ISSN 2237-1508
Niterói / RJ, Ano 15, n. 29, set. 2025
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
Direito à cidade em terra de brincar: narrar
começos, articular pedaços de chão
Ana Cabral Rodrigues, Jordana Neves de
Almeida Guimarães, Anna Clara Fernandes
Silva, Monica Helena Rado Donnini, Flavia
Siqueira Lemos Leandro, Adriana Aparecida de
Souza, Eliana Gonçalves de Souza, Milena
Pedrosa, Beatriz Regina M. Nunes
As caixas de Salete: tecituras de narrativas
da e na Cozinha Solidária da Vila Barracão
Ana Elísia da Costa
Narrativa e memória na análise das
transformações relacionadas a intervenções
sociais em gênero
Vanessa do Nascimento Fonseca
Memória como construção de caminhos
plurais: o conhecimento a partir da escuta e
da palavra
Andréa da Silva Montechiare Pires, Gisela
Giannerini, Renata Montechiare
Tramando políticas do narrar: pistas ético-
estéticas para pesquisas especulativas
Alessandra Rudiger Matzenauer, Karine
Shamash Szuchman, Luis Artur Costa, Thayna
Miranda da Silva, Vanessa Branco Cardoso
DOSSIÊ
Narrar: gesto metodológico e indagação
epistemológica
Apresentação do Dossiê 29
Narrar: gesto metodológico e indagação
epistemológica
Ana Cabral Rodrigues, Daniele Caron, Flavia de
Sousa Araújo
Narrativas da deficiência: questões acerca da
escrita acadêmica partir da experiência
Virgínia Kastrup, Raquel Guerreiro
Cães-guias como mediadores estéticos:
reconfigurações dos modos de fazer e pensar
a cultura do acesso
Camila Araújo Alves, Marcia Moraes
A narrativa na construção da memória do
corpo negro
Nathália Pedrozo Gomes, Daniele Caron
Narrar com Mulheres: um convite para outras
práticas éticas-estéticas-políticas de
pesquisa
Paula Land Curi, Luiza Christina Marques de
Souza
Cartografias infantis: narrativas das
infâncias enquanto uma metodologia do
encanto
Mariana Cunha Schneider, Nícolas Braga
Fröhlich, Luciano Bedin da Costa, Tiago
Alexandre Fernandes Almeida
P r a g M AT I Z E S
Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura
Ano 15 nº 29 - setembro/2025
EDITORES EXECUTIVOS
João Domingues, Universidade Federal Fluminense, Departamento de
Arte, Brasil
Luiz Augusto F. Rodrigues, Universidade Federal Fluminense,
Departamento de Arte, Brasil
CONSELHO EDITORIAL
Adair Rocha, Universidade do Estado do Rio de Janeiro / Pontifícia
Universidade Católica do Rio de Janeiro, Brasil
Adriana Facina, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Brasil
Ahtziri Molina Roldán, Universidad Veracruizana, México
Alberto Fesser, Socio Director de La Fabrica em Ingenieria Cultural /
Director de La Fundación Contemporánea, Espanha
Alexandre Barbalho, Universidade Estadual do Ceará, Brasil
Allan Rocha de Souza, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro,
Brasil
Ana Enne, Universidade Federal Fluminense, Brasil
Angel Mestres Vila, Universitat de Barcelona, Espanha
Antônio Albino Canela Rubin, Universidade Federal da Bahia, Brasil
Christina Vital, Universidade Federal Fluminense, Brasil
Cristina Amélia Pereira de Carvalho, Universidade Federal do Rio
Grande do Sul, Brasil
Daniel Mato, Universidade Nacional Tres de Febrero, Argentina
Danielle Brasiliense, Universidade Federal Fluminense, Brasil
Deborah Rebello Lima, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Brasil
Durval Muniz de Albuquerque Jr., Universidade Estadual da Paraíba,
Brasil
Eduardo Paiva, Universidade Estadual de Campinas, Brasil
Edwin Juno-Delgado, Université de Bourgogne / ESC Dijon, campus
de Paris, França
Eloisa Porto C. Allevato Braem, Universidade do Estado do Rio de
Janeiro, Brasil
Fábio Fonseca de Castro, Universidade Federal do Pará, Brasil
Fernando Arias, Observatorio de Industrias Creativas de la Ciudad
de Buenos Aires, Argentina
Flávia Lages, Universidade Federal Fluminense, Brasil
George Yúdice, Universidae de Miami, Estados Unidos da América
Gizlene Neder, Universidade Federal Fluminense, Brasil
Hugo Achugar, Universidad de la Republica, Uruguai
Idemburgo Pereira Frazão, Unigranrio, Brasil
Isabel Babo, Universidade Lusófona do Porto, Portugal
João Domingues, Universidade Federal Fluminense, Brasil
João Guerreiro, Instituto Federal do Rio de Janeiro, IFRJ, Brasil
José Luís Mariscal Orozco, Universidad de Guadalajara, México
José Márcio Barros, Universidade Estadual de Minas Gerais / PUC
Minas, Brasil
Julio Seoane Pinilla, Universidad de Alcalá, Espanha
Lia Calabre, Fundação Casa de Rui Barbosa, Brasil
Lilian Fessler Vaz, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Brasil
Lívia de Tommasi, Universidade Federal de Minas Gerais, Brasil
Lívia Reis, Universidade Federal Fluminense, Brasil
Luís Edmundo de Souza Moraes, Universidade Federal Rural do Rio de
Janeiro, Brasil
Luiz Augusto Fernandes Rodrigues, Universidade Federal Fluminense,
Brasil
Luiz Guilherme Vergara, Universidade Federal Fluminense, Brasil
Manoel Marcondes Machado Neto, Universidade do Estado do Rio de
Janeiro, Brasil
Marcela A. País Andrade, Universidad de Buenos Aires, Argentina
Márcia Ferran, Universidade Federal Fluminense, Brasil
Maria Adelaida Jaramillo Gonzalez, Universidad de Antioquia, Colômbia
Maria Manoel Baptista, Universidade de Aveiro, Portugal
Marialva Barbosa, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Brasil
Marildo Nercolini, Universidade Federal Fluminense, Brasil
Marina Bay Frydberg, Universidade Federal Fluminense, Brasil
Mário Pragmácio Telles, Universidade Federal Fluminense, Brasil
Marta Elena Bravo, Universidad Nacional de Colombia sede Medellín,
Colombia
Martín A. Becerra, Universidad Nacional de Quilmes, Argentina
Mónica Bernabé, Universidad Nacional de Rosario, Argentina
Muniz Sodré, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Brasil
Orlando Alves dos Santos Jr., Universidade Federal do Rio de
Janeiro, Brasil
Pâmella Passos, Instituto Federal do Rio de Janeiro, Brasil
Patricio Rivas, Universidad de Chile, Chile
Paulo Carrano, Universidade Federal Fluminense, Brasil
Paulo César Silva de Oliveira, Universidade do Estado do Rio de
Janeiro, Brasil
Paulo Miguez, Universidade Federal da Bahia, Brasil
Priscilla Oliveira Xavier, Centro Universitário Carioca, Brasil
Renata Rocha, Universidade Federal da Bahia, Brasil
Ricardo Gomes Lima, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Brasil
Rossi Alves Gonçalves, Universidade Federal Fluminense, Brasil
Simonne Teixeira, Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy
Ribeiro, Brasil
Stefano Cristante, Università del Salento, Italia
Tamara Quírico, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Brasil
Teresa Muñoz Gutiérrez, Universidad de La Habana, Cuba
Valmor Rhoden, Universidade Federal do Pampa, Brasil
Vladimir Sibylla Pires, Universidade Federal do Estado do Rio de
Janeiro, Brasil
Victor Miguel Vich Flórez, Pontifícia Universidad Católica del Perú, Peru
Zandra Pedraza Gomez, Universidad de Los Andes, Colômbia
CONSELHO DE ÉTICA
Luiz Augusto F. Rodrigues, Universidade Federal Fluminense, Brasil
Marina Bay Frydberg, Universidade Federal Fluminense, Brasil
Rossi Alves Gonçalves, Universidade Federal Fluminense, Brasil
APOIO TÉCNICO PARA A EDIÇÃO 29
Caio Rodrigues Kattenbach, Universidade Federal Fluminense, Brasil
REALIZAÇÃO:
PARCEIROS e INDEXADORES:
PragMATIZES Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura.
Ano XV nº 29, (SET/2025). Niterói, RJ: [s. N.], 2025. (Universidade
Federal Fluminense / Laboratório de Ações Culturais - LABAC e
Programa de Pós-Graduação em Cultura e Territorialidades -
PPCULT)
Semestral
ISSN 2237-1508 (versão online)
1. Estudos culturais. 2. Planejamento e gestão cultural.
3. Teorias da Arte e da Cultura. 4. Linguagens e
expressões artísticas. I. Título.
CDD 306
Universidade Federal Fluminense - UFF
Instituto de Artes e Comunicação Social - IACS | Laboratório de Ações Culturais - LABAC
Programa de Pós-Graduação em Cultura e Territorialidades - PPCULT
Campus do Gragoatá - Bloco J. Rua Professor Marcos Waldemar de Freitas Reis, s/n. - São Domingos - Niterói / RJ -
Brasil - CEP: 24210-201
pragmatizes.ega@id.uff.br
PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura - ISSN 2237-1508
Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, set. 2025.
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4
Sumário / Summary
p. 06 09
COLABORADORAS/ES DA EDIÇÃO / ISSUES CONTRIBUTORS
p. 10 12
EDITORIAL / EDITORIAL
DOSSIÊ / DOSSIER
Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica
p. 13 30
Apresentação do Dossiê 29. Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica
Ana Cabral Rodrigues, Daniele Caron, Flavia de Sousa Araújo
p. 31 - 58
Narrativas da deficiência: questões acerca da escrita acadêmica partir da experiência
Virgínia Kastrup, Raquel Guerreiro
p. 59 - 75
Cães-guias como mediadores estéticos: reconfigurações dos modos de fazer e pensar
a cultura do acesso
Camila Araújo Alves, Marcia Moraes
p. 76 - 94
A narrativa na construção da memória do corpo negro
Nathália Pedrozo Gomes, Daniele Caron
p. 95 - 117
Narrar com Mulheres: um convite para outras práticas éticas-estéticas-políticas de
pesquisa
Paula Land Curi, Luiza Christina Marques de Souza
p. 118 - 135
Cartografias infantis: narrativas das infâncias enquanto uma metodologia do encanto
Mariana Cunha Schneider, Nícolas Braga Fröhlich, Luciano Bedin da Costa, Tiago Alexandre
Fernandes Almeida
p. 136 - 155
Direito à cidade em terra de brincar: narrar começos, articular pedaços de chão
Ana Cabral Rodrigues, Jordana Neves de Almeida Guimarães, Anna Clara Fernandes Silva,
Monica Helena Rado Donnini, Flavia Siqueira Lemos Leandro, Adriana Aparecida de Souza,
Eliana Gonçalves de Souza, Milena Pedrosa, Beatriz Regina M. Nunes
PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura - ISSN 2237-1508
Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, set. 2025.
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5
p. 156 - 178
As caixas de Salete: tecituras de narrativas da e na Cozinha Solidária da Vila Barracão
Ana Elísia da Costa
p. 179 - 206
Narrativa e memória na análise das transformações relacionadas a intervenções sociais
em gênero
Vanessa do Nascimento Fonseca
p. 207 - 228
Memória como construção de caminhos plurais: o conhecimento a partir da escuta e
da palavra
Andréa da Silva Montechiare Pires, Gisela Giannerini, Renata Montechiare
p. 229 - 255
Tramando políticas do narrar: pistas ético-estéticas para pesquisas especulativas
Alessandra Rudiger Matzenauer, Karine Shamash Szuchman, Luis Artur Costa, Thayna
Miranda da Silva, Vanessa Branco Cardoso
PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura - ISSN 2237-1508
Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, set. 2025.
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6
COLABORADORAS/ES DA EDIÇÃO
Adriana Aparecida de Souza. Líder Comunitária da Ocupação Dom Waldyr
Calheiros, equipe de pesquisa GPDU/UFF.
Alessandra Rudiger Matzenauer. Mestranda em Psicologia Social e Institucional na
Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). E-mail:
alessandra.matzenauer@hotmail.com. ORCID: https://orcid.org/0009-0005-5600-
550X.
Ana Cabral Rodrigues. Doutora em Planejamento Urbano e Regional pela
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Docente dos cursos de Graduação
em Psicologia, campus Volta Redonda, e do Programa de Pós-Graduação em
Psicologia da Universidade Federal Fluminense (UFF). E-mail: acrodrigues@id.uff.br.
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-0317-5346.
Ana Elísia da Costa. Doutora em Arquitetura pela Universidade Federal do Rio
Grande do Sul (UFRGS). Docente do Departamento de Arquitetura e do Programa de
Pós-Graduação em Planejamento Urbano e Regional da UFRGS. E-mail:
ana_elisia_costa@hotmail.com. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-4829-5699.
Andréa da Silva Montechiare Pires. Doutoranda no Programa de Pós-graduação em
Psicologia da Universidade Federal Fluminense (UFF). Mestre em Saúde Coletiva
pelo Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).
Psicóloga atuante no campo da saúde mental pública, pelo município de Niterói e pela
UFF. E-mail: andreasmp@id.uff.br. ORCID: https://orcid.org/0009-0009-8805-9683.
Anna Clara Fernandes Silva. Discente do Curso de Graduação em Psicologia,
campus Volta Redonda, da Universidade Federal Fluminense (UFF). E-mail:
annaclarafernandessilva25@gmail.com. ORCID: https://orcid.org/0009-0005-6326-
004X.
Beatriz Regina M. Nunes. Psicóloga. Agente cultural. Especialista em Gestão de
Projetos Culturais pelo Centro de Estudos Latino-Americanos de Comunicação e
Cultura (CELACC/USP). E-mail: beatriz_nunes@id.uff.br. ORCID:
https://orcid.org/0009-0000-3202-067X.
Camila Araújo Alves. Doutora em Psicologia pela Universidade Federal Fluminense
(UFF). Psicóloga Clínica e Coordenadora do Nexo Psicoterapia. Email:
camilaaraujoalves@yahoo.com.br. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-6152-0665.
Daniele Caron. Doutora em Urbanismo pela Universitat Politècnica de Catalunya
(UPC). Docente da Faculdade de Arquitetura e do Programa de Pós-Graduação em
Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio Grande do Sul
(UFRGS). E-mail: daniele.caron@ufrgs.br. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-6546-
6579.
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7
Eliana Gonçalves de Souza. Mestranda no Programa de Pós-Graduação em
Psicologia da Universidade Federal Fluminense (UFF). Psicóloga. E-mail:
souzaeliana@id.uff.br. ORCID: https://orcid.org/0009-0009-7384-7425.
Flavia de Sousa Araújo. Doutora em Planejamento Urbano e Regional pela
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Docente na Faculdade de Arquitetura
e Urbanismo da Universidade Federal de Alagoas (UFAL). E-mail:
flavia.araujo@fau.ufal.br. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-8296-7423.
Flavia Siqueira Lemos Leandro. Líder Comunitária da Ocupação Dom Waldyr
Calheiros, estudante, equipe de pesquisa GPDU/UFF. E-mail:
998843386f@gmail.com.
Gisela Giannerini. Mestre em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Integrou o Projeto de História Oral
e o Programa de Memória e Formação do Inst. Municipal Nise da Silveira/RJ.
Servidora da Fundação Municipal de Saúde de Niterói. E-mail:
gisela.giannerini@gmail.com. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-6040-6078.
Jordana Neves de Almeida Guimarães. Discente do Curso de Graduação em
Psicologia, campus Volta Redonda, da Universidade Federal Fluminense (UFF). E-
mail: jordana08dez@gmail.com. ORCID: https://orcid.org/0009-0008-4340-3703.
Karine Shamash Szuchman. Psicóloga. Mestra e Doutoranda em Psicologia Social
e Institucional na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). E-mail:
karineszuchman@gmail.com. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-3136-6366.
Luciano Bedin da Costa. Doutor em Educação pela Universidade Federal do Rio
Grande do Sul (UFRGS). Docente na Faculdade de Educação e no Programa de Pós-
Graduação em Psicologia Social e Institucional da UFRGS. Coordenador do Grupo
Políticas do Texto. E-mail: bedin.costa@gmail.com. ORCID: https://orcid.org/0000-
0002-6350-2644.
Luis Artur Costa. Doutor em Informática na Educação pela Universidade Federal do
Rio Grande do Sul (UFRGS). Docente no Departamento de Psicologia Social e
Institucional e no Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social e Institucional da
UFRGS. E-mail: larturcosta@gmail.com. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-6110-
7512.
Luiza Christina Marques de Souza. Psicóloga. Mestranda em Psicologia pelo
Programa de Pós Graduação da Universidade Federal Fluminense (UFF) E-mail:
luizacms@id.uff.br. ORCID: https://orcid.org/0009-0008-8841-406X.
Marcia Moraes. Doutora em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica
de São Paulo (PUC/SP). Docente no Departamento de Psicologia da Universidade
Federal Fluminense. Email: marciamoraes@id.uff.br. ORCID: https://orcid.org/0000-
0002-8581-6126.
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Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, set. 2025.
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8
Mariana Cunha Schneider. Doutoranda e Mestra em Psicologia Social e Institucional
pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Integrante do Grupo
Políticas do Texto. E-mail: mari.cunha.s@hotmail.com. ORCID: https://orcid.org/0000-
0002-7577-1710.
Milena Pedrosa. Psicóloga; equipe de pesquisa GPDU/UFF. E-mail:
milenapvf@id.uff.br. ORCID: https://orcid.org/0009-0005-2059-9836.
Monica Helena Rado Donnini. Discente do Curso de Graduação em Psicologia,
campus Volta Redonda, da Universidade Federal Fluminense (UFF). E-mail:
monicahrd@id.uff.br. ORCID: https://orcid.org/0009-0006-7004-5222.
Nathália Pedrozo Gomes. Mestre em Planejamento Urbano e Regional pela
Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). E-mail: nathipgo@gmail.com.
ORCID: https://orcid.org/0009-0000-1472-2117.
Nícolas Braga Fröhlich. Mestrando em Psicologia Social e Institucional pela
Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Integrante do Grupo Políticas
do Texto. E-mail: nbfrohlich@gmail.com. ORCID: https://orcid.org/0009-0005-1718-
0321.
Paula Land Curi. Doutora em Psicologia (Psicologia Clínica) pela Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo, (PUC/SP). Docente no Instituto de Psicologia e
do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal Fluminense
(UFF). E-mail: paulalandcuri@id.uff.br. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-4204-
8785.
Raquel Guerreiro. Doutora em Psicologia Social e Institucional pela Universidade
Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Docente no Departamento de Psicologia e
Orientação da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). E-mail:
raquel.guerreiro.psi@gmail.com. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-8708-9068.
Renata Montechiare. Doutora em Antropologia pela Universidade Federal do Rio de
Janeiro (UFRJ). Pesquisadora da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais -
Flacso Brasil, E-mail: rmontechiare@gmail.com. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-
2466-5843.
Thayna Miranda da Silva. Psicóloga. Mestranda em Psicologia Social e Institucional
na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). E-mail:
thaynamirandas@gmail.com. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-9271-4016.
Tiago Alexandre Fernandes Almeida. Doutor em Psicologia Educacional pelo
Instituto Universitário de Ciências Psicológicas Sociais e da Vida, Portugal. E-mail:
tiagoa@eselx.ipl.pt. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-3557-0623.
Vanessa Branco Cardoso. Psicóloga. Doutoranda em Psicologia Social e
Institucional na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). E-mail:
vanessabrancoc@gmail.com. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-2210-0515.
PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura - ISSN 2237-1508
Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
9
Vanessa do Nascimento Fonseca. Doutora em Psicologia pela Universidade Federal
Fluminense (UFF). Docente no Departamento de Psicologia da UFF, campus Volta
Redonda. E-mail: vnfonseca@id.uff.br. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-4423-
3298.
Virgínia Kastrup. Doutora em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica
de São Paulo (PUC-SP). Docente no Instituto de Psicologia da Universidade Federal
do Rio de Janeiro (UFRJ). E-mail: virginia.kastrup@gmail.com. ORCID:
https://orcid.org/0000-0002-9101-328.
PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura - ISSN 2237-1508
Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
10
EDITORIAL
A edição é composta exclusivamente pelo dossiê “Narrar: gesto metodológico
e indagação epistemológica”, organizado pelas colegas Ana Cabral Rodrigues,
Daniele Caron, Flavia de Sousa Araújo. Esta opção se deu por decisão editorial, e por
duas razões. A primeira porque estamos em processo de transição para que a
Pragmatizes passe a ser editada em periodicidade anual. Esperamos com isso que o
fluxo de publicação ganhe maior celeridade e que atenda de maneira mais orgânica
as demandas de autoras e autores. A segunda, e principal, é que recebemos um
volume muito extenso de propostas para o dossiê. Este alto volume não apenas
rendeu uma ótima edição para o semestre como também permitiu que o dossiê fosse
em parte desmembrado para a publicação do ano de 2026.
O dossiê é composto da apresentação produzida pelas organizadoras, além de
dez textos produzidos. Além das citadas organizadoras, tivemos 29 autoras e
autores publicando nesta edição de PragMATIZES Revista Latino-Americana de
Estudos em Cultura. Os mapas a seguir ilustram a procura por nosso periódico desde
sua criação em 2011) e, em seguida à relação dos autores que contribuíram com esta
edição, temos a Apresentação do dossiê temático.
João Domingues e Luiz Augusto Rodrigues
Editores
PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura - ISSN 2237-1508
Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, set. 2025.
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11
Agradecemos aos autores que até o segundo semestre de 2025
publicaram conosco, representantes dos seguintes países:
Brasil:
355
Peru: 1
França: 2
Espanha: 6
Reino Unido: 1
Argentina: 8
Chile: 2
Colômbia: 6
Cabo Verde: 1
México: 7
EUA: 2
Canadá: 1
PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura - ISSN 2237-1508
Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes
12
Agradecemos aos autores que até o segundo semestre de 2025
publicaram conosco, representantes dos seguintes estados
brasileiros:
5
2
5
56
10
175
1
2
12
3
14
3
38
4
22
31
10
3
3
2
2
13
RODRIGUES, Ana Cabral; CARON, Daniele; ARAÚJO, Flavia de Sousa.
Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica. PragMATIZES -
Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n.
29, p.13-30, set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
Apresentação do Dossiê 29
Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica
Ana Cabral Rodrigues
1
Daniele Caron
2
Flavia de Sousa Araújo
3
DOI: https://doi.org/10.22409/pragmatizes.v15i29.70241
Desde a força e pertinência de
letramentos até então elididos das
práticas de escrita e construção do
conhecimento científico, a presença de
metodologias narrativas tem ganhado
relevo nos debates epistêmicos em
diversos campos do conhecimento e
suas transversalidades. Um movimento
que, ainda que mais evidente nos
últimos anos, remonta décadas de
embates, análises e construções
acadêmicas exigidas e realizadas junto
aos coletivos e movimentos sociais,
que operam deslocamentos,
1
Doutora em Planejamento Urbano e Regional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Docente no curso de Graduação em Psicologia, campus Volta Redonda, e no Programa de Pós-
Graduação em Psicologia da Universidade Federal Fluminense (UFF). E-mail: acrodrigues@id.uff.br.
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-0317-5346.
2
Doutora em Urbanismo pela Universitat Politècnica de Catalunya (UPC). Docente na Faculdade de
Arquitetura e no Programa de Pós-Graduação em Planejamento Urbano e Regional da Universidade
Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). E-mail: daniele.caron@ufrgs.br. ORCID:
https://orcid.org/0000-0002-6546-6579.
3
Doutora em Planejamento Urbano e Regional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Docente na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Alagoas (UFAL). E-
mail: flavia.araujo@fau.ufal.br. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-8296-7423.
composições e tensionamentos nas
práticas e éticas de pesquisa. A partir
de modos de vida e pensamentos
ancorados em epistemologias
decoloniais e contracoloniais, eles
fazem comparecer políticas de vida,
rigores e urgências inauditas nas
discursividades acadêmicas orientadas
desde a colonialidade.
Para o intelectual quilombola
Antônio Bispo dos Santos (2023), ou
Nêgo Bispo, aquilo que a academia
denomina decolonial encontra sua
pertinência no que esse termo mobiliza
14
RODRIGUES, Ana Cabral; CARON, Daniele; ARAÚJO, Flavia de Sousa.
Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica. PragMATIZES -
Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n.
29, p.13-30, set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
enquanto capacidade de depreciar ou
de “deprimir” o colonialismo. É a
capacidade de transformar saberes e
modos de transmissão na formação
das gerações que vêm, para que não
mais ataquem as gerações de outros
povos. A contracolonialidade, para
Nêgo Bispo, diferentemente, diz de
modos de existir cotidianamente, de
maneira viva, criativa, em resiliência e
enfrentamento à colonialidade. Um
modo de existir que nunca se deixou
colonizar. E, por isso mesmo, as
práticas contracoloniais, inclusive
quilombolas, são capazes de
desmantelar o projeto totalitário que
estrutura nosso mundo.
Assim, assentada na práxis dos
quilombolas, dos Povos Originários e
demais povos da floresta, a partir de
suas cosmopercepções (Oyěwùmí,
2020), a contracolonialidade pode ser
enunciada tanto pelo banal de um
cotidiano praticado, quanto por sua
radical alteridade, enquanto forma de
pensamento e de sustentação de
saberes que não se significam nem se
submetem à ordem de um mundo
erigido pelos ideais de
desenvolvimento, exploração e
controle. Ela pode ser dita como defesa
a essas forças que operam através da
desterritorialização e pela retirada de
cada ente vivente de sua cosmologia,
distanciando-o de seus sagrados,
impondo-lhe novos modos de vida e
colocando-lhe outro nome (Santos,
2023). Então, desse banal e dessa
radicalidade, o que resta e cintila
como chance é a possibilidade de
seguir contando, narrando aquilo que
liga um ser a outro, o que territorializa,
o que constitui experiência de
envolvimento, o que é sagrado e,
igualmente, a possibilidade de seguir
“praticando nossos nomes” (Santos,
2021). O que se aponta é um caminho
traçado pelas palavras, lavradas na
oralidade, na escrita e na imagem, que
comparecem como sementes a
germinar e a se ligar àquilo que é
passado, sentido e pertencimento.
Trata-se de uma tomada estragica da
palavra que, diante da colonialidade
que tudo nomeia, pode também dizer
dela. Não por vontade de dominação
(aquela que esquadrinha os saberes ao
nomeá-los como conhecimento popular
ou empírico), mas pela urgência de
contrariar a palavra dos colonizadores
e seus saberes sintéticos, que seguem
incansavelmente destituindo os
saberes orgânicos e cosmológicos, tal
como os nomeia Nêgo Bispo.
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RODRIGUES, Ana Cabral; CARON, Daniele; ARAÚJO, Flavia de Sousa.
Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica. PragMATIZES -
Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n.
29, p.13-30, set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
A intelectual indígena e ativista
boliviana Silvia Cusicanqui (2021)
afirma que, no colonialismo, a função
das palavras em documentos oficiais
não é designar, mas encobrir, pois as
palavras desses textos frequentemente
se desvinculam das práticas. Por isso,
“no contexto de um devir histórico que
privilegia o textual em detrimento das
culturas visuais, são as imagens, mais
do que as palavras, que permitem
captar os sentidos bloqueados e
esquecidos pela língua oficial”
4
(Cusicanqui, 2021, p. 29). Nesse
sentido, considera-se que, assim como
canções e outras tecnologias de
sobrevivência que utilizam a oralidade
e a paisagem sonora para a construção
de mundos e memórias, as narrativas
visuais a exemplo do a(r)tivismo ou de
manifestações político-artísticas nas
ruas das cidades também constituem
meios potentes e criativos de enfrentar
o mundo distópico, ou “mundo ao
revés” (Cusicanqui, 2021). Essas
narrativas são importantes ferramentas
na elaboração e propagação de futuros
e na reinvenção de cidades e
4
A proposta de “sociologia da imagem” de
Cusicanqui ativa o potencial crítico do que ela
denomina narrativas visuais. Trata-se de
narrativas realizadas por meio de elementos
sociedades, pois oferecem vestígios,
inclusive por meio da iconografia, da
possibilidade de fabular mundos: uma
habilidade alentadora para se operar o
enfrentamento nas ruínas do
Antropoceno (Oliveira, 2022 apud
Tsing, 2022). Os artivismos, ao
ocuparem espaços públicos com a
criação de narrativas visuais
(Cusicanqui, 2021), rompem com a
centralidade da linguagem textual e das
técnicas consagradas pela cultura
erudita. Contando histórias e
projetando cosmopercepções de
sujeitos historicamente marginalizados,
essas práticas não apenas tornam
visíveis formas contracoloniais de
existência, como também disseminam
saberes e propõem alternativas à
distopia colonial.
Numa abordagem
transversalizante junto às
cosmopercepções capazes de
tensionar as estruturas do colonialismo
como o racismo, o machismo, o
patriarcado, a cisheteronormatividade,
o adultocentrismo e o capacitismo ,
destacam-se as epistemologias
visuais não textuais, invisibilizadas na língua e
na história oficiais, praticadas por indígenas
bolivianos por meio de desenhos.
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RODRIGUES, Ana Cabral; CARON, Daniele; ARAÚJO, Flavia de Sousa.
Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica. PragMATIZES -
Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n.
29, p.13-30, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
feministas, particularmente as do
feminismo negro (Gonzalez, 2020; bell
hooks, 2017) e do feminismo
comunitário (Cabnal, 2010; Carvajal,
2020), que introduzem a
interseccionalidade como metodologia
e perspectiva ética de análise e
intervenção do/no mundo vivido
(Collins, 2016; Akotirene, 2019). Aqui
reconhecemos uma aposta nas
políticas de narratividade como
estratégia de construção do
conhecimento e de enfrentamento à
perpetuação de privilégios e opressões
em suas capilaridades. Assim, tornam
visíveis práticas de existência e
resistência amplamente
desvalorizadas, e que corroboram a
ideia de que o futuro pode vir a ser
regido por meio da valorização de
tecnologias de cuidado e afeto com
todo ente vivente, com o território e
também, com seus encantados, tal
como sustentam conhecimentos
ancestrais dos Povos Originários (Lima,
2001; Silva, 2023; Xakriabá, 2023;
Tupinambá, 2023).
No Brasil, intelectuais indígenas,
negras, quilombolas e periféricas
como Célia Xakriabá (2023), Zeneida
Lima (2001), Glicéria Tupinambá
(2023), Raimunda Gomes da Silva
(2023), Conceição Evaristo (2025),
Carolina Maria de Jesus (2014),
Djamila Ribeiro (2017; 2019), Carla
Akotirene (2018), Lélia Gonzalez
(2020) e Leda Maria Martins (2021)
oferecem o chão e sinalizam rotas de
pensamento que não cindem ciência e
cultura. Distintamente de uma
perspectiva universalizante, na qual “o
cultural” é sempre situado no campo do
outro, essas rotas apontam para modos
de produção do conhecimento
ancorados em marcadores simbólicos,
históricos e contingentes. Seguindo
esses caminhos, arte, ciência e filosofia
se enunciam simultaneamente e
salientam a importância de
(des)envolvimentos metodológicos
baseados em histórias e realidades
situadas, bem como no “saber-fazer”
cotidiano, em conjunção e tensão com
os fazeres referendados
academicamente. Assim, oralidades,
corpos e escritas se rasuram
mutuamente e subvertem hierarquias e
princípios irredutíveis de objetividade e
neutralidade, fazendo com que tais
princípios compareçam em novos
campos de interpelação e de
construção do fazer científico (Martins,
2021; Santos, 2023; Haraway, 2023).
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RODRIGUES, Ana Cabral; CARON, Daniele; ARAÚJO, Flavia de Sousa.
Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica. PragMATIZES -
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
É sabido que o pensamento
ocidental integra em si a ferramenta
crítica, e em múltiplas dimensões. Por
um lado, realiza uma reflexão sobre si
mesmo, como na crítica intrínseca à
própria démarche do pensamento por
exemplo, na crítica de Hume a
Descartes, ou na crítica popperiana a
uma visão empirista da ciência. Por
outro, põe-se a experimentar os limites
da linguagem ao operar uma dobra que
aponta para os efeitos e condições do
próprio empreendimento do
pensamento, como a análise dos
regimes de verdade constituídos por
esses saberes (Foucault, 1998, 2000).
Pois, se a crítica enquanto ferramenta
de evidenciação das lógicas
constitutivas e de possível resolução de
contradições internas não é
desconhecida no cerne da produção do
pensamento ocidental, o que aqui se
ressalta é a contundência do
deslocamento que essas matrizes
epistemológicas decoloniais,
contracoloniais, feministas são capazes
de operar a partir de outros lugares. Ou
ainda: de um lugar outro. De onde o que
se evidencia num primeiro plano é o
movimento de choque. Uma força que
se interpõe à continuidade da
centralidade incorpórea que o
pensamento Ocidental reiteradamente
assume. O choque produz a fagulha
como incêndio e também como chance
-- e oferece a percepção de que sempre
se olha, se sente, se pensa de algum
lugar, e que todo conhecimento ocupa
sempre uma posição situada e parcial.
Constrangendo-o a abandonar,
pois, seu “lugar-nenhum”, efeito da
marca do universal que o autoriza a
enunciar-se como estando “em todo
lugar”. Os limites e os próprios
fundamentos do pensamento ocidental
são colocados em causa diante de uma
alteridade epistêmica que, ao se
apresentar, expõe a falácia da
neutralidade dos instrumentos
responsáveis por lançar mundos e
saberes à sombra esses mesmos que
ali se enunciam e subvertem o que se
pretendia encerrado, esgotado.
