com atenção principalmente ao conteúdo
(UNESCO, 2011). Como explicado em um
dos principais documentos para a imple-
mentação do MoW, no caso de documen-
tos digitais, “o suporte, embora necessário
para conter sicamente a informação, é
de menor importância, e muitas vezes não
tem importância no contexto da Memória
do Mundo” (UNESCO, 2011, p.3).
Neste cenário, preservar os aspec-
tos interativos e dinâmicos do patrimônio
documental digital não é tarefa trivial, uma
vez que em sua formulação original o pro-
grama MoW lida apenas com objetos está-
ticos e nitos. No entanto, se os documen-
tos digitais de hoje são caracterizados por
interatividade e dinamismo que acontecem
em um espaço além dos muros das pró-
prias instituições de memória, de que ou-
tra forma os documentos digitais podem se
tornar parte do MoW, se não também as-
sumindo esses aspectos dos documentos
digitais? Só recentemente as diretivas do
programa foram atualizadas na perspectiva
do impacto digital. Ao denir preservação
no âmbito digital, a UNESCO utilizou uma
adaptação da denição básica da American
Library Association (2007). A nova versão
da Recomendação (UNESCO, 2015, p. 12)
para implementação do Programa informa
que “no mundo digital, a preservação pode
constituir uma combinação de políticas, es-
tratégias e ações para garantir o acesso a
conteúdos reformatados e nascidos digi-
tais, independentemente dos desaos co-
locados por falha da mídia e pela mudança
tecnológica. O objetivo da preservação di-
gital é a renderização precisa de conteúdo
autenticado ao longo do tempo”.
Uma última experiência deve ser
mencionada, e talvez a de maior impacto na
infosfera pelo seu sucesso enquanto ação
colaborativa desenvolvida na rede, e por
sua escala global — único entre os cinco
portais de maior acesso na internet global
constituído por empresa sem ns comer-
ciais. Trata-se da Fundação Wikimedia
XIV
,
que gerencia a Wikipedia
XV
, enciclopédia
desenvolvida em modelo “crowdsourcing”,
ativa em 282 idiomas, e que conta com de-
zenas de milhares de editores e dezenas
de milhões de artigos. A missão
XVI
do Mo-
vimento Wikimedia (que inclui Wikipedia,
capítulos da Wikimedia
XVII
e organizações
temáticas em todo o mundo, Wikimedia
Commons
XVIII
, Wikidata
XIX
, GLAM-Wiki
XX
e
Wikisource
XXI
) está em direta sintonia com a
de bibliotecas, arquivos e museus. Oportu-
nidades de colaboração do movimento com
as instituições de memória oferecem uma
gama de resultados que podem beneciar
bibliotecas acadêmicas e de pesquisa, in-
cluindo crowdsourcing, envolvimento da
comunidade, modelos rápidos para publica-
ção on-line, designações de escrita de alu-
nos denidas na Wikipedia e envolvimento
com comunidades de aprendizagem.
17
Ano 9, número 16, semestral, out/2018 a mar/ 2019
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
O projeto The Wikipedia Library
(TWL), por exemplo, se concentra em me-
lhorar o papel da Wikipédia no ecossistema
de pesquisa. A iniciativa teve início com a
ideia de ajudar os editores voluntários da
Wikipédia a acessar fontes conáveis para
qualicar os verbetes e, desde então, ex-
pandiu-se para oferecer suporte a outros ti-
pos de acesso a referências e engajamento
público. Como parte desta missão, o TWL
ajuda os prossionais da CI a compartilhar
suas coleções com o público e se envolver
com a Wikipédia e demais projetos Wiki-
media. A Biblioteca da Wikipédia é nan-
ciada pela Fundação Wikimedia, e parece
realizar a visão oridiana da Infosfera como
a “transformação do macrocosmo enciclo-
pédico de dados, informações, idéias, co-
nhecimento, crenças, experiências codi-
cadas, memórias, imagens, interpretações
artísticas e outras criações mentais, em
uma área de informação global”.
Um desenvolvimento mais recente
da Fundação Wikimedia, que envolve no-
vas utilizações do serviço Wikidata, têm
chamado a atenção dos especialistas em
dados abertos vinculados (Linked Open
Data-LOD
XXII
). Criar e usar LOD em biblio-
tecas e projetos GLAM tem sido historica-
mente associado a um alto nível de requisi-
tos técnicos e institucionais – selecionar e
manter as chamadas triple-stores, manter
e operar motores SPARQL, gerenciar pla-
taformas de indexação e outros serviços
não triviais para instituições de memória. O
Wikidata, lançado em 2012 pela Fundação
Wikimedia para cumprir a função de repo-
sitório de dados estruturados (legível por
máquinas) para todos os projetos do Movi-
mento, é uma plataforma que oferece servi-
ços gratuitamente. Hoje, o Wikidata é uma
plataforma pronta para qualquer pessoa
ou organização que queira criar, publicar e
usar LOD, incluindo bibliotecas, arquivos,
museus e demais instituições de cultura.
Em seu documento de discussão da
IFLA
XXIII
de 2016, Bartholomei et al indicaram
que “o potencial do Wikidata para agregar
dados vinculados e autoridades de dados
vinculadas em todas as línguas do mundo,
além de integrar muitas ontologias e taxo-
nomias diferentes, reúnem um enorme po-
tencial para apoiar pesquisadores em todo
o mundo”. A plataforma é cada vez mais
importante como um recurso genérico de
LOD, funcionando como “hub” de integração
do campo, e a partir de fevereiro de 2018 o
Wikidata passou a oferecer links para dados
externos com mais de 2.500 identicadores.
Como projeto internacional, multilíngue e
baseado em uma crescente comunidade de
especialistas colaboradores, o Wikidata é
uma opção prática para uso por bibliotecas.
Seu compromisso com o acesso aberto de-
termina que todas as contribuições sejam li-
cenciadas sob a licença Creative Commons
CC0 “No rights reserved”, o que permite que
o conteúdo (49 milhões de itens a partir de
fevereiro de 2018) seja usado em qualquer
projeto sem os requisitos complicados de
atribuição de outras licenças de dados aber-
tos, e garante que todas as contribuições
para o repositório ampliem o universo de
dados disponíveis gratuitamente.
É no contexto apresentado acima,
onde os prossionais de bibliotecas, arqui-
vos e museus passam a desempenhar pa-
péis de interligação de suas coleções locais
com os demais acervos em rede, que vis-
lumbramos o conceito de ‘curador ou ‘cui-
dador (stewardship) desenhado por Floridi.
Ao projetar o papel do prossional da Ci-
ência da Informação no ‘ambiente semânti-
co’ do mundo GLAM, Floridi transcende as
formulações anteriores; e ao fundamentar
a sua EI na armação de que a informação,
em qualquer nível, analógico ou digital, me-
rece algum nível de respeito e também pro-
teção, entende por bem estabelecer que
o próprio mundo é, agora, a Infosfera.
Nosso dever como agentes morais na in-
fosfera – ou, nos termos de Floridi, como
organismos de informação ou “inforgs” que
possuem uma natureza especial como
“estruturas estruturantes” autoconscientes
18
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
e auto-determinantes (FLORIDI, 2010, p.
279-280) – é contribuir para o crescimento
da infosfera, evitar a destruição de objetos
informacionais e de qualquer processo,
ação ou evento que afete negativamente
toda a infosfera. A abrangente questão for-
mulada pela Ética da Informação de Floridi
é: “O que é bom para uma entidade infor-
macional e a infosfera em geral?” Em vez
da questão ética tradicional sobre “o que é
bom para um ser humano individual e a hu-
manidade em geral?”
Do ponto de vista da Ética da Informa-
ção (EI), o discurso ético agora se refere
à informação como tal; isto é, não ape-
nas todas as pessoas, seu cultivo, bem-
-estar e interações sociais, e não ape-
nas animais, plantas e sua própria vida
natural, mas também tudo o que existe,
desde pinturas e livros até estrelas e pe-
dras; qualquer coisa que possa ou exis-
ta, como as gerações futuras; e qual-
quer coisa que não fosse mais, como
nossos antepassados. Ao contrário de
outras éticas não padronizadas, a EI é
mais imparcial e universal - ou pode-se
dizer menos tendenciosa - porque traz
uma conclusão ulterior do processo de
ampliar o conceito do que pode contar
como um centro de reivindicações mo-
rais, que agora inclui todas as instâncias
de informações independentemente de
estarem sicamente implementadas ou
não. Essa abordagem abrangente é tor-
nada possível pelo fato de que a EI ado-
ta os ‘Níveis de Abstração’ (NdA), nos
quais o Ser e a Infosfera são co-referen-
ciais (FLORIDI 2013, p. 65)
.
Ontologias e ‘Níveis de Abstração’ (NdA)
A Ética da Informação (EI) derivada
da Filosoa da Informação (FI) de Floridi
apresenta ainda outro elemento conceitu-
al crucial para a abordagem da Ciência da
Informação no campo do patrimônio cultu-
ral, com reverberação direta e imediata no
processo de digitalização de acervos de
bibliotecas, arquivos e museus. O mundo
GLAM abriga conteúdos que vão muito
além do sempre destacado conhecimen-
to técnico cientíco, e a ênfase colocada
nesta dimensão dos documentos pela cor-
rente Ciência da Informação tende a es-
conder este fato. A arquitetura informacio-
nal de Floridi para conteúdo semântico se
adequa de maneira criativa ao tratamento
de informação ‘ccional’, ou seja, o rico
imaginário que provê a maioria dos con-
teúdos de patrimônio cultural. A estratégia
é empregar Níveis de Abstração (NdA)
apropriados para cada tema, contexto e
local, evitando assim cair em relativismo.
Segundo Gonzales (2013), “o con-
ceito que dá ancoragem epistêmica ao
método de abstração de Floridi, eviden-
ciando um ponto crucial de suas teorias,
é o de modelização (FLORIDI, 2011b, p.
68-69). Os NdA constituem, por meio de
modelos, redes de observáveis (FLORI-
DI, 2011b, p. 72), ancoradas em compro-
missos ontológicos, antes de constituir
redes de conceitos que pudessem de-
mandar justicação por meio de compro-
missos epistêmicos. Floridi insiste em re-
jeitar as abordagens da representação e
da interpretação (ver, por exemplo, FLO-
RIDI, 2012b, p.30) para o entendimento da
informação semântica, utilizando-se dos
NdA para pensar na modelização como o
vínculo possível entre o real e os proces-
sos de semantização, que são nalmente
processos de construção. Lembremos que
o agente dos processos de semantização é
um designer e não um sujeito epistêmico
ligado ao mundo pela representação.”
Para Martens (2017), os NdA de Flo-
ridi constituem uma abordagem “arquitetô-
nica” para todos os conteúdos semânticos
(FLORIDI, 2011, p.182-208) e “uma ética
arquitetônica” especicamente destinada
aos criadores, designers e usuários da in-
fosfera (FYFFE, 2015, p. 302). Podemos
dizer que esta perspectiva se assemelha
19
Ano 9, número 16, semestral, out/2018 a mar/ 2019
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
às práticas ontológicas de classicação
e indexação de bibliotecários para comu-
nidades de usuários: práticas que, como
observa Fyffe, são normativas no aspecto
semântico, e não no aspecto epistemoló-
gico. “A biblioteconomia é fundamental-
mente preocupada com a manutenção e o
aprimoramento dos ambientes informacio-
nais ao longo do tempo. Esses ambientes
incluem informações sobre objetos infor-
macionais, os metadados que descrevem
esses objetos e suas origens, e também
sobre o comportamento dos usuários da
biblioteca. A integridade desses ambientes
possibilita os projetos epistêmicos desses
usuários, mas a biblioteconomia não é, por
si, epistemológica.” (p. 283)
Nessa perspectiva, é fácil constatar
que a visão de Floridi para o especialista
de CI como ‘cuidador do ambiente semân-
tico’ oferece um quadro promissor para a
compreensão desse tipo de normatividade,
agora pensado no âmbito da Infosfera. Fyffe
conclui: “De fato, os argumentos de Floridi
apontam para uma continuidade da cons-
trução semântica que começa com o surgi-
mento da linguagem, da escrita e de outros
artefatos cognitivos e engloba a comuni-
cação moderna e as tecnologias computa-
cionais” (p. 282). Essa maior abrangência
também é representada pela importância
emergente do movimento GLAM discutido
anteriormente, que é inclusivo de comu-
nidades culturais bem mais amplas. Fyffe
escreve: “Compreender a biblioteconomia
como uma ação permanente de manuten-
ção do ambiente semântico, portanto, não
signica privilegiar a informação em detri-
mento dos usuários, mas sim desenvolver
uma visão holística e ecológica das inte-
rações entre os conhecedores (incluindo
usuários de bibliotecas ou seus patronos)
e seu ambiente semântico” (p. 281). Ele
demonstra que a FI se conecta com uma
atuação que vai além da “instrução biblio-
gráca” da biblioteca tradicional para inicia-
tivas contemporâneas focadas em “forma-
ção / capacitação em informação” para os
conhecedores / usuários, esforços que se
tornam cada vez mais contextuais e envol-
vem uma variedade crescente de objetos
informacionais dentro e fora de coleções
locais / individuais.
Em outra perspectiva, com a intro-
dução do neologismo “re-ontologização”,
Floridi (2007) levanta uma crítica original
ao impacto futuro do avanço das TICs na
sociedade, discutindo riscos inerentes à
“exclusão digital”
XXIV
. O termo traz clara-
mente conotações relacionadas aos usos
distintivos da ontologia, tanto na losoa
analítica quanto na engenharia de softwa-
re. Floridi (2001) arma que as tecnolo-
gias digitais de informação e comunicação
estão reontologizando a própria nature-
za, por um lado tornando-a “sem fricção”
através da transição de dados analógicos
para dados digitais ontologizados, e por
outro incluindo todo o mundo natural em
um crescente espaço digital, a infosfera.
Ele adverte que esta re-ontologização terá
sérias consequências sociais, já que o fe-
nômeno da desigualdade digital acontece-
rá não apenas entre aqueles que têm ou
não acesso, mas também entre aqueles
que podem impactar e aqueles que só po-
dem ser impactados pelos resultados des-
te novo arranjo. Sua preocupação é maior
devido à consciência de que são precisa-
mente as sociedades hiper dependentes
da tecnologia, aquelas que provocaram a
revolução da informação, as que parecem
ser menos capazes de lidar com seu im-
pacto ético. Na leitura de Martens (2015),
Floridi arma que serão as culturas pré ou
não-industriais, aquelas que conseguiram
manter uma abordagem não materialista e
não consumista do mundo, que se mante-
rão “espirituais” o suciente para perceber
tanto em realidades físicas quanto imate-
riais algo intrinsecamente digno de respei-
to, simplesmente como forma de existên-
cia. Nesta perspectiva, a ética ambiental
da infosfera deve ser construída, conside-
rando também as necessidades daqueles
que lhe são “estranhos”. (p.4)
20
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
O “fundo ontológico” (ontic trust)
de Floridi
Um conceito fundamental para
a Ética da Informação (EI) de Floridi é o
de “fundo ontológico“, que ele promove
como uma perspectiva alternativa para a
perspectiva dualista moderna que ele cha-
ma “abismo ontológico“, o qual vê todas
as entidades não-humanas principalmen-
te em termos de sua potencial utilidade
para ns humanos. Fyffe argumenta que,
para tornar a EI de Floridi viável e valiosa
como guia para a prática de CI, deve ser
possível demonstrar que a preservação
de informações a longo prazo e o aumento
do acesso devem ser preferidos em rela-
ção à perda ou restrição. Ao promover sua
noção de “objetos informacionais” como
tendo um valor intrínseco e não meramen-
te instrumental, Floridi amplia nosso ponto
de vista ético muito além da coleção local
e sua comunidade de usuários, que ser-
vem como pontos de referência normati-
vos para as práticas atuais em CI.
Este “fundo ontológico” baseia-se
nos bens ou “corpus” representados pelo
mundo, incluindo todos os agentes e pa-
cientes (a infosfera), sendo os doadores
todas as gerações passadas e atuais, os
curadores sendo todos os agentes indivi-
duais atuais e os beneciários sendo todos
agentes e pacientes individuais atuais e
futuros. Floridi explica que esse “fundo” é
semelhante a um contrato social que en-
globa o mundo inteiro, e que todas as par-
tes neste contrato, simplesmente com o
seu surgimento, estão vinculadas a tudo o
que já é, tanto de forma involuntária quanto
inescapável. Ele observa que esta inclusão
das diversas partes deve ser feita de for-
ma carinhosa, porque “a participação na
realidade por qualquer entidade, incluindo
um agente - ou seja, o fato de que qual-
quer entidade ser uma expressão do que
existe - fornece um direito de existência e
um convite ao respeito e ao cuidado com
os demais” (FLORIDI 2013, p. 302].
Para ilustrar melhor o contexto,
Fyffe apresenta um exemplo de como os
‘objetos informacionais’ de Floridi podem
fundamentar uma teoria ética para a CI,
e nos recorda da observação de Hacking
de que: “quando os lósofos [. . .] querem
armar que algo é real, eles recorrem às
pedras” (1999, p. 204:).
Quando um pedregulho especíco da
região de Olduvai Gorge
XXV
é exami-
nado em um museu, pode presumivel-
mente fornecer evidências em termos
de sua origem, sua geologia, sua pro-
veniência, sua história como mostrado
pelos impactos naturais ou não natu-
rais, sua superfície ou sua congura-
ção interior, ou os objetos anexos com
os quais foi encontrado. No entanto,
não existem considerações éticas que
acompanham a sua apresentação ou
preservação. Mesmo que uma nova
descoberta fosse feita de um presumí-
vel kit de ferramentas de pedras do cha-
mado “último ancestral comum” entre o
chimpanzé e as linhas de hominídeos
há aproximadamente 6 a 7 milhões de
anos (o que seria uma informação nova
extremamente relevante), não existe
um tal imperativo além da competência
de um cientista do campo em particu-
lar, ou o de um curador da coleção em
questão (no Smithsonian ou no British
Museum), possa considerar apropria-
do. Isso é especialmente preocupante,
pois há muitas instâncias em que uma
interpretação de evidência original é in-
correta, e acaba sendo substituída ou
permanece ambígua. A evidência do-
cumental, por denição, é evidência de
algo: um documento que já não é evi-
dência já não é um documento e pode
ser desconsiderado ou mesmo descar-
tado durante o chamado “ciclo de vida
da informação”, como parte das rotinas
de ordem prática do prossional de CI.
Day observa que essa visão predomi-
nantemente orientada para o presente
da informação, obviamente utilitária,
21
Ano 9, número 16, semestral, out/2018 a mar/ 2019
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
‘fecha o passado, o presente e o futuro
para outras formas de nos tornarmos
informados que podem não ser vistas
como informações’ (Day 2014, p. 44) --
pelo menos em nossa perspectiva atu-
al.” (MARTENS, 2017)
Em contraposição a este cenário, a
perspectiva de FI de Floridi oferece um nível
mínimo de respeito mesmo para uma rocha
que, por exemplo, apresenta evidências de
contato hominídeo ao invés de contato hu-
mano (LEWIS; HARMAND, 2016). O objeto
informacional também merece considera-
ção por seus outros atributos informativos,
que podem coexistir em diferentes NdA,
de acordo com a FI. Isso também permite
reconhecer que futuras investigações, di-
ferentes interpretações ou novos agentes
podem surgir como importantes a qualquer
momento. Em última instância, a EI fornece
uma lógica de respeito além do valor uti-
litário instrumental atual para tais objetos
informacionais em risco.
Floridi citou uma estimativa de um
bilhão de anos para a existência contínua
da vida na Terra antes de um inevitável
aumento da temperatura solar torná-lo
inabitável (FLORIDI, 2103, p. 3). Martens
(2017) destaca Koehler (2015, p. 242) ci-
tando o escritor de cção cientíca Isaac
Asimov na observação de que “tudo se
desintegra ao longo do tempo e acaba se
dissolvendo no ‘barulho do fundo’ (back-
ground noise)”, e acrescenta: “O bibliote-
cário tem um mandato cultural para con-
servar memórias e informações desse
processo de desintegração. Se qualquer
objeto informacional puder ‘provar a im-
portância de um ‘fundo ontológico’ que
mereça nossos cuidados, ou pudermos
identicar a presença de um ‘véu de ig-
norância’ em atuação tanto sobre os ‘or-
ganismos informacionais’ (inforgs) quan-
to sobre os ‘objetos informacionais’ que
mereça nossa atenção, podem ser estas
as rochas nas quais fundamentamos nos-
sa argumentação.”
Ao apresentar as potencialidades e
possíveis problemas para a CI na âmbito
da Filosoa da informação de Floridi, Mar-
tens (2017) sugere que “a CI pode ser tão
importante para a FI como a FI é para a
CI”, na perspectiva de aprofundar a com-
preensão mútua sobre ontologias informa-
cionais, sobre as dinâmicas dos domínios
informacionais, e a variedade de relações
dinâmicas entre organismos e objetos
informacionais. O autor destaca a impor-
tância de se conhecer o trabalho de Flo-
ridi diretamente em seus livros, para uma
apreciação e entendimento superiores de
sua construção teórica. Dessa forma será
possível avaliar se a Filosoa da Informa-
ção oferece novas energias e sinergias
para a pesquisa em Ciência da Informa-
ção, assim como o que pode ser conside-
rado a inspiração poética para uma prática
contemporânea.
No tecido informacional que denomina-
mos Ser (Being), existem alguns nós
especiais. [...] esses nós são estruturas
informativas, como todos os outros nós,
pacotes encapsulados de diferenças,
relações e processos, que contribuem
para o valor e a riqueza do todo. Sua
natureza especial não está no que eles
são -- em sua física e bioquímica, para
usar um nível diferente de abstração
--, mas no que eles podem fazer, pois
são estruturas estruturantes (structu-
ring structures), a melhor defesa con-
tra a entropia / o mal. Eles são os loci
onde o uxo de informação atinge sua
maturidade e torna-se consciente de si
mesmo, capaz de autodeterminação e
capaz de se desacoplar do resto do te-
cido e assim reetir sobre sua própria
natureza e status, passando assim de
uma evolução Darwiniana, física, para
um desenvolvimento mental Lamar-
ckiano (desenvolvemos nossa mente
muito mais rápido do que nossos cor-
pos). Tais nós, você e eu incluídos,
têm um destino pouco claro. Eles po-
dem esperar que sua luta moral contra
22
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
a entropia seja realmente apenas um
pequeno episódio em um plano divino.
Se assim for, isso só pode ser motivo
de alegria. Ou eles podem temer que
tal luta seja, infelizmente, apenas um
esforço titânico em um universo infru-
tífero e solitário, uma na linha verme-
lha contra o vandalismo do tempo, cujo
fracasso pode ser adiado e atenuado,
mas não evitado. Se assim for, isso ain-
da deve ser motivo de algum modesto
regozijo, pois eles terão ajudado a rea-
lidade a morrer de uma morte mais gra-
ciosa. Esses nós são os cuidadores do
Ser. Eles podem fazer o que quiserem,
desde que sejam cuidadosos. (FLORI-
DI, 2010, pp. 279-280)
Revisitando a Ciência da Informação:
uma proposta operacional para os cui-
dadores do ambiente semântico
Ao longo deste artigo, nos referimos
a essa nova responsabilidade comparti-
lhada e mesmo, em alguns momentos, a
uma responsabilidade mais ampla que a
perspectiva inovadora da FI de Floridi con-
templa. Indicamos que tal perspectiva leva
à constituição de um comum, e implica em
uma atitude de cuidado a qual se alinham
sujeitos epistemológicos aqui designados
como “cuidadores do ambiente semânti-
co”. Dissemos que tais atores constituem
grupos de prossionais especializados
que produzem em rede para além dos li-
mites de sua ação nas coleções locais que
se organizaram no âmbito das instituições
de memória. O ponto que se destaca é a
abertura às novas relações prossionais
que passam a se tornar o cotidiano opera-
tivo desse novo curador / cuidador, quan-
do este se coloca em rede e pronto para o
exercício da ativação e produção de redes
semânticas com seus pares. Cabe portan-
to indagar, para encaminhar a nalização
dessa reexão, que elementos estruturam
essa nova atuação prossional, e o que de
fato se coloca em ambiente de rede para a
constituição deste renovado fazer cientí-
co da Ciência da Informação.
A CI, ao longo de seu processo de
constituição e amadurecimento como ci-
ência, tem passado por diferentes para-
digmas e gradativamente ampliado sua
capacidade de compreender os fenôme-
nos que a constituem, numa perspectiva
onde se destaca cada vez mais a ação hu-
mana no acontecimento informacional.
Mas o movimento realizado pela ci-
ência da informação, em todas as di-
reções (sua manifestação em outros
contextos, as tentativas de caracteriza-
ção e o desenvolvimento de subáreas
ou correntes teóricas), foi justamente
o de superação dos limites do modelo
positivista, em direção a outras formas
de entendimento do fenômeno informa-
cional que passaram a considerar, gra-
dualmente, as dimensões cognitivas,
históricas, hermenêuticas e pragmá-
ticas envolvidas na denição de algo
como sendo informação. (...) é possível
perceber que informação foi entendi-
da, na ciência da informação, inicial-
mente como sinônimo de documento
(o conhecimento humano registrado);
depois, como o ‘conteúdo objetivo’ dos
documentos (aquilo que pode migrar
de um suporte físico para outro); a se-
guir, como um produto da interação en-
tre dados e conhecimento; e, por m,
em anos mais recentes, como algo
diretamente ligado às ações humanas
e inserido em determinado contexto.
(ARAÚJO, 2014, p. 164).
É possível compreender, a partir
dessa abordagem do conceito de infor-
mação, que a ação técnica desse pros-
sional também muda com o tempo e se
recoloca em outros termos. Ao incluir as
questões hermenêuticas e pragmáticas
na compreensão do fenômeno informa-
cional, se destaca a diversidade humana
como fator social responsável pelo pró-
23
Ano 9, número 16, semestral, out/2018 a mar/ 2019
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prio acontecimento da informação como
evento passível de ser observado e es-
tudado como ciência. É essa diversidade
que lhe atribui diferentes formas, mode-
los, padrões, comportamentos e uxos de
circulação e relacionamento social que
não apenas denotam a complexidade do
fenômeno, como também exigem novas
perspectivas técnicas e disciplinares do
prossional que atua em seu meio. Não
é mais possível estar ingênuo e acreditar
que se trata apenas de excelência técnica
de um fazer operativo neutro e constituí-
do de saberes estáveis e padronizados.
O próprio fenômeno do acontecimento
informacional, a partir da diversidade de
apropriações que lhe são inerentes, se
constitui rede quando se observa o hu-
mano transitando e produzindo os uxos
de circulação da informação.
É, portanto, a partir dessa compre-
ensão que se faz necessário reetir no que
constitui esse novo papel de responsabi-
lidade compartilhada em rede do “cuida-
dor do ambiente semântico”. Entender as
operações que envolvem essa responsa-
bilidade ampliada nos auxilia a compreen-
der o que se coloca em rede nesse novo
ambiente semântico.
[...] os processos envolvidos nas ma-
neiras como as diferentes sociedades
se relacionam com o conhecimento,
e com os registros do conhecimen-
to, envolvem basicamente as quatro
operações descritas nestes tópicos:
a coleta (relacionada com a seleção,
a acumulação e o armazenamen-
to), a análise (que envolve aspectos
como descrição, classicação, nar-
ração, catalogação), a disseminação
(exposição, referência, publicização
e visualização) e, por último, a ação
(relacionada com a recepção, a recu-
peração e a memória, e com a ideia
de informação útil, para ser usada na
guerra, nos negócios e em demais ati-
vidades). (ARAÚJO, 2014, p. 165).
Logo, o que esse curador exerce em
rede nesse novo ambiente semântico é a co-
leta, a análise, a disseminação e a ação de
uso da informação para seus diferentes ns.
O que, dessas quatro grandes ações opera-
cionais, envolve necessariamente a articula-
ção e mesmo a participação em redes de es-
pecicação de padrões técnicos que visam
promover a interoperabilidade das coleções
e garantir a sua existência em rede?
As etapas da coleta, dissemina-
ção e ação de uso da informação envol-
vem o interesse individual ou coletivo de
curadores/cuidadores que se propõem a
organizar e utilizar as coleções relativas
aos seus contextos existenciais, a partir
do uso de redes de informação já instau-
radas, não exigindo para atuarem em rede
a deliberação explícita de decisões técni-
cas que, se não forem consensuadas em
algum âmbito coletivo, não podem neces-
sariamente acontecer nesse ambiente de
rede. Já na etapa da análise se explicita a
necessidade de manutenção do ambiente
semântico em rede, seja (1) por meio da
adoção de padrões produzidos de forma
coletiva, aberta e com grande nível de re-
putação social já conquistada para serem
adotados sem maiores discussões, seja
(2) por meio da criação de novos coletivos
que se instauram como grupos de traba-
lho que se propõem a produzir suas pró-
prias convenções semânticas, de forma a
garantir que passarão a atuar em rede, e
que suas coleções e repositórios criados
a partir do que foi convencionado terão a
capacidade de constituir a mesma rede no
espaço semântico.
Sem essa articulação, os proces-
sos técnicos de classicação, descrição
e catalogação podem derivar espaços se-
mânticos com pouca capacidade de diá-
logo entre si, gerando silos de informação
que não podem ser integrados e tampou-
co utilizados em rede. O que se perde
aqui, é importante dizer, é não apenas a
capacidade técnica de interoperabilidade
24
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
entre os acervos, mas sobretudo a capaci-
dade de produção social de uma inteligên-
cia coletiva que gera valor cultural, econô-
mico e social ao se instaurar como rede.
De outra forma, o cuidado coletivo com o
ambiente semântico cria as condições ne-
cessárias para a geração de novos uxos
de informação, que passam a se encon-
trar, se agrupar e se tornarem disponíveis
de forma integrada ao interesse humano,
gerando efeitos inesperados de inovação
e criatividade ao serem combinados e re-
combinados de formas ainda não imagina-
das no espaço de produção de sentido da
mente humana.
De maneira simplista, pode-se dizer
que o que constitui essa etapa de análise
aqui ressaltada como fundamento estraté-
gico da constituição desse novo agente do
ambiente semântico é o exercício de três
grandes funções que são estruturantes de
todos os processos técnicos de organi-
zação e representação da informação no
âmbito da Ciência da Informação:
1. Modelos conceituais: a deno-
minação das entidades informacionais
que devem ser representadas e suas
relações entre si. São, em geral, produ-
zidos como ontologias para áreas espe-
cícas de conhecimento, por exemplo, o
CIDOC-CRM
XXVI
para a área de museus.
Representam também a possibilidade de
conexão de elementos (documentos, con-
ceitos, taxonomias) de uma coleção com
elementos equivalentes em outras cole-
ções ou repositórios. Pode ou não delegar
totalmente o controle de autoridades para
repositórios externos, ou simplesmente
“conectar” conceitos e objetos locais com
conceitos e objetos compartilhados pela
rede. Este é o caso, por exemplo, das prá-
ticas de publicação de Linked Open Data,
em que autoridades locais, como pesso-
as, são conectadas com bases de infor-
mação compartilhadas, como a WikiData,
para permitir a inter-conexões de diferen-
tes bases a partir destas conexões;
2. Padrões de metadados: repre-
sentam um conjunto de elementos descri-
tivos que serão utilizados para descrever
as características de um documento. São
as informações especícas a respeito de
um documento que serão armazenadas
em um banco de dados e que serão uti-
lizadas como pontos de acesso a esse
documento em um sistema de busca e
recuperação da informação. Podem ou
não dialogar com um modelo conceitu-
al e serem utilizados como os elementos
descritivos que representam as entidades
propostas por um modelo, como é o caso
do modelo de metadados LIDO
XXVII
que é
utilizado para representar o modelo con-
ceitual CIDOC-CRM;
3. Regras de catalogação: repre-
sentam propostas técnicas de como cada
elemento descritivo deve ser descrito,
normalizando a forma de escrita de no-
mes, valores numéricos e a utilização de
códigos simbólicos em geral. Podem ou
não responder a propostas especícas
de um modelo conceitual e de padrões
de metadados, como é o caso do RDA-
XXVIII
em relação ao modelo conceitual
FRBR
XXIX
, por exemplo.
O trabalho de análise da informa-
ção no ambiente semântico pode ser com-
preendido a partir dessas três grandes
funções. O que se visualiza da proposta
de Floridi, de responsabilidade comparti-
lhada dos cuidadores, é exatamente o for-
talecimento das redes de prossionais que
se conectam com iniciativas de formação
de padrões abertos e signicativamente
adotados para cada uma dessas funções,
e que logram instaurar um ambiente co-
mum a ser cuidado de forma coletiva e em
rede. O ambiente semântico é constituído
de ações de análise da informação a par-
tir da adoção de modelos conceituais, de
padrões de metadados e de regras de ca-
talogação. Floridi, ao perceber que esses
padrões quando amplamente compreen-
didos e adotados instauram redes de in-
25
Ano 9, número 16, semestral, out/2018 a mar/ 2019
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
teroperabilidade de informação, as quais
irão gerar novos modos de organização
da sociedade contemporânea, aponta não
apenas o surgimento de novas funções
para a CI, mas também a concepção dos
novos prossionais cuidadores desse am-
biente, a quem será conado esse traba-
lho de construção, manutenção e revisão
dos padrões semânticos os quais devem
assegurar a integração e o uxo da infor-
mação em rede.
O ambiente semântico como es-
paço comum ao exercício das funções
estruturantes, para que seja amplamente
adotado e recomendado por conjuntos ex-
pressivos de prossionais da área, deve se
instaurar como rede que incorpora reputa-
ção e representatividade da diversidade
cultural e social das áreas de conhecimen-
to que visa regular. Não se trata de iniciati-
va facilmente controlável, e passível de ser
instaurada a partir de perspectivas de inte-
resse limitado, centralizado e proprietário.
O que de fato se percebe é o exercício de
novas formas de inteligência coletiva em
rede percebidas por Floridi como cuidado-
res de um novo espaço informacional: as
próprias redes semânticas.
A Ciência da Informação, mais uma
vez, a partir da leitura de Floridi, se per-
cebe atravessada por novas demandas
de cunho inerentemente social e humano,
e incorpora de maneira determinante em
seu fazer técnico a pragmática dos cuida-
dores do ambiente semântico. Trata-se da
constatação de que será a capacidade de
agenciamento coletivo desses curadores/
cuidadores, quando mais ou menos e-
cientes na produção de uma inteligência
coletiva em rede a partir da denição e
da adoção de padrões semânticos intero-
peráveis, o que determinará o alcance, a
abrangência, a qualidade e a capacidade
técnica efetiva dos serviços de redes de
informação contemporâneas. É a própria
Ciência da Informação em Rede que se
exalta sob os olhos de Floridi, quando se
evidencia a importância do ambiente se-
mântico para o acontecimento do fenôme-
no informacional.
Conclusão
Neste capítulo, a partir da conexão
do conceito de Infosfera de Floridi com o
movimento das instituições de memória e
com o mundo GLAM – que integra Ga-
lerias, Bibliotecas, Arquivos e Museus, e
enfatiza o acesso como a principal mis-
são das instituições de memória na cul-
tura digital – destacamos o papel do pro-
ssional do campo como um ‘cuidador do
ambiente semântico’. Do trabalho intenso
na produção dos metadados das cole-
ções digitalizadas a serem disponibiliza-
das na rede, surge a demanda pelo uso
de vocabulários controlados, linguagem
documentárias, ontologias, às quais irão
tornar o trabalho local relevante para a
construção coletiva do ambiente semân-
tico. Conforme as formas de ativação em
rede dos processos de documentação,
mais rápido ou lentamente chega-se a
uma nova fase do experimento de partici-
pação no ambiente semântico, onde não
basta somente dar acesso aos dados bá-
sicos dos objetos digitais. O novo valor
que a ser criado diz respeito à possibi-
lidade de prover a inteligência capaz de
desenvolver o contexto sobre os dados, a
forma de compreendê-los.
A medida em que o prossional de
CI se posiciona como agente de cons-
trução de uma inteligência coletiva, com
valor cultural, econômico e social, per-
cebe que seu trabalho gera uma rede de
conhecimento que não é apenas inter-
conectada, mas interdependente. Assim
como a descrição dos objetos de sua co-
leção local dependem de conceitos man-
tidos por outras instituições ou grupos,
seu trabalho também pode estar ajudan-
do a descrever objetos sob os cuidados
de outras instituições ou grupos. Dessa
26
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
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maneira, não como este prossional
trabalhar de maneira isolada e completa-
mente autônoma, e deve estar preparado
a articular-se e desempenhar seu papel
como um nó mantenedor de uma comple-
xa rede de informações.
Da mesma forma, as instituições
de memória começam a perceber seu pa-
pel como fontes originárias da informação
de patrimônio cultural, e passam a desen-
volver novas formas de trabalhar dados
ligados a seus acervos e catálogos. Im-
portantes bibliotecas e museus no mun-
do, como a British Library
XXX
e o Rijksmu-
seum
XXXI
, já podem demonstrar o valor
que agregam às suas coleções ao criar
pontos de acesso aberto aos seus dados
de forma semântica, entendendo que isso
não apenas valoriza a informação dispo-
nível, mas também se torna uma nova es-
tratégia de descoberta de relações e no-
vas informações somente pesquisáveis
dessa maneira sobre os novos acervos.
Ou seja, não se trata apenas de uma nova
tecnologia de acesso aos dados, mas de
novas formas de enxergar os próprios
dados, estabelecer relações entre estes
dados para a descoberta de novas infor-
mações, e estabelecer um novo papel de
autoridade para a instituição no ambiente
semântico.
Analisar estes novos aspectos do
campo da cultura digital, que envolvem os
acervos do patrimônio cultural digitaliza-
dos das ‘Instituições de Memória’ e/ou do
mundo GLAM sob a perspectiva da Filoso-
a da Informação de Luciano Floridi foi um
exercício que se mostrou pertinente. Partir
do princípio de que “o próprio mundo é,
hoje, a Infosfera”, confere algumas vanta-
gens para a análise dos cenários que se
formam hoje nos vários campos impacta-
dos diretamente pelo digital. Também sua
Ética da Informação, fundamentada na
armação de que a informação, em qual-
quer nível, analógico ou digital, merece al-
gum nível de respeito e também proteção,
reforça a demanda pela interoperabilidade
dos domínios clássicos (arquivos, bibliote-
cas e museus). Em certo sentido, a pro-
vocação de Luciano Floridi atualiza a CI
para lidar com as questões complexas do
presente, especialmente neste tema com-
plexo que é a memória digital.
Em suas considerações nais,
Gonzalez (2013) alerta que “a convocató-
ria losóca de Floridi adquire relevância
como uma das abordagens losócas do
presente. Sua reexão sobre o dado e a
modelização abre um debate ainda não
assumido plenamente pela Ciência da
Informação, mas cujas questões perpas-
sam as condições contemporâneas do
conhecer, do comunicar, do lembrar e do
esquecer… Entender a relação entre in-
formações, dados e modelos é uma ques-
tão importante, na Filosoa, na Ética e na
Ciência da Informação. Floridi nos desaa
a participar dessa tarefa.”
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commendation_implementation_guidelines_en.pdf
Acesso em: 19/05/2018.
Recebido em 20/12/2018
Aprovado em 24/01/2019
I José Murilo Costa Carvalho Junior. Graduado em Psi-
cologia. Coordenador de Arquitetura da Informação do
Instituto Brasileiro de Museus, Brasil. Contato: Jose.Mu-
rilo@museus.gov.br
II Dalton Lopes Martins. Doutor em Ciência da Informa-
ção, Professor da Faculdade de Ciência da Informação
da Universidade de Brasília/UnB, Brasil. Contato: dalton-
martins@unb.br
III Leonardo Barbosa Germani. Mestre em Administra-
ção Pública, Coordenador de Desenvolvimento de Sof-
tware do Projeto Tainacan da Universidade Federal de
Goiás/UFG, Brasil. Contato: leogermani@gmail.com
IV In IBM Website: https://www-01.ibm.com/common/
ssi/cgi-bin/ssialias?htmld=WRL12345USEN Pg 3.
Acessado em: 18/01/2018
V In Wikipedia, a Enciclopédia Livre. https://
en.wikipedia.org/wiki/GLAM_(industry_sector) Aces-
sado em 18/12/2018
VI http://archive.org/
VII http://www.europeana.eu/
VIII http://dp.la/
IX http://trove.nla.gov.au/
X http://digitalnz.org/
XI In ALA Website: http://www.ala.org/advocacy/in-
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18/01/2018
XII In SAA Website: http://www2.archivists.org/state-
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Acessado em: 18/01/2018
XIII In AAM Website: http://www.aam-us.org/resour-
ces/ethics-standards-and-best-practices/code-of-ethics
Acessado em: 18/01/2018
XIV https://www.wikimedia.org/
XV https://www.wikipedia.org/
XVI Missão: “A Wikimedia é um movimento global cuja
missão é levar conteúdo educacional gratuito para o
mundo. Através de vários projetos, incluindo a Wikipe-
dia e Wikimedia Commons, a Wikimedia se esforça para
criar um mundo em que cada ser humano possa com-
partilhar livremente a soma de todo o conhecimento”.
(Cummings, 2016)
XVII Capítulos da Wikimedia são organizações inde-
pendentes fundadas para apoiar e promover os proje-
tos da Wikimedia numa região geográca especíca
(na maioria dos casos, um país). Assim como a Funda-
30
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
ção Wikimedia, eles visam “empoderar e se relacionar
com pessoas ao redor do mundo para coletar e desen-
volver conteúdos educacionais sob uma licença livre,
ou sob domínio público, e disseminá-los efetivamente
e globalmente”
XVIII https://commons.wikimedia.org/wiki/Main_Page
XIX https://www.wikidata.org/wiki/Wikidata:Main_Page
XX https://en.wikipedia.org/wiki/Wikipedia:GLAM
XXI https://en.wikisource.org/wiki/Main_Page
XXII O conceito de linked data (dados ligados entre
si) representa um conjunto de práticas introduzidas por
Tim Berners-Lee, com função de publicar e estruturar
dados na Web. O maior exemplo de utilização de linked
data é o projeto LOD (Linked Open Data), que é uma
comunidade com objetivo de lançar datasets (conjun-
to de dados), gerando assim uma nuvem de dados de
maneira a mantê-los estruturados, mesmo estando es-
palhados pela web.
XXIII Federação Internacional das Associações e Ins-
tituições de Bibliotecas - The International Federation
of Library Associations and Institutions - https://www.
ifla.org/
XXIV Exclusão digital: a desigualdade digital é um
conceito que diz respeito às extensas camadas das
sociedades que caram à margem do fenômeno
da sociedade da informação e da expansão das re-
des digitais. in Wikipediahttps://pt.wikipedia.org/wiki/
Exclus%C3%A3o_digital
XXV “O “objeto informacional” mais antigo na seção
de Origens Humanas do Smithsonian Institute é um
seixo de tamanho de punho com uma única borda ir-
regular, que foi identicada como uma ferramenta pré-
-histórica conhecida como o “machado” (chopper) de
Oldowan. O termo “machado” é usado para se referir
a um artefato de cascalho no qual várias lascas foram
retiradas de um lado para formar uma borda aada
para corte. Este objeto particular é chamado de “Ol-
dowan” porque é do desladeiro Olduvai na África,
e é presumido ter sido feito por um hominídeo que
precedeu o Homo sapiens há aproximadamente 1,8
milhão de anos atrás (Martens, 2017). O British Mu-
seum também possui um objeto semelhante que é
identicado como “um dos objetos mais antigos” em
sua coleção. E, ainda assim, claramente esses “ma-
chados” também são rochas: é presumivelmente o
elemento “design” dos hominídeos que torna essas
rochas particulares de especial importância. Outros,
até mesmo “machados” mais antigos, já foram iden-
ticados em Gona, na Etiópia, e se situam entre 2,5
e 2,6 milhões de anos atrás, e no site Lomekwi 3 em
Turkana Ocidental, no Quênia, há aproximadamente
3,3 milhões de anos (Lewis & Harmand, 2016) . Es-
sas proto-ferramentas foram o principal meio de au-
mentar as capacidades tecnológicas dos primatas e,
provavelmente, avançar as habilidades cognitivas dos
primatas por milhões de anos; nenhuma outra ferra-
menta conhecida tem sido tão dominante por quase
tanto tempo. Nossa própria abordagem “instrumental”
adotada para ser no mundo certamente está funda-
mentada nesta história.
XXVI http://www.cidoc-crm.org/
XXVII http://www.cidoc-crm.org/Resources/the-lido-
-model
XXVIII http://www.rdatoolkit.org/
XXIX https://www.ia.org/publications/functional-requi-
rements-for-bibliographic-records
XXX https://www.bl.uk/
XXXI https://www.rijksmuseum.nl/
31
Ano 9, número 16, semestral, out/2018 a mar/ 2019
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
Objetos digitais: da maleabilidade do não-nito à uma ontologia
Objetos digitales: de la maleabilidade del no-nito a una ontologia
Digital objects: from malleability the non-nite to an ontology
Renan Marinho de Castro
I
Resumo:
Apresenta os objetos digitais e seu impacto às unidades de informação
utilizando a análise do caso do Centro de Pesquisa e Documentação
de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getulio Vargas
(FGV/CPDOC). Destaca, brevemente, o impacto das tecnologias no
cotidiano social contemporâneo, e sua inuência nas transformações
observadas no campo informacional. Manifesta a necessidade de uma
reexão, por parte das Unidades de Informação, a respeito do impacto
que os documentos digitalizados e digitais têm sobre seu cerne, uma
vez que com a criação de uma massicação do digital, se promove
uma maleabilidade que suportes tradicionais de natureza física
não comportam. Conceitua o born-digital e o destaca como sendo
um elemento capaz de renovar toda a cadeia lógica informacional.