Essa alteridade não atua,
evidentemente, como uma ferramenta
de retificação do pensamento ocidental.
Ou seja, sua importância não se mede
pelo quanto poderia servir ao
conhecimento filosófico ou científico,
oferecendo-lhe soluções,
complementando-o, remetendo-o à sua
própria dinâmica e, não raro,
corroborando a narrativa historiográfica
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RODRIGUES, Ana Cabral; CARON, Daniele; ARAÚJO, Flavia de Sousa.
Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica. PragMATIZES -
Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n.
29, p.13-30, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
e teleológica de progresso e superação
de um conhecimento sobre o outro.
Colocar em causa os limites do
pensamento ocidental e o
conhecimento nele validado, a partir de
discursividades que reiteradamente
foram desqualificadas por esse
pensamento centralizador, revela uma
dimensão de responsabilidade com a
qual a ciência, muitas vezes, escolhe
não se confrontar. Esses limites se
evidenciam ali onde a neutralidade e
objetividade não se sustentam
pacificamente como dispositivos de
poder silenciosos e eficazes. Tal
responsabilização aponta para a
radicalidade de que fala a antropóloga
Rita Segato (2020): não mais olhar o
outro para conhecê-lo, mas conhecer a
nós mesmos no olhar do outro. Algo
que projeta a ciência para além de seu
espelho vaidoso, colocando-a diante da
imagem da política colonialista que a
constitui uma maquinaria de violência
em que o outro e a natureza existem
apenas para serem dominados e
conquistados (Dussel, 1993).
Em última instância, o que essas
discursividades colocadas à margem
provocam é o descentramento dessa
maquinaria destrutiva que range e rege
os destinos dos mundos em
coexistência. O debate epistêmico é,
assim, antes de tudo, um embate
contra aquilo que tem tornado
impossíveis as existências que
continuam a narrar e a se insurgir
diante da própria insustentabilidade de
um mundo que se quer único. Em sua
potência afirmativa, o conhecimento
validado e amparado a partir de outras
cosmopercepções, faz falar as ruínas
do pensamento ocidental e multiplica
histórias que urdem uma ética
planetária que não se pretende
universal de existências
compartilhadas e da perpetuação da
sustentação do céu (Kopenawa, Albert,
2015).
A crescente presença da
narrativa como conceito em questão ou
como estratégia metodológica talvez
possa nos indicar algo sobre a
responsabilização da academia em sua
inscrição eurocentrada, burguesa,
embranquecida, corponormativa etc.
Uma responsabilização que opera, em
grande medida, pela efetiva presença
de outros corpos ocupando lugar
nesses espaços. Trata-se de uma
aposta que assumimos. Sobretudo
quando, por meio de outras
discursividades e das plásticas do texto
acadêmico, entendidas como parte
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RODRIGUES, Ana Cabral; CARON, Daniele; ARAÚJO, Flavia de Sousa.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
inerente à investigação, encontramos
estudos que atualizam a
indissociabilidade entre estética e
política pela contraposição à histórica
violência da objetificação daqueles que
coexistem nos processos de
construção da pesquisa (Cusicanqui,
2021; Evaristo de Brito et al., 2025;
Kilomba, 2029; Moraes, 2010;
Haraway, 1995; Ingold, 2015; Araújo,
Cabral, Araújo et al., 2016; Caron,
Cabral, 2024).
de se reconhecer que
“narrativa” é uma palavra tão
corriqueira quanto exigente, um
conceito vulgar, comum, ao alcance de
todas as pessoas. O que a radicalidade
desses estudos que apostam em outras
gramáticas do texto acadêmico
(Moraes, Tsallis, 2016) nos ensinam,
no entanto, é que uma irreflexão com o
verbo “narrar” pode empobrecer aquilo
que ele carrega de auspicioso e
politicamente consequente, e que
poderia se expressar em indagações
como: o que se faz quando se narra?
Que políticas de vida e de pesquisa
emergem ao acionarmos a narrativa
como procedimento ou ética? O que
ocorre quando pesquisar é
narrarCOM? Trata-se de uma atenção
fundamental para que as “narrativas”
não sejam tomadas apenas como
elementos a serem coletados e
interpretados por pessoas que, a partir
de uma posição privilegiada, se
reconhecem como aquelas a quem
cabe formular as perguntas. E que,
quando decifradas em dados, essas
narrativas correm o risco de ingressar
na lógica moderna da escalabilidade
(Tsing, 2016), eliminando o gesto que
depende invariavelmente “das
circunstâncias, dos encontros, das
criações de relação” (Stengers, 2023,
p. 13) para a construção de um
conhecer/pensar/fazer situado.
Dessa maneira, a proposta
deste dossiê nasce de uma curiosidade
e implicação ético-política
compartilhada desde nossos lugares e
inscrições de pesquisadoras, mulheres
e artivistas do sul global nos embates e
invenções na academia este
poderoso agenciamento de validação e
operação do conhecimento. Embates
estes em prol de seus alargamentos, de
horizontes mais plurais, junto a outros
saberes que hoje e ontem têm
desafiado a capacidade da academia
em se recolocar em um cenário global,
e em se posicionar diante da barbárie
que testemunhamos pelas práticas
coloniais sempre atualizadas e
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RODRIGUES, Ana Cabral; CARON, Daniele; ARAÚJO, Flavia de Sousa.
Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica. PragMATIZES -
Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
capilarizadas. Nossa curiosidade
configura-se, assim, não apenas como
um modo de acesso ao que vem sendo
produzido no âmbito da narrativa, mas
também como um gesto de convocação
a um esforço crítico-analítico e
experimental-ensaístico. Trata-se de
um exercício construído a partir de
múltiplos pertencimentos e lugares de
fala, por meio dos quais mobilizamos
nossos repertórios e ferramentas na
produção e no compartilhamento do
conhecimento, fazendo emergir a
narrativa como questão e como método
nos estudos sobre culturas e territórios.
Esse esforço conjunto oferece uma
revisitação e experimentação tanto de
referenciais teóricos clássicos nos
debates críticos acadêmicos, quanto do
pensamento de intelectuais que
ocupam lugar no fazer científico e na
academia com urgência, atualidade e
força ancestral na contemporaneidade.
Ao assumirmos o interesse
pelas transversalidades disciplinares,
acionamos uma estratégia de
coletivização e escuta acerca dos
modos de sustentação das presenças e
discursividades, tanto no texto quanto
no cotidiano dos processos de
pesquisa, ensino e extensão.
Convocamos, assim, um pensamento
disposto a fabular caminhos
confluentes e a recolher os efeitos de
uma aposta em tramas epistêmicas,
perguntando-nos como, diante deles,
nos posicionamos, tomamos lugar. Um
processo-escrita no qual o rigor não se
confunde com rigidez, e que resulta do
cuidado com que acionamos a palavra
“narrativa” nesses estudos, buscando
reconhecer nela suas forças
germinativas (Santos, 2023), bem
como o movimento a contrapelo, de
resistência, reexistência e de reparação
histórica.
Compreendemos que no gesto
de narrar se reconhece o fio de uma
fazedura e de um movimento que
nunca se resolve, estando sempre por
se fazer: é ele uma política. Uma
referência fundamental a tal
entendimento é Walter Benjamin
(1996), autor que problematiza a
narração e nos conduz ao caráter
artesanal dessa forma de comunicação
e de sustentação de um comum.
Seguimos seu pensamento ao apontar,
simultaneamente, para a narrativa e
para a urdidura de um tecido vivo que
enlaça uma vida à outra, uma geração
à outra: arte e trama da experiência
(Erfahrung), ela mesma como
passagem, travessia (Fahr), tradição,
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RODRIGUES, Ana Cabral; CARON, Daniele; ARAÚJO, Flavia de Sousa.
Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica. PragMATIZES -
Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n.
29, p.13-30, set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
movimento que vai além da
individualidade e da privatização da
vida. Uma arte que, no cerne dos
efeitos das forças do capitalismo eis
o teor de sua problemática evidencia
seu declínio (e não seu esgotamento, é
preciso salientar), cujos efeitos se
reconhecem na crescente
incapacidade de receber e dar
conselhos, de recolher da palavra sua
sabedoria e transmissão. O conselho
aqui não se entende como resposta a
uma pergunta que pede solução, mas
como dissolução do rumo de uma
história que parecia encerrada em si
mesma. De tal sorte, o enlace entre
narrativa e política por meio da prática
cotidiana e ancestral do conselho se
evidencia no encontro entre o apelo de
uma história que anseia por um outro
devir e a palavra inscrita no tecido de
uma memória compartilhada,
apontando para a abertura do passado
e sua capacidade de agir na construção
do presente, na insurgência de um
tempo do agora (Jetztzeit), como
interrupção da catástrofe (Benjamin,
1996).
Convidamos quem adentra
estas leituras a pensar a narrativa como
política e como abertura epistemológica
capaz de reconhecer as
heterogeneidades que compõem
culturas, experiências e territórios; uma
abertura concretizada pelas práticas e
discursividades instauradas a partir de
partilhas, confrontos, provocações,
conflitos e desvios. Se conforme a
pensadora māori Linda Smith aponta
criticamente “a pesquisa [enquanto
prática e instituição] tem sido o
encontro entre o Ocidente e o Outro”
(Smith, 2018, p. 19), narrar, enquanto
gesto de pesquisa, pode constituir um
exercício articulado às demandas por
outras alianças, formas de dizer e de
sustentar outros projetos societários,
por meio de problemas e perguntas
ainda por se formular (Kilomba, 2019).
Trata-se de um fazer pesquisa que
aceita ser questionado, que assume o
caminhar tateante e o método, ele
mesmo, como desvio (Gagnebin,
1999). O que esse gesto e exercício
nos demanda é pensar, com Isabelle
Stengers (2023), uma racionalidade
não mais acionada pela ideia de
avanço ou progresso, mas como
experiência de aprendizagem
compartilhada de saberes que se
façam com e a favor da vida (Santos,
2021).
A seguir apresentamos os textos
deste primeiro volume do dossiê que
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RODRIGUES, Ana Cabral; CARON, Daniele; ARAÚJO, Flavia de Sousa.
Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica. PragMATIZES -
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
colocam em perspectiva práticas e
processos investigativos acionados
pela narrativa por uma preciosa
diversidade de abordagens e temas.
Encontramos gestos e falas nascidos
de experiências e territorialidades
histórica e sistematicamente
ameaçadas que emergem do
experimento do encontro (Stengers,
2023).
Abrindo o dossiê, no artigo
Narrativas da deficiência: questões
acerca da escrita acadêmica partir da
experiência de Virgínia Kastrup e
Raquel Guerreiro, a narrativa é
abordada como problemática no
contexto da psicologia cognitiva da
deficiência visual. Reconhecendo a
predominância do capacitismo nas
pesquisas sobre deficiências, as
autoras defendem uma atuação
coletiva e horizontal de sujeitos com ou
sem deficiência, compondo narrativas
complementares a partir da experiência
compartilhada. Por meio de uma escrita
acadêmica de base feminista, o texto
aposta em uma receptividade ativa que
se desenha em encontros, tensões e
distâncias, abrindo passagem para a
criação de um mundo comum e
heterogêneo.
Numa profícua conjunção, o
artigo Cães-guias como mediadores
estéticos: reconfigurações dos modos
de fazer e pensar a cultura do acesso”,
de Camila Araújo Alves e Marcia
Moraes, trabalha a ideia de mediação
estética a partir da relação mulher
cegacomcão-guia, tomando como
referência a experimentação de Lygia
Clark e Hélio Oiticica no campo das
artes. A partir da política metodológica
do pesquisarCOM, a discussão centra-
se na produção cultural e nos espaços
de arte em agenciamento com corpos e
pessoas com deficiência, entendendo a
mediação como prática coletiva que
desloca sentidos hegemônicos sobre
modos de fazer e pensar a cultura do
acesso. Para isso, as autoras
mobilizam recursos de linguagem e
memórias que evidenciam sua
posicionalidade em relação à
experiência e ao texto, questionam o
senso comum da deficiência como
falta, acionam alianças interespécies e
convocam a narrativa como ato político.
As políticas urbanas ganham
relevo em “A narrativa na construção da
memória do corpo negro”, através do
qual o narrar é compreendido como um
fazer conjunto que exige, sobretudo,
um reposicionamento ético e político de
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RODRIGUES, Ana Cabral; CARON, Daniele; ARAÚJO, Flavia de Sousa.
Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica. PragMATIZES -
Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n.
29, p.13-30, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
quem pesquisa, sustentando alianças
que evocam projetos societários
pautados pela ruptura dos regimes
discursivos exploratórios de fazer
cidade. Nessa perspectiva, Nathalia
Gomes e Daniele Caron debatem a luta
quilombola em contexto urbano por
meio do encontro com a oralitura,
expressa no corpo e na voz das
mulheres do Quilombo Flores, em Porto
Alegre, RS, aqui compreendidas como
ìyálodès. O convívio com um processo
de transmissão que acolhe gestos,
ritmos, formas e sons inscritos no
corpo, e que ressignifica memórias e
experiências negras, permite às
autoras entrever, junto a essas
mulheres, uma teoria da luta que
emerge ao acionar a linguagem
oraliturizada como resistência aos
processos coloniais e racistas que
moldam o urbano contemporâneo.
Reforçando a perspectiva do
fazer-situado em processos de escuta,
Paula Land Curi e Luiza Christina
Marques de Souza discutem a violência
de gênero em Narrar com Mulheres:
um convite para outras práticas éticas-
estéticas-políticas de pesquisa”. A
contação de histórias é aqui utilizada
como ferramenta para tensionar a
suposta neutralidade científica, além de
permitir a construção do conhecimento
pela agência entre corpo-
pesquisadoras e a vibração da
violência nos corpos das mulheres
participantes de encontros grupais, em
um ambulatório universitário
especializado em violência de gênero.
Nessa escuta ampliada, que busca
produzir fissuras nos modos instituídos
de fazer ciência, o grupo é convidado a
entrar em contato com as intensidades
e os afetos da vida cotidiana umas das
outras, dando-lhes sentido, palavras e
materialidade, a fim de afirmar a
emergência de mundos pautados na
multiplicidade e dignidade das formas
de vida das mulheres.
Em Cartografias infantis:
narrativas das infâncias enquanto uma
metodologia do encanto”, Mariana
Cunha Schneider, Nícolas Braga
Fröhlich, Luciano Bedin da Costa e
Tiago Alexandre Fernandes Almeida
aprofundam a escuta como
interpelação às inncias que persistem
em nós, de modo a usufruir e compor
com o que as crianças podem nos
ensinar sobre o mundo. A poesia e as
estratégias de enfrentamento da morte
utilizadas pelas crianças são
apresentadas a partir de indagações
sobre os riscos de romantização das
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RODRIGUES, Ana Cabral; CARON, Daniele; ARAÚJO, Flavia de Sousa.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
cruezas, crueldades e da militarização
do imaginário infantil. A argumentação
sustenta-se no brincar como atividade
entre dois mundos, que permite
acessar modos outros de pensar e
fazer, apostando na criança como
sujeito de conhecimento e de direitos, e
não como objeto de pesquisa.
Como convite a esperançar e a
infancializar cidades pelo direito de
nelas viver, o artigo “Direito à cidade em
terra de brincar: narrar começos,
articular pedaços de chão” propõe uma
experimentação narrativa por meio da
montagem e da estética do fragmento.
Ele relata histórias da construção de
alianças diante das urgências
reconhecidas no encontro com a
Ocupação Dom Waldyr Calheiros, de
Volta Redonda. Um território de
liderança feminina e protagonismo das
infâncias, marcado pela luta por
dignidade e sonho. As autoras Ana
Cabral Rodrigues, Jordana Neves de
Almeida Guimarães, Anna Clara
Fernandes Silva, Mônica Helena Rado
Donnini, Flavia Siqueira Lemos
Leandro, Adriana Aparecida de Souza,
Eliana Gonçalves de Souza, Milena
Pedrosa e Beatriz Regina M. Nunes
apostam numa escrita de múltiplas
vozes, que se alternam e se compõem,
dando contornos a memórias e saberes
compartilhados. Nos caminhos
narrativos, a partir da força das
margens urbanas, deparamo-nos com
a invenção de um livro infantil coletivo e
a criação de uma biblioteca
comunitária, enovelados pela lenda
africana de Anansi e a força das
histórias que se espalham pelo mundo.
Em As caixas de Salete:
tecituras de narrativas da e na Cozinha
Solidária da Vila Barracão”, Ana Elísia
da Costa apresenta por meio de uma
escrita experimental, reflexões
oriundas de um projeto de ensino-
extensão-pesquisa que atua a partir de
uma abordagem narrativa. O exercício
da autora se constitui como uma
política, na medida em que se
concentra nos meandros, sutilezas e
diferenças que emergem com o ato de
transmitir e guardar para contar. Assim,
por meio do registro de histórias das
mulheres, que, como Salete, atuam na
cozinha solidária da Vila Barracão, na
periferia de Porto Alegre, e da
observação sobre o desafio de
descentramento do sujeito científico, o
texto é tecido por uma urdidura de
memórias que convoca as vozes e
assume sujeitos de comunidades
historicamente abandonadas e
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RODRIGUES, Ana Cabral; CARON, Daniele; ARAÚJO, Flavia de Sousa.
Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica. PragMATIZES -
Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n.
29, p.13-30, set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
ameaçadas como personagens sociais
das políticas urbanas.
O debate acerca da narrativa
como política também é convocado no
texto Narrativa e memória na análise
das transformações relacionadas a
intervenções sociais em gênero”, no
qual Vanessa do Nascimento Fonseca
compõe uma cartografia da memória a
partir dos registros de experiências de
intervenções sociais no campo da
sexualidade, da saúde reprodutiva e do
gênero envolvendo as masculinidades
ao longo de quinze anos de pesquisa.
Os aportes sobre a implicação da
pesquisadora com o campo e com
sujeitos aproxima cartografia e
narrativa, colocando em xeque a razão
moderna que se apoia na noção de
neutralidade, estabilidade e
objetividade do fato científico. Ao tomar
esta posição em relação à produção do
saber, a autora convoca um movimento
de análise/costura dos fatos
documentados nas pesquisas com
vistas a abrir outras indagações sobre o
tema, bem como sobre o próprio fazer
pesquisa e suas dinâmicas de poder.
A mesma tomada de posição
que busca sustentar processos de
escuta que reconhecem a pluralidade
de vozes existentes e o caráter múltiplo
das histórias é convocada por Andréa
da Silva Montechiare Pires, Gisela
Giannerini e Renata Montechiare em
Memória como construção de
caminhos plurais: o conhecimento a
partir da escuta e da palavra. O texto
problematiza a objetificação dos
sujeitos historicamente desautorizados
a falar e saber, e discute a memória e
as narrativas orais como ferramentas
de inscrição e pertencimento histórico.
Ao propor um diálogo entre episódios e
histórias que evocam traumas e
opressões, as autoras acionam uma
discussão sobre políticas de memória e
produção da cultura que aponta para as
relações político-sociais em disputa, e
para a potência das narrativas orais
como dispositivos de mobilização e
transformação social.
Para encerrar este primeiro
volume do dossiê, Alessandra Rudiger
Matzenauer, Karine Shamash
Szuchman, Luis Artur Costa, Thayna
Miranda da Silva e Vanessa Branco
Cardoso propõem um mergulho na
palavra narrar a partir de três
movimentos que demarcam a
importância de ultrapassar uma
dimensão representacional-simbólica
ou do caráter expressivo plástico da
narrativa em prol de suas artesanias
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RODRIGUES, Ana Cabral; CARON, Daniele; ARAÚJO, Flavia de Sousa.
Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica. PragMATIZES -
Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n.
29, p.13-30, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
em movimentos coletivizantes e
singularizantes. Tramando políticas do
narrar: pistas ético-estéticas para
pesquisas especulativas apresenta o
estatuto ficcional da narrativa como
elemento de sua sustentação e
potência, oferecendo caminhos na
própria forma de escrita para que isso
se coloque no centro do debate. Assim,
convida-nos a tocar os avessos da
escrita acadêmica através do gesto de
bordar, acompanhando éticas e
estéticas de narrativas e
contranarrativas de artistas, coletivos e
experiências situadas. Por fim, ao
indagar o que seria a pressuposta
neutralidade científica desde uma
perspectiva do gesto narrativo, abre um
leque de pistas que favorecem a um
exercício ético ininterrupto que nos
deslocam de respostas cômodas,
heróicas ou desaterradas.
O conjunto de textos aqui
apresentados não busca oferecer
contornos conclusivos sobre a
narrativa; ao contrário, fabula-se como
um convite a permanecermos ainda
com o problema (Haraway, 2023),
habitando as imprecisões e tensões
próprias do narrar como prática de
pesquisa. Ainda que cada processo,
prática ou exercício investigativo traga
particularidades, arriscamos dizer que
sustentam exercícios situados de
implicação, de co-emergência e de
responsabilidade com a realidade e
com a própria ciência. É com esta
perspectiva aberta e necessariamente
provisória que convidamos à leitura.
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2023.
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KASTRUP, Virgínia; GUERREIRO, Raquel. Narrativas da deficiência:
Questões acerca da escrita acadêmica partir da experiência.
PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.31-58, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
Narrativas da deficiência: questões acerca da escrita acadêmica partir da
experiência
Virgínia Kastrup
1
Raquel Guerreiro
2
DOI: https://doi.org/10.22409/pragmatizes.v15i29.66795
Resumo: As narrativas acadêmicas e não acadêmicas sobre pessoas com diferentes tipos de
deficiência são ainda fortemente marcadas pelas ideias de falta e de déficit. O apagamento das
narrativas produzidas a partir da experiência da deficiência, tanto no campo da cultura quanto nas
produções acadêmicas, aponta que a sociedade valoriza determinadas experiências, consideradas
normais, em detrimento de outras. O capacitismo ainda predomina em grande parte das pesquisas
sobre deficiências. O objetivo do presente artigo é discutir o problema das narrativas pautadas na
experiência da deficiência. A narrativa da escrita acadêmica ganha destaque na discussão, bem como
a possibilidade do acesso à experiência por meio da composição de diferentes pessoas que pesquisam,
com e sem deficiência. O artigo analisa questões teóricas, metodológicas, éticas e políticas da pesquisa
em torno da deficiência, por meio da discussão do problema do capacitismo acadêmico e da
corponormatividade compulsória. Num primeiro momento, aborda aspectos do percurso de pesquisa
das autoras na condição de pesquisadoras videntes fazendo pesquisa com pessoas cegas. Partindo
da política metodológica do PesquisarCOM, a pessoa com deficiência é considerada um sujeito ativo
com o qual se faz pesquisa e não um objeto de pesquisa. Nessa direção, discute-se o uso de entrevistas
de explicitação e as condições criadas para favorecer a produção da fala encarnada, de dentro da
experiência dos entrevistados. Num segundo momento, a partir do surgimento da experiência da
deficiência física de uma das pesquisadoras, o estudo analisa metodologias de escrita acadêmica de
base feminista, em autoras como Rosemarie Garland-Thomson, Djamila Ribeiro e Stacy Simplican.
Concluímos que, embora haja uma lacuna entre o modo de acesso à experiência, é frutífera a
composição de recursos de pesquisadoras com e sem deficiência para a escrita acadêmica. Em ambos
os casos, é fundamental criar condições para a produção de narrativas a partir da experiência da
deficiência. É importante não homogeneizar as narrativas e apostar na potência do encontro de
diferenças, sempre buscando articulações não-hierárquicas e não-capacitistas entre pessoas com e
sem deficiência.
Palavras-chave: narrativa; deficiência; escrita acadêmica; experiência; capacitismo.
1
Doutora em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Docente
no Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). E-mail:
virginia.kastrup@gmail.com. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-9101-328.
2
Doutora em Psicologia Social e Institucional pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul
(UFRGS). Docente no Departamento de Psicologia e Orientação da Universidade Federal Rural do Rio
de Janeiro (UFRRJ). E-mail: raquel.guerreiro.psi@gmail.com. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-
8708-9068.
Recebido em 28/02/2025, aceito para publicação em 28/08/2025.
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KASTRUP, Virgínia; GUERREIRO, Raquel. Narrativas da deficiência:
Questões acerca da escrita acadêmica partir da experiência.
PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura,
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
Disability narratives: issues regarding academic writing from experience
Abstract: Academic and non-academic narratives about people with different types of disabilities are
still strongly marked by ideas of lack and deficit. The erasure of narratives produced from the experience
of disability, both in the cultural field and in academic productions, indicates that society values certain
experiences, considered normal, to the detriment of others. Ableism still predominates in much of the
research on disabilities. The aim of this article is to discuss the problem of narratives based on the
experience of disability. The narrative of academic writing is highlighted in the discussion, as well as the
possibility of accessing experience through the composition of researchers with and without disabilities.
The article analyzes theoretical, methodological, ethical, and political issues in research around
disability, through the discussion of the problem of academic ableism and compulsory able-bodiedness.
Initially, it addresses aspects of the research journey of the authors as sighted researchers conducting
research with blind individuals. Based on the methodological policy of ResearchWITH, the person with
a disability is considered an active subject with whom research is conducted, rather than an object of
research. In this direction, it discusses the use of explicitation interviews and the conditions created to
favor the production of embodied speech from the experience of the interviewees. In a second moment,
arising from the emergence of the physical disability experience of one of the researchers, the study
analyzes feminist-based academic writing methodologies in authors such as Rosemarie Garland-
Thomson, Djamila Ribeiro, and Stacy Simplican. We conclude that, although there is a gap in the way
of accessing experience, the composition of resources from researchers with and without disabilities for
academic writing is fruitful. In both cases, it is essential to create conditions for the production of
narratives from the experience of disability. It is important not to homogenize narratives and to invest in
the power of encountering differences, always seeking non-hierarchical and non-ableist articulations
between people with and without disabilities.
Keywords: narrative; disability; academic writing; experience; ableism.
Narrativas de la discapacidad: cuestiones sobre la escritura académica a partir de la experiencia
Resumen: Las narrativas académicas y no académicas sobre personas con diferentes tipos de
discapacidad aún están fuertemente marcadas por las ideas de falta y de déficit. La eliminación de las
narrativas producidas a partir de la experiencia de la discapacidad, tanto en el ámbito de la cultura
como en las producciones académicas, señala que la sociedad valora determinadas experiencias,
consideradas normales, en detrimento de otras. El capacitismo aún predomina en gran parte de las
investigaciones sobre discapacidades. El objetivo del presente artículo es discutir el problema de las
narrativas basadas en la experiencia de la discapacidad. La narrativa de la escritura académica cobra
protagonismo en la discusión, así como la posibilidad de acceso a la experiencia a través de la
composición de diferentes personas que investigan,con y sin discapacidad. El artículo analiza
cuestiones teóricas, metodológicas, éticas y políticas de la investigación en torno a la discapacidad,
mediante la discusión del problema del capacitismo académico y de la corponormatividad compulsoria.
En un primer momento, aborda aspectos del recorrido de investigación de las autoras en calidad de
investigadoras videntes realizando investigación con personas ciegas. Partiendo de la política
metodológica de InvestigarCON, la persona con discapacidad es considerada un sujeto activo con el
que se investiga y no un objeto de investigación. En esta dirección, discute el uso de entrevistas de
explicitación y las condiciones creadas para favorecer la producción del habla encarnada, desde la
experiencia de los entrevistados. En un segundo momento, a partir del surgimiento de la experiencia
de discapacidad física de una de las investigadoras, el estudio analiza metodologías de escritura
académica de base feminista, en autoras como Rosemarie Garland-Thomson, Djamila Ribeiro y Stacy
Simplican. Concluimos que, aunque existe una brecha entre la forma de acceso a la experiencia, es
fructífera la composición de recursos de investigadoras con y sin discapacidad para la escritura
académica. En ambos casos, es fundamental crear condiciones para la producción de narrativas a
partir de la experiencia de la discapacidad. Es importante no homogeneizar las narrativas y apostar en
la potencia del encuentro de diferencias, siempre buscando articulaciones no jerárquicas y no
capacitistas entre personas con y sin discapacidad.
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KASTRUP, Virgínia; GUERREIRO, Raquel. Narrativas da deficiência:
Questões acerca da escrita acadêmica partir da experiência.
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Palabras clave: narrativa; discapacidad; escritura académica; experiencia; capacitismo.
Narrativas da deficiência: questões acerca da escrita acadêmica partir da
experiência
O problema que move a escrita
deste artigo é a produção de narrativas
a partir da experiência da deficiência.
Tais narrativas podem ser orais ou
escritas, resultantes ou não de
pesquisas acadêmicas, e contribuem
para a compreensão das maneiras de
perceber e de viver das pessoas com
deficiência na relação com o mundo.
Falamos em escrita acadêmica “a partir
da experiência”, em lugar de escrita
“sobre a experiência”, que traria a ideia
da experiência como um objeto frente a
um sujeito. Evitando a referência
implícita ao modelo da representação,
optamos por falar em escrita a partir da
experiência. Não utilizamos narrativa
“da experiência”, pois a expressão
poderia levar a uma ideia de
individualização e mesmo uma
privatização da mesma: por exemplo,
“quero falar da minha experiência”.
Propondo a ideia de escrita a partir da
experiência, buscamos ressaltar a
importância da dimensão coletiva da
narrativa da pessoa com deficiência, o
“a partir” guardando o sentido de
abertura para a conexão com outras
narrativas, que podem com ela entrar
em composição.
De saída, é necessário situar a
nossa própria narrativa na redação
deste artigo. Somos duas
pesquisadoras videntes que
percorremos um longo caminho de
pesquisa no campo da psicologia
cognitiva da deficiência visual. A dada
altura, uma de s tornou-se uma
mulher com deficiência sica e
começou a afirmar-se como tal. A partir
daí, a experiência direta da deficiência
passou a fazer parte de sua narrativa,
que foi potencializada pelo encontro,
articulação e trocas de experiência com
outras mulheres com deficiência.
Quando o lugar da pesquisadora é
ocupado por um corpo contra
hegemônico, um ponto de virada.
Este ponto de virada levou-nos a olhar
com mais atenção para a questão das
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KASTRUP, Virgínia; GUERREIRO, Raquel. Narrativas da deficiência:
Questões acerca da escrita acadêmica partir da experiência.
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narrativas produzidas por corpos com e
sem deficiência, que será discutida no
presente estudo. Seria a deficiência
condição necessária para a produção
de narrativas a partir da experiência da
deficiência? O que dizer das narrativas
de pesquisas sobre a deficiência
realizadas por pessoas pesquisadoras
sem deficiência? Seria a deficiência
uma condição que garantiria a fala a
partir da experiência? Seria a
experiência algo individual ou
comportaria uma dimensão coletiva?
Seria possível a construção de um
plano comum e compartilhado entre
diferentes pessoas pesquisadoras, com
e sem deficiência, sem recair na
hierarquia de saberes e/ou em relações
capacitistas? É possível antecipar que
nossa aposta é na possibilidade de
composição.
O objetivo deste artigo é discutir
o problema das narrativas pautadas na
experiência da deficiência. A narrativa
da escrita acadêmica ganha destaque
na discussão, bem como a
possibilidade do acesso à experiência
por meio da composição de diferentes
pessoas que pesquisam, com e sem
deficiência. A narrativa acadêmica
comporta a escrita de artigos, livros,
teses e dissertações, mas também a
transcrição de entrevistas e anotações
de diários de campo. Neste contexto,
analisaremos questões teóricas,
metodológicas, éticas e políticas da
pesquisa em torno da deficiência. O
presente estudo começa com uma
breve discussão sobre o problema do
capacitismo acadêmico e sobre o
silenciamento de corpos não
hegemônicos, ainda muito frequentes
em pesquisas e textos acadêmicos.
Abordaremos em seguida alguns
aspectos de nosso percurso de
pesquisa na condição de
pesquisadoras videntes fazendo
pesquisa com pessoas cegas.
Buscaremos evidenciar os cuidados
epistemológicos, éticos e políticos que
adotamos ao tomar como base a
política metodológica PesquisarCOM
(Moraes, Kastrup, 2010), que difere das
pesquisas "sobre", que tomam pessoas
com deficiência como objetos de
estudo. Em busca do acesso à
narrativa da experiência da cegueira,
discutiremos o uso que, enquanto
pesquisadoras videntes, fizemos de
entrevistas de explicitação (Vermersch,
2000) e as condições que buscamos
criar para favorecer a produção por
parte das pessoas entrevistadas da fala
de dentro da experiência, ou seja, a fala
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KASTRUP, Virgínia; GUERREIRO, Raquel. Narrativas da deficiência:
Questões acerca da escrita acadêmica partir da experiência.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
encarnada. Também salientamos o
viés crítico e a relevância do
conhecimento produzido por pessoas
cegas que são pesquisadoras.
Destacamos aqui o problema do
verbalismo presente em narrativas de
pessoas cegas pautadas na narrativa
da experiência de pessoas videntes.
Em seguida, apresentamos e
discutimos metodologias de escrita
acadêmica de base feminista a partir da
experiência da deficiência. Neste caso,
a deficiência aparece como marca não
somente da experiência das pessoas
que participam enquanto pesquisadas,
mas também da experiência da própria
pesquisadora. Pontuamos a
importância deste tipo de escrita para a
problematização do imaginário
negativo da deficiência.
O capacitismo acadêmico e o
silenciamento das narrativas de
pessoas com deficiência
O termo capacitismo é a
tradução em português do termo em
inglês ableism, utilizado para descrever
a discriminação com base na
3
O termo corponormatividade compulsória foi
proposto por Mello (2016) como tradução ao
termo compulsory able-bodiedness, proposto
por Robert McRuer (2012). O autor sugere
deficiência. O ableism tem como base
able, que significa apto ou capaz, e
sublinha a existência de uma hierarquia
dos corpos em função da sua
capacidade (Mello, 2016). O
capacitismo denota a opressão social
sofrida pelas pessoas com deficiência e
é atualmente um aspecto essencial da
discussão proposta pelo modelo social
da deficiência. Podemos dizer,
resumidamente, que existem três
perspectivas principais de
compreensão da deficiência: o modelo
biomédico, que localiza a deficiência no
corpo, como uma disfunção orgânica; o
modelo social, que pauta a deficiência
em termos políticos e sociais; e a
perspectiva feminista, também
conhecida como segunda geração do
modelo social, que complexifica a
discussão ao abordar a experiência da
deficiência e a interseccionalidade dos
corpos com deficiência. O capacitismo
é entendido como estando na base de
uma lógica social excludente,
organizada em torno da
corponormatividade compulsória
3
(McRuer, 2012; Mello, 2016), isto é, de
haver um nível de
capacidade/integridade/funcionalidade
corporal/mental que não seria neutro, mas
obrigatório de ser atingido.
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KASTRUP, Virgínia; GUERREIRO, Raquel. Narrativas da deficiência:
Questões acerca da escrita acadêmica partir da experiência.
PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura,
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www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
um padrão de normalidade que faz com
que os corpos que dele desviam sejam
excluídos e marginalizados.
O capacitismo pressupõe uma
padronização do corpo normal e
hegemônico, que inclui não somente
requisitos estéticos, mas também uma
capacidade funcional, performativa e
produtiva que as pessoas com
deficiência não conseguem alcançar.
Na lógica capacitista, o corpo sem
deficiência é visto como o corpo típico
da espécie humana, o corpo natural e
desejado. Consideradas menos
capazes, ou mesmo incapazes, as
pessoas com deficiência são colocadas
numa posição de inferioridade. A forma
como a sociedade trata as pessoas
com deficiência aproxima o conceito de
capacitismo com outras discriminações
sociais, como o racismo, o sexismo e a
homofobia (Mello, 2016).
Tanto nas narrativas não
acadêmicas quanto nas acadêmicas,
as imagens das diferentes deficiências
são ainda fortemente relacionadas às
ideias de falta e de déficit. Marco
Antônio Gavério (2020) comenta que a
deficiência é frequentemente ligada à
noção de aberração, sendo uma
espécie de monstro moderno nascido
da ambiguidade entre os sentimentos
de repulsa e fascínio em relação
àqueles que desviavam do que era
considerado a normalidade física e
comportamental. Segundo o autor, o
termo "freak" popularizou-se com os
espetáculos itinerantes, as feiras e os
circos na Europa do século XIX. Em
relação à deficiência visual, Zina
Weygand (2005) aponta que a
representação negativa das pessoas
cegas remonta à Idade Média, às
fábulas e ao teatro secular. As pessoas
cegas eram personagens rudes e
desajeitadas, que poderiam inspirar o
riso, o terror e a repulsa.
No campo acadêmico, o
capacitismo ainda predomina em
grande parte das pesquisas sobre
deficiências. Por exemplo, um
grande número de estudos que
comparam o desempenho cognitivo de
pessoas cegas e de pessoas videntes.
Muitos deles adotam como política de
pesquisa, de forma mais ou menos
explícita, o ponto de vista da pessoa
vidente, como se fosse natural haver
uma pesquisa do ponto de vista de
lugar nenhum. Contudo, o lugar
nenhum, que se pretende neutro, é o
ponto de vista da pessoa vidente,
deixando evidente que o ponto de vista
da pessoa cega é inferior.
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KASTRUP, Virgínia; GUERREIRO, Raquel. Narrativas da deficiência:
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
Neste caso, as deficiências da
pessoa cega que são colocadas em
destaque. De modo mais ou menos
implícito, a percepção visual é
considerada a mais adequada,
enquanto a percepção dos cegos,
baseada principalmente no tato,
produziria um conhecimento
incompleto e limitado. O mundo
percebido pela pessoa vidente torna-se
"o mundo real", ou seja, um modelo e
um padrão. A percepção da pessoa
vidente é entendida como a mais
completa, espontânea e natural; em
outras palavras, como a percepção
normal. A visão é a percepção por
excelência de um corpo hegemônico,
que corresponde ao padrão de
normalidade. Trata-se aqui de um caso
bem concreto de corponormatividade
compulsória, que se faz presente na
elaboração de questionários e tarefas
experimentais apresentadas nos
estudos tanto quantitativos quanto
qualitativos.
Diversas autoras dos estudos
feministas da deficiência (feminist
disability studies) chamam a atenção
para a importância da produção de
narrativas a partir da experiência da
deficiência, como Rosemarie Garland-
Thomson (2002, 2005), Debora Diniz
(2007) e Stacy Simplican (2017). Suas
pesquisas o uma espécie de
resposta à primeira geração do modelo
social de compreensão da deficiência
que enfatizou as práticas de opressão
social e a luta pela independência
individual em detrimento da discussão
acerca dos corpos com lesões. As
autoras feministas, buscando incluir a
experiência de viver com deficiência
nas narrativas a partir da deficiência,
retomam o problema do corpo com
lesão, sem, contudo, recair na
concepção característica do modelo
biomédico. Assim, as autoras analisam
os temas da dor, do cuidado, da própria
lesão, da experiência de ambiguidade
de deficiências nas quais as lesões não
são aparentes, da experiência de
pessoas idosas e de grupos
interseccionais, como as mulheres com
deficiência (Diniz, 2007).
O apagamento de narrativas que
relatam a experiência dos corpos de
pessoas com diferentes tipos de
deficiência, tanto no campo da cultura
quanto nas produções acadêmicas, diz
respeito ao modo como a sociedade
valoriza determinadas experiências em
detrimento de outras (Martins, 2013). A
corponormatividade compulsória
coloca os corpos com deficiência em
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KASTRUP, Virgínia; GUERREIRO, Raquel. Narrativas da deficiência:
Questões acerca da escrita acadêmica partir da experiência.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
uma posição de assujeitamento em
relação à hegemonia da normalidade. A
noção de normalidade situa o corpo
sem deficiência como o corpo natural,
conduzindo a práticas de opressão
contra os corpos que dela desviam,
considerados anomalias da natureza. A
corponormatividade compulsória
aparece quando os corpos o
hegemônicos são considerados
patológicos, precisando ser
consertados e normalizados, como
defende o modelo biomédico (Mello,
2016).
Por outro lado, falar em seu
próprio nome em lugar de ter sua
condição narrada por outros corpos,
falar sobre a experiência de viver com
deficiência é promover a politização do
privado e da experiência pessoal,
procurando trazer à tona duas
dimensões da deficiência a do corpo
com lesão e a da opressão social.
Através das narrativas encarnadas de
pessoas com deficiência, é aberto um
espaço para a multiplicidade de
experiências vividas, contribuindo para
a visibilidade deste grande grupo
subalternizado.
Duas pesquisadoras face à
experiência da deficiência
O encontro COM pessoas cegas
Nossa pesquisa sobre
deficiência visual aconteceu no Instituto
Benjamin Constant, no Rio de
Janeiro/Brasil, uma instituição que
propõe atividades educativas e de
reabilitação para pessoas cegas, tendo
início em 2005. Os estudos se
articularam sempre entre o campo da
arte e da cegueira, abordando
problemas do campo da psicologia
cognitiva da deficiência visual, como o
funcionamento da atenção no processo
de criação, experiência estética tátil e
acessibilidade estética. Em princípio,
os estudos foram situados em uma
oficina de cerâmica, desdobrando-se
em seguida para acessibilidade em
museus de arte e para as imagens
multissensoriais em sonhos de pessoas
cegas congênitas. Grande parte dos
resultados da pesquisa é apresentada
no livro Cegueira e Invenção: cognição,
arte, pesquisa e acessibilidade
(Kastrup, 2018) e na dissertação de
mestrado Cartografia, deficiência visual
e arte: Acompanhando o processo da
acessibilidade no Centro Cultural do
Banco do Brasil do Rio de Janeiro
(Guerreiro, 2016).
Enquanto pesquisadoras
videntes, o nosso acesso à experiência
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KASTRUP, Virgínia; GUERREIRO, Raquel. Narrativas da deficiência:
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
de pessoas cegas sempre exigiu muito
trabalho. O primeiro desafio foi o de
romper com os muitos preconceitos
que ainda são comuns. Na comunidade
científica, o modelo biomédico, com
sua forte ênfase em noções negativas
de deficiência, infelizmente ainda
continua a ser hegemônico. Em nossas
atividades de pesquisa, tivemos que
problematizar constantemente o
capacitismo estrutural que nos habita
clandestinamente. Precisamos cultivar
uma atenção aberta e um corpo
sensível ao que nos afeta e ao que nos
aparece enquanto um problema ou um
enigma. Devemos estar atentas às
coisas que não compreendemos, que
não conseguimos explicar, que ainda
não têm um sentido preciso. Manter
constantemente a atenção aberta, sem
responder automaticamente com
atitudes capacitistas arraigadas e com
conhecimentos acumulados, exige uma
política de pesquisa inventiva que
oriente as escolhas teóricas e
metodológicas.
A política metodológica
PesquisarCOM (Moraes, Kastrup,
2010; Silveira, Moraes, Quadros, 2022)
aposta no deslocamento da pessoa
com deficiência do lugar de objeto de
pesquisa para o lugar de sujeito ativo
com o qual se faz pesquisa, em um
movimento de composição. Ao
considerarmos o saber que advém da
experiência da deficiência, buscamos
modos de articular diferenças sem
diminuí-las ou hierarquizá-las,
afirmando a diferença ao pesquisarmos
juntos, ao pesquisamosCOM (Moraes,
2022). Assim, buscamos não somente
encontrar soluções para os problemas
que colocamos como o objetivo da
pesquisa, mas ficarmos atentas e
abertas à colocação de novos
problemas pelos participantes, que
poderiam produzir bifurcações no
caminho e reorientar a pesquisa em
ciclos inventivos.
No estudo do funcionamento da
atenção no processo de criação de
objetos de cerâmica por pessoas cegas
ou em processo de perda da visão,
duas bifurcações interessantes se
produziram. O grupo era composto por
cerca de 18 participantes, dos quais 14
eram pessoas cegas e 4 tinham baixa
visão. Tratava-se de um grupo
heterogêneo, com homens e mulheres
com idades entre os 30 e os 70 anos,
de classe social média e baixa,
exercendo profissões como cozinheiro,
professor de música, taxista, artista
plástico, piloto de automóvel, designer
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
de joias, mecânico de caminhões, dona
de casa etc. A maioria havia
frequentado a escola primária e alguns
haviam estudado até o ensino médio.
Todas as pessoas haviam sofrido uma
perda total ou parcial da visão por um
acontecimento súbito ou por um
processo gradual. Foram constatadas
diferenças bastante significativas entre
as pessoas participantes quanto à
maneira de viver e gerir a deficiência
visual, o que pode ser explicado pelo
tipo e gravidade do problema, pela
história de vida, pela situação atual em
relação à família e aos amigos, bem
como pelo fato de já terem ou não
passado pelos chamados processos de
reabilitação. Em toda a sua
heterogeneidade, este foi um grupo de
pessoas que aceitou o desafio de lidar
com a sua condição de pessoas cegas
ou com baixa visão por meio de um
processo de aprendizagem trabalhoso
e inventivo.
Em um primeiro momento, a
atenção da pesquisadora e da equipe
voltou-se para os gestos de atenção
que as pessoas cegas utilizam na
criação das peças de cerâmica. Para
além da observação semanal e da
escrita de diários de campo, foram
realizadas 16 entrevistas de
explicitação (Vermersch, 2000) com as
pessoas participantes, a quem foi
solicitado para descreverem os gestos
de atenção utilizados no processo de
criação de uma das peças que haviam
produzido. A peça era escolhida pela
pessoa entrevistada e servia de
experiência de referência. As
entrevistas foram gravadas e
transcritas.
No início das entrevistas,
enquanto trabalhávamos juntos para
escolher a experiência de referência a
ser descrita, era muito comum que as
pessoas entrevistadas dissessem algo
como: "Deixa eu te contar como fiquei
cega". Na primeira vez, a pesquisadora
pensou em desligar o gravador ou em
responder algo como "numa próxima
vez, vo me conta, depois podemos
falar sobre isso". Contudo, ela não as
interrompeu, ela as escutou com
atenção. Eram histórias interessantes,
algumas dramáticas, outras curiosas,
indicando que, para além da deficiência
visual, havia ali vidas em movimento,
vidas inventadas e reinventadas, com
altos e baixos, erros médicos, medos,
silêncios, depressões, insurreições,
insights, encontros. Este pedido das
pessoas participantes foi aceito e
produziu uma primeira bifurcação.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
Algumas dessas histórias,
escritas com base em narrativas
criadas a partir da experiência da
cegueira, deram origem ao livro
Histórias de cegueiras (Kastrup &
Pozzana, 2016). Houve uma
composição entre as pessoas
participantes com deficiência visual e a
pesquisadora vidente, levando à
possibilidade de coletivização da
experiência da cegueira.
PesquisamosCOM e escrevemosCOM.
As 16 histórias revelaram a
heterogeneidade por detrás da
categoria identitária "cego" e a
presença de vidas para além da
deficiência visual.
A partir do material recolhido,
decidimos voltar a trabalhar COM as
pessoas participantes. Após uma
primeira versão das histórias, abrimos
uma nova fase de trabalho para a
confirmação dos textos pelas
personagens do livro. Dependendo das
circunstâncias, eles eram lidos em voz
alta ou enviados para elas em formato
digital. Esta nova fase de trabalho foi
importante para fazer correções,
acrescentar novas partes ou completar
determinadas partes. Durante a leitura
com elas, surgiram diferentes
impressões: "Oh, meu Deus",
verdade", "Que legal", "Ah sim, me
lembro disso", "Foi assim mesmo que
aconteceu", "Gostaria de acrescentar
mais uma coisa. Você pode anotar?”,
"Obrigado, você me lembrou que minha
vida é importante". O livro procurou
mostrar a um público não especializado
que a representação social da
cegueira, ainda fortemente marcada
pela ignorância e pelo preconceito,
deve ser radicalmente modificada e
revertida. A insistência e a força destas
narrativas ampliaram o campo da
pesquisa. As narrativas revelaram
ainda como a problemática do
funcionamento da atenção no ateliê de
cerâmica se entrelaça com a
experiência da cegueira e dos
processos de produção de
subjetividade.
A segunda bifurcação se deu
quando as pessoas entrevistadas
colocaram um novo problema: a
atenção a si durante o processo de
criação e seus efeitos de produção de
si. Durante o trabalho no ateliê, sua
atenção ficava concentrada no trabalho
com o barro, mas percebiam também,
numa relação de atenção aberta a si
mesmas, sua própria virtualidade, isto
é, sua capacidade de criação.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
A experiência da cerâmica
aparece como aprendizagem inventiva
que transcende a adaptação a um
mundo pré-existente. É
simultaneamente a aprendizagem da
cerâmica e a experiência de criação de
si, com elementos de surpresa e
imprevisibilidade. As pessoas
participantes foram unânimes em
afirmar que a oficina de cerâmica
mudou suas vidas e que os produtos
mais importantes do trabalho talvez o
fossem as peças de cerâmica, mas elas
mesmas (Kastrup, 2018). As pessoas
entrevistadas apontaram que a
atividade de criação desencadeia
processos de mudança na relação
consigo mesmas e de produção de
subjetividade, com a mobilização de
uma certa atenção a si. A prática da
cerâmica produz o sujeito e o objeto, o
si e o mundo.
A narrativa de suas histórias e o
problema da atenção a si durante o
processo de criação e seus efeitos de
produção de subjetividade foram duas
bifurcações importantes. A política
epistemológica PesquisarCOM fez com
que o encontro com as pessoas
entrevistadas desse origem a dois
novos problemas, que acolhemos e
abordamos. Tais problemas foram
colocados a partir das narrativas das
pessoas com deficiência visual sendo
articulados por meio de narrativas
acadêmicas das pesquisadoras
videntes. Sua inclusão não se fez sem
hesitações e tensões, mas surgiu como
incontornável. Não pareceu eticamente
possível perceber a diversidade das
narrativas e apagá-las numa suposta
homogeneidade. Moraes e Tsallis
(2016) pontuam que uma das formas
que o escreverCOM pode assumir é a
de contar histórias de vidas marcadas
pela experiência da cegueira. A escrita
COM pessoas com deficiência visual,
além da afirmação da composição com
pessoas com deficiência visual,
aparece como o compromisso
epistemológico de problematizar e
resistir às narrativas de corpos não
situados, vindas do ponto de vista de
lugar nenhum.
Em busca da fala encarnada
Proposto pela abordagem da
enação de Francisco Varela, o conceito
de cognição encarnada refere-se à
cognição na qual a mente e o corpo
estão unidos. Na vida cotidiana
ordinária, a mente e o corpo podem
ficar dissociados, como quando não
estamos atentos e conscientes de onde
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
estamos e do que a nossa mente ou o
nosso corpo estão fazendo. Por outro
lado, é possível mudar a forma como
situamos a nossa atenção, levando a
mente e o corpo a reunir-se novamente,
mantendo uma coordenação mais
completa. Neste sentido, toda cognição
é situada. Buscar ter uma visão a partir
de lugar nenhum é algo paradoxal, pois
significaria ter uma visão a partir de um
lugar preso a preconceitos. Assim,
significaria estar pouco atento a suas
próprias atividades cognitivas.
A abordagem da enação e os
estudos sobre a cognição encarnada
sublinham que a percepção (e a
cognição, em geral) não é a
representação de um mundo pré-
existente, mas um processo de
invenção de si e do mundo, produzido
por uma dinâmica de co-
engendramento. Em suma, ressaltam
que não existe uma percepção única ou
uma forma normal de conhecer, de agir
e de estar no mundo. Apesar disso, a
ideia de corponormatividade
compulsória prevalece ainda hoje,
realçando a dimensão política do
problema, para além de uma discussão
cognitiva, que se destaca ainda mais
pelo conceito de capacitismo.
Neste contexto, utilizamos em
diversos momentos de nossa
investigação a entrevista de
explicitação, proposta por Pierre
Vermersch (2000) no âmbito das
metodologias de primeira pessoa em
psicologia fenomenológica. Essa
entrevista busca acessar a dimensão
pré-reflexiva da experiência, que nem
sempre é fácil de descrever. O
processo de explicitação pode levar à
conscientização de aspectos
anteriormente desconhecidos. A
entrevista se articula em torno de um
"vécu de reférénce", que traduzimos
como “experiência de referência”
geralmente definida em comum acordo
entre a pessoa que entrevista e a
pessoa entrevistada. O objetivo é criar
condições para a pessoa
entrevistadora conhecer os processos
cognitivos subjacentes à realização de
uma tarefa, auxiliando a pessoa
entrevistada a se auto-observar e a
fazer uma narrativa descritiva de sua
experiência.
A entrevista de explicitação
busca que a pessoa entrevistada
assuma uma posição de fala
encarnada, oriunda da experiência, e
não uma posição de fala exterior à
experiência. A experiência é sempre
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KASTRUP, Virgínia; GUERREIRO, Raquel. Narrativas da deficiência:
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
concreta e singular. A pessoa
entrevistada deve se afastar da posição
da fala abstrata, caracterizada por
comentários genéricos, como "eu faço
sempre assim" ou "geralmente, eu faço
assim", para aproximar-se da posição
de fala encarnada. Toda a entrevista
gira em torno da experiência de
referência. Não se trata de deixar a
pessoa falar livremente, deixando com
que ela faça as associações que lhe
vêm à cabeça, mas de acessar essa
experiência singular. Um gesto
importante na condução da entrevista é
o relance gesto no qual a pessoa
entrevistadora convida a pessoa
entrevistada a voltar à experiência de
referência, como que dizendo "Vamos
voltar lá". Existem várias estratégias
para acessar progressivamente a
experiência que está sob investigação,
tais como a utilização de pistas
sensoriais, bem como evitar a
racionalização e a generalização. Há
diversos elementos concernentes à
técnica de condução da entrevista, que
Pierre Vermersch (2000) explica
detalhadamente em seu livro.
Por certo, narrativas encarnadas
baseadas em experiências
multissensoriais podem ser
encontradas em vários textos
acadêmicos de autoras e autores
cegos, que abrem horizontes a partir de
um duplo movimento: permitem
valorizar as experiências
concretamente vividas e podem
também abrir caminhos para mudanças
na configuração das narrativas sobre a
cegueira e outras deficiências.
Pesquisadores como Pierre Villey
(1914), Evgen Bavcar (1992), Joana
Belarmino (2009), Bertrand Verine
(2014) e Georgina Kleege (2018), entre
outros, colocam problemas
fundamentais e constroem narrativas a
partir da experiência da cegueira. Estes
autores e autoras nos obrigam a refletir
e a perceber a importância da produção
de conhecimento por pessoas cegas
que escrevem.
Todavia, as próprias pessoas
cegas vivem muitas vezes sob a égide
do paradigma visuocêntrico e
reproduzem narrativas capacitistas.
Mesmo sem a visão, a referência ao
mundo visual está onipresente, como
se essa fosse a forma normal de viver
no mundo. Com essa referência, a
condição de cegueira torna-se uma
condição de inferioridade. De acordo
com Bertrand Verine (2014), a análise
da produção escrita de pessoas cegas
em jornais voltados para as próprias
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KASTRUP, Virgínia; GUERREIRO, Raquel. Narrativas da deficiência:
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pessoas cegas evidencia que elas
integram em seu discurso a suposta
inferioridade dos sentidos não visuais.
Nesse caso, podemos dizer que o
corpo cognitivo da pessoa cega foi
alienado do processo de conhecimento,
dando origem a um conhecimento
abstrato, baseado em narrativas de
videntes, não na sua própria
experiência direta.
A análise do verbalismo permite-
nos ir mais a fundo neste tema. Afirma-
se frequentemente que a linguagem
das pessoas cegas é caracterizada
pelo verbalismo, ou seja, pelo uso de
enunciados abstratos, que não se
baseiam na experiência perceptiva
direta e concreta, mas na narrativa de
pessoas videntes (Lewi-Dumont, 2012).
É possível notar que o verbalismo de
fato aparece nas narrativas de pessoas
cegas quando elas dialogam com
pessoas videntes. Todavia, segundo a
análise de Verine (2014), trata-se na
maior parte das vezes de uma
estratégia de inclusão em um mundo
visuocêntrico. Neste sentido, o
verbalismo inscreve-se numa relação
hierárquica, marcada pelo capacitismo,
com um baixo coeficiente de
negociação. Por fim, o uso da
linguagem abstrata reforça que as
experiências sensoriais e perceptivas
das pessoas cegas sejam apagadas e
silenciadas (Kastrup & Valente, 2018).
Ao enfatizar a importância da
presença de narrativas encarnadas em
textos acadêmicos, procuramos
chamar atenção para o risco de
perpetuarmos as narrativas abstratas,
que ainda são hegemônicas,
produzidas por pessoas pesquisadoras
a partir do ponto de vista de um
observador externo, tentando produzir
conhecimento a partir de lugar nenhum,
silenciando com isso as narrativas
pautadas na experiência da deficiência.
Todavia, é preciso estar sensível e
atento de que o lugar da pessoa
pesquisadora também é localizado e
que é, muitas vezes, de uma pessoa
sem deficiência.
Vale sublinhar que a experiência
da deficiência, embora singular, possui
uma dimensão coletiva. Advertidas pelo
modelo social da deficiência, nos
afastamos de uma perspectiva
individualista e entendemos a
deficiência como uma produção social.
Ainda que portando uma dimensão
singular experimentada por cada corpo
não hegemônico, a experiência da
deficiência e a narrativa nela pautada
não podem ser dissociadas das
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
práticas sociais de opressão e
exclusão, que são produtoras de
sofrimento. Por sua vez, as narrativas
da deficiência que falam não somente
da vivência de alguém, mas que têm a
potência de tocar e afetar outras
pessoas, contribuem para a
desconstrução de estereótipos
existentes. Deste modo, buscamos
conhecer a multiplicidade de formas de
estar no mundo para desconstruir a
ideia de inferioridade dos corpos com
deficiência.
Quando a deficiência marca o corpo
da pesquisadora: metodologias para
a escrita acadêmica a partir da
experiência da deficiência
Uma das autoras deste texto
identifica-se como uma mulher com
deficiência. Ao perceber que o seu
corpo era atravessado pelas categorias
de gênero e deficiência, fez desta
questão de vida uma questão de
pesquisa, que acabou desenvolvendo
em sua tese de doutorado. Temos aqui,
portanto, um ponto de virada: a
deficiência aparece como marca da
experiência da pesquisadora e não
somente da experiência das pessoas
COM quem se pesquisa. Isto nos leva
a algumas questões: como a narrativa
encarnada da pesquisadora pode
compor a pesquisa? Como a escrita da
pesquisa pode ir para além de um relato
de experiência pessoal, fazendo falar
também outros corpos com deficiência?
Como dar espaço às narrativas dessas
experiências, problematizando a
inferioridade desses corpos não
hegemônicos? Pensamos que a escrita
acadêmica a partir da experiência, isto
é, situada e encarnada, pode funcionar
como ferramenta política importante
para afirmar a multiplicidade de modos
de existir.
A autora feminista brasileira
Cristina Ribas (2019) oferece uma pista
ao afirmar a importância de
pesquisarmos a nós mesmas,
colocando-nos no processo de
transformação provocado pela própria
pesquisa. A auto-observação aparece
como um processo que opera em um
modo de autoprodução e de invenção
de si. Contudo, existe a necessidade de
irmos além da máxima "o pessoal é
político", considerando que a escrita é
uma intervenção em nós mesmos e no
campo de pesquisa, e que os efeitos
transformadores desse processo
devem ganhar ressonância. Escrever a
partir da experiência, seja uma escrita
acadêmica ou o, pode desencadear
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KASTRUP, Virgínia; GUERREIRO, Raquel. Narrativas da deficiência:
Questões acerca da escrita acadêmica partir da experiência.
PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura,
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
uma transformação nos modos de
pensar e abrir possibilidades para
outras formas de viver.
Escritoras feministas negras
podem ser interlocutoras importantes
para pensarmos a deficiência a partir
do pensamento feminista, para
reconhecermos o lugar social das
mulheres com deficiência. Segundo a
autora feminista negra brasileira
Djamila Ribeiro (2017, p. 59-60) "um
dos objetivos do feminismo negro é
marcar o lugar de fala daquelas que
propõem pontos de análise de
realidades até então ignoradas pela
normalização hegemônica". A autora
propôs o conceito de lugar de fala a
partir das discussões das standpoint
theories, ou teorias feministas de ponto
de vista
4
. Segundo Ribeiro, há um mal-
entendido quando o conceito de lugar
de fala é tomado como um lugar
pessoal, individual, e não como a
experiência de um grupo que ocupa um
determinado lugar social. É a partir do
lugar social em que nos situamos que
podemos falar das experiências de
nossos corpos no mundo. Assim, todos
os sujeitos têm um lugar de fala, a partir
4
As perspectivas feministas de ponto de vista
consideram que o lugar social de onde vemos
o mundo determina não somente a nossa visão
do grupo social ao qual pertencem. O
conceito de lugar de fala adquiriu um
escopo mais amplo, sendo estendido à
reflexão das narrativas de outros
grupos minoritários para além da raça.
Rosemarie Garland-Thomson
(2002), pesquisadora com deficiência e
autora do campo de estudos feministas
da deficiência, faz uma importante
provocação ao problematizar a
expressão standpoint, encontrada nas
standpoint theories. A autora propõe
um conceito crítico que ela chama de
sitpoint, que sit significa estar
sentado, ao contrário do termo stand,
que significa estar de pé. Garland-
Thomson busca questionar os
pressupostos capacitistas da noção de
standpoint theory, propondo que se
considere também o ponto de vista das
pessoas que não ficam de pé, que os
feminismos da teoria standpoint nem
sempre levam em conta as
experiências de opressão das mulheres
com deficiência. Tão importante quanto
a construção de uma teoria do sitpoint
é que a teoria do standpoint possa se
posicionar de forma anticapacitista, ao
considerar o ponto de vista das
do mundo, mas também aquilo que vemos e o
que dizemos sobre o que vemos (Haraway,
1995).
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KASTRUP, Virgínia; GUERREIRO, Raquel. Narrativas da deficiência:
Questões acerca da escrita acadêmica partir da experiência.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
mulheres com deficiência (Garland-
Thomson, 2002). Para isso, é
necessário que esses corpos possam
falar a partir de sua experiência e que
essas vozes sejam ouvidas.
Na mesma direção, Stacy
Simplican (2017, p. 49) ressalta que
algumas metodologias de escrita
feminista, utilizadas por mulheres com
deficiência, conseguem expressar este
outro ponto de vista, o sitpoint. A Life-
writing, que podemos traduzir como
escrita de vida, é uma metodologia
muito utilizada nos estudos feministas
da deficiência. Este tipo de escrita
permite relatar o cotidiano das
mulheres com deficiência, narrando a
violência, explícita ou sutil, cometida
por diferentes setores da sociedade.
Essas narrativas também conseguem
revelar experiências vividas por
pessoas com deficiência que pessoas
sem deficiência não conseguem
imaginar, em situações corriqueiras e
comuns, contribuindo para a
desconstrução do estigma do lugar de
incapacidade no qual as pessoas com
deficiência são colocadas. As life-
writings o testemunhos encarnados
da experiência de determinados corpos
no mundo e, em última instância,
podem se apresentar como uma
grande oportunidade para as pessoas
repensarem seus lugares e práticas
diante da deficiência.
A autora salienta que a life-
writing é uma poderosa ferramenta de
escrita narrativa para cultivar o que ela
chama de stranging sensivity, isto é, um
sentimento de estranhamento em
relação à deficiência. Simplican
argumenta que "muitas escritoras do
feminismo da deficiência têm descrito
suas experiências de serem ou
tornarem-se pessoas com deficiência,
para mostrar como a experiência
pessoal pode contradizer as normas
capacitistas" (Simplican, 2017, p. 48).
As narrativas em primeira pessoa
contribuem para que as pessoas que as
leem possam estranhar as imagens
preconcebidas que temos da
deficiência, como a suposição de que a
deficiência envolve somente
experiências de tristeza ou dor. Deste
modo, a life-writing não consiste
apenas no registro de uma experiência
pessoal, mas sobretudo de narrativas
de experiências de vida que podem
tornar-se um meio para a compreensão
de um fenômeno social, a partir da
experiência situada de mulheres com
deficiência.
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KASTRUP, Virgínia; GUERREIRO, Raquel. Narrativas da deficiência:
Questões acerca da escrita acadêmica partir da experiência.
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Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.31-58, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
Em um artigo em que analisa
diferentes trabalhos literários de
mulheres com deficiência, como livros,
artigos e ensaios, Garland-Thomson
(2005) propõe uma modalidade de
escrita a partir da experiência da
deficiência que ela chama de situated
theory (que podemos traduzir como
teoria situada). O tipo de escrita que
compõe a situated theory diferencia-se
tanto dos estudos críticos tradicionais
quanto da escrita de relatos e
memórias pessoais da experiência da
deficiência. Ancorada no life-writing, a
situated theory acontece quando, a
partir da narrativa de suas próprias
experiências de vida, as autoras,
mulheres com deficiência, tecem
problematizações e análises de
questões que envolvem a intersecção
de gênero e deficiência, como questões
específicas da sexualidade, aparência,
identidade, dentre outras. Segundo a
autora, na situated theory um modo
complexo e sofisticado de explorar as
questões da deficiência a partir do
ponto de vista da mulher com
deficiência, que coloca seu corpo e
experiência como base para a
elaboração de um pensamento crítico.
Garland-Thomson (2005) afirma a
importância da intervenção na
dimensão cultural para a
desconstrução de estereótipos e da
negatividade que a imagem da
deficiência carrega.
Após ter feito pesquisa COM
pessoas cegas, a pesquisadora com
deficiência física, que é também autora
deste artigo, sentiu tornar-se vital
trabalhar e escrever a partir da sua
experiência de deficiência. Deste
modo, ela produziu em sua tese de
doutorado “Fazer um corpo todo de
escuta: uma travessia existencial”
(Guerreiro, 2021) uma espécie de
cartografia feminista uma cartografia
do processo de tornar-se mulher com
deficiência física e de afirmar esse
lugar.
A cartografia é um método de
pesquisa que segue na mesma direção
da etnografia: pesquisa de campo,
acompanhamento de processos e
relação direta com os participantes,
incluindo como um novo problema o
funcionamento da atenção no trabalho
do cartógrafo e a importância de manter
uma atenção aberta. A cartografia vem
sendo desenvolvida no Brasil como
método de pesquisa acadêmica
(Passos; Kastrup; Escóssia, 2009;
Passos; Kastrup; Tedesco, 2014) e é
definida como uma pesquisa-
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KASTRUP, Virgínia; GUERREIRO, Raquel. Narrativas da deficiência:
Questões acerca da escrita acadêmica partir da experiência.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
intervenção participativa e inventiva,
onde a atenção do pesquisador está
sempre aberta para o surgimento de
problemas de pesquisa no campo. O
conhecimento é produzido quando
trabalhamos COM os participantes,
criando um plano comum.