Analisa os dados de consulta ao acervo do CPDOC, de acordo com
as coleções mais visitadas no período de 2010 a 2016, destacando
o impacto no número de acessos a partir da disponibilização de
cópias digitais das coleções. Aponta a ontologia do digital como uma
possibilidade de apropriação da informação e suas repercussões sob
contexto da revolução tecnológica.
Palavras-chave:
Digitalização
Acervos Digitalizados
Objetos Digitais
Humanidades Digitais
Ontologia do Digital
32
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
Resumen:
Se presenta los objetos digitales y su impacto a las unidades de
información utilizando el análisis del caso del Centro de Investigación
y Documentación de Historia Contemporánea de Brasil de la
Fundación Getulio Vargas (FGV / CPDOC). Destaca, brevemente,
el impacto de las tecnologías en el cotidiano social contemporáneo,
y su inuencia en las transformaciones observadas en el campo
informacional. Se maniesta la necesidad de una reexión por parte
de las Unidades de Información sobre el impacto que los documentos
digitalizados y digitales tienen sobre su núcleo, ya que con la creación
de una masicación de lo digital, se promueve una maleabilidad que
soportes tradicionales de naturaleza física no comportan. Conceptua
el born-digital y lo destaca como un elemento capaz de renovar toda
la cadena lógica informacional. Analiza los datos de consulta al
acervo del CPDOC, de acuerdo con las colecciones más visitadas
en el período de 2010 a 2016, destacando el impacto en el número
de accesos a partir de la disponibilización de copias digitales de las
colecciones. Se apunta la ontología del digital como una posibilidad
de apropiación de la información y sus repercusiones bajo el contexto
de la revolución tecnológica.
Abstract:
This text presents the digital objects and their impact to information
units using the case study of the Getulio Vargas Foundation (FGV /
CPDOC) Center for Research and Documentation of Contemporary
History of Brazil. It briey highlights the impact of technologies on the
contemporary social, and its inuence on the transformations observed
in the informational eld. It points out the need for a reection on the
impact of digitized and digital documents on their core by the Information
Units, since with the creation of a mass of digital, it is promoted a
malleability that traditional supports of physical nature do not support.
It conceptualizes the born-digital and highlights it as being an element
capable of renewing the entire informational logical chain. It analyzes
the consultation data to the CPDOC collection, according to the most
visited collections in the period from 2010 to 2016, highlighting the
impact on the number of accesses from the availability of digital copies
of the collections. It points to the ontology of digital as a possibility of
appropriation of information and its repercussions in the context of the
technological revolution.
Palabras clave:
Digitalización
Acervos Digitalizados
Objetos Digitales
Humanidades Digitales
Ontologia del Digital
Keywords:
Digitalization
Digitalized Collections
Digital Objects
Digital Humanities
Humanities Computing
Digital Ontology
33
Ano 9, número 16, semestral, out/2018 a mar/ 2019
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
Objetos digitais: da maleabilidade
do não-nito à uma ontologia
Introdução
Mudanças contínuas e sem prece-
dentes experimentadas nos meios social
e natural da ação humana trouxeram em
seu bojo experimentações que pavimen-
taram o caminho para conceitos que hoje
balizam a sociedade contemporânea e
permeiam os estudos sobre esse pro-
cesso. Sendo esse movimento contem-
plado por diversos ângulos – econômico,
cultural, político e social zeram surtir
abordagens dedicadas a analisar esses
fenômenos. De certo esse processo foi
o responsável por construir temas maci-
çamente difundidos e conhecidos atual-
mente como, por exemplo, Globalização,
Sociedade em Rede, Sociedade da Infor-
mação, Revolução Tecnológica, Era da In-
formação, entre tantos outros.
Do ponto de vista sócio-cultural
contemporâneo uma das maiores ree-
xões desse processo se reverberou em
torno do conceito de Sociedade em Rede,
cunhado por Castells (2000). Para ele a
Sociedade em rede se congura, em li-
nhas gerais, no paradigma qual as rela-
ções sócio-econômico-culturais é alterado
pela massicação das tecnologias da in-
formação. Nesse novo modelo, que sinte-
tiza bem o patamar atual da humanidade,
essas relações passam a ser tidas e sen-
tidas em interação, impactadas, basica-
mente, pelas tecnologias da informação e
comunicação em escala global, inuencia-
das ainda pelo poderio econômico que se
engendrou num cenário pós-revolução in-
dustrial. Essa abordagem materializa uma
percepção generalizada de um processo
contemporâneo no qual a característica
da atual revolução tecnológica não é a
“centralidade de conhecimentos e infor-
mação, mas a aplicação desses conheci-
mentos e dispositivos de processamento
da informação em um ciclo de realimenta-
ção cumulativo entre as inovações e seu
uso” (CASTELLS, 2000, p.69).
Paralelo a essa abordagem temos
a ideia de sociedade da informação, que
articula esse movimento dentro de uma ló-
gica na qual o processo não se caracteriza
pelo mero ciclo de realimentação cumulati-
vos entre as inovações e seus usos, como
parece ser consagrado na sociedade em
rede. Pela sociedade da informação, se-
gundo Marques e Pinheiro (2013, p.117),
“cria-se a necessidade do estabelecimen-
to de novas políticas, que atendam a tais
transformações”. Para as autoras desta-
cam-se neste cenário discussões relati-
vas ao acesso à informação e aos atores
responsáveis pela função de democratizá-
-lo. Vê-se, a partir de então, um direcio-
namento dessas reexões voltando-se às
problemáticas do campo informacional ou
este se apropriando daquelas.
No campo informacional essas mu-
danças se zeram sentir ainda com maior
voracidade. Das formas de compra e leitura
de um livro à consulta ao catálogo da biblio-
teca, a tecnologia pautou autoritariamente
a realidade de instituições de informação
como bibliotecas, centros de documentação
e ans. Esse processo, aliado à explosão in-
formacional
II
, que Varela (2005, p.2) pontua
como o movimento em que destacam-se a
abordagem da realidade complexa através
de ferramentas cognitivas; a construção de
representações mentais; o desenvolvimen-
to de competências e habilidades; e a ree-
xão em torno da apreensão e da compreen-
são da informação pelo sujeito.
Nesse sentido, de certo, podemos
cogitar que o digital vem promovendo uma
revolução tal qual a industrial, por impactar
a produção, o armazenamento, a recupe-
ração, o acesso e a divulgação da informa-
34
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
ção e do conhecimento. Sua maleabilidade
possibilita novos usos e apropriações ele-
vando o patamar da relação homem versus
informação. Todo esse caráter inédito até
então, vem gerando reexões e movimen-
tos em torno do que se categoriza como
revolução digital que tem se consolidado,
especialmente no mundo corporativo, sob
a alcunha de “Transformação Digital”. Para
a Ross e Sennyey (2008) a revolução digi-
tal reformou todas as etapas de circulação
da informação aotornar o formato predomi-
nante, alterou a velocidade de criação da
informação, da entrega a divulgação, além
das necessidades e expectativas dos con-
sumidores de informação.
A abrangência desse movimento se
fez experimentar não apenas no ambien-
te corporativo e informacional, mas tam-
bém, não surpreendentemente, por todas
as áreas do conhecimento. A produtivida-
de, experimentada e almejada pelo mundo
corporativo, se assentou sobre o universo
acadêmico e seduziu as áreas a uma mas-
sicação da experimentação tecnológica
amparada no digital em suas práticas tra-
dicionais. Foi neste contexto que acadêmi-
cos de diversas vertentes foram se dando
noção de que a possibilidade de realizar
tarefas, antes exclusivamente manuais,
ganhavam praticidade fruto da dissemina-
ção dos recursos computacionais como
preponderantes desse movimento global.
Da maleabidade do digital
a uma ontologia
O movimento de automatização de
praticamente toda a interação humana
teve na digitalização seu maior expoente,
pois através desse processo de transfor-
mação pôde conferir diversas novas for-
mas de transmissão, armazenamento e
acesso a esses registros. Essa engrena-
gem, que anteriormente tinha sob sua ge-
rência itens físicos por meio de computa-
dor como os sistemas de recuperação de
informações, hoje é capaz de produzir em
ambiente totalmente não físico além de,
também, igualmente gerenciá-lo. Assim,
dessa forma, ao produto desse processo
denominamos Born-Digital
III
.
Como ‘born-digital entenda-se ex-
clusivamente a informação produzida sob
a égide do digital e sem ela inexistente.
Como dene Muhanna (2018) o born-di-
gital signica, em alguns casos, referir-se
a registros ou arquivos que não tem con-
trapartida física: coisas que começaram a
existir enquanto entidades digitais em vez
de prepostos análogos convertidos em for-
ma digital (p.2, tradução nossa). Pelo que
vimos até agora, é nesta entidade que se
encontra não apenas a base para consti-
tuição de uma nova área - das digital hu-
manities - a partir do avanço das reexões
propostas pela Humanities Computing
IV
. O
born-digital sinaliza a instauração de um
elemento capaz de reordenar toda a cadeia
da lógica informacional, uma vez que sua
contribuição “não é apenas a introdução de
um novo habitat” para o trabalho nas huma-
nidades, mas sim o “oferecimento de um
conjunto de novos mecanismos para obter,
visualizar e manipular esses dados”. Ao
fazê-lo, as tecnologias digitais contribuem
com a dimensionalidade, eciência, aces-
sibilidade e interatividade para modelos es-
truturais que foram, por milênios, utilizados.
(MUHANNA, 2018, p.1 tradução nossa).
A categoria que representa esse
conceito, cuja produção se dá por meio
exclusivamente digital, marca uma nova
etapa de um processo que, na verdade, se
iniciou no movimento da digitalização em
massa. Vários objetos cujo suporte físico
sofreram um processo de migração para
o formato digital auxiliaram na construção
do que hoje se constituiu num processo ir-
reversível. Esse processo foi responsável
por rearmar a importância ou valor dos
suportes originais, tidos como as fontes pri-
márias. Dessa forma a característica que
assola os born-digital é, em primeira me-
35
Ano 9, número 16, semestral, out/2018 a mar/ 2019
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
dida, sua peculiaridade de ter no impalpá-
vel a qualidade ímpar da fonte primária. Ou
seja, o que no passado possibilitava que
apenas a informação migrasse do suporte
físico para o digital, atualmente não carece
de tamanha exigência de validação, pois o
digital já desfruta de credibilidade enquanto
forma primária do registro.
Para Kirschenbaum (2013) esse
processo obrigou uma reexão em torno do
produto da digitalização fazendo com que
instituições manifestassem a importância
do documento primário ante a “onda ge-
neralizante” de digitalização das coleções.
Segundo ele a fundamentalidade dos re-
gistros primários necessitou ser ressaltada,
em 1995, em meio a primeira onda gene-
ralizada de digitalização, pela Modern Lan-
guage Association que emitiu uma Decla-
ração sobre o Signicado dos Documentos
Primários. Nessa declaração a instituição
armava a importância de manter livros e
outros artefatos físicos, mesmo depois de
terem sido microlmados ou digitalizados
para consumo geral. (KIRSCHENBAUM,
2013, p.1 tradução nossa)
Todavia, atualmente, a colocação
impositiva fruto da massicação do que
conceituamos por born-digital é o respon-
sável por alterar o paradigma, posto que
a fonte primária doravante se constituirá
também num suporte imaterial. Assim,
hoje, a presunção de um “registro primário”
não pode mais ser assumida como coinci-
dente com a de um “objeto físico”. Textos
eletrônicos, arquivos, feeds e transmis-
sões de todos os tipos também são, indis-
cutivelmente, registros primários. (KIRS-
CHENBAUM, 2013, p.1 tradução nossa).
De toda forma, vemos nesta imposi-
ção, o estabelecimento de um modelo que
convergiu para a preponderância de um
formato. Este modelo é abordado sob uma
perspectiva losóca por Hui (2002) que
vê nesta instituição uma “ontologia do digi-
tal
V
“ que consiste em dois conceitos princi-
pais: primeiro, que os bits são a represen-
tação atômica do estado da informação; e,
segundo, que o estado temporal da evo-
lução é um processo de informação digi-
tal (p.381, tradução nossa). Encontramos
nessa abordagem a fundamentação para
considerarmos a importância deste tema
independentemente de sua característica
born-digital. Todavia sua segunda cate-
gorização deste conceito, em que atribui
ao estado temporal da evolução enquanto
um processo de informação, identica, ao
nosso ver, a questão da informação gera-
da exclusivamente em meio digital.
À vista disso sua abordagem losó-
ca nos fornece a ideia de ‘dado’, embuti-
da na de objetos digitais, que nos remete a
uma percepção de “dataticação” dos obje-
tos e a “objeticação” dos dados. Pois:
[...] devemos reconhecer que, desde
1946, a palavra “Dados” teve um signi-
cado adicional: “informação transmis-
sível e armazenável por computador”.
Este segundo sentido de “dados” suge-
re uma reconsideração da losoa dos
objetos,já que o dado não pode mais
ser tomado como dados sensíveis ou
um modo de estar junto do homem e da
natureza; Em vez disso, é preciso re-
conhecer sua transformação material.
O signicado da nova técnica de pro-
cessamento de dados que chamamos
de digital não é apenas que com com-
putadores podemos processar grandes
quantidades de dados, mas também
por, operando com dados, o sistema
poder estabelecer conexões e formar
uma rede de dados que se estende de
plataforma em plataforma e banco de
dados para base de dados. (HUI, 2002,
p.388, tradução nossa)
Essa questão conduz a análise
para a convergência das atuações dos in-
divíduos íntimos às computações e aque-
les demais quais presenciaram a migração
de seus objetos de análise para o digital.
36
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
Esse cruzamento, que tem em práticas de
operação das informações digitais como
XML, Web semântica, padrões de meta-
dados etc., con gura uma terceira fase.
Para Hui (2002) a contraposição de obje-
tos naturais e digitais, o papel do ‘dado’ e
o estabelecimento de redes fruto do pro-
cesso do digital pontuam seu debate lo-
só co em torno dos objetos digitais dentro
de 3 fases: objects, data, and networks.
Assim, apesar de se con gurarem
fases distintas e a análise não se limitar
a elas, objetos digitais, confrontados em
suas propriedades técnicas e naturais,
constituem-se dados e, estes, fontes para
estabelecimentos de redes. Dessa forma,
se a investigação de objetos naturais es-
tiver relacionada com a “dialética de as-
sunto e substância”, e a “investigação de
objetos técnicos está em causa com a re-
lacionalidade entre o objeto e o meio”, en-
tão a investigação de objetos digitais deve
obter uma nova direção, potencializando
estas duas investigações ainda mais (HUI,
2002, p.390, tradução nossa).
Essas 3 fases, além de, ao nosso
ver, credenciarem os objetos digitais a um
patamar “não nito”,
VI
podem encontrar re-
verberação em Yamaoka e Gauthier (2013)
por, segundo estes, terem os objetos digi-
tais três classes baseadas em Thibodeau
(2002). Sendo essas classes, para eles,
objetos de ordem física, lógica e concei-
tual. Em sua ordem física se aproxima da
primeira fase de Hui (2002) que defende a
resolução de objetos naturais ante os técni-
cos, cuja ideia predominante é sua qualida-
de física; em sua ordem lógica se aproxima
de sua capacidade de reserva de ‘dados’,
que consequentemente, se relaciona com
a ordem conceitual. Em sua terceira classe,
produz, assim, sentido a partir dos dados e
possibilitando então o estabelecimento de
redes, que se con gura enquanto última
fase proposta por Hui (2002).
Ainda para Yamaoka e Gauthier
(2013) é possível propor, baseado em
Kallinikos, Aaltonen e Marton (2010), uma
teoria para os objetos digitais. Esta teoria
estaria baseada em 4 atributos que lhes
confeririam um per l próprio: editabilida-
de, interatividade, reprogramabilidade e
perenidade de fronteiras. Sua editabili-
dade garantiria sua maleabilidade, sendo
passível de transformação ilimitada; sua
interatividade garantiria total integração
com o indivíduo em leitura, manuseio
etc.; sua reprogramabilidade nos fornece
a ideia de interoperabilidade que capacita
ao digital sua integração não apenas com
o indivíduo humano, mas, principalmente,
com outros elementos digitais. Por  m sua
perenidade de fronteiras permite a alta e
e caz difusão de seus elementos.
Por conseguinte as características
do suporte digital foram responsáveis por
pavimentar o caminho a uma nova estrutura
de trabalho no âmbito das ciências, repro-
gramando totalmente os métodos e instru-
Figura 1 – Fases na abordagem  losó ca dos objetos digitais proposta por Hui (2002)
Fonte: DO AUTOR
37
Ano 9, número 16, semestral, out/2018 a mar/ 2019
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
mentos de pesquisa, sobretudo nas disci-
plinas não íntimas, até então, ao fenômeno
das TICs. Consequentemente esse proces-
so, ao nosso ver, é parte indissociável ou
mesmo condição sinequa non para o con-
texto dos ambientes digitais. Dessa forma
subscrevemos o que Evens (2012) classi-
ca enquanto uma ontologia do digital, que
propõe uma reexão a respeito do sentido
abrangente deste atributo, como aquilo que
torna possível suas múltiplas existências.
Nos apropriando dessa concepção para
pactuar através dela a transição para o que
culminou na concepção de processos dedi-
cados à interpretação desse fenômeno no
ambiente informacional como, por exem-
plo, as humanidades digitais.
O digital tem uma ontologia, uma for-
ma de ser, produtos e processos ge-
rados através de tecnologias digitais
trazem vestígios desta forma de ser.
Não obstante a aura tóxica do deter-
minismo tecnológico em torno desta
armação, propõe-se que a arte digi-
tal e a mídia, procedimentos digitais e
até usuários de tecnologias digitais se
comportem como essas tecnologias,
para compartilhar sua ontologia. A ca-
racterística do digital é tornar a abstra-
ção materialmente operacional, trazer
essa abstração para o concreto, sem
que ele deixe de ser abstrato. Princi-
palmente, incorporando abstração, as
pessoas, objetos e eventos de cultu-
ra digital em conexão e envolvimento
mútuo com as tecnologias digitais no
coração dessa cultura. (EVENS, 2012,
p.3, tradução nossa).
De certo consideramos que essa
ontologia, expoente da predominância do
instituto do digital, foi o ponto de partida, o
gene por natureza, e cerne por consequ-
ência, do que promoveu transformações
ímpares na práticas informacionais. Des-
sa forma responsabilizando-se por reunir
em torno de uma incorporação abstração,
pessoas, objetos, eventos e outros em co-
nexão mútua, inuenciando seu comporta-
mento e reetindo essa lógica. Assim reve-
la-se um comportamento coletivo ante ao
determinismo tecnológico que impulsiona a
agregação de métodos, indivíduos e ree-
xões em torno das Humanidades Digitais.
As unidades de informação ante a
ontologia de um novo suporte:
a potencialização dos ambientes digitais
Para contextualizarmos o impacto
que o digital imputa às unidades de in-
formação recorremos ao caso do Centro
de Pesquisa e Documentação de História
Contemporânea do Brasil da Fundação
Getulio Vargas (FGV/CPDOC)
VII
. A insti-
tuição que se caracteriza, em termos de
suporte enquanto um arquivo histórico,
constituiu seu acervo a partir de arquivos
pessoais de personalidades político-histó-
ricas atuantes na história nacional. Nesse
artigo analisaremos os impactos promo-
vidos pela digitalização das coleções de
fontes primárias da instituição, constando
os mais demandados, a potencialização
dessa demanda em vista da disponibilida-
de digital dos mesmos, além da predomi-
nância do acesso digital ao total de itens
oferecidos a pesquisa.
Atualmente esse acervo se com-
põe por mais de 1 milhão de documen-
tos disponibilizados à consulta pública,
das páginas deste universo cerca de 33%
encontram-se digitalizadas e acessíveis
online. Considerando o total de páginas
o acervo alcança-se cerca de 2.7 milhões
de páginas, sendo 920 mil digitalizadas.
Sobre este universo que teceremos nos-
sa abordagem e nesse sentido a proje-
ção que a disseminação proporciona ao
acervo caracteriza, ao nosso ver, um ati-
vo baseado na ontologia do digital.Dessa
forma quando analisamos um recorte de
coleções mais consultadas, constatamos
que esse atributo – do digital – potencia-
liza simultaneamente a “exponencialida-
38
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
de” do acesso, a preservação do suporte
original e relativização da custódia desse
material, haja vista sua possibilidade de
reprodução em massa. Assim recorremos
a um recorte temporal para dedicar nossa
observação e, dessa maneira, escolhe-
mos o período de 2010 a 2016. Com efei-
to, veri ca-se que, na totalidade dos cerca
de 136coleções organizados e disponíveis
para pesquisa, que dos 10 fundos mais
consultados,8 já estão disponibilizados
para consulta pública no portal CPDOC.
Tabela 1 – Arquivos mais concultados
Fonte: DO AUTOR
A tabela acima nos permite observar
a demanda predominante recaindo sobre
as coleções já com cópias digitais disponí-
veis. A bem da verdade, a instituição, natu-
ralmente, privilegia a digitalização das cole-
ções mais demandadas, contudo veremos
que, mesmo assim, essa qualidade segue
ganhando força baseada na disponibiliza-
ção digital. Assim, em medida semelhante,
o movimento de impulsionamento da de-
manda a partir do oferecimento digital das
coleções pode ser sentido em sinal sensí-
vel se observado o índice de requisição das
coleções quando da comparação em mo-
mentos prévios e posteriores às suas res-
pectivas liberações digitais. Dessa forma
ilustraremos na sequência esse movimento
de potencialização de acesso e demanda.
Como a digitalização e a consecu-
tiva liberação à consulta online se dão por
coleções especí cas, nos é possível obser-
var esse movimento em detalhe. No exem-
plo ilustrado, vemos que o arquivo Ernesto
Geisel, devido à relevância histórica de seu
titular, sempre desfrutou de grande deman-
da por seu conteúdo. Mesmo assim a digi-
talização foi capaz de torná-lo ainda mais
acessado, levando-o à segunda posição
ante a quarta colocação no ano anterior ao
de sua disponibilização online.
Outros exemplos ainda são mais
signi cativos, como no caso da coleção
Juarez Távora. Esse acervo ocupava a
29º posição de consulta e, após sua li-
beração na rede, passou a ocupar a 10º
colocação entre os mais consultados. A
tabela a seguir exibe outros exemplos da
potencialização concedida pela libera-
ção das cópias digitais na web dos acer-
vos do CPDOC.
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Ano 9, número 16, semestral, out/2018 a mar/ 2019
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
Tabela 2 – Impacto proporcionado pela liberação digital das coleções
Grá co 1 – Volume de consulta por suporte
Fonte: DO AUTOR
Fonte: DO AUTOR
O aumento da projeção dada a
cada coleção especí ca acaba por pro-
jetar a demanda pelo acervo da institui-
ção em sua totalidade. Esse movimento é
responsável por ampliar o acesso, diver-
si car o público e os usos dessas fontes.
Mesmo assim, não contraditoriamente,
mantêm-se uma política de preservação
e ciente por furtar o manuseio dos mes-
mos. Esse fenômeno complementado pe-
las novas abordagens criadas para serem
atribuídas a esses materiais digitais cons-
tituem uma heurística que recon gura uni-
dades de informação e usuários a partir
do suporte. Esse movimento é, para nós,
o responsável por criar as bases para o
surgimento de práticas como aquelas dis-
cutidas e trabalhadas sob o conceito de
Humanidades Digitais
VIII
.
A ampli cação da ressonância ca-
racterizada pelo reaproveitamento das
fontes, que podemos constatar no grá co
abaixo, se aplica a usos mais complexos
em que elevam a utilização dos agora ob-
jetos digitais à patamares automatizados.
Esse crescimento de acesso e demanda
ajuda a ser explicado também por essa
nova forma de uso desses itens, assim,
como vemos, a parcela em estado digital
(cerca de 33%) corresponde a mais de
60% da demanda.
40
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
Esse processo de demanda ampli-
cada pelo uso dos objetos digitais podem
ser compreendido no contexto das Huma-
nidades Digitais, no qual a informação é
analisada sob sua representação digital e,
através dela, processada informaticamen-
te.Nesse contexto, as Humanidades Digi-
tais se colocaram a reetir essas questões
considerando as atividades exercidas no
campo da informação conjugadas com as
facilidades do uso das tecnologias. Partin-
do, portanto, das reexões trabalhadas
sob a perspectiva da Ciência da Informa-
ção, mas, agora, com vistas a contribuir
com o que se projeta como um novo cam-
po ou como a ontologia do digital, essas
atenções agora se voltam especialmen-
te para o universo instrumental do digital
compreendido pelos repositórios digitais,
curadoria e gestão desses conteúdos, sua
preservação e sua disseminação, além de
seus impactos nas esperas de ensino e
pesquisa acadêmica.
Novas possibilidades de apropriação
da informação conguram uma
ontologia do digital
A chegada da aplicação de deter-
minadas ferramentas tecnológicas pro-
duzindo novos rumos e métodos de pes-
quisa podem ser considerados o marco
mais emblemático do surgimento do rótulo
que atende pelo nome de Humanidades
Digitais. A soma de recursos oferecidos
por softwares com a informação digital
proporcionou à pesquisa, ao ensino aca-
dêmico e ao trato informacional produtos
inovadores no tocante ao aproveitamento
da informação. Nesse sentido temos, por
exemplo, as metodologias de georeferen-
ciamento, mineração de dados e textos, a
modulagem ou rotulagem de tópicos, os
processos de visualização da informação
entre tantos outros. Todos esses proces-
sos ou métodos, quais tem sido aplicados
ao consumo da informação em estado
digital, compreendem um arcabouço pra-
xiológico e teórico que elevaram as ree-
xões sobre a presença das tecnologias na
realidade da informação a o patamar das
Humanidades Digitais.
Vários desses métodos ou proces-
sos podem ser aplicados às informações,
cada um deles encontra em um determina-
do repositório informacional uma maior ou
menor anidade no tocante a produção de
sentido, além de produtos ou inovação ge-
rados. Para efeito de compreensão, sobre
o como as práticas tradicionais das quais
a informação tem sido até hoje submetida,
contribuíram como alicerce para aplicação
das novas técnicas, faremos menção aos
métodos de mineração de textos e modela-
gem de tópicos quais podem ser aplicados,
no âmbito ontológico,às informações conti-
das nas fontes de natureza arquivística.
O método de mineração de tex-
tos ou de dados textuais, por exemplo,
pode ser compreendido como processo
de análise de grandes volumes de texto
por software de computador permitindo a
extração e visualização dos termos mais
recorrentes, possibilitando uma compre-
ensão semântica do documento em curto
espaço de tempo. A grosso modo, os sof-
twares de análise de textos são capazes
de ler milhares de palavras e informar ao
pesquisador quais delas possuem maior
recorrência, evidenciando temáticas da-
quele conteúdo.
Para Morais e Ambrósio (2007),
a mineração de textos é um processo de
descoberta de conhecimento, que utiliza
técnicas de análise e extração de dados a
partir de textos, frases ou apenas palavras.
Para os autores esse processo possibili-
tado pelo desenvolvimento de softwares
computacionais, envolve a aplicação de
algoritmos que processam textos e iden-
ticam informações úteis e implícitas, que
normalmente não poderiam ser recupera-
das utilizando métodos tradicionais de con-
sulta. (MORAIS; AMBRÓSIO, p.1, 2007)
41
Ano 9, número 16, semestral, out/2018 a mar/ 2019
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
Uma outra técnica bastante aplicá-
vel à produção de novos conhecimentos a
partir da análise por máquina é a modela-
gem de tópicos. A modelagem ou rotula-
gem de tópicos é o processo realizado por
software especializado para descobrir um
índice de termos recorrentes para identi-
cação de uma estrutura semântica do do-
cumento. O ponto central desse processo
reside em agrupar, aqui com o auxílio do
pesquisador, uma cadeia de termos mi-
nerados sob um identicador comum que
o relaciona com os demais. Assim, como
bem exemplicam Nolasco e Oliveira
(2016), espera-se que termos como “fo-
guete” e “espaço” estejam associados em
maior quantidade ao tópico de “viagens
espaciais” do que ao tópico “genética”. Da
mesma maneira também os autores suge-
rem que “genética” contenha mais termos
como “gene” e “DNA”. Assim, cada tópico
extraído poderia ser inicialmente repre-
sentado por seus termos mais comuns e
poderíamos agrupar documentos de acor-
do com o respectivo tópico.
Ambas as técnicas podem fazer
uso de recursos de visualização como
a imagem acima, nos quais é possível
analisar um corpus geralmente amplo
através da identicação visual de seus
termos mais preponderantes. Essas téc-
nicas vêm fazendo parte das práticas de
pesquisa acadêmica e projetos especiais
de utilização das fontes da instituição. No
CPDOC essas práticas já ganham forma
e, mesmo ainda numa esfera inicial, vem
atendendo projetos especícos de traba-
lho de extração da informação contida em
determinadas partes do acervo da institui-
ção. Além disso, cada vez mais se revela
a riqueza do conteúdo dessa massa do-
cumental que antes dependeria de muito
tempo para ser analisada em grandes es-
calas. Não obstante a larga digitalização
dos conteúdos tem sido condição sinequa
non para que o desenvolvimento de pes-
quisas atingisse esse patamar.
Essa transformação ainda se rever-
bera junto ao perl dos usuários que cada
Figura 2 – Exemplo de visualização de resultados textuais minerados com software de computador
Fonte: http://www.vosviewer.com/text-mining-and-visualization-using-vosviewer
42
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
vez mais preocupam-se com metadados,
OCR e padrões de digitalização. Percebe-
-se que a preocupação em ler um docu-
mento vem migrando para a posse digital
do mesmo, importando cada vez mais em
tê-lo digitalmente para posteriormente
processá-lo em um software.
Atualmente grande parte das pes-
quisas preocupam-se mais em obter as
imagens digitais do que com a consul-
ta através da leitura dos itens. Esse é o
cenário pavimentado pelos objetos digi-
tais que foram responsáveis por gestar
um arcabouço ontológico que reformatou
profundamente unidades de informação,
seus usuários e as práticas de consumo
dessas fontes bem como as metodologias
aplicadas a elas.
Considerações nais
De todo processo de reformatação
sofrido pelo ambiente informacional, o de
digitalização em massa é o que vem pro-
movendo maiores impactos nas esferas
das unidades de informação, dos suportes
informacionais e dos pers de usuários.
Por essa razão o processo de preponde-
rância dos objetos digitais deve ser obser-
vado e analisado. Das 3 principais esferas
alcançadas, o contexto informacionals e
apresenta como centro de um processo
que gera um novo patamar de abordagem
desse objeto. Esse novo patamar é o res-
ponsável por transpor a imposição de um
nito praticado pelos suportes tradicionais
de natureza física. Com a criação de uma
massicação do digital, promovendo uma
opção clara por esse formato, que promo-
ve uma maleabilidade sem precedentes
em todos os aspectos de sua constituição,
se congura uma transposição a um não-
-nito que patrocina um novo patamar de
abordagem. A esse patamar caracteriza-
mos enquanto ontológico, ao qual se deve
inaugurar uma observação sobre seus im-
pactos. Um deles, por exemplo, podemos
vislumbrar nos debates sobre as Huma-
nidades Digitais. Todavia nossa proposta
é indicar um construto peculiar na esfera
dos objetos digitais que manifestam ne-
cessidade de análise e compreensão no
âmbito dos estudos informacionais.
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ago. 2013.
Recebido em 19/12/2018
Aprovado em 24/01/2019
I Renan Marinho de Castro. Mestre em História, Po-
lítica e Bens Culturais pela Fundação Getúlio Vargas
(FGV). Coordenador do Programa de Arquivos Pes-
soais da FGV, Rio de Janeiro, Brasil. Contato: renan.
castro@fgv.br
II A autora destaca esse fenômeno enquanto contexto
baseado numa observação do século XXI caracteriza-
do por um desenvolvimento sem limites da ciência e da
tecnologia, provocando novas necessidades, novas ati-
tudes. Congura-se uma sociedade que busca o conhe-
cimento e novos modelos que possibilitem interpretar e
compreender o mundo: mentes que se antecipam, pes-
soas autônomas no pensar, sentir e fazer, com a capa-
cidade de julgar situações, baseando-se em ideias e em
fatos. (VARELA, 2005, p.2)
III O termo Born-Digital (em tradução literal ‘Nascido
Digital’) em sua conceituação original em língua inglesa
refere-se ao suporte produzido em meio digital e ape-
nas através deste acessível, por essa razão elegemos
nos referir neste texto ao termo original em língua ingle-
sa ‘Born Digital’.
IV Podemos considerar enquanto um intercâm-
bio de “bens comuns” de natureza metodológica
que aproximou campos de pesquisa em torno da
descoberta de novos métodos informáticos, moti-
vando uma conguração de conexão entre campos
disciplinares(MCCARTY, 2003, p.1).
V Nos apropriamos do conceito sob o contexto losó-
co para tratar não “do ser enquanto ser”“concebido em
uma natureza comum”, mas de um construto tecnológico
que atende pelo nome de objeto digital que, ao refor-
matar o papel da informação, se apresenta passível do
estabelecimento de uma nova heurística ao qual ainda
estamos nos dando conta e que precisamos compreen-
der em sua essência.
VI Cf. Svensson, 2009, p.10-11.
VII O Centro de Pesquisa e Documentação de História
Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getu-
lio Vargas foi criado em 1973 com o objetivo de abrigar
conjuntos documentais relevantes para a história recen-
te do país e desenvolver pesquisas históricas, tendo ini-
cialmente seu próprio acervo como fonte privilegiada de
consulta. Os conjuntos documentais doados ao CPDOC,
que podem ser conhecidos na íntegra através da inter-
net, constituem, atualmente, o mais importante acervo
de arquivos pessoais de homens públicos do país, reu-
nindo milhares de documentos. A organização desses
arquivos e sua abertura à consulta pública, hoje total-
mente informatizada por meio do sistema Accessus, são
tarefas primordiais do Centro
VIII um campo de estudo, pesquisa, ensino e inovação
preocupados com a interseção da computação com as
disciplinas da área de humanas. É por natureza me-
todologicamente interdisciplinar em sua abrangência.
Tratando de pesquisa, análise, síntese e disponibiliza-
ção da informação em formato eletrônico. Estuda como
estes elementos afetam grande parte das disciplinas
em que se encontram presentes e o que estas disci-
plinas têm a contribuir para o nosso conhecimento em
formato computacional. (WIKIPEDIA apud KIRSCHEN-
BAUM, 2010, p.2).
44
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
Elementos para uma política brasileira de acesso integrado,
utilização e preservação de acervos digitais em memória e cultura
Elementos para una política brasileña de acceso integrado,
utilización y preservación de colleciones digitales en memoria y cultura
Elements for a Brazilian policy of integrated access,
use and preservation of digital collections in memory and culture
Angela M. Bettencourt
I
Carlos H. Marcondes
II
Resumo:
Há vários anos instituições de Memória e Cultura brasileiras vêm
desenvolvendo projetos de digitalização, preservação e acesso
a acervos digitais. No entanto poucas dessas iniciativas são
colaborativas e mesmo ainda envolvem acesso unicado a acervos
de mais de uma instituição, além de sofrerem descontinuidades e
de falta de recursos para sustentação continuada. Acervos digitais
em memória e cultura têm potencialidades educacionais, culturais
e econômicas que os acervos físicos não possuem. Esse trabalho
revê as experiências brasileiras e internacionais de digitalização,
preservação e acesso a acervos digitais e consulta documentos,
projetos e literatura a respeito para ressaltar na tentativa de esboçar
uma política brasileira de acesso unicado, preservação e utilização
de acervos digitais em Memória e Cultura.
Palavras-chave:
Acervos digitais
Memória e Cultura
Políticas públicas
Preservação
Acesso
45
Ano 9, número 16, semestral, out/2018 a mar/ 2019
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
Resumen:
Hace varios años instituciones de Memoria y Cultura brasileñas vienen
desarrollando proyectos de digitalización, preservación y acceso a
colecciones digitales. Sin embargo, pocas de esas iniciativas son
colaborativas e incluso aúnimplican acceso unicado a acervos de
más de una institución, además de sufrir discontinuidades y de falta
de recursos para sustentación continuada. Los acervos digitales en
memoria y cultura tienen potencialidades educativas, culturales y
económicas que los acervos físicos no poseen. Este trabajo revisa
las experiencias brasileñas e internacionales de digitalización,
preservación y acceso a acervos digitales y consulta documentos,
proyectos y literatura al respecto para resaltaren el intento de esbozar
una política brasileña de acceso unicado, preservación y utilización
de colecciones digitales en Memoria y Cultura.
Abstract:
For several years Brazilian institutions of Memory and Culture have
been developing projects of digitalization, preservation and access to
digital collections. However, few of these initiatives are collaborative and
even involve unied access to collections of more than one institution,
as well as suffering discontinuities and lack of resources for sustained
support. Digital collections in memory and culture have educational,
cultural and economic potential that physical collections do not have.
This paper reviews the Brazilian and international experiences of
digitalisation, preservation and access to digital collections and
consulates documents, projects and literature in order to highlight the
attempt to outline a Brazilian policy of unied access, preservation and
use of digital collections in Memory and Culture.
Palabras clave:
Coleciones digitales
Memoria y Cultura
Políticas públicas
Preservación
Acceso
Keywords:
Digital collections
Memory and Culture
Public policies
Preservation
Access
46
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
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Elementos para uma política brasileira de
acesso integrado, utilização e preservação
de acervos digitais em memória e cultura
1. Introdução
Em artigo relatando o projeto de
digitalização da Biblioteca do Vaticano
(MINTZER et al, 1996), os autores cha-
mam a atenção sobre as possibilidades
abertas com a digitalização e acesso
pela Web dos mais de 150.000 livros e
manuscritos raros. Antes do projeto, a
Biblioteca do Vaticano só era capaz de
atender cerca de 2000 acadêmicos anu-
almente, que tinham condições de visitá-
-la presencialmente.
Esta questão ilustra as potenciali-
dades dos acervos digitais em Memória e
Cultura. Quando comparados aos acervos
tradicionais – manuscritos, documentos
ou obras raras impressas, objetos físico
- os objetos digitais têm propriedades es-
pecícas: um alcance e uma plasticidade
muito maiores; podem ser acessados por
qualquer usuário, a qualquer hora e desde
qualquer lugar; também oferecem possi-
bilidades inusitadas de uso, reuso e mi-
xagem, inclusive como potencial para as
chamadas indústrias criativas.
Este cenário chama a atenção para
as potencialidades educacionais, culturais
e econômicas dos acervos digitais em Me-
mória e Cultura e para a necessidade de
uma política para o seu desenvolvimento.
Afora iniciativas isoladas, como será visto,
ainda não existe uma política brasileira in-
tegrada e permanente para essa questão.
Internacionalmente projetos de di-
gitalização de acervos em Memória e Cul-
tura iniciaram-se na década de 1990. Nos
EUA o projeto pioneiro foi o American Me-
mory, no período 1990-1995. O programa
Digital Library Initiative, desde 1994, de-
senvolveu tecnologias e implementou pro-
jetos-piloto, recebendo apoio de agências
federais americanas como a NSF, DARPA
e NASA (FOX, 1999).
Na Europa o programa eContent
- European digital content on the global
networks -, de 2001 a 2004 e de 2005 a
2008, deu o impulso inicial das políticas
públicas europeias de digitalização de
conteúdos. O programa é resultado direto
das recomendações da reunião do Conse-
lho Europeu em Lisboa de 2000 (CARMO-
NA; ARTIGAN,2014). Dessas políticas
públicas resultaram também o desenvol-
vimento do Portal Europeu de Arquivos e
a Biblioteca Europeia, esta, a antecessora
da atual Biblioteca Europeana.
Desde meados dos anos 2000
também no Brasil, várias instituições de
Memória e Cultura vêm desenvolvendo
projetos individuais oucolaborativos de di-
gitalização, preservação e acesso a acer-
vos digitais, contanto com apoios de ins-
tituições federais e estaduais. No entanto
tanto as iniciativas quanto os apoios vêm
se mostrando esporádicos, descontínuos
e lhes falta sustentabilidade, não con-
gurando como uma política brasileira de
acesso, utilização e preservação de acer-
vos digitais em Memória e Cultura.
Este trabalho tem como objetivos
discutir as diferentes dimensões do pro-
blema e esboçar uma política brasileira de
acesso, preservação e utilização de acer-
vos digitais em Memória e Cultura. Como
metodologia, revê as experiências bra-
sileiras e internacionais de digitalização,
preservação e acesso a acervos digitais e
consulta documentos, projetos e literatu-
ra a respeito; essas experiências e fontes,
longe de serem exaustivas, são resultado
principalmente da vivência dos autores. O
trabalho está assim organizado: após esta
seção introdutória, a seção 2 faz um histó-
47
Ano 9, número 16, semestral, out/2018 a mar/ 2019
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
rico das iniciativas brasileiras de digitaliza-
ção, compartilhamento e acesso em rede
aos acervos digitais em Memória e Cultu-
ra; a seção 3 analisa e conceitua acervos
de memória e cultura e acervos digitais; a
seção 4 propõe e discute elementos para
uma política brasileira de acervos digitais
em Memória e Cultura; por m, a seção 5
tece considerações nais.
O que se entende aqui como aces-
so integrado a acervos digitais em Memó-
ria e Cultura seriam, no Brasil, os portais
das Brasilianas Fotográca
III
e Iconográ-
ca
IV
, o portal da Rede Web de Museus
V
;
outros exemplos internacionais seriam a
Biblioteca Europeana
VI,
a DPLA - Digital
Public Library of America
VII
, o portal TRO-
VE da National Library of Australia
VIII
e a
Mexicana – Repositório del Patrimonio
Cultural de Mexico
IX
.
2. Iniciativas brasileiras de
compartilhamento e acesso em rede aos
acervos digitais em Memória e Cultura
No período a partir de 2000, vários
elementos que congurariam uma política
brasileira de digitalização, acesso e pre-
servação de acervos em Memória e Cultu-
ra foram apoiados pelos governos federal
e estaduais, embora ainda de forma fra-
cionada e descontínua. Essas iniciativas
se centram principalmente na questão de
digitalização e preservação de acervos,
reetindo uma visão patrimonialista e cus-
todial das instituições detentoras dos acer-
vos; a questão do acesso a esses acervos
praticamente não é contemplada, ou o é
de forma genérica, como no 3º. Princípio
Carta de Recife (2011), “Compromisso
com a acessibilidade”.
O marco inicial de políticas brasi-
leiras de digitalização, acesso, utilização
e preservação de acervos digitais em Me-
mória e Cultura pode ser estabelecido a
partir da 1ª Conferência Nacional de Cultu-
ra
X
, realizada em 2005. Essa Conferência
elaborou e consolidou o Plano Nacional
de Cultura (PNC), institucionalizado pela
Lei 12.343 de 10 de dezembro de 2010.
O PNC prevê em várias de suas metas a
digitalização de acervos e sua disponibili-
zação na Web. Como desdobramento do
PNC, o MinC encomenda um estudo ini-
cial abrangente e pioneiro de políticas pú-
blicas para acervos digitais (TADEI, 2010).
Em 2011, durante a realização em
Recife, Pernambuco, da Conference on
Technology Culture and Memory – CTCM
-, várias instituições da cidade, que já vi-
nham se articulando anteriormente em
torno da cooperação para digitalizar e
preservar seus acervos, formam a Rede
Memorial (JUNIOR,et al, 2015) e lançam
a já mencionada Carta de Recife (2011).
É criado um Comitê Gestor para a Rede e
esboçado na Carta de Recife uma política
nacional de digitalização de acervos me-
moriais. A articulação da Rede Memorial
ganha repercussão nacional e em 2012
acontece o II Fórum da Rede Memorial, na
Cinemateca Brasileira em São Paulo, con-
tando com a presença da Coordenação da
Cultura Digital do Ministério da Cultura.
Como desdobramentos dessa ar-
ticulação os princípios estabelecidos na
carta de Recife são incluídos tanto pelo
BNDES (BALBI; ZENDRON; MARCE-
LINO, 2014) em seus editais do Fundo
Cultural – Apoio ao Patrimônio Cultural
Brasileiro
XI
-, como no Prêmio Memória Di-
gital do MinC
XII
, de 2013, que selecionou e
apoio 10 projetos de digitalização de acer-
vos. A Rede Memorial matem-se atuante
até o presente.
O BNDES – Banco Nacional de
Desenvolvimento Econômico e Social - já
vinha atuando no apoio a projetos de di-
gitalização de acervos desde 1º Edital do
Programa de Preservação de Acervos, de
2004 (BALBI; ZENDRON; MARCELINO,
p. 26, 2014). Como desdobramento des-
48
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
se programa, o banco também apoiou o
que foram chamados de projetos estrutu-
rantes, “capazes de promover benefícios
para uma rede de outras instituições ou
até mesmo para o setor como um todo”
(BALBI; ZENDRON; MARCELINO, p. 33,
2014); entre esses, destacam-se três pro-
jetos, os da Biblioteca Digital Nacional, o
da Biblioteca Brasiliana Mindlin, da USP e
o da Cinemateca Brasileira.
A Biblioteca Nacional Digital — BN-
Digital
XIII
, foi criada em 2006 como a ver-
tente tecnológica da Biblioteca Nacional,
mais antiga e mais importante instituição
de memória do país. Dentre os programas
em curso na BNDigital o mais impactante
é a Hemeroteca Digital Brasileira, iniciado
em 2009, contou com o patrocínio da FI-
NEP e teve o objetivo inicial de digitalizar
e disponibilizar dez milhões de páginas da
maior e mais completa coleção de perió-
dicos brasileiros, constitui-se como fonte
primária inigualável para a historiograa
brasileira e supera hoje a marca de quatro
milhões de acessos mensais.
Para sua execução “o projeto se-
guiu um cronograma de produção dividido
em duas frentes, a primeira para periódi-
cos em preto e branco onde a conversão
para o digital se fez a partir do microlme
e a segunda para periódicos coloridos
onde esta se deu a partir do documento
original” (BETTENCOURT; PINTO, 2013,
p.3).O tratamento dos arquivos digitais
para ns de indexação utilizou-se do re-
conhecimento ótico dos caracteres com
a nalidade de permitir a busca por pala-
vras-chaves em todas as vinte milhões de
páginas que compõem hoje a hemeroteca
Dentre os outros programas da BN-
Digital é importante destacar a Rede da
Memória Virtual Brasileira – RMVB
XIV
-, ini-
ciativa pioneira no país para a construção
de uma rede compartilhada para integra-
ção de acervos memoriais visando o aces-
so e a preservação ao patrimônio cultural
brasileiro. A RMVB conta hoje com mais
de vinte e cinco instituições parceiras, en-
tre elas, museus, arquivos e bibliotecas,
tendo já inventariado e disponibilizado
mais de cento e vinte mil documentos sig-
nicativos para a história do país e que se
encontram armazenados em coleções es-
palhadas em instituições brasileiras.
O portal da RMVB foi desenvolvido
em plataforma livre de gerenciamento de
conteúdos o WordPress
XV
e utiliza o pro-
grama livre DSpace
XVI
para repositórios de
objetos digitais. A inclusão e atualização
de dados pelos parceiros pode ser feita de
três formas:
1. Diretamente no DSpace através
de login e senha
2. Exportação MARC/XML, ISO2709
ou planilha EXCEL
3. Harvesting através do protocolo
OAI-PMH.
Consolidado este modelo de in-
teroperabilidade adotado pela RMVB,
surgiram novas iniciativas de programas
colaborativos, entre eles, a Brasiliana Fo-
tográca, a Biblioteca Digital Luso-Brasi-
leira e a Brasiliana Iconográca.
A Brasiliana Fotográca
XVII
foi con-
cebida em 2014 e lançada em 2015 é fruto
de parceria entre a BNDigital e o Instituto
Moreira Salles – IMS -, surgiu como um
espaço para dar visibilidade, fomentar o
debate e a reexão sobre os acervos fo-
tográcos, abordando-os enquanto fonte
primária mas também enquanto patrimô-
nio digital a ser preservado.
Aos dois parceiros fundadores logo
se juntaram importantes instituições bra-
sileiras e estrangeiras, entre elas: Arquivo
Geral da Cidade do Rio de Janeiro, o Ar-
quivo Nacional, a Diretoria do Patrimônio
Histórico e Documentação da Marinha, a
Fiocruz, o Museu da República e a Leib-
niz-Institut fuer Laenderkunde, Leipzig.
49
Ano 9, número 16, semestral, out/2018 a mar/ 2019
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
Coube à BN a hospedagem do
portal, desenvolvido em WordPress e
também a manutenção do repositório
DSpace. A inclusão de dados pelos par-
ceiros pode ser feita pelas mesmas três
formas adotadas pela RMVB e relacio-
nadas acima.
Em 2016 as bibliotecas nacionais
do Brasil e de Portugal, lançaram o por-
tal da Biblioteca Digital Luso-Brasileira
– BDLB
XVIII
. O portal agrega automatica-
mente o acervo digital das duas biblio-
tecas nacionais do Brasil e Portugal, da
Rede da Memória Digital Brasileira e de
seu correspondente português o RNOD –
Registro Nacional de Objectos Digitais. A
soma de conteúdos alcança já ultrapassa
60 mil títulos e corresponde a cerca de
13 milhões de imagens de documentos
bibliográcos em domínio público, de to-
das as épocas e gêneros.
Coube à BN do Brasil a hospeda-
gem do portal, desenvolvido em Word-
Press e a manutenção do repositório DS-
pace. O portal da BDLB funciona com um
provedor de serviços coletando dados de
seus parceiros via protocolo OAI-PMH.
Em 2017 foi lançado o portal web
Brasiliana Iconográca
XIX
reunindo fontes
iconográcas desenhos, aquarelas, pin-
turas, gravuras e impressos – dispersas
por coleções públicas e privadas no Bra-
sil e no exterior, tornando-as acessíveis
à consulta virtual de um público amplo e
internacional. As instituições parceiras
na criação do portal são – a Biblioteca
Nacional, o Instituto Moreira Salles, a Pi-
nacoteca de São Paulo e o Instituto Itaú
Cultural. Pretende-se que este portal seja
enriquecido com material proveniente de
outras coleções de mesmo perl. Dessa
forma, Brasiliana Iconográca apresenta-
-se como instrumento acesso e preserva-
ção digital desse patrimônio, cuja exten-
são nem os especialistas desta área de
estudo avaliam com precisão.
Coube ao Instituto Itaú Cultural a
hospedagem do portal e do repositório
DSpace. A inclusão de dados pelos par-
ceiros é feita de forma similar a adota-
da pela Brasiliana Fotográca, sendo a
grande inovação deste portal o controle
e unicação dos quatro principais pontos
de acesso, que abrangem as coberturas –
autoral; cronológica; geográca e temáti-
ca. Esta unicação tornou-se possível gra-
ças à criação de vocabulários controlados
nestas quatro áreas de cobertura.
Um dos projetos mais completos de
digitalização e acesso integrado de acer-
vos é o Projeto DAMI – Digitalização do
Acerco do Museu Imperial de Petrópolis
XX
(FERREIRA JUNIOR, 2011), museu per-
tencente ao MinC/IBRAM e um dos mais
visitados do pais.Iniciado em 2004, o pro-
jeto começou efetivamente a ser realizado
em 2010. Contou inicialmente com apoio
do MinC/PRONAC
XXI
. O programa utili-
zado para acesso via Web foi o DSpace,
que utiliza como padrão de metadados o
DC - Dublin Core
XXII
. Foram digitalizadas
e tratadas utilizando o DC várias coleções
arquivísticas, bibliográcas e museológi-
cas, de forma integrada. Segundo o autor
citado, foram tratadas e disponibilizadas
incialmente as coleções 3 coleções e pos-
teriormente mais 4, restando ainda várias
a serem digitalizadas e tratadas.
Outra iniciativa interinstitucional
para prover acesso unicado a acervos
é Rede Web de Museus do estado do
Rio de Janeiro é um projeto desenvolvi-
do desde 2014 pela Superintendência de
Museus, da Secretaria de Estado de Cul-
tura do Rio de Janeiro (SEC-RJ). A Rede
tem como objetivo de disponibilizar e per-
mitir acesso unicado em um portal Web
a registros de objetos de diferentes mu-
seus, acompanhados de imagens digitais
desses objetos. Restrito em sua primeira
fase aos museus pertencentes à Secre-
taria de Cultura, a partir de 2015 o pro-
jeto passou a incorporar outros museus
50
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
públicos e privados do estado do Rio de
Janeiro. Atualmente a rede conta com 25
museus, sendo 8 pertencentes à SEC-RJ,
oferecendo a museus que não dispõem
de meios tecnológicos a infraestrutura ne-
cessária de armazenamento, publicação
na Web e buscas integradas a seus acer-
vos digitalizados.
3. Acervos em memória e cultura
e acervos digitais
Antes de discutir as questões rela-
tivas a uma política brasileira de acesso
integrado a acervos digitais devemos ca-
racterizar, conceitualizar e denir especi-
camente o que são acervos digitais, como
são formados, suas características,suas
diferenças e relações com os acervos físi-
cos convencionais mantidos pelas institui-
ções de Memória e Cultura.
Uma questão fundamental, acer-
vos digitais são um novo acervo, adicio-
nal aos acervos físicos das instituições de
Memória e Cultura, como novas potencia-
lidades que os acervos físicos não pos-
suem. Requeremuma curadoria especial,
novas habilitações técnicas para isso e,
em especial,cuidados especícos dada à
fragilidade do meio tecnológico digital, em
termos de volatilidade, armazenagem e
obsolescência. O conjunto de meios, tec-
nologias e procedimentos visando manter
íntegros os acervos digitais permanente-
mente é conhecido como preservação di-
gital (SAYÃO, 2010).
Acervos digitais são formados a
partir da digitalização de objetos patrimo-
nializados pelas instituições de Memória e
Cultura. A patrimonialização é um proces-
so de valorização de um objeto, a partir de
determinados critérios sociais (MERLOT,
2004). Ao ser patrimonializado, isto é, in-
corporado ao acervo de uma instituição de
Memória e Cultura, a um objeto é atribuí-
da uma natureza adicional, a de um docu-
mento (BRIER, 2016). Objetos patromo-
nialiados são “ontologically coincident with
objects in general, but as to their semantic,
they have a new function, i.e. the function
of authentic witnesses, documents, and/or
the testimony of natural and social facts”
(STRANSKY, 1985, p. 98).
Uma vez digitalizado, o objeto patri-
monializado carrega essa natureza docu-
mental, a qual é adicionada à sua imagem
digital. A simples imagem digital de um
objeto patrimonializado em si,não possui
todas as propriedades e potencialidades
apontadas no início deste artigo. Para que
ela atinja o máximo de alcance e plastici-
dade, deve ter acrescentadas novas pro-
priedades documentais, especícas dos
objetos digitais, os chamados metadados.
O objeto digital relaciona-se, natu-
ralmente, com o objeto físico original, é
um objeto derivado deste, o representa no
espeço digital, torna-se um ente semióti-
co, acha-se sempre relacionado ao objeto
físico (mesmo que esse desapareça, i.e.,
seja roubado ou destruído). Torna-se um
objeto digital complexo, constituídos por
uma ou mais cópias digitais do objetoorigi-
nal e também por conjuntos de metadados
cuidadosamente atribuídos na descrição e
indexação dos objetos físicos originais e
que são herdados pelo correspondente
objeto digital. Esses metadados são assi-
nalados a partir de padrões consagrados
como MARC
XXIII
, AACR2
XXIV
, LCSH
XXV
,
ISAD(G)
XXVI
, ICOM Classes
XXVII
, Getty Vo-
cabuleries
XXVIII
, etc, só para mencionar os
mais conhecidos. No processo de digita-
lização outros metadados
XXIX
especícos
do(s) objeto(s) digital(ais) são acrescen-
tados, como identicadores persistentes,
metadados administrativos e de preserva-
ção digital, metadados referentes aos di-
reitos de uso, etc..
Esse tratamento curatorial, assina-
lado pelas instituições de Memória e Cul-
tura, valoriza signicativamente os acer-
51
Ano 9, número 16, semestral, out/2018 a mar/ 2019
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vos digitais, lhe acrescentando contexto
e signicado, fazendo com que alcancem
sua máxima potencialidade cultural, edu-
cacional, etc., de uma maneira impossível
de ser conseguida por serviços de inde-
xação automática como Google Books ou
Google Arts&Culture; esse é um aspecto
fortemente ressaltado por Cathro (2010) e
deve ser um ponto sempre a ser lembrado
na justicativa de iniciativas cooperativas
de acesso, preservação e utilização de
acervos digitais em Memória e Cultura.
4. Elementos para uma política brasileira
de acesso integrado a acervos digitais
Os objetivos de uma política brasi-
leira de acesso integrado, preservação e
utilização de acervos digitais em Memória
e Cultura seriam disseminar amplamente
e preservar os acervos digitais brasileiros,
torná-los cada vez mais um instrumen-
to de disseminação da cultura brasileira,
utilizá-los amplamente na formação cultu-
ral e educativa do povo brasileiro e forta-
lecer as instituições detentoras e curado-
ras desses acervos. O acesso integrado a
acervos digitais em Memória e Cultura se
realiza praticamente, como já menciona-
do, através de tecnologias como os por-
tais Web e bibliotecas digitais, daí a ênfa-
se nesta seção à questão tecnológica.
Tal política brasileirade acesso
integrado teria que se basear em princí-
pios como:
- Cooperação entre instituições de-
tentoras de acervos digitais, entendendo
esses acervos como um patrimônio, não
de uma instituição, mas de todo o povo
brasileiro.
- Adoção de mecanismos de gover-
nança com a participação das instituições
parceiras detentoras dos acervos digitais.
- Não imposição de soluções tec-
nológicas às instituições detentoras de
acervos digitais.
- Adoção de padrões tecnológicos
abertos e/ou documentados e escaláveis,
que possam garantir a sustentabilidade e
a evolução sem tornarem obsoletos inves-
timentos já feitos.
- Otimização e compartilhamento
de recursos da infraestrutura tecnológi-
ca, como centros de digitalização, “sto-
rage”, serviços de hospedagem e dispo-
nibilização.
Como já frisado, muitos dos pontos
da política envolvem questões tecnológi-
cas. A tecnologia digital evolui com muita
rapidez. Torna-se necessário um cuida-
doso planejamento dos aspectos tecno-
lógicos envolvidos, sob risco de se inves-
tir em alternativas tecnológicas obsoletas
ou sem futuro, que vão resultar em des-
perdício de esforços e recursos em um
projeto como o delineado, de maturação
longa. A política teria que contemplar os
seguintes pontos.
4.1. Digitalização/criação
e preservação de acervos digitais
A digitalização de acervos digitais
é o processo de transformar itens físicos
de um acervo em cópias digitais. As boas
práticas indicam que o processo de digita-
lização deve ocorrer uma única vez, para
comprometer o mínimo possível o item
físico original. Esse processo deve gerar
uma matriz digital na melhor qualidade
possível, geralmente em formato .tif, que
deve ser preservada. A partir da matriz di-
gital são geradas as chamadas derivadas
de serviço (geralmente arquivos em for-
mato .jpg, mais “leves”, para serem exi-
bidos na Web, e .gif ou miniaturas) e as
cópias de segurança.
Várias instituições de Memória e
Cultura brasileiras digitalizaram em um
passado recente seus acervos, confor-
me relatado. O Conselho Nacional de
Arquivos publicou em 2010 um conjunto
de recomendações sobre digitalização
52
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
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(RECOMENDAÇÕES PARA DIGITALI-
ZAÇÃO DE DOCUMENTOS ARQUIVÍS-
TICOS PERMANENTES, 2010), calca-
dos nas experiências internacionais, que
inclui parâmetros técnicos como forma-
tos, resolução, profundidade de cor, etc.
Essas diretrizes são uma base técnica
sólida para orientar qualquer novo proje-
to de digitalização.
No que diz respeito à preservação
digital, existe grande expertise acadêmi-
ca (SANTOS; FLORES, 2015), (SAYÃO,
2010) além de algumas experiências a
nível institucional. A experiência interinsti-
tucional nesta questão é a da Rede Ca-
riniana (ARELLANO, 2012), esforço coor-
denado do IBICT para formar uma rede de
instituições que se apoiem mutuamente
para garantir cópias de segurança e pre-
servação de seus acervos digitais, usando
o sistema/metodologia LOCKSS
XXX
.
4.2. Acesso integrado
A questão de como prover aces-
so integrado a partir de um portal Web a
acervos digitais distribuídos por diferen-
tes instituições é chamada tecnicamente
de interoperabilidade. Interoperabilidade
é a capacidade de sistemas diferentes
(como os catálogos de uma biblioteca
e o de um museu) compartilharem seus
dados garantindo que o signicado dos
dados compartilhados seja mantido. Ela
envolve tanto aspectos técnicos – redes
e interconexão, protocolos de troca de
dados em diferentes níveis, sistemas ge-
renciadores de conteúdo, etc., quanto as-
pectos semânticos, como vocabulários,
metadados, etc.
Atingir a interoperabilidade entre
sistemas distintos pode ser bastante sim-
ples, quando os sistemas são idênticos e
os dados são registrados segundo o mes-
mo formato (como quando editamos um
texto em MSWord, salvamos o texto em
um “pen drive” e lemos e voltamos a editar
o mesmo texto em um outro computador
que tenha instalado o MSWord), ou bas-
tante complexa, quando os sistemas são
distintos, os dados são registrados em for-
matos distintos, além de estarem em me-
todologias de descrição distintas (um livro
raro descrito segundo o formato MARC e
um objeto museológico descrito segundo
as ICOM Classes no formato LIDO
XXXI
).
Tecnologias simples de interope-
rabilidade são de fácil adoção pelas ins-
tituições que estão cooperando, mas em
compensação oferecem poucas funcio-
nalidades. Tecnologias complexas ofe-
recem mais funcionalidades, mas, por
serem mais complexas, tornam sua ado-
ção pelas instituições cooperantes mais
complicada.
Levando estas questões em con-
sideração, deve-se buscar iniciar um
projeto de prover acesso integrado a par-
tir de um portal Web a acervos digitais
distribuídos por diferentes instituições a
partir de uma perspectiva evolutiva, que
inicie com tecnologias simples de se-
rem adotadas pelas instituições e possa
evoluir gradativamente para tecnologias
mais complexas. Essas questões são
detalhadamente discutidas em Armset
al. (2002), ao explicar as opções de in-
teroperabilidades utilizadas na NSDL -
National Science Digital Library, projeto
pioneiro do programa americano de bi-
bliotecas digitais.
Assim, os possíveis modelos de
interoperabilidade poderiam ser dispos-
tos em ordem crescente de complexidade
(e também de maiores funcionalidades)
como se segue:
- Portal com “links” para os
acervos – o portal contém somente
“links” para os sistemas de catálogos das
diferentes instituições; uma vez que os
“links” são acionados, usuários terão inte-
ragir com sistemas de catálogos distintos
53
Ano 9, número 16, semestral, out/2018 a mar/ 2019
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
e “estanques”; os resultados também não
são integrados. Esse modelo é imple-
mentado no Portal Europeu de Arquivos.
- Portal com base de dados cen-
tralizada, alimentada diretamente - por
cada uma das instituições cooperantes
com seu acervo. Esse é o modelo há
muito adotado por bibliotecas, chamado
Catálogo Coletivo; é utilizado nas Rede
Memória Virtual Brasileira, Brasiliana Ico-
nográca, Brasiliana Fotográca, Rede
Web de Museus RJ.
- Base de dados centralizada
alimentada por coleta automática de
metadados - é uma variante do modelo
anterior; a base de dados centralizada é
alimentada por coleta automática de me-
tadados, utilizando o protocolo OAI-PMH
- Open Archives Initiative Protocol for Me-
tadata Harvesting. Esse protocolo espe-
cica a troca de metadados entre reposi-
tórios digitais e agregadores - portais de
integrados de busca, por exemplo. O for-
mato “default” dos metadados é o DC. A
coleta automática ou “harvesting”,é feita
por um programa robô, que visita perio-
dicamente os repositórios digitais, agre-
gando-os na base de dados centralizada
do agregador, em cujo portal podem ser
feitas buscas integradas. Nesse modelo,
entre os metadados coletados esta um
(ou mais) “link”(s) para a(s) imagem(ns)
digital(ais) do objeto - um livro ou manus-
crito digitalizado, a fotograa digital de
uma objeto museológico, mantidos nos
repositórios digitais.
No Brasil existe há bastante tempo
uma razoável experiência com este mode-
lo e as tecnologias associadas, o protoco-
lo OAI-PMH e o conjunto de metadados
DC: na área cientíca a Biblioteca Digital
de Teses e Dissertações (MARCONDES;
SAYÃO, 2001) do IBICT, funciona desde
2001, agregando em seu portal teses e
dissertações digitais de muitas universida-
des e institutos de pesquisa brasileiros; na
área de informação jurídica, o Portal Le-
xML Brasil
XXXII
- Rede de Informação Le-
gislativa e Jurídica - agrega documentos
legislativos de tribunais brasileiros de di-
versos níveis; na área cultural a Biblioteca
Luso-Brasileira, projeto da BN, também
segue este modelo.
Além dessas experiências, vários
programas livres, como o DSpace, usa-
do em várias instituições brasileiras, são
compatíveis com o protocolo OAI-PMH.
Isso torna a opção protocolo OAI-PMH/
metadados DC viável para a implementa-
ção de um portal de acesso integrado aos
acervos digitais brasileiros em Memória e
Cultura. Para isso teria que ser constru-
ído um portal agregador dotado de um
programa de “harvesting” compatível com
o protocolo OAI-PMH, e do outro lado, os
diferentes sistemas de catálogos ou ba-
ses de dados das instituições detentoras
de acervos digitais em Memória e Cultura
teriam que ser alterados para terem inter-
faces compatíveis com OAI-PMH prove-
dor de dados.
- Base de dados “hibrida” – ali-
mentada diretamente e/ou por exportação/
importação e/ou por coleta automática de
metadados; esse é o caso da RMVB e das
Brasilianas Fotográca e Iconográca.
- Base de dados descentraliza-
da, como os catálogos distribuídos
- em formato MARC, acessáveis atra-
vés do protocolo Z39.50, uma tecno-
logia ainda da década de 1980 e, mais
recentemente, através do protocolo
SRU/SRW (IFLA, 2015), uma atualiza-
ção para a Web do Z39.50. Embora o
Z39.50 só recupere registros em forma-
to MARC, o SRU/SRW, além do MARC,
recupera também registros em formato
DC (MOREIRA; RIBEIRO, 2008). Essa
tecnologia é também candidata na im-
plementação de um portal para acesso
integrado aos acervos digitais brasileiros
em Memória e Cultura, já que o DC per-
54
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
mite também (com limitações) descrever
registros arquivísticos e museológicos.
Para isso, o portal da base de dados
centralizada teria que funcionar como
cliente SRU/SRW e as diferentes bases
de dados das instituições detentoras de
acervos digitais em Memória e Cultura,
como servidoras SRU/SRW.
- Publicação direta do conteú-
do dos catálogos na Web, através das
tecnologias de dados abertos interli-
gados - As tecnologias LOD, ou “linked
open data” (BIZER; HEATH; BERNERS-
-LEE, 2009) vêm sendo crescentemente
adotadas por instituições de memória e
cultura para publicarem seus acervos na
Web (AGENJO-BÚLLON, 2015), (MÉN-
DEZ, GREENBERG, 2012). Essa tecno-
logia se baseia em publicar e descrever
recursos diretamente na Web, acessí-
veis diretamente por um URI/IRI - “links”
persistentes, que não “caem” nunca,
descrevendo-os através de suas pro-
priedades e seus valores, as chamadas
triplas RDF (RDF Primer 2002). Embora
com vários projetos implementados pelo
mundo, essas tecnologias pode ser con-
sideradas ainda experimentais, em es-
pecial no Brasil (MARCONDES, 2017).
Outra forma de acesso integrado
a acervos digitais são as APIs
XXXIII
– Apli-
cationProgram Interfaces – interfaces de
programas aplicativos – formas padroni-
zadas pela instituição mantenedora de
um portal de acesso integrado através
das quais diferentes programas aplicati-
vos podem acessar os dados mantidos
no portal de diferentes maneiras. As APIs
são um incentivo e um facilitador para
que terceiros possam reusar os dados
mantidos no portal de acesso integrado.
As grande iniciativas mundiais de acesso
integrado já mencionadas, como Europe-
ana, DPLA, Trove e Mexicana, contam
com APIs especícas para proporcionar
acesso a seus dados por diferentes pro-
gramas aplicativos.
4.3. Padrões e tecnologias
associados
Há tecnologias e padrões que fun-
cionam associados a um ou mais dos
modelos de interoperabilidade descritos
anteriormente. O protocolo OAI-PMH tra-
balha com o conjunto de metadados DC
como seu formato básico de coleta de
metadados.
O DC é um conjunto de metada-
dos formado por 15 elementos simples, de
signicado óbvio, auto-descritíveis, para
descrever documentos digitais. Pode ser
usado com qualicadores para cada ele-
mento, por exemplo, “dc:contribuitor.
orientadorpara especicar o orientador
de uma tese. Qualicadores servem para
especicar mais precisamente o signica-
do de um elemento DC.
A Biblioteca Digital Europeana é
o agregador dados de mais 3000 insti-
tuições européias de Memória e Cultura,
seus provedores de dados. O ESM - Eu-
ropeana Semantic Elements foi o formato
básico e comum utilizado pela Europeana
para fazer o “harvesting” de metadados
dos seus muitos provedores de dados. O
ESM amplia o DC com qualicadores para
atender as necessidades de descrição de
recursos heterogêneos, providos pelos
mais diversos arquivos, bibliotecas, mu-
seus, galerias, centros de documentação,
cinematecas, etc., europeus que provêm
dados para a Europeana. Trata-se de uma
experiência prática do uso do DC para
descrever registros heterogêneos.
O acesso a objetos digitais deve
ter associado, de forma clara, a licenças
de uso que expressem claramente que
tipo de reuso pode ser feito. O reuso,
mesmo que para ns comerciais, é uma
das principais motivações culturais, edu-
cacionais e mesmo comerciais para pro-
ver acesso público a acervos digitais. As
licenças CreativeCommons
XXXIV
atendem
55
Ano 9, número 16, semestral, out/2018 a mar/ 2019
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
claramente a este requisito. São licen-
ças padronizadas, públicas, cujo texto
e condições estão disponíveis na Web;
São 7níveis de liberalização de compar-
tilhamento de obras, identicadas por lo-
gos especícos, que especicam em que
condições um usuário pode fazer reuso
de um recurso disponibilizado na Web.
Uma política brasileira de acesso integra-
do a acervos digitais teria que contemplar
acordos acerca de sob que licenças dis-
ponibilizar os diferentes acervos.
4.4. Vocabulários
Vocabulários são ferramentas se-
mânticas, de xação de signicados. São
sistemas de conceitos e relações entre
eles; a expressão linguística de um con-
ceito é um (ou mais) termo(s), que se refe-
rem a um objeto, em uma relação triádica
(PEIRCE, 1994). Materializam-se desde,
sob a forma de listas alfabéticas de ter-
mos, até como ontologias computacionais.
Para que possam se integrar aos SRI, ou
ser intercambiados entre SRI diferentes,
vocabulários são hoje, cada vez mais,
representados em formatos legíveis por
computadores como RDF
XXXV
, OWL
XXXVI
ou SKOS
XXXVII
.
Vocabulários são úteis na inte-
gração de acervos digitais em Memória
e Cultura segundo duas opções de inte-
roperabilidade, a-bases de dados cen-
tralizadas e b- publicação direta usando
as tecnologias LOD. Na primeira opção,
vocabulários estão integrados a SRI “on-
line” e OPAC, assistem catalogadores e
usuários na navegação facetada e es-
colha dos termos padronizados que são
submetidos para fazer buscas na base de
dados do sistema. Permitem assim a re-
cuperação, agrupamento e categorização
dos objetos recuperados.
São cada vez mais comuns por-
tais de acesso integrado a acervos hete-
rogêneos, como os já citados Europeana,
DPLA, Trove e Mexicana, que integram
objetos digitais representando objetos fí-
sicos de natureza muito diversa. Nestes
portais é difícil a busca por assunto ou
palavra-chave, já que muitos objetos não
têm necessariamente um assunto, como
nos catálogos de bibliotecas. São neces-
sários portanto, diferentes vocabulários,
que contemplem as diferentes facetas, ou
aspectos, dos objetos de patrimônio. O
portal de acesso na Web, além de permitir
a busca por palavras-chaves, deve incor-
porar mecanismos de navegação por índi-
ces especícos ou taxonomias, para facili-
tar aos usuários explorarem os diferentes
acervos. Esses índices e taxonomias na-
vegacionais correspondem às diferentes
facetas, cada uma delas desdobrada em
um vocabulário especíco.
Usando as tecnologias LOD um
número crescente de vocabulários vêm
sendo desenvolvidos e tornados públi-
cos, nos quais propriedades e valores
das triplas RDF podem ser referenciados
através de URIs/IRIs, a termos de voca-
bulários, com signicado único e preciso,
processável/”inteligìvel” por programas.
Entre eles estão o já citado DC, os Vo-
cabulários da Getty Foudation, o Art &
Architecture Thesaurus (AAT), o Cultural
Name Objects Authority (CONA), o Getty
Thesaurus of Geographic Names (TGN),
e o Union List of Artists Names (ULAN),
os Library of Congress Subject Headin-
gs, o VIAF – Virtual International Authority
File, entre outros.
A construção de vocabulários com
vistas à integração de acervos heterogê-
neos é uma tarefa complexa. Segundo
Baca (2016, p. 20) “O Getty Vocabulary
Program dedicou quase três décadas para
a criação de tesauros que podem ser usa-
dos como bases de conhecimento, ferra-
mentas de catalogação e documentação
e assistentes de pesquisa on-line”. Seu
desenvolvimento exige muitos recursos
durante um tempo longo, continuidade,
56
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
além de forte articulação, cooperação e
trabalho conjunto entre diferentes institui-
ções. Essas condições têm se mostrado
muito difíceis de serem atingidas no caso
brasileiro: as instituições não têm cultura
de trabalharem com projetos, sua visão
é limitada ao escopo da sua instituição,
além de não existir pessoal dedicado; os
quadros dedicam-se a suas funções con-
vencionais e geralmente, no caso de um
projeto, têm que acumulá-las com as ta-
refas do projeto.
Existe considerável experiência in-
ternacional no uso e desenvolvimento de
vocabulários para integração de sistemas.
Bizer, Heath e Berners-Lee (2009) estabe-
lecem subsídios para uma política de uso
e desenvolvimento de vocabulários com-
patíveis com as tecnologias LOD, que in-
cluem como diretrizes, uso de URIs/IRIs
para identicar termos e publicar os voca-
bulários diretamente na Web, viablizando
assim seu reuso.
O consórcio Open Biomedical
Ontologies Foundry
XXXVIII
coordena o de-
senvolvimento de dezenas de ontologias
(vocabulários) especializados em domí-
nios especícos das ciências biomédicas
(SMITH et al, 2009). Os princípios nos
quais se baseia o desenvolvimento de
ontologias na OBO Foundry são: desen-
volvimento colaborativo, uso aberto, não
superposição e uso de formatos comuns
e padronizados.
Outra visão interessante para a
construção de vocabulários para inte-
gração de sistemas é dado por Guarino
(1998). Segundo este autor as ontologias
(que são um tipo de vocabulário, legível
por programas) podem ser classicadas
em três níveis de abrangência ou esco-
po: ontologias de um escopo muito amplo,
ontologias de domínio especíco e ontolo-
gias relativas a tarefas em um dado domí-
nio. Se aplicarmos ao caso brasileiro, uma
classicação geral de acervos em Memó-
ria e Cultura estaria no segundo nível, co-
brindo um domínio especíco, um tesauro
especíco, como o Thesaurus de Acervos
Cientícos em Língua Portuguesa estaria
no terceiro nível.
Entre os vocabulários estruturantes
no cenário brasileiro de acesso integrado a
acervos em Memória e Cultura,que seriam
importantes para integração de acervos
digitais em Memória e Cultura, pode-se
enumerar os seguintes: além do Thesau-
rus para Acervos Museológicos, de Ferrez
e Bianchini (1987), usado como elemento
integrador de diferentes acervos no Portal
da Rede Web de Museus, um vocabulário
de períodos históricos e eventos da his-
tória do Brasil, um vocabulário geográco
com locais do Brasil ou a inclusão de coor-
denadas geográcas, vocabulários espe-
cícos para objetos de arte, como estilo,
movimento artístico, técnicas etc., even-
tos ou pessoas relacionadas a objetos de
Patrimônio, grupos étnicos formadores do
povo brasileiro, relacionamentos cultural-
mente signicativos entre objetos de di-
ferentes acervos (MARCONDES, 2018),
(MARCONDES; SOUZA, 2018), um voca-
bulário temático, como o uso pela BN dos
Cabeçalhos de Assunto da LC traduzidos
(BETTENCOURT, 2014), além de listas de
autoridades – pessoas e instituições.
Uma faceta comum o todo o obje-
to de Memória e Cultura seria o que este
objeto é, qual o seu tipo; um desses voca-
bulários portanto, seria uma classicação
abrangente de todos os tipos de objetos
de Memória e Culturaque possam existir
em acervos destas instituições. Tal classi-
cação seria capaz de integrar e favorecer
a interoperabilidade entre diferentes acer-
vos ao permitir a usuários explorar e na-
vegar transversalmente por determinados
tipos de objetos.
A exemplo das experiências inter-
nacionais, no Brasil o desenvolvimento de
vocabulários para integração de acervos
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Ano 9, número 16, semestral, out/2018 a mar/ 2019
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
digitais precisa ser planejado para evi-
tar superposições, retrabalho e viabilizar
reuso. Poderia ser criado um portal de
registro e homologação desses vocabu-
lários
XXXIX
, evitando que esforços sejam
desperdiçados desenvolvendo vocabulá-
rios já existentes; a ênfase seria no reuso
de vocabulários.
4.4. Reuso
Um portal de acesso integrado
a acervos digitais em Memória e Cultu-
ra poderia desenvolver e incentivar di-
versos mecanismos de reuso dos seus
conteúdos. Além das buscas integradas
ao conjunto de acervos, diversas outras
aplicações poderiam ser desenvolvidas,
como interfaces responsivas para permi-
tir o acesso através de “tablets” ou celu-
lares, APIs para acesso aos conteúdos e
seu reuso, exposições/aulas virtuais que
poderiam se usadas por professores para
ações educativas, grandes temas conti-
dos nos acervos digitais pré-selecionados,
cartilhas, ocinas, capacitação de profes-
sores, e, dependendo das licenças de
acesso, reuso dos conteúdos pelas assim
chamadas indústrias criativas - turismo
cultural, design, desenvolvimento de “ga-
mes”, indústria editorial, etc.
4.5. Implantação, sustentação,
articulação e organização interinstitucional
Uma vez que os principais acervos
digitais pertencem a instituições diferen-
tes, uma primeira estratégia de implanta-
ção seria reunir estas instituições em um
fórum, onde pudessem discutir questões
relativas a seus acervos digitais, na pers-
pectiva de se construir, de forma perma-
nente, uma Rede Brasileira de Acervos
Digitais em Memória e Cultura. A partir daí
se poderia propor um projeto piloto, um
Portal brasileiro de acervos digitais, cuja
semente já existe, a Brasiliana Iconográ-
ca, que poderia ser ampliada e reformula-
da, incluindo novas instituições/coleções.
Tal projeto proporcionaria a motiva-
ção para que a Rede pudesse fazer uma
avaliação que subsidiasse uma nova fase
do projeto. Nessa nova fase entrariam em
pauta questões como gestão e governa-
bilidade: os comitês, mecanismos consul-
tivos e de gestão, formato institucional,
além de questões como sustentabilidade
a longo prazo: fontes de recursos diversi-
cadas, patrocínios.
Outra questão importante seria
buscar para a Rede e seu Portal apoio e
articulação política, transformando o pro-
jeto em uma política de estado, uma polí-
tica nacional, a exemplo do que acontece
com a Biblioteca Europeana, um projeto
do Parlamento Europeu (CARMONA; AR-
TIGAN, 2014). Nessa questão, a articu-
lação com outras agências governamen-
tais, através de subprojetos especícos,
como MEC, universidades, secretarias
estaduais e municipais de cultura e edu-
cação, RNP, SERPRO, CGI-Br, etc., seria
muito importante.
4.6. Treinamento e capacitação
Uma política como a delineada não
poderia deixar de se preocupar com a ca-
pacitação e treinamento de prossionais
que a sustentassem, tanto a nível técni-
co, operacional, quanto a nível gerencial.
A esse respeito, o Brasil tem precedentes
com curso de especialização para biblio-
tecários de instituições de ensino superior,
desenvolvido pelo MEC/SESu/PNBU (PI-
NHEIRO, 1990), que ocorreu em 1987 e
1989. O curso foi desenvolvido em parce-
ria com diversas universidades.
Novos conteúdos teriam que ser
desenvolvidos, com certeza mais de um
currículo, para contemplar diversos as-
pectos especícos da operacionalização
de uma política brasileira de acesso, pre-
servação e utilização de acervos digitais
em Memória e Cultura. Temos um sistema
de pós-graduação mais sólido e maduro
58
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
que na década de 1980, com programas
em áreas como Informação, Computação,
Gestão, que poderiam contribuir para pro-
gramas de formação especícos.
5. Considerações nais
Procuramos demonstrar que exis-
te hoje no Brasil, além de larga experiên-
cia internacional publicada e facilmente
acessível, um conjunto de experiências,
expertises, tecnologias e padrões tecno-
lógicos aceitos e razoavelmente consen-
sados, a par de importantes acervos de
Memória e Cultura já digitalizados ou que
podem ser facilmente digitalizados, com
grande potencial cultural, educativo e
mesmo econômico.
A questão da tecnologia para um
portal Web de acesso integrado a acervos
em Memória e Cultura já esta bastante
equacionada, existem diferentes alterna-
tivas tecnológicas e expertise brasileira.
Outra questão facilitadora, os acervos
mais signicativos, muitos dos quais
se encontram parcialmente ou na sua
totalidade, digitalizados, são acervos de
umas poucas instituições; esse fato torna
mais fácil sua articulação. Falta superar
a proverbial diculdade das instituições
brasileiras de articularem-se em projetos
interinstitucionais, para além de suas atri-
buições rotineiras.
Outra questão fundamental é a
sustentação de uma iniciativa como esta
a médio e longo prazo. Neste sentido, his-
toricamente, as diferentes iniciativas eram
projetos, iniciativas com prazos e recursos
denidos para um período determinado.
Um portal brasileiro de acesso integrado a
acervos digitais em Memória e Cultura de-
veria ser um projeto nacional, com susten-
tação política e econômica permanente. A
experiência internacional mostra que sua
importância cultural, educacional, cientí-
ca/tecnológica e econômica são inquestio-
náveis. Um projeto deveria ser formulado
politicamente nestes termos.
Faltaria catalisar estas condições
para que o setor de Memória e Cultura
conseguisse dar um salto de qualidade no
sentido de dar acesso em grande escala
através da Web aos registros digitais de
seus acervos e torná-los instrumentos co-
tidianos e usuais de promoção da cultura e
educação do povo brasileiro, efetivamente
disponíveis através das facilidades das
tecnologias da informação, a professores,
alunos e cidadãos.
Talvez o primeiro passo para gal-
vanizar e catalisar as diferentes iniciativas
seja um projeto piloto, em escala reduzida
mas que já aponte para todas as poten-
cialidades dos acervos digitais acessíveis
através da Web, que tenha efeito demons-
tração e ajude a atrair outras instituições,
parceiros e apoios.
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13 dez. 2017.
Recebido em 19/12/2018
Aprovado em 24/01/2019
61
Ano 9, número 16, semestral, out/2018 a mar/ 2019
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
I Angela Maria Monteiro Bettencourt. Mestre em Ciên-
cia da Informação, Coordenadora da BNDigital, Funda-
ção Biblioteca Nacional. Rio de Janeiro, Brasil. Contato:
angela.bettencourt@bn.gov.br
II Carlos Henrique Marcondes. Doutor em Ciência da In-
formação, Professor, Programa de Pós-graduação em Ci-
ência da Informação da Universidade Federal Fluminen-
se, Niterói, RJ, Brasil. Contato: ch.marcondes@id.uff.br
III Ver http://brasilianafotograca.bn.br/
IV Ver https://www.brasilianaiconograca.art.br/
V Ver http://www.museusdoestado.rj.gov.br/sisgam/
VI Ver https://www.europeana.eu/portal/pt
VII Ver https://dp.la/
VIII Ver https://trove.nla.gov.au/
IX Ver https://mexicana.cultura.gob.mx/
X http://plano-nacional-de-cultura-pnc
XI Ver https://www.bndes.gov.br/wps/portal/site/home/
nanciamento/produto/bndes-fundo-cultural
XII Ver http://www.cultura.gov.br/por-dentro-da-spc/-/
asset_publisher/Su3pr796elzt/content/premio-memo-
rial-digital/10877
XIII https://bndigital.bn.gov.br/
XIV http://bndigital.bn.gov.br/dossies/rede-da-memoria-
-virtual-brasileira/
XV Ver https://br.wordpress.com
XVI Ver em https://duraspace.org/dspace/
XVII http://brasilianafotograca.bn.br/
XVIII http://bdlb.bn.gov.br/
XIX Ver http://www.brasilianaiconograca.art.br/
XX Ver http://www.museuimperial.gov.br/dami/
XXI Ver http://www.cultura.gov.br/programa-nacional-
-de-apoio-a-cultura-pronac-
XXII Ver http://dublincore.org/
XXIII Ver https://www.loc.gov/marc/
XXIV Ver http://www.febab.org.br/aacr2-2/
XXV Ver http://www.loc.gov/cds/products/product.
php?productID=214
XXVI Ver https://www.ica.org/en/isadg-general-interna-
tional-standard-archival-description-second-edition
XXVII Ver http://network.icom.museum/cidoc/
XXVIII Ver http://www.getty.edu/research/tools/voca-
bularies/
XXIX Ver https://en.wikipedia.org/wiki/Metadata
XXX Ver https://www.lockss.org/.
XXXI Ver http://network.icom.museum/cidoc/working-
-groups/lido/what-is-lido
XXXII Ver https://www.lexml.gov.br/
XXXIII Ver https://pt.wikipedia.org/wiki/Interface_de_
programação _de_aplicações
XXXIV Ver https://br.creativecommons.org/
XXXV Ver https://www.w3.org/RDF/
XXXVI Ver https://www.w3.org/OWL/
XXXVII Ver https://www.w3.org/2004/02/skos/
XXXVIII Ver http://www.obofoundry.org/
XXXIX A exemplo dos https://lov.linkeddata.es e http://
vocab.org/.
62
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
Wikipédia e museus: uma parceria possível?
¿Wikipedia y museos: una asociación posible?
Wikipedia and museums: a possible partnership?
Juliana Monteiro
I
Resumo:
A Wikipédia é, hoje, considerada uma das principais fontes terciárias de
informação da atualidade, tendo grande impacto na difusão de conteúdos
relacionados a todas as áreas do conhecimento humano. Outro aspecto
importante da Wikipédia é o modo como ela é gerenciada: por uma
comunidade ativa de editores e editoras voluntários, que constroem
ferramentas, regras e colaboram para melhorar ou criar artigos. Nesse
sentido, muitos museus têm procurado trabalhar com a Wikipédia e seus
projetos irmãos como parte de uma estratégia digital para disseminar
o conhecimento que produzem. As possibilidades derivadas de tal
conexão entre instituições culturais e Wikipédia são numerosas, desde a
reutilização criativa de imagens e outros conteúdos digitais relacionados
às coleções, até a produção de novos dados, com o apoio dos editores
da enciclopédia, sobre a coleções. É, portanto, uma forma aberta,
colaborativa e inovadora de criar novos contextos para o patrimônio
cultural. Sendo assim, é válido discutir quais os impactos que parcerias
entre museus e a Wikipédia podem ter para a forma como as instituições
museológicas se portam diante do ciclo de produção de conhecimento.
Esse é um dos objetivos do presente artigo.
Palavras-chave:
Wikipédia
Museus
Acesso aberto
63
Ano 9, número 16, semestral, out/2018 a mar/ 2019
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
Resumen:
Wikipedia es, hoy, considerada una de las principales fuentes terciarias
de información de la actualidad, teniendo gran impacto en la difusión
de contenidos relacionados a todas las áreas del conocimiento
humano. Otro aspecto importante de Wikipedia es el modo en que
es administrada: por una comunidad activa de editores y editores
voluntarios, que construyen herramientas, reglas y colaboran para
mejorar o crear artículos. En este sentido, muchos museos han
intentado trabajar con Wikipedia y sus proyectos hermanos como parte
de una estrategia digital para diseminar el conocimiento que producen.
Las posibilidades derivadas de tal conexión entre instituciones
culturales y Wikipedia son numerosas, desde la reutilización creativa de
imágenes y otros contenidos digitales relacionados a las colecciones,
hasta la producción de nuevos datos, con el apoyo de los editores de la
enciclopedia, sobre las colecciones. Es, por lo tanto, una forma abierta,
colaborativa e innovadora de crear nuevos contextos para el patrimonio
cultural. Siendo así, es válido discutir cuáles son los impactos que las
asociaciones entre museos y Wikipedia pueden tener para la forma en
que las instituciones museológicas se portan ante el ciclo de producción
de conocimiento. Este es uno de los objetivos del presente artículo.
Abstract:
Wikipedia is today considered one of the main tertiary sources of
information of the present time, having great impact in the diffusion of
contents related to all the areas of human knowledge. Another important
aspect of Wikipedia is how it is managed: by an active community of
volunteer editors, who build tools, rules, and collaborate to improve
or create articles. In this sense, many museums have sought to work
with Wikipedia and its sister projects as part of a digital strategy to
disseminate the knowledge they produce. The possibilities derived
from such a connection between cultural institutions and Wikipedia are
numerous, from the creative reuse of images and other digital contents
related to the collections, to the production of new data, with the support
of the editors of the encyclopedia, on the collections. It is, therefore,
an open, collaborative and innovative way of creating new contexts
for cultural heritage. Therefore, it is worth discussing the impact that
partnerships between museums and Wikipedia can have on the way
that museums participate in the cycle of knowledge production. This is
one of the objectives of this article.
Palabras clave:
Wikipedia
Museos
Acceso abierto
Keywords:
Wikipedia
Museums
Open Access
64
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
Wikipédia e museus:
uma parceria possível?