Foi a partir do corpo que a
pesquisadora começou a escrita de sua
tese de doutorado não somente na
sua experiência pessoal, mas
sobretudo através dos afetos gerados
pelos encontros com outros corpos
marcados pela experiência da
deficiência. Ela narra como os seus
gestos corporais se alteraram
gradativamente em consequência de
uma doença neurológica, e os efeitos
dessas alterações para além da
experiência sica/corporal. A partir do
momento em que os seus gestos
começaram a parecer patológicos, a
sua experiência de mundo mudou
começou a ser vista e tratada de forma
diferente pelas outras pessoas, que
começaram a tratá-la com hostilidade
ou pena. Os tropeços e a instabilidade
corporal que passaram a marcar seu
caminhar de forma mais intensa
tornaram-se motivo de vergonha e de
sentimentos de inadequação e
incapacidade. No entanto, o ingresso
em um movimento social feminista de
mulheres com diferentes deficiências
levou a pesquisadora a perceber outras
questões que atravessavam a vida das
mulheres. Foi a experiência coletiva da
deficiência que a levou a escrever:
Precisei fazer do corpo
pesquisante um corpo de
pesquisantes, múltiplo e largo,
para que minha voz se
tornasse polifônica e ganhasse
a potência de ir para além de
mim. Escrevo para me
desfazer, para me pulverizar,
para ganhar força e
consistência no encontro com
outras histórias. Apesar de
contar um pouco da minha
história por meio desta
pesquisa, busco fazer, por
meio da escrita, com que
outras vozes também possam
ser escutadas. Não é sobre
mim, mas a partir de mim, da
experiência do meu corpo, que
as questões de pesquisa foram
se recolocando e novas
questões foram surgindo
(Guerreiro, 2021, p. 22).
A pesquisadora com deficiência
pôde construir uma narrativa sobre o
processo de se tornar uma mulher com
deficiência e de se apropriar deste lugar
a partir do encontro com outras
mulheres com deficiência em seu
campo de pesquisa. Com elas
aprendeu que precisamos positivar o
que escapa ao hegemônico, ao
normativo, e descobrir as suas
possibilidades.
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KASTRUP, Virgínia; GUERREIRO, Raquel. Narrativas da deficiência:
Questões acerca da escrita acadêmica partir da experiência.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
Foi assim que ela propôs a ideia
de uma cartografia aos tropeços,
incorporando na sua pesquisa os
gestos corporais da sua deficiência
física. O tropeço surge literalmente
como uma marca que fez bifurcar o seu
percurso de investigação. Deste modo,
ela propõe pensar o tropeço no sentido
literal, como um gesto metodológico de
pesquisa, indicando a instabilidade e o
desvio como caminhos possíveis de
pesquisa e de vida (Guerreiro, 2021).
A metáfora de caminhar no
campo de pesquisa é frequentemente
utilizada para escrever sobre métodos.
A ida ao campo de pesquisa não
pressupõe necessariamente uma
hipótese inicial a ser confirmada ou
refutada, mas sim uma atenção aberta
e uma espécie de receptividade ativa
ao que pode colocar novas questões
sobre um determinado tema. Os
encontros que ocorrem durante o
processo de pesquisa são vistos como
material de trabalho relevante, pois
seus efeitos transformam não somente
o campo estudado, mas também a
própria pessoa que pesquisa (Passos,
Kastrup, Escóssia, 2009). Dessa forma,
a escrita é encarnada, na medida em
que considera as percepções e
sensações da pessoa pesquisadora em
seus encontros com o campo. O
processo de pesquisa se faz na
composição da pessoa que pesquisa
com seu campo e com as questões que
se abrem. Os caminhos de pesquisa
podem sempre mudar em função do
que encontramos, podendo nos fazer
desviar e abrir novas vias de
investigação e problematização.
Por sua vez, o tropeçar e o
cambalear produzem uma
desestabilização, que pode estar tanto
no corpo como em supostos estados de
equilíbrio há muito tempo estabelecidos
e, por isso, tidos como naturais.
Operando como dispositivos
encarnados, estes gestos são
movimentos-funções que fazem ver e
falar a deficiência, ao disparar e captar
os enunciados que a produzem, as
relações de poder que a envolvem e os
seus efeitos tanto em pessoas com
deficiência quanto em pessoas sem
deficiência. O tropeço é o traço de seu
deslocamento ao caminhar e, ao contar
a história de seu corpo, de seus
encontros COM outros corpos e suas
experiências, sempre mediadas pela
deficiência, realiza uma escrita de
pesquisa cujo objetivo não é somente
contribuir para a produção de
conhecimento, mas também
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KASTRUP, Virgínia; GUERREIRO, Raquel. Narrativas da deficiência:
Questões acerca da escrita acadêmica partir da experiência.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
transformar o tipo de narrativa
acadêmica sobre a deficiência e a
própria vida.
A invenção de uma cartografia
aos tropeços (Guerreiro, 2021), em
consonância com a situated theory
(Garland-Thomson, 2005) considera
que a experiência do corpo que
pesquisa está inteiramente imbricada
nos modos de fazer que costuram um
método e que são impregnados pelos
movimentos desse corpo. O cambalear
e o tropeçar são capazes de produzir
tensões, desvios e deslocamentos,
provocando novos arranjos e novas
conexões a partir da experiência da
deficiência. Atenta ao que o tropeço
produz no corpo como sensação,
uma receptividade ativa aos seus
efeitos de produção-transformação de
si nesse processo. Assim, esses gestos
não são apenas detalhes na construção
desta pesquisa. Eles são o traço da
deficiência, a experiência encarnada da
deficiência que aparece no
pensamento, na condução da pesquisa
e na escrita, que são possíveis
coletivamente.
Ao encontrar-se COM outras
mulheres com deficiência, a
pesquisadora com deficiência deu-se
conta de que era necessário construir
uma narrativa a partir do seu lugar de
mulher com deficiência física. Na sua
tese de doutorado, ela pôde contar a
história da passagem de pesquisadora
vidente à pesquisadora com deficiência
física, abrindo um novo campo de
investigação, de trabalho e de
percepção de si. A travessia do
processo de se tornar uma mulher com
deficiência foi traçada através da
problematização desse lugar longe de
ser uma tragédia pessoal, a deficiência
é uma questão social e, portanto, uma
questão coletiva e política. Por isso, a
escrita da tese foi um exercício de
narrativa a partir da experiência da
deficiência, por estar baseada na
escuta de si e de outros corpos com
deficiência.
Composições em torno de uma
lacuna e a busca do comum
A questão que atravessou este
estudo foi a importância da produção
de narrativas a partir da experiência da
deficiência. As narrativas encarnadas
podem ajudar a transformar a
compreensão da deficiência, que
atualmente ainda está ligada à noção
de déficit, e a criar outras imagens do
corpo com deficiência. Não se trata
apenas de um problema teórico, mas
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KASTRUP, Virgínia; GUERREIRO, Raquel. Narrativas da deficiência:
Questões acerca da escrita acadêmica partir da experiência.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
de um problema que diz respeito às
políticas de pesquisa. No contexto dos
textos acadêmicos e universitários, que
constituíram o foco deste artigo, a
entrevista de explicitação surge como
uma estratégia que cria condições para
a produção de relatos e narrativas que
não são somente sobre a experiência,
mas que partem do interior da
experiência. O risco do discurso
abstrato parece assombrar todas as
pessoas com deficiência, cujos corpos
escapam à normatividade.
Os corpos das mulheres com
deficiência encontraram um lugar
especial na nossa discussão, na
medida em que uma das autoras se
reconhece como uma mulher com
deficiência física. Graças ao exercício
de escuta do corpo em busca de si
mesmo, tornou-se possível escutar
outros corpos e assim, a própria
pesquisa. O exercício da escrita na
primeira pessoa, tal como as cnicas
feministas da life-writing e da situated
theory, permite-nos falar a partir da
experiência viva da deficiência, o que
nos insere numa discussão sobre os
diferentes efeitos das narrativas a partir
e sobre a deficiência. Uma vez que as
narrativas acadêmicas que ainda são
hegemônicas sobre a deficiência
partem da perspectiva do pesquisador
que pensa ocupar o ponto de vista de
lugar nenhum, o corpo com deficiência
aparece em oposição ao corpo da
normalidade, reforçando os saberes
baseados no modelo biomédico acerca
da deficiência. Assim, para podermos
firmar o compromisso de resistir às
narrativas desencarnadas da
deficiência, afirmamos a importância do
sitpoint, ou o ponto de vista de corpos
que não ocupam posições
hegemônicas, seja a partir de
narrativas escritas COM pessoas com
deficiência ou em narrativas escritas
por elas mesmas.
Aqui reencontramos a distinção
entre narrativa encarnada e narrativa
abstrata: enquanto a narrativa
encarnada é baseada na experiência
vivida de um corpo no mundo, com o
poder de produzir estranhamento e
problematizar as imagens negativas e
naturalizadas que temos da deficiência,
a narrativa abstrata é afastada da
experiência vivida da deficiência, que
reproduz o que é dito sobre a
experiência considerada normal,
relativa a corpos sem deficiência. O
corpo deficiente, considerado abjeto, é
sempre contestado pelo corpo da
norma, como se algo faltasse a ele. É,
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KASTRUP, Virgínia; GUERREIRO, Raquel. Narrativas da deficiência:
Questões acerca da escrita acadêmica partir da experiência.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
pois, necessário desnaturalizar o corpo
sem deficiência como o corpo típico da
espécie humana, afirmando a
legitimidade das experiências de vida
com deficiência.
Abordamos o problema das
narrativas encarnadas, colocando o
problema da investigação e da
produção de textos acadêmicos por
pesquisadoras com e sem deficiência.
Nos situamos, na escrita deste artigo, a
partir do lugar de pesquisadoras
videntes que trabalham com a
cegueira, sendo uma de nós sem
deficiência e a outra uma pesquisadora
com deficiência física. O problema da
composição de pessoas com e sem
deficiência na produção de narrativas a
partir da experiência da deficiência
levou-nos a observar e tomar em
consideração a presença de uma
lacuna, ao mesmo tempo incontornável
e fértil, entre as narrativas de pessoas,
de mulheres, no nosso caso, que
escrevem de forma encarnada.
A abordagem de François Julien
(2016) ao problema da identidade
cultural fornece algumas pistas para
esta discussão. Segundo Julien, a
diversidade não se inscreve no registro
do homogêneo, que se baseia na
similitude, nem no registro do universal,
que é um horizonte regulador. A
diversidade se inscreve no registro do
comum. O comum é um conceito
político, que abraça a diversidade e
inclui o heterogêneo. Não é dado de
antemão, mas deve ser construído.
Para gerir a diversidade das culturas, a
proposta é evitar tratar o problema
através da oposição moderna entre
diferença e identidade. Em vez da
diferença entre culturas, sugere que se
aborde a relação com a diversidade em
termos de lacuna ou hiato (écart),
recursos e fecundidade, e não a partir
da noção de identidade.
Nessa direção, as duas posições
de fala/narrativa de pessoas com e
sem deficiência são colocadas frente
a frente. A distância, assim como a
tensão, é mantida. O frente a frente
permanece intensivo, como uma
tensão ativa, em que os termos nunca
param de se descobrir, explorar e
refletir um sobre o outro. Um depende
dos recursos do outro para se
conhecer, sem pender para o que seria
a identidade, o eu. Por último, a lacuna
é uma distância aberta entre uma
posição e outra, revelando um “entre
dois” ativo e inventivo, que trabalha
para fazer transbordar as identidades,
conduzindo a uma aprendizagem
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KASTRUP, Virgínia; GUERREIRO, Raquel. Narrativas da deficiência:
Questões acerca da escrita acadêmica partir da experiência.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
frutuosa e à exploração da riqueza e
dos recursos de cada pessoa. Ambos
os lados pessoas com e sem
deficiência não cessam de se colocar
questões. Cada um é concernido com o
outro. A lacuna se abre, faz pensar e
cria condições para o surgimento de
outras possibilidades de relação e
outros modos de estar no mundo.
O hiato e a tensão do encontro
entre duas posições distintas
apresentam, também, o risco de que
esse encontro recaia numa relação
hierárquica, o que contribuiria para a
manutenção da lógica do capacitismo.
Nesse caso, não haveria abertura para
a escuta da narrativa do corpo
inferiorizado, ou seja, do corpo não
hegemônico, e poderíamos continuar a
reproduzir ou uma narrativa abstrata ou
impressões equivocadas sobre aquele
cuja experiência desconhecemos. o
garantias. Este é um risco
constante, pois é fácil escorregar em
direção ao hegemônico. Devemos
sempre cultivar uma espécie de
receptividade ativa, uma
disponibilidade para nos despojarmos
das imagens prévias que tínhamos do
outro e para nos deslocarmos do lugar
daquele que fala para o lugar da escuta
aberta. Desta forma, torna-se possível
aprender uns com os outros para a
construção do comum.
Pensar a composição de
narrativas acadêmicas de pessoas com
e sem deficiência em termos de lacuna
ou hiato, distância e recursos, pode
ajudar a atravessar fronteiras e
contribuir para a construção de um
mundo comum e heterogêneo. Nestes
termos, não buscamos homogeneizar
as narrativas, mas apostar nos
encontros, reconhecer as distâncias,
apoiar tensões férteis e criar
composições e articulações não-
hierárquicas e não-capacitistas. Com
este estudo, pensamos ter colocado um
problema, sem tê-lo resolvido de forma
alguma. rias questões interessantes,
como a narrativa encarnada dos textos
literários, bem como as discussões
envolvendo outros aspectos da
interseccionalidade da deficiência para
além do gênero, foram deixadas de
lado. Enfim, esperamos ter trazido uma
pequena contribuição ao campo dos
estudos da deficiência e esperamos
que nossa investigação abra novas
discussões e estimule novas
pesquisas.
Referências
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KASTRUP, Virgínia; GUERREIRO, Raquel. Narrativas da deficiência:
Questões acerca da escrita acadêmica partir da experiência.
PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.31-58, set. 2025.
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Dissertação (Mestrado em Psicologia) -
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Janeiro, 2016.
GUERREIRO, Raquel. Fazer um corpo
todo de escuta: uma travessia
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estéticos: reconfigurações dos modos de fazer e pensar a cultura do
acesso. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.59-75, set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
Cães-guias como mediadores estéticos: reconfigurações dos modos de fazer e
pensar a cultura do acesso
Camila Araújo Alves
1
Marcia Moraes
2
DOI: https://doi.org/10.22409/pragmatizes.v15i29.67341
Resumo: Partindo da relação mulher-cega-com-cão-guia, o artigo discute o trabalho do cão-guia como
um agente que promove a mediação estética por meio de afetações experimentadas diante de obras
de arte, como uma peça de teatro ou uma escultura. O argumento central é o de que a mediação não
se define como uma ponte, mas como uma prática que se faz no meio de muitos. Por essa via, o
trabalho do cão-guia como mediador desloca e coloca em xeque sentidos hegemônicos do que seja
guiar, mediar e promover acessibilidade, apontando para reconfigurações nos modos de fazer e pensar
a cultura do acesso. Com uma escrita situada, que toma como direção metodológica o uso de
narrativas, o texto conclui que a acessibilidade estética não se resume a uma soma de informações.
Mas é um processo que se ativa como experimentação entre cão-guia, humanos, obras de arte.
Palavras-chave: mediação, acessibilidade estética, cão-guia.
Guide dogs as aesthetic mediators: reconfigurations of the ways of doing and thinking about
access culture
Abstract: Starting from the relationship between blind-woman-with-guide-dog, the article discusses the
guide- dog’s work as an agent that promotes aesthetic mediation through the affections experienced in
front of works of art such as a play or a sculpture. The central argument is that mediation is not defined
as a bridge, but as a practice that occurs among many. In this way, the work of the guide dog as a
mediator displaces and challenges hegemonic meanings of what it means to guide, mediate, and
promote accessibility. With a situated writing style, the text concludes that aesthetic accessibility is not
merely a sum of information, but a process that activates as experimentation among guide dogs,
humans, and works of art.
Keywords: mediation, aesthetic accessibility, guide-dog.
1
Doutora em Psicologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Psicóloga Clínica e
Coordenadora do Nexo Psicoterapia. Email: camilaaraujoalves@yahoo.com.br. ORCID:
https://orcid.org/0000-0001-6152-0665.
2
Doutora em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP). Docente
no Departamento de Psicologia da Universidade Federal Fluminense (UFF). Email:
marciamoraes@id.uff.br. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-8581-6126.
Recebido em 09/04/2025, aceito para publicação em 07/08/2025.
60
ALVES, Camila Araújo; MORAES, Marcia. Cães-guias como mediadores
estéticos: reconfigurações dos modos de fazer e pensar a cultura do
acesso. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.59-75, set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
Perros-guía como mediadores estéticos: reconfiguraciones de los modos de hacer y pensar la
cultura del acceso
Resumen: Partiendo de la relación mujer-ciega-con-perro-guía, el artículo discute el trabajo del perro-
guía como un agente que promueve la mediación estética a través de afectaciones experimentadas
ante obras de arte como una obra de teatro o una escultura. El argumento central es que la mediación
no se define como un puente, sino como una práctica que se realiza en medio de muchos. Por esta a,
el trabajo del perro-guía como mediador desplaza y pone en cuestión sentidos hegemónicos de lo que
significa guiar, mediar y promover accesibilidad, señalando reconfiguraciones en los modos de hacer y
pensar la cultura del acceso. Con una escritura situada, el texto concluye que la accesibilidad estética
no se reduce a una suma de información. Sino que es un proceso que se activa como experimentación
entre perro-guía, humanos y obras de arte.
Palabras clave: mediación, accesibilidad estética, perro-guía.
Cães-guias como mediadores estéticos: reconfigurações dos modos de fazer e
pensar a cultura do acesso
Introdução
Parte grande do percurso
profissional de uma das autoras foi
marcada pelo exercício da função de
mediadora, em um Centro Cultural
3
. Via
de regra, os espaços culturais e
museais possuem um setor educativo
4
,
responsável pelo acolhimento do
público que chega no museu, com
visitas agendadas ou não, a depender
do funcionamento de cada local.
3
No campo da cultura, ensino e aprendizagem, o conceito de mediação cultural assume diversas
possibilidades. Autores que tratam desse tema estão presentes mais adiante.
4
Desde 2010, no Brasil, iniciou-se uma relação que busca reconhecimento legal da prática e função
educativa nos museus através do processo de elaboração do Caderno da Política Nacional de
Educação Museal PNEM, com o desenvolvimento da política nacional aliada ao Instituto Brasileiro de
Museus (IBRAM). O Caderno publicado em 2018 traz a definição sobre o que se compreende como
Educação Museal. Segue o link de acesso ao caderno: <https://www.museus.gov.br/wp-
content/uploads/2018/06/Caderno-da-PNEM.pdf>. Acesso em 12 dez. 2025.
Os profissionais atuantes
nesses espaços são historicamente
conhecidos como guias, mas
também lugares que trabalham com
educadores ou ainda, no caso em tela,
espaços nos quais os profissionais
desses setores são conhecidos como
mediadores. Cada um desses cargos
traz consigo um jogo de forças, práticas
e políticas distintas. Dizemos isso para
não pensarem que se trata de uma
61
ALVES, Camila Araújo; MORAES, Marcia. Cães-guias como mediadores
estéticos: reconfigurações dos modos de fazer e pensar a cultura do
acesso. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.59-75, set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
mera troca de palavras para nomear
uma mesma função. Foi como
mediadora que uma das autoras
trabalhou por dez anos, recebendo
milhares de visitantes em exposições
de arte e realizando atividades
produzidas pela equipe de
acessibilidade da qual fazia parte. Em
cada uma dessas visitas, em cada
pequeno e grande encontro, havia com
ela a companhia de um cão-guia.
Neste ponto, é importante
sublinharmos que este texto é escrito
em co-autoria por duas mulheres cujas
vidas e histórias se cruzaram na
universidade, uma como docente, outra
como aluna, primeiro de graduação,
depois de mestrado e doutorado. É um
percurso longo de amizade, parcerias e
produções conjuntas. Uma de nós é
uma mulher cega, branca, que segue
na vida com a parceria de seu terceiro
cão-guia, Pix, um labrador preto,
grande, cujas lambidas marcam uma
parte de sua personalidade assim como
o tamanho de suas orelhas, maiores do
que a da maioria de seus parentes. Nas
histórias que são narradas ao longo
deste texto, a parceria era com a
Pucca, uma cadela golden retriever, de
pelo longo e dourado, a cão-guia que
inaugurou esta jornada de vida de
mulher-cega-com-cão-guia. Num outro
tempo do texto, a parceria era com o
Astor, um cão-guia labrador de pelo
curto e marrom. Como salientam
Moraes, Tsallis e Monteiro (2025, no
prelo) o hífen não é apenas um
elemento gramatical, mas sim um
recurso metodológico para a
composição da escrita e que carrega
mundos de cuidado e de sentido, nem
sempre isentos de conflito. No uso que
fazemos deste hífen, um dos sentidos
importantes é o de confirmar presença
e agência ao cão-guia, não como
objeto, mas como alguém que age em
relação, com a mulher cega e com o
mundo à sua volta. O hífen carrega o
sentido de um corpo que se faz em
ação, em relação: mulher-cega-com-
cão-guia.
a outra autora é uma mulher
de meia idade, branca, que
recentemente passou a fazer o corpo
em articulação com uma prótese de
quadril feita de metal, cerâmica e
parafusos. Outros limites, outros
tempos de vida, outras histórias
encarnadas. É do encontro entre estas
duas mulheres que nasce a escrita
deste texto, inicialmente como parte da
tese de doutorado de uma, orientada
pela outra.
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ALVES, Camila Araújo; MORAES, Marcia. Cães-guias como mediadores
estéticos: reconfigurações dos modos de fazer e pensar a cultura do
acesso. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.59-75, set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
Na leitura das linhas que se
seguem, algumas partes serão
grafadas em itálico, com um recuo
diferente dos parágrafos, para indicar
que a memória de um encontro invadiu
a escrita. São memórias vividas por
uma de nós, compartilhadas com a
outra, nas muitas conversas que
tivemos quando da realização da
pesquisa que deu origem a este texto.
São memórias escritas a posteriori,
instadas pelo que se passava no
cotidiano de nossas conversas. É certo
que não tomamos a história como um
baú de coisas guardadas. Mas sim,
como uma ilha de edição que toma por
base um conjunto disperso de
acontecimentos, de afetos, de histórias,
imagens, sons e tantas coisas mais.
Com isso, queremos salientar que
na memória um trabalho de montagem
que se faz continuamente e
ininterruptamente ao longo da vida e da
pesquisa. No caso desse texto, os
acontecimentos foram vividos por uma
de nós, a edição das memórias
fizemos de modo sempre
compartilhado, uma em parceria com a
outra. E tais memórias irão invadir o
texto, como invadiram a pesquisa,
forjando aberturas de sentido,
reinventando o presente e também, o
próprio passado. Em tais trechos,
usaremos o pronome na primeira
pessoa do singular para indicar que
somente uma de nós estava lá, no calor
do acontecimento narrado. Nas demais
passagens da escrita, usaremos a
primeira pessoa do plural, porque
fomos nós duas as editoras, as tecelãs
a costurar memórias, vidas, pesquisas.
Por que registramos tais
passagens em itálico? Porque
queremos garantir que este texto seja
acessível para todo mundo. Quem
porventura for lê-lo com leitores de tela,
tão logo alcance o itálico, saberá que
ali, naquele ponto, uma memória
irrompeu.
Cão-guia e a ação de mediação
Segundo Miriam Celeste (2014),
a mediação é a ação de transitar,
articular. Em seu texto Memórias para o
devir: A mediação cultural como
provocação e contaminação estética, a
autora nos revela a mediação como um
fazer em rede, ultrapassando a ideia de
mediação como uma ponte que une
dois pontos. Celeste afirma que a
mediação é um “estar entre muitos”
(Alves, 2020).
Mediação é encontro; mediação
é ampliação de conhecimento;
63
ALVES, Camila Araújo; MORAES, Marcia. Cães-guias como mediadores
estéticos: reconfigurações dos modos de fazer e pensar a cultura do
acesso. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.59-75, set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
mediação é ir ao encontro do repertório
e dos interesses do outro; mediação é
conectar conteúdos e interesses;
mediação é ir além dos conteúdos;
mediação é aproximar, refletir
experiências e compartilhar; mediação
é diálogo, conversação, provocação. E
justamente por ser um termo
polissêmico é que ele se constitui como
problema de pesquisa. Autores como
Honorato (2012), Martins (2014) e
Kaufman, Harayama e Lage (2016)
também tomam a mediação como
campo problemático (Alves, 2020).
A professora e pesquisadora
Miriam Celeste (2006) defende que as
propostas éticas e estéticas de uma
mediação cultural são de grande
importância para que as experiências
propostas pelo cleo de educação de
um museu aconteçam. “Em sua
pesquisa, afirma que quanto mais
interativa, no sentido de considerar o
visitante, de nos relacionarmos, de
promovermos sua participação ativa,
seus pontos de vista e suas
considerações, mais transformadoras
as experiências podem ser” (Andrade,
2020, p. 16).
E o que toda essa discussão tem
a ver com a mediação? Bem, trazemos
o tema da mediação para que
pensemos como essa discussão se
sintoniza e ressoa também no trabalho
dos cães-guias. O conceito de
mediação abre a possibilidade de
compreendermos o lugar do cão-guia
nas vidas das pessoas cegas e o das
pessoas cegas nas vidas desses cães.
Este é um caminho de argumentação
que nos levará também a acionar uma
certa história da deficiência.
Como dito anteriormente,
formas distintas de se relacionar com o
público em um museu, sendo guia ou
mediador, as práticas engendradas por
cada uma dessas funções são capazes
de criar relações com diferentes
potências. No caso do guia, função
essa que também nomeia o trabalho
que os cães-guias fazem, há uma
distribuição assimétrica nas posições
de quem ocupa esse campo relacional.
Ao guia, tanto no museu quanto na
função dos es, a expectativa de
que esses cumpram um conjunto de
comandos pré-estabelecidos antes de
um encontro, que assumam posições
de neutralidade e que se atentem, de
forma menos interativa, ao caminho
que deve ser percorrido.
Tais relações, organizadas
nesses termos, produzem um
distanciamento entre quem guia e
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ALVES, Camila Araújo; MORAES, Marcia. Cães-guias como mediadores
estéticos: reconfigurações dos modos de fazer e pensar a cultura do
acesso. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.59-75, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
quem é guiado, entre quem segue e
quem é seguido, entre quem fala e
quem é ouvido, entre quem detém as
informações e quem irá adquiri-las. E
no caso dos cães-guias, o que se
passa? Se, por um lado, historicamente
nos relacionamos com os animais de
modo a docilizá-los, a desacreditar de
suas habilidades de inteligência,
aprendizagem e comunicação, por
outro lado, quando uma pessoa cega
aceita constituir uma parceria com um
cão, precisa creditar a ele a sabedoria
na condução de seus passos e
decisões que serão por ele tomadas.
Longe de serem objetos neutros,
produtores da independência das
pessoas cegas, o cão-guia é agente e
garantia de que a pessoa cega não
estará sozinha. No caso de uma de s,
mulher-cega-com-guia, não estar mais
sozinha, diz respeito a colocar em
xeque o isolamento que pessoas com
deficiência experimentam num mundo
corponormativo e capacitista. Tal
isolamento restringe nossas
articulações com as pessoas, com o
mundo. Neste ponto, é importante
sublinhar os efeitos que os cães-guia
produzem na cidade, nas instituições,
nas vidas de outras pessoas e,
principalmente, nas vidas das pessoas
com deficiência: são efeitos que os
colocam, é nossa afirmação, mais
próximos de ações mediadoras do que
do exercício de um guia.
A hora de voltar para casa se
aproximava. Com duas
amigas, fui almoçar antes de
voltar. Uma delas me levaria
até o táxi... Que alívio! Aquela
tensão que parecia dizer
respeito à minha vida, de
repente foi dividida com ela.
Uma tensão constante de não
saber o que me espera quando
circulo pela cidade com a
Pucca. Pela nossa
proximidade, por saber dos
desafios que Pucca e eu
enfrentávamos em nossas
andanças, dessa vez eu não
precisei lançar mão de
nenhuma instrução, afinal de
contas ela já as conhecia. O
local onde eu pegaria um táxi
era a saída de um shopping.
Em geral, por ali se formava
uma fila, era um ponto onde
taxistas deixavam pessoas que
chegavam ao local e levavam
as que queriam sair. Para
minha surpresa, naquela hora
em que chegamos, não havia
fila. Chegarei rapidinho em
casa, pensei! Pensei como
alguém que vez ou outra insiste
em acreditar que os caminhos
não são feitos de atritos, de
pedras rochosas... Como se o
próprio ato de circular não
trouxesse consigo um trabalho,
uma tradução de mundo. O
primeiro taxista dos muitos que,
diferente do que acontecia de
manhã, estavam livres, não
quis fazer a corrida, disse que
não transportava cães. O
segundo pouco quis ouvir a
minha amiga a respeito da
presença do cão. À medida que
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ALVES, Camila Araújo; MORAES, Marcia. Cães-guias como mediadores
estéticos: reconfigurações dos modos de fazer e pensar a cultura do
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
os táxis iam recusando as
corridas, uma fila ia se
formando atrás da gente. Um
grupo de homens, que deviam
estar no final do almoço, sei lá,
conversavam atrás de nós. Os
taxistas continuavam a recusar
as corridas, a fila aumentava, a
ansiedade também. Agora eu e
a amiga que me acompanhava
estaríamos sozinhas? Foi o
que pensei! Os carros que não
nos levavam pararam para
pegar as pessoas que estavam
atrás de nós, como se aquela
fila não fosse uma única fila.
Como se nós não fôssemos as
primeiras. Mas ainda que os
carros parassem para levar as
outras pessoas, elas não iam.
Fui ouvindo um combinado do
grupo de rapazes, um
combinado feito entre eles, que
dizia que eles não pegariam o
táxi que tivesse recusado a nos
levar. Fiquei tocada... Mais
uma vez aquele problema
deixou de ser meu, da
amiga que estava comigo e foi
redistribuído. Ao mesmo tempo
em que ele ia sendo
redistribuído, para mim, ele ia
sendo também traduzido.
Traduzir é fazer invenções na
sua própria língua...
Algumas mulheres que
estavam no final da fila
perguntaram por que a fila não
andava, afinal de contas, táxis
não faltavam. Os rapazes
responderam que era porque
eles não queriam me levar. Eu
não sabia que eles estariam ali,
não saberia que estavam se
tivessem pegado o primeiro táxi
5
Na teoria ator rede, o ator é definido a partir
do papel que desempenha, do quão ativo,
repercussivo é, e quanto efeito produz na sua
rede, portanto, pode-se dizer que pessoas,
animais, coisas, objetos e instituições podem
ser um ator. Já a rede representa interligações
que recusou fazer a nossa
corrida, mas eles recusaram a
corrida de vários taxistas. Eles
tiveram o seu caminhar
interrompido por outras vidas.
Foram tomados por isso?
Tomaram isso para eles? Não
sei... Mas tiveram o seu
caminhar interrompido e
seguiram de novo quando nós
seguimos! (Memórias de um
encontro, 2014)
No ano de 2010, dois
acontecimentos marcaram a vida de
uma das autoras: a chegada da Pucca,
cão-guia, e o começo do trabalho como
mediadora em um espaço museal.
Pucca era uma golden retriever de pelo
dourado, corpo robusto. Sua função
era, inicialmente, guiar. Cabia a ela
levar sua humana, mulher cega, pelo
mundo afora. Porém, ainda quem
suponha que a função de um cão-guia
é a de obedecer comandos. Com um
protocolo determinado do que é ser
uma guia, ela deveria executar sua
função.
A questão é que um cão-guia é
um ator não-humano
5
capaz de
produzir deslocamentos, colocar
questões, evidenciar as negociações
de conexões s onde os atores estão
envolvidos. A rede pode seguir para qualquer
lado ou direção e estabelecer conexões com
atores que mostrem alguma similaridade ou
relação.
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ALVES, Camila Araújo; MORAES, Marcia. Cães-guias como mediadores
estéticos: reconfigurações dos modos de fazer e pensar a cultura do
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Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.59-75, set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
necessárias para o sucesso de um
encontro. Um cão-guia é capaz de
mediar. Se a presença de uma pessoa
cega no mundo ainda é um fator
inusitado, a presença de pessoa-cega-
com-cão-guia é ainda mais inusitada,
um ator imprevisto em quase todos os
espaços. Faz-se necessário o tempo
inteiro articular nossas presenças
nesses espaços. Dizemos “nossas”
para marcar que no corpo-mulher-com-
cão-guia o que há, logo de saída, é a
conexão, o vínculo: o hífen supra
mencionado.
Que o pessoal é político, s
aprendemos com as feministas negras
e chicanas (Anzaldua, 2000; hooks,
2019). Quando uma experiência
pessoal, aparentemente anedótica,
toca outras vidas, ela tece um nós, um
coletivo. É justo neste ponto que o
pessoal é político. Não se trata de
tomar a narrativa pessoal como
confessional ou como uma impureza a
ser retirada dos trabalhos acadêmicos.
Trata-se, antes, de afirmar que a
pesquisa - e a escrita - o localizadas,
isto é, corporificadas num emaranhado
de conexões. Escrever e narrar com as
memórias de uma de nós é um gesto
político de deixar os rastros no texto: os
rastros dos coletivos que nos fazem
agir no mundo, do que nos “fazem
fazer”. A duplicação do verbo fazer na
última frase indica que a ação é sempre
coletiva e articulada num emaranhado
de conexões e não oriunda de um ponto
isolado ou de alguma origem única. Na
memória que narramos, à mulher-cega-
com-guia se articularam a rua, os táxis,
as filas, a organização de quem pega e
quem não pega o táxi. Ali, naquela
cena, um ato político de insurgência era
agenciado por um grupo muito
heterogêneo. Aqui, na escrita,
reverberamos o ato político para levá-lo
mais longe, para que ele alcance mais
vidas. É por isso e para isso que
escrevemos, que narramos com
nossas memórias.
Segundo Camila Andrade
(2020), o trabalho no setor de educação
de um espaço museal assenta-se numa
política de atuação que, para a autora,
é a mediação como prática e não como
função. Ou seja, segundo Andrade
(2020), a mediação cultural é
estruturada a partir da perspectiva
prática, a partir da atuação e das
relações que podem ser estabelecidas
no contato com os sujeitos que
compõem os contextos sociais em
questão. É nessa sintonia em que
tomamos a mediação como ação, como
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ALVES, Camila Araújo; MORAES, Marcia. Cães-guias como mediadores
estéticos: reconfigurações dos modos de fazer e pensar a cultura do
acesso. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.59-75, set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
prática de abertura e disponibilidade ao
outro, feita também pelos não-humanos
e, mais precisamente, pelos cães-
guias.
A discussão que propomos
acerca da mediação não está separada
das discussões artísticas.
Tradicionalmente, a fruição artística é
considerada num sentido passivo de
espectador, isto é, numa relação de
distanciamento entre a obra exposta e
o espectador. De modo similar, como
falamos, o guia atua em museu
também numa relação distanciada em
relação tanto à obra quanto aos
espectadores, já que é ele quem passa
as informações sobre a obra aos
visitantes do museu. É o guia quem
“sabe” sobre a obra. O espectador é
quem recebe a informação. Na
contramão dessa concepção, artistas
como Hélio Oiticica
6
e Lygia Clark
7
fazem outras propostas para a fruição
da obra de arte. Esses artistas se
6
Hélio Oiticica (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro,
1937 idem, 1980). Artista performático, pintor
e escultor. Sua obra caracteriza-se por um forte
experimentalismo e pela inventividade na
busca constante por fundir arte e vida. Seus
experimentos, que pressupõem uma ativa
participação do público são, em grande parte,
acompanhados de elaborações teóricas, com a
presença de textos, comentários e poemas.
Para mais, ver:
<https://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa
48/helio-oiticica>. Acesso em 14 dez. 2025.
interessaram e propuseram atividades
colaborativas no campo das artes, com
uma rede interdisciplinar, promovendo
o trabalho com comunidades amplas,
não necessariamente com o público
habituado aos espaços museais. Por
essa via, promoveram uma
democratização das relações, da ética
criada e valorizada na discussão da
arte (Andrade, 2020).
Hélio Oiticica e Lygia Clark são
dois dos artistas mais revolucionários
de seus tempos. Seus trabalhos foram
experimentais ao longo de toda a vida,
rompendo com o conceito de obra de
arte como um objeto, como algo fora de
nós, para o de relação entre artista e
público. Reconhecidos
internacionalmente como dois dos mais
importantes artistas da arte
contemporânea, suas obras passaram
a se preocupar com o corpo em ações
diretas nas obras de arte, atuando na
contramão da atitude contemplativa
7
Lygia Pimentel Lins (Belo Horizonte, Minas
Gerais, 1920 Rio de Janeiro, Rio de Janeiro,
1988). Pintora e escultora. Trabalha com
instalações e body art e destaca-se por
trabalhar com a relação no campo da arte
terapia. Propõe a desmistificação da arte e do
artista e a desalienação do espectador, que
compartilha a criação da obra. Para mais, ver:
<http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa1
694/lygia-clark>. Acesso em 14 dez. 2025.
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ALVES, Camila Araújo; MORAES, Marcia. Cães-guias como mediadores
estéticos: reconfigurações dos modos de fazer e pensar a cultura do
acesso. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.59-75, set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
que por muito tempo definiu o que se
esperava do espectador (Alves, 2020).
Ao longo de suas trajetórias,
investiram em propor cada vez mais
relações sensoriais e corporais por
parte do espectador, gerando uma
nova percepção de obra de arte. É o
auge da dessacralização da obra de
arte e da aproximação entre arte e vida
a arte como extensão humana. Os
trabalhos deixam de ser “obras” para
serem propostas abertas ao público e
por ele completadas (Alves, 2020).
As discussões levadas adiante
pelas obras de Oiticica e Clark a
respeito da democratização da arte, da
ética, da valorização da colaboração,
da desierarquização e da democracia
passam a ser valores ligados à prática
artística. Desse modo, esses artistas,
ainda que com objetivos e produções
diversos, permanecem ligados “pela
crença na criatividade da ação coletiva
e nas ideias compartilhadas como
forma de tomada de poder” (Andrade,
2020, p. 147). A arte em questão,
portanto, é pensada mais como um
modo de existência do que como um
produto, do que como produção de
objetos. É como um processo de
experimentação social, um percurso
cartográfico, aprendendo no caminho
como operar a complexidade dos
cruzamentos de linguagem entre arte,
ciência, educação e espaço museal,
que a arte se torna, com esses artistas,
um campo expandido para além das
convenções estabelecidas.
O que propomos nesse texto é
que pensemos a ação dos cães-guia
não no sentido clássico do guia, como
explicitado nas linhas anteriores. Mas
sim no sentido da mediação como uma
prática cujo fio histórico se liga ao que
Oiticica e Clark propuseram no campo
das artes. O que queremos dizer com
isso? Queremos sublinhar que o
trabalho do cão-guia longe de ser o de
um objeto ou de um ser passivo que
apenas atende a comandos, é um
trabalho de mediação, de
experimentação, tal como proposto
pelos artistas brasileiros que
revolucionaram a história da arte. A
arte, nesse recorte, é reafirmada como
atitude ou modo de receber e devolver,
de negociar, que, de alguma maneira,
deve ser modulado pelas diferenças
que acontecem em cada espaço, em
cada indivíduo.
Nessa perspectiva, Andrade
(2020) retoma a afirmação de que a
mediação é estar entre muitos: “nos
colocando na condição e na posição de
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ALVES, Camila Araújo; MORAES, Marcia. Cães-guias como mediadores
estéticos: reconfigurações dos modos de fazer e pensar a cultura do
acesso. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.59-75, set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
quem também há de viver uma
experiência e a potencializa,
despertando corpos, caminhando
juntos, levando e sendo levado”
(Andrade, 2020, s/p). É isso o que
define o trabalho de um cão-guia.
A mediação
Era fevereiro de 2018. Eu que
conheci o Astor no dia 3 de
janeiro desse mesmo ano havia
finalizado uma semana o
nosso processo de adaptação,
que, confesso, não foi fácil.
Pucca havia trabalhado comigo
por anos, até a chegada de sua
aposentadoria. O grau de
conexão que criamos ao longo
desses anos me fez esquecer
os percalços do início e mais,
permitiu também sublinhar
todas as diferenças entre eles.
Ele não era ela, eu não o
conhecia, ele não me conhecia.
Não tínhamos nenhuma
conexão nem tampouco eu
havia, durante o nosso
processo de adaptação, ficado
sozinha com ele, feito saídas
apenas com ele, visto que essa
é uma determinação desse
primeiro momento.
Outra raça, outro tamanho,
outro peso, outra forma de
andar, outra forma de se
comunicar. Se com Pucca eu
me sentia deslizando pelas
ruas da cidade, com Astor as
8
Dirigida por Bia Lessa, a peça baseada em
obra do mineiro João Guimarães Rosa tem
Luiza Lemmertz, Caio Blat, Leonardo Miggiorin
e Luisa Arraes no elenco. Na trama, encenada
dentro de uma espécie de gaiola de andaimes
instalada na área de convivência do Sesc
Pompeia, o jagunço Riobaldo faz um pacto com
o demônio para sobreviver no sertão e tenta
ruas se tornavam uma grande
e radical trilha, uma aventura.
Divertido que ele,
seguíamos nós a saltar
rapidamente pelos rumos que
tomávamos. Voltamos em
fevereiro. Eu havia comprado
dois disputadíssimos ingressos
para a montagem de Bia Lessa
da obra Grande Sertão
Veredas
8
. A peça estava em
cartaz no CCBB do Rio de
Janeiro, lugar
9
bem conhecido
por mim e recém conhecido por
Astor. No centro da rotunda,
localizado no térreo do prédio,
o cenário estava posto. Sem
recursos de acessibilidade, eu
contaria apenas com as falas
dos personagens e as
descrições feitas de modo
informal pela pessoa que
estava comigo. Portas abertas,
entrada liberada, fomos eu,
Astor e minha companheira
para nossos lugares.
Sentamos e posicionei o Astor
debaixo da cadeira onde
estava sentada, próximo aos
meus pés, de modo que eu
conseguisse abraçá-lo com as
pernas e senti-lo durante o
espetáculo, ao meu lado
direito, minha companheira.
Primeiro sinal, segundo sinal,
terceiro sinal. Começa o
espetáculo. Os atores
começam a ocupar o centro do
cenário, em torno do qual o
público estava posicionado,
incluindo nos três.
Sons de corvos,
acompanhados de uma forte
reprimir o amor que sente pelo colega
Diadorim.
9
Aqui falo do Centro Cultural Banco do Brasil
(CCBB/RJ) como um lugar bem conhecido por
mim. No momento dessa experiência eu estava
no fim de uma jornada de dez anos de trabalho
no espaço.
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ALVES, Camila Araújo; MORAES, Marcia. Cães-guias como mediadores
estéticos: reconfigurações dos modos de fazer e pensar a cultura do
acesso. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.59-75, set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
expressão corporal, o palco”
sendo tomado a cada segundo
por mais corvos, que levaram
Astor ao desespero.
Levantando-se rapidamente,
chorando e tremendo, ele que
acompanhava atento o
espetáculo foi completamente
tomado por ele.
Naquela cena saímos
correndo, nos três. Sentados
do lado de fora do teatro, liguei
desesperada para o treinador
que, ao ouvir sobre o
acontecimento, me disse: “Ele
está com medo e só precisa do
seu suporte, tudo isso é muito
estranho para ele”. Levamos
tempo ali com ele, acariciando
e acalmando a nós mesmas até
que o susto tivesse passado.
Naquele dia, não vimos a peça,
mas entendi completamente a
força que ela tinha. (Memórias
de um encontro, 2018).
Essa noite foi muito marcante.
Era o grande sertão em pleno Rio de
Janeiro. O espetáculo era incrível, mas
sem recursos de acessibilidade. O que
ninguém imaginava, nem a mulher-
cega-com-cão-guia, era que o Astor
faria a mediação da obra. Ele foi um
mediador cultural - e dos bons! Foi uma
mediacão inesperada. Pois é,
acreditem, foi isso o que aconteceu, o
Astor havia ali feito uma mediação
estética, tornando acessível a estética
daquela obra para sua humana, uma
mulher cega. Nenhuma descrição
objetiva da obra teria provocado na
mulher o tremor sentido, nem teria feito
a faria correr junto do cão, como ele fez
quando foi tomado pelo “acontecimento
dos corvos”. Eram corvos no palco.
Atores-humanos-corvos. E eles eram
assustadores.
A questão que para ser
explorada a partir do amálgama cão-
guia-mulher-cega é: o que esta
conexão faz fazer o cão? O que esta
conexão faz fazer com a deficiência,
com a pessoa com deficiência? A
questão não era restituir à mulher a
visão perdida. Nem tampouco transmitir
informações objetivas sobre a peça.
Astor foi afetado pela obra. Ele
participou ativamente da cena e fez
chegar à sua humana um sentido da
obra, uma tensão, um medo que se
fazia presente no encontro entre ele e a
obra. É uma mediação que não parte do
que no outro falta, parte do que a obra
faz fazer. Mediação estética levada
adiante por um cão-guia que, ao
mesmo tempo que desloca o sentido
clássico de guia, coloca em xeque a
concepção de deficiência como falta.
A acessibilidade estética tem
como intenção fazer uma ativação
sensorial da interação entre público,
corpo, obra, artista e movimentos
artísticos. Não é uma questão de
transmissão de informações porque
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ALVES, Camila Araújo; MORAES, Marcia. Cães-guias como mediadores
estéticos: reconfigurações dos modos de fazer e pensar a cultura do
acesso. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.59-75, set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
essa, por si só, não é capaz de suscitar
em pessoas cegas, como uma das
autoras desse texto, o potencial
artístico de uma obra, ela não nos
permite experimentar a obra de arte. A
informação é capaz de nos informar a
respeito de algo ou alguma coisa, mas
não de nos fazer sentir.
O episódio no teatro com o Astor
traz à tona uma acessibilidade estética.
Longe de tomar aquele seu
comportamento como inaceitável, um
erro ou um desvio para um cão-guia
muito bem treinado, o que seria
compreensível caso se esperasse dele
uma posição mecânica e neutra diante
de um espetáculo contemporâneo, o
que a autora viveu naquele dia foi o
medo, a insegurança e o perigo do
sertão, encenado na sua pele e no
corpo do Astor.
Se a mediação acontece no
laço, pelo vínculo, é preciso considerar
que o cão-guia também faz laço, faz
vínculos com os espaços, pessoas e,
inclusive, com os espetáculos que
frequenta com a mulher-cega. Astor é
um ator ativo no seu processo de
ocupação do mundo; um mundo
partilhado com sua humana, com
muitos. Para além de seu trabalho
exemplar como guia, do seu
reconhecimento dos comandos e da
sua habilidade como guia, a maneira
como Astor toma o mundo é mediação.
Ao longo desse percurso no
campo da arte, provocada por
encontros com artistas como Hélio e
Lygia, uma das autoras passou a
propor, em equipe, modos
experimentais de desenvolver
programas e dispositivos de
acessibilidade que possibilitem incluir,
principalmente, pessoas com
deficiência em museus e centros
culturais. Nesse ponto, começava a se
desenhar um conjunto de inquietações.
Quais são as maneiras possíveis de se
ocupar o espaço do museu? O que
significa propor maneiras
experimentais de desenvolver
programas e dispositivos de
acessibilidade?
Em consonância com os
pensamentos de Oiticica, nos referimos
ao termo “experimental” a partir de seus
estudos e de suas parcerias, que, ao
priorizarem a arte como um processo
contínuo de estudo entre corpo, artista,
espectador e obra, acreditavam que a
ação artística era derivada das
experiências vividas. Nesses termos,
ao longo das produções desses
artistas, o experimental serviu para
72
ALVES, Camila Araújo; MORAES, Marcia. Cães-guias como mediadores
estéticos: reconfigurações dos modos de fazer e pensar a cultura do
acesso. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.59-75, set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
designar a busca de liberdade em
utilizar variados materiais, de maneiras
múltiplas, como artifício artístico, a
partir de novas mídias e novas
propostas, como o “caminho sensorial
em que o corpo é entendido como força
motriz. O resultado do experimental é
que ele é livre, pois não se repete
(Alves, 2020).
Assim, o conceito de
experimental traz novos valores e
novas leituras para o campo da
acessibilidade. Assumir o experimental
em um trabalho de acessibilidade é
assumir que uma obra de arte não tem
sentido em si ou que uma curadoria de
uma exposição não garante uma leitura
por parte do visitante; é garantir que
existe e persiste nesse processo
experimental uma positividade, algo
esperando para emergir (Alves, 2020).
Ressaltamos que cães-guias
como o Astor podem estabelecer uma
relação de experimentação com as
obras de arte com as quais também nos
relacionamos. Se, por um lado, com as
diferenças de posições que ocupamos
10
Auguste Rodin (1840-1917) foi um escultor
francês. "O Pensador", "O Beijo" e "A Porta do
Inferno" são algumas de suas famosas
esculturas. Foi um dos artistas mais influentes
do século XX. René-François-Auguste Rodin
(1840-1917) nasceu em Paris, França, no dia
em nossa relação, é a humana quem
decide onde irão, os cães aceitam a
decisão, mas não deixam nunca de
responder a ela do modo como são
afetados e tocados no curso dos
encontros e caminhos que percorrem
juntos.
Afetar e ser afetado: considerações
finais
O ano era 2011. Fazia alguns
meses que eu e Pucca
havíamos nos conhecido e
partimos para Salvador com
amigas da faculdade para um
evento da área, que
aconteceria na cidade.
Viajamos juntas pela primeira
vez. A experiência despertava
sensações incríveis de frio na
barriga, até um frescor na alma.
íamos nós para a Bahia,
lugar que eu e ela
conheceríamos juntas.
Foram sete dias intensos,
muitas caminhadas e muitos
passeios. Dedicamos ao
evento a menor parte da nossa
viagem. Em uma de nossas
andanças, visitamos uma Casa
de Cultura cujo nome me
escapa, mas que na época
recebia nos jardins uma
exposição do escultor francês
Rodin
10
. Apesar de nessa
época eu estar trabalhando
em exposição de arte, eu
pouco conhecia sobre a história
da arte. Essa visita foi
12 de novembro de 1840. Filho de um modesto
funcionário do departamento de Polícia
recebeu apoio da família para suas inclinações
artísticas. Para mais, ver:
<https://www.ebiografia.com/auguste_rodin/>.
Acesso em 14 dez. 2025.
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ALVES, Camila Araújo; MORAES, Marcia. Cães-guias como mediadores
estéticos: reconfigurações dos modos de fazer e pensar a cultura do
acesso. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.59-75, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
marcante também nesse
sentido.
Nas galerias da casa
encontramos com obras do
Frans Krajcberg
11
, também
escultor, que usa como
matéria-prima para suas obras
madeiras advindas do
processo de queimadas em
prol do desmatamento para
obtenção de lucros. Suas obras
tem cheiro, cheiro esse que
chamou a atenção de Pucca
em toda a visita. As linhas que
imprimiam aos videntes a justa
medida de distanciamento das
obras eram ignoradas por
Pucca, que insistia em cheirar
e se aproximar. É muito bonito
ver como diferentes formas de
conhecer exigem de nós
diferentes organizações
corporais e espaciais. Pucca
para visitar essa exposição
precisava cheirar. Ora ela
conseguia ora não. Mas fato é
que a maior experiência desse
dia aconteceu nos jardins.
estavam as imensas esculturas
de Rodin. Todas de ferro. Nos
posicionamos diante de uma
escultura de um homem, cuja
expressão corporal sugeria que
ele estava vindo em nossa
direção, apontando um dedo de
uma das mãos também em
nossa direção, como quem
está pronto para travar uma
tensa discussão.
Essa foi a descrição que eu
ouvia diante da obra, o que
muito me ajudou a entender a
postura corporal do homem
esculpido, mas o que trouxe ali
11
Frans Krajcberg (Kozienice, Polônia, 1921
Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2017). Escultor,
pintor, gravador e fotógrafo. Autor de obras que
têm como característica a exploração de
elementos da natureza, destaca-se pelo
ativismo ecológico, que associa arte e defesa
do meio ambiente. Para mais, ver:
naquele dia a dimensão
estética da obra foi a discussão
que Pucca aceitou travar com
ele.
Foi isso. Depois de alguns
minutos diante da obra, Pucca,
que estava sentada, levantou-
se e, olhando para cima, para o
rosto do homem, começou a
andar para trás, dando
movimento à cena, ensaiando
rosnar, como quem tivesse
respondendo a um convite feito
pelo artista. A tensa discussão
ia começar. (Memórias de um
encontro, 2011).
É mais uma cena do cão como
mediador. Assim como Astor no teatro,
Pucca, diante de Rodin, tornou-se uma
mediadora estética daquela obra de
arte. A descrição daquela obra não
tinha trazido consigo a força da
expressividade dela. Tal força jamais
poderia ser expressa por palavras que
a tentassem traduzir. A expressividade
é algo com a qual temos, neste
contexto, que lidar na carne, na pele.
Ao aceitar o convite da obra, ou
melhor, ao ser tomada pelo convite da
obra, Pucca assustou sua humana, que
teve seu coração tomado por batidas
aceleradas, por medo. Medo da postura
<https://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa
10730/frans-
krajcberg#:~:text=Escultor%2C%20pintor%2C
%20gravador%20e%20fot%C3%B3grafo,artes
%20pela%20Universidade%20de%20Leningra
do>. Acesso em 14 dez. 2025.
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ALVES, Camila Araújo; MORAES, Marcia. Cães-guias como mediadores
estéticos: reconfigurações dos modos de fazer e pensar a cultura do
acesso. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.59-75, set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
da cachorra: será que Pucca estava
cometendo algum erro no seu
treinamento como cão-guia? Há, nos
animais, algo que talvez a maior parte
de nós tenha perdido diante da vida e
também da arte, que é a capacidade de
reagir, de se deixar tomar, de
responder expressivamente com todo o
corpo ao mundo que habita.
O que a relação com os animais
nos permite acessar do mundo, das
obras de arte e de nós mesmos?
Falamos sempre de algum lugar, mas
também ouvimos sempre de algum
lugar. Somos capazes de ouvir os
animais do lugar de onde eles falam?
Que humanidade a relação com nossos
animais constrói em nós? Que tipo de
animalização a humanidade que nos
tornamos produz?
Afetar e ser afetado pelas
histórias que contamos sobre os
animais, contar essas histórias
considerando as relações mulher-com-
cão-guia, arte, acessibilidade,
mediação estética é o que queremos
provocar com a escrita deste trabalho.
É um conjunto de questões articuladas
que se abrem com o que narramos
nesse artigo. Como dito, as mediações
estéticas levadas adiante por Pucca e
Astor deslocaram sentidos dados para
o cão-guia. Deslocaram também os
sentidos dados para o trabalho da
mediação em espaços museais e
colocaram em xeque a narrativa da
deficiência como falta, como
incapacidade. Afetar e ser afetado
talvez seja outro modo de dizer que
existimos e sentimos o mundo em
relação, no meio de muitos e por meio
de muitas mediações.
Referências
ALVES, Camila Araujo E se
experimentássemos mais?
Contribuições não técnicas de
acessibilidade em espaços culturais.
Curitiba: Appris, 2020.
ALVES, Camila Araújo; MORAES,
Marcia. Proposições não técnicas para
uma acessibilidade estética em
museus: uma prática de acolhimento e
cuidado. Proposições não técnicas
para uma acessibilidade estética em
museus: Uma prática de acolhimento e
cuidado. Estudos e Pesquisas em
Psicologia, 2019, 19(2), 484502.
Disponível em: https://www.e-
publicacoes.uerj.br/revispsi/article/view
/44287. Acesso em: 6 abr. 2025.
ALVES, Camila Araújo; MORAES,
Marcia. Entre histórias e mediações:
um caminho para acessibilidade
75
ALVES, Camila Araújo; MORAES, Marcia. Cães-guias como mediadores
estéticos: reconfigurações dos modos de fazer e pensar a cultura do
acesso. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.59-75, set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
estética em espaços culturais.
Psicologia: Ciência e Profissão Jul/Set.
2018 v. 38 n°3, 584-594. Disponível em
https://www.scielo.br/j/pcp/a/kySF7Bcd
kSQ4dMpNV7cw6Hb/?format=pdf&lan
g=pt. Acesso em: 6 abr. 2025.
ALVES, Camila Araújo; MORAES,
Marcia. Carta aberta ao mundo da
cultura. Museu do Amanhã. Disponível
em: https://museudoamanha.org.br/pt-
br/publicacao-entre-museus-
acessiveis-acessibilidade-carta-aberta-
ao-mundo-da-cultura-camila-alves-e-
marcia-moraes. Acesso em: 6 abr.
2025.
ANDRADE, Camila Oliveira. Como
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os reflexos da interação entre museu e
público. Dissertação (Mestrado em
Estudos Contemporâneos das Artes) -
Universidade Federal Fluminense
(UFF), Niterói, 2020.
ANZALDUA, Glória. Falando em
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https://periodicos.ufsc.br/index.php/ref/
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2023.
hooks, bell O feminismo é para todo
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GOMES, Nathália Pedrozo; CARON, Daniele. A narrativa na construção da
memória do corpo negro. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de
Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.76-94, set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
A narrativa na construção da memória do corpo negro
Nathália Pedrozo Gomes
1
Daniele Caron
2
DOI: https://doi.org/10.22409/pragmatizes.v15i29.67221
Resumo: As práticas, corporeidades e a luta pelo direito à terra nos quilombos urbanos de Porto
Alegre/RS têm a mulher negra como figura central. Diante desse contexto, este artigo reflete sobre as
lutas conduzidas por estas mulheres, que, conectadas por uma rede aquilombada, emergem nesses
territórios por meio de ações de resistência que desafiam o modelo hegemônico de produção da cidade,
estruturado a partir da cor da pele e da valorização da terra privada. A partir da vivência com o Quilombo
dos Flores, em Porto Alegre, buscamos refletir como essas práticas afirmam uma produção de espaço
urbano quilombola que confronta esse padrão. Para tal, adotamos a narrativa como abordagem teórico-
metodológica, a fim de incorporar a linguagem da oralitura, expressa no corpo e na voz, como teoria
de luta dessas mulheres. Durante o percurso, observamos que a luta do quilombo urbano é
fundamentada pelo direito à terra ancestral, mas também pela prática de cuidado coletivo acionada
cotidianamente pelas mulheres negras, aqui compreendidas como ìyálodès. São elas que atuam como
elos de força ao sustentar uma rede de resistência mobilizada contra o racismo institucional, ao mesmo
tempo em que promovem articulações comunitárias no bairro, rompendo com a visão do quilombo
urbano como território isolado. Eles transcendem os limites impostos pelo padrão de cidade racista
como uma rede de liberdade e luta, sustentada e interligada por estas protagonistas.
Palavras-chave: mulher negra; narrativa; quilombo urbano; Ìyálodès; Quilombo dos Flores.
Narrative in the construction of Black Body Memory
Abstract: The practices, corporealities, and the struggle for land rights in the urban quilombos of Porto
Alegre/RS have Black women as central figures. In this context, this article reflects on the struggles led
by Black women, who, connected through an aquilombamento network, emerge in these territories
through acts of resistance. These actions challenge the hegemonic model of urban production,
structured around skin color and the valorization of private land. Drawing from experiences with the
Quilombo dos Flores in Porto Alegre, we seek to reflect on how these practices affirm a quilombola
mode of urban space production that confronts this pattern. For this, we adopt narrative as a theoretical-
methodological approach, to incorporate the language of orality, expressed through body and voice, as
a theory of struggle for these women. Throughout this process, we observe that the struggle of the urban
1
Mestre em Planejamento Urbano e Regional pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul
(UFRGS). E-mail: nathipgo@gmail.com. ORCID: https://orcid.org/0009-0000-1472-2117.
2
Doutora em Urbanismo pela Universitat Politècnica de Catalunya (UPC). Docente da Faculdade de
Arquitetura e do Programa de Pós-Graduação em Planejamento Urbano e Regional da Universidade
Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). E-mail: daniele.caron@ufrgs.br. ORCID:
https://orcid.org/0000-0002-6546-6579.
Recebido em 01/04/2025, aceito para publicação em 25/08/2025.
77
GOMES, Nathália Pedrozo; CARON, Daniele. A narrativa na construção da
memória do corpo negro. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de
Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.76-94, set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
quilombo is grounded in the right to ancestral land, but also in the practice of collective care, led by
Black women. These women act as bonds of strength that sustain a resistance network, mobilized
against institutional racism at the same time as they promote community-based articulations in the
neighborhood, breaking with the perception of the urban quilombo as an isolated territory. They
transcend the limits imposed by the racist urban model as a network of freedom and resistance,
sustained and interconnected by their leadership.
Keywords: black woman; narrative; urban quilombo; Ìyálodès; Quilombo dos Flores.
La narrativa en la construcción de la memoria del cuerpo negro
Resumen: Las prácticas, corporalidades y la lucha por el derecho a la tierra en los quilombos urbanos
de Porto Alegre/RS tienen a la mujer negra como figura central. Ante este contexto, este artículo
reflexiona sobre las luchas lideradas por estas mujeres, quienes, conectadas a través de una red
aquilombada, emergen en estos territorios mediante acciones de resistência que desafían el modelo
hegemónico de producción de la ciudad, estructurado a partir del color de piel y la valorización de la
tierra privada. A partir de la experiencia con el Quilombo dos Flores, en Porto Alegre, buscamos
reflexionar sobre cómo estas prácticas afirman una producción del espacio urbano quilombola que
confronta este patrón. Para ello, adoptamos la narrativa como enfoque teórico-metodológico, com al
intención de incorporar el lenguaje de la oralitura, expresado en el cuerpo y la voz, como teoría de lucha
de estas mujeres. A lo largo del recorrido, observamos que la lucha del quilombo urbano se fundamenta
en el derecho a la tierra ancestral, pero también en la práctica del cuidado colectivo accionada por las
mujeres negras, aqui comprendidas como ìyálodès. Son ellas que actúan como vínculos de fuerza que
sostienen una red de resistencia movilizada contra el racismo institucional, al mismo tiempo que
promueven articulaciones comunitarias en el barrio, rompiendo con la visión del quilombo urbano como
un territorio aislado. Trascienden los límites impuestos por el modelo de ciudad racista como una red
de libertad y lucha, sostenida e interconectada por estas protagonistas.
Palabras clave: mujer negra; narrativa; quilombo urbano; Ìyálodès; Quilombo dos Flores.
A narrativa na construção da memória do corpo negro
Introdução
A presença dos quilombos no
meio urbano, marcada pelos corpos
negros que os constituem, interpela o
modelo hegemônico de produção da
cidade. Esse modelo, sustentado por
um sistema de poder que opera a partir
de padrões racistas, capitalistas e
individualistas, impõe normas que
regulam aspectos político-sociais,
impactando diretamente as práticas
culturais e religiosas de grupos que não
se alinham ao padrão estabelecido.
Mas de que maneira esses corpos
seguem subvertendo essas normas?
Para compreender essa dinâmica, é
fundamental reconhecer a cidade como
“um campo discursivo em permanente
disputa” (Caron et al., 2020, p. 62).
Quais discursividades atravessam o
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memória do corpo negro. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
cotidiano urbano sem serem
amplificadas na trama da cidade? São
narrativas negras que reverberam em
nossos corpos, gestos, olhares e falas.
Para este texto, partimos da
premissa da indissociabilidade entre a
construção dos nossos corpos
enquanto sujeitas-mulheres e
pesquisadoras
3
e as histórias de vida
dos corpos negros que encontramos ao
longo do caminho de pesquisarCOM
(Moraes, 2014). A experiência de
pesquisar com mulheres negras
evidencia que a luta negra, em especial
a quilombola, não está apartada da
realidade urbana que nos circunda. Foi
nesse percurso, entre “andanças
aquilombadas”, que nos aproximamos
do Quilombo dos Flores, liderado por
Geneci Flores em Porto Alegre. Este
texto se desdobra entre vivências,
memórias e as relações comunitárias
3
Aqui cabe sinalizar que este texto resulta da
dissertação “Oralituras das Ìyálodès na luta
pela produção do espaço urbano quilombola
em Porto Alegre”, cujo processo se
desenvolveu entre 2022 e 2024 no Programa
de Pós-Graduação em Planejamento Urbano e
Regional da UFRGS. A aliança entre nós,
orientanda e orientadora, foi forjada pela
diferença na cor da pele e, ao mesmo tempo,
pelo mesmo entendimento sobre as exigências
ético-políticas que se afiguram em pesquisas
que buscam modos colaborativos e não
extrativistas de fazer ciência. Neste sentido, as
vivências no território quilombola foram
que esse território estabelece com a
cidade.
A base da luta quilombola é a
luta pelo direito à terra: embora a
Constituição Federal de 1988 “garanta”
o direito à terra quilombola, na prática,
a emissão dos títulos não se concretiza.
A morosidade desses processos impõe
a esses territórios um estado constante
de vulnerabilidade, submetendo suas
comunidades a violências psicológicas,
morais e físicas diante da iminência de
despejos, remoções forçadas e
ameaças à vida. A família Flores está
no território aproximadamente
cinquenta anos, e o processo de
titulação iniciou apenas em 2014. Ainda
sem a segurança da terra em mãos, o
quilombo enfrenta desafios constantes,
como tentativas de apropriação do
espaço e estigmatização da vizinhança.
Após um episódio de esbulho
possessório
4
causado por uma
realizadas somente por Nathália, ainda que
todo o processo tenha sido amplamente
discutido durante as orientações da pesquisa.
4
Esbulho possessório é um termo jurídico que
se refere à situação em que alguém é privado
da posse de um bem ou propriedade de forma
ilegítima, ou seja, é despojado da posse de um
bem contra a sua vontade e sem a devida
autorização legal. No caso das comunidades
quilombolas, o termo é utilizado,
principalmente, para referir-se a situações nas
quais as comunidades são despejadas ou
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memória do corpo negro. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
instituição de educação privada vizinha,
que usurpou e desconfigurou
significativamente a área do terreno, as
pessoas que habitam o quilombo
uniram esforços com outras
comunidades e movimentos sociais,
que enfrentam desafios semelhantes
relacionados ao direito à terra, para
continuar no território.
Nêgo Bispo (2023), líder
quilombola, ensina-nos que a terra não
nos pertence: somos nós que
pertencemos a ela. Entendemos com
Bispo a diferença entre o “bem viver” e
o “viver bem”. Enquanto o “bem viver”
se refere ao saber orgânico da vida,
relacionado ao envolvimento com o ser
e à valorização da coletividade,
impulsionada pelo aquilombamento, o
“viver bem” está relacionado ao
conhecimento sintético, que valoriza a
posse material e o capital. Geneci
Flores
5
, atual liderança do Quilombo
dos Flores, faz eco às palavras de Nêgo
Bispo quando diz que o território dos
Flores é seu próprio umbigo, um
espaço de valor ancestral. Um território
que, atualmente, se estende para além
da demarcação, subvertendo a lógica
sofrem alguma ação sobre a terra de forma
ilegal ou injusta.
privada de cidade para algo mais
profundo, voltado para o uso
comunitário.
Além da falta de coletividade, na
perspectiva colonial, temos também a
falta de envolvimento com aquilo que
não é concreto, o que não está escrito
ou não está visto. Durante a
experiência de pesquisarCOM
(Moraes, 2014), entendemos que,
diferente das narrativas ocidentais que
privilegiam a linguagem discursiva
escrita, os povos africanos têm a
ancestralidade relacionada a todas as
suas práticas sociais. Não dependem
somente da linguagem escrita como
modo de transmissão de
conhecimento, mas têm como cerne a
inscrição das grafias performadas pelo
corpo e pela oralidade (Martins, 2021;
Bispo dos Santos, 2023).