Introdução
O presente artigo tem dois objeti-
vos. Primeiro, visa apresentar as principais
potencialidades e desaos no uso da Wi-
kipédia por museus, trazendo observações
mais pontuais sobre seus projetos irmãos,
a saber: Wikimedia Commons, Wikitada,
Wikibooks, Wikicionário e outros. E, em
segundo lugar, quer discutir, ainda que de
forma preliminar, em que medida tal utiliza-
ção pode implicar em parcerias transforma-
doras para as partes envolvidas, principal-
mente para os museus.
Compreende-se que a Wikipédia e
seus projetos irmãos se apresentam como
vias possíveis para operacionalizar novas
formas de compartilhamento de materiais re-
lacionados às coleções museológicas, como
fotos, vídeos, áudios, documentos escane-
ados entre outros. Logo, todas essas plata-
formas têm um forte potencial de maximizar
o acesso às coleções, contribuindo também
para aumentar, ainda que indiretamente, a
presença digital de instituições museológicas.
Cumpre ressaltar por último que to-
das as reexões apresentadas no presente
artigo são frutos de minha participação em
projetos que procuram unir instituições cul-
turais e os projetos Wikimedia, em particu-
lar a Wikipédia. Assim, pode-se dizer que a
metodologia para escrita do texto é empírica,
usando como procedimento a sistematiza-
ção de referenciais advindos da prática e sua
análise à luz de conceitos da Museologia, da
Ciência da Informação e de áreas ans.
1. O que é a Wikipédia
A Wikipédia é a maior enciclopé-
dia online gratuita do mundo. Criada for-
malmente em 2001 (WIKIPEDIA, 2018a),
a plataforma estabeleceu uma nova ma-
neira de criar e difundir o conhecimento,
atingindo uma escala de mais de 5 bilhões
de artigos em sua versão em inglês (WIKI-
PEDIA, 2018b) e pouco mais de 1 milhão
de artigos em sua versão em português
(WIKIPÉDIA, 2018c).
A Wikipédia possui regras especí-
cas de edição, que devem ser respeitadas
por qualquer um interessado em colaborar.
Um dos seus pilares é que a Wikipédia é
uma enciclopédia, logo, uma fonte terciária
de informação e não o local para publicação
de dados ou pesquisas inéditas. Outro ponto
relevante a ser destacado é que tudo o que
nela consta, teoricamente, deve possuir re-
levância enciclopédica. Em outras palavras,
a Wikipédia pode ser uma plataforma para
todas as facetas do conhecimento humano,
o que não signica que todo o conhecimen-
to deverá ser registrado ali.
Além da Wikipédia, há seus projetos
irmãos, como Wikidata, Wikimedia Com-
mons, Wikicionary, Wikibooks, Wikiquote
etc
II
. Todos eles são conhecidos generica-
mente como projetos Wikimedia e possuem
regras próprias de contribuição, que podem
ser iguais ou não às da Wikipédia – o maior
e mais visado projeto Wikimedia de todos.
Vale ressaltar também que não é estranho
encontrar voluntários ou voluntárias que se
dedicam exclusivamente a somente um ou
dois dos projetos, sendo raras as pessoas
que atuam em muitas ou todas as frentes
ao mesmo tempo.
Todos os projetos são atualmente
mantidos por meio da Wikimedia Foun-
dation, organização sem ns lucrativos
sediada nos Estados Unidos. A Fundação
tem o papel de fazer advocay e angariar
recursos para cada um dos projetos, bem
como estimular o engajamento de voluntá-
rios e voluntárias. É a Fundação também
que organiza ou ajuda a organizar even-
tos locais ou globais voltados à integração
65
Ano 9, número 16, semestral, out/2018 a mar/ 2019
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
entre pessoas que atuam, em diferentes
instâncias, nos projetos Wikimedia.
Todo esse universo de iniciativas
compartilha do mesmo objetivo comum: a
de que o conhecimento humano deve ser
livre e que qualquer pessoa pode colaborar
com a ampliação do acesso a ele. A cola-
boração pode se dar de diferentes formas,
sendo possível citar algumas: criação ou
melhoria de artigos na Wikipédia, carrega-
mento de arquivos multimídia já em domí-
nio público ou com licenciamento aberto no
Wikimedia Commons, ou mesmo a estrutu-
ração de conjuntos de dados no Wikidata.
Além de milhares de indivíduos
que são colaboradores ativos das comu-
nidades wiki de cada projeto, também
existem instituições GLAM (acrônimo em
inglês para galerias, bibliotecas, arquivos
e museus) que se tornaram parte desse
universo. Uma das várias razões para tal
fenômeno é que as instituições culturais
estão tentando envolver-se com os proje-
tos Wikimedia como uma forma de diver-
sicar e ampliar os (re)usos de seus con-
teúdos digitais relacionados às coleções,
como imagens e dados (FLETCHER et
al., 2014). Nesse sentido, cada vez mais é
comum vericar a realização de parcerias
que visam congregar projetos Wikimedia,
seus editores e editoras e instituições cul-
turais. Tais iniciativas casadas são conhe-
cidas como projetos GLAM Wiki.
No Brasil, as iniciativas GLAM Wiki
não são novas. Porém, foi apenas em
2015-2016 que aconteceu a primeira expe-
riência conhecida de um museu sediando
um projeto GLAM Wiki, a saber, o projeto-
-piloto realizado pelo Museu da Imigração
de São Paulo. Para execução da proposta,
o museu contou com a colaboração direta
do grupo Wiki Educação Brasil, composto
de editores e editoras voluntários e expe-
rientes (MONTEIRO, 2016). Atualmente, o
país já conta com uma série de projetos
GLAM Wiki em andamento, concentradas
especialmente nas cidades de São Paulo
e Rio de Janeiro (WIKIPEDIAd, 2018).
Sendo assim, podemos nos per-
guntar quais as convergências e diver-
gências existentes entre a Wikipédia e os
museus, para explorar, a partir daí as pos-
sibilidades de parceria. E esse será o foco
dos tópicos a seguir.
2. Wikipédia e museus:
convergências e divergências
A partir da breve explicação apre-
sentada anteriormente sobre como a Wi-
kipédia funciona, é possível compreender
que qualquer pessoa interessada pode se
tornar uma editora e ajudar a enciclopédia a
crescer. Porém, essa contribuição é regula-
da. Ou seja, longe estamos da ideia de que
qualquer um faz o que quer na Wikipédia.
Outro ponto importante também apresenta-
do é que o conhecimento registrado na Wi-
kipédia deve vir de fontes secundárias ou
terciárias conáveis, exigindo um trabalho
de pesquisa contínuo e colaborativo.
É possível entender que o trabalho
realizado pela Wikipédia e pelos museus
compartilha algumas características em
comum: ambos podem ser entendidos
como hubs de comunidades “dedicadas
à expansão do conhecimento” (TUNSCH,
2007). Mesmo o “público-alvo” da Wikipé-
dia e dos museus é muito semelhante, se
não igual: ambos destinam-se a um pú-
blico vasto e variado, incluindo leigos e
especialistas. No entanto, também pode-
mos dizer que museus e a Wikipédia são
diferentes em seus métodos de produção
e vericação de conhecimento e suas for-
mas de fornecer acesso à informação.
A enciclopédia on-line tem uma ma-
neira dinâmica de criar e revisar seu con-
teúdo. Para criar um artigo na Wikipedia e
mantê-lo lá, um editor ou editora deve for-
necer fontes conáveis para aquilo que está
66
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
escrevendo e respeitar as regras gerais. A
pessoa também não precisa ser especialista
para iniciar um artigo sobre um assunto ou
para contribuir com outro de seu interesse.
Caso contrário, eles podem ser excluídos
pela própria comunidade de editoras e edi-
tores da Wikipédia por falta de notoriedade.
O processo de construção e melho-
ria dos artigos tende a ser rápido e direto.
Se houver alguma dúvida sobre referên-
cias ou mesmo sobre informações coloca-
das no corpo do texto, é possível discutir
diretamente com outros editores e edito-
ras e tentar encontrar um consenso sobre
o que é melhor para o artigo. Tal postura
dialógica é extremamente importante para
o desenvolvimento saudável da Wikipé-
dia, a m de se evitar a qualquer custo as
polêmicas “guerras de edição”
III
.
A Wikipédia também é bastante
dinâmica no que se refere à facilidade e
transparência no rastreamento do proces-
so de elaboração e melhoria de um artigo.
A criação e todas as edições seguintes
feitas em um artigo, como correção orto-
gráca, inserção de fontes e imagens ou
complemento de dados, cam registradas
e podem ser vistas por qualquer pessoa.
Isso também contribui para que versões
anteriores sejam comparadas entre si ou
com a atual.
Os museus, por sua vez, podem
produzir ou revisar conhecimento de di-
ferentes formas, incluindo por meio de
pesquisa inédita. Podem também realizar
investigações que priorizem a interpreta-
ção de peças individuais ou de coleções
inteiras. Por exemplo, um museu de arte
talvez tenha a chance de vericar infor-
mações sobre seus objetos durante o pro-
cesso de realização de uma exposição. Já
no caso de um museu de história natural,
ele pode ser dependente do avanço das
ciências que lhes são relacionadas para
mapear quais informações sobre suas co-
leções podem estar erradas.
Esses processos nem sempre são
muito dinâmicos, já que acontecem em um
ritmo particular. Isso signica que uma infor-
mação pode permenecer equivocada por
algum tempo, até que seja possível alguém
localizá-la ou corrigi-la. Além disso, não é
qualquer pessoa que pode fazê-lo, mas ape-
nas especialistas autorizados – geralmente
curadores, documentalistas mais experien-
tes ou mesmo prossionais com mais tempo
de casa e maior conhecimento do acervo.
Os museus também possuem um
ritmo próprio de disponibilização das infor-
mações que produzem. O público possui
diferentes formas para entrar em contato
com tais informações, seja por meio de
seminários, palestras, exposições, ações
educativas e outros eventos. Também há
os produtos, como folders, catálogos im-
pressos e on-line e materiais educativos,
que podem servir como referências. Assim,
os museus conseguem contribuir para o
conhecimento humano, mas de uma forma
particularizada e muito vezes vinculada ao
ciclo de sua programação cultural.
Mas, se a Wikipédia e os museus por
um lado são tão semelhantes e, por outro, to-
talmente diferentes, é possível imaginar que
há espaço para diálogo entre eles? Estariam
Wikipédia e museus em pé de igualdade em
termos de autoridade na produção e revisão
de conhecimento sobre o patrimônio cultu-
ral, por exemplo? Ou seriam eles comple-
mentares dentro do espectro de produção,
organização e circulação de conhecimento?
Longe de oferecer respostas de-
nitivas sobre a questão, é possível dizer
que sim, existe espaço para diálogo entre
museus e a Wikipédia. E é sobre isso que
falaremos a seguir.
3. Mudança necessária de paradigma
É importante enfatizar que, para a
parceria entre a Wikipédia e os museus fun-
67
Ano 9, número 16, semestral, out/2018 a mar/ 2019
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
cionar, é necessária uma mudança de ati-
tude - principalmente por parte das institui-
ções e suas equipes. Durante muito tempo,
os museus e seus prossionais, basearam-
-se em tradições de trabalho profundamen-
te enraizadas na ideia do especialista que
“sabe tudo”. Ou seja, o prossional do mu-
seu como o especialista que detém o (úni-
co) conhecimento “correto” sobre os temas
ou coleções de uma instituição.
Com isso, os museus ganharam
uma imagem pública reconhecida como
sendo lugares de autoridade absoluta so-
bre campos especícos do conhecimento.
Tem havido muita discussão e debate sobre
a importância de os museus lutarem contra
essa imagem, uma vez que muitas vezes
ela causa mais distância entre o museu e a
sociedade do que ajuda a construir pontes
entre eles. No entanto, se os museus – e,
por consequência, seus prossionais re-
almente quiserem mudar essa percepção,
eles precisam reavaliar o modo como cons-
troem e compartilham sua produção de co-
nhecimento sobre as coleções.
E, acima de tudo, precisam deixar
o lado o medo de perder o controle sobre
a qualidade das informações ou sobre o
“seu” acervo. No mundo em que vivemos,
a ideia de controle absoluto no ambiente
web é sempre relativa e frágil. E a con-
cepção de que um acervo, parcela de um
patrimônio cultural, é de “alguém” que não
a própria sociedade, também é algo con-
troverso, para dizer o mínimo.
Uma ilustração clara do quanto não
vale a pena manter tal postura são os inú-
meros casos em que instituições acabam
por ver partes de seu acervo que já estão
em domínio público, por exemplo, sendo
compartilhadas livremente na internet – cau-
sando o que hoje é conhecido como “Yellow
Milkmaid Syndrome” (algo como “Síndrome
da Leiteira”, em uma tradução livre)
IV
. Um
detalhe importante de tal situação é de que,
na maioria dos casos, as imagens podem
até conter a atribuição correta de autoria,
mas não indicam em absoluto onde esses
itens estão – e lá se vai uma chance rara da
instituição de ser mais (re)conhecida pelo
seu trabalho. Ou seja, o medo, ainda que
legítimo em alguns aspectos, pode levar a
um isolacionismo, fazendo a instituição per-
der o “bonde da história”.
Cumpre ressaltar que não se trata
aqui de defender que qualquer coisa seja
livremente compartilhada a qualquer custo
na Wikipédia ou em algum de seus proje-
tos irmãos pelos museus. Ou mesmo que
uma instituição museológica abra mão de
sua expertise. Porém, signica dizer que
abrir uma coleção para o “mundo”, incluin-
do a Wikipédia e projetos correlatos, torna
a instituição um agente ativo de mudança
de paradigmas na forma como até hoje se
dá a relação museu-sociedade.
Portanto, começar um projeto com
a Wikipédia (ou com outro projeto Wikime-
dia) não é só iniciar uma jornada focada
no seu uso puro e simples. É, sobretudo,
começar uma jornada que implica na ad-
missão de outras vozes no processo de
construção de conhecimento sobre os
acervos, titulares das coleções e até sobre
a própria história da instituição.
É admitir, também, que pensar em
questões de acesso ao acervo é algo que
deve fazer parte do cotidiano dos pros-
sionais do museu, preferencialmente em
uma base contínua e sistemática. Nós, en-
quanto trabalhadores e trabalhadoras de
museus, não podemos mais considerar a
disponibilização como algo “além” daquilo
que fazemos no dia a dia. Ao contrário, de-
vemos sempre considerar o acesso públi-
co aos conteúdos relacionados ao acervo,
sempre que ele for possível, em algo que
é tão corriqueiro e vital quanto catalogar,
higienizar ou expor um objeto da coleção.
É possível entender que a Wikipé-
dia e os museus podem ser partes corres-
68
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
pondentes do processo de criação ou re-
visão de informações sobre o patrimônio
cultural. Os museus podem continuar sen-
do o local para a realização e publicação
de pesquisas mais aprofundadas e deta-
lhadas, e a Wikipédia pode ser um dos
lugares para tornar isso mais acessível -
sempre lembrando que a enciclopédia não
é o lugar para pesquisas inéditas.
Alternativamente, a Wikipédia pode
ser o lugar onde um museu pode procurar
outras fontes de informação sobre suas co-
leções, buscando nas referências de cada
bom artigo novas possibilidades de enrique-
cer seus registros com novos dados. A Wiki-
pédia também pode ser o lugar para um mu-
seu procurar novos públicos interessados
em construir, de forma coletiva e voluntária,
novos conteúdos sobre os acervos.
4. Pensando a parceria na prática
Considerando que museus e a Wi-
kipédia podem, de fato, serem parceiros de
sucesso, cumpre agora pensar no como
fazer isso acontecer. Em todas as vezes
que participei, direta ou indiretamente, de
projetos GLAM Wiki, a forma de estruturar a
colaboração era uma preocupação. E algo
que aprendi durante tais experiências é que
toda colaboração de um museu é uma co-
laboração válida. Em termos práticos, isso
quer dizer que nem toda instituição museo-
lógica vai contribuir da mesma forma com a
Wikipédia, mas que, independente da esca-
la, tal contribuição já será muito importante.
É interessante salientar tal entendi-
mento para desconstruir uma idéia que, por
vezes, volta e meia encanta e assombra as
instituições brasileiras: a de que é necessá-
rio fazer algo de grande impacto para valer
a pena o esforço. Se por um lado é inegá-
vel o apelo midiático de um anúncio de libe-
ração em lote de centenas ou milhares de
imagens em domínio público relacionadas
ao acervo, por outro temos que lembrar que
nem todos os museus possuem pernas ou
braços para algo dessa envergadura.
Alguns exemplos de sucesso muito
citados e que contribuem para a manutenção
de tal ideia são o do Metropolitan Museum,
dos Estados Unidos, que desde 2017 passou
a disponibilizar imagens em domínio público
de suas obras em alta resolução, atingindo
a marca atual de mais 406.000 fotos (ME-
TROPOLITAN, s/d). Outro exemplo famoso
é o do Rijksmuseum, na Holanda, que hoje já
acumula a impressionante marca de 652.671
imagens em alta resolução e em domínio pú-
blico (RIJKSMUSEUM, s/d) disponibilizadas
desde 2011 (OPENGLAM, 2013).
Em ambos os casos, os museus li-
beram as imagens em seus websites, em
conjunto com uma política de acesso aber-
to, que indica claramente o que as pessoas
podem ou não fazer com o material. O re-
aproveitamento das imagens para ilustrar
artigos na Wikipédia ou para complementar
o Wikimedia Commons é algo que acaba
acontecendo naturalmente. Os editores e
editoras fazem download dos arquivos a
partir dos sites e os carregam posterior-
mente nos projetos Wikimedia. No caso do
Metropolitan, logo após seu primeiro gran-
de lote de imagens ser liberado em 2017,
houve um ciclo de atividades focado no
incentivo da reutilização das imagens em
projetos Wikimedia (WIKIPÉDIAe, 2018).
Tais casos são, de fato, muito impor-
tantes de serem referenciados como possi-
bilidades de atuação para instituições mu-
seológicas. Mas, vale reforçar que não são
as únicas alternativas. Considerando nosso
cenário brasileiro, ainda tímido nesse tipo
de integração de museus com a Wikipédia,
uma contribuição pequena, mas de quali-
dade, pode ser um grande incentivo para
a continuidade da iniciativa de abertura e
até de sua ampliação futura. Nesse caso,
se estamos pensando em incorporação de
uma cultura de acesso aberto ao cotidiano
das instituições museológicas, com parti-
69
Ano 9, número 16, semestral, out/2018 a mar/ 2019
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
cipação ativa de seus funcionários, talvez
menos possa ser mais.
Nesse sentido, apresento o quadro
abaixo a título de exemplo de possibilida-
des de parceria dos museus com a Wiki-
pédia e seus projetos irmãos. Tal quadro
foi elaborado com a nalidade de ajudar
pro ssionais de museus e outras institui-
ções culturais com quem trabalhei nos
últimos anos a entender, de forma mais
tangível, como poderiam colaborar. Não é
uma sistematização  nal de todas as pos-
sibilidades, mas um ponto de partida para
estimular algumas ideias e iniciar uma dis-
cussão mais estruturada em torno delas.
70
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
Quadro 1 – Possibilidades de colaboração de museus com a Wikipédia e seus projetos irmãos
Fonte: PRÓPRIA AUTORA, 2018
71
Ano 9, número 16, semestral, out/2018 a mar/ 2019
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
A partir do quadro, é possível com-
preender alguns pontos de atenção im-
portantes, ainda que preliminares.
Um deles é que a parceria de um
museu com a Wikipédia vai implicar, ne-
cessariamente, em algum tipo de mobi-
lização interna de membros da equipe
para ser executada. No caso das mo-
bilizações que levam à produção (e/ou
adaptação) de conteúdos, ela pode ser
dar em menor ou maior escala, indo de
uma única lista organizada de referên-
cias bibliográficas até mesmo a edição
de centenas de artigos na Wikipédia.
Mas, novamente, não importa tanto a
escala, mas sim a vontade e a continui-
dade da proposta - principalmente no
início de uma parceria entre a instituição
e a Wikipédia.
Aqui, cabe uma nota importante
sobre o envolvimento dos funcionários
e funcionárias de um museu nesse tipo
de iniciativa: nem todos os membros de
uma equipe vão querer ser editores ou
editoras. Nem todas as pessoas se sen-
tem confortáveis com tal papel, por inú-
meros motivos, e é preciso respeitar a
decisão de cada um. Porém, essas mes-
mas pessoas podem ser, por exemplo,
fundamentais para a produção de listas
de referências bibliográcas especializa-
das sobre um tema – o que é um recurso
inestimável para a Wikipédia. Portanto,
o trabalho dentro de uma parceria entre
museus e Wikipédia e outros projetos
pode ser dividido de acordo com a voca-
ção de cada prossional.
Outro ponto importante relativo
à participação de membros de equipes
é a importância de se evitar os coni-
tos de interesse
VII
a todo custo – como a
melhoria do verbete da instituição pelos
próprios funcionários ou funcionárias da
casa, o que congura auto-propaganda.
Há exemplos, de instituições como a
State Library of New South Wales (WI-
KIPÉDIAf, 2018) que criaram políticas
de participação de seus funcionários,
compatíveis com as regras de edição da
Wikipédia. Tais documentos podem ser-
vir, hoje, como pontos de partida para as
instituições brasileiras para esclarecer,
perante a comunidade de voluntários e
voluntárias dos projetos Wikimedia, como
seus colaboradores irão editar.
Outro ponto que não está escrito
em todas as linhas do quadro, mas que é
inerente a ele, é a possibilidade de con-
vidar os editores e editoras voluntários
dos projetos Wikimedia para colaborar
com o museu. Tal convite pode ocorrer a
qualquer tempo e envolvendo, de modo
geral, qualquer uma das possibilidades
listas acima - e não só a que se relacio-
na com sediar um edit-a-thon.
A presença de pessoas com maior
experiência nas ferramentas e regras de
edição podem ser um divisor de águas
em iniciativas de museus que querem
atuar de forma mais próxima aos proje-
tos Wikimedia. A depender do contexto, é
possível que elas se tornem “Wikimedis-
tas em residência”
VIII
, atuando de forma
mais próxima da instituição.
Vale a ressalva de que o quadro
parte do pressuposto de que, antes de
qualquer coisa, o museu precisa saber
quais parcelas do seu acervo podem ser
alvo de uma ação coordenada de dispo-
nibilização. Tal compromisso implica em
identicar quais itens da coleção podem
ser liberados para reuso na internet, in-
cluindo a Wikipédia.
Para tanto, é extremamente im-
portante que os museus prestem aten-
ção para que as representações digitais
de tais itens – como imagens geradas a
partir de processos de digitalização ou
de registro fotográco também estejam
livres de restrições. Caso contrário, po-
demos ter situações em que a obra em
72
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
si não é mais protegida, mas sua repre-
sentação digital sim. Tudo isso precisa
ser previamente negociado em contrato
com os responsáveis pela criação dos re-
presentantes digitais, principalmente no
caso das imagens produzidas por fotó-
grafos ou fotógrafas.
5. Considerações nais
O diálogo entre museus e a Wi-
kipédia representa uma nova oportuni-
dade para a recontextualização de cole-
ções. E também uma oportunidade para
museus e seus prossionais quebrarem,
cada vez mais, barreiras relacionadas à
imagem pública da instituição como es-
paço reservado a especialistas ou para
conhecedores.
Os projetos Wikimedia colabo-
ram na criação de novos links de hi-
pertexto para tal conteúdo, permitindo
que eles sejam reeditados, remixados e
colocados em novas lógicas interpreta-
tivas. Em outras palavras, é possível di-
zer que as parcerias podem viabilizar o
compartilhamento de coleções culturais
abertamente por meio de plataformas
populares e conhecidas, como a Wiki-
pedia. E os museus só podem desfrutar
de todos os benefícios dessa abertura
para o mundo.
Por m, vale ressaltar que as par-
cerias entre museus e a Wikipédia, bem
como seus projetos irmãos, são pos-
síveis, e uma realidade em expansão.
Conguram, portanto, uma clara oportu-
nidade de as instituições mostrarem sua
produção de conhecimento, mudarem
sua postura na forma de agir e ainda co-
laborar para cumprimento de sua função
social na era digital.
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73
Ano 9, número 16, semestral, out/2018 a mar/ 2019
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Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/
Wikipedia:GLAM/State_Library_of_New_Sou-
th_Wales. Acesso em: 16/12/2018.
Recebido em 17/12/2018
Aprovado em 24/01/2019
I Juliana Monteiro, Museóloga pela Universidade Fe-
deral da Bahia, Mestra em Ciência da Informação pela
Universidade de São Paulo Coordenadora do curso téc-
nico em Arquivo/ETEC Parque da Juventude. São Pau-
lo, Brasil. Contato: julianamonteiro47@gmail.com
II Para a relação de todos os projetos Wikimedia, con-
sultar: https://pt.wikipedia.org/wiki/Wikimedia. Acesso
em 16/12/2018.
III Para uma explicação mais detalhada a res-
peito das “guerras de edição”, ver: https://
pt.wikipedia.org/wiki/Wikip%C3%A9dia:Guerra_de_
edi%C3%A7%C3%B5es. Acesso em 16/12/2018.
IV O nome da síndrome foi cunhado originalmente
por Sarah Stierch, em referência à pintura de Verme-
er intitulada “A leiteira”. Stierch criou um blog onde
relata casos de pinturas em domínio público com pro-
blemas de identidade, por causa da vasta quantidade
de imagens online com problemas de cor, tamanho,
resolução etc. Em decorrência de tal cenário, mui-
tas vezes torna-se impossível saber como é a obra
original. A causa de tal situação, conforme apontado
em blog da Europeana (EUROPEANA, 2015), muitas
vezes é a ausência de uma imagem fidedigna produ-
zida pela instituição que detém fisicamente a obra e
liberada na internet para reuso.
V Para saber mais, ver: https://meta.wikimedia.org/
wiki/The_Wikipedia_Library/1Lib1Ref. Acesso em:
16/12/2018.
VI Para saber mais, ver: www.artandfeminism.org.
Acesso em 16/12/2018.
VII Para saber mais sobre conitos de interesse, ver:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Wikip%C3%A9dia:Conito_
de_interesse. Acesso em: 16/12/2018.
VIII Para saber mais, ver: https://pt.wikipedia.org/wiki/
Wikimedista_em_resid%C3%AAncia. Acesso em:
16/12/2018.
74
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
Resumo:
Relata experiência no processo de criação de política pública de
gestão, acesso e disponibilização dos acervos dos museus vinculados à
Secretaria de Estado de Cultura do Rio de Janeiro e outros equipamentos
culturais sediados no Rio de Janeiro, através de projetos especícos, e
a importância das novas tecnologias da informação no aprimoramento
da documentação museológica. A Rede Web de Museus é apresentada
como política que visa ampliar o acesso aos acervos,oferecendo
orientação técnica e ferramentas para a produção de acervos digitais
e seu reuso, promovendo a articulação em rede. As formas de adesão
à Rede e aplataforma tecnológica da Rede – um sistema de base de
dados web compartilhado, voltado para a disponibilização e gestão
de acervos museológicos – o SISGAM, são apresentadas.Futuros
desdobramentos para a atualização da Rede Web de Museus e sua
plataforma tecnológica, são relatados.
Palavras-chave:
Rede Web de Museus
Base de dados
museológica
Gestão de acervos
museológicos
Objetos digitais
Reuso
REDE WEB DE MUSEUS: Relato de experiência na gestão
e acesso aos acervos culturais do Estado do Rio de Janeiro
RED WEB DE MUSEOS: Relato de experiencia en la gestión y acceso a
los acervos culturales del Estado de Río de Janeiro
MUSEUM WEB NETWORK: Report of experience in management and
access to the cultural collections of the State of Rio de Janeiro
Elenora Nobre Machado
I
Ericka Madeira de Souza
II
75
Ano 9, número 16, semestral, out/2018 a mar/ 2019
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
Resumen:
En el caso de los museos de la ciudad de Río de Janeiro y otros equipos
culturales que se funden en Río de Janeiro a través de proyectos
especícos y la importancia de las nuevas empresas, tecnologías de la
información en el perfeccionamiento de la documentación museológica.
La Red Web de Museos es presentada como política que busca ampliar
el acceso a los acervos, ofreciendo orientación técnica y herramientas
para la producción de acervos digitales y su reuso, promoviendo la
articulación en red, las formas de adhesión a la Red se describen.
La plataforma tecnológica de la Red - un sistema de base de datos
web compartido, orientado a la disponibilidad de y gestión de acervos
museológicos - el SISGAM, es presentado. Se reportan futuros
desdoblamientos previstos para la actualización de la Red Web de
Museos y su plataforma tecnológica.
Abstract:
It reports on experience in the process of creating a public policy for
managing, accessing and making available the collections of museums
linked to the State Secretariat of Culture of Rio de Janeiro and other
cultural facilities based in Rio de Janeiro through specic projects and
the importance of new technologies in the improvement of museum
documentation. The Museum Web Network is presented as a policy that
aims to expand access to the collections, offering technical guidance and
tools for the production of digital collections and their reuse, promoting
network articulation, the ways of joining the Network are described.
The Network’s technological platform - a shared web database system,
dedicated to the provision and management of museum collections -
SISGAM, is presented. It is reported future developments planned for
the updating of the Museum Web Network and its technological platform.
Palabras clave:
Red Web de Museos
Base de datos
museológica
Gestión de acervos
museológicos
Objetos digitales
Reuso
Keywords:
Museum Web Network
Museum database
Museological collections
management
Digital objects
Reuse
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pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
REDE WEB DE MUSEUS:
Relato de experiência na gestão
e acesso aos acervos culturais
do Estado do Rio de Janeiro
1. Introdução
O presente artigo é um relato sobre
a nossa experiência no processo de cria-
ção da Rede Web de Museus, na tentativa
de desenvolver uma política pública para
os acervos digitais culturais do estado do
Rio de Janeiro, oferecendo facilidades e
ferramentas que possibilitem a disponibi-
lização e o acesso a estes acervos e uma
maior integração e troca de experiências
entre as instituições.
Iniciamos este processo com a digi-
talização dos acervos dos museus vincula-
dos à Fundação Anita Mantuano de Artes
do Estado do Rio de Janeiro (FUNARJ) e
à Secretaria de Cultura do Estado Rio de
Janeiro (SEC/RJ), no nal dos anos 80,
quando os dez museus vinculados à FU-
NARJ e à SEC/RJ trabalhavam com siste-
mas locais utilizando o mesmo software.
Posteriormente, em 2007, com o
Projeto Rede de Museus, o maior desao
foi planejar uma nova forma de gerenciar
as coleções dos museus da FUNARJ, atra-
vés da constituição de uma base de dados
colaborativa, acessada por um navegador
web, que interligasse os nossos museus,
facilitando a comunicação e promovendo
maior segurança para os acervos. Este
projeto permitiu ainda a ligação destes
museus em rede através da utilização de
um sistema comum, o Sistema de Geren-
ciamento de Acervos Museológicos (SIS-
GAM), desenvolvido durante o projeto.
Em 2013, através do projeto Rede
Web de Museus do Estado do Rio de Ja-
neiro, foi ofertada, gratuitamente, a outros
museus e centros culturais, sediados den-
tro do território do estado do Rio de Ja-
neiro, a possibilidade de utilizarem o SIS-
GAM em suas metodologias de trabalho,
facilitando a catalogação edinamizando o
gerenciamento de seus acervos, promo-
vendo a interligação com outras institui-
ções culturais e a disponibilização de suas
coleções na web.
Este artigo está estruturado da se-
guinte forma: Introdução, com um pano-
rama geral sobre o assunto abordado; os
itens 2 e 3 ressaltam as facilidades alcan-
çadas com os museus na web, conceitu-
ando objeto digital, curadoria, preservação
e reuso; o item 4 relata o início da informa-
tização dos acervos da FUNARJ/SEC-RJ;
nos itens 5 e 6 discutimos a importância
do Projeto Rede de Museus e a criação do
Sistema de Gerenciamento Museológico
(SISGAM) para a divulgação de acervos
museológicos estaduais; e no item 7, é
apresentado um panorama atual da Rede
Web de Museus, os benefícios que pro-
porciona para as instituições participantes
e suas perspectivas e desdobramentos fu-
turos, visando dar continuidade à política
estadual de acervos digitais culturais que
vem sendo delineada pela Superintendên-
cia de Museus da SEC/RJ.
2. Museus na web: visibilidade,
acesso e uso
Em um ambiente digital, ecácia e
eciência nos serviços de informação es-
tão cada vez mais sendo exigidas pelos
usuários, fazendo com que os sistemas de
indexação e de recuperação da informa-
ção estejam cada vez mais sosticados.
A partir da década de 1980, deli-
neou-se um espaço aberto de grande u-
xo de comunicação por meio da interco-
nexão mundial de computadores e suas
memórias, a este espaço chamou-se cibe-
respaço (LÉVY, 2009, p.76-82). Este novo
77
Ano 9, número 16, semestral, out/2018 a mar/ 2019
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
ambiente trouxe consigo um novo meio
também de ações culturais, o que fez com
que as instituições deste perl se adaptas-
sem a esta realidade, gerando reexões
sobre as suas funções sociais e o reexo
de suas relações com a sociedade con-
temporânea.
Com relação aos museus, em
1986, Varine (2009), teórico renomado na
área cultural e personalidade expressiva
do ICOM
III
, do qual foi diretor de 1965 a
1974, dissertou sobre a transformação so-
cial e cultural que estas instituições teste-
munham perante a humanidade e alerta
para a necessidade destes equipamentos
reverem suas funções sociais e educati-
vas em função de um novo perl da socie-
dade frente aos moldes que surgiram atra-
vés da nova inuência das tecnologias.
Chamou atenção para a recolocação dos
museus nesse novo contexto e o desao
que gurava, enquanto aparato de desen-
volvimento social, em apoio a esta era di-
gital que vivenciamos desde então.
A partir da década de 1990, os mu-
seus começaram a desbravar este novo
espaço, explorando novos níveis de re-
lação e interação entre suas obras e os
seus públicos. A ocupação deste território
intangível e recente, mas de muitas pos-
sibilidades, logo permitiu perceber o al-
cance da projeção de comunicação e da
capacidade de ampliação dos potenciais
de difusão e acesso às suas coleções.
No nal da década de 1990, a mu-
seóloga Tereza Scheiner (2009, p. 50-57)
reforça a vertente de que o museu, na me-
dida em que mantém, preserva e expõe ob-
jetos representativos da sociedade ou de
um grupo social, torna-se um reexo des-
ta parcela de indivíduos. Ele orienta seus
discursos conforme as memórias materia-
lizadas naqueles objetos que comunicam
a história, criando a partir de suas exposi-
ções uma realidade simbólica da qual os
objetos expostos são testemunhos.
Assim como as informações sobre
as coleções de museus, o grande volume
de informações que veicula no ciberespa-
ço também necessita de uma organização
capaz de permitir uma rápida recuperação
desses recursos. O tratamento técnico
dado aos documentos com as novas tec-
nologias de informação e comunicação,
que procuraram facilitar a organização e o
processamento dessa grande quantidade
de informações, contribuiu para promover
a integração de diferentes instituições,
produtoras e disseminadoras de informa-
ção, que até então funcionavam de manei-
ra estanque.
Neste contexto, os museus, enquan-
to centros de produção e difusão de infor-
mações, começaram a buscar uma nova
forma de interação entre os seus acervos
e seus públicos, com o objetivo de disse-
minar de forma mais ampla os conteúdos
informacionais provenientes das pesquisas
realizadas em suas coleções.
Ao lado dos recursos cada vez
mais avançados da web, as novas tec-
nologias ampliaram as possibilidades de
comunicação dos museus proporcionan-
do novos meios de divulgação e apresen-
tação de seus acervos, permitindo maior
integração entre o usuário e a instituição
através de diversas atividades virtuais,
utilizando materiais oriundos de suas
coleções, e na área de pesquisa e docu-
mentação, através do acesso à base de
dados museológicos.
Os museus deixaram de existir ape-
nas em seus espaços físicos e passaram
a fazer parte do mundo digital, podendo
ser acessados e virtualmente visitados por
um número muito maior de pessoas.
Começaram a experimentar novas
formas de envolvimento com os seus usu-
ários, que também passaram a ser criado-
res de conteúdos e colaboradores no pro-
cesso de divulgação destas instituições,
78
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
através das redes sociais, que permitem
que estas instituições compartilhem con-
teúdos em rede e em modo virtual fazendo
uso de ferramentas como Blogs, Twitter,
Facebook, Instagram, dentre outras, faci-
litando o processo de comunicação com
o seu público. Plataformas como sites ins-
titucionais, bases de dados, publicações
digitais, veiculam e permitem que infor-
mações de interesse comum ao redor do
mundo sejam compartilhadas e acessa-
das a partir de qualquer localidade, atra-
vés de dispositivos móveis, como laptops,
smartphones e tablets.
As relações em rede também re-
presentam a sociedade contemporânea e
auxiliam na compreensão das transforma-
ções culturais, pois a rede é um
elemento estruturante e dinamizador
da circulação de uxos comunicacio-
nais e informacionais que acaba por
atingir praticamente todas as áreas da
sociedade e inuencia suas práticas e
modos de funcionamento (MARTINS;
SILVA; CARMO, 2018, p. 195).
Em paralelo ao potencial que o
ambiente digital promove nos dias atuais,
foi imprescindível que os museus desen-
volvessem projetos compatíveis com os
avanços nas áreas de organização e ge-
renciamento de informações.
A presença de sistemas de informa-
ção digitais e bases de dados especícas
no gerenciamento das coleções museoló-
gicas deu início a um novo “fazer muse-
ológico” na área de comunicação, docu-
mentação e catalogação de acervos. A m
de construir um padrão de nomenclaturas
e termos descritivos dos objetos museo-
lógicos e para a consolidação de um bom
sistema de recuperação de informação,
foi necessária a utilização de vocabulários
controlados, ontologias, construção de pa-
drões de metadados e novas práticas de
curadoria digital.
3. Objetos digitais: curadoria,
preservação e reuso
A seguir faremos algumas conside-
rações a respeito de objetos digitais para
melhor entendimento da nossa proposta
de trabalho.
Objetos digitais são produzidos dia-
riamente por grande parte da população
mundial e, principalmente, por centros de
informação e pesquisa, como museus.
Eles podem ser criados já em meio digital
ou transformados do meio analógico para
o virtual, através da digitalização.
Dois dos componentes essenciais
para a apresentação de qualquer objeto
digital são: os hardwares, componentes
físicos do notebook ou de outros disposi-
tivos eletrônicos, como teclado, mouse; e
os softwares, estrutura lógica e funcional
destes equipamentos, o programa ou o
conjunto de programas que articulam as
funções e possibilidades dos computado-
res ou dispositivos, por exemplo, os nave-
gadores web, sistemas operacionais dos
aparelhos, programa Excel e outros.
Estes objetos, de acordo com
Santos (2014, p. 47), não estão necessa-
riamente registrados ou xados em uma
unidade física, mas em unidades lógicas,
suas formas de exibição e formatação
apresentadas ao olho nu são variáveis
e estão condicionadas aos softwares e
hardwares compatíveis com sua compo-
sição original.
Conforme a demonstração elabora-
da por Sayão (gura 1), a ilustração expõe
a estrutura lógica do objeto digital, com-
posta apenas por uma combinação numé-
rica binária, cuja leitura e interpretação es-
tão condicionadas ao softwareapropriado
que é capaz de decodicar a mensagem
contida nos números e apresentá-la em
formato de linguagem reconhecida pelo
usuário que acessa o documento.
79
Ano 9, número 16, semestral, out/2018 a mar/ 2019
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Os objetos digitais são conceituais
e “[...] não necessariamente implica na
xação de dados em unidades físicas e
sim em unidades lógicas [...]” (SANTOS,
2014, p. 47), devem signi car dentro de
suas instituições mais do que apenas
representações digitais dos acervos fí-
sicos, pois suas possibilidades de uso e
reuso são extremamente exíveis, desde
que recebam os tratamentos técnicos e
gerenciamentos adequados, permitindo
essa alta usabilidade.
No caso das coleções digitais,
a ideia de preservação está atrelada a
outros tipos de demandas de ações em
torno destes objetos digitais. As maio-
res causas de perda informacional são a
degradação dos materiais em que estão
inscritos e o desaparecimento dos sof-
twares de leitura e decodi cação destes
objetos. Para manter o acesso contínuo
a estes objetos, da maneira como foram
projetados, é preciso manter sua estru-
tura lógica em constante atualização e
alteração, como a mudança de formatos,
renovação de mídias, hardwares e sof-
twares, ou seja, muitas vezes é preciso
intervir nele através da renovação de
suas mídias de armazenamento, modi -
cação e atualização do código de lingua-
gem, por exemplo.
A preservação digital é um compi-
lado de “[...] ações requeridas para man-
ter o acesso a materiais digitais além dos
limites de falha da mídia ou da mudança
tecnológica”
IV
(Digital Preservation Coali-
tion - DPC, 2008, p. 24), e é um campo
recém explorado pelas equipes técnicas
de instituições museológicas. Tal qual a
preservação de objetos físicos, exige re-
cursos pouco comuns em instituições cul-
turais de pequeno porte.
Não basta somente a proteção físi-
ca da mídia que comporta o objeto digital
ou dos dispositivos eletrônicos que são ca-
pazes de exibi-los. O acesso ao conteúdo
não se limita à consulta ao objeto digital,
mas sim à capacidade de decodi cação
por meio dos equipamentos e programas
devidos que viabilizam sua compreensão.
Conforme Sayão (2016a), as princi-
pais causas que resultam na perda infor-
macional dos objetos digitais são a degra-
dação dos suportes físicos, hardwares, e o
desaparecimento dos softwares de leitura
e decodi cação dos objetos e estes danos
são muito comuns em virtude da obsoles-
cência tecnológica.
O grau de usabilidade de um obje-
to digital refere-se à sua capacidade de ser
Figura 1 – Interpretação de cadeia de bits
Fonte: SAYÃO, 2016a, slide 55
80
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
reutilizado em mais de um contexto. O seu
reuso proporciona múltiplas facetas de pes-
quisa a seu respeito, por exemplo, e endos-
sa a história do objeto através do acréscimo
de mais informações em sua documenta-
ção, contribuindo para o enriquecimento do
objeto e dos temas que o mesmo represen-
ta, potencializando seu signicado cultural.
Uma das grandes contribuições dos
acervos digitais culturais é a multiplicidade
de acessos e consultas ao item ao mesmo
tempo e de diferentes lugares ao redor do
mundo. A promoção da socialização e do
compartilhamento de dados, de modo que
os itens digitais não quem restritos às
análises de seu contexto original e alcan-
cem novas audiências nestas instituições,
movimenta o uxo de informações através
de novos canais de comunicação.
Essa pluralidade de açõesbenecia
e enriquece as coleções físicas dos mu-
seus, contribuindo para uma transversali-
dade e intercâmbio de conhecimento entre
as demais instituições, que são referências
da guarda e comunicação da memória da
sociedade e produtoras de informação.
A verdade é que não há um limite
de serviços que possam ser idealizados e
realizados com estes materiais. Os obje-
tos digitais podem ser utilizados em tan-
tos serviços quantos forem pensados pela
equipe ou demandados pela comunidade
usuária da informação.
A curadoria digital torna possível que
se atinjam outros objetivos, muito maiores
que apenas o acesso aos materiais digitais
de uma instituição. É capaz de potencia-
lizar a valorização dos bens culturais, no
caso dos museus, através da interação
destes ativos com outros ativos digitais, em
outras conjunturas de pesquisa e análise.
Abbott (2008) arma que o conceito
inclui não só as ações de preservação di-
gital, mas todo o processo de gestão des-
tes dados, desde o planejamento de sua
criação até as boas práticas de digitaliza-
ção, vertente também apoiada pelo Digital
Curation Centre - DCC
V
(2014a), que sin-
tetiza a curadoria digital na manutenção,
preservação e agregação de valor aos do-
cumentos digitais e propõe um modelo de
ciclo de vida da curadoria digital (DIGITAL
CURATION CENTRE- DCC, 2014b).
O reuso fomenta também a inter-
disciplinaridade de pesquisas a partir do
compartilhamento das informações obtidas
e geradas e do conhecimento adquirido,
“[...] essas tecnologias têm o potencial não
somente de engajar novas audiências para
as coleções dos museus, mas também de
produzir concepções inéditas de produtos
e serviços culturais” (SAYÃO, 2016b, p. 8).
4. Do papel ao computador:
um avanço para a recuperação
da informação nos museus da SEC/RJ
O projeto de informatização dos
acervos dos museus da FUNARJ e da SEC-
-RJ iniciou-se no ano de 1990, sob a super-
visão da Coordenação de Documentação
da Diretoria de Museus (DIM) – atual Supe-
rintendência de Museus -, da FUNARJ, que
coordenou todas as etapas do projeto.
Gerenciadas pela Diretoria de Mu-
seus estavam dez unidades: Museu Histó-
rico do Estado do Rio de Janeiro (MHERJ),
Museu de Artes e Tradições Populares
(MATP), Museu Antonio Parreiras (MAP),
Museu Carmen Miranda (MCM), Museu do
I Reinado (MIR), Museu dos Teatros (MT),
Museu dos Esportes (ME), Casa de Oliveira
Vianna (COV), Casa de Casimiro de Abreu
(CCA) e Casa de Euclides da Cunha (CEC).
As diculdades foram muitas, pois
desde 1987 delineava-se o projeto, porém
não havia recurso suciente para executá-
-lo, até que em 1990, os trabalhos foram
iniciados. Foi contratada empresa espe-
81
Ano 9, número 16, semestral, out/2018 a mar/ 2019
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cializada em sistemas de informação para
realizar consultoria na área de informati-
zação de acervos, que optou por utilizar
um software livre, o CDS/ISIS desenvol-
vido pela Divisão de Informação e Infor-
mática da UNESCO, responsável pela sua
manutenção e aprimoramento.
O sistema foi criado para utiliza-
ção local, com características próprias,
para suprir as necessidades de organiza-
ção, controle, divulgação e segurança dos
acervos museológicos e documentais da
SEC/RJ. Atendia ao acervo museológico e
ao acervo documental. Esse mesmo siste-
ma, especíco para acervos bibliográcos,
foi instalado nas bibliotecas dos museus.
Foram realizadas várias reuniões
técnicas com os museólogos de cada mu-
seu para avaliar as suas necessidades de
controle e gerenciamento do acervo, e oti-
mização de recuperação da informação. Na
época, já se pensava em uma padroniza-
ção na entrada dos dados e, por isso, cada
museu apresentou um diagnóstico de suas
coleções através de um levantamento de ti-
pos de materiais constituintes dos acervos,
técnicas e autores visando a construção de
listas de termos especícos e um manual
de entrada de dados para o sistema.
Todos estes encontros foram reali-
zados em conjunto com a empresa Infosys,
através dos consultores Luis Fernando
Sayão e Carlos Henrique Marcondes,
que customizou o sistema Micro-Isis para
atender as necessidades dos museus, e
com outros diversos prossionais da área,
que contribuíram para o efeito nal.Muito
se trabalhou até que chegássemos a uma
cha que atendesse às diferentes tipolo-
gias de acervos existentes. Chegamos a
uma cha que não foi a ideal, mas que
veio ao encontro do que precisávamos.
Pretendíamos que todos os museus traba-
lhassem com o mesmo software facilitan-
do o gerenciamento das coleções e pro-
movendo maior integração informacional
através da unicação dos procedimentos
de catalogação e entrada de dados.
Foram adquiridos equipamentos e
realizados treinamentos de capacitação
para os museólogos trabalharem na nova
base de dados, porém os resultados só fo-
ram aparecendo a longo prazo.As equipes
técnicas treinadas tinham diculdades em
utilizar o computador e conavam mais
nas chas em papel, que continuavam
presentes na metodologia de trabalho,
além das diculdades orçamentárias que
eram constantes.
Com a continuidade dos trabalhos
e as facilidades de recuperação e geração
de relatórios de pesquisa, que o sistema
proporcionava, os acervos foram sendo di-
gitalizados. Com o advento de inovações
no software e a necessidade de atualiza-
ção, em 1995, o sistema foi reavaliado e
sofreu alterações parciais.
Para a manutenção do padrão das
entradas de dados foi elaborado um novo
manual para os usuários e para o sistema.
Foram atualizadas as tabelas de materiais,
técnicas, localização, autor e atividades,
entre outras, para controle de vocabulário.
Em 2001, outra atualização se fez
necessária e o sistema passou a utilizar o
CD/ISIS for Windows – Winisis – versão
com interface gráca para o sistema ope-
racional Windows, quando foram inseridas
imagens do acervo na base de dados. Es-
sas imagens não vinham inseridas na cha
do objeto, eram abertas em outra área, e
eram nomeadas com o número de Inventá-
rio Patrimonial de cada peça. Ainserção das
imagens foi muito importante para a segu-
rança e controle do acervo dos museus.
Até 2007, os trabalhos de inserção
de dados no sistema continuaram e, devi-
do às diculdades técnicas e operacionais
enfrentadas pelos museus, passaram a ser
centralizados na Diretoria de Museus (DIM),
82
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
que montou uma central de catalogação
com vários museólogos entrando com os
dados enviados pelos museus. Vale ressal-
tar que, apesar das diculdades enfrenta-
das, muitos foram os esforços dos prossio-
nais dos museus e da própria Diretoria de
Museus durante todos esses anos, de orga-
nizar os serviços técnicos das unidades, es-
tabelecendo normas de trabalho e dotando
os museus de condições para o seu bom
funcionamento e para a preservação, segu-
rança e divulgação de seus acervos.
Naquela época já era possível se
vislumbrar, ainda que de forma inicial, a
possibilidade de construção de uma in-
terface colaborativa que integrasse os
acervos digitais dos museus vinculados à
SEC/FUNARJ, promovendo maior intera-
ção entre as instituições museológicas e o
acesso à informação em tempo real.
5. O projeto rede de museus: integração
Dando continuidade aos esforços
no sentido de promover a integração e
colaboração entre as suas unidades, e
atentos a todo o potencial que a internet
podia oferecer em termos de infraestrutu-
ra de comunicação e interação, e ainda,
pensando em desenvolver conteúdos de
qualidade e de alto valor informacional
que estivessem disponíveis online,foi cria-
do em 2007, com o apoio nanceiro da Oi
Futuro, o Projeto Rede de Museus.
O projeto teve como principais pro-
postas: (a) promover a integração de oito
unidades museológicas vinculadas à FU-
NARJ/SEC: Museu de História e Artes do
Estado do Rio de Janeiro (MHAERJ), Mu-
seu Antonio Parreiras (MAP), Museu Car-
men Miranda (MCM), Museu do I Reinado
(MIR), Casa de Oliveira Vianna (COV), Mu-
seu dos Esportes (ME), Casa de Casimi-
ro de Abreu (CCA) e Casa de Euclides da
Cunha (CEC) - através de um navegador
comum,(b) migrar os dados para um novo
sistema de gerenciamento de coleções – o
SISGAM - e (c) atualizar a base de dados
de suas unidades disponibilizando-a atra-
vés de um site institucional. Essas propos-
tas visaram ampliar, através das facilidades
da internet, o potencial cultural, artístico e
educativo dos acervos dos museus, tor-
nando os seus conteúdos informacionais
acessíveis a um público mais amplo. Além
disso, pretendeu otimizar o controle e a se-
gurança das coleções dos museus.
Para os usuários - estudantes,
pesquisadores e visitantes em geral - foi
possível realizar pesquisas online através
do acesso à base de dados dos museus,
realizar visitas virtuais aos espaços, ela-
borar e executar projetos educativos utili-
zando recursos digitais oriundos das cole-
ções dos museus, a partir dos conteúdos
de qualidade disponíveis online.Para que
tudo isso pudesse acontecer foi necessá-
rio que este material, a digitalização e a
documentação dos acervos fossem trata-
dos e organizados tecnicamente, poten-
cializando os seus diversos usos culturais,
educacionais e sociais.
Na primeira etapa do Projeto Rede
de Museus,a equipe técnica da Diretoria
de Museusestabeleceu as diretrizes para
o desenvolvimento do projeto conceitual
do sistema gerenciador da base de dados
- Sistema de Gerenciamento de Acervos
Museológicos (SISGAM) - e do portal dos
museus, em conjunto com os consultores
da empresa Infosys, os mesmos que ha-
viam trabalhado no projeto de digitalização
inicial, a qual foi designada no projeto para
customizar a base tecnológica do banco de
dados, implantar o programa, dar suporte às
unidades museológicas para que o sistema
de rede fosse instalado e desenvolver o site
que abrigaria as páginas dos oito museus.
O primeiro grande desao foi onde
abrigar o portal e as informações das uni-
dades. Por sermos uma instituição pú-
blica, optamos por realizar uma parceria
83
Ano 9, número 16, semestral, out/2018 a mar/ 2019
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
com o PRODERJ
VI
que abraçou o projeto
e ofereceu toda a sua estrutura eproce-
dimentos de segurança tecnológica em
apoio,além derealizar o projeto de infraes-
trutura elétrica e lógica para que as unida-
des pudessem receber o circuito INFOVIA,
que interligaria os museus ao PRODERJ.
O Projeto consistia de um portal na-
web que permitisse a pesquisa nos acervos
dos museus integrantes da rede, acessíveis
através de um navegador comum, por meio
do link<www.museusdoestado.rj.gov.br>.
O SISGAM foi a ferramenta desen-
volvida no projeto para interligar as uni-
dades museológicas, utilizando normas e
padrões que permitissem um melhor con-
trole e gerenciamento de seus acervos. O
software atendeu de forma completa às
necessidades da documentação das cole-
ções permitindo sua catalogação e gestão
online, e ainda sua disponibilização na web.
As atividades de produção foram
iniciadas em novembro do mesmo ano,
quando foram liberados os recursos para
o início dos trabalhos. A equipe contratada
foi formada por 10 técnicos entre museólo-
gos, bibliotecários, fotógrafo, conservado-
res e arquivista que receberam treinamen-
to para realizar o processamento técnico
do acervo obedecendo aos padrões esta-
belecidos pelo projeto.Foram ministradas
ocinas para a equipe nas áreas de lingua-
gem documentária, thesaurus e materiais
e técnicas para acervos museológicos.
Oferecer informações padroniza-
das foi uma das principais iniciativas deste
projeto, que, visando promover maior in-
tercâmbio entre as bases de dados dos
museus e facilitar a recuperação da in-
formação de seus acervos, desenvolveu
o Manual do Usuário do SISGAM, para
ser utilizado pelos técnicos dos museus
para a pesquisa e descrição dos recursos
físicos dos itens de suas coleções propor-
cionando maior controle desses acervos.
Segundo Sayão (2016a), “Os metadados
descrevem os atributos dos documentos
[...] dando-lhes signicado, contexto e or-
ganização, permitindo a produção, gestão,
utilização deles ao longo do tempo.”.
O manual visava atender as espe-
cicidades dos museus, que por serem de
tipologia variada, necessitavam de proce-
dimentos normatizados visando compati-
bilizar os campos existentes em suas pla-
nilhas de catalogação.
O tratamento do acervo museológi-
co consistiu na conferência dos dados da
cha de cada objeto, assegurando a uni-
formidade das informações e a consistên-
cia técnica dos parâmetros estabelecidos.
Após todas as informações terem sido
conferidas, os acervos foram migrados
para o novo sistema e, com a conclusão
da última conferência, cou constatado
que não houve perdas de dados signica-
tivas nessa migração.
Em razão do grande número de pe-
ças das coleções dos museus e do tempo
previsto para a realização do projeto, a equi-
pe técnica de cada museu estabeleceu uma
seleção prévia dos objetos cujas chas se-
riam conferidas pelos técnicos contratados.
Foram estabelecidos campos prioritários
para a conferência e para a disponibilização
de informações no acesso web. O critério de
seleção foi denido a partir das peças e do-
cumentos que integrariam o futuro site e que
fossem consideradas “high ligths” das cole-
ções. Esse acervo, uma vez selecionado, foi
todo fotografado e digitalizado. A seleção dos
campos, para terem sua disponibilização na
web, obedeceu a critérios de segurança es-
tabelecidos pela equipe técnica dos museus.
Para se ajustarem aos layouts das
páginas web e também para a incorpora-
ção no banco de dados, as imagens tive-
ram que passar por processos de edição e
redimensionamento, que consistiu de ajus-
tes na resolução espacial, na profundidade
84
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
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de cor e no formato de arquivo.Foram es-
tabelecidas práticas baseadas em normas
conhecidas e de uso amplo que orientaram
todo o processo de edição de imagens.
O lançamento do Projeto Rede de
Museus realizou-se dia 14 de maio de
2008, na sede do Instituto Oi Futuro, Rio
de Janeiro, ocializando ao público o site
desenvolvido com os recursos deste pro-
jeto, contendo as informações institucio-
nais e dos acervos dos museus da estru-
tura administrativa da SEC-RJ/FUNARJ.
6. A plataforma tecnológica da rede:
o SISGAM
O Sistema
VII
, que consiste em uma
[...] plataforma tecnológica online que in-
terliga as instituições vinculadas à Rede
Web de Museus para realizar a gestão
e o registro dos seus acervos, utilizan-
do normas e padrões que permitem um
melhor gerenciamento e segurança dos
mesmos (RIO DE JANEIRO, 2018),
foi o principal produto gerado pelo
Projeto Rede de Museus. Através dele, os
museus da FUNARJ puderamser acessa-
dos em um único portal na web, onde os
acervos eram divulgados e consultados.
Abaixo, na gura 2, podemos ob-
servar a primeira interface do Sistema,
onde eram reunidas imagens das facha-
das dos museus estaduais, que, quando
acessadas, forneciam informações princi-
pais a respeito de cada instituição, como
horários de funcionamento, localização,
breve históricoe contatos telefônicos.
Figura 2 – Portal original do Projeto Rede de Musues
Fonte: RIO DE JANEIRO, 2011, slide 13
85
Ano 9, número 16, semestral, out/2018 a mar/ 2019
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Além da disponibilização online dos
acervos da FUNARJ, o SISGAM promoveu
maior dinamização nos procedimentos de
documentação e catalogação dos bens, re-
forçando a segurança destas informações.O
Sistema realiza um controle e caz do patri-
mônio museológico das instituições que o
utilizam, envolvendo desde a entrada do ob-
jeto no museu, sua pesquisa, conservação,
circulação e segurança até a sua disponibi-
lização na web.O servidor do Sistema,ainda
hoje, está hospedado no PRODERJ, con-
tando com backups
VIII
diários dos dados e
imagens registrados no SISGAM.
O acesso ao SISGAM pode ocorrer
de duas maneiras, a primeira é a interface
acessada pelo usuário web, uma interface
apenas de busca por palavras ou núme-
ros; a segunda é um acesso restrito, me-
diante e-mail e senha previamente cadas-
trados na Coordenação de Museologia da
SMU. Podemos ver no quadro 1 abaixo o
resumo dos níveis de acesso ao Sistema.
Quadro 1 – Per s de acesso ao SISGAM
Fonte: SOUZA, 2018, p. 82
A interface voltada para o público
externo consiste de um mecanismo de
busca simples, onde podem ser feitas
consultas ao catálogo de cada unidade
cadastrada na rede e disponível para o
usuário web, tendo em vista que a dis-
ponibilização para o público de um mu-
seu no SISGAM é gradativa, à medida
que seu trabalho de inserção e revisão
de dados e imagens de acervos é con-
cluído. Os resultados podem ser exibi-
dos apenas em imagens ou em imagens
mais um resumo de sua cha catalográ-
ca. As guras 3 e 4 permitem visualizar
a apresentação da informação nas bus-
cas de usuário web.
86
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
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As informações e serviços voltados
para o público interno consistem de funcio-
nalidades através das quais é feita a gestão
da base de dados do catálogo coletivo dos
museus que integram a rede e só podem ser
acessadas através de pers com autorização
para edição e consulta a estas áreas. É possí-
vel registrar informações pertinentes a transa-
ções e movimentações que envolvem os acer-
vos, e as áreas são: estado de conservação,
informando diagnóstico do objeto; avaliação
monetária; ações de conservação e restaura-
Figura 3 – Apresentação de busca para usuário web, interface de imagem e texto
Fonte: Rede Web de Museus <http://www.museusdoestado.rj.gov.br/sisgam/index.php>
Figura 4 – Apresentação de busca para usuário web, interface somente imagens
Fonte: Rede Web de Museus <http://www.museusdoestado.rj.gov.br/sisgam/index.php>
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Ano 9, número 16, semestral, out/2018 a mar/ 2019
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ção realizadas na peça; empréstimos externos
e internos; participação em exposições; baixa
de acervo e histórico de publicações.
A base possibilita ainda a geração
de relatórios técnicos e administrativos com
campos selecionados. Este recurso permite
visualizar estatísticas técnicas e quantitati-
vas do acervo e facilita também os procedi-
mentos de controle de gestão e movimenta-
ção dos acervos, promovendo maior clareza
e organização das informações em função
do objetivo do relatório.
7. Projeto Rede Web de Museus:
integração e colaboração em rede
Ambientes colaborativos são funda-
mentais para que as instituições culturais au-
mentem a eciência na troca e no tratamento
de seus dados. As ferramentas de colabora-
ção contribuem para uma rápida evolução no
tratamento e armazenamento das informa-
ções inseridas diariamente no ambiente digi-
tal, onde as instituições precisam oferecer res-
postas rápidas e ecientes no gerenciamento
e disponibilização de seus acervos na web.
Em um cenário onde apenas os maio-
res museus estaduais têm seus acervos in-
ventariados e digitalizados, e com base nos
bons resultados obtidos com o trabalho que
já vinha sendo realizado desde 2008 com
os museus da SEC, a Superintendência de
Museus delineou o Projeto Rede Web de
Museus, que tinha como principal objetivo
atender, no âmbito do estado do Rio de Ja-
neiro, as instituições culturais que desejas-
sem desenvolver um trabalho colaborativo,
oferecendo orientação e ferramentas para a
produção de acervos digitais e promovendo
sua articulação em rede com outros equipa-
mentos culturais. A consolidação da colabo-
ração entre os integrantes do projeto– que
organizam, inserem, disponibilizam e trans-
mitem seus dados no SISGAM - ocorre na
plataforma tecnológica em que os usuários
trocam informações, experiências e intera-
gem de forma contínua, usufruindo dos be-
nefícios de um trabalho em rede.
Objetivando institucionalizar o proje-
to, a rede foi criada ocialmente em 21 de
maio de 2014, através da Portaria nº 513 da
FUNARJ, onde seus objetivos e sua missão
foram discriminados e que consistem em
[...] ampliar a disseminação dos acer-
vos museológicos e a cooperação entre
instituições nos campos do gerencia-
mento, documentação, pesquisa, edu-
cação, comunicação e integração dos
acervos museológicos (BRASIL, 2014).
A Rede Web de Museus oferece uma
infraestrutura gerencial, tecnológica e de
padronização que permite dinamizar a ges-
tão cooperativa sobre os acervos dos mu-
seus vinculados à SEC-RJ e a outros que
vierem a integrá-la, tendo em vista os avan-
ços obtidos com a ampliação do acesso, a
oferta de serviços integrados e a presença
na web, alcançados pelo projeto inicial, em
2007/2008.Para isso dispôs de um conjunto
de instrumentos normativos, metodológi-
cos, tecnológicos e gerenciais e de portal
unicado de consulta pública para dispo-
nibilizar aos seus colaboradores, de modo
que o SISGAM, cuja eciência na recupera-
ção da informação e gestão dos acervos do
estado vinha sendo comprovada desde sua
implementação, foi oferecido às instituições
que formalizassem suas adesões.
Primeiramente foram convidadas a
aderir à Rede as instituições culturais que
haviam sido contempladas em editais fomen-
tados pela SEC-RJ, estabelecendo-se um
critério inicial com o objetivo de estreitar as
relações de cooperação entre estas institui-
ções e a Superintendência de Museus. Pos-
teriormente, com a colaboração do Sistema
de Museus do Estado do Rio de Janeiro (SIM-
-RJ), as adesões à Rede passaram a ser di-
vulgadas através de seus canais de comuni-
cação e várias solicitações de adesões foram
recebidas pelos gerenciadores do projeto.
88
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
A adesão à Rede Web de Museus
pode ser feita de duas formas: colaborativa
e plena. A adesão colaborativa destina-se às
instituições que possuem um sistema pró-
prio de documentação, mas que passam a
integrar de forma colaborativa a Rede Web
de Museus, disponibilizando informações,
através de alguns campos básicos de cata-
logação e imagens de parte do seu acervo. A
adesão plena destina-se às instituições que
não possuem um sistema próprio de docu-
mentação e gerenciamento de acervo, que
passam a integrar de forma plena a Rede
Web de Museus, como usuária do SISGAM,
recebendo da Rede assistência técnica e
metodológica e tendo a possibilidade de ca-
dastrar um conjunto de usuários-senhas do
SISGAM que lhe permita trabalhar regular-
mente na catalogação de seus acervos.
Independente da forma de adesão,
além de participação da Rede, a pesquisa
transversal nas coleções é estimulada atra-
vés do SISGAM de forma a proporcionar no-
vas curadorias e geração de conhecimento.
No intuito de viabilizar a exportação
de dados gerados no ambiente da rede, o
SISGAM possui em seu elenco os principais
campos para descrição de acervos museo-
lógicos, sendo capaz de realizar a exporta-
ção destes dados em formatos como XML,
Excel e Dublin Core.
Atualmente fazem parte da Rede 27
instituições culturais, de diversas esferas ad-
ministrativas, sendo que 4 aderiram de forma
plena e 15 de forma colaborativa, as demais
pertencem à SEC-RJ, algumas cedidas às Pre-
feituras das suas respectivas cidades. Ao todo,
o SISGAM possui em sua estrutura 96.355 -
chas catalográcas, das quais, cerca de 70%
provêm dos museus que aderiram à Rede.
Durante o desenvolvimento do proje-
to, vericamos que as principais diculdades
de operacionalização das atividades estavam
relacionadas à disponibilização de recursos
humanos dos museus para realização do tra-
balho. Em alguns casos, foi necessário que
a própria equipe da Coordenação de Muse-
ologia auxiliasse na inserção de dados. Tam-
bém entraves relacionados a direitos autorais
dicultam um pouco o nosso trabalho.
Futuros desdobramentos para o pro-
jeto estão sendo idealizados, como a atuali-
zação do SISGAM, trazendo novas funciona-
lidades de gerenciamento e pesquisa para os
usuários do sistema, oferecendo facilidades
para a elaboração, por parte de curadores ou
professores, de exposições ou aulas virtuais
com comentários ou textos agregados, enri-
quecendo o potencial educativo e potenciali-
zando as sinergias existentes entre os acer-
vos das diferentes instituições da Rede.
Pretende-se também oferecer a op-
ção de “navegação” pelas categorias do The-
saurus facilitando a recuperação de registros
de peças museológicas disponíveis em dife-
rentes instituições. Maior integração com as
redes sociais também está sendo viabilizada.
A intenção é a de que a Rede Web
de Museus possa ter mecanismos de fóruns
próprios de gestão e sustentabilidade. As-
sim a Rede ampliará suas oportunidades de
se desenvolver, de desenvolver projetos co-
laborativos e de obter mais fomento para os
museus do estado. Estão previstos futuros
desenvolvimentos na plataforma SISGAM
para facilitar a sua utilização pelas institui-
ções que fazem parte da Rede.
8. Considerações nais
Democratizar o acesso a coleções pú-
blicas na web, oferecendo informações cultu-
rais de qualidade, faz com que estes acervos
sejam vistos por um público muito maior, que
tem a possibilidade de se apropriar de seus
conteúdos para utilizar em diversas ativida-
des, proporcionando assim uma circulação
desses acervos que o museu físico não con-
seguiria realizar. Ao mesmo tempo, ir ao mu-
seu, apreciar as coleções e participar de suas
89
Ano 9, número 16, semestral, out/2018 a mar/ 2019
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
atividades, é uma experiência sensorial que
não pode ser obtida através do computador.
As políticas públicas devem não só
fomentar a digitalização dos acervos públicos
e sua disponibilização na rede, mas prover
sustentabilidade para os projetos que aten-
dam a estes objetivos. Devem também en-
fatizar o acesso qualicado, promovendo a
interação do público com essas obras em for-
matos digitais, criando novas conexões com
outros objetos e fatos, gerando assim novos
conteúdos e outras formas de conhecimento.
Pudemos perceber com o Projeto
Rede Web de Museus, em um contexto es-
tadual, que os programas de digitalização
de acervos se encontravam desintegrados,
ou seja, cada instituição trabalha pensando
em resolver os seus próprios dilemas, utili-
zando o seu próprio software, metodologia e
padrões, muitas vezes por falta de opção e
recursos,sem mesmo ter conhecimento dos
bons resultados que um trabalho integrado
pode trazer. A proposta da Rede Web reforça
a ideia de um trabalho em rede, gerido por
normas e padrões especícos e que possa
integrar diferentes instituições, sejam elas
de grande ou pequeno porte, possibilitando
o intercâmbio de informações e experiências
entre elas, facilitando a disponibilização e a
disseminação de seus acervos na rede.
Segundo Machado, Sayão e Mar-
condes (2014), a política e o fomento implí-
citos na proposta da Rede Web de Museus
partem do pressuposto de que com seus
próprios recursos, a presença de um mu-
seu na web envolve tecnologia, expertise e
custos bastante signicativos. Ao fomentar
estes recursos e torná-los disponíveis aos
museus do estado, a Rede se constitui num
instrumento político para fomentar a amplia-
ção do acesso, a oferta de serviços integra-
dos e a presença na web desses acervos.
Acreditamos que o fomento e a sus-
tentabilidade a projetos que enfoquem ainte-
gração, organização e acesso aos conteúdos
digitalizados pelas instituições públicas ou pri-
vadas, assim como a demais conteúdos dis-
ponibilizados na rede por entidades ligadasà
cultura, possam trazer maior integração entre
os setores que atuam na área, dando maior
ênfase à preservação da memória e à demo-
cratização do acesso aos acervos digitais.
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Fundação Anita Mantuano de Artes do Estado do Rio de
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Recebido em 18/12/2018
Aprovado em 24/01/2019
I Elenora Nobre Machado. Museóloga, Casa da Mar-
quesa de Santos / FUNARJ /Secretaria de Estado de
Cultura RJ. Rio de Janeiro, Brasil. Contato: elenora.cul-
tura@gmail.com
II Éricka Madeira de Souza. Mestre em Memória e Acer-
vos, Superintendência de Museus / Secretaria de Estado
de Cultura RJ. Rio de Janeiro, Brasil. Contato: emsouza.
cultura@gmail.com
III International Council of Museums (Conselho Interna-
cional de Museus), ver <https://icom.museum/en/>.
IV “[...] actions required to maintain access to digital ma-
terials beyond the limits of media failure or technological
change.” [tradução nossa].
V Centro de expertise em Curadoria Digital, existente
desde 2004, oriundo de uma cooperação entre a Uni-
versidade de Edimburgo e a Universidade de Glasgow,
ambas do Reino Unido.
VI PRODERJ, Centro de Tecnologia da Informação e
Comunicação do Estado do Rio de Janeiro, http://www.
proderj.rj.gov.br/.
VII O Sistema pode ser acessado através do link:
<http://www.museusdoestado.rj.gov.br/acervoweb/>.
VIII Na área da informática, backup é uma cópia de
segurança dos dados digitais.
IX O LACON é subordinado à Superintendência de Mu-
seus e atende às demandas de todas as unidades vin-
culadas à FUNARJ e à SMU, mas é sediado no Museu
do Ingá, em Niterói.
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Ano 9, número 16, semestral, out/2018 a mar/ 2019
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
Política de indexação no contexto da política arquivística de preservação
digital do Centro de Documentação e Memória da UNESP – CEDEM
Política de indexación en el contexto de la política archivística
de preservación digital del Centro de Documentación y Memoria
de la UNESP – CEDEM
Indexing policy in the context of the digital preservation archival policy
of the Documentation and Memory Center of UNESP – CEDEM
Mariângela Spotti Lopes Fujita
I
Sonia Troitiño
II
Resumo:
O acesso e recuperação de documentos da memória social brasileira
é necessário para comprovar a identidade de movimentos político-
sociais brasileiros. Para isso, existe uma logística operacional que
envolve estratégias metodológicas da arquivística, da indexação, de
interoperabilidade tecnológica e de preservação digital. A união dessas
estratégias necessita planejamento mediante elaboração de política de
indexação para representação documental com nalidade de precisão e
revocação na recuperação. Este trabalho, de característica ensaística,
propõe uma abordagem sobre as relações existentes entre as políticas
de gestão documental e de indexação com o objetivo de reetir sobre a
aplicabilidade da elaboração e implementação da política de indexação
no âmbito arquivístico do Centro de Documentação e Memória da Unesp.
A análise de uma política de indexação realizou-se com a avaliação do
contexto da instituição mediante requisitos para a denição de elementos
e variáveis inuentes tanto na indexação quanto na recuperação.
Entre os resultados destacam-se a necessidade de uso de vocabulário
controlado e a sistematização do processo de indexação que propiciarão
especicidade e/ou exaustividade. Considera-se que os resultados desta
análise ensaística têm inovação porque proporciona visão gerencial à
sistemas de recuperação da informação e de recursos informacionais em
suporte digital para o contínuo aprimoramento dos métodos e instrumentos
de representação documental direcionados ao contexto arquivístico.
Palavras-chave:
Política de indexação
Política arquivística
Preservação digital
Movimentos político-
-sociais
92
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
Resumen:
El acceso y recuperación de documentos de la memoria social brasileña
es necesario para comprobar la identidad de movimientos político-
sociales brasileños. Para ello, existe una logística operacional que
involucra estrategias metodológicas de la archivística, de la indización, de
interoperabilidad tecnológica y de preservación digital. La unión de estas
estrategias necesita planicación mediante la elaboración de políticas de
indización para representación documental con nalidad de precisión y
revocación en la recuperación. Este trabajo, de característica ensayística,
propone un abordaje sobre las relaciones existentes entre las políticas
de gestión documental y de indización con el objetivo de reexionar
sobre la aplicabilidad de la elaboración e implementación de la política
de indización en el ámbito archivístico del Centro de Documentación y
Memoria de la Unesp (CEDEM) . El análisis de una política de indización
se realizó con la evaluación del contexto de la institución mediante
requisitos para la denición de elementos y variables inuyentes tanto
en la indización y en la recuperación. Entre los resultados destacan la
necesidad de uso de vocabulario controlado y la sistematización del
proceso de indización que propiciarán especicidad y / o exhaustividad.
Se considera que los resultados de este análisis ensayístico tienen
innovación porque proporciona visión gerencial a los sistemas de
recuperación de la información y de recursos informacionales en soporte
digital para el continuo perfeccionamiento de los métodos e instrumentos
de representación documental dirigidos al contexto archivístico.
Abstract:
The access and retrieval of documents from the Brazilian social memory is
necessary to prove the identity of Brazilian socio-political movements. For
this, there is an operational logistics that involves methodological strategies of
archival, indexing, technological interoperability and digital preservation. The
union of these strategies requires planning through the elaboration of indexing
policy for documentary representation with a purpose of precision and recall
in the recovery. This work, which is an essay feature, proposes an approach
on the relationships between document management and indexing policies,
with the objective of reecting on the applicability of the indexing policy in the
archives area of the Documentation and Memory Center of Unesp (CEDEM).
The analysis of an indexing policy was carried out with the evaluation of the
context of the institution through requirements for the denition of elements
and inuential variables in both indexation and retrieval. The results highlight
the need to use controlled vocabulary and systematization of the indexing
process that will provide specicity and / or exhaustivity. It is considered
that the results of this essay analysis have innovation because it provides
managerial vision to information retrieval systems and digital information
resources for the continuous improvement of methods and instruments of
document representation directed to the archival context.
Palabras-clave:
Política de indización
Política archivística
Preservación digital
Los movimientos político-
-sociales
Keywords:
Indexing policy
Archival policy
Digital preservation
Political-social
movements
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Ano 9, número 16, semestral, out/2018 a mar/ 2019
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
Política de indexação no contexto da
política arquivística de preservação
digital do Centro de Documentação
e Memória da UNESP – CEDEM
1. Introdução
Muito se discute a respeito da ne-
cessidade de acesso e recuperação a
fundos documentais importantes, pre-
servados em documentos tangíveis, que
guardam a memória social brasileira e
comprovam a identidade de movimentos
político-sociais brasileiros.
A principal característica desses
fundos é que são únicos pelo fato de te-
rem sido produzidos por movimentos po-
lítico-sociais, considerados clandestinos e
transgressores em sua época. O acesso
e recuperação desses documentos é mui-
to signicativo para várias perspectivas,
sejam elas históricas, políticas, educacio-
nais, libertárias e etc.
Preservar a memória de movimen-
tos sociais contemporâneos é um dos
grandes desaos das instituições de cus-
tódia na atualidade. Poucas são as que se
aventuram a reunir e conservar arquivos
com esse perl. Isso se deve a uma série
de fatores, entre eles destacamos que:
1) Proveniência: Por vezes, a proveniên-
cia de um acervo não é de fácil reconheci-
mento, devido a uma atribulada trajetória
custodial – muitas vezes devido a neces-
sidade de salvaguardar os documentos da
destruição imposta pelo momento político-
-social. Como efeito, junções e desmem-
bramentos de documentos são recorren-
tes em acervos de movimentos sociais,
não raramente, afetando a integridade ar-
quivística do fundo;
2) Plano de classicação: Existe uma real
diculdade na classicação desses arqui-
vos devido ao fato das estruturas hierár-
quicas de movimentos sociais não serem
regidas pelas regras do direito adminis-
trativo. Em movimentos sociais, a lógica
da constituição do grupo e da criação dos
registros documentais de suas ativida-
des, não é similar ao de pessoas jurídicas
convencionais;
3) Gestão documental: Justamente por
não se caracterizarem como instituições
tradicionais a gestão de documentos e
formação de arquivos sofre prejuízo, con-
siderando que o controle da criação, tra-
mitação e preservação dos registros de
atividades de movimentos sociais, não
conta com metodologias arquivisticas es-
pecícas, desenvolvidas para essa na-
lidade. Assim, não raramente, assuntos
coletivos, referentes aos movimentos, e
assuntos particulares, típicos de arquivos
pessoais, se mesclam na tentativa de pro-
teção do acervo ou no sentimento de per-
tencimento despertado pelas fontes.
Entre a instituições de custódia que
se voltam para a preservação de acervos
com o perl acima especicado, apresen-
tamos aqui o Centro de documentação e
Memória da Universidade Estadual “Júlio
de Mesquita Filho” (CEDEM/UNESP) de
importância no cenário nacional, o qual
tem sob sua responsabilidade acervos
únicos e signicativos referentes à movi-
mentos político-sociais.
Em geral, em instituições de pre-
servação do patrimônio documental, po-
demos identicar duas estratégias fun-
damentais para o acesso a esses fundos
documentais: 1) o processo de represen-
tação documental por meio da descrição
arquivística, que utiliza métodos e instru-
mentos de indexação para localização e
acesso por meio de metadados; e a 2) a
digitalização do documento tangível para
torná-lo virtual de modo para que possa
94
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
ser preservado e recuperado por qualquer
pessoa, independentemente do momento
e local onde se encontra, por meio da vin-
culação do arquivo correspondente a um
endereço virtual para consulta.
A união dessas duas estratégias
possibilita facilidade de acesso e recu-
peração, porém, os procedimentos ope-
racionais a serem executados necessi-
tam planejamento mediante discussão
de uma política de indexação que pre-
veja o aprimoramento contínuo da repre-
sentação documental que tenha como
nalidade a recuperação com precisão
para os usuários.
A denição de uma política de in-
dexação tem início com a avaliação do
contexto da instituição mediante requisitos
para a denição de elementos e variáveis
inuentes tanto na indexação quanto na
recuperação. Entre esses elementos está
o vocabulário controlado e o processo de
indexação que propiciarão especicidade
e/ou exaustividade. Antes de tudo, é ne-
cessário o debate e reexão sobre a apli-
cabilidade da indexação e da política de
indexação na gestão documental em âm-
bito arquivístico do Centro de Documen-
tação e Memória da Unesp cuja principal
linha de constituição de acervo é a Memó-
ria dos movimentos político-sociais brasi-
leiros contemporâneos.
Entretanto, não se pode negar que
existe uma logística operacional que en-
volve estratégias metodológicas da arqui-
vística, da indexação, de interoperabilida-
de tecnológica e de preservação digital.
Este trabalho, de característica en-
saística, propõe uma abordagem sobre as
relações existentes entre as diferentes po-
líticas especícas adotadas por arquivos:
políticas de preservação, reprodução, tra-
tamento documental e indexação com o
objetivo de reetir sobre a aplicabilidade
da elaboração e implementação da polí-
tica de indexação no âmbito das institui-
ções de memória no Brasil.
Considera-se que os resultados
desta análise ensaística têm inovação na
medida em que proporciona visão geren-
cial de sistemas de recuperação da infor-
mação e de recursos informacionais em
suporte digital para o contínuo aprimora-
mento dos métodos e instrumentos de re-
presentação documental direcionados ao
contexto arquivístico.
2. Política Arquivística e política
de indexação, um norte a seguir
A articulação da Política Arquivís-
tica com a política de indexação não é
usualmente relacionada, porém, o eixo
horizontal de uma política de indexação
refere-se às atividades de gestão nas
quais as atividades de indexação tem
apoio e fundamento. Isso signica que a
gestão da política arquivística é o contex-
to de desenvolvimento e avaliação da po-
lítica de indexação, ou seja, as variáveis
e elementos da indexação são denidos
em função do contexto de gestão de cada
sistema de organização e recuperação
da informação, conforme, explica Fujita
(2012, p. 22)
Existem, portanto, duas visões de
política de indexação que se com-
plementam: uma visão mais am-
pliada que considera o contexto da
gestão de sistemas de recuperação
da informação sobre as atividades
de indexação e a visão mais dire-
cionada aos procedimentos e ele-
mentos de indexação circunscritos
ao manual de indexação, sua ope-
racionalização e avaliação.
Política arquivística em instituições
de preservação documental e de memó-
ria pode ser entendida como o conjunto de
parâmetros, valores e ações voltadas para
95
Ano 9, número 16, semestral, out/2018 a mar/ 2019
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
a gestão da instituição, tanto em relação à
sua governança, quando ao tratamento do
acervo e informações relacionadas. A polí-
tica arquivística constitui uma política geral,
abrangente, que se relaciona com outras
mais especícas e direcionadas a impor-
tantes questões tangenciais, como são
as políticas de acervo, segurança, preser-
vação, indexação, reprodução etc; todas
devendo estar articuladas entre si e inte-
gradas a um ambiente arquivístico. Dessa
forma, nos arquivos, a política pode atingir
diversos âmbitos de sua atuação. Por isso,
é aconselhável que as instituições de res-
guardo do patrimônio documental funda-
mentem suas ações em políticas próprias,
por elas mesmas estabelecidas conforme
a missão institucional e características do
acervo que abrigam, tais como as relati-
vas à preservação, segurança, formação
de acervo, acesso ou qualquer outra que
oriente protocolos de trabalho. Na prática,
este conjunto de medidas se concretiza por
meio da adoção de programas que possibi-
litem a implementação das ações necessá-
rias para sua efetivação.
Para Vásquez Murillo (2015, p. 94-
95) política arquivística é aquela que for-
mula objetivos e propõe meios apropriados
para servir aos direitos e necessidades da
sociedade; às instituições produtoras/acu-
muladoras de documentos; aos interesses
individuais ou institucionais, assim como
aos pesquisadores. O autor ainda desta-
ca que a adoção de uma política arquivís-
tica não é uma prerrogativa exclusiva do
Estado, sendo igualmente passível de ser
formulada por entidades de qualquer natu-
reza ou origem. Contudo, alerta que esta
não constitui regra imutável, mas antes
uma ferramenta adaptável às contingên-
cias e necessidades do momento. Sousa
(2006) apresenta posição similar, ao de-
fender que os objetivos de uma política
pública de arquivo devem ser pautados no
direito do cidadão à informação, no apoio
administrativo, na proteção da memória e
no desenvolvimento cientíco.
Por sua vez, Fuster Ruiz (1995)
considera que as bases de qualquer po-
lítica arquivística devem se rmar na pre-
servação e utilização dos documentos de
arquivo. Para o autor, a melhor medida de
segurança do documento e de seu conte-
údo se dá por meio da duplicação, através
da migração da informação de seu suporte
original a outros, mais seguros e cômodos
para utilização e guarda do original sob
condições adequadas de conservação,
fornecendo recursos propícios para a sua
longevidade. Dessa forma, acredita que
a política de reprodução de documentos
seja um ponto fundamental dentro da pro-
gramação de qualquer política arquivística
geral pelas razões que elenca:
1) Seguridad de los originales, preserván-
dolos de todo riesgo de desaparición o
destrucción (incendio, inundación, hume-
dad, animales bibliofágos, envejecimiento
por el tiempo), y caso de que ello se pro-
duzca, dejar a salvo la información que los
documentos originales contenían.
2) Modicar la operación de consulta, sin
arriesgar los documentos originales, pro-
tegiéndolos del deterioro o desaparición.
3) Demanda cientíca de envío de infor-
mación a distancia, facilitando la consulta
de la información desde centros diferentes
a aquél en el que están depositados los
documentos originales.
4) Demanda cada vez mayor de reproduc-
ción documental.
5) Demandas culturales de divulgación ili-
mitada de la información.
6) Evidentes repercusiones beneciosas
en la investigación y en la educación.
(FUSTER RUIZ,1995, p. 315)
A estas razões unem-se o fato de
os programas de reprodução de documen-
tos contribuírem para a difusão, ampliação
96
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
de acesso e disseminação de documentos
por meio da Tecnologia da Informação e
Comunicação (TIC), além de possibilitar
o intercâmbio de acervos documentais e
de seus instrumentos de pesquisa atra-
vés de redes informatizadas (CONSELHO
NACIONAL DE ARQUIVOS, 2010). Como
vantagem, a política de reprodução apre-
senta uma evidente economia nanceira
e social, ao proporcionar acesso ilimitado
sem incorrer no desgaste dos originais e
consequente aumento do custo de manu-
tenção de sua estabilidade física.
Assim, a adoção de uma política
de reprodução de documentos em insti-
tuições de preservação documental pode
ser entendida como uma real democrati-
zação do direito à informação, que permite
a consulta ao acervo, mesmo não sendo
a consulta feita a originais, mas sim a re-
produções. Para isso, a reprodução de ori-
ginais deve seguir obrigatoriamente proto-
colos bem estabelecidos, embasados em
parâmetros e convenções arquivísticas.
Sem seguir essas regras, surge o risco de
perda da evidenciação de signicativas in-
formações orgânicas e contextuais ineren-
tes aos documentos de arquivo.
Em 2010, o Conselho Nacional de
Arquivos (CONARQ), publica a Resolu-
ção nº 31, que “Dispõe sobre a adoção
das recomendações para digitalização de
documentos arquivísticos permanentes
(CONSELHO NACIONAL DE ARQUI-
VOS, 2010), recomendando aos órgãos
e entidades do Sistema Nacional de Ar-
quivos (SINAR) a adoção das práticas
propostas. Esta recomendação, consi-
dera a digitalização de documentos de
valor permanente uma das tecnologias
da informação e comunicação aplicadas
aos arquivos, a m de garantir aos cida-
dãos o cumprimento do direito de acesso
e disseminação de conteúdos. Colabora
com os membros do SINAR ao orientar
detalhadamente os procedimentos e pa-
râmetros técnicos a serem empregados
em projetos de digitalização de acervos
de valor permanente.
Na prática, apesar destas reco-
mendações se destinarem aos arquivos
vinculados ao sistema de informação fe-
deral, a publicação serviu e ainda serve
de referência às instituições de memória,
nas mais diferentes esperas do poder pú-
blico e privado. Entre elas, o CEDEM da
UNESP, estudo de caso que abordaremos
mais adiante.
Desde 2005, unidades de informa-
ção vinham utilizando o formato Portable
Document Format/Archive (PDF/A) em
seus programas de criação e/ou repro-
dução de documentos arquivísticos, com
base no determinado pela Norma ISO
19005 (INTERNATIONAL STANDARD
ORGANIZATION, 2005). A m de conso-
lidar a utilização do formato PDF/A e elu-
cidar algumas dúvidas relativas ao seu
emprego, em 2016, a Câmara Técnica de
Documentos Eletrônicos (CTDE) do CO-
NARQ lança a Orientação Técnica nº 4 -
Recomendações de uso do PDF/A para
Documentos Arquivísticos (CONSELHO
NACIONAL DE ARQUIVOS, 2016), com o
objetivo de normatizar o uso deste forma-
to para a preservação e acesso de docu-
mentos Arquivísticos. A vantagem do uso
do PDF/A está na utilização de um formato
digital desenvolvido especicamente para
a preservação de documentos digitais em
longo prazo que atende tanto à produção
dos documentos textuais, quanto imagéti-
cos paginados, o que permite manter sua
forma xa e conteúdo estável (CONSE-
LHO NACIONAL DE ARQUIVOS, 2016).
A preservação digital mediante re-
produção tem a grande vantagem da de-
mocratização do acesso à informação que
permite o acesso a qualquer tempo por
qualquer usuário. Contudo, a reprodução
digital implica armazenagem organizada
que possibilite, além da preservação, a
recuperação da informação e acesso ao
97
Ano 9, número 16, semestral, out/2018 a mar/ 2019
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
formato digital. O documento ou conjun-
to documental, além de reproduzido digi-
talmente, precisa ter um registro em for-
mulário digital composto de campos que
obedecem aos padrões e formatos inter-
nacionais para preenchimento de modo
sistemático e uniforme dos dados de iden-
ticação física e temática.
Em Arquivística os padrões são a
Norma Internacional ISAD(G): General
International Standard Archival Descrip-
tion (CONSELHO INTERNACIONAL DE
ARQUIVOS, 2000) e a Norma Brasileira
de Descrição Arquivística (NOBRADE)
(CONSELHO NACIONAL DE ARQUIVOS,
2006). Além dessas normas de padrões
para descrição arquivística, a Norma
ISO 15489 – Informação e Documentos
– Gestão de Documentos (INTERNATIO-
NAL STANDARD ORGANIZATION, 2001,
p.4), mais abrangente porque dedicada
à implantação do sistema de gestão de
documental e inclusão de decisões so-
bre produção documental, incorporação,
controle, arquivamento e acesso, indica a
necessidade da elaboração e uso de um
tesauro para controle de vocabulário e um
dispositivo para criação ou retenção de re-
gistros de descrição arquivística e de au-
toridade em ambiente digital.
Esse processo de armazenagem e
organização da informação, seja físico ou
virtual, obedece a um ciclo que se inicia
pela coleta ou produção documental, pas-
sa pelo tratamento documental, como eta-
pa intermediária e determinante da próxi-
ma e última etapa, a difusão documental.