Este texto tem a intenção de
discutir os caminhos percorridos
durante uma experiência de pesquisa
com Geneci Flores, refletindo sobre
como a narrativa enquanto abordagem
metodológica contribui para a
compreensão e valorização das
práticas coletivas, da resistência
5
Geneci Flores autorizou o uso de voz e
imagem no corpo do presente texto.
80
GOMES, Nathália Pedrozo; CARON, Daniele. A narrativa na construção da
memória do corpo negro. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de
Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.76-94, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
quilombola e das práticas de cuidado
que emergem nesses territórios
urbanos. Por meio da narrativa e da
oralidade, buscamos também apontar
para a potência dessas metodologias
no contexto acadêmico relacionado aos
estudos urbanos, uma vez que acionam
um tipo de produção do conhecimento
que se a partir das experiências
vividas com comunidades quilombolas,
em uma relação dialógica que
reconhece a diferença em suas
diferentes dimensões.
Corpo, memória e narrativa
Nosso conhecimento é moldado
pelas histórias que ouvimos. Quanto
maior for a quantidade, os
encantamentos (Simas, 2019) e os re-
dizeres (Cabral et al., 2021)
6
dessas
histórias, mais completa se torna a
nossa compreensão sobre a vida, além
da construção de memórias e de
saberes. A escrita, um instrumento de
inscrição da memória, é considerada o
modo de expressão mais valorizado do
Ocidente. Nessa linha de raciocínio,
6
Neste texto de Ana Cabral Rodrigues, em
conjunto com outras coautorias o redizer nos
remete a uma operação tecida por “diferentes
linguagens, superfícies, temporalidades:
enquanto rasura e resto; enquanto recusa a um
reencontro com um mesmo e rastros dos não-
ditos, entreditos, do sem-nome (GPMC, 2018);
segundo Leda Martins (2021), os meios
de conhecimento e de preservação da
memória, disseminados pela
hegemonia ocidental, concentram-se
em livros, museus e documentos
escritos. Com ênfase em um único
modo de transmissão do saber, são
elaboradas estratégias de exclusão e
apagamento dos saberes de outros
povos, que privilegiam outras formas de
expansão e fixação de conhecimento,
que para os europeus, eram
“considerados hereges e indesejáveis”
(Martins, 2021, p.34).
Em resposta a essas tentativas
de apagamento do povo negro,
Chimamanda Ngozi Adichie (2019)
chama a atenção para o “perigo da
história única”, alertando para os riscos
que surgem quando acreditamos em
narrativas influenciadas pelo princípio
de nkali, um substantivo africano que
significa “ser maior do que o outro”.
Esses dizeres, a partir de lugares de
poder, na maioria das vezes, não
refletem a realidade de um povo em sua
complexidade.
enquanto abertura, incompletude, um ‘sempre
por se fazer e também jogo palavrório, como
uma parlenda ou perlenga que nos inscreve
(corpos e dizeres) tanto em travessias e
travessuras das palavras, quanto em suas
disputas.” (2021, p. 119).
81
GOMES, Nathália Pedrozo; CARON, Daniele. A narrativa na construção da
memória do corpo negro. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de
Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.76-94, set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
[...] comece a história com as
flechas dos indígenas
americanos, e não com a
chegada dos britânicos [...]
comece a história com o
fracasso do Estado africano, e
não com a criação colonial do
Estado africano, e a história
será completamente diferente
(Adichie, 2019, p. 23).
Apesar de todas as formas de
repressão e de demonização de outras
culturas, disseminadas pelo
colonialismo, por meio de um
continuum (Nascimento, 2021) de
resistências, a memória e as histórias
vinculadas ao corpo negro não são
estáticas, elas atualizam-se em uma
série de práticas corporais e
ritualísticas (Touam Bona, 2020). Ao
longo de um tempo que elegeu contar-
se pela perspectiva colonialista, essas
práticas garantiram a sobrevivência de
uma corporificação de memória e de
saberes, que resistiram ao domínio
colonial, “seja por camuflagem, por sua
transformação, seja por inúmeros
modos de recriação” (Martins, 2021, p.
35).
Os conhecimentos trazidos
oralmente são importantes para a
elaboração epistêmica africana, na qual
a oralidade é dominante, mas não é
exclusiva no campo do conhecimento
cultural, pois o corpo também assume
um lugar importante. Nessa via de
raciocínio, Leda Martins traz o sentido
da palavra oraliturizada, que “se
inscreve no corpo e em suas
escansões. E produz conhecimento.”
(2021, p. 32). A poética que se forma
entre um repertório oral e corporal
constitui a oralitura enquanto
linguagem e saber.
A oralitura vai além da
transmissão pela fala, ela envolve
aspectos performáticos, corporais,
rítmicos e simbólicos fundamentais
para a comunicação e a preservação
da memória coletiva e afrodiaspórica.
Ou seja, a oralitura não é apresentada
somente pela palavra proferida, mas
também por outros aspectos narrativos
de composição dessa possibilidade de
narrar, que está ligado à gestualidade,
musicalidade, visualidade e
sonoridades expressas pelo corpo.
A linguagem vinda das
manifestações vocais e corporais
reativa memórias do corpo, que se
manifestam em práticas culturais e
sociais, e que “oferecerão o antídoto à
zumbificação escravista” (Touam Bona,
2021, p. 23). O corpo e a voz assumem
um modo de expressão,
empoderamento e transmissão de
conhecimento, pois, através deles,
82
GOMES, Nathália Pedrozo; CARON, Daniele. A narrativa na construção da
memória do corpo negro. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
expressamos quem somos, o que nos
move, o que nos forma, e também o
que nos compreende enquanto grupo e
comunidade (ibidem, 2021).
Grafar o saber não era, então,
sinônimo de domínio de um
idioma escrito alfabeticamente.
Grafar o saber era, sim,
sinônimo de uma experiência
corporificada, de um saber
encorpado, que encontrava
nesse corpo em performance
seu lugar de ambiente de
inscrição. Dançava-se a
palavra, cantava-se o gesto,
em todo movimento ressoava
uma coreografia de voz, uma
partitura de dicção, uma
pigmentação gratificada da
pele, uma sonoridade de cores
(Martins, 2021, p.36).
À margem de uma produção
urbana contemporânea que continua a
homogeneizar e a invisibilizar as
expressividades negras, a mulher
negra e quilombola atravessa padrões
discriminatórios de um Estado que
produz a mortificação da vida negra
(Mbembe, 2018). Esses padrões
disparam a necessidade de que elas
adotem ações de empoderamento
baseadas na ancestralidade, que
amparam seus corpos conforme o
contexto em que estão inseridos, seja
ele urbano, político, comunitário, seja
no território quilombola.
Diante da multiplicidade de
agenciamentos urbanos, uns baseados
no capital, outros na sobrevivência, é
necessário compreender a realidade da
cidade “como um campo discursivo em
permanente disputa” (Caron et al.,
2020, p. 62). Precisamos nos apoiar em
elementos analíticos que nos permitam
ver modos de existência, pessoas,
comunidades e organizações que têm
sido silenciadas. Para tal, o ato de
escuta se torna um elemento basilar
para compreender a complexidade
urbana dos territórios, exigindo atenção
ampliada às diferentes dimensões que
constituem o ato de narrar.
Deste modo, em consonância
com a perspectiva da oralitura,
assumimos a narrativa como
abordagem trico-metodológica,
buscando realizar um esforço crítico
que abra passagem para as
discursividades que foram e, ainda
hoje, são deliberadamente aniquiladas
pelas forças coloniais em permanente
atualização. Entendemos o ato de
narrar como um fazer conjunto que
exige, sobretudo, um reposicionamento
ético e político de quem pesquisa. E
assim, sustentar alianças que evoquem
projetos societários que se pautem pela
ruptura de um regime discursivo que
83
GOMES, Nathália Pedrozo; CARON, Daniele. A narrativa na construção da
memória do corpo negro. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
instaura modos exploratórios, racistas e
patriarcais de fazer cidade.
Na experiência de pesquisa com
o Quilombo dos Flores, evocamos
modos de narrar com mulheres negras
para compreender os conflitos e as
tensões provocadas pelo sistema
mundo moderno-colonial (Quijano,
2005). Quando aliada à palavra
oraliturizada, expressa pelo corpo e
pela voz como linguagem, a
experiência de pesquisa abre
passagem para memórias
afrodiaspóricas como expressão da
experiência, entendidas aqui como
teoria de luta para os estudos urbanos
(Caron et al., 2020).
Ao longo da pesquisa com estas
mulheres, pudemos aprofundar a
compreensão do processo de
transmissão implicado na narrativa,
acolhendo com a oralitura os gestos,
ritmos, formas e sons inscritos no
corpo, e que ressignificam as memórias
e experiências negras. Na aproximação
e convívio com essa oralidade,
ancestral e ao mesmo tempo cotidiana,
7
As comunidades negras têm o seu
funcionamento a partir da mãe, da avó, da tia
ou da matriarca, ocupando o eixo estruturante
das relações. Portanto, para abarcar essa
significância, trazemos a simbologia da
evocada corporal e performaticamente,
forjamos um tipo de pesquisa que
busca lugar na experiência
compartilhada das vivências com o
quilombo.
Em correspondência com elas, as
Ìyálodès
A escolha de uma experiência
de pesquisa junto às Ìyálodès
7
mulheres do quilombo dos Flores não
estava clara desde sempre, tampouco
tínhamos conhecimento sobre a
potência delas como figuras de
liderança. Essas definições foram
emergindo por meio de um processo
que não se encerra, que é cíclico e se
repete ao longo de um continuum de
vivências experienciadas durante o
nosso pesquisarCOM (Moraes, 2014).
A aproximação junto à comunidade
exige uma postura de
responsabilidade, que impossibilita
separar a memória do nosso corpo das
trocas vividas. Dada a intenção de não
objetificar as pessoas com quem nos
relacionamos durante a experiência de
pesquisa, a preposição “com” assume
Ialodê, a forma brasileira para a palavra em
iorubá Ìyálodè ou Ìyálóòde figura de
liderança política em regiões Iorubás na África,
representando também a líder entre as
mulheres.
84
GOMES, Nathália Pedrozo; CARON, Daniele. A narrativa na construção da
memória do corpo negro. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
uma contraposição totalmente diferente
da locução “a partir de”.
A observação-participante
(Ingold, 2016) torna-se uma
possibilidade de trabalho coletivo, pois,
diferente de um método de coleta de
dados, ela assume um modo
antropológico de trabalho, que significa
‘estudar com as pessoas’ e ‘não fazer
estudos sobre elas’. A diferença está na
intenção de não buscar soluções finais,
mas outros caminhos nos quais as
trocas podem acontecer.
Esse modo de trabalho se
relaciona com a observação que vem
de dentro. Observar, nesse sentido,
não significa objetificar o outro; muito
pelo contrário, é mediante um
movimento de percepção atenta sobre
o que acontece no entorno e sobre o
que as pessoas envolvidas estão
dizendo e fazendo. É olhar, escutar e
participar e, assim, responder conforme
a nossa prática e momentos da vida.
Por essa razão, a observação-
participante estabelece um modo de
aprendizagem compartilhado.
Quando estamos no quilombo e
com a comunidade, escolhemos viver
“intencionalmente com os outros”
(Ingold, 2016, p. 408), como parte do
cotidiano da vida das pessoas
envolvidas, acionando uma prática de
correspondência com a outra. O termo
“correspondência” é utilizado para
designar uma composição de
movimentos que, à medida que se
desenrolam, respondem
concomitantemente uns aos outros.
Desse modo, a observação-
participante com a Geneci Flores, nas
entrelinhas do cotidiano, acontece
durante toda a experiência de
pesquisa. Sem a intenção de um rumo
ao fim preestabelecido, o processo e os
“resultados” dependem das
circunstâncias.
Para isso, é essencial
acompanhar as comunidades e as
lideranças em suas lutas cotidianas.
Isso implicou estar disponível para
apoio em questões administrativas e
organizativas que eram relevantes para
a comunidade, além do
acompanhamento em eventuais
demandas jurídicas, como audiências
públicas ou movimentos de militância
com outras comunidades quilombolas
de Porto Alegre.
O vínculo e a atitude de estar em
correspondência, sem a pretensão de
gerar “resultados” de pesquisa, não
significa perder o rigor ético do
trabalho, ou que, de alguma forma,
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GOMES, Nathália Pedrozo; CARON, Daniele. A narrativa na construção da
memória do corpo negro. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de
Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.76-94, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
possamos nos distanciar da
problemática da proposta; ao invés
disso, significa que estamos aliadas às
pautas e às lutas da comunidade. A
disposição para esse tipo de
compartilhamento nasce com a
escuta ativa e com o tempo
compartilhado.
Além do envolvimento com o
cotidiano da comunidade em
colaboração com a liderança do
Quilombo dos Flores, Geneci Flores,
houve encontros que se desenrolaram
a partir de dispositivos geradores de
relatos, fazendo emergir memórias e
experiências de vida. A pergunta
geradora (Caron, 2017) é um
dispositivo e uma estratégia de trabalho
utilizada regularmente em atividades do
Grupo de Pesquisa Margem_Lab
(PROPUR/UFRGS)
8
. Colocada como
um dispositivo para provocar o relato, a
pergunta busca fazer emergir situações
do passado, do presente ou pretensões
para o futuro. A pergunta não tem a
função de ser respondida, mas
8
O grupo de pesquisa Margem_laboratório de
Narrativas Urbanas, vinculado ao Programa de
Pós-Graduação em Planejamento Urbano e
Regional (PROPUR) da Universidade Federal
do Rio Grande do Sul, vem construindo uma
produção do saber relacionado ao convívio e à
experiência vivida, no qual a pessoa
pesquisadora reconhece as exigências ético-
possibilita abrir caminhos para
reflexões e conversas sobre as
experiências de vida. Nesta pesquisa, a
pergunta parte deste enunciado: Para
você, quais são as táticas e estratégias
de resistência do Quilombo dos Flores
contra o racismo expresso no bairro
Glória e/ou na cidade?
Sem seguir um cronograma pré-
estabelecido sobre quais pessoas iriam
participar das dinâmicas, os encontros
ocorreram conforme os
desdobramentos do envolvimento com
o quilombo. A pergunta geradora foi
realizada com cinco pessoas e, através
dela, os relatos não seguiram um
caminho comum, pois cada pessoa tem
uma compreensão diferente sobre a
problemática colocada pela pergunta.
Em um primeiro momento, o
questionamento mostrou-se complexo
e talvez um pouco inflexível para
alguns, mas quando o contexto do
trabalho é colocado junto às nossas
vivências, à problemática e aos modos
com que o racismo pode ser expresso
políticas de uma produção do conhecimento
situada, compartilhando habilidades e recursos
intelectuais com pessoas, comunidades e
organizações que têm sido historicamente e
sistematicamente estigmatizadas e/ou
aniquiladas pelo sistema mundo moderno-
colonial em permanente atualização.
86
GOMES, Nathália Pedrozo; CARON, Daniele. A narrativa na construção da
memória do corpo negro. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de
Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.76-94, set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
na cidade, emergem diferentes
situações e histórias. O dispositivo da
pergunta permite criar uma relação
dialógica com as pessoas participantes,
fazendo emergir as diversas situações
nas quais o racismo expresso na
dinâmica da cidade pode se manifestar.
As vivências, provenientes de
contextos, experiências e
oportunidades diferentes, exigem que o
ato de fabular uma pergunta geradora
seja modificado a cada momento. Os
modos de re-dizer são necessários
para que também possamos ser
entendidas.
A fala da faculdade serve para
a faculdade, mas para
comunidade, para vila, não
serve. Porque a fala é
diferente, a fala é doutorada.
Agora o meu momento de fala,
serve para a comunidade, mas
também serve para a
faculdade. Porque o pessoal da
faculdade vai falar palavras que
o pessoal da comunidade não
vai entender. Agora o que eu
falo, tanto na comunidade
quanto na faculdade eles vão
entender. Então, o quilombo
também é uma escola.
(Narradora Geneci Flores,
2024).
É nesse caminho de
remodelações e adaptações que
percebemos a inacessibilidade da
linguagem acadêmica, trazendo-nos a
necessidade de repensar o modo como
nos comunicamos. O que demonstra o
quanto uma abordagem narrativa de
pesquisa é importante para uma
atenção continuada sobre modos de
dizer sobre a vida, sobre a cidade,
sobre o mundo. Isso também faz parte
da aliança, pois a pergunta geradora é
uma camada e uma experiência que
também nos atinge enquanto
pesquisadoras.
Através dos desdobramentos da
pergunta, as pessoas envolvidas são
convidadas a refletir e a narrar sobre o
significado do quilombo e da
comunidade para si, relacionando as
mudanças no bairro que impactam na
vivência em comunidade. Essa etapa
fortalece a compreensão das relações
comunitárias entre o quilombo, o bairro
e as impressões individuais e coletivas.
Naquele contexto de convívio e
de relatos, um muro de concreto e de
altura aproximada de três metros, que
divide o terreno da comunidade,
aparece como um elemento
significativo para o quilombo. Em razão
do esbulho no território ocorrido em
2014, o muro foi construído contra a
vontade do quilombo,
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GOMES, Nathália Pedrozo; CARON, Daniele. A narrativa na construção da
memória do corpo negro. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
descaracterizando metade do território
e resultando em uma série de traumas
9
.
Figura 1 Intervenção no muro. Fonte: acervo
pessoal.
O muro passa a caracterizar-se
como um novo dispositivo a partir do
qual seria possível aprofundar a
reflexão sobre o modo como o
quilombo vem sendo afetado pelas
dinâmicas de produção urbanas
racistas, tanto no contexto do entorno
imediato como na cidade como um
todo. Conforme sugestão de Geneci
Flores, esta atividade com o muro foi
vinculada a uma Festa de Natal com
crianças do quilombo. Apesar do
convívio com a comunidade e com as
crianças, a realização de alguma
atividade diretamente vinculada a elas
o estava na linha de raciocínio da
pesquisa. Diante desse desafio, a
dinâmica da pergunta geradora foi
9
O muro foi construído pela instituição de
educação privada que ocupou área utilizada há
anos pelo Quilombo dos Flores.
repensada para que houvesse um
envolvimento espontâneo com o muro
no sentido metodológico.
Com a participação de quinze
crianças, entre 4 e 14 anos de idade,
adotamos uma estratégia de
intervenção no muro, buscando a
expressão das crianças por meio do
desenho com tinta, spray, pincel e o
corpo, de um modo que a pintura
pudesse ser confortável para cada uma
delas. A pergunta geradora deslocou-
se, então, de uma formulação mais
rígida para indagações mais flexíveis
que pudessem fazer emergir situações,
lembranças ou pessoas vinculadas ao
quilombo como espaço da
cotidianidade: Quando vocês estão
no Quilombo, o que vocês têm? O que
veem? O que fazem? E o que gostam?
Figura 2 Intervenção no muro. Fonte: acervo
pessoal.
88
GOMES, Nathália Pedrozo; CARON, Daniele. A narrativa na construção da
memória do corpo negro. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
A pergunta deixou de ser uma
formulação da fala/escuta e acolhe o
corpo, o gesto, a cor e o brincar: o
resultado foi surpreendente. A maioria
das crianças frequenta o quilombo por
meio de atividades culturais realizadas
ao longo do ano, enquanto outras têm
um vínculo mais cotidiano e familiar. As
crianças também apresentaram
experiências e percepções diferentes
sobre as vivências no espaço, dando
passagem a pistas que se relacionam
com as entrelinhas teóricas da
pesquisa e os relatos produzidos
pelas dinâmicas anteriores com
pessoas adultas.
Figura 3 “Amo quilombo”. Fonte: acervo
pessoal.
É por meio de atividades como
estas que emergem memórias e
vivências dificilmente apreensíveis em
modos de pesquisa tradicional e
distanciados do cotidiano, sobretudo
quando não acolhem as subjetividades
que participam ativamente do
pensar/fazer cidade. Pela escuta ativa,
a teoria e a prática se relacionam e,
sem a intenção de apartá-las,
reconhecemos que, para além de ser
uma abordagem pertinente aos estudos
e práticas urbanas, a perspectiva da
narrativa na pesquisa nos exige
presença e abertura, em um
revezamento da palavra que nunca se
encerra.
Movimento de aproximação
Localizado no bairro Glória em
Porto Alegre, o Quilombo dos Flores
ocupa o território desde 1975, quando
Rosalina da Costa Vasconcelos, a
matriarca da comunidade, mudou-se da
Estrada dos Alpes, próxima ao
Quilombo dos Alpes, para o território,
resultado da união com Adão
Vasconcelos.
No entanto, segundo o Atlas da
Presença Quilombola em Porto Alegre
(2022), os primeiros registros sobre o
território datam de 1848, quando a área
funcionava como uma sesmaria e
pessoas escravizadas trabalhavam no
entorno. Resultado da disputa pela
terra, uma série de conflitos está
relacionada ao local. A comunidade
iniciou as reivindicações territoriais na
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GOMES, Nathália Pedrozo; CARON, Daniele. A narrativa na construção da
memória do corpo negro. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de
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década de 1980, quando ainda não
existia legislação para atender às
demandas das comunidades
quilombolas, e o pedido de usucapião
era a única alternativa.
Figura 4 Localização em Porto Alegre e
acesso do Quilombo dos Flores. Fonte: acervo
pessoal.
Mas, desde 2014, o principal
conflito tem sido a disputa judicial
contra a Fundação Marista Unidade
Assunção instituição cristã localizada
ao lado do quilombo. Mesmo sem
registro da propriedade, em 2015, a
instituição apropriou-se de parte da
área de usufruto da comunidade para
construir um estacionamento. Como
resultado, na tentativa de forçar a
remoção dos moradores, o muro foi
construído, sendo este um grande
marco e trauma nas narrativas da
comunidade. Embora nenhuma família
tenha sido removida, o muro
desconfigurou toda a dinâmica do
território.
Da união de Adão e Rosalina,
falecidos, formaram-se cerca de 48
famílias, ainda que, atualmente,
somente a família de Geneci, composta
por ela e seus três filhos, esteja na
área. O principal desejo da família é a
titulação definitiva da terra e a
derrubada do muro, para que também
outras pessoas da família Flores
possam retornar ao território, ocupado
há mais de 40 anos.
Além de ser uma liderança
política, Geneci é a referência para a
família, pois ser ela quem está à frente
de todas as demandas da comunidade.
Ela tem participado ativamente na
militância junto aos movimentos
sociais, além de estar envolvida em
diversos projetos de desenvolvimento
social do bairro.
O vínculo com a comunidade
dos Flores iniciou durante o movimento
que chamamos de “mapeamento corpo
a corpo”. Em junho de 2023, iniciaram-
se os envolvimentos com os principais
grupos dedicados à temática social e
quilombola em Porto Alegre,
paralelamente com as atividades com o
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memória do corpo negro. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
grupo de pesquisa Margem_lab
10
.
também o grupo de pesquisa Núcleo de
Estudos e Geografia e Ambiente
(NEGA), vinculado ao Departamento de
Geografia da Universidade Federal do
Rio Grande do Sul (UFRGS). O núcleo,
coordenado pela Profa. Dra. Cláudia
Zeferino, desempenha um papel
importante em atividades relacionadas
a todos os quilombos da capital. Além
disso, o NEGA é responsável pelo Atlas
da Presença Quilombola em Porto
Alegre (2022), lançado em novembro
de 2023, que apresenta diversas
perspectivas de compreensão e de
dinâmicas territoriais quilombolas na
cidade, permeando questões teóricas e
metodológicas, entendidas como
“epistemologias quilombolas”.
Após o mapeamento corpo a
corpo e como resultado dele, foi
possível estar presente semanalmente
no território dos Flores, por meio do
projeto de curso pré-vestibular popular
denominado “Educação Popular
Quilombola”. O projeto iniciou em junho
de 2023, com a realização de aulas
10
O Margem_lab, laboratório de narrativas
urbanas da Universidade Federal do Rio
Grande do Sul, busca convocar modos de
pesquisar o urbano capazes de acolher as
práticas e as narrativas instauradas a partir de
semanais, às quartas-feiras, no período
noturno. Nesse momento, com a
autorização da Geneci Flores, o projeto
foi submetido ao comitê de ética e
iniciamos algumas atividades junto ao
NEGA, à medida que os dias passavam
outros eventos eram sobrepostos,
atividades e projetos sociais vinculados
ao quilombo e principalmente a esta
liderança.
Um projeto importante foi o
projeto Afèfé Sise criações em
performance Afro, por exemplo, que
ocupou dois meses da vivência com o
território e está relacionado à dança,
samba e performance. As atividades do
projeto ocorriam aos sábados, com
aulas de dança afro e rodas de samba,
marcando significativamente a
importância cultural do quilombo no
bairro.
Posteriormente, abriu-se como
vivência para a pesquisa as visitas ao
projeto social Geração Tigres, onde
Geneci Flores é voluntária como
instrutora de futebol, apoiando crianças
de 6 a 15 anos de idade. As atividades
confrontos, perturbações, conflitos, desvios e
diferenças diante das heterogeneidades que
compõem a cidade. O vínculo com o grupo de
pesquisa foi essencial para o amadurecimento
do movimento de pesquisar-com.
91
GOMES, Nathália Pedrozo; CARON, Daniele. A narrativa na construção da
memória do corpo negro. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de
Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.76-94, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
ocorrem aos sábados, no período da
manhã. Durante as “andanças” com a
Geneci, principalmente aquelas
relacionadas à comunidade do bairro,
pudemos observar claramente uma
rede de apoio, composta por mulheres,
algumas das quais ela considera suas
irmãs.
Na tecitura dessa rede de apoio,
revelam-se algumas pistas sobre a
rede comunitária formada no bairro,
especialmente aquelas que evidenciam
a presença das mulheres na linha de
frente. Muitas das mulheres que
cruzaram esta experiência de pesquisa
não residem no território dos Flores,
mas desempenham papéis de
liderança em seus núcleos familiares e
comunitários. Entre elas, fortalecem-se
as dinâmicas de valor comunitário e
matriarcal.
Todas as atividades sociais
relacionadas ao quilombo e aos morros
adjacentes são lideradas por grupos de
mulheres as Ìyálodès de seus
territórios. Mediante um movimento de
aquilombamento e empoderamento
que atinge outras mulheres ao redor,
essas líderes estão interconectadas.
Elas encontram-se sob um ponto em
comum, relacionado à luta pela
moradia digna, pela educação e pela
cultura de suas comunidades. Desse
modo, vista a relevância e presença
dessas mulheres na comunidade, a
pergunta geradora se desenvolve entre
os seus relatos, histórias e vivências.
Considerações finais
No decorrer do trabalho, à
medida que as relações e a
aproximação do tema aconteciam,
algumas linhas de conexão foram se
delineando. Uma delas consistiu na
construção de um caminho
metodológico que permitisse um
trabalho construído coletivamente.
Nesse sentido, partindo do movimento
de pesquisarCOM com as Ìyálodès e da
narrativa como abordagem teórico
metodológica por se tratar de uma
experiência com o corpo da mulher
negra como elemento basilar na
discussão sobre a produção de cidade
fez-se necessário a apropriação de
referenciais teóricos que falam sobre a
experiência negra diaspórica.
Os conhecimentos trazidos pela
tradição oral são importantes para a
elaboração epistêmica africana. Nos
apropriamos, então, da oralitura
(Martins, 2021) como linguagem,
relacionada à memória, ao corpo e à
voz da corporeidade afrodiaspórica,
92
GOMES, Nathália Pedrozo; CARON, Daniele. A narrativa na construção da
memória do corpo negro. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
para abarcar o processo de narração
quilombola durante as vivências
compartilhadas da pesquisa. Nesse
contexto, a narrativa nos coloca em
uma posição de relação com o campo
que impossibilita a separação entre
nossa vida e a comunidade. A partir de
um movimento de correspondência
com elas, a observação participante
(Ingold, 2016) entra em jogo a fim de
que a experiência seja construída
colaborativamente, onde as atividades
possam ser pensadas em conjunto.
Conforme a relação de
correspondência com a comunidade
acontecia, entendemos que é
possível desenvolver um estudo sobre
o direito ao território quilombola a partir
da convivência com o povo quilombola.
O quilombo, nesse contexto, não se
restringe a um espaço geograficamente
delimitado, mas se manifesta como um
movimento contínuo de resistência e
produção coletiva da cidade. Sua
existência desafia a lógica da
propriedade privada e reafirma a
territorialidade negra como um direito
ancestral e um modo de vida baseado
na coletividade.
A presença e atuação da Geneci
Flores não garante somente a
permanência da comunidade no
território, mas também fortalece
vínculos, promove a transmissão de
saberes e articula estratégias de
enfrentamento ao racismo estrutural.
Foi nesse percurso que se tornou
evidente que a luta quilombola não se
restringe à titulação da terra, mas
envolve também a construção de um
espaço vivo, dinâmico e vinculado à
memória e aos afetos.
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95
CURI, Paula Land; SOUZA, Luiza Christina Marques de. Narrar com
Mulheres: um convite para outras práticas éticas-estéticas-políticas de
pesquisa. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em
Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.95-117, set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
Narrar com Mulheres: um convite para outras práticas éticas-estéticas-
políticas de pesquisa
Paula Land Curi
1
Luiza Christina Marques de Souza
2
DOI: https://doi.org/10.22409/pragmatizes.v15i29.66775
Resumo: O presente artigo surge de inquietações provocadas pelo pesquisar com mulheres em
situações de violências de gênero, tendo como plano de fundo encontros grupais em um ambulatório
universitário especializado. Empreende-se uma trajetória que assume uma indissociabilidade entre
estética e política, conteúdo e forma, para convocarmos um projeto ético-estético-político que se
contrapõe aos ideais da neutralidade científica e à violência da objetificação dos que coexistem nos
processos de construção de uma pesquisa. Partiremos, pois, de um esforço crítico-analítico e
experimental-ensaístico situado e parcial, a partir do qual exploraremos formas outras de produção
acadêmica. Em específico, apostar-sena contação de histórias como uma das possíveis ferramentas
que permitem o materializar por meio da linguagem criativa, da vibração da violência nos corpos das
mulheres e, especialmente, em nosso corpo que pesquisa e escuta. Isso posto, coloca-se um convite
para idealizarmos a produção de conhecimentos que tentem dar contorno e existencialização aos
processos de construção e destruição que ali são acompanhados, de forma a facilitar a emergência de
mundos pautados na multiplicidade e dignidade das formas de vida das mulheres.
Palavras-chave: violências de gênero; narrativas; metodologias de pesquisa; feminismos.
Storytelling with Women: an invitation to other ethical-aesthetic-political research practices
Abstract: This article emerges from concerns arising from research conducted with women
experiencing gender-based violence, within the context of group meetings held at a specialized
university clinic. It embarks on a trajectory that posits the inseparability of political and aesthetics,
content and form, to advocate for an ethical-aesthetic-political project that stands in opposition to the
ideals of scientific neutrality and the violence of objectification of those who coexist in the processes of
research construction. Consequently, we initiate a situated and partial critical-analytical and
experimental-essayistic endeavor, from which we explore alternative modes of academic production.
Specifically, we propose storytelling as a potential tool that enables the materialization, through creative
language, of the reverberation of violence within the bodies of women, and particularly within our own
1
Doutora em Psicologia (Psicologia Clínica) pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo,
(PUC/SP). Docente no Instituto de Psicologia e do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da
Universidade Federal Fluminense (UFF). E-mail: paulalandcuri@id.uff.br. ORCID:
https://orcid.org/0000-0003-4204-8785.
2
Psicóloga. Mestranda em Psicologia pelo Programa de Pós Graduação da Universidade Federal
Fluminense (UFF) E-mail: luizacms@id.uff.br. ORCID: https://orcid.org/0009-0008-8841-406X.
Recebido em 28/02/2025, aceito para publicação em 21/07/2025.
96
CURI, Paula Land; SOUZA, Luiza Christina Marques de. Narrar com
Mulheres: um convite para outras práticas éticas-estéticas-políticas de
pesquisa. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em
Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.95-117, set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
bodies as researchers and listeners. In light of this, we extend an invitation to conceive of knowledge
production that seeks to delineate and lend existential weight to the processes of construction and
destruction observed therein, so as to facilitate the emergence of worlds grounded in the multiplicity and
dignity of women's life forms.
Keywords: gender-based violence; narratives; research methodology; feminisms.
Narrar con Mujeres: una invitación a otras prácticas ético-estéticas-políticas de investigación
Resumen: El presente artículo surge de inquietudes provocadas por la investigación con mujeres en
situaciones de violencias de género, teniendo como telón de fondo encuentros grupales en un
ambulatorio universitario especializado. Se emprende una trayectoria que asume una indisociabilidad
entre estética y política, contenido y forma, para convocar un proyecto ético-estético-político que se
contrapone a los ideales de la neutralidad científica y a la violencia de la objetificación de quienes
coexisten en los procesos de construcción de una investigación. Partiremos, pues, de un esfuerzo
crítico-analítico y experimental-ensayístico situado y parcial, a partir del cual exploraremos otras formas
de producción académica. En específico, se apostará por la narración de historias como una de las
posibles herramientas que permite materializar, por medio del lenguaje creativo, la vibración de la
violencia en los cuerpos de las mujeres y, especialmente, en nuestro cuerpo que investiga y escucha.
Esto puesto, se plantea una invitación para idealizar la producción de conocimientos que intenten dar
contorno y existencialización a los procesos de construcción y destrucción que allí son acompañados,
de forma a facilitar la emergencia de mundos pautados en la multiplicidad y dignidad de las formas de
vida de las mujeres.
Palabras clave: violencias de género; narrativas; metodologías de investigación; feminismos.
Narrar com Mulheres: um convite para outras práticas éticas-estéticas-
políticas de pesquisa
Introdução
[...] a mulher calada não
incomoda. a mulher calada
acomoda o outro. e se
incomoda. a mulher que fala
incomoda. ela devolve o
incômodo como quem devolve
uma compra danificada. a
mulher que fala entende que
para sobreviver é preciso
colocar o ar dos pulmões pra
fora. inspirar sim. mas expirar
também. a mulher que fala é
um perigo. pro outro. a mulher
calada é um perigo. para si. já
nascemos sendo um perigo.
mas é preciso escolher para
quem. (Scheid, 2024)
Encontramo-nos em uma
peculiar encruzilhada como
pesquisadoras psicólogas que atuam
em um programa extensionista, em um
ambulatório especializado em
violências de gênero contra mulheres,
localizado em uma universidade
federal, oferecendo atendimento
psicológico às mulheres que se
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CURI, Paula Land; SOUZA, Luiza Christina Marques de. Narrar com
Mulheres: um convite para outras práticas éticas-estéticas-políticas de
pesquisa. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em
Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.95-117, set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
inserem em nossa proposta. Nesse
programa, intitulado Programa
Extensionista Mulherio: tecendo redes
de resistência e cuidados, que também
articula outros braços da formação
universitária a saber, ensino e
pesquisa , entramos em contato com
diversas narrativas de mulheres que
sofreram algum tipo de violência de
gênero. Perdidas, imersas em
angústias e dúvidas, sentindo-se
estranguladas e cansadas de tanto
nadar contra marés, essas mulheres,
em nossos encontros grupais, precisam
realizar um novo trabalho: o de ritmar,
o de nomear afetos, experiências e
intensidades que viveram e vivem.
Como facilitadoras do
movimento grupal, convidamos as
mulheres que chegam ao programa a
comparecerem a encontros semanais
de aproximadamente uma hora e meia.
Esse espaço foi pensado como uma
forma de convidá-las a exercitar a
contação de histórias, a escuta e o
aprendizado coletivos, diante dos
temas comuns das violências e das
formas peculiares como estas se
manifestam e produzem efeitos em
suas vidas.
De acordo com a 10ª Pesquisa
Nacional de Violência contra a Mulher,
36% das mulheres cariocas relatam ter
sofrido violência doméstica ou familiar
perpetrada por um homem, taxa
superior à média nacional (30%)
(Datasenado, 2023). Além disso, a
percepção sobre o recrudescimento
dessas violências segue a mesma
tendência: enquanto a média nacional
chega a alarmantes 74%, entre as
fluminenses alcança 80%. É
fundamental atentar para aspectos
essenciais dessa leitura: a percepção
sobre a incidência da violência varia
segundo a cor/raça da mulher, sendo
que mulheres negras, pardas e
indígenas percebem aumento
expressivo em percentuais maiores do
que mulheres brancas e amarelas
(Datasenado, 2023).
Cumpre esclarecer que a
expressão “por um homem”,
apresentada de forma aparentemente
genérica, aparece assim no documento
oficial. Somente em determinado
momento são mencionadas as
diferentes ocupações que esses
homens possuem em suas vidas: 52%
da população feminina nacional é
agredida pelo marido ou companheiro;
15%, por ex-namorado, ex-marido ou
ex-companheiro; 7%, por pai ou
padrasto; 6%, por namorado; 5%, por
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CURI, Paula Land; SOUZA, Luiza Christina Marques de. Narrar com
Mulheres: um convite para outras práticas éticas-estéticas-políticas de
pesquisa. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em
Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.95-117, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
irmão ou cunhado; e 10%, por outros
não identificados (Datasenado, 2023).
Apesar de esses dados se limitarem às
formas de violência que ocorrem na
vida privada não abrangendo outras
que o referido programa de extensão
também acessa, como intolerâncias
religiosas, transfobias e assédios
morais e sexuais no ambiente de
trabalho , eles nos ajudam a
compreender o que Despentes (2016,
p. 28) expõe cruamente: Nunca iguais,
com nossos corpos de mulheres.
Nunca em segurança, nunca como
eles. Somos o sexo do medo, da
humilhação, o sexo estrangeiro”.
Desse lugar é que as mulheres,
em suas diferentes posições e
marcações sociais tal como
Crenshaw (1989) propõe em sua
categoria de análise das
interseccionalidades , partem: do
medo, da vergonha, da culpa e da
possibilidade de se aliarem ao
patriarcado, submetendo-se em troca
de migalhas; ou das resistências,
pagando o preço de se tornarem
mulheres desviantes. Nesse contexto
em que atuamos, notamos ser
necessária uma escuta atenta e
sensível, capaz de sustentar e
tensionar essas vivências tão comuns,
compreendendo essas pacientes como
partes singulares de uma maquinaria
patriarcal e racista que estrutura nosso
social o que Rolnik (2019) nomeia
como Regime Colonial-Capitalístico.
Nessa encruzilhada,
percebemos a produção de uma
diferença que nos atravessa e seduz
como corpos pesquisadores: supostas
detentoras de determinadas verdades
sobre essas pacientes, vistas como
alienadas ou ignorantes sobre si
mesmas. Somos apresentadas a uma
narrativa hegemônica de neutralidade
um olhar de “lugar nenhum” , tão
preconizado por teorias clássicas
acadêmicas e psicológicas, que nos
posiciona como meras ouvintes.
Se nos constituímos como
pesquisadoras nesses termos,
trilhamos um caminho que nos autoriza
a atribuir verdades sobre o mundo e
sobre a produção da ciência
propriamente dita, como se nossa
escrita fosse atemporal, ahistórica e
neutra, agindo como uma voz
transparente e sem corpo (Haraway,
2018). Assim seríamos, segundo Diniz
e Gebara (2022), um corpo intacto,
inacessível às provocações e aos
convites que o outro nos faz o que
pode domesticar a potência do
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CURI, Paula Land; SOUZA, Luiza Christina Marques de. Narrar com
Mulheres: um convite para outras práticas éticas-estéticas-políticas de
pesquisa. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
encontro (e de nossa pesquisa),
conduzindo-nos a práticas
metodológicas que negam o
reconhecimento das mulheres como
produtoras de mundos e de
conhecimentos, dentro e fora do círculo
acadêmico. Ao seguirmos essa lógica
metodológica, continuamos,
simbolicamente, a queimar bruxas,
reproduzindo uma história antiga
narrada por Federici (2017).
Imersas na busca por outras
práticas de pesquisa, somos sutilmente
convidadas a percebê-las por um outro
viés: o de contadoras de histórias.
Desde o nosso primeiro contato grupal,
elas nos convidam a pesquisar de outro
modo: por meio de seus
desestrangulamentos, tropeçamos
juntas na tentativa de (re)contar o
passado, de forma que possam ser
agentes de suas próprias vivências.
Transformamos o ouvir neutro e apático
em uma escuta que se deixa afetar, que
se oferece para apreender a vida de
outras mulheres, co-construindo
saberes que reconheçam suas
experiências, necessidades e direitos
(Diniz; Gebara, 2022). Entregamo-nos
a uma escuta que persiste na abertura
dos possíveis, na visibilização dos
processos de submissão e insurgência,
no estranhamento e na inquietação
constantes reafirmando a
possibilidade de circulação, de abertura
de sentidos e de (re)formulações das
condições de vida.
Nesse sentido, a proposta deste
trabalho é um convite: o de pensar
como nossas práticas acadêmicas, em
especial no campo dos saberes
psicológicos, podem produzir fissuras
nos modos instituídos de fazer ciência,
ao nos colocarmos como facilitadoras e
compositoras de histórias a partir dos
encontros com mulheres e daquilo que
se produz enquanto experimentamos
esses processos.
Como elas, buscamos nossas
palavras uma composição que
materialize aquilo que nos solicita
passagem; um organizar que, em
alguma medida, possa dar conta
daquele incômodo que move nosso
pesquisar. Assim como elas, estamos
em processo de (re)construção de
histórias, de (de)compor fios, de
materializar e nomear os caminhos e
vetores que nos fizeram estabelecer tal
compromisso ético, político e estético
de pesquisa.
Em vez de depurarmos, faremos
um chacoalhar de cristais, de
impurezas, daquelas visualidades tão
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CURI, Paula Land; SOUZA, Luiza Christina Marques de. Narrar com
Mulheres: um convite para outras práticas éticas-estéticas-políticas de
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
difíceis de serem apreendidas pela
linguagem. Passamos de um campo
supostamente dado e conhecido das
violências de gênero à abertura de suas
diferentes maneiras de estar e produzir
efeitos na vida cotidiana das diversas
mulheres em vez de pré-conceitos,
trabalharemos com invenções e
reformulações.
Esta escrita diz menos sobre
acompanharmos, registrarmos e
pensarmos sobre essa mulher
acessando seus segredos mais íntimos
para dissecá-los, exumá-los, analisá-
los e reorganizá-los a partir de nossas
conclusões , e mais sobre como esses
encontros nos abrem a possibilidade de
exercermos a função de escutadeiras a
serviço da invenção, da potência
criativa dos corpos, convidando-os a
exercitar o pensamento de modo a
entrar em contato com as intensidades
e os afetos da vida cotidiana, dando-
lhes sentido, direcionamento, palavras
e materialidade.
Somos escutadeiras do fim do
mundo
A experiência de pesquisar
nesse ambulatório especializado,
situado em uma universidade, nos
coloca na posição de acompanhar as
estratégias de (sobre)vivência dessas
mulheres. Independentemente das
diversas perguntas de pesquisa
disparadas por meio desses encontros,
vemo-nos envoltas em um processo de
formações subjetivas e desejantes no
campo social, em um determinado
contexto histórico carioca. Deparamo-
nos com momentos que fecundam
sentidos para as vivências que as
trouxeram até nós.
Múltiplas são as nomeações e
adjetivações que elas atribuem a si e às
próprias histórias: raiva, culpa,
vingança, aceitação, submissão,
dominação, cegueira, resiliência,
fantasias. Possibilidades infinitas
emergem em nosso ambulatório;
porém, o que aqui nos caberá são as
afetações que surgem no encontro com
mulheres mesmo em posições
distintas. Nosso papel é facilitar que
histórias sejam produzidas, se
multipliquem em sentidos e efeitos,
sejam descartadas e (re)elaboradas.
Assim sendo, entendemos o grupo
como um encontro com o múltiplo, com
o infinito limitado que é a experiência de
viver.
Ao mesmo tempo, esse trabalho
grupal permite certo processo
pedagógico de compreensão das
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Mulheres: um convite para outras práticas éticas-estéticas-políticas de
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
produções coletivas de subjetividade,
que introjetam ideais patriarcais e
embranquecidos, capazes de ditar
certos “destinos naturais”, a depender
da forma como o corpo é lido. Constrói-
se, em um jogo de diferenças nos níveis
material e econômico, uma oposição
entre masculino e feminino,
inaugurando uma diferença constitutiva
importante, com consequências
ontológicas o tal binarismo sexual
(Wittig, 2022).
Nessa produção discursiva, os
sujeitos são convocados a responder e
a se adequar ao que é esperado dentro
de seu grupo social, apagando o
caráter construído para ser entendido
no cotidiano como dado natural, como
destino biológico próprio daquele
grupo. Por conseguinte, às mulheres
resta a resiliência diante das mutilações
e abusos; a centralidade no exercício
do cuidado; os casamentos de
servidão; e a apropriação de seu
trabalho por terceiros (masculinos),
supostamente sem a possibilidade de
fuga (Wittig, 2022).
Nessa constelação em que
mergulhamos intrigadas pelo “o que
em cima, embaixo e por todos os
lados são intensidades buscando
expressão” (Rolnik, 2019, p. 67) ,
deparamo-nos com mulheres que
sentem o esgotamento das
experiências de violência que sofrem,
sobretudo no ambiente doméstico.
Gradualmente, elas revisitam suas
histórias, tão cruas e vibrantes em seus
corpos, para experimentarem outra
forma de enxergá-las: a partir de uma
narração própria, usando termos que
lhes cabem e lhes parecem certos.
Nesse espaço, somos
convidadas a testemunhar a vivacidade
dessas situações, das cenas narradas
e dos processos que unem afetos e
linguagem no descobrimento de novas
maneiras de contar eventos passados,
até então contaminados pela captura
de um outro que colocava em xeque
sua autonomia. Essa vivacidade do
encontro grupal nos convoca e nos
enlaça de tal maneira que nos
posiciona na vibração na condição de
viventes que recebem e não
conseguem deixar de se afetar pelos
sentimentos, afetos e movimentações
(Palhares, 2008).
No par pesquisadora e mulher
participante da pesquisa, emerge um
tempo-espaço específico, no qual o
passado (re)acende formas de estar no
mundo hoje e amanhã, abrindo uma
gama de possibilidades a serem
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CURI, Paula Land; SOUZA, Luiza Christina Marques de. Narrar com
Mulheres: um convite para outras práticas éticas-estéticas-políticas de
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
descobertas ou descartadas. Assim,
caminhamos em um processo de
elaboração de outros territórios
existenciais.
Repare: trabalhamos por meio
das fissuras, ansiosas por ver, em meio
àquele ambiente devastado, seco e
árido, ranhuras das quais brota água
tão essencial para quem tem sede de
vida. Seja qual for o contexto específico
que essa mulher apresente, conserva-
se esse manejo na direção das
resistências, do resgate de uma
construção de vir-a-ser não mais
limitada (e forçada) por um certo outro
que reproduz, na relação, o binômio
dominaçãosubmissão.
Uma pausa: esse processo
grupal, inserido em uma prática ético-
política de psicanálise crítica, abre
espaço para um campo ilimitado de
possibilidades de manejo e de sentidos,
de produção constante de universos
finitos. Diante dessas mulheres e de
nossas implicações na pesquisa,
exercitamos o estranhamento do
cotidiano o despertar de um corpo
que, em si, contém possibilidades
infinitas e limitadas de se colocar no
mundo.
Criamos, conjuntamente, um
espaço que busca acompanhar os
movimentos do desejo, bem como as
estratégias da vida que se colocam ora
em um polo ativo, de reafirmação da
criação; ora em um polo reativo, de
reafirmação do outro, do repetitivo, do
comum.
Considerando que elas chegam
mergulhadas no desespero da
infinidade finita diante do rompimento
(ou de sua mera possibilidade) com
aquele que as violenta, tentamos
promover a passagem dos afetos,
atribuindo-lhes sentido, ao passo que
facilitamos a (des)construção de
mundos.
Todo esse acompanhamento
não pode se desvincular do desejo
peculiar de correntes coletivas de
sentido, de processos de produção de
subjetividade que colocam em voga a
hegemonia de certas existências em
detrimento de outras. Foucault (1979)
aponta para uma captura que se dá por
meio das relações de poder, nas quais
a vida entra em jogo no campo político
a famosa postura estatal moderna de
“fazer viver, deixar morrer”. Nesse
sentido, as políticas de controle social
se fortalecem a partir de saberes como
a demografia e a estatística, que
enquadram a vida, conhecendo certos
padrões esperados da população e
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CURI, Paula Land; SOUZA, Luiza Christina Marques de. Narrar com
Mulheres: um convite para outras práticas éticas-estéticas-políticas de
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
buscando corrigir os sujeitos
desviantes, “normalizando-os”.
Além disso, não podemos
esquecer que se trata de um
acompanhamento que nos coloca em
jogo como mulheres que pesquisam
violência contra outras mulheres.
Tomar o próprio conceito de mulher de
forma ingênua é um imbróglio do qual
não devemos escapar, tratando-se de
uma construção que entra em disputa a
partir dos estudos queer, que
compreendem haver múltiplas formas
de existir e performar o “ser mulher”.
É, pois, uma categoria política
e não um fato biológico ou natural
(Wittig, 2022; Butler, 2017). Assim
sendo, o conceito é utilizado não como
sinônimo de uma experiência universal
do ser-mulher, mas pensado em termos
de um devir-mulher, que coloca em
questão corpos que, dentro de uma
estrutura binária de gênero, encontram-
se mais próximos do polo “mulher”, a
partir de determinadas performances e
leituras sociais de gênero.
Esses mundos possíveis
pontuados requerem o reconhecimento
de suas produções a partir do
emaranhado de espécies
companheiras humanas ou não. A
mundificação, em Haraway (2016), nos
coloca diante de nosso
comprometimento ao adentrarmos os
jogos das relações, a partir dos quais
habitamos certos mundos (materiais e
subjetivos) e destruímos outros. Esses
jogos se materializam por meio da
interação entre corpos e linguagem,
que engendram subjetividades
habitantes e construtoras de certos
mundos, sustentando-os e
modificando-os.
Mundos esses recheados de
perspectivas, experiências,
construções coletivas e individuais,
visões parciais sobre a realidade e
modos de vida num misto de
realidade e ficção. Vivemos em rede,
conectados, e cada ator ou atriz com
quem entramos em contato contribui,
de alguma forma, para nosso vir-a-ser,
para nossa própria existência.
Por conseguinte, convidá-las a
reviver o passado segundo um
testemunho próprio atualizando-o a
partir da necessidade de dar-lhe novo
sentido, de sair daquela névoa que
encobria tantas situações difíceis e
insuportáveis coloca em movimento a
linguagem criativa, o exercício da
produção autobiográfica oralizada. Elas
experimentam o fim de um mundo para
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CURI, Paula Land; SOUZA, Luiza Christina Marques de. Narrar com
Mulheres: um convite para outras práticas éticas-estéticas-políticas de
pesquisa. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
que, com os destroços, consigam
construir outro.
Para que aquela terra árida se
torne pronta para o plantio, a água
precisa escorrer para fora. Depois
disso, será necessário escolher as
sementes que desejam plantar as
possibilidades de composição de um
jardim próprio. A contação, aqui, se
mostra primordial não apenas para a
água escorrer e, do caos, algo se
construa, mas também porque coloca
em movimento o ato de escolher para si
os possíveis vir-a-ser: o mundo que
querem habitar, o que precisam
descartar e o que desejam reforçar.
Narrar é colocar esse processo em
perspectiva além de materializá-lo.
Destruição, recomposição e
nascimento: um ciclo infinito que, no
caso dessas mulheres e de nossas
pesquisas, é disparado a partir de um
grande acontecimento o esgotamento
provocado pelo contato violento.
Geralmente, elas chegam até
nós não por um evento específico, mas
pelo cansaço extremo causado pela
falta de ar, pelas palavras engolidas,
pelo perder-se diante do espelho. Após
tanto engolirem, têm sede de falar, de
narrar, de escolher as próprias palavras
mesmo que tímidas e incertas. Sede
de compor, de viver, de destruir.
Essa força de rompimento e
conexão propiciada pela contação
coloca em perspectiva a linguagem
como remédio e veneno aquilo que
estabelece os meios pelos quais
(re)elaboramos o passado enquanto
projetamos um novo futuro (Menezes,
2023). O próprio ato de narrar
configura-se como um meio de situar o
sujeito no mundo, dando-lhe
reconhecimento na rede de atores e
atrizes que o compõem.
Esse singelo ato, aparentemente
vinculado a um espaço e tempo
específicos o do encontro conosco ,
dispara processos diversos que
reverberam por sua vida e pela nossa,
extrapolando o momento íntimo. Ou
seja: nessas experimentações, nesse
tensionar e dar sentido, extravasar
intensidades e nomear momentos,
conseguimos dar consistência a uma
vontade de vida capaz de resistir aos
choques do cotidiano (Menezes, 2023),
às situações que outrora eram
completamente desestabilizadoras.
Não em uma esperança de que
surjam mulheres maravilhas, mas na
desconstrução de Amélias presas em
tecituras que repetem e/ou aprofundam
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
as violências sofridas nos diversos
ambientes, diminuindo-as a que
caibam na pequenez que a dominação
exige.
Essa contação, pois, corrobora a
criação de recursos para a reinserção
nos fluxos e na realidade material em
que vivem, possibilitando-lhes
experimentar outras estratégias de
vivenciar o real. Ela questiona, indaga,
divaga, conserta, estraga, amarga,
adoça, contradiz e reafirma mundos.
é tarde, tudo está certo,
cada coisa posta em seu lugar.
Filho dorme, ela arruma o
uniforme, tudo pronto pra
quando despertar. O ensejo a
fez tão prendada, ela foi
educada pra cuidar e servir.
De costume, esquecia-se dela,
sempre a última a sair.
Disfarça e segue em frente,
todo dia, até cansar. E eis que,
de repente, ela resolve então
mudar.
Vira a mesa, assume o jogo,
faz questão de se cuidar. Nem
serva, nem objeto, não quer
ser o outro, hoje ela é um
também. (Pitty; Mendonça,
2009).
Num certo sentido, adentramos,
como pesquisadoras, em um processo
de deriva, entendido como um
ressignificar dos elementos que
compõem o espaço urbano e que
imbricam a criação de narrativas
artísticas voltadas à materialização
dessa experimentação do local
(Laterza; Barros, 2023). Escutar
histórias trágicas de naufrágio de um
certo mundo convida-nos a romper
representações dominantes, a
estranhar determinadas estratégias de
vida e a destruir nossas próprias
certezas diante de um campo
supostamente conhecido por nós.
O movimento de pesquisar
costuma se iniciar pela bibliografia, na
qual somos seduzidas a torná-la
verdade e a submeter as experiências
de campo aos seus ditames. Se nos
deixarmos levar por verdades
inteligíveis, picotamos as histórias a
partir do que nos cabe, buscando
reafirmar hipóteses e repetindo
discursos pré-construídos.
Como psis inseridas em práticas
de pesquisa, podemos seguir a lógica
médica que justamente promove tal
picotar um corte e colagem que
almeja repetir o conhecido,
enquadrar, tornar o singular redundante
e encaixá-lo em algo relatado pela
bibliografia técnica (Clavreul, 1983).
Como feministas, podemos
igualmente nos ensurdecer e, de modo
violento, fazê-las engolir nossas
próprias palavras, reafirmando-as
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CURI, Paula Land; SOUZA, Luiza Christina Marques de. Narrar com
Mulheres: um convite para outras práticas éticas-estéticas-políticas de
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
como pessoas trágicas a serem
tuteladas. Num convite à produção de
fissuras nessa lógica, tentamos adaptar
essa deriva como uma perspectiva a
ser adotada no campo dos territórios
existenciais: deixamo-nos conduzir
pelas solicitações do terreno e pelos
encontros que travamos com ele,
seguimos seus fluxos e abrimos espaço
para os acasos e o caos (Laterza;
Barros, 2023).
Isso significa estarmos
preparadas para sermos tocadas pelos
mais diversos sentimentos e
expressões emocionais, permitindo fluir
o acontecimento e esse ciclo de vida e
morte, sem que abandonemos a
conexão que mantém o encontro vivo.
Sob uma perspectiva psicanalítica,
coloca-se a transferência como
facilitadora e condição desses
movimentos.
Recordamos, brevemente, que,
no olhar psicanalítico, a transferência
tal como Freud a define é o meio pelo
qual conseguimos trabalhar
psiquicamente em conjunto com o(s)
sujeito(s). Pode ser compreendida
como uma reedição de impulsos e
fantasias que são despertadas e
tornadas conscientes no progresso dos
encontros (Pinheiro; Carvalho, 2014).
Esse caminhar despretensioso (porém
implicado) permite-nos entrar em
contato com aquilo que ainda não há,
mas que pode brotar (Tiberghien, 2013,
apud Laterza; Barros, 2023). Podemos
transformar e criar a partir de situações
aparentemente sem escapatória, desde
que estejamos abertas a novos
significados e percepções.
Em vez de pesquisarmos sobre
mulheres, preferimos o FazerCOM, que
envolve invariavelmente escutar
histórias de reinvenção a partir de um
acontecimento doloroso e que, nesse
escutar, nos coloca diante de nossas
próprias centralidades e certezas
acerca do mundo (Moraes; Tsallis,
2016).
Assim sendo, tornamo-nos
escutadeiras da caminhada dessas
mulheres, colocando em voga um
mundo povoado, composto por
diversos mundos ou seria melhor
dizer: mundos que se encontram e, nas
suas bordas de contato, formam o
compartilhado? Somos contestadas,
surpreendidas, reposicionadas e
deslocadas a partir desses encontros e,
ao percebermos sua riqueza de
composições, podemos modelar novos
arranjos e novas formas de lidar com
esse corpo pesquisador.
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CURI, Paula Land; SOUZA, Luiza Christina Marques de. Narrar com
Mulheres: um convite para outras práticas éticas-estéticas-políticas de
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
Estarmos abertas a esse outro
caminhar metodológico nos apresenta
uma riqueza de novas experiências e
histórias que, anteriormente, foram
ignoradas em prol da construção do
mundo hegemônico, masculinista,
branco e burguês que as torna
indignas de serem ouvidas e citadas
nas histórias convencionais (Scott,
1998).
Quando saímos da
transcendência do olhar de lugar
nenhum, aquele que tudo enxerga ,
percebemos a existência de histórias
que desmascaram as performances
naturalizadas de diversos fenômenos
sociais, como o gênero, os
relacionamentos afetivos, as violências
em sua forma cotidiana, as supostas
faltas e incapacidades de certos grupos
e a compulsória cis-heterossexualidade
(entre outros).
(Re)descobrimos uma
imensidão de vetores de pesquisa e de
práxis que organizam nossas
representações sociais
compartilhadas, que nos fazem refletir
sobre como operamos dentro dessas
produções de conhecimento: que
mundo ajudamos a construir com
nossas pesquisas?
Chegamos a outra encruzilhada:
pensar, a partir da contação de
histórias, uma política de escrita que
potencialize as possibilidades de futuro
(Menezes, 2023) especialmente das
que convivem com a destruição e o
estrangulamento, possibilitando a
emergência de água para quem tem
sede.
Neste percurso, se somos tão
afetadas pelo encontro com essas
histórias, por que não transpor para a
escrita acadêmica esse mesmo formato
de contato e transmutação com e pelo
outro?
Somos facilitadoras da construção
de outros mundos
Reafirmamos, nesta escrita,
uma composição de trabalho feminista,
construída a partir de corpos de
mulheres. Assim, assumimos os riscos
de certos embaraços provenientes de
uma prática de pesquisa que costuma
reafirmar um neutro redigido no
masculino (Moraes; Tsallis, 2016).
Situar nosso olhar implica trazer à tona
outra perspectiva prática de ética de
pesquisa, que mescla uma estética
política ao ato do trabalho acadêmico.
Ao longo dos encontros grupais,
construímos uma relação o tal
108
CURI, Paula Land; SOUZA, Luiza Christina Marques de. Narrar com
Mulheres: um convite para outras práticas éticas-estéticas-políticas de
pesquisa. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em
Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.95-117, set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
vínculo, ou transferência, a quem
preferir que nos convoca a compor
com, deslocando-nos das certezas
construídas em direção aos inéditos,
aos estranhamentos, a um
estremecimento de nossos próprios
contornos (Rolnik, 1993). Desse
encontro com a diferença, nascem
marcas vivas, o peculiares quanto
exigentes. Desprevenidas, somos
capturadas por suas histórias, por suas
formas de vida singulares, que
produzem em nós questionamentos e
estremecimentos inaugurando o
processo sutil de “morte” de nossas
certezas e composições atuais e
abrindo espaço para o surgimento de
um novo corpo, de uma nova rede de
pensamentos, emoções e percepções.
Como caranguejos-eremitas,
precisamos buscar uma nova concha
uma nova forma no mundo que se
adapte ao estado inédito no qual nos
encontramos. Se essa marca, efeito do
encontro, se instaura e impõe uma
exigência de trabalho a criação de um
corpo que materialize e dê passagem a
uma nova composição , o pensamento
é uma das ferramentas possíveis para
tal (Rolnik, 1993).
Assim sendo, o trabalho
acadêmico aqui é concebido como um
entrecruzamento de constrangimento,
acaso e conexão: afetar e ser afetado
no encontro, disparando processos de
busca por uma nova concha. Reafirmar
tal conexão se coloca como um modo
de conhecer que se desenrola em
partilha num receber, acolher e
devolver (Moraes; Tsallis, 2016).
Nesse outro manejo da
pesquisa, imbricamos processos de
construção de saberes situados e
criativos, exigindo formas menos
tradicionais de escrita. Se estamos nos
distanciando da ciência neutra e
masculinista, nada mais significativo do
que nos aliarmos a outras formas de
fazer ciência a serviço de um
potencial criativo e disjuntivo das forças
que invisibilizam nossos corpos,
nossos saberes e nossas narrativas.
Ser mulheres, então, é menos
sobre uma categoria universal que se
fecha em si mesma na criação de
saberes e mais sobre um modo outro
de produção acadêmica: o de
operarmos e criarmos pesquisas
implicadas e éticas, em que as histórias
contra-hegemônicas importam
(Moraes; Tsallis, 2016). Se estamos em
uma jornada de quebrar silêncios e
instituídos sociais, de tornar dignas
outras formas de existir, precisamos de
109
CURI, Paula Land; SOUZA, Luiza Christina Marques de. Narrar com
Mulheres: um convite para outras práticas éticas-estéticas-políticas de
pesquisa. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em
Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.95-117, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
evidências de um mundo de práticas e
valores alternativos, iluminando a vida
desses outros em nossos trabalhos.
A partir da permissão ao
estranhamento e das marcas que se
instalam, iniciamos outro tipo de
trabalho: o de arrumação e seleção
daquilo que cabe em nossa pesquisa
os contornos necessários à produção
de uma escrita satisfatória. Aqui,
deparamo-nos com mais um desafio: o
de escolher palavras, de compor um
texto que busque materializar
processos que se passam no corpo que
vibra na dimensão das sensações,
dos fluxos e das diferenças mais do
que propriamente no material (Rolnik,
2019).
Aqueles encontros se estendem,
reavivam questões, atualizam formas
de enxergar o mundo e nos convocam
a pensar, em termos de pesquisa,
modos de caminhar com mulheres, de
forma a tornar a diferença e a potência
dos afetos mais acessíveis, mais
possíveis.
Como podemos trabalhar com
essas experiências, essas histórias que
nos são narradas? De que forma
operamos com tal FazerCOM?
De antemão, precisamos nos
recordar do que Scott (1998) aponta
como armadilha: tratarmos a
experiência como origem do
conhecimento, de modo a criarmos um
enrijecimento da identidade do grupo
com o qual estamos em contato.
Sutilmente, podemos cair em uma
escrita reafirmadora e expositora de
uma certa diferença, sem nos
aprofundarmos nas fissuras que essas
histórias comportam e nas condições
de possibilidade de sua sustentação.
O que levou essas mulheres a
se sentirem presas nas relações com
quem as violentava? Como processos
revolucionários ou desviantes se
instauraram, levando-as a buscar ajuda
na criação de estratégias outras de
vida? Como se deu o processo de
estranhamento de viver no próprio
mundo, abrindo-se à experimentação?
Um pensar crítico se faz
necessário para expor as lógicas por
trás tanto das violências de gênero
quanto das estratégias de resistência,
das categorias sociais envolvidas nos
processos observados. Escutar
histórias nos permite, como
colocado, tornar certas experiências
visíveis; porém, como pesquisadoras,
precisamos estar atentas às categorias
que podem emergir e que, muitas
vezes, tratamos como a-históricas
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CURI, Paula Land; SOUZA, Luiza Christina Marques de. Narrar com
Mulheres: um convite para outras práticas éticas-estéticas-políticas de
pesquisa. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
(Scott, 1998): mulheridade,
masculinidades, violências, desejos,
atos de servidão, relacionamentos
amorosos, família, dominação, entre
outros.
O peculiar nos pistas do
coletivo, do mundo hegemônico em que
estamos inseridas e das roupagens que
o patriarcado masculinista branco
assume em nosso contexto histórico-
social específico. Dito isso, é
fundamental exercermos uma escrita
que acompanhe as produções
discursivas dos sujeitos, tomando as
contações não como evidências
legitimadoras e/ou referências de certa
identidade grupal, mas como modos de
historicizar e acompanhar os processos
que as tornaram possíveis.
Por que isso aconteceu dessa
forma, e não de outra? O que
consideramos como violências de
gênero? De que forma são permitidas
no cotidiano? Quem pode exercer quais
tipos de violência e por quê? O que se
coloca em jogo quando uma mulher
decide permanecer com quem a
violenta? E o que lhe permite romper
com a relação? Como facilitamos os
processos de resistência? Como
performamos feminilidades? Como é
ensinado às mulheres a serem
resilientes no contato com a violência?
Independentemente dos
objetivos diversos que possam surgir
de uma pesquisa a partir desse contato,
entendemos que uma ferramenta
possível e ainda timidamente
explorada no campo acadêmico é a
de compor histórias. Assim, tornamo-
nos autoras de contos, cenas e/ou
crônicas que tentam dar contorno
àquilo que nos levou ao
estranhamento.
Não se trata, aqui, do conhecido
método de “estudo de caso”,
amplamente utilizado no campo da
saúde, mas, sim, de a partir dos
afetos que emergem, dos
estranhamentos e deslocamentos que
sofremos em campo ativarmos nossa
própria criação, de modo a tornar
visíveis os bastidores e processos
destrutivos, para que possamos
vislumbrar um mundo a ser construído
(Menezes, 2023). Um convite, portanto,
a darmos espaço à nossa própria
escuta fantasiosa sobre esses
encontros.
Entendendo que a linguagem,
enquanto meio de expor diferentes
dores e sofrimentos, não é estável
está cotidianamente se reformulando
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CURI, Paula Land; SOUZA, Luiza Christina Marques de. Narrar com
Mulheres: um convite para outras práticas éticas-estéticas-políticas de
pesquisa. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
, aproximamo-nos do ponto levantado
por Das (2020, p. 68): “algumas
realidades precisam ser ficcionadas
antes que possam ser apreendidas”.