Na perspectiva de um ciclo documental,
a etapa de tratamento produz informa-
ção documentária como resultado da “[...]
produção de formas de apresentação e
de representação da obra, assim como
de seus pontos de acesso em sistemas
de informação documentária.” (ORTEGA,
2008, p.8). As informações documentá-
rias, portanto, são “[...] apreendidas, re-
gistradas e armazenadas em sistemas
de informação documentária a m de que
sejam passíveis de recuperação e uso.”
(ORTEGA, 2008, p.8). Entretanto, para
que essa informação documentária seja
armazenada e recuperada, precisa ter
descrição física e de conteúdo. Segundo,
Brascher e Café (2008, p. 5), “A organi-
zação da informação é um processo que
envolve a descrição física e de conteúdo
dos objetos informacionais.”.
Tal como foram desenvolvidos os
conhecimentos relativos à descrição fí-
sica e a descrição de conteúdo, verica-
mos que o resultado desses processos
de organização da informação são repre-
sentações da informação, a informação
documentária.
A representação da informação
refere-se aos dados de descrição física
(autoria, título e tipo do documento e da-
dos de produção que inclui local, produ-
tor e ano) e de descrição temática (termos
que representam os assuntos do conteú-
do). Cada um desses itens da descrição
serve como ponto de acesso. O ponto de
acesso direciona o usuário para o registro
completo de descrição física e temática; o
registro possibilita ao usuário decidir se o
objeto informacional interessa ou não; e a
localização encaminha o usuário para o
documento digital desejado. Atualmente,
os registros de descrição física e temáti-
ca necessitam de sistemas de informação
que utilizem softwares com possibilidade
de compartilhamento para interoperabili-
dade entre outros sistemas o que poderá
facilitar a armazenagem tanto dos docu-
mentos digitais quanto dos registros.
Mas, existe uma distinção impor-
tante entre a descrição física e a de con-
teúdo: enquanto a descrição física, reali-
zada por meio da catalogação, refere-se
a aspectos físicos de objetos informacio-
nais, a descrição de conteúdo, realizada
por meio da indexação, trabalha com con-
ceitos. A descrição física produz represen-
98
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
tação física da informação e a descrição
de conteúdo a representação conceitu-
al da informação. Ambos os produtos de
descrição física e temática compartilham
um mesmo registro de descrição ou meta-
dados em campos distintos de modo que
podem funcionar como pontos de acesso
em um processo de busca pelo usuário.
Assim como, é possível incluir no metada-
dos o link ou endereço eletrônico para o
documento digital.
O resultado da indexação é, portan-
to, uma representação do conteúdo do do-
cumento para sua acessibilidade temática
por assunto. A indexação é um processo,
resumidamente, realizado em duas etapas
essenciais: a análise e a representação.
Na etapa de análise é feita a identicação
e seleção de conceitos que representa-
rão o conteúdo signicativo do conteúdo
e, na etapa de representação, os concei-
tos selecionados passarão por controle de
vocabulário com uso de linguagens de in-
dexação ou vocabulários controlados com
a nalidade de adequação ao vocabulário
do usuário. Conforme Barité, et al. (2015,
p.87), indexação é
A operação mais signicativa da aná-
lise documental que se refere ao pro-
cesso de descrição e representação
do conteúdo temático de um docu-
mento, por meio de um número limi-
tado de termos obtidos diretamente do
texto dos documentos (palavras-cha-
ve) ou vocabulários controlados (des-
critores ou cabeçalhos de assunto).
Esses termos devem ser aqueles que
mais apropriadamente caracterizam o
documento, a m de facilitar sua futura
recuperação temática.
Na etapa de representação é funda-
mental o uso de vocabulários controlados
ou linguagens de indexação. Com o objeti-
vo de representar o conteúdo documental
para a recuperação, a indexação, enquan-
to processo, não poderá estar dissociada
da gestão documental e, principalmente,
do sistema de informação. Para isso, pre-
cisa ser moldada e adequada ao contexto
de produção documental por seus atores
principais atuantes no tratamento e na
recuperação, o prossional arquivista e o
usuário. Isso porque, ao ser realizado, o
processo de indexação é inuenciado por
requisitos, elementos e variáveis previa-
mente denidos em função de cada con-
texto em que se localiza o sistema de in-
formação (CARNEIRO, 1985).
Os requisitos, relacionados às ati-
vidades de gestão (plano horizontal), são
a instituição, a clientela e os recursos -
nanceiros, materiais e humanos, ou seja,
o ambiente em que se insere o sistema
de informação.
Os elementos, relacionados às
atividades de organização e representa-
ção da informação, são sete: cobertura
de assuntos, seleção e aquisição de do-
cumentos-fonte, processo de indexação,
estratégia de busca, tempo de resposta
do sistema, forma de saída e avaliação
do sistema.
O processo de indexação é o ele-
mento essencial da política e determi-
nante dos resultados de recuperação da
informação. Segundo Carneiro (1985),
o processo de indexação é afetado di-
retamente por um conjunto de variáveis
inuentes na representação (durante a
indexação) e, consequentemente, na re-
cuperação da informação (resultado da
indexação): exaustividade, especicidade,
escolha da linguagem de indexação, revo-
cação e precisão.
O conjunto de requisitos, elemen-
tos e variáveis da política de indexação do
CEDEM serão analisados para estudo de
uma proposta de articulação à política ar-
quivística de armazenagem e organização
da reprodução digital da memória de mo-
vimentos político-sociais.
99
Ano 9, número 16, semestral, out/2018 a mar/ 2019
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3. CEDEM: Memória, Movimentos
Sociais e seu local de guarda
O CEDEM é um centro que se des-
taca por seu caráter interdisciplinar, man-
tido pela conjugação das áreas de Ciên-
cias Humanas, Letras e Artes, Ciências
Sociais Aplicadas e demais Ciências ans
cando estabelecidas as especialidades
do CEDEM a partir da denição de linhas
de pesquisas orientadoras de seus proje-
tos. Dessa forma, o CEDEM tem por ob-
jetivos: 1) Preservar e difundir a Memória
da Universidade; 2) Preservar e difundir a
memória social no âmbito da competência
da Universidade; 3) Realizar pesquisas de
caráter acadêmico cujos temas estejam
relacionados com as áreas do conheci-
mento com as quais o CEDEM mantém di-
álogo permanente e que digam respeito à
sua área de atuação; 4) Promover ativida-
des de extensão; 5) Interagir com o ensino
em todos os seus níveis.
Com essa proposta, o CEDEM
assume como missão institucional a pre-
servação, pesquisa e difusão de docu-
mentos e informações sobre memória
universitária e movimentos sociais, espe-
cialmente os de caráter político contem-
porâneo brasileiro, bem como de outras
fontes produzidas no âmbito da missão
da Universidade, em suas dimensões de
ensino, pesquisa e extensão.
Em 1987, um grupo de docentes in-
teressados na preservação de documen-
tos e formação da memória histórica da
Unesp elaborou um projeto de criação de
um centro de documentação e memória
para a universidade. Surgia o Cedem, em
larga medida, moldado a partir da idealiza-
ção de um núcleo de memória universitá-
ria, mas também, naquela ocasião, com a
ideia de se constituir núcleos especícos
sobre a memória paulista e sobre docu-
mentação regional (UNIVERSIDADE ES-
TADUAL PAULISTA JÚLIO DE MESQUI-
TA FILHO, 1987).
Da concepção à concretização,
ajustes ao projeto inicial zeram-se ne-
cessários, e os núcleos sobre memória
paulista e documentação, posteriormente,
deram lugar a acervos sobre a memória
de movimentos sociais. Processo inicia-
do em 1994, com a entrada da totalidade
de acervos de outras instituições, como a
do Archivio Storico del Movimento Ope-
raio Brasiliano (ASMOB/IAP) e do Centro
de Documentação do Movimento Operá-
rio Mario Pedrosa (CEMAP), por meio de
convênio estabelecido. A partir desse mo-
mento, o CEDEM começa a acolher arqui-
vos sobre movimentos sociais de diversas
origens e condições jurídicas – doação,
depósito, compra (CAMARGO, 2008).
Desde então, o CEDEM passou a
reunir fontes preciosas para o conheci-
mento da história contemporânea do Bra-
sil. Ao receber esses fundos documentais,
se tornou responsável técnica e legal-
mente por sua integridade, organização
arquivística e disponibilização de seus
conteúdos. Segundo política do centro, o
recolhimento desses documentos, além
de representar o cumprimento de um
compromisso da universidade para com
a sociedade, é também uma maneira de
a valorizar ao proporcionar aos seus pes-
quisadores o acesso a fontes documen-
tais até então não disponíveis ou de difícil
acesso (CENTRO DE DOCUMENTAÇÃO
E MEMÓRIA DA UNESP, 2015).
Dessa forma, o CEDEM desenvol-
ve suas atividades a partir da constituição
e desenvolvimento de duas linhas funda-
mentais de acervo: Memória Universitária
e Memória dos Movimentos Político-So-
ciais Brasileiros Contemporâneos. Hoje
em dia, sob sua responsabilidade existem
importantes arquivos e coleções, desta-
cando-se por abordar temáticas relaciona-
das ao processo político do país, à memó-
ria social e à preservação do patrimônio
histórico e de bens culturais ao abrigar co-
leções e arquivos produzidos ou acumu-
100
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
lados por pessoas, organizações, partidos
políticos e demais entidades, identicadas
como formadores e integrantes das es-
querdas brasileiras.
O CEDEM, talvez por custodiar do-
cumentos provenientes de movimentos
sociais com caráter político – muitas ve-
zes reunidos na clandestinidade, perdidos
e recuperados diversas vezes, com pas-
sagem por vários titulares, apresentando
elevado grau de diculdade na identica-
ção da proveniência e ordem original –
em geral trata tais documentos de forma
articulada, entre fundos e coleções, agru-
pados sicamente por critérios variados,
como espécie ou gênero documental (pe-
riódicos, cartazes, fotograas, livros, do-
cumentos textuais, audiovisual). Contudo,
a informação sobre a procedência sempre
é preservada na descrição ou base de
dados correspondente, assim como des-
critores relativos às unidades ou itens do-
cumentais. Ainda que não utilize o modelo
de sistema de séries elaborado por Scott
(1966), certas opções metodológicas às
vezes podem lembrar, mesmo que vaga-
mente, as propostas do autor.
4. Política arquivística de preservação
digital e o tratamento documental
no Sistema de Gestão de Acervos
Permanentes da Unesp (SisAcervo)
Programas de reprodução de
acervo, ao longo das três décadas de
atuação do CEDEM, sempre ocuparam
uma posição central no planejamento
estratégico da instituição. Experiências
nessa área remontam ao nal dos anos
90, quando se une à equipe técnica do
centro uma programadora, que mais tar-
de, ao sair desenvolve o software Ale-
xandria, que inclusive foi posteriormente
adquirido pelo CEDEM para descrever
arquivisticamente o acervo. Nesse mo-
mento, não havia o conjunto de normas
que hoje embasam os trabalhos de insti-
tuições arquivísticas, a exceção das inci-
pientes ISADg e ISAARcpf. Contudo, es-
sas primeiras versões das normas, não
foram adotadas pelo Alexandria.
Com o passar dos anos e a necessi-
dade de alinhamento às normas nacionais
e internacionais em vigor, aliado à reso-
lução Unesp que determina que todos os
sistemas institucionais devem ser produzi-
dos pela própria universidade, tem início o
desenvolvimento de um sistema novo com
recursos próprios da universidade, estrutu-
rado sobre diretrizes do Conselho Interna-
cional de Arquivos e do Conselho Nacional
de Arquivos (CENTRO DE DOCUMENTA-
ÇÃO E MEMÓRIA DA UNESP, 2017). Sur-
ge, então, o Sistema de Gestão de Acer-
vos Permanentes da Unesp (SisAcervo),
instrumento institucional para a descrição
arquivística dos acervos da Universidade.
Os documentos do acervo do CE-
DEM estão representados (catalogados e
indexados) neste sistema, que está dispo-
nível à consulta pública a partir da página
web do CEDEM
III
. Desta maneira, a con-
sulta às referências de fundos e coleções
abrigados pelo CEDEM, encontram-se
disponíveis online. Documentos já digitali-
zados são inseridos no sistema, conectan-
do-se a referência que lhe corresponde.
Esse processo e upload do objeto digital,
localização da referência correspondente
e vinculação entre ambos, é trabalho mo-
roso e imprescindível; e passa por diver-
sas revisões a m de minimizar possibili-
dades de falhas.
São esperados como produtos da
implementação do SisAcervo: 1) Garan-
tia da conservação física dos documentos
tratados; 2) Representação da informação
documentária (catalogação e indexação)
e conservação do acervo, na medida que
os documentos convertidos a formato digi-
tal são inseridos no SisAcervo, o que obri-
gatoriamente impinge a inserção de me-
tadados arquivísticos que possibilitem a
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Ano 9, número 16, semestral, out/2018 a mar/ 2019
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recuperação de informações, conforme os
parâmetros de busca eleitos pelo usuário;
e 3) Disponibilização e difusão do acervo
digitalizado à consulta pública e irrestrita.
A produção destes produtos cor-
robora com as orientações apresentadas
por Fuster Ruiz (1995) e Recomendações
para digitalização de documentos arqui-
vísticos permanentes. (CONSELHO NA-
CIONAL DE ARQUIVOS, 2010)
O SisAcervo – Sistema de Gestão
de Acervos Permanente foi desenvolvido
como banco de dados para a atividade
de descrição arquivística conforme a NO-
BRADE. Disponibiliza as informações so-
bre seu acervo em rede interna e na web,
em sítio próprio, por meio de um catálogo
online que centraliza informações relativas
a todos os fundos e as coleções abrigados
pelo CEDEM.
O sistema, além de permitir cata-
logação e pesquisa, possui uma admi-
nistração da entrada de fundos e cole-
ções no acervo e um módulo de Serviços
destinado à administração dos usuários
e das pesquisas realizadas, gerando es-
tatísticas de consultas, tipos de pesqui-
sas e principais conjuntos documentais
pesquisados como ferramenta de plane-
jamento e controle administrativo institu-
cional (CENTRO DE DOCUMENTAÇÃO
E MEMÓRIA DA UNESP, s/d).
Para melhor exemplicar o pro-
cesso de integração entre os programas
de reprodução de documentos e indexa-
ção, ao conuírem no SisAcervo, tome-
mos como exemplo o documento ¡Alto a
la represión y las torturas!, um dos do-
cumentos iconográcos mais emblemá-
ticos da coleção de cartazes, sob tutela
do CEDEM.
Figura 1 – Cartaz Alto a la represión y a las torturas!
Fonte: Unión Internacional de Estudiantes. ¡Alto a la represión y a las torturas! Cartaz. CEDEM. Acervo ASMOB, s/d.
102
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
É preciso considerar que em um ar-
quivo, ainda que este possua um programa
de reprodução de documentos, não é acon-
selhável a duplicação total do acervo. Devem
ser denidos previamente os critérios utiliza-
dos para selecionar os documentos apro-
priados para serem duplicados, relacionan-
do-os aos motivos e condições necessários
para a reprodução preventiva e de acesso.
Entre eles, é possível elencar algumas das
razões recorrentes, como: grande demanda
de consulta, fragilidade do suporte e acentu-
ado interesse social. Contudo, aos motivos
que levam a iniciativa de reproduzir determi-
nado documento ou conjunto documental,
se une a vericação das condições físicas e
técnicas relacionadas. Assim, devem ser ve-
ricadas, individualmente e em conjunto, as
características físicas do documento (dimen-
sões, gramaturas, materiais utilizados, etc.),
nível de deterioração do suporte, técnicas
empregadas para a xação da informação e
estado de conservação geral (qualidade da
tinta, gravação, tipo de escrita, etc.).
A combinação destes elementos tem
peso decisivo na eleição dos segmentos a se-
rem duplicados e das técnicas escolhidas para
a mudança do suporte da informação. Em ou-
tras palavras, o desgaste provocado pelo pro-
cesso de captura da imagem documental é
determinante para a escolha do procedimento
técnico a ser utilizado para a mesma. Dessa
maneira, o cartaz ¡Alto a la represión y las tor-
turas!, apresentava as condições necessárias
para sua digitalização, sendo esta realizada
por meio de técnica fotográca, devido as
grandes dimensões físicas do original.
Entretanto, duplicar o documento,
mantendo sua versão original em formato
convencional e a versão duplicada, em for-
mato digital, não é suciente para fornecer
acesso aos pesquisadores. A descrição
do documento é uma das funções primor-
diais de qualquer arquivo, pois através da
representação do documento é possível
recuperar informações e localizar originais
em meio a uma innidade de registros.
No SisAcervo, a descrição docu-
mental é realizada durante o cadastramento
de documentos, seguindo critérios da NO-
BRADE, como já exposto anteriormente. O
módulo Cadastramento, restrito à equipe
técnica autorizada, permite inserção e/ou al-
teração dos dados relativos ao acervo des-
crito. Para tanto, foram denidos campos
descritivos divididos por áreas, conforme as
especicidades necessárias para a contex-
tualização arquivística dos documentos.
Estas planilhas descritivas foram for-
matadas para a inserção de metadados arqui-
vísticos, compondo um sistema estruturado
por formulários de preenchimento especí-
co para cada tipo de acervo e por módulos
de consulta interna e externa online. Assim,
o sistema foi programado para agrupar os
gêneros e suportes documentais do acervo,
por meio de campos e tabelas auxiliares, que
possibilitam a pesquisa simples e/ou combi-
nada com a totalidade do acervo, a saber: Au-
torias; Títulos; Descritores; Editoras; Idiomas;
Localidades; e Plano de Classicação.
As planilhas descritivas (chas ca-
talográcas) desenvolvidas são compostas
por campos denidos em respeito às parti-
cularidades dos documentos pertencentes
a determinados gêneros e espécies docu-
mentais: Audiovisuais; Sonoros; Cartazes;
Fotograas; Documentos textuais; Dossiês
temáticos; Livros; Periódicos; Clippings e
Objetos. O layout das planilhas foi deni-
do considerando o registro de dois tipos
de dados os comuns e os especícos.
Para os comuns, constam os campos a
serem preenchidos: Identicação ou Tema
ou Título; Data; Localização Física/Micro-
lme/Digital; Local de produção; Autorias;
Descritores; Classicação; Descrição; e
Notas. Já, para os dados especícos, as
planilhas apresentam campos necessários
ao detalhamento descritivo dos suportes
em questão e, também, para o registro de
informações especícas dos documentos
(CENTRO DE DOCUMENTAÇÃO E ME-
MÓRIA DA UNESP, 2013).
103
Ano 9, número 16, semestral, out/2018 a mar/ 2019
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Entre as diversas abas descritivas,
destacamos “Objeto Digital” e “Área Temá-
tica”. Objeto digital é a aba que possibilita
o upload da imagem capturada, permitin-
do que o pesquisador tenha acesso ao do-
cumento digitalizado por meio do sistema
disponível na web.
As informações contidas na aba Área
Temática corroboram justamente para a re-
cuperação desses objetos e possuem intima
relação com o processo de indexação do do-
cumento. Este pode ser considerado o ponto
de encontro entre dois programas fundamen-
tais: o programa de organização arquivística
do acervo e o programa de reprodução de
originais levados a cabo pelo CEDEM nas últi-
mas décadas. Assim, é realizado o upload dos
arquivos digitais diretamente nos formulários
de registro do sistema informatizado de des-
crição arquivística, visando a disponibilização
de uma cópia dos originais à consulta pública.
Para o cartaz ¡Alto a la represión y
las torturas! foram denidos os descritores:
Brasil; Regime Militar; Tortura; Exílio. Ter-
mos escolhidos não apenas a partir da in-
terpretação textual literal, mas também com
base em informações contextuais, relativas
à produção e acumulação do documento.
Por exemplo, o termo “exílio”. Não consta
menção a palavra exílio no discurso dispos-
to no documento. Porém, ao ser descrita no
sistema, o indexador levou em considera-
ção que o documento original pertence ao
acervo do ASMOB, mais especicamente
a uma coleção que, em sua formação de
origem, foi batizada de Coleção Exílio (hoje
Coleção do ASMOB) por reunir documentos
que circulavam entre os exilados brasilei-
ros durante os anos 1960 e 1970 ou fruto
de campanhas políticas realizadas desde o
exílio para denunciar a perseguição política
vivida no Brasil, naquele período.
Este entendimento é reforçado ao ve-
ricar o campo “descrição”, na aba “Área de
Identicação”, onde consta o seguinte con-
teúdo: “Denúncia de tortura no Regime Mili-
tar Brasileiro. Forma - Desenho”. Assim, nos
parece bastante signicativo que a descrição
e indexação de documentos, no CEDEM, ex-
trapolem análise documentária e tendam a
interpretação arquivística, sempre contextu-
al, e histórica do objeto representado.
A determinação de assuntos dos
documentos é realizada conforme o se-
guinte relato descritivo fornecido por pro-
ssional que atua no CEDEM:
Lêem o conteúdo e denem uma palavra
que acreditam que correspondem. Algu-
mas, provavelmente por hábito, outras são
palavras recorrentes nos documentos e/ou
no discurso do movimento/historiograa. Ex:
exílio, tortura, comunismo, anistia. Mas real-
mente, é um processo individual, autônomo.
Aliás, todo o processo de descrição é assim.
Pode ser que existam campos (metadados)
pré-denidos, o que regula sim um pouco o
processo de descrição, mas não existem re-
gras denidas para como preencher o con-
teúdo desses campos. O que todos relatam
é que depende. Ao que parece, o próprio do-
cumento determina como ser representado.
Entre os técnicos também não há concor-
dância, cada um resguarda o seu “direito” a
fazer como acredita ser certo.
O uso de vocabulário controlado é
relatado abaixo:
Houve tentativa de construção de vocabu-
lário, mas não se desenvolveu. Atualmente
utilizamos linguagem natural. O sistema per-
mite a todos que cadastram documentos in-
cluírem quantos termos quiserem para inde-
xar. O que signica que um documento pode
ter apenas um termo ou 10 que o represen-
tem. O indexador pode incluir na tabela ge-
ral do sistema quantos termos quiser, livre-
mente. Na hora que o indexador pede para
cadastrar um novo termo, deve escolher o
“tipo de descritor”: Temático, geográco ou
onomástico. Ele pode, inclusive, alterar os
termos já cadastrados, tanto em relação ao
nome, quanto ao tipo. Por exemplo:
104
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
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Outro módulo importante do SisA-
cervo é o Pesquisa no Banco de Dados,
disponível aos usuários a partir da página
web da instituição. Este módulo permite ao
a pesquisa em dois níveis distintos: 1) sim-
ples por títulos, autorias e descritores; 2)
combinada por títulos, autorias, locais, edi-
toras, notas, descritores e instituições. Ain-
da, um outro tipo de pesquisa ltrada por
fundo ou coleção documental e período.
5. Análise da política de indexação
do CEDEM: proposta de articulação
à política arquivística digital dos
movimentos político-sociais
brasileiros contemporâneos
A representação por assunto é tarefa
da indexação e dos seus instrumentos de re-
presentação, as linguagens de indexação e vo-
cabulários controlados. Entretanto, a aplicação
da indexação e seus instrumentos à política
arquivística necessita de articulação mediante
elaboração de uma política de indexação ten-
do em vista a diversidade de requisitos, ele-
mentos e variáveis em contexto arquivístico.
Com a proposta de realizar estudo
ensaístico sobre as relações existentes
entre as diferentes políticas adotadas por
arquivos serão analisados, a partir do con-
texto da política arquivística do CEDEM, o
conjunto de requisitos, elementos e variá-
veis da política de indexação para uma pro-
posta de articulação à política arquivística
de armazenagem e organização da repro-
dução digital da memória de movimentos
político-sociais. Para isso, utilizaremos a
sequência de análise do estudo ensaístico
de Fujita e Troitiño (2018, p.105-13) para
arquivos de instituições de saúde com base
no relato da política arquivística do CEDEM
que consta no item 4.
A sequência de análise consta de
dois planos e 3 aspectos: os requisitos no
plano horizontal representa as atividades
de gestão arquivística, os elementos e as
variáveis no plano vertical representam as
atividades de organização e representa-
ção da informação.
No plano horizontal o conjunto de
requisitos correspondem às condições de
Figura 2 – Tela da área temática para escolha do tipo de descritor
Fonte: Catálogo online do CEDEM
105
Ano 9, número 16, semestral, out/2018 a mar/ 2019
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
funcionamento do sistema de informação
a partir da identicação da organização,
clientela, recursos nanceiros, materiais e
humanos, cuja análise será relevante para
a denição do serviço a ser oferecido e, ao
mesmo tempo, inuenciará o funcionamen-
to do plano vertical nos produtos e serviços
a serem oferecidos ao usuário do sistema
de informação (CARNEIRO, 1985).
Por isso, será necessário que o CE-
DEM desenvolva diferentes estudos para
conhecimento de seus requisitos: perl e
vocabulário de domínio de seus usuários e
a política institucional da Universidade para
a estrutura física, nanceira, material e hu-
mana do CEDEM. O resultado desses es-
tudos, principalmente o de usuário, servirão
de base para a denição e/ou aprimoramen-
to dos elementos e variáveis da política de
indexação no plano vertical. Por outro lado,
é preciso identicar na estrutura de recursos
humanos quem participa diretamente da im-
plementação da política de indexação. Com
certeza, os mesmos que atuam no desen-
volvimento e alimentação do SisAcervo.
O Sistema de Gestão de Acervos
Permanentes é o resultado concreto de
uma política arquivística que levou em
consideração todos os requisitos do plano
horizontal na elaboração e implantação,
mesmo que a documentação descritiva dos
estudos realizados seja um conjunto de es-
pecicações técnicas (CENTRO DE DO-
CUMENTAÇÃO E MEMÓRIA DA UNESP,
s/d) e um manual de operações do módulo
de cadastramento. Dessa forma, podemos
considerar o SisAcervo como o resultado
da elaboração e implementação, não só de
uma política arquivística, como também,
de política de indexação. Interessante se-
ria elaborar um Manual do Sistema com a
descrição pormenorizada de todas as es-
pecicações do SisAcervo relacionadas à
política arquivística e à política de indexa-
ção. Não restam dúvidas de que é neces-
sário registrar a memória do sistema de in-
formação, em cada pormenor, para facilitar
futuros aprimoramentos, como também,
seu uso uniforme por diferentes utilizado-
res atuando em tempos diferentes.
Porém, ainda assim, seria fundamen-
tal realizar estudo do perl e das necessida-
des de informação de sua comunidade de
usuários, tendo em vista que é desconhe-
cido o vocabulário utilizado para pesquisas.
Seria muito sugestivo realizar avaliações
contínuas acerca dos termos utilizados para
busca de informações no SisAcervo.
Ficou claro, também, que o CEDEM
segue os marcos regulatórios produzidos
no âmbito da Universidade e por instituições
normalizadoras em âmbito brasileiro e inter-
nacional, como por exemplo, o metadados
para registro das descrições físicas e temáti-
cas obedece aos parâmetros estabelecidos
pela NOBRADE e a reprodução digital dos
documentos obedece a orientação técnica
do CONARQ. Além disso, o CEDEM tem
política arquivística descrita nos seguintes
documentos: relatório de gestão (CENTRO
DE DOCUMENTAÇÃO E MEMÓRIA DA
UNESP, 2017), Política de desenvolvimen-
to de coleções (CENTRO DE DOCUMEN-
TAÇÃO E MEMÓRIA DA UNESP, 2015) e
guia de acervo (CAMARGO, 2008). Seria
importante reunir todas as informações so-
bre o CEDEM e suas diversas políticas, seja
arquivística, de preservação, reprodução,
tratamento documental, desenvolvimento
de coleções e de indexação, em documento
único que pudesse demonstrar o entrelaça-
mento de todas as suas políticas.
A política de informação necessita,
principalmente, de padronização de registros
e de padronização do arquivamento eletrôni-
co combinado com a indexação e uso de vo-
cabulário controlado. Nesse sentido, vamos
analisar, na sequência, o plano vertical com-
posto de elementos e variáveis da política de
indexação. Os elementos elencados por Car-
neiro (1985, p.231), bem como a função e apli-
cação de cada um na perspectiva do CEDEM,
podem ser compreendidas no Quadro 1:
106
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
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Ano 9, número 16, semestral, out/2018 a mar/ 2019
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
Quadro 1 – Função e aplicação dos elementos da política de indexação
Fonte: Fujita e Troitiño, 2018, p.
As variáveis, segundo Carneiro
(1985), que in uenciam o processo de in-
dexação e impactam na recuperação da
informação, podem ser visualizadas no
Quadro 2 acompanhadas da função e da
aplicação no CEDEM:
108
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
Finalmente, considera-se que um
manual de indexação deva ser elabora-
do para o registro de todas as decisões
acerca dos elementos e variáveis da in-
dexação com a função precípua de as-
segurar a uniformidade das atividades de
organização e representação da informa-
ção realizadas no plano horizontal da po-
lítica de indexação.
6. Considerações  nais
A política arquivística tem extraordi-
nária relevância porque, quando falamos
de documentação digital, implica ques-
tões articuladas às políticas de preserva-
ção digital para reprodução, recuperação
e acesso, que são atualmente essenciais
à transparência e ao imediatismo informa-
cional. Atrelada à política arquivística está
a condição sine qua non de representar
para recuperar. É justamente nesse ponto
que se justi ca a necessidade da política
de indexação, tendo em vista, a declara-
da razão e meta de coleções documentais
originais e únicas de movimentos político-
-sociais custodiadas por centros de docu-
mentação serem reproduzidas digitalmen-
te: acesso a informação e conhecimento.
Considerando-se que este estudo
ensaístico teve como objetivo re etir sobre
a aplicabilidade da elaboração e implemen-
tação da política de indexação no âmbito
das instituições de memória no Brasil, é
importante reconhecer que, certamente,
os aspectos da política de indexação es-
tão presentes nas instituições de memó-
ria, contudo, sem a devida explicitação ou
organização. A partir do momento em que
todos os gestores e atores envolvidos na
política de informação tornam-se conscien-
tes da existência e os reconhecem, como
demonstrado no item 5, há necessidade de
sistematização das informações relativas
aos planos horizontal e vertical com requi-
sitos, elementos e variáveis. Outro ponto
importante é que embora o tratamento pela
indexação por assuntos seja uma etapa
intermediária e raramente notada, porque
está por dentro, sua sistematização e con-
trole faz enorme diferença para quem usa
o sistema de informações devido à rapidez,
precisão e revocação no momento da re-
cuperação da informação. Usar a indexa-
ção é, portanto, altamente estratégico para
os objetivos das políticas arquivísticas de
preservação digital que o faz para viabilizar
o acesso a documentos únicos e de difícil
resgate e isso, é  nanceiramente caro.
Quadro 2 – Função e aplicação das variáveis do processo de indexação
Fonte: Catálogo online do CEDEM
109
Ano 9, número 16, semestral, out/2018 a mar/ 2019
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
A linguagem de indexação utiliza-
da pelo sistema pode se tornar um instru-
mento valioso não só pela evidente fun-
ção de controle de vocabulário do sistema
mas para auxílio ao usuário no momento
de sua busca. Além disso, dá visibilidade
às áreas de assunto tratadas pelo centro
de documentação.
Finalmente, no que tange à análise
do sistema de informação do CEDEM rei-
teramos as seguintes recomendações:
- Realizar diferentes estudos para
conhecimento de seus requisitos: perl e
vocabulário de domínio de seus usuários
e a política institucional da Universidade
para a estrutura física, nanceira, material
e humana do CEDEM;
- Elaborar um manual de indexa-
ção que contenha informações sobre o
CEDEM e suas diversas políticas, seja
arquivística, de preservação, reprodução,
tratamento documental, desenvolvimento
de coleções e de indexação com requisi-
tos, elementos e variáveis e relaciona-las
às especicações do SisAcervo;
- Elaborar e experimentar metodo-
logia de avaliação para analisar proble-
mas de recuperação, vericar ajustes na
implementação da política e futuros apri-
moramentos, uso do software e ferramen-
tas de busca;
- Adotar o Tesauro Unesp como
linguagem de indexação para controle do
vocabulário e disponibiliza-lo junto à inter-
face de busca do sistema de informação;
- Importar os registros de auto-
ridade de assunto do Tesauro Unesp
para o SisAcervo e obter controle de
vocabulário automático nos campos de
assuntos dos metadados de descrição
física e temática;
- Calibrar a capacidade de revoca-
ção e precisão do sistema com exaustivi-
dade e especicidade na determinação de
termos para representação dos documen-
tos em função da necessidade de recupe-
ração da informação de sua comunidade
de usuários.
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UNESP, Brasil. Contato: mariangela.fugita@unesp.br
II Sonia Troitiño. Professora do Programa de Pós-Gra-
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Contato: sonia.troitino@unesp.br
III Disponível em https://sistemas.unesp.br/cedem/pu-
blico/material.pesquisar.action
111
Ano 9, número 16, semestral, out/2018 a mar/ 2019
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Desenvolvimento da nova Biblioteca Digital da Biblioteca Brasiliana USP:
Relato de Experiência
Desarrollo de la nueva Biblioteca Digital de la Biblioteca Brasiliana USP:
Relato de Experiencia
Development of the new Digital Library of the Brasiliana Library USP:
Experience Report
Rodrigo Moreira Garcia
I
Resumo:
A Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin é um órgão da Pró-Reitoria
de Cultura e Extensão Universitária. Como entidade acadêmica
da Universidade de São Paulo, congura-se como um centro
interdisciplinar de informação e documentação, pesquisa e difusão
cientíca. Tendo como nalidade a preservar e proporcionar irrestrito
acesso de seu acervo, a estratégia adotada foi o desenvolvimento de
uma biblioteca digital brasiliana. Este trabalho apresenta um relato de
experiência do desenvolvimento da nova plataforma para a Biblioteca
Digital da BBM. Apresenta uma retrospectiva desde o projeto-piloto,
os problemas e êxitos no decorrer do percurso do projeto. Relata os
desaos enfrentados e as soluções encontradas para a retomada dos
processos de digitalização e desenvolvimento da coleção digital. Por m,
apresenta os próximos passos, desaos e aponta para a necessidade
de denições estratégicas para a sua sustentabilidade institucional.
Palavras-chave:
Bibliotecas Digitais
Digitalização de Acervos
Acesso aberto
Coordenação de Projetos
Projetos Sustentáveis
112
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
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Resumen:
La Biblioteca Brasiliana Guita y José Mindlin es un órgano de la
Pro-Rectoría de Cultura y Extensión Universitaria. Como entidad
académica de la Universidad de São Paulo, se congura como un
centro interdisciplinario de información y documentación, investigación
y difusión cientíca. Con la nalidad de preservar y proporcionar
irrestricto acceso de su acervo, la estrategia adoptada fue el desarrollo
de una biblioteca digital brasiliana. Este trabajo presenta un relato de
experiencia del desarrollo de la nueva plataforma para la Biblioteca
Digital de BBM. Presenta una retrospectiva desde el proyecto piloto,
los problemas y éxitos en el transcurso del recorrido del proyecto.
Relata los desafíos enfrentados y las soluciones encontradas para
la reanudación de los procesos de digitalización y desarrollo de la
colección digital. Por último, presenta los próximos pasos, desafíos
y apunta a la necesidad de deniciones estratégicas para su
sostenibilidad institucional.
Abstract:
The Brasiliana Guita and José Mindlin Library is an organ of the Pro-
Rectory of Culture and University Extension. As an academic entity
of the University of São Paulo, it is an interdisciplinary center for
information and documentation, research and scientic dissemination.
With the purpose of preserving and providing unrestricted access
to its collection, the strategy adopted was the development of a
Brazilian digital library. This paper presents an experience report
on the development of the new platform for the Digital Library of
BBM. It presents a retrospective from the pilot project, the problems
and successes throughout the course of the project. It reports the
challenges faced and the solutions found for the resumption of the
processes of digitalization and development of the digital collection.
Finally, it presents the next steps, challenges and points to the need
for strategic denitions for its institutional sustainability.
Palabras clave:
Bibliotecas Digitales
Digitalización de Acervos
Acceso abierto
Coordinación de Proyectos
Proyectos Sostenibles
Keywords:
Digital Libraries
Digitalization
of Collections
Open Access
Project coordination
Sustainable Projects
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Ano 9, número 16, semestral, out/2018 a mar/ 2019
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Desenvolvimento da nova Biblioteca
Digital da Biblioteca Brasiliana USP:
Relato de Experiência
Introdução
Inaugurada em março de 2013, a
Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin
(BBM) é um órgão e entidade acadêmica da
Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universi-
tária (PRCEU) da USP. O projeto Brasiliana
USP iniciou-se em 2005 e foi pensado para
abrigar e integrar a coleção Brasiliana, doa-
da por José Mindlin à USP, e o Instituto de
Estudos Brasileiros (IEB), de modo a con-
gurar a BBM como um centro interdisciplinar
de informação e documentação. A iniciativa
surgiu da ideia de se “[...] criar instrumentos
que envolvessem o diálogo entre diversas
unidades da USP” (JANCSÓ, 2010, p. 315).
Em 2009, como parte do projeto Bra-
siliana USP, é colocada on-line a primeira
versão da Biblioteca Brasiliana Digital da
BBM. Iniciado em 2008 o projeto-piloto Bi-
blioteca Brasiliana Digital
II
, visava investigar
um modelo de implantação de biblioteca
digital, atendendo aos princípios de preser-
vação de acervos bibliográcos e de demo-
cratização do acesso, assim como, de su-
porte à pesquisa, de forma a estabelecer a
BBM como centro de reexão, produção e
difusão de estudos e da cultura brasileira.
O Projeto Corisco
A plataforma Corisco, foi desenvol-
vida a partir da ideia de tornar disponível
on-line o acervo da BBM. A visão do proje-
to-piloto era além de desenvolver uma pla-
taforma de software para a biblioteca digital,
[...] tornar a plataforma de software reu-
tilizável para outras iniciativas de biblio-
tecas digitais que não disponham de
recursos ou que não tenham interesse
em alocar recursos preciosos em de-
senvolvimento complexo de sistemas
de software (ALENCAR et al, 2012, p.1).
Basicamente o desenvolvimento se
deu com a customização de um sistema
base para o repositório digital. Optou-se
pelo DSpace
III
, software open source, como
repositório, com outros componentes auxi-
liares como Djatoka
IV
(servidor de imagens)
e os visualizadores IIPImage
V
e BookRea-
der
VI
(este último implantado integralmente).
Além da plataforma, foram adqui-
ridos para o projeto-piloto máquinas ro-
botizadas para a digitalização dos livros,
softwares para o tratamento, edição e
compactação das imagens, reconheci-
mento ótico de caracteres (OCR
VII
) e ge-
ração de versões em PDF, além de servi-
dores para a instalação das aplicações e
armazenamento das imagens.
Como padrão de metadados, foi ado-
tado o esquema Dublin Core
VIII
, amplamen-
te adotado para a descrição de diversas ti-
pologias documentais em ambiente Web.
Foi montada uma equipe entre 15
bolsistas, além de prossionais contratados,
professores, pesquisadores e técnicos, para
todo o desenvolvimento, manutenção e ge-
ração de conteúdo para a Biblioteca Digital.
Problemas e êxitos
Talvez dado o pioneirismo (a Biblio-
teca Brasiliana Digital da BBM surgiu há
exatos 10 anos, antes mesmo da constru-
ção do complexo Brasiliana) e a inexperiên-
cia, muitas das tomadas de decisões, que
foram feitas à época, não seriam adotadas
hoje. Ao longo dos últimos anos e com a
maturidade de procedimentos e aprimora-
mento das Tecnologias de Informação e
Comunicação, atualmente já existe uma
base mais estabelecida de como iniciar,
114
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
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planejar e executar projetos de digitaliza-
ção de diversos tipos de materiais.
A começar pelo desenvolvimento da
Plataforma, muitas customizações foram re-
alizadas diretamente no código do programa,
tornando difícil, ou até mesmo, impossibilitan-
do a atualização da plataforma DSpace para
novas versões. Isto fragilizou o bom funcio-
namento da biblioteca digital, acarretando,
sobretudo, em inconsistências quanto a vi-
sualização do objeto digital, lentidão do siste-
ma, dentre outros problemas que a platafor-
ma veio apresentando ao longo do tempo.
Tratando-se de um projeto-piloto aca-
dêmico de pesquisa, a rotatividade das equi-
pes (em sua maioria bolsistas e estagiários)
envolvidas era constante, além do projeto
contar com vários prossionais terceirizados
contratados por tempo determinado. Isto,
embora tenha contribuído para a formação
de vários futuros prossionais e contribuído
para a formação continuada de prossionais
de diversas áreas, ao nal destes nancia-
mentos pontuais, característicos de proje-
tos acadêmicos de pesquisa, a evasão de
recursos humanos impactou a continuida-
de do desenvolvimento da biblioteca digital.
Soma-se a isto a falta de um coordenador
técnico/operacional
IX
que pudesse gerenciar
o desenvolvimento do projeto, realizando a
coordenação de equipes e tarefas, workow
(conservação, digitalização, descrição biblio-
gráca etc.), fazer a gestão do conhecimen-
to, elaborar documentação técnica, etc.
A aquisição de máquinas de digitali-
zação “robotizadas”, embora tenha tido um
grande apelo de inovação e modernidade,
constatou-se que para o material a ser digita-
lizado (obras raras, que necessitam de diver-
sos cuidados de preservação e conservação),
não eram as mais adequadas. Os modelos
adquiridos eram apropriados para projetos de
digitalização em grande escala (em massa) e
para tipos de materiais que não necessitam
de cuidados especiais (como teses e disser-
tações, relatórios, entre outros tipos docu-
mentais encadernados), pois seus sistemas
automatizados de hastes, presilhas e sistema
de sucção, além de provocar interferências
nas imagens (veja exemplos logo abaixo),
poderiam danicar as páginas das obras.
Figura 1 – Exemplo de interferência: Presilhas plásticas sobre as páginas
Fonte: BBM
115
Ano 9, número 16, semestral, out/2018 a mar/ 2019
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Também, as primeiras digitaliza-
ções são próximas do aspecto de uma fo-
tocópia, com grande perda de dados e das
características do objeto original:
Figura 2 – Exemplo de interferência: Mão do operador sobre a página
(devido à necessidade de segurá-la para a captura da imagem)
Figura 3 – Exemplo de tratamento de imagem anteriormente realizado, com perda de dados e das características originais.
Fonte: BBM
Fonte: BBM
116
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
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Embora, durante o desenvolvimento
do projeto-piloto, muitos problemas de nível
técnico e operacional tenham se apresen-
tado, a iniciativa de uma Biblioteca Brasilia-
na Digital sempre esteve em consonância
com os movimentos nacionais e interna-
cionais de Acesso Aberto (Open Access)
aos conteúdos digitais. Exemplo disso são
os seis princípios da Biblioteca Brasiliana
Digital denidos com o objetivo de apoiar
o “Memorando de Intenções sobre conteú-
dos digitais” (CGI.BR, 2007), que se tratava
de um esforço para a denição de diretrizes
para uma política pública de apoio à produ-
ção de conteúdos digitais:
1. Uma biblioteca digital como ins-
trumento de uma política nacional de
produção de conteúdos para a rede
mundial de computadores, contri-
buindo para a redenição positiva da
presença da língua portuguesa e da
cultura nacional.
2. Uma biblioteca digital para a difu-
são de uma coleção original: uso das
novas tecnologias como forma de
conciliação das necessidades de pre-
servação do acervo e o imperativo de
universalizar o acesso. Rejeição de
um modelo custodial de biblioteca.
3. Orientação para o contexto-usuário:
a formação do acervo digital deve estar
orientada por uma política de acesso
universal; o usuário (e pensamos em
termos polissêmicos) tem centralidade
na construção deste acervo digital.
Figura 4 – Crop da imagem anterior, apresentando as características originais da página (imagem não tratada).
Fonte: BBM
117
Ano 9, número 16, semestral, out/2018 a mar/ 2019
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4. Uma biblioteca digital como instru-
mento da educação nacional: com-
promisso com a produção de mate-
riais didáticos, com a formação de
quadros em todos os níveis, desde
o ensino fundamental até a pesquisa
avançada.
5. Uma biblioteca digital pública: di-
fusão do acervo, acesso universal
(preservados os direitos do autor) e
democratização da cultura. Adesão à
Declaração de Berlim sobre o Acesso
Livre ao Conhecimento nas Ciências
e Humanidades
X
(Berlin Declaration
on Open Access to Knowledge in the
Sciences and Humanities), de 2003:
“acesso livre signica a livre disponi-
bilização na Internet de literatura de
caráter cientíco, permitindo a qual-
quer utilizador pesquisar, consultar,
descarregar, imprimir, copiar e distri-
buir, o texto integral de artigos e ou-
tras fontes de informação cientíca”.
Adesão aos protocolos da Iniciativa
Open Archives
XI
(OAI-PMH - Open Ar-
chives Initiative Protocol for Metadata
Harvesting) - protocolo desenvolvido
para permitir que os metadados se-
jam acessíveis por diversos serviços
de busca e compartilhados pelos re-
positórios digitais.
6. Compromisso com a democrati-
zação de nossa experiência. Adesão
aos princípios do software livre (open
source) (BRASILIANA USP, 2009).
O engajamento e o envolvimen-
to da BBM em iniciativas e movimentos
“open”, enquanto instituição, têm sido re-
lativamente bastante tímida, sobretudo
pelas mudanças de foco (ou de incompre-
ensão) realizadas pelos corpos diretivos
que se sucederam.