Assim, essas cenas, crônicas e contos
se colocam como um recurso de
visibilização e viabilização do
assimilado acerca dos processos de
violência nas diferentes esferas sociais
no nosso caso, especialmente na vida
privada , entremeando-se com
reflexões sobre as categorias de
análise com as quais buscamos
trabalhar.
Isso se torna essencial em
nosso contexto atual de retorno de
governos de extrema direita, que tratam
as questões de violência de gênero
como falácias ou exageros, reforçando
a negação do reconhecimento dos
sofrimentos e dores das mulheres. De
2019 a 2022, tivemos a ascensão de
Jair Bolsonaro à Presidência da
República político conhecido pela
defesa da “família e dos tradicionais
costumes” e, desde então,
observamos um aumento expressivo
de cargos políticos ocupados por
pessoas alinhadas a esses ideais
patriarcais, racistas e classistas.
Faz-se, então, um convite para
expandirmos as bordas das
metodologias: sair da objetividade que
parte de um corpo transparente, em
direção à criação também nas formas
com as quais escrevemos e narramos
nossas pesquisas e os encontros que o
campo nos propiciou. Isso significa
abandonarmos não apenas a
inteligibilidade de quem pesquisa, mas
também nos permitirmos a própria
mutação e a impossibilidade de darmos
conta do mundo em sua constante
metamorfose.
Não pensamos, aqui, em formas
de contar histórias e experiências que
afirmem uma identidade, mas em
modos pelos quais os fluxos se
organizam e se capturam naquele
instante tal como em um pequeno
documentário, datado em um certo
tempo-espaço. Trata-se de tornar
conhecida uma experiência de vida, de
modo que possamos, junto de quem
nos lê, desfiar os fios das práticas
discursivas ali presentes e,
simultaneamente, tornar dignas as
vidas retratadas, concedendo-lhes
reconhecimento e uma forma de
reverberar no mundo.
Não basta estarmos receptivas
ao encontro: precisamos ser
conjuntamente com o outro,
construindo um espaço capaz de
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CURI, Paula Land; SOUZA, Luiza Christina Marques de. Narrar com
Mulheres: um convite para outras práticas éticas-estéticas-políticas de
pesquisa. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
facilitar a fermentação do incriado e do
impensável. Essa escuta grupal nos
convoca a encenar papéis que, embora
renovem o passado, se imbricam nos
processos de criação de um vir-a-ser
num anseio de deslocamento que, em
alguma medida, depende de nossa
própria abertura para o novo (Palhares,
2008). “Ambos [analista/analisando]
continuam a buscar a expansão de sua
ontologia seguir sendo para poder
continuar vivo para si mesmo, para o
outro e para o mundo” (Palhares, 2008,
p. 109). Abandonamos a suposta
neutralidade da pesquisa e reavivamos
a autoria por trás da construção de
nossos trabalhos “a marca do escritor
não é mais do que a singularidade de
sua ausência: é preciso que ele faça o
papel do morto no jogo da escrita”
(Foucault, 2006, p. 36).
O corpo morre em nome de uma
assinatura que transcende. Há,
contudo, uma necessidade de
produção de saberes voltados à
previsão e ao controle de certos
fenômenos; todavia, é preciso permitir
(e validar) a criação de outras formas
de pensar e perceber o conhecimento,
aliadas a uma nova linguagem e à
passagem dos afetos, dos incertos e
das aberturas estruturantes sem a
exigência de um novo fechamento
(Costa, 2016).
Isto posto, fazemos um convite a
reanimar nossa escrita: enchê-la de
vida, fazer brotar dela possíveis
mundos outros, em que narrar se torne
parte da materialização de nossas
marcas. Contudo, essa proposta exige
atenção a uma armadilha que ela
mesma nos apresenta: requer-se
cuidado na composição das histórias e
no documentar dos bastidores da
pesquisa, de modo a não expor
desrespeitosamente as mulheres
participantes. Não podemos confundir a
experimentação artístico-política no
campo da escrita acadêmica com a
ausência de um passo ético anterior
o de refletirmos sobre a
responsabilidade diante dessa
produção. O como contamos torna-se,
assim, primordial.
Estamos reanimando um texto
marcado pela morte, em que nossa
própria autoria emerge no momento da
escrita (Foucault, 2006). Ou seja,
apesar de nossa história pregressa e
de nos entendermos como sujeitos
diante de um vasto mundo, o trabalho
acadêmico nasce em um contexto
específico: escrevemos porque
precisamos dar direção às marcas
113
CURI, Paula Land; SOUZA, Luiza Christina Marques de. Narrar com
Mulheres: um convite para outras práticas éticas-estéticas-políticas de
pesquisa. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
sendo esse espaço uma das formas
possíveis de materializar nossas
inquietações.
Dessa forma, nossa produção se
coloca a serviço de certos moldes e
regras, ainda que tentemos expandir
suas bordas. Apesar da abertura e
riqueza dos encontros, precisaremos,
em alguma medida, exercitar a criação
de cenas, contos e crônicas que se
aliem às chaves teóricas que buscamos
expor, construindo pontes entre nossa
ficção e nossos conceitos, dando limite
e direção a essas criações.
Podemos, pois, pensar em uma
contação que se coloque como parte de
uma discussão sobre o comum-
compartilhado não como uma
verdade imutável e inteligível,
tampouco como uma realidade
indiscutível em matérias de
subjetividade, mas como composições
narrativas que integram a construção
do saber e que, por isso, devem elas
mesmas passar pelo crivo da crítica, da
discussão e da controvérsia.
Considerações finais
No nosso contexto local
marcado pelo recrudescimento de
ideais patriarcais, racistas e violentos
, como pensar criticamente as
metodologias de pesquisa que
envolvem mulheres?
Como podemos, enquanto
pesquisadoras, ir ao encontro desse
grupo sem reproduzir a forma como as
histórias costumam ser contadas,
servindo-nos de uma escrita que, na
“purificação” da construção da
pesquisa, inviabiliza que movimentos
de resistência e dignidade aflorem?
Como produzir linhas que escapem, na
própria escrita do pensamento, da
reprodução da tutela do corpo feminino
entendido como alienado e destituído
de agência sobre si mesmo?
Com essas perguntas em
mente, objetivamos aqui colocar em
vislumbre uma prática ético-político-
estética de pesquisa, fundada em
encontros grupais que possibilitam a
escuta de diferentes histórias,
recusando-nos a nos aliar a certas
metodologias que se satisfazem com
moldes que reforçam pureza,
neutralidade e hierarquia discursivas.
Assim sendo, permitimo-nos
desbravar não somente a construção
de uma nova cartografia existencial de
nossas pacientes, mas também a
nossa própria numa dupla ativação de
potências que se colocam a serviço da
expansão da vida e dos saberes
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CURI, Paula Land; SOUZA, Luiza Christina Marques de. Narrar com
Mulheres: um convite para outras práticas éticas-estéticas-políticas de
pesquisa. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em
Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.95-117, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
decoloniais e contra-hegemônicos.
Percebemos, no dispositivo grupal, a
potencialidade de fazer ritmar e circular
afetos que outrora não encontravam
vias de organização ou de
existencialização, perdidos em meio ao
desamparo, à angústia e à invalidação.
Diante de situações violentas
que, por vezes, deixam marcas na
alma, precisamos descobrir
coletivamente figuras de linguagem que
tentem contornar ou, ao menos,
expressar a vivacidade dessas dores
em seus corpos, em seus múltiplos
efeitos e nas possibilidades de atos de
ruptura.
Nesses encontros, produzimo-
nos escutadeiras de histórias corpos
que escutam atenta e sensivelmente a
outra, ao passo que se deixam
contagiar pelos afetos e provocações.
É um convite ao estranhamento dos
caminhos até então certos e
conhecidos. Experimentamos e
compomos em conjunto, apostando
nos encontros como parte essencial de
provocar mudanças, deslocar
instituídos e (re)construir mundos.
Ao nos indagarmos sobre quais
caminhos traçar na escrita acadêmica
diante de tamanha riqueza do
FazerCOM, apostamos, como uma das
saídas possíveis, na produção ficcional
seja na forma de contos, crônicas ou
cenas. Essas produções estão a
serviço de um pensar que movimenta a
dimensão afetiva, entendendo-a como
parte essencial da experiência do ser
vivente e forçando-nos a reagir diante
de um mundo até então desconhecido
por nós.
Essa aposta comporta a
radicalidade que a antropóloga Rita
Segato (2020) demarca: não mais olhar
o outro para conhecê-lo, mas conhecer
a nós mesmas no olhar do outro um
fazer pesquisa que aceita ser
perguntado, que acolhe o caminhar
tateante e o método, ele próprio, como
desvio (Gagnebin, 1999). Costurar
conceitos é importante, mas, por si só,
raramente nos força ao encontro com o
múltiplo e o virtual, com as
possibilidades de porvires,
aprisionando-nos no (re)conhecido
passado.
Não basta sermos escutadeiras
do apocalipse: precisamos viabilizar o
vislumbre de (re)construções de
mundos aliados, de conexões outras
entre os seres que ali habitarão. Assim
sendo, usamos a ficção como
inspiração, inquietação e disparador da
diferença uma ferramenta que
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CURI, Paula Land; SOUZA, Luiza Christina Marques de. Narrar com
Mulheres: um convite para outras práticas éticas-estéticas-políticas de
pesquisa. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
mobiliza formas outras de viver, de ser
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
Cartografias infantis: narrativas das infâncias enquanto uma metodologia do
encanto
Mariana Cunha Schneider
1
Nícolas Braga Fröhlich
2
Luciano Bedin da Costa
3
Tiago Alexandre Fernandes Almeida
4
DOI: https://doi.org/10.22409/pragmatizes.v15i29.67188
Resumo: Este artigo investiga as narrativas infantis como metodologia de pesquisa, enfatizando o
encantamento como princípio epistemológico e político. Partindo da ética cartográfica e da integração
da poesia como ferramenta metodológica, argumentamos que pesquisar com as infâncias exige uma
escuta sensível e uma abordagem que valorize suas formas singulares de narrar o mundo. As crianças,
longe de serem somente sujeitos em formação, apresentam-se como potências criativas e ancestrais,
capazes de tensionar estruturas adultocêntricas e coloniais. A pesquisa com narrativas infantis
possibilita uma reconfiguração das relações de poder e do conhecimento, promovendo um olhar que
conecta o visível e o invisível. Inspirados em autores como Renato Noguera, Luiz Antonio Simas, Luiz
Rufino e Ailton Krenak, propomos que o encantamento, presente nas experiências infantis, atua como
uma ferramenta contracolonial e uma prática de resistência. A cartografia infantil, entendida como
metodologia, permite reescrever a vida por meio da brincadeira e da alegria, questionando hierarquias
e promovendo uma política do sensível. Assim, reafirmamos a importância de uma pesquisa que, ao
1
Doutoranda e Mestra em Psicologia Social e Institucional pela Universidade Federal do Rio Grande
do Sul (UFRGS). Integrante do Grupo Políticas do Texto. E-mail: mari.cunha.s@hotmail.com. ORCID:
https://orcid.org/0000-0002-7577-1710.
2
Mestrando em Psicologia Social e Institucional pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul
(UFRGS). Integrante do Grupo Políticas do Texto. E-mail: nbfrohlich@gmail.com. ORCID:
https://orcid.org/0009-0005-1718-0321.
3
Doutor em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Docente na
Faculdade de Educação e no Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social e Institucional da
UFRGS. Coordenador do Grupo Políticas do Texto. E-mail: bedin.costa@gmail.com. ORCID:
https://orcid.org/0000-0002-6350-2644.
4
Doutor em Psicologia Educacional pelo Instituto Universitário de Ciências Psicológicas Sociais e da
Vida, Portugal. Docente no Instituto Politecnico de Lisboa, Escola Superior de Educação; CI&DEI -
Centro de Estudos em Educação e Inovação. E-mail: tiagoa@eselx.ipl.pt. ORCID:
https://orcid.org/0000-0002-3557-0623.
Recebido em 30/03/2025, aceito para publicação em 08/08/2025.
119
SCHNEIDER, Mariana Cunha; FROHLICH, Nícolas Braga, COSTA, Luciano
Bedin da; ALMEIDA, Tiago Alexandre Fernandes. Cartografias infantis:
narrativas das infâncias enquanto uma metodologia do encanto.
PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.118-135, set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
invés de traduzir e domesticar a infância, caminhe junto a ela, aprendendo com suas múltiplas formas
de fabular o mundo.
Palavras-chave: narrativas infantis, encantamento, cartografia infantil, epistemologia,
contracolonialidade.
Children's Cartographies: childhood narratives as a methodology of enchantment
Abstract: This article explores children's narratives as a research methodology, emphasizing
enchantment as an epistemological and political principle. Drawing from cartographic ethics and
incorporating poetry as a methodological tool, we argue that researching with childhood requires
attentive listening and an approach that values their unique ways of narrating the world. Children are
not merely subjects in development; they embody creative and ancestral forces capable of challenging
adult-centric and colonial structures. Researching enchanted narratives enables a reconfiguration of
power relations and knowledge production, fostering a perspective that intertwines the visible and the
invisible. Inspired by scholars such as Renato Noguera, Luiz Antonio Simas, Luiz Rufino, and Ailton
Krenak, we propose that enchantment, inherent in childhood experiences, functions as a counter-
colonial tool and a form of resistance. The concept of children's cartography as a methodology allows
for rewriting life through play and joy, subverting hierarchies and promoting a politics of the sensitive.
Thus, we reaffirm the importance of research that does not seek to translate and domesticate childhood
but rather walks alongside it, learning from its multiple ways of fabulating the world.
Keywords: children's narratives, enchantment, children's cartography, epistemology, counter-
coloniality.
Cartografías infantiles: narrativas de las infancias como una metodología del encanto
Resumen: Este artículo investiga las narrativas infantiles como metodología de investigación,
enfatizando el encantamiento como un principio epistemológico y político. Partiendo de la ética
cartográfica y la integración de la poesía como herramienta metodológica, argumentamos que
investigar con las infancias exige una escucha sensible y un enfoque que valore sus formas singulares
de narrar el mundo. Las niñas y los niños, lejos de ser solo sujetos en formación, se presentan como
potencias creativas y ancestrales, capaces de tensionar las estructuras adultocéntricas y coloniales. La
investigación con narrativas infantiles posibilita una reconfiguración de las relaciones de poder y del
conocimiento, promoviendo una mirada que conecta lo visible con lo invisible. Inspirados en autores
como Renato Noguera, Luiz Antonio Simas, Luiz Rufino y Ailton Krenak, proponemos que el
encantamiento, presente en las experiencias infantiles, actúa como una herramienta contracolonial y
una práctica de resistencia. La cartografía infantil, entendida como metodología, permite reescribir la
vida a través del juego y la alegría, cuestionando jerarquías y promoviendo una política de lo sensible.
De este modo, reafirmamos la importancia de una investigación que, en lugar de traducir y domesticar
la infancia, camine junto a ella, aprendiendo de sus múltiples formas de fabular el mundo.
Palabras clave: narrativas infantiles, encantamiento, cartografía infantil, epistemología,
contracolonialidad.
Cartografias infantis: narrativas das infâncias enquanto uma metodologia do
encanto
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SCHNEIDER, Mariana Cunha; FROHLICH, Nícolas Braga, COSTA, Luciano
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O sorriso do soldado
5
Naquela tarde, as crianças
haviam saído da escola com seus
adesivos em mãos. Eram uma espécie
de gritos de guerra que ficariam
ecoando em plano baixo pelas paredes,
postes e muros da cidade. Entre as
doze crianças, havia quatro crianças
maiores ora, alguém precisava dirigir
os carros! e elas faziam movimentos
de acompanhar os demais, lutando
contra a dureza que ser uma criança
maior deixa na gente. Semanas antes,
aquele passeio fora sido desenhado em
mapa de papel e tudo: um
reconhecimento do campo, a seleção
afetiva necessária e o planejamento
itinerante. Acontece que, ao sair para a
cidade, os mapas e planos não dão
conta de toda sua vida e potência
trânsito, fluxo de pessoas, eventos,
exposições, como estarão aqueles
corpos no dia, e por vai a cidade vai
apontando a necessidade de desvios e
a possibilidade de redesenhar o
caminho a ser percorrido. As crianças
grandes, ao chegarem no primeiro
destino, a Casa de Cultura, não
encontravam estacionamento e
5
Claquete escrita por um/a dos/as autores/as
durante o desenvolvimento da dissertação de
pararam na quadra anterior, o que fez
com que passássemos em frente a um
lugar que não constava no
planejamento do dia, e muito menos no
imaginário de uma das crianças
maiores: a que atende, quando não
está em seu devir criança grande, como
aquela que escreve essa pesquisa: a
psicóloga pesquisadora.
Era, acreditem, um museu
militar.
Uma dificuldade e uma realidade
de ser uma criança maior, é que a
passagem do tempo às vezes nos faz
aprender e vivenciar coisas no mundo,
principalmente nesse mundo de
adultos, que machucam a gente. Saber
o que a instituição militar significava em
um país que matou mais de
quatrocentos e torturou mais de vinte
mil vidas, entre elas, de algumas
crianças, que segue (por militarizada
ser a polícia) matando jovens pretos e
pobres, além de ter vivenciado nos
últimos quatro anos um avanço e um
retorno das forças militares que
enquadram, ditam, normatizam e
violentam, no governo federal, era de
uma dor inominável para essa criança
mestrado da qual esse texto resulta.
(Schneider, 2024).
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maior. Entrar em um museu militar era
a sua última ideia no mundo. Ver os
olhos dos soldados, suas fardas, sua
postura nada infantil, sua inocência
sendo arrancada... não eram os planos
para aquela tarde entre crianças que
queriam inscrever marcas para uma
cidade melhor. Mas as crianças
pequenas insistiram! havia tanques
de guerra, furgões, carros blindados,
capacetes de soldados à disposição. E
era tudo interativo... parecia até que era
feito mesmo para brincar. Entramos.
Na brincadeira, teatralizamos
cenas de guerra. Crianças pequenas
dirigiam os carros, as grandes estavam
um pouco perdidas. Olhavam as
crianças pequenas que sumiam nos
labirintos do museu, entre tanques,
motos, cavalos, soldados, carros e
armas. “Brrrrrum, brrrrum,
brrrrrummmmm (trocas de marcha)”,
“pah, pah, pah”, “olha aqui, meu, pode
colocar a o capacete”. Os soldados
que tomavam conta do museu
permaneciam intactos: em suas fardas,
honravam a postura que lhes era
ensinada, estavam sérios, zelavam
pelo patrimônio, nenhum sorriso cabia.
A criança maior, aquela que escreveria
esse texto depois, começa a amolecer
o corpo... entra na brincadeira, torce o
olhar. Retoma uma definição que havia
trazido antes em seu texto, a do infante
guerrilheiro. Crianças fazendo de um
cenário de vestígio de guerra um
campo de brincadeira. Tinha algo ali...
ainda não sabia bem. Até que uma das
crianças pequenas faz um gesto, um
pequeno gesto, que passa a mudar
tudo no rumo desse pesquisar.
Com um adesivo que fez
semanas antes em mãos, do qual
falaremos mais posteriormente, escrito
“homens têm que parar de bater nas
mulheres”, inscrição que achou que
cabia permanecer ali, naquele canto da
cidade, que o quartel é formado
majoritariamente por homens, caminha
em direção a um soldado. Com a
coragem e a transgressão que somente
uma criança poderia carregar, faz uma
improvável pergunta: “posso colar esse
adesivo em um dos tanques de
guerra?”. A criança grande que mal se
autorizou a dar oi aos soldados que
cumpriam seu papel de serem...
soldados, jamais pensaria ser possível
questionar algo que sabíamos de
antemão a resposta a uma instituição
de tamanha dureza. Mas uma das
crianças pequenas o fez. Foi até o
soldado e fez a improvável pergunta,
certo de que, com a autorização, faria
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daquele lugar que abrigou tamanha
brincadeira naquela tarde, um lugar
ainda melhor. A inscrição de seu
adesivo, de suas palavras que
desejavam um mundo com menos
violência contra as mulheres, não foi
possível. Quem for ao museu não verá
seu grito de guerra ali explicitado. A
resposta final foi um não. Mas aqui não
importa... a inscrição necessária para
que essa história se contasse e a
mudança sutil, mas radical, na ordem
daquela cidade, veio não com a palavra
daquele homem que cumpria guarda.
A pergunta da criança foi tão
improvável, mudou tanto a conjuntura a
que todas nós, crianças grandes,
estamos habituadas, que produziu uma
marca ainda mais necessária e
aparentemente impossível naquele dia:
A inscrição da força da infância,
sua arma de guerra, surgiu quando,
surpreso com a pergunta do menino, o
soldado desfez sua cara de sério. O
soldado, naquela tarde, foi obrigado a
sorrir.
A pergunta infantil e seu encanto
Aqui, ao iniciarmos essa escrita,
cabe uma breve contextualização. A
cena que inaugura o texto ocorreu na
área central do município de Porto
Alegre, capital do Rio Grande do Sul -
RS. O grupo de crianças que compõe a
cena estuda em uma escola da periferia
do município e foi constituído como
parte da investigação de mestrado de
uma das autoras. A ocupação do centro
urbano foi uma das propostas
construídas por esta grupalidade, cuja
pergunta disparadora consistia em
saber o que aquelas crianças gostariam
de inscrever na cidade.
A ideia de entrarem no museu
militar não foi previamente programada.
Na verdade, o museu se encontra na
mesma rua do nosso primeiro destino,
mas não havíamos cogitado que aquele
espaço pudesse interessar aquelas
crianças. Foi no deslocamento a que
elas fizeram seu primeiro pouso. Pouso
este que fez daquele espaço
endurecido nossa primeira parada.
Estranhados com a escolha do grupo,
fomos acompanhando seus passos,
também temerosos com as durezas
dos homens fardados e suas máquinas
de guerra que, apesar de obsoletas e
úteis somente para um museu, ali
permaneciam a fazer marcas na
cidade.
Aquelas crianças foram se
apropriando daquela maquinaria. Volta
e meia, chamavam-nos para olhar,
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brincar e também transgredir junto. E
foi nessa apropriação territorial que
uma delas decidiu ir ao encontro de um
soldado. Um jovem não tão mais velho
que ela. Talvez 10 anos a mais? Bom,
não sabemos. A criança perguntou se
poderia colar seus adesivos naquele
espaço, na tentativa de dar visibilidade
a um local que precisa se haver com as
vozes que insistem em calar. A
negativa do soldado já era esperada
por nós, bastante óbvia para os adultos,
em verdade. Não sabemos o que levou
aquela criança a indagar o soldado. Por
romper com a obviedade da resposta
porvir, por acreditar ainda que seria,
sim, possível, por dirigir-lhe a palavra,
não sabemos: sua pergunta-encanto o
fez sorrir.
Aquele sorriso-surpresa nos leva
a tomar a pergunta infantil como
disparadora de movimentos instituintes.
Mais que uma resposta negativa ou
positiva, trata-se de uma pergunta
reverberadora, que não se encerra
naquele instante. Nós, sujeitos
adultecidos, encontramo-nos
desabilitados a formular um
questionamento como esse, seja por
vergonha ou mesmo medo. Mas
também porque não é uma pergunta
que nos ocorre. Sua resposta quase
certa nos interdita, de modo que nossa
condição impossibilita intervenções
como a que presenciamos.
Nas palavras de Noguera
(2019a, p. 137), “adultecer é abrir mão
da mais-valia da vida. Adultecer é a
forma por excelência de corrupção da
vida, algo contra o qual não temos um
remédio salvador”. Adultecer, tal qual
posto aqui, é adoecer. E assim como na
doença, nos vemos limitados
fisicamente a fazer determinadas
coisas. Deste modo, são as crianças,
por excelência, capazes de produzir
alegria através do seu brincar. (Id.,
2019b).
Seria então o adultecimento um
destino trágico para o sujeito que
envelhece? A depender, sim. Mas,
então, o que é preciso para subverter
este destino trágico? Para Benjamin, “é
o jogo, e nada mais, que à luz todo
hábito”. (2009, p. 102). Em outras
palavras, é brincando que introjetamos
uma cultura e assim vamos
aprendendo seus acordos citos e
expressos. Enquanto crescemos, mais
a cultura se introjeta em nós,
diferentemente da infância, onde “o
hábito ainda não fez sua obra”. (Id.,
2012, p. 44). Por isso, o olhar infantil
nos é tão caro. Trata-se de um olhar
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cartográfico por excelência. Capaz de
provocar gestos instituintes.
Mas o que é preciso fazer para
deter o adultecimento e sua condição
adoecedora? Se o hábito é um destino
comum a todos, inclusive que se
inaugura precocemente através do
brincar, o que nos resta fazer?
Primeiramente, é importante salientar
que “o brincar é uma atividade entre
mundos; não se entre pessoas e
objetos isolados.”. (Sekkel, 2016, p.
91). Ademais, ainda que o brincar
carregue consigo uma série de
elementos culturais que se reproduzem
através do seu ato, não se trata de uma
atividade meramente reprodutiva.
Benjamin (2009) salientava que a
brincadeira é a forma como as crianças
estabelecem um diálogo com seu povo.
Ou seja, trata-se de um diálogo de
trocas permanentes, em que tanto o
hábito como as infâncias fazem sua
obra. Para Noguera “a infância opera
pelos desígnios da transformação, da
produção de realidades porque
reconfigura através de sua potência
criadora”. (2019a, p. 135). Ao brincar a
criança também cria, transforma,
inventa.
Benjamin ainda nos lembra que
“o hábito entra na vida como
brincadeira, e nele, mesmo em suas
formas mais enrijecidas, sobrevive até
o final um restinho de brincadeira”.
(Benjamin, 2009, p. 102). E é nesse
“restinho” que o hábito guarda em si a
sua origem. A brincadeira. E assim o
autor continua, ao dizer que “mesmo o
pedante mais insípido brinca, sem o
saber, de maneira pueril, não infantil,
brinca ao máximo quando é pedante ao
máximo”. (Ibid.). Se assim for, o adulto
guarda em si sua origem infantil. Ainda
que um “restinho”. Por isso, a
insistência de Noguera em pensar uma
política brincante endereçada também
aos adultos. Pois é brincando que
somos capazes deter o adultecimento
em sua condição mais totalitária.
(Noguera, 2019a). Reavivar o “restinho”
da infância que guardamos conosco
talvez seja aquilo que nos resta de
saída. Neste sentido, a presença
infantil nos convoca a fazer “com”. A
fazer pouso mesmo no lugar mais
insípido para nós, adultos (e por que é
insípido?), transformando-o em parque
de diversões, como se operasse um
milagre. “Um milagre brincante”, como
sugere Noguera. (Id., 2019b).
Somente o restabelecimento da
infância, conforme sugere Noguera,
será capaz de deter o adultecimento.
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(Id., 2019a). Por isso, a urgência de
uma política brincante endereçada
também aos adultos. Ainda assim,
teremos muito o que aprender com as
crianças a fim de resgatar nossas
infâncias adormecidas, pois no final das
contas, são elas que detêm no olhar e
no gesto modos de fazer inclusive um
soldado sorrir.
Caminhando e contando:
cartografias infantis e a poesia das
narrativas que desenham o mundo
Como mencionamos
anteriormente, reconhecemos as
crianças como aquelas que, por
excelência, corporificam a ética
cartográfica. Isso porque seu gesto
serelepe de habitar os territórios não
teme a sujeira. A cartografia exige tal
gesto: o de se sujar (Costa, 2014), sem
temer a contaminação do corpo, pois
ao mergulhar no plano da existência
não nos fazemos mais neutros, tão
pouco os mesmos de outrora; não
obstante, não se faz simples este
mergulho. É preciso coragem.
A parada no Museu Militar só se
fez possível em razão da insistência
daquelas crianças. Não fosse isso,
talvez passássemos sem olhar para
dentro daquele pavilhão, temerosos em
reavivar as lembranças de um tempo
que não foi o nosso (mas que passa a
ser), mas que ainda assim nos dói. A
ditadura civil militar que assolou os
territórios latino americanos é uma
marca que permanece inscrita nas
paredes e nos corpos que habitam a
cidade. Ainda assim, aquelas crianças
nos asseguram de que aquele espaço
poderia ser divertido. Era preciso ser
criança, para tanto. Deixar que o
“restinho” de brincadeira que nos habita
enquanto adultos ganhe passagem,
para tornar aquele pavilhão repleto de
equipamentos de guerra em um parque
de diversões.
E foi assim que foi possível
cartografar aquelas cenas. Foi preciso
reavivar nossas lentes infantis,
viabilizando, assim, uma coragem
adormecida. Uma coragem que vai se
perdendo com o passar dos anos. As
crianças que nos acompanhavam,
agora na condição de guias, nos
ensinavam com maestria a habitar
aqueles “brinquedos”. Pediam fotos.
Tiravam fotos. Corriam de um lado para
o outro como quem tem pressa para
viver tudo. Farejam aquele “parque de
diversões” para que não deixassem
nem um daqueles “brinquedos” sem a
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sua marca. Uma marca que não
precisou de adesivos.
Sendo assim, não nos parece
inadequado aventar que, em se
tratando de cartografia, a dimensão
ética é o que parece chegar primeiro.
Tomando como problematização a
dimensão brincante da cena que, por
suposição, poderia se restringir a uma
“sujeira” militar, a ética posta em
questão diz respeito ao acolhimento
das circunstâncias que se fazem ao
acaso dos encontros. Contudo, de
se considerar a necessidade de
explicitar o que estamos, aqui,
compreendendo por ética.
Em síntese, podemos dizer que
ética: 1) não é algo dado a
priori, e não deve ser
confundido com valores,
normas, códigos ou moral; 2)
envolve-se com práticas de
liberdade, das possibilidades
de relação com e no mundo; 3)
não é um lugar de chegada a
ser ocupado (ethos enquanto
morada do ser), mas uma
disposição ao abandono (ethos
enquanto movimento de
partida). (Costa, 2020, p. 15).
Na leitura das três observações
supracitadas, e considerando seu
direcionamento à prática de pesquisa
cartográfica, encontramos respaldo
para fazer uma leitura ético-
metodológica do que se passou no
domínio dos corpos. Ora, nossa
indigestibilidade diante do que se
mostrava um caminho possível e
desejável às crianças - o ingresso ao
museu militar -, não poderia ser um
empecilho para que todos (inclusive
nós, pesquisadores) pudessem acolher
a experiência. Sob o prisma da moral
(observação ética 1), muito
provavelmente diríamos não ao convite
que nos foi apresentado pelas crianças,
uma negativa não necessariamente
posta de modo explícito, “não iremos
entrar no museu”, mas que poderia se
fazer enquanto tal. Poderíamos
simplesmente “fazer vista grossa”,
expressão idiomática que nos soa
bastante interessante na situação em
questão, dado que, em uma cartografia
com crianças, de se sutilizar a
grossura/grosseria de nossas condutas
adultocêntricas de controle. É aqui que
chegamos à observação 2, quando,
diante de uma vida social que exige dos
corpos um contínuo controle, somos
conduzidos a pensar a ética enquanto
uma prática de liberdade em um mundo
que se impõe em relação a nós e que
também criamos. O último ponto
(observação 3) nos leva a pensar a
ética enquanto uma condição de saída:
no lugar de morada do ser (que nos
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
conduz a uma ideia de repouso), o
ethos cartográfico diz respeito ao
movimento propriamente dito,
compreendendo a liberdade não como
um valor outorgado a outrem por
alguém, mas algo que se produz em
ato, na relação com o outro e com o
mundo.
Recorrendo a certa licença
poética, diríamos que não é
aconselhável sair para uma cartografia
com a mochila pesada demais,
carregada de preceitos e prescrições
acerca do que fazer ou não fazer.
Façamos, aqui, uma pequena pausa
para pensar a dimensão da narrativa
poética que por vezes se subleva em
uma escrita de cunho cartográfico
como a que apresentamos neste artigo.
Pensamos com Pacheco e Fernandes
(2022, p. 209-210), quando situam a
escrita poética enquanto um lugar de
criação de problematizações, não
significando a criação de lugares de
descanso e repouso para a “seriedade
de um trabalho acadêmico”, mas a
tentativa de produção de um outro
terreno que possibilite a criação de
questões, nesse caso, apresentadas
por meio de forças expressivas que
fazem, por meio do esforço estético e
poiético, produzir pensamento. No caso
da vinheta cartográfica do “sorriso do
soldado”, quem diga que se poetizou
demais o que, no plano das cruezas e
crueldades institucionais (de uma
militarização do imaginário infantil, por
exemplo), pouco, ou nada, haveria de
poético. Diante de tais críticas, que nos
parecem justificadas levando-se em
conta a dureza do tempo presente,
respondemos que a poesia o é algo
inerente ao fato ou a algo vivido
(embora por vezes possa estar), mas
uma estratégia de posicionamento e, se
for o caso, de narrativa acerca do
acontecido. Talvez pudéssemos incluir
uma quarta observação em relação à
ética cartográfica, sugerindo-lhe
polinizações poéticas.
Não fazer vista grossa
Como, então, delinear um plano
cartográfico capaz de acolher a sutileza
do olhar em um mundo marcadamente
apressado? Como operar uma
cartografia que resista ao desejo de
sobrecodificação, este que nos leva a
fazer vista grossa em relação a
questões que cotidianamente
explodem diante dos nossos olhos?
Chegamos, nesse ponto, a uma
problematização importante ao campo
das pesquisas cartográficas, que diz
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SCHNEIDER, Mariana Cunha; FROHLICH, Nícolas Braga, COSTA, Luciano
Bedin da; ALMEIDA, Tiago