No limiar da possibilidade de novas
contratações de efetivo, que dariam con-
tinuidade a todo um trabalho para o esta-
belecimento e crescimento do projeto, as
circunstâncias foram desfavoráveis e,
Nesta conjuntura complexa, na qual
se articulam crises econômica e po-
lítica, as IES se encontram afetadas,
primeiramente, pela recessão e pelos
cortes sistemáticos advindos da fede-
ração e de diversos entes federativos
(MANCEBO, 2017, p. 884).
Tal conjuntura, além de impactar
com as interrupções de contratações de
novos efetivos, culminou ainda em dois
programas de incentivo à demissão vo-
luntária (PIDV’s em 2015 e 2016), que
abalaram estruturalmente qualquer de-
senvolvimento em andamento. A drástica
redução orçamentária e de efetivo, en-
tre outros fatores, impactou, inclusive, a
continuidade de planejamento, a gestão
e a permanência e estabilidade de um
corpo diretivo coerente.
Freio de Arrumação
XII
Em 2015 a BBM contava com um
corpo de efetivos de pouco mais de uma
dezena de prossionais técnicos (entre
os níveis superior, em sua maioria, téc-
nico e básico), para atender a todas as
áreas (administrativo, operacional, ma-
nutenção, segurança etc.). Contando
com a mobilidade
XIII
inter-unidades da
Universidade, houve um rearranjo da
equipe envolvida diretamente no work-
ow de digitalização e desenvolvimento
da biblioteca digital.
Naquele momento, as atividades
de submissão de novos itens para a bi-
blioteca digital estavam interrompidas
haviam dois anos aproximadamente e
era necessário urgentemente a retoma-
da das atividades.
Neste ínterim, um especialista
em laboratório, que ocupa o Laboratório
de Digitalização, desenvolveu um siste-
ma para a gestão das atividades de di-
gitalização:
118
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
Ainda foi possível adquirir novas
máquinas para digitalização, mais moder-
nas e adequadas (e por um custo inferior às
anteriormente adquiridas) para o material
bibliográ co que a biblioteca possui. São
operadas manualmente, possuem base em
formato V, para evitar danos à lombada do
livro, e acessório em vidro para evitar as
curvaturas das páginas, além de câmeras
digitais de maior qualidade e precisão.
Uma readequação dos processos
de captura digital foi realizada, pois se-
gundo a IFLA (2015, p. 14):
Nos processos de digitalização de mate-
riais raros e únicos é importante conser-
var e recriar, tanto quanto possível, o as-
pecto material do objeto original. Assim, a
captura deve ser do objeto físico inteiro e
não apenas de seu conteúdo intelectual.
Por isso, é necessário fotografar páginas
completas frente e verso (incluindo as
margens) e ter o cuidado de não cortar
imagens que possam se encontrar nas
margens. Os volumes encadernados
devem ser digitalizados capa a capa,
incluindo as folhas de guarda, as folhas
em branco e as encadernações [...].
Assim, para manter um padrão mí-
nimo de qualidade, o laboratório de digita-
lização reuniu os procedimentos utilizados
para a geração de objetos digitais em um
conjunto de manuais técnicos, mais espe-
ci camente relacionados às três etapas
iniciais do processo (triagem, digitalização
e tratamento digital), em razão da grande
quantidade de procedimentos existentes
em cada uma das etapas executadas.
Tais manuais são a base do treinamento
das equipes (de bolsistas e estagiários) e
servem como referência contínua para os
procedimentos adotados pelo laboratório.
Com a vinda de um bibliotecário,
com experiência no desenvolvimento e
gestão de bibliotecas digitais, deu-se iní-
cio a uma série de reestruturações, de for-
Figura 5 – Sistema “MyFlow” para o gerenciamento das atividades de Digitalização.
Fonte: BBM
119
Ano 9, número 16, semestral, out/2018 a mar/ 2019
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
ma a estandardizar e otimizar o workow
das atividades.
Para tornar o workow de digitali-
zação (que envolve desde a seleção do
material pela equipe curadora ou por so-
licitação de usuário; a triagem/avaliação,
higienização e pequenos reparos pelo la-
boratório de conservação; a triagem/ava-
liação pelo laboratório de digitalização e
suas etapas; até a submissão do item na
plataforma digital) mais uido e funcional,
era necessário que se adotasse um único
identicador para as obras, ou seja, o mes-
mo identicador para a obra física e digi-
tal, pois era quase impossível (despendia-
-se muito tempo para se saber) identicar
se determinada obra já havia sido digitali-
zada ou não (já armazenada no servidor
- Storage). Também sem um controle e-
caz, muitas vezes uma obra já digitalizada
era encaminhada para digitalização, e só
se cava sabendo quando o item chega-
va ao laboratório de digitalização. Assim,
foi estabelecido que o barcode já adota-
do no sistema ALEPH/DEDALUS (sistema
de administração de bibliotecas utilizado
para a gestão do Catálogo Bibliográco
da USP
XIV
) seria o identicador da obra
fosse sua versão física (Catálogo USP)
fosse a versão digital (Storage e DSpace).
Para isso, tudo aquilo já armazenado no
Storage, deveria receber o barcode (algo
em torno de 2580 itens). Uma força tarefa
foi montada para realizar esta atividade de
“tombamento” dos itens digitais.
Também não se tinha um controle
claro de quantas obras haviam sido en-
caminhadas aos laboratórios e exposi-
ções (este controle era feito por meio de
planilhas que nem sempre estavam atua-
lizadas). Um grande problema, mas, facil-
mente resolvido com a adoção do módulo
de circulação do sistema ALEPH/DEDA-
LUS. Foi congurado a opção de circula-
ção interna de itens. Desde então, somen-
te itens que já receberam o barcode (obras
tombadas), podem ser encaminhadas aos
laboratórios ou para as exposições.
Mais um exemplo foi a utilização de
um sistemas de cores simples (verde: digi-
talizado; amarelo: parcialmente digitalizado;
vermelho: não digitalizado; e dourado para
indicar obra rara ou especial) para a identi-
cação de forma visual nas estantes o status
da digitalização de determinado item:
Figura 6 – Sistemas de cores nas papeletas de localização, que indicam status da digitalização do item.
Fonte: BBM
120
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
A conscientização da equipe en-
volvida para a importância destes con-
troles também foi trabalhada e o es-
tabelecimento de regras e medidas
relativamente simples, zeram grande
diferença na otimização do workow.
Um conjunto de manuais para os proce-
dimentos técnicos que envolvem o uxo
de digitalização também foi elaborado
para documentar e auxiliar no treina-
mento da equipe.
Mas ainda era preciso que a pla-
taforma digital voltasse a receber novas
obras. Para isso, algumas estratégias
foram tomadas.
Sustentabilidade
Sabendo da falta de um analista
de sistemas
XV
com o perl de programa-
dor/desenvolvedor, buscou-se dentro da
própria universidade o know-how neces-
sário para o desenvolvimento de uma
nova plataforma para a biblioteca digital,
já que a anterior não tinha mais condi-
ções de manutenção. Assim, foi solicita-
do à Direção (à época) que estabeleces-
se contato com a Superintendência de
Tecnologia da Informação (STI)
XVI
para
que a equipe técnica de ambos órgãos
pudesse trabalhar no desenvolvimento
de uma nova plataforma. Assim, em ju-
lho de 2015 foi formalizado a coopera-
ção técnica entre a BBM e a STI, mais
especicamente com o Centro de Tecno-
logia da Informação de São Carlos (Ce-
TI-SC)
XVII
, pioneiro no desenvolvimento
de umas das primeiras bibliotecas de te-
ses e dissertações
XVIII
em âmbito nacio-
nal. A equipe BBM/CeTI-SC, então, rea-
lizou um diagnóstico de toda a situação
do projeto atual (estrutura de hardwares
e softwares; arquitetura de dados e de
informação; problemas identicados e
possíveis soluções; além de estabelecer
um cronograma de atividades, com as
responsabilidades de cada órgão.
Coube então à BBM, na figura do
bibliotecário que assumiu a coordena-
ção técnica do novo desenvolvimento,
gerenciar a migração dos dados da an-
tiga para a nova plataforma; revisar os
metadados, corrigir sistema de arquivos
no servidor (Storage), demandar desen-
volvimentos (novo DSpace; módulo im-
portação; visualizador; customizações
de layout; entre outros), administrar a
nova plataforma digital e seus registros
bibliográficos.
A BBM já havia, no ano de 2012,
sido incorporada ao Sistema Integrado
de Bibliotecas da USP (SIBi/USP
XIX
) e
em 2013 parte do antigo catálogo em
Winisis
XX
da Biblioteca Mindlin, foi mi-
grado para o Sistema ALEPH/DEDA-
LUS. Como o antigo catálogo nunca
foi trabalhado por profissionais biblio-
tecários, o fato é que os dados não
estão de acordo com as normas, códi-
gos e padrões de catalogação interna-
cionais (AACR
XXI
/MARC21
XXII
) adota-
dos pelo SIBI/USP. Nas atividades de
relocalização (rearranjo das obras nas
estantes) e tombamento (atribuição de
barcode), a equipe de tratamento téc-
nico da informação está fazendo a re-
visão e correção dos registros biblio-
gráficos, dentro das normas e padrões
adotados.
Então, o tratamento técnico das
obras do acervo da BBM já é feito no
módulo de catalogação/indexação do
sistema ALEPH/DEDALUS. Logo, o na-
tural seria reaproveitar estes registros
(já corrigidos) para a Biblioteca Digital.
Assim, foi demandado ao SIBi/USP, que
disponibilizasse um SET-BBM, para que,
via protocolo OAI-PMH, fosse possível
a importação daqueles registros neces-
sários para a nova Biblioteca Digital. E
para gerenciar esta importação, O CeTI-
-SC/STI desenvolveu um aplicativo para
a importação de novos registros, que
também faz a conversão do Formato
121
Ano 9, número 16, semestral, out/2018 a mar/ 2019
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
MARC21 para Dublin Core. Para isso,
também foi revisado o conjunto de meta-
dados necessários para a importação na
biblioteca digital.
Foi instalada a versão 5.5 do DS-
pace. Foi estratégico manter o DSpace
como plataforma de desenvolvimento
da Biblioteca Digital da BBM, pois além
de facilitar a migração dos metadados
da antiga versão para a nova, o DSpace
é um software open source atualmente
mantido por uma ampla comunidade de
desenvolvedores liderada pela iniciati-
va sem fins lucrativos DuraSpace
XXIII
e,
por isso, é uma das ferramentas mais
utilizadas por instituições acadêmicas e
de pesquisa para a criação de repositó-
rios institucionais e bibliotecas digitais
de acesso aberto, segundo o Diretório
Global de Repositórios Open Access
OpenDOAR
XXIV
:
Figura 7 – Visão geral de plataformas de software open source.
Fonte: http://v2.sherpa.ac.uk/view/repository_visualisations/1.html. Acesso em: 18 dez. 2018
A ideia foi manter a plataforma com o
menor número de customizações possíveis
a m de permitir sua atualização. Dentre al-
gumas das customizações realizadas foi a
possibilidade de escolher a imagem para
destacar a obra (antes, por default, era a
primeira imagem, normalmente a capa da
encadernação, sem qualquer informação):
122
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
Outra modi cação foi a forma de
visualizar as obras. Antes, abria-se um
Viewer na própria página. Agora ao clicar
em Visualizar/View o usuário é levado a
outra página/aba do navegador, com uma
visão mais ampla da obra:
Figura 8 – Exemplo de imagens em destaque.
Figura 9 – Exemplo de Obra vista pelo visualizador.
Fonte: BBM
Fonte: BBM
123
Ano 9, número 16, semestral, out/2018 a mar/ 2019
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
Figura 10 – Exemplo de Obra em fascículos.
Fonte: BBM
Caso seja uma obra em volumes
ou fascículos, um pop-up é apresentado,
para que o usuário escolha aquele que
desejar ver:
Isto foi necessário devido a muitas
obras volumadas estarem em uma ou em
um conjunto de encadernações. Nestes
casos cada encadernação é tratada como
um ítem da biblioteca, da mesma forma
que o item físico. Além da Visualização é
possível também o download da versão
em PDF. Nesta é possível a busca no texto
completo, devido ao tratamento dado por
OCR (optical character recognition - reco-
nhecimento ótico de caracteres. Para o
controle e documentação das alterações,
foi utilizado o GitLab
XXV
da USP.
A nova plataforma foi ao ar em ju-
lho de 2017 (KIYOMURA, 2017; LIMA,
2017). Foram 2 anos de desenvolvimento,
correções e migração de dados, entre ou-
tros ajustes. Atualmente
XXVI
3415 itens es-
tão disponíveis para consulta e download
na nova plataforma da Biblioteca Digital
da BBM no endereço: https://digital.bbm.
usp.br. E semanalmente novas obras são
acrescentadas no acervo digital.
Considerações Finais
As estratégias para garantir o
acesso ao patrimônio cultural, sobretudo
aos acervos bibliográ cos, necessaria-
mente passam por processos de digita-
124
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
lização e desenvolvimento de bibliote-
cas digitais. Conforme Robert Darnton
(2013, p. 10), bibliotecário acadêmico
e diretor da Biblioteca da Universidade
de Harvard entre 2007 e 2016, diversos
tipos de materiais “[...] que estavam res-
tritos à pesquisa local em bibliotecas e
museus poderão - em alguns casos, já
podem - ser consultados de qualquer lu-
gar, bastando, para isso, acesso à inter-
net”. Ou seja, Os acervos digitalizados,
quando disponibilizados, tornam-se o
principal recurso de acesso a materiais
que, de outra maneira, poderiam perma-
necer desconhecidos do grande público,
e podem contribuir para “[...] mudanças
importantes para o campo do saber”
(DARNTON, 2013, p. 10).
Apesar do atual contexto, uma de-
dicada equipe técnica assumiu a tarefa
de reativar as atividades de digitalização
e administração da Biblioteca Digital da
BBM, que passou de projeto para pro-
cesso na BBM, tornando-se insumo para
novos projetos, experiências e análises,
sobretudo, em Ciência da Informação
(na Biblioteconomia em Representação
e Organização da Informação, Preserva-
ção Digital, Disseminação da Informação
etc.) e, como apontam Guerreiro e Bor-
binha (2014), nas Humanidades Digitais,
para a construção de ferramentas de
análises, linked data, e apresentações
mais imediatas e intuitivas para facilitar
a aquisição cognitiva.
Uma grande preocupação da co-
ordenação técnica da Biblioteca Digi-
tal da BBM é em relação a preservação
digital
XXVII
, que, em 2017, organizou o I
Seminário BBM de Bibliotecas Digitais:
Preservação Digital e Acesso
XXVIII
. O se-
minário versou sobre as especicidades,
procedimentos e estratégias envolvidas
nos processos de digitalização e disponi-
bilização de conteúdos, além do conjunto
de atividades e processos que visam ga-
rantir o acesso continuado, a longo pra-
zo, com qualidade, autenticidade e con-
abilidade aos objetos digitais. A ideia foi
trazer a discussão sobre a preservação
digital (entre outros assuntos correlatos
como: metadados e representação des-
critiva e temática; curadoria digital; con-
ceitos de bibliotecas digitais; projetos e
expeciências em outras instituições, etc)
para a BBM e sua importância também
dentro da instituição, sobretudo para a
formalização de políticas de digitalização,
de preservação digital e acesso. Tópicos
estes em que a BBM já foi bem mais en-
gajada institucionalmente.
Como próximos passos, a equipe
técnica está estudando um modo para
estabelecer procedimentos de atualiza-
ção do software DSpace para novas ver-
sões, sem impactar em customizações,
procedimentos e integridade dos regis-
tros bibliográcos. Também está nos pla-
nos, desenvolver uma interface de busca
integrada que agregue além da Bibliote-
ca Digital, a Base de dados do Arquivo
da BBM (em desenvolvimento) e também
bases de dados de instituições que vie-
rem a ser parceiras.
Porém, é importante ressaltar
que, institucionalmente, a BBM ainda
tem um longo percurso. Em qualquer
organização, é preciso a denição de
uma estrutura geral/organograma míni-
mo. Embora muitas das atividades de-
senvolvidas sejam interdependentes e
realizadas em conjunto, é necessária a
denição das atribuições de cada setor e
de cada função, justamente para atribuir
as responsabilidades de cada um dentro
da organização. Atentar para as normas
e regulamentações vigentes é também
indispensável.
Além disso, a realização e con-
solidação de parcerias, sobretudo a
manutenção de cooperações técnicas,
grupos de trabalho, projetos interdisci-
plinares de pesquisa, é essencial para
125
Ano 9, número 16, semestral, out/2018 a mar/ 2019
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
o desenvolvimento da instituição, assim
como, de seus corpo efetivo e daqueles
que fazem seu uso para o desenvolvi-
mento da ciência.
Assim, é fundamental que os to-
madores de decisão se sensibilizem e se
conscientizem sobre a importância des-
tes (e outros) pontos, sobretudo, para
a própria sustentabilidade institucional,
resgatando os ideais originais de com-
promisso e engajamento para com a
difusão dos acervos de memória e cul-
tura, pois a BBM possui enorme poten-
cial para se consolidar como um centro
interdisciplinar de informação e docu-
mentação, pesquisa e difusão cientíca
e assim ser, efetivamente, um espaço
convergente para as mais diversas áre-
as do conhecimento.
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Recebido em 20/12/2018
Aprovado em 24/01/2019
126
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
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VIII DUBLIN CORE. Disponível em: http://dublincore.
org. Acesso em: 06 dez. 2018.
IX Até a presente data, a BBM não possui um orga-
nograma mínimo formalizado, denindo seus setores e
respectivos responsáveis/coordenadores técnicos, con-
forme pode ser constatado em seu regimento interno:
UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. Resolução nº 7167,
de 16 de Fevereiro de 2016. Disponível em: http://www.
leginf.usp.br/?resolucao=resolucao-no-7167-de-16-de-
-fevereiro-de-2016. Acesso em: 07 dez. 2018.
X OPEN ACCESS MAX-PLANCK-GESELLSCHAFT.
Berlin Declaration on Open Access to Knowledge in the
Sciences and Humanities. Disponível em: https://ope-
naccess.mpg.de/Berlin-Declaration. Acesso em: 10 dez.
2018.
XI OPEN ARCHIVES INITIATIVE. Disponível em: http://
www.openarchives.org. Acesso em: 10 dez. 2018.
XII Expressão em geral usada na política quando um
governo ou uma situação começa a car desorganizada
e sem um ponto de referência. O autor deste artigo to-
mou conhecimento da expressão em uma cordial troca
de e-mails com o prof.º Briquet de Lemos.
XIII Duas bibliotecárias realocaram-se para outras
unidades. Um bibliotecário de outra unidade, com ex-
periência no desenvolvimento e atuação em Biblioteca
Digitais, optou pela BBM. Somente a pouco mais de
um ano foi possível, após intermitentes contratações
de técnicos conservadores terceirizados, ocupar o
laboratório de conservação, também com uma biblio-
tecária de outra unidade que, sem experiência em
conservação, mas com interesse na área, está se ca-
pacitando para a função.
XIV DEDALUS. Disponível em: http://dedalus.usp.br.
Acesso em: 17 dez. 2018.
XV O analista de sistemas com esse perl se desligou
da Universidade no primeiro PIDV.
XVI STI. Disponível em: https://www.sti.usp.br. Acesso
em: 17 dez. 2018.
XVII CETI-SC. Disponível em: http://cetisc.sti.usp.br.
Acesso em 17 dez. 2018.
XVIII BIBLIOTECA DIGITAL DE TESES E DISSERTA-
ÇÕES DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. Disponível
em: http://www.teses.usp.br. Acesso em: 17 dez. 2018.
XIX SIBi-USP. Disponível em: http://www.sibi.usp.br.
Acesso em: 17 dez. 2018.
XX UNESCO. Communication and Information: CDS/
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unesco.org/new/en/communication-and-information/
information-society/open-source-and-low-cost-technolo-
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XXI AACR2. Disponível em: http://www.aacr2.org.
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XXVIII I SEMINÁRIO BBM DE BIBLIOTECAS DIGITAIS:
Preservação Digital e Acesso. Disponível em: https://
www.youtube.com/playlist?list=PLWE9sM1OP8qyOJC_
ShyshnjAg97HpJyJx. Acesso em: 18 dez. 2018.
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Ano 9, número 16, semestral, out/2018 a mar/ 2019
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
Acervos digitais e o Uso das Tecnologias de Informação
e Comunicação em Arquivos Brasileiros
Acervos Digitales y el Uso de las Tecnologías de la Información
y la Comunicación en Archivos Brasileños
Digital Collections and the Use of Information and Communication
Technologies in Brazilian Archives
Luciana Piazzon Barbosa Lima
I
Isabela Bertolini Coelho
II
Resumo:
Os arquivos podem contribuir para a ampliação do acesso à cultura
por meio do uso das tecnologias da informação e comunicação (TIC),
sobretudo pela oferta de bens culturais na Internet. A pesquisa TIC
Cultura, realizada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br)
por meio do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento
da Sociedade da Informação (Cetic.br), do Núcleo de Informação e
Coordenação do Ponto BR (NIC.br), analisa a infraestrutura e os usos
dessas tecnologias por equipamentos culturais brasileiros. O artigo
apresenta os resultados do estudo para o caso especíco dos arquivos,
com foco, em especial, nos indicadores sobre a apropriação das TIC
para a criação de acervos digitais e sua disponibilização na Internet.
Os dados revelam ser este um potencial ainda pouco explorado
por estas instituições, que poderia ser mais bem aproveitado com o
desenvolvimento de políticas públicas para investimento e capacitação
para a digitalização de acervos.
Palavras-chave:
Tecnologias de Informação
e Comunicação (TIC)
Arquivos
Acervos Digitais
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pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
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Resumen:
Los archivos pueden contribuir a la ampliación del acceso a la cultura
a través del uso de las tecnologías de la información y la comunicación
(TIC), sobre todo por la oferta de bienes culturales en Internet. La
investigación TIC Cultura, realizada por el Comité Gestor de Internet
en Brasil (CGI.br) por medio del Centro Regional de Estudios para
el Desarrollo de la Sociedad de la Información (Cetic.br), del Núcleo
de Información y Coordinación del Punto BR (NIC.br), analiza la
infraestructura y los usos de esas tecnologías por equipamientos
culturales brasileños. El artículo presenta los resultados del estudio
para el caso especíco de los archivos, con foco, en particular, en los
indicadores sobre la apropiación de las TIC para creación de acervos
digitales y puesta a disposición en Internet. Los datos revelan que este
es un potencial aún poco explotado por estas instituciones, que podría
mejor aprovecharse con el desarrollo de políticas públicas para la
inversión y la capacitación para la digitalización de acervos.
Abstract:
Archives can contribute for expanding access to culture through the
use of information and communication technologies, mainly through
the provision of cultural goods on the Internet. The ICT in Culture
survey, developed by the Brazilian Internet Steering Committee (CGI.
br) through the Regional Center for Studies on the Development of the
Information Society (Cetic.br),a department of the Brazilian Network
Information Center (NIC.br), analyses the infrastructure and use of
these technologies by Brazilian cultural facilities. The article presents the
results of the study for the specic case of Brazilian archives, focusing,
in particular, on the indicators on the appropriation of ICT for creating
digital collections and making them availableon the Internet. The data
reveal that this potential is not fully harnessed by these institutions
and could be better explored with the development of investment and
capacity-building public policies for the digitalization of collections.
Palabras clave:
Tecnologías de la
Información y la
Comunicación (TIC)
Archivos
Digitalización de Acervos
Keywords:
Information
and Communication
Technologies (ICT)
Archives
Digital Collections
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Ano 9, número 16, semestral, out/2018 a mar/ 2019
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Acervos digitais e o Uso
das Tecnologias de Informação e
Comunicação em Arquivos Brasileiros
Introdução
A disseminação das tecnologias da
informação de informação e comunicação
(TIC) em diversos setores têm gerado impac-
tos não só de ordem econômica, como tam-
bém simbólica. No campo da cultura, as TIC
estão sendo incorporadas nas práticas cultu-
rais dos cidadãos e na forma de atuação de
arquivos, bibliotecas, museus, etc., gerando
mudanças profundas na maneira como cria-
mos, preservamos e difundimos acervos e
bens culturais. Nesse sentido, medir a produ-
ção e a fruição desses bens mediadas pelas
TIC é de alta relevância para a formulação e
implantação de políticas públicas.
Em âmbito internacional, o Plano de
Ação da Cúpula Mundial da Sociedade da In-
formação (World Summit on the Information
Society – WSIS) trazia, dentre os objetivos
a serem alcançados até 2015, o de conectar
todas as bibliotecas públicas, museus, pos-
tos de correios e arquivos nacionais com as
TIC – objetivo monitorado pela Partnership
on Measurement ICT for Development por
meio de indicadores sobre o acesso à Inter-
net, a presença na Web e a digitalização e
disponibilização de itens por esses equipa-
mentos (UNIÃO INTERNACIONAL DE TE-
LECOMUNICAÇÕES [UIT], 2015).
Nessa mesma direção, entre as
recomendações da Organização das Na-
ções Unidas para a Educação, a Ciência
e a Cultura (Unesco) para o desenvolvi-
mento de sociedades do conhecimento, a
ampliação de conteúdos disponíveis para
acesso universal destaca o papel a ser de-
sempenhado pelos principais centros de
conhecimento – tais como instituições de
Ensino Superior, centros de pesquisa, mu-
seus e bibliotecas – na produção e disse-
minação do conhecimento através de re-
des possibilitadas por conexões de baixo
custo e alta velocidade (UNESCO, 2005).
A Unesco também tem discutido,
mais recentemente, diretrizes operacio-
nais para implementação da Convenção
sobre a Proteção e Promoção da Diversi-
dade de Expressões Culturais no ambiente
digital (UNESCO, 2017). Além do princípio
de universalidade da Internet, é recomen-
dada a criação de políticas para ampliar
as competências digitais do setor, contem-
plando a criação, produção, disseminação
e fruição de bens e serviços culturais e
incluindo o papel das instituições da área
na oferta de acesso on-line à diversidade
de expressões culturais – o que demanda,
por sua vez, o provimento de ferramentas
digitais para estas instituições.
Assim, os estabelecimentos que de-
sempenham atividades culturais têm a opor-
tunidade de ampliar seu campo de atuação e
de diálogo com o público a partir da adoção
intensiva e estratégica das TIC, por meio da
presença na Internet e da oferta de bens e
serviços on-line. Tratando especicamente
de museus e instituições arquivísticas, um
estudo da Comissão Europeia (EUROPEAN
COMISSION, 2002, p. 12) aponta ainda que
a inovação tecnológica tem grande impor-
tância para as estratégias de valorização e
difusão de acervos: “As tecnologias de infor-
mação e comunicação desempenharão um
papel fundamental para criar e distribuir es-
ses novos conteúdos, que vão muito além do
estágio atual de oferecer acesso a informa-
ções sobre os objetos do patrimônio cultural.”
A mensuração do uso dessas tecno-
logias por equipamentos culturais apresenta
assim um potencial estratégico para formu-
lação e implantação de iniciativas no setor.
No Brasil, dados sobre TIC e cultura podem
ainda contribuir no monitoramento de me-
tas presentes no Plano Nacional de Cultura
(PNC), formulado pelo Ministério da Cultura
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pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
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(Minc) com a participação da sociedade ci-
vil e aprovado em 2010. Nesse sentido, a
meta 40 do PNC propõe a disponibilização
na Internet de conteúdos que estejam em
domínio público ou licenciados e a meta 41
indica que 100% das bibliotecas públicas e
70% dos museus e arquivos disponibilizem
informações sobre seu acervo no Sistema
Nacional de Informações e Indicadores Cul-
turais (SNIIC) (MINC, 2012).
A Pesquisa TIC Cultura:
objetivos e aspectos metodológicos
Para permitir o acompanhamento da
implementação dessas iniciativas no Brasil,
o Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.
br), por meio do Centro Regional de Estu-
dos para o Desenvolvimento da Sociedade
da Informação (Cetic.br), departamento do
Núcleo de Informação e Coordenação do
Ponto BR (NIC.br), deu início à Pesquisa so-
bre o Uso das Tecnologias de Informação e
Comunicação nos Equipamentos Culturais
Brasileiros –TIC Cultura. Baseada em de-
nições metodológicas reconhecidas para
a medição do acesso e uso das TIC para
produção de dados comparáveis internacio-
nalmente, a pesquisa tem como objetivos
gerais a investigação da inuência das TIC
nas práticas culturais da população e o le-
vantamento de informações sobre acesso e
uso dessas tecnologias por equipamentos
culturais brasileiros. Precedida por um estu-
do qualitativo sobre práticas culturais de in-
divíduos de diferentes grupos sociais (CGI.
br, 2017a), a pesquisa TIC Cultura 2016,
objeto deste artigo, é a primeira edição do
estudo quantitativo realizado junto a equipa-
mentos culturais (CGI.br, 2017b).
Assim, a pesquisa TIC Cultura
2016traz insumos para a compreensão
do cenário de infraestrutura, uso e gestão
das TIC nos equipamentos culturais brasi-
leiros, incluindo arquivos, bens tombados,
bibliotecas, cinemas, museus, pontos de
cultura e teatros. São objetivos especí-
cos do estudo mapear a infraestrutura de
TIC em equipamentos culturais públicos e
privados e investigar os usos das tecnolo-
gias nessas instituições, com foco na ges-
tão interna, no contato com os públicos e
na formação e digitalização de acervos.
Ainda que as políticas culturais se
estruturem de modo mais abrangente, os
equipamentos culturais são um importan-
te locus de efetivação do acesso à cultura,
tanto pela oferta de atividades de forma-
ção e programação cultural, quanto pela
preservação e difusão de acervos. Cons-
tituem-se, assim, como espaços privilegia-
dos para realização de diferentes etapas
do ciclo cultural – da criação e produção
à disseminação, exibição e consumo de
bens e serviços culturais (UNESCO, 2009).
No contexto brasileiro, dados da Pes-
quisa de Informações Básicas Municipais
(Munic) apontam que, em 2014, 97,1% dos
municípios possuíam ao menos uma biblio-
teca pública, 27,2% possuíam museu, 23,4%
teatro ou sala de espetáculo, 21,7% arqui-
vo público e/ou centro de documentação e
10,4% cinema (IBGE, 2015). Há, portanto,
disparidades importantes quanto à presen-
ça dos diferentes tipos de equipamentos
culturais espalhados pelo país. Dado que a
Internet apresenta-se como um importante
meio de ampliação do acesso à cultura, so-
bretudo em localidades em que os equipa-
mentos culturais não estão presentes, como
apontam os resultados do estudo qualitativo
conduzido previamente (CGI.br, 2017a), a
concentração regional dos equipamentos
amplia a importância da disponibilização de
bens e serviços culturais on-line.
Em termos metodológicos, a pesqui-
sa TIC Cultura 2016 foi conduzida através
de Entrevista Telefônica Assistida por Com-
putador (CATI) a partir de um questionário
estruturado aplicado com os principais ges-
tores dos equipamentos, preferencialmen-
te com domínio sobre o funcionamento da
instituição tanto no que se refere a aspec-
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tos administrativos quanto à infraestrutura
de computador e Internet. A coleta de da-
dos da pesquisa ocorreu entre os meses
de novembro de 2016 e abril de 2017.
O recorte estabelecido para este arti-
go trata especicamente do caso dos arqui-
vos brasileiros. Denidos de acordo com a
legislação existente, os arquivos compreen-
dem instituições que têm por nalidades a
guarda, a preservação e a disponibilização
de “conjuntos de documentos produzidos e
recebidos por órgãos públicos, instituições
de caráter público e entidades privadas, em
decorrência do exercício de atividades espe-
cícas, [...], qualquer que seja o suporte da
informação ou a natureza dos documentos”
(Lei n. 8.159, 1991). A população de referên-
cia da pesquisa é denida como os arqui-
vos cadastrados no Conselho Nacional de
Arquivos (Conarq), compreendida por 275
arquivos. Devido ao pequeno tamanho do
cadastro, foi utilizada a abordagem censitá-
ria, ou seja, todos os arquivos cadastrados
zeram parte da pesquisa. No entanto, algu-
mas das instituições não quiseram respon-
der ao questionário, de tal forma que a taxa
de resposta obtida foi de 65%.Com isso, o
peso básico de cada instituição foi corrigido
para não resposta dentro de cada região.
Ao levantar informações sobre a
apropriação das TIC pelos arquivos bra-
sileiros, a pesquisa também produziu da-
dos que caracterizam essas instituições
em diferentes aspectos. Na seção inicial
do artigo, são apresentados a distribuição
regional, o porte (denido pelo número de
pessoas que atuaram na instituição de for-
ma remunerada ou voluntária nos 12 meses
anteriores à pesquisa), a natureza jurídica
e as fontes de recursos dos arquivos, bem
como os principais indicadores de posse e
uso das tecnologias de informação e co-
municação, incluindo computador, Internet
e telefone celular. Desse modo, é possível
vericar que o grau de institucionalidade e
o escopo de atuação das instituições se re-
etem na infraestrutura de TIC disponível.
A partir disso, o artigo apresenta os
resultados acerca do uso das TIC pelos
arquivos brasileiros com foco nos indica-
dores acerca dos acervos das instituições,
que incluem os tipos de acervos formados,
o nível de digitalização e as formas de dis-
ponibilização dos mesmos, assim como
diculdades encontradas no processo de
digitalização
III
. Com isso, o recorte esta-
belecido privilegia uma análise sobre o
uso dessas tecnologias para preservação
e difusão de bens culturais que fazem par-
te do acervo dessas instituições. Por m,
conclui com alguns indicativos para uma
agenda de políticas públicas que leve em
conta as potencialidades e desaos para o
uso das TIC nos arquivos brasileiros.
Perl institucional e infraestrutura
de TIC nos arquivos brasileiros
Os arquivos brasileiros, de acordo
com os dados da TIC Cultura, eram insti-
tuições de natureza majoritariamente pú-
blica (80%), tanto de nível municipal (32%),
quanto estadual (23%) e federal (25%). Em
2016, cerca de metade dos arquivos estava
instalada em prédios públicos (52%), além
de uma proporção relevante deles utilizar
propriedade privada das instituições (18%)
e espaços alugados (15%). Outro aspec-
to que reforça o caráter público da maior
parte dos arquivos do país é o indicador
de fonte de recursos: 75% deles armaram
ter como principal fonte os órgãos gover-
namentais – sendo 30% municipais, 21%
estaduais e 24% federais.
Quanto ao tamanho e perl de suas
equipes, a pesquisa mostra que a maioria
dos arquivos não possuía voluntários e que
a maior parte deles era de pequeno e médio
portes, possuindo entre 1 e 50 pessoas que
trabalharam de forma remunerada (Tabela
1). Para além da preservação e difusão de
seus acervos, as atividades dos arquivos
eram principalmente a realização de exposi-
ções (70%) e de ocinas ou formação para
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pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
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o público (57%), o que condiz com seu cará-
ter de instituições custodiais de memória.
Com relação à infraestrutura de
TIC, em 2016 os arquivos apresentaram
as maiores proporções de posse (97%) e
uso de computador (99%) entre todos os
tipos de equipamentos culturais pesqui-
sados. Os arquivos foram também o tipo
de equipamento cultural que apresentou
os maiores percentuais de instituições
com um número maior de computadores
(40% tinham 11 ou mais computadores)
quando comparado aos demais tipos de
equipamentos investigados. O telefone
celular, por outro lado, foi usado para
ns de trabalho em apenas metade dos
arquivos (52%).
O mesmo ocorre com uso de Internet
(97%), com resultados que revelaram a uni-
versalização dessas tecnologias nesse tipo
de instituição. Ainda assim, a posse de WiFi
não estava plenamente difundida (62%),
sendo a disponibilização da conexão para o
público ainda bastante incipiente (41%).
No que se refere aos tipos de co-
nexão à Internet, os mais utilizados pelos
arquivos foram as conexões via bra ótica
(45%), a cabo (41%) e DSL (40%). A faixa
de velocidade para download mais citada
foi de 5 Mbps a 10 Mbps (14%), sendo o
percentual relevante, em comparação com
os outros tipos de equipamentos e também
com os arquivos que disseram contratar
velocidade acima de 50 Mbps (13%).
Total de arquivos (%)
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Uso das TIC na digitalização de acervos
A digitalização de acervos consiste
em procedimento de conversão de ma-
teriais para formatos digitais que tem por
objetivo, além de garantir a preservação,
promover a democratização do acesso
aos bens culturais e a difusão do conhe-
cimento, com a disponibilização dos con-
teúdos digitalizados para o público. Em
instituições de guarda e produção cultu-
ral, a promoção dessa iniciativa implica
em estudo minucioso do acervo existente,
seleção das obras a serem digitalizadas,
estudo técnico especí co acerca do pro-
cedimento a ser aplicado, recursos nan-
ceiros e tempo de planejamento e execu-
ção, bem como conhecimento do público
e avaliação do uso pretendido para o con-
teúdo digitalizado (Silva, 2005).
Diante desse quadro, os equipa-
mentos culturais brasileiros enfrentam de-
sa os impostos à organização institucio-
nal, à gestão de recursos e ao tratamento
documental para a digitalização dos acer-
vos. A pesquisa TIC Cultura busca levan-
tar informações sobre o panorama atual
dos equipamentos culturais em relação
à presença de acervos, implantação de
processos de digitalização e disponibiliza-
ção dos bens culturais em novos formatos
para os públicos.
Em 2016, a posse de acervos era
uma característica comum entre todos os
tipos de equipamentos, abrangendo quase
a totalidade de instituições entre arquivos
(98%), museus (98%), bibliotecas (97%),
bens tombados (94%) e pontos de cultura
(94%), justamente os que focalizam guar-
da e memória. Ainda assim, somente en-
tre arquivos
IV
, museus e pontos de cultura
o processode digitalização dos acervos já
estava ocorrendo na maioria das institui-
ções (Grá co 1).
Tabela 1 – Proporção de arquivos, por indicadores de per l e infraestrutura de TIC.
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pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
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Os arquivos destacam-se no que
se refere à digitalização dos acervos dada
a natureza de sua atividade e à maior pre-
sença e uso das TIC, sendo estes, em
conjunto com os cinemas, os equipamen-
tos com os maiores percentuais de posse
e uso de computador e de Internet.
Apesar da alta digitalização de acer-
vos entre os arquivos, é possível observar
diferenças entre as diversas regiões do país,
apontando para disparidades regionais na
apropriação dessas ferramentas (Grá co 2).
A região Centro-Oeste teve destaque com
85% dos arquivos que digitalizam acervo,
seguida da região Sul com 80%. A diferença
entre a região Norte (27%) e as demais regi-
ões é signi cativa, porém, pela margem de
erro, não se pode a rmar que há diferenças
entre as demais regiões.
Grá co 1 – Proporção de equipamentos culturais, por posse,
digitalização e disponibilização de acervo digitalizado para o público.
Grá co 2 – Proporção de arquivos que digitalizam acervo, por região.
Total de equipamentos culturais (%)
Total de equipamentos culturais (%)
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Ano 9, número 16, semestral, out/2018 a mar/ 2019
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Ainda que a posse de acervos fos-
se quase generalizada, os tipos de mate-
riais que compunham as coleções apre-
sentaram variações conforme o per l e
escopo de atuação das instituições. Em
relação aos tipos de acervos existentes,
os arquivos apresentaram maior presen-
ça de documentos históricos ou registros
arquivísticos (91%), manuscritos ou do-
cumentos originais (85%), livros, revis-
tas ou jornais (83%) e fotogra as, car-
tazes, mapas ou partituras (82%). Com
exceção da categoria de livros, revistas
ou jornais, a maioria das instituições es-
tava digitalizando ou já havia digitaliza-
do esses tipos de acervos (Grá co 3).
Grá co 3 – Proporção de arquivos, por tipo de acervo existente e digitalizado.
Total de equipamentos culturais (%)
A maior parte das instituições, no
entanto, havia digitalizado menos da me-
tade dos itens de seus acervos (Grá co
4). Nesse aspecto, é preciso considerar
que os percentuais variam tanto em re-
lação à presença dos diferentes tipos de
acervos nas instituições, como também
dados os diversos tipos de materiais,
que implicam em diferentes processos
de digitalização. Ainda assim, trata-se
de um processo ainda incipiente, mesmo
entre as instituições que tem como obje-
tivo a guarda e preservação de acervos,
como é o caso dos arquivos.
136
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
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Total de equipamentos culturais (%)
Grá co 4 – Proporção de arquivos, por quantidade de acervo digitalizado.
As di culdades para digitalização
de acervos mencionadas correspondiam
à falta de nanciamento (79%),seguida
da falta de equipe quali cada (60%). En-
tre os arquivos, como principal di culda-
de mencionada destacou-se a falta de
nanciamento, citada por 60% das insti-
tuições (Grá co 5).
Grá co 5 – Proporção de arquivos, por di culdades de digitalização.
Total de equipamentos culturais (%)
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Ano 9, número 16, semestral, out/2018 a mar/ 2019
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Cabe notar que as di culdades
para digitalização relacionadas às restri-
ções colocadas por direitos autorais foram
mencionadas por apenas 14% dos arqui-
vos. Aqui, é preciso considerar que a res-
trição colocada pelos direitos autorais está
relacionada sobretudo ao uso que é feito
do acervo digitalizado, em especial no que
se refere à distribuição da cópia. Nesse
sentido, a ausência de tais restrições den-
tre as principais di culdades para a digi-
talização de acervos pode ser entendida
também por sua baixa disponibilização.
Isso porque, ainda que a disponibi-
lização do acervo digitalizado para o públi-
Grá co 6 – Proporção de arquivos, por forma de disponibilização do acervo digitalizado.
Total de equipamentos culturais (%)
co ocorresse em mais da metade dos ar-
quivos (61%) (Grá co 1), de modo geral a
disponibilização desses materiais em for-
mato digital não ocorria em websites das
instituições, websites de terceiros, per s
ou páginas em redes sociais. O acesso era
majoritariamente ofertado nos locais de
funcionamento das próprias instituições,
sendo estes mencionados por 59% dos
arquivos. Já a disponibilização em pelo
menos uma plataforma digital (como Fa-
cebook, YouTube, Instagram, Wordpress
ou Blogspot ou WhatsApp) ocorreu em
40% dos arquivos e a disponibilização nos
websites das instituições foi mencionada
por apenas 30% dos arquivos (Grá co 6).
Tais indicadores revelam que,
mesmo nos casos em que o acervo foi
digitalizado, sua disponibilização na In-
ternet foi menor do que seu acesso ofer-
tado de forma presencial. Assim, a digi-
talização de acervos, além de incipiente,
parece estar mais voltada à preservação
dos materiais que à sua difusão. Aqui,
novamente, os dados mostram um con-
texto em que as TIC poderiam ampliar
formas de acesso aos bens culturais,
com possibilidades que ainda não estão
sendo plenamente aproveitadas entre os
arquivos brasileiros.
138
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
Considerações nais:
Agenda para políticas públicas
A pesquisa TIC Cultura investiga o
uso das tecnologias de informação e comu-
nicação no campo da cultura, tendo como
horizonte subsidiar as políticas culturais em
âmbito nacional e as agendas internacio-
nais relativas à promoção dos direitos cul-
turais, frente aos desaos postos pela so-
ciedade da informação e do conhecimento.
Devido às poucas estatísticas dis-
poníveis a respeito do setor, o levanta-
mento de indicadores sobre o uso que os
equipamentos culturais fazem das TIC é
fundamental. Os dados obtidos pela in-
vestigação visam contribuir, em especial,
para a formulação de políticas públicas
especícas da área, de forma a gerar in-
sumos para gestores públicos, pesquisa-
dores, prossionais da cultura, instituições
culturais, academia e sociedade civil.
No que diz respeito especicamen-
te aos arquivos brasileiros, os indicadores
mostram que a infraestrutura de TIC está
bastante presente nessas instituições, so-
bretudo se comparada a outros tipos de
equipamentos culturais (CGI.br, 2017b). O
uso dessas tecnologias para a digitalização
de acervos, no entanto, ainda que seja re-
alizada pela maior parte das instituições e
se destaque também na comparação com
outros tipos de equipamentos culturais, é
incipiente. A maior parte dos arquivos havia
digitalizado menos da metade dos itens de
seus acervos, sendo a falta de nanciamen-
to e de qualicação das equipes as princi-
pais barreiras apontadas para a digitaliza-
ção. Mesmo entre aqueles que possuíam
acervo digitalizado, a maior parte o disponi-
bilizava para o público na própria instituição
e não de forma on-line, parecendo indicar
que a digitalização está mais voltada à pre-
servação que à difusão desses materiais.
Assim, o aprimoramento do uso das
TIC entre os arquivos brasileiros é de funda-
mental importância para o maior desenvolvi-
mento do processo de digitalização e disponi-
bilização dos acervos, revelando um potencial
ainda pouco explorado dessas ferramentas
para ampliação do acesso à cultura.
Para alterar esse cenário, as polí-
ticas públicas precisam ter foco no inves-
timento nanceiro e na capacitação de
recursos humanos para a digitalização,
de modo que tais instituições possam am-
pliar a oferta de bens e serviços culturais
pela Internet, disponibilizando-os de forma
mais ampla e acessível para a população.
Referências
COMITÊ GESTOR DA INTERNET NO BRASIL – CGI.
br. Cultura e tecnologias no Brasil: Um estudo sobre as
práticas culturais da população e o uso das tecnolo-
gias de informação e comunicação. São Paulo: CGI.br,
2017a. Disponível em:<http://cetic.br/publicacao/cultu-
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COMITÊ GESTOR DA INTERNET NO BRASIL
– CGI.br. Pesquisa sobre o uso das tecnologias
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culturais brasileiros: TIC Cultura 2016. São Paulo:
CGI.br, 2017b. Disponível em <http://cetic.br/publi-
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139
Ano 9, número 16, semestral, out/2018 a mar/ 2019
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
Lei n. 8.159, de 8 de janeiro de 1991. Dispõe sobre
a política nacional de arquivos públicos e privados
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Acesso em 20 jul. 2017.
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cao%20de%20acervos.pdf>. Acesso em 20 set. 2017.
Recebido em 21/12/2018
Aprovado em 24/01/2019
I Luciana Piazzon Barbosa Lima. Mestre em Estu-
dos Culturais pela Escola de Artes, Ciências e Huma-
nidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP).
coordena a pesquisa TIC Cultura no Centro Regional
de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da
Informação (Cetic.br). São Paulo, Brasil. Contato: lu-
ciana@nic.br
II Isabela Bertolini Coelho. Mestre em Estatística
pelo Instituto de Matemática e Estatística da Univer-
sidade de São Paulo (IME-USP) Estatística no Cen-
tro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da
Sociedade da Informação (Cetic.br). São Paulo, Bra-
sil. Contato: isabela@nic.br
III A pesquisa completa apresenta também indicadores
sobre a presença das instituições na Internet por meio
de websites e redes sociais e sobre as atividades rea-
lizadas na rede, incluindo ações de comunicação, ges-
tão, governo eletrônico, relacionamento com o público
e recursos oferecidos em plataformas digitais. Além
desses, também traz informações sobre a gestão de
TI nessas instituições e a percepção das contribuições
e barreiras trazidas pelo uso de computador e Internet.
Para acesso a todos os indicadores, ver: http://cetic.br/
pesquisa/cultura/indicadores
IV Nos arquivos brasileiros, o estímulo à gestão de
documentos digitais teve amparo institucional através
da Câmara Técnica de Documentos Eletrônicos, um
grupo de trabalho multidisciplinar que teve por objetivo
“denir e apresentar ao Conselho Nacional de Arqui-
vos normas, diretrizes, procedimentos técnicos e ins-
trumentos legais sobre gestão arquivística e preserva-
ção dos documentos digitais, em conformidade com os
padrões nacionais e internacionais”(Conselho Nacional
de Arquivos [Conarq], n.d., para. 2).
140
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
Resumen:
Se presentan las principales políticas, líneas de actuación, estrategias
y marcos de referencia de la Unión Europea respecto a uno de los
proyectos más importantes en materia de digitalización del patrimonio
cultural europeo: Europeana. Se hace un recorrido por los derechos de
autor y las 14 declaraciones de derechos que admite Europeana, y se
pone en relación con el uso y reutilización de los objetos digitales. Se
presentan los cuatro niveles de publicación que establece el Marco de
Publicación de Europeana, así como la Estrategia de Contenidos que
da prioridad a la calidad de lo digitalizado, más que a la cantidad, y a las
necesidades de los usuarios.
Palabras clave:
Europeana
Digitalización
Patrimonio cultural
europeo
Biblioteca digital
Patrimonio cultural europeo digitalizado: Europeana
European digital cultural heritage: Europeana
Patrimônio cultural digital europeu: Europeana
María-Antonia Garcia-Moreno
I
Tony Hernández-Pérez
II
141
Ano 9, número 16, semestral, out/2018 a mar/ 2019
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
Abstract:
The main policies, lines of action, strategies and reference frameworks
of the European Union are presented with respect to one of the
most important projects in the area of digitization of the European
cultural heritage: Europeana. A tour of the copyright and the 14 rights
declarations that Europeana admits is made, and it is related to the use
and reuse of digital objects. The four levels of publication established
by the Europeana Publication Framework are presented, as well as the
Content Strategy that gives priority to quality of digitized material, rather
than quantity and the need to improve usability and user needs.
Resumo:
As principais políticas, linhas de acção, estratégias e estrutura de
referência da União Europeia são apresentadas no que diz respeito
a um dos projectos mais importantes no domínio da digitalização do
património cultural europeu: Europeana. Uma revisão dos direitos
autorais e 14 declarações de direitos que a Europeana admite serem
feitas, e está relacionado ao uso e reutilização de objetos digitais.
São apresentados os quatro níveis de publicação estabelecidos pelo
Europeana Publication Framework, bem como a Estratégia de Conteúdo
que prioriza a qualidade dos objetos digitalizados e não a quantidade e
e usabilidade e as necessidades dos usuários.
Keywords:
Europeana
Digitization
European Cultural
Heritage
Digital Library
Palavras-chave:
Europeana
Digitalização
Patrimônio cultural
europeu
Biblioteca digital
142
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
Patrimonio cultural
europeo digitalizado: Europeana
Introducción
Unesco dene el patrimonio cultural
como “el legado de los artefactos físicos y
los atributos intangibles de un grupo o so-
ciedad heredados de generaciones pasa-
das, mantenidos en el presente y otorgado
para el benecio de las generaciones futu-
ras” (UNESCO, 1972). Su visión del patri-
monio se ha ido modicando con el tiempo
y distingue entre:
● Patrimonio tangible: compuesto por
patrimonio mobiliario como esculturas,
pinturas, monedas o manuscritos; monu-
mentos inmobiliarios, sitios arqueológi-
cos y otros lugares y el patrimonio cultu-
ral subacuático.
Patrimonio intangible: como las tradi-
ciones orales, las artes escénicas, la arte-
sanía o los rituales.
Patrimonio natural: paisajes cultura-
les y formaciones geológicas, biológi-
cas o físicas.
Patrimonio cultural en peligro de destruc-
ción o por saqueo en conictos armados.
Desde 2007, fecha en que se
aprueba la Agenda Europea para la Cul-
tura, el patrimonio cultural ha sido una
prioridad para la Unión Europea. El reco-
nocimiento a la importancia del patrimo-
nio cultural se vio reejado en las con-
clusiones del Consejo Europeo de mayo
de 2014, al considerarlo como un recur-
so estratégico para una Europa sosteni-
ble. La Nueva Agenda europea para la
Cultura comenzará en 2019 y no hace
sino reforzar la idea de que es necesario
“proteger y promover el patrimonio cul-
tural europeo como recurso compartido,
con el n de sensibilizar a las personas
en torno a nuestra historia y valores co-
munes y reforzar el sentido de la iden-
tidad común europea”.(COMISIÓN EU-
ROPEA, 2018b)
En Europa el patrimonio cultural
pasó de entenderse como un conjunto
de obras literarias, artísticas, lugares
históricos, lenguas, costumbres y otros
intangibles que son necesarios preser-
var y que suponen un coste, a recono-
cerse que el patrimonio cultural con-
tribuye a una mayor cohesión social y
produce beneficios económicos, no sólo
en términos de turismo, sino que tam-
bién contribuye al crecimiento econó-
mico, del empleo y de la sostenibilidad
medioambiental (COMISIÓN EURO-
PEA, 2015). El patrimonio cultural se ha
convertido pues en un elemento más de
la Estrategia para el Mercado Único Di-
gital en Europa.
Ese cambio de percepción, el pa-
trimonio cultural como elemento que con-
tribuye al desarrollo de una economía ba-
sada en lo digital, provocó el desarrollo
de políticas sobre el patrimonio cultural
digital de la Unión Europea (UE). Estas
políticas se aplicaron en torno a tres ejes
fundamentales:
1. La directiva del Parlamento Europeo
y del Consejo relativa a la reutilización
de la información del sector público cuya
primera versión es de 2003, y que se
basa en el principio general de que to-
dos los documentos de bibliotecas, ar-
chivos y museos deberían ser reutiliza-
bles para propósitos comerciales y no
comerciales, y que promueve que estos
documentos estén disponibles en abier-
to, junto con sus metadatos, en formatos
interoperables y con estándares abiertos
PARLAMENTO EUROPEO; CONSEJO
EUROPEO, 2018c)
143
Ano 9, número 16, semestral, out/2018 a mar/ 2019
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
2. La recomendación de la Comisión
sobre la digitalización y accesibilidad en
línea del material cultural y la conser-
vación digital, que insta a los estados
miembros de la Unión Europea a tomar
acciones para cooperar e involucrar al
sector privado en la digitalización de su
material cultural con el n de incrementar
la visibilidad del patrimonio cultural euro-
peo y estimular el crecimiento de las in-
dustrias creativas en Europa (COMISIÓN
EUROPEA, 2011).
3. Y toda la legislación relativa al co-
pyright, incluyendo la normativa especial
sobre obras huérfanas, que mencionare-
mos más tarde.
Alrededor de estas normas, la UE
ha desarrollado un Plan de trabajo en
materia de cultura (2015-2018) (CONSE-
JO EUROPEO, 2014), que subraya que
la digitalización del contenido cultural y
los servicios digitales pueden ayudar a
promover la expansión de redes de tu-
rismo trans-europeo y una Nueva Agen-
da europea para la cultura, que también
resalta el papel de la digitalización y la
co-creación para superar las fronteras
artísticas y económicas. (PARLAMEN-
TO EUROPEO; CONSEJO EUROPEO,
2018c). Sobre estas bases, la UE ha -
nanciado y puesto en marcha proyectos
para asegurar el desarrollo de tecnolo-
gías y estándares para la digitalización,
el acceso y el uso o la experiencia con el
patrimonio cultural europeo. Y, al mismo
tiempo, ha contribuido a nanciar lo que
posiblemente represente la infraestruc-
tura más importante en el campo de las
bibliotecas: Europeana.
Digitalización y derechos de autor
Los antecedentes a los progresos
de digitalización en Europa, con un análi-
sis estadístico pormenorizado, incluyendo
datos sobre costes de digitalización, los
explican bien Agenjo y Campillejo (2015).
La planicación y el seguimiento de las
actividades de digitalización que se nan-
ciaban han sido aspectos claves en los
avances de la digitalización en Europa y
la encuesta ENUMERATE (JAN NAUTA;
HEUVEL; TEUNISSE, 2017) ha permitido
medir el progreso de la digitalización en
los distintos estados miembros de la UE.
La recomendación sobre la reutili-
zación de la información en el sector pú-
blico (PARLAMENTO EUROPEO; CON-
SEJO EUROPEO, 2003) se convirtió en
un instrumento útil para que los distintos
gobiernos pusieran en marcha políticas
y actividades coordinadas de digitaliza-
ción. Los esquemas de planificación han
sido diferentes: de acuerdo a un infor-
me sobre el progreso de la implementa-
ción de la directiva (COMISIÓN EURO-
PEA, 2016), 10 estados miembros de
la UE pusieron en marcha estrategias
nacionales para incrementar el número
de obras digitalizadas, otros 6 países
optaron por estrategias ministeriales,
más orientadas a temas específicos,
mientras que algunos países impulsa-
ron planes regionales o promocionaron
estrategias de instituciones individuales
con acuerdos con instituciones priva-
das (Google, Telefónica, FamilySearch,
Kone Foundation, etc)
En cualquier caso, la estrategia
de “libertad de organización” parece ha-
ber sido correcta, permitiendo que cada
país se adaptara a su situación particu-
lar. Para algunos ha sido más sencillo
optar por una política nacional común
de digitalización, mientras que en otros
se ha permitido a cada institución avan-
zar más lenta o rápidamente en función
de su capacidad y de sus recursos. No
parece haber grandes diferencias, al
menos en cuanto a la cantidad compa-
rada de digitalización, entre uno y otro
enfoque. En todos los casos, lo que sí
se pedía era el uso de estándares abier-
144
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
tos y que todo lo digitalizado se pusiera
accesible a través de Europeana, una
especie de portal del patrimonio cultural
europeo digitalizado.
Cada país de la UE ha tenido li-
bertad para jar sus prioridades de di-
gitalización, basados en medidas, sobre
todo, cuantitativas. En general, se puede
decir que las cinco grandes prioridades,
por orden, han sido:
1. Digitalización de recursos culturales de
bibliotecas y archivos.
2. Digitalización de colecciones de museos.
3. Digitalización de monumentos, edi-
cios históricos y lugares arqueológicos,
algunos centrados en proyectos de digi-
talización 3D.
4. Digitalización del patrimonio audiovisual.
5. Digitalización de cultura intangible.
En enero de 2016 Europeana ya
había alcanzado los 48,838,150 objetos
digitalizados y había logrado, por tanto,
su objetivo de 30 millones de ítems para
nal de 2015, que era lo que establecía
la recomendación sobre digitalización
(COMISIÓN EUROPEA, 2011). Los ob-
jetos audiovisuales digitalizados para
esa fecha también habían alcanzado los
1,958,957 objetos, el 98% del objetivo -
jado para nales de 2015. A medida que
se ha ido avanzando en la digitalización
de contenidos ha sido necesario jar
unas mínimas características de calidad,
que se han ido deniendo de acuerdo a
las guías técnicas, los estándares y las
especicaciones generadas en gran-
des proyectos, muchas de ellas accesi-
bles hoy a través del proyecto Succeed
(https://www.digitisation.eu/).
La digitalización de los fondos ha
permitido el desarrollo de normas para la
curación, la preservación y la restauración
del patrimonio cultural. Ha permitido el ac-
ceso en línea a numerosas obras cultura-
les, libros, cuadros, música y otros mate-
riales, desde cualquier lugar y en cualquier
momento. Y ha permitido el desarrollo de
material educativo, aplicaciones informáti-
cas y otros proyectos para conocer y ha-
cer uso de dicho patrimonio.
La estrategia para afrontar los pro-
yectos de digitalización ha pasado por
priorizar la digitalización de las obras que
no ofrecían dudas sobre que ya estaban
en el dominio público. El tiempo para que
una obra, literaria, artística o cientíca,
pase al dominio público varía de país a
país, puede ir desde los 50 a los 100 años
desde el fallecimiento del autor. En Espa-
ña, el tiempo para que una obra pase al
dominio público es de 70 años a partir de
la muerte del autor. Y, por tanto, una de
las primeras fases de cualquier proyecto
debería consistir en identicar qué obras
están ya en dominio público.
En los proyectos de digitalización,
la existencia de obras que las institu-
ciones culturales consideraban que de-
berían digitalizarse hicieron aorar muy
pronto la existencia de numerosas obras
huérfanas, un patrimonio cultural riquí-
simo sobre el que resultaba muy difícil
averiguar a quién correspondía los dere-
chos de autor. Para solventar la situación
la UE aprobó una directivasobre ciertos
usos autorizados de las obras huérfanas
(CONSEJO EUROPEO, 2012) para pro-
piciar su digitalización y puesta a dispo-
sición en línea con todas las garantías
legales para los archivos y bibliotecas.
El problema de estas obras huér-
fanas, protegidas por derechos de autor,
pero cuyos autores u otros titulares de
derechos no pueden ser identicados o
localizados, ha sido de tal importancia
que la EUIPO, la Ocina de Propiedad
Intelectual de la Unión Europea, ha crea-
145
Ano 9, número 16, semestral, out/2018 a mar/ 2019
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
do una base de datos de obras huérfa-
nas, la Orphan Works Database. Esta
base de datos facilita “información sobre
las obras huérfanas contenidas en las
colecciones de bibliotecas, centros de
enseñanza y museos accesibles al pú-
blico, así como archivos, organismos de
conservación del patrimonio cinemato-
gráco o sonoro y organismos públicos
de radiodifusión establecidos en los Es-
tados miembros” (EUIPO, 2018).
La base de datos permite, tanto
hacer uso de obras huérfanas en pro-
yectos de digitalización, como identificar
y dar de alta aquellas obras huérfanas
descubiertas. Y, al mismo tiempo, sirve
para que los titulares de derechos de
alguna obra huérfana puedan ponerse
en contacto con las organizaciones que
están haciendo uso de ellas y poner fin
a su condición de obras huérfanas re-
clamando sus derechos. Existen otras
bases de datos que también contribuyen
a resolver dudas sobre las obras huér-
fanas, como ARROW (AccessibleRe-
gistriesofRightsInformation), IDA (Inter-
national Documentationon Audiovisual
works) y otras.
Acceso y reutilización de los conteni-
dos digitalizados
La digitalización cobra todo su
sentido cuando no sólo se preserva sino
cuando los contenidos digitalizados se
ponen a disposición del público para
su utilización y reutilización, sin restric-
ciones. Poner accesible los contenidos
digitalizados ha supuesto nuevos retos
para los archivos y las bibliotecas, como
superar el miedo a pensar que la digita-
lización hace que se pierdan usuarios
que visitan físicamente la biblioteca o
el temor a que otros puedan copiar la
obra digitalizada. Afortunadamente, ya
casi nadie sigue usando las invasivas
marcas de agua. Pero, probablemente,
el reto principal ha sido el de resolver la
incertidumbre legal sobre los posibles
derechos de autor cuando los trabajos
eran digitalizados.
Las estrategias para promocionar
el acceso y la reutilización de los conteni-
dos digitalizados por las instituciones eu-
ropeas pasan por:
Asegurar, mediante las licencias adecua-
das, que el material que ya está en dominio
público permanecerá en el dominio público.
● Animar a todas las instituciones a com-
partir, al menos los metadatos de estos ob-
jetos culturales, mediante licencias CC0.
Promover el acceso más amplio posible
de los materiales digitalizados y en domi-
nio público para su reutilización, con o sin
propósitos comerciales.
Implicar a los usuarios a través de visitas
virtuales, exposiciones virtuales, visualiza-
ciones 3D para colaborar con instituciones
educativas o centros de innovación o ca-
pacitación de tal forma que se utilicen los
materiales digitalizados, incentivándolo, a
veces, con premios, o con concursos que
sirvan para estimular la innovación en el
uso de estos materiales.
Publicitar su existencia y su uso a
través de wikis, blogs, hackathones, pá-
ginas web o campañas en prensa o en
medios sociales, como lo ha hecho la Bi-
blioteca Nacional de España con la serie
“El Ministerio del Tiempo” (RODRÍGUEZ-
MATEOS; HERNÁNDEZ-PÉREZ, 2015).
Tomar las medidas que sean necesarias
para limitar el uso de marcas de agua u
otras protecciones visuales que reduzcan
la usabilidad del material digitalizado.
Estimular a todas las instituciones cultu-
rales, editores y propietarios de derechos
para que utilicen Europeana como plata-
146
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
forma para poner ese material digitalizado
disponible para todo el mundo.
La necesidad de ser interoperable
con Europeana y con el resto de institu-
ciones culturales ha estimulado el creci-
miento de acuerdos, a escala nacional o
regional, para tener recomendaciones y
directrices comunes sobre los procesos
de digitalización, los formatos o los meta-
datos. Europeana ha promovido también
el acceso a sus contenidos a través de
APIs y de forma experimental en forma-
to de datos abiertos enlazados, lo que ha
permitido nuevas y creativas formas de
acceder al contenido a través de apps y
otros programas, muchos de ellos espe-
cícamente orientados hacia las escue-
las para reutilizar todos estos recursos.
La reducción de la usabilidad de
algunos materiales digitalizados ha sido,
hasta ahora, norma común. Muchas ve-
ces, las imágenes se ofrecen con marcas
de agua o a baja resolución y si alguien
desea imágenes a una resolución mayor
o sin marcas, se cobra por el servicio. No
se trata tanto de un tema de derechos
sino de cobrar por un servicio, lo que es
especialmente conveniente para los in-
gresos de algunos museos.
Afortunadamente, aunque aún de-
masiado despacio, esta práctica va de-
cayendo. Por ejemplo, el Rijksmuseum
de Amsterdam ya permite a todo el mun-
do la reutilización gratuita de su material
digitalizado de dominio público en for-
mato de alta resolución. No ha sido la
única institución, también el Museum für
Kunstund Gewerbe (MKG) de Hamburgo
ha hecho algo parecido, aunque estos
ejemplos siguen siendo excepcionales.
Preservación del material digitalizado
Las estrategias de preservación a
largo plazo del material digitalizado en la
UE dieren de país a país. Alemania y
Suecia han creado organismos especí-
camente dedicados a este n mientras
que en la mayoría de países se limitan
a poner en marcha esquemas o planes
de preservación limitados a algún sec-
tor o institución especíca. En España,
por ejemplo, el Ministerio de Cultura dis-
pone de una Política de gestión de do-
cumentos electrónicos “con directrices,
esquema de metadatos, estándares, etc.
para la gestión de los documentos y ex-
pedientes electrónicos (…) con el n de
garantizar su preservación para genera-
ciones futuras y facilitar el acceso a la
información pública”, (MINISTERIO DE
CULTURA, 2016), pero no se aplica en
otros ministerios.
La política de preservación digital
del Archivo Nacional en España está ba-
sada en el mantenimiento de múltiples co-
pias en formato digital (cintas LTO3) y en
formato analógico (microlm de imágenes
digitales) así como migraciones y conver-
siones periódicas de formato. Pero, como
decíamos anteriormente, lo que puede
funcionar para un ministerio no se aplica
en otro y lo que se hace en un país de la
UE aún diere, en cuanto a preservación,
de lo que se hace en otros.
La mayor parte de los países han
comenzado a dictar normas para per-
mitir cambios de formato y migraciones
digitales de material cultural con fines
específicos de preservación, así como
una amplia preocupación por los pro-
yectos de preservación de los conteni-
dos web a largo plazo, como el Archivo
de la Web Española (http://www.bne.es/
es/Colecciones/ArchivoWeb/). Sin em-
bargo, excepto para el material fílmico,
aún es necesario reforzar la legislación
sobre el depósito legal de materiales
nacidos en formato digital con el fin de
garantizar su preservación a largo pla-
zo. En España, por ejemplo, está ya re-
gulado por el Real Decreto 635/2015,
147
Ano 9, número 16, semestral, out/2018 a mar/ 2019
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
de 10 de julio, sobre el depósito legal
de las publicaciones en línea, pero aún
faltan algunos países por tener una le-
gislación similar.
Merece la pena destacar la exis-
tencia de centros de competencia digital
en materia de digitalización, nacidos al
amparo de diferentes proyectos euro-
peos. Tres grandes ejemplos de estas
iniciativas en donde se intercambia infor-
mación muy valiosa son: PrestoCentre
(https://www.prestocentre.org/) para el
material audiovisual; el ya mencionado
Impact, para el material textual (https://
www.digitisation.eu/); o el DCH-RP Digi-
tal Cultural HeritageRoadmapforPreser-
vation (http://www.dchrp.eu/)
Europeana
Justo ahora, en 2018, se cumplen
diez años de la puesta en funcionamiento
de Europeana, proyecto europeo común
que da acceso online a su patrimonio
digital (CONSEJO EUROPEO, 2008).
La política europea de digitalización del
patrimonio promueve que una vez digi-
talizado los objetos digitales estén, ade-
más, accesibles a través de Europeana,
una plataforma que permite el acceso a
ese patrimonio digital. Europeana pro-
porciona acceso a más de 58 millones
de objetos digitales (texto, imagen, soni-
do, vídeo y material en 3D) procedentes
de 3700 bibliotecas, archivos, museos,
galerías y colecciones audiovisuales,
que conforman el patrimonio cultural
europeo depositado en instituciones de
memoria y cultura de los países miem-
bros de la Unión.
En su forma actual, Europeana es
una plataforma de internet que permi-
te el acceso multilingüe al patrimonio
cultural digital perteneciente a institu-
ciones del patrimonio cultural… cuya
nalidad es crear valor de cara a los
usuarios nales, los Estados Miem-
bros, las instituciones del patrimonio
cultural, la reutilización creativa y con
nes de investigación. (CONSEJO
EUROPEO, 2016)
Las políticas europeas relativas al
patrimonio cultural digital y digitalizado
se han apoyado en acciones, directrices,
recomendaciones y resoluciones promo-
vidas al amparo de las instituciones de
la Unión: Consejo (CONSEJO EURO-
PEO, 2014), Comisión (COMISIÓN EU-
ROPEA, 2011) y Parlamento Europeo
(PARLAMENTO EUROPEO, 2010), y
tienen como base los Artículos 167.1 y
167.4 del Tratado de Funcionamiento de
la Unión Europea, donde se maniesta el
compromiso de contribuir al orecimiento
de las culturas de los Estados Miembros,
poniendo de relieve el patrimonio cultural
común, respetando y fomentando la di-
versidad de las culturas.
En 2016, el Consejo de la Unión
Europea hacía público los avances con-
seguidos en la digitalización, acceso on-
line y conservación digital del patrimonio
cultural (CONSEJO EUROPEO, 2016),
estimando, según datos de ENUMERA-
TE (ENUMERATE, 2014), que se había
digitalizado el 10% del patrimonio cultu-
ral europeo y un tercio del mismo dis-
ponible online. Gracias al trabajo de las
instituciones del patrimonio cultural y de
los grupos de expertos que han interve-
nido en su desarrollo, Europeana ha sido
capaz de promover la aceptación, desa-
rrollo y uso de normas y modelos para
compartir contenidos y metadatos.
Desde el proyecto inicial de Euro-
peana hasta ahora, se han ido suman-
do a las bibliotecas, archivos y museos,
otras instituciones como proveedoras de
materiales digitales: lmotecas, fonote-
cas, productoras de radio y televisión,
galerías de arte, incluso algunas apor-
taciones de ciudadanos europeos: fo-
148
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
tos, cartas y memorias orales (AGENJO
BULLÓN; HERNÁNDEZ CARRASCAL,
2018). Las prioridades de actuación de
Europeana, además de las dirigidas a
las instituciones de memoria y cultura, se
han extendido a otros sectores: educati-
vos, de investigación, industria creativa
o turismo. De hecho, se presenta como
una plataforma cuyos contenidos pue-
den ser utilizados por un abanico amplio
de usuarios, no solo profesionales de las
instituciones de memoria y cultura, sino
por cualquier ciudadano interesado en
alguna de sus colecciones.
Europeana tiene como objetivo
primordial facilitar el conocimiento a la
cultura y la historia de Europa y a ello
debe añadir el de conectar todo el patri-
monio cultural europeo, lo que supone,
por ejemplo, que las instituciones cultu-
rales puedan compartir colecciones y, al
mismo tiempo, que se puedan reutilizar
e intercambiar sus contenidos, siem-
pre respetando los derechos de autor.
De manera que en el camino recorrido
contabiliza muchos avances, algunos
se han convertido en valores de marca,
como el modelo europeo de datos EDM,
exportado a proyectos no europeos
como la Digital Public Library ofAmeri-
ca (DPLA); pero también debe afrontar
importantes retos relacionados con la
calidad de los contenidos, la posibilidad
de compartir y reutilizar los datos, la fa-
cilidad de uso, la visibilidad, declaracio-
nes de dominio público y derechos de
autor, su propia gestión, mantenimiento
y financiación.
El Marco de Publicación de Europeana
(MPE)
Para apoyar la visión de “trans-
formar el mundo a través de la cultura”
(EUROPEANA, 2015), Europeana tra-
baja para que los contenidos que ofre-
ce sean atractivos, de calidad, útiles, de
fácil descubrimiento, uso y acceso rápi-
do. Por ello pide a los proveedores de
datos que proporcionen buenos meta-
datos y, siempre que sea posible, el ac-
ceso a los objetos digitales. Es por esto
por lo que la información, para que pue-
da ser incluida en Europeana debe pre-
sentarse siguiendo el modelo de datos
EDM(EUROPEANA, 2017b), un formato
de agregación que se emplea en Euro-
peana Collections y cuyas especicacio-
nes aparecen en la Guía de publicación
de Europeana (EUROPEANA, 2017a).
De tal forma que información relevante
como puede ser el acceso al objeto digi-
tal se facilite a través de elementos del
modelo EDM tales como:
edm: object El enlace al objeto se
utiliza para crear una vista previa
edm: is Shown At Enlace a un sitio web
que contiene el objeto digital
edm: is Show By Enlace directo al ob-
jeto digital
edm: rigths La declaración de de-
rechos que se haya denido para el objeto
Estos elementos que identican el
acceso al objeto digital se relacionan con
los cuatro niveles o escenarios de publi-
cación que establece el Marco de Publi-
cación de Europeana (MPE) con el slogan
“lo que das es lo que obtienes” (EURO-
PEANA, 2016):
Nivel 1. Europeana como motor de
búsqueda. “Quiero que la gente encuen-
tre mis colecciones”. Este escenario está
pensado para aquellas instituciones que
quieren estar más visibles y localizables
a través de la plataforma de europeana.
eu pero de momento preeren que sus
contenidos no estén incluidos en Euro-
peana Collections. Utilizan Europeana
para atraer a más usuarios y conseguir
más tráco hacia sus sitios web. En este
149
Ano 9, número 16, semestral, out/2018 a mar/ 2019
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
escenario las instituciones deben facili-
tar una vista previa al objeto digital de
al menos 400 píxeles de ancho. Lo que
obtienen las instituciones en este Nivel
1 de participación son más referencias y
tráco hacia sus sitios web.
Nivel 2. Europeana como escapa-
rate. “Quiero que la gente encuentre y
visualice mis colecciones en Europea-
na”. En este nivel de publicación los
contenidos forman parte de las coleccio-
nes temáticas que ofrece Europeana. El
usuario no tiene que ir a otro sitio web
para visualizar, consultar o descargar
el objeto digital, sino que lo hace en el
contexto de una colección de Europea-
na (Moda, Arte, Deportes, Música…). La
institución proporciona un enlace directo
a la imagen (objeto digital) con un ancho
mínimo de 800 píxeles. Lo que obtienen
las instituciones en este Nivel 2 de parti-
cipación es una mayor presencia en Eu-
ropeana Collections.
Nivel 3. Europeana como platafor-
ma de distribución. “Quiero que la gente
encuentre, visualice y utilicen mis colec-
ciones, pero sin benecios comerciales”.
Las colecciones se visualizan en Euro-
peana Collections con un nivel de cali-
dad alta para que puedan reutilizarse, se
recomienda 1200 píxeles de ancho para
imágenes. Los proveedores ofrecen ob-
jetos digitales con licencias que permiten
la reutilización no comercial. Pueden in-
corporarse a proyectos y colaboraciones
en los que está inmersa Europeana (His-
toriana, Europeana Research…). Lo que
obtienen es una mayor presencia en Eu-
ropeana y en otros sitios web y servicios
no comerciales.
Nivel 4. Europeana como platafor-
ma de libre reutilización. “Quiero que la
gente encuentre, visualice y utilice mis
colecciones como quieran”. Las colec-
ciones deben estar libres de derechos,
por lo que deben disponer de la corres-
pondiente declaración de derechos que
permita su libre reutilización. Los datos
pueden ser utilizados en plataformas
abiertas como Wikimedia y en redes so-
ciales; pudiendo incorporarse a otros pro-
yectos (Europeana Labs, Field Trip…). Lo
que obtienen es una gran difusión de sus
contenidos, tanto en el contexto de Euro-
peana Collections como fuera de ella, en
servicios comerciales y no comerciales.
En todos los niveles de publica-
ción, las instituciones proveedoras de
contenidos se hacen más visibles y se
localizan fácilmente en la medida que su
información está indexada en los princi-
pales motores de búsqueda y disponible
en un formato estándar. Además, se be-
necian de la tecnología Linked Data que
emplea Europeana, de manera que cuan-
do alguien busque en Europeana conte-
nido relacionado con alguna institución
proveedora de información, aparecerá
relacionado con ella.
Con el Marco de Publicación Eu-
ropeana (MPE) pretende animar a las
instituciones a que compartan sus colec-
ciones atendiendo a las estrategias digi-
tales de cada institución, a la calidad de
los contenidos y a sus derechos de autor.
A través de la Guía de Publicación de Eu-
ropeana, las instituciones pueden saber
qué requisitos de calidad deben cumplir
para cada nivel o escenario. Aquellas ins-
tituciones que deseen compartir sus co-
lecciones en todos los escenarios deben
cumplir requisitos de alta calidad y reutili-
zación de sus datos.
Declaraciones de derechos y Marco de
licencias de Europeana
Para determinar si un objeto digital
pertenece al Nivel 3 o 4 de publicación y
reutilización, el Marco de Publicación de
Europeana (MPE) se basa en una lista de
14 declaraciones de derechos recogidas
150
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
en el Marco de Licencias de Europea-
na (EUROPEANA, 2011), de las cuales,
nueve permiten a los usuarios la reutili-
zación de los objetos digitales. Cuatro de
ellas sin restricciones ni condiciones:
1. Marca de Dominio Público (PDM).
2. CC0 1.0 Ofrecimiento al Dominio Pú-
blico Universal (CC0).
3. Licencia Creative Commons de Reco-
nocimiento (CC BY). En la que se debe
hacer referencia al autor original.
4. Licencia Creative Commons de Reco-
nocimiento-Compartir Igual (CC BY-SA).
Con la obligación de hacer referencia al
autor original. En el caso de que se dis-
tribuyan trabajos derivados se debe hacer
bajo la misma licencia.
Hay otras cinco declaraciones que
permiten la reutilización pero que pueden
tener restricciones:
1. Licencia Creative Commons de Re-
conocimiento No Comercial (CC BY-NC).
Permite la reutilización no comercial del
objeto siempre que se haga referencia al
autor original.
2. Licencia Creative Commons de Re-
conocimiento-Compartir Igual (CC BY-
NC-SA). Permite la reutilización no co-
mercial del objeto siempre que se haga
referencia al autor original. Si se distri-
buyen trabajos derivados se debe hacer
bajo la misma licencia.
3. Licencia Creative Commons de Reco-
nocimiento-No Comercial-No Derivadas
(CC BY-NC-ND) permite el intercambio no
comercial del objeto digital siempre que
se haga referencia al autor original. No se
permiten modicaciones de la obra.
4. Licencia CreativeCommons de Re-
conocimiento-No Derivadas (CC BY-ND)
permite compartir el objeto haciendo re-
ferencia al autor original. No se permiten
modicaciones del objeto.
5. Licencia de Reutilización No Comer-
cial, fuera del derecho de autor (OOC-
NC) permite la reutilización no comercial
del objeto.
A través de este Marco de Licencias,
Europeana normaliza y armoniza la infor-
mación y las prácticas relacionadas con la
propiedad intelectual. Asimismo, proporcio-
na a los usuarios la información necesaria
para saber lo que pueden y no pueden ha-
cer, tanto con los metadatos como con los
contenidos que aparecen en la plataforma
europea, basándose en dos principios:
Que todos los metadatos agregados
para ser publicados en Europeana pue-
dan ser utilizados libremente sin restric-
ción alguna. Para cumplir este principio
Europeana pone todos los metadatos
bajo los términos de Dedicación de Domi-
nio Público CC0.
Respecto a los contenidos, que aten-
diendo a la lista de declaraciones de de-
rechos se describa el estado de los de-
rechos de los objetos digitales que los
proveedores de información ofrecen a
través de Europeana.
Los cuatro elementos que forman
el Marco de Licencias son los que ase-
guran que los metadatos y los contenidos
pueden ser agregados y libremente reutili-
zados por terceros:
1. Acuerdo de Intercambio de Datos de
Europeana (DEA)
2. Creative Commons 0 Dominio Público
Universal (CC0waiver) / Europeana Guía
de Uso de Datos
3. Términos para las contribuciones
de usuarios
151
Ano 9, número 16, semestral, out/2018 a mar/ 2019
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
4. edm: rights campo de Europeana
Data Model
Estos cuatro elementos consti-
tuyen la base de trabajo en la que las
instituciones proveedoras de objetos di-
gitales se apoyan para cumplir con el
requisito de informar con claridad a los
usuarios acerca de todas las cuestio-
nes relacionadas con los derechos de
propiedad intelectual de todos aquellos
objetos digitales que depositan en la
plataforma europea.
Estrategia de Contenidos de Europeana:
la calidad y los usuarios
Basándose en las tres priorida-
des de la Estrategia de Europeana: da-
tos de calidad, datos abiertos y datos
que aporten valor; y siguiendo el Mar-
co de Publicación de Europeana (MPE)
con los cuatro escenarios para publicar
y compartir información, la Estrategia
de Contenidos de Europeana (EURO-
PEANA, 2018)establece como principio
número uno la calidad por encima de la
cantidad, lo que significa que:
Se debe utilizar el MPE para crear
contenidos de calidad alta, así como
instar a las instituciones para que abran
sus datos.
Se prioriza la mejora de los datos ya
incluidos más que añadir datos nuevos.
Se deben eliminar los datos que no
cumplan con lo especicado en la Guía de
Publicación de Europeana.
Se promueva la exhibición de los da-
tos de gran calidad en las Colecciones
Temáticas.
Se consiga que la mejora de la calidad
de los datos sea la prioridad número uno
de la Estrategia de Europeana
Que en 2020 el número de conteni-
dos del Nivel 2 y superiores sea mayor
que el del Nivel 1.
El otro principio de la Estrategia
de Contenidos da prioridad a lo que los
usuarios piden y necesitanen el momen-
to de tomar decisiones respecto a la
selección y publicación de contenidos.
Para cumplir con este principio, pone de
manifiesto la necesidad de analizar las
estadísticas de uso de los contenidos,
la realización de encuestas y entrevis-
tas a los usuarios para identificar sus
necesidades de información, así como
la evaluación de los nuevos conteni-
dos en relación con el cumplimiento del
MPE, y la adecuación a las Colecciones
Temáticas. En este sentido, Europeana
pretende identificar a otros usuarios di-
ferentes de las instituciones de memo-
ria y cultura tradicionales; a usuarios
potenciales; y para ello busca otros ca-
nales o fuentes que puedan facilitarle
este tipo de información, y que van más
allá de los resultados que obtiene en las
encuestas, ya sean usuarios estratégi-
cos por razones económicas, de marca,
o por tendencias.
Los proveedores saben, a través
de la Guía de Publicación de Europeana,
que la calidad de los datos es lo que de-
termina que una colección digital se pu-
blique. Si los metadatos no cumplen con
los requisitos establecidos en la Guía,
los datos no se publicarán. Pero no es la
única razón, pues existen no pocos ob-
jetos digitales de los siglos XX y XXI que
no pueden estar accesibles, ni en esta,
ni en otras plataformas, por estar suje-
tos a derechos de autor. Un problema
en el que Europeana se emplea a fondo
para resolver y poder así favorecer el
uso y la reutilización de contenidos en
sectores como el de la educación. Se
puede decir que, al menos en el Nivel
1 de publicación, Europeana ha conse-
guido que contenidos con restricciones
152
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
puedan ser accesibles a través de Euro-
peana Collections.
Según datos de la propia Europea-
na, a nales de 2016, aproximadamente
el 83% de los contenidos se ajustaban al
Nivel 1 y solo el 17% al Nivel 2 o supe-
riores de publicación. La intención para
el 2020 es la de invertir el predominio de
los niveles de publicación de contenidos
para conseguir un 80% en el Nivel 2 y su-
periores y reducir a un 20% el Nivel 1 de
publicación (EUROPEANA, 2018; p.21).
A partir de los principios de calidad
y demanda de los usuarios, la Estrategia
de Contenidos determina, junto con los
proveedores, cuestiones tales como si
vale la pena un determinado contenido,
así como la integración en Europeana de
metadatos procedentes de proyectos co-
laborativos como Wikimedia Foundation,
e incluso la admisión de contenido cola-
borativo para conseguir una mayor parti-
cipación de los usuarios.
En lo que a cantidad se reere, en
octubre de 2017, España contaba con
629 proyectos de digitalización proce-
dentes de la iniciativa de instituciones
culturales, 215 repositorios OAI y 7,3
millones de objetos digitales. Se sitúa
a la cabeza como proveedor de datos a
través de Hispana, además de aparecer
como uno de los principales usuarios
junto a los Estados Unidos de América,
Holanda, países nórdicos, Alemania, Po-
lonia, Reino Unido (GONZÁLEZ, 2018).
Sin embargo, frente al volumen de regis-
tros y objetos digitales, tanto de Hispa-
na, proveedor español, como la propia
Europeana, no son proyectos suciente-
mente conocidos, ni en el ámbito educa-
tivo, ni como repositorio útil para investi-
gación, y mucho menos entre el público
en general. En cambio, sí lo son para
los profesionales de bibliotecas, archi-
vos y museos, que reconocen y valoran
el gran avance conseguido a través del
proyecto común europeo de digitaliza-
ción de la memoria y la cultura, a pesar
de resaltar de forma recurrente la mala
calidad de la interfaz de búsqueda de la
plataforma Europeana.
Ya en 2014 el estudio realizado por
User Intelligent puso de maniesto que
tanto los datos que se ofrecían como la
manera en la que se servían no satisfa-
cían a los usuarios encuestados(MAK;
BRINKMAN, 2014). Recientemente, Euro-
peana ha realizado una consulta pública
sobre el uso de la plataforma (COMISIÓN
EUROPEA, 2018a)con el n de identicar
necesidades de información de los usua-
rios, objetos y colecciones con mayor tra-
co y éxito de consulta, pero también otros
canales y otras fuentes diferentes a las
instituciones culturales tradicionales.
Conclusiones
La Unión Europea ha hecho gran-
des inversiones para la digitalización de
su patrimonio cultural. Desde 2007, en
Europa se concibe el patrimonio cultural
como un elemento vertebrador que con-
tribuye a la cohesión social de Europa y,
además, como un activo que produce be-
necios económicos, en el turismo y en
la creación de industrias culturales, por lo
que se ha convertido en un elemento más
de la Estrategia para el Mercado Único
Digital en Europa.
La política sobre el patrimonio cul-
tural europeo se enmarca dentro de la es-
trategia global para este Mercado Único
Digital en Europa y ha girado en torno a
tres grandes normas:
a. La directiva relativa a la reutilización de
la información del sector público, que obli-
ga a que todos los documentos generados
en la administración pública, no sujetos
a secretos de estado o que afecten a la
privacidad de las personas, deberían ser
153
Ano 9, número 16, semestral, out/2018 a mar/ 2019
Disponível em http://periodicos.uff.br/pragmatizes
reutilizables, incluidos los de las bibliote-
cas, archivos y museos, para propósitos
comerciales y no comerciales.
b. La recomendación sobre la digitali-
zación y accesibilidad en línea del ma-
terial cultural y la conservación digital,
que insta a los estados miembros de la
Unión Europea a tomar acciones para
cooperar e involucrar al sector privado
en la digitalización de su material cultu-
ral con el fin de incrementar la visibilidad
del patrimonio cultural europeo y esti-
mular el crecimiento de las industrias
creativas en Europa.
c. Y toda la legislación relativa al co-
pyright, lo que permite a las institucio-
nes, por un lado, poner en acceso abierto
aquellas obras libres de derechos y, por
otra, ofreciendo a las instituciones las
garantías jurídicas necesarias para que
los proyectos de digitalización no se inte-
rrumpieran, incluso cuando había obras
huérfanas sobre las que existen dudas
sobre la propiedad de los derechos. No
sólo se legisló sobre estas obras huérfa-
nas sino que la Ocina de Propiedad In-
telectual de la Unión Europea, ha creado
una base de datos de obras huérfanas,
la Orphan Works Database que permite
identicar y dar de alta aquellas obras
huérfanas descubiertas y, al mismo tiem-
po, para que los titulares de derechos de
alguna obra huérfana puedan ponerse en
contacto con las organizaciones que es-
tán haciendo uso de ellas y poner n a su
condición de obras huérfanas reclaman-
do sus derechos.
La Unión Europea ha dejado total
libertad para que cada país deniese sus
prioridades en cuanto a qué fondos digi-
talizar y cada país estableció su propia
política de planicación de la digitaliza-
ción, a nivel estatal, autonómico o incluso
una política independiente por cada ins-
titución. En todos los casos, lo que sí se
exigía era el uso de estándares abiertos y
que todo lo digitalizado se pusiera accesi-
ble a través de Europeana.
En general, se puede armar que
los primeros recursos culturales digitali-
zados fueron los de las colecciones de
bibliotecas, archivos y museos. Los pri-
meros objetivos denidos estuvieron ba-
sados en medidas cuantitativas, digita-
lizar, cuanto más, mejor. Los objetivos
cuantitativos se cumplieron a principio de
2016 y desde entonces se ha optado más
por una política de calidad de los metada-
tos y de los objetos digitalizados que por
seguir aumentando la cantidad del patri-
monio digitalizado.
El proceso de digitalización ha traí-
do consigo el desarrollo de estándares y
estrategias de preservación, de interope-
rabilidad y de contenido para compartir y
promocionar el acceso y la reutilización
de los contenidos digitalizados por las ins-
tituciones europeas. Europeana, la plata-
forma digital europea en donde se vuelca
la mayor parte del patrimonio digitalizado,
marca, además, las directrices sobre es-
tos estándares, como el modelo europeo
de datos EDM (Europeana Data Model)
o el Marco de Publicación de Europeana,
un documento en el que se establecen
cuatro escenarios (niveles) para compar-
tir colecciones con Europeana basados
en la oferta y las necesidades de los pro-
veedores de datos y en una lista de 14
declaraciones de derechos recogidas en
el Marco de Licencias de Europeana.
Aunque se ha hecho mucho, aún
queda mucho por hacer. Por ejemplo,
muchos usuarios en Europa descono-
cen la existencia de Europeana, aque-
llos que la conocen maniestan que
la usabilidad del sitio aún tiene un gran
recorrido de mejora y el jar objetivos
cuantitativos como medidas de evalua-
ción ha provocado que persistan meta-
datos y objetos digitalizados con una ca-
lidad menor a la deseada.
154
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura
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em: 12 dez. 2018.
Recebido em 20/12/2018
Aprovado em 24/01/2019
I María-Antonia García-Moreno. Dpto. de Biblioteco-
nomía y Documentación, Universidad Complutense de
Madrid, Espanha. Contato: magm@ucm.es
II Tony Hernández-Pérez. Dpto. de Biblioteconomía y
Documentación, Universidad Carlos III de Madrid, Es-
panha. Contato:. tony@bib.uc3m.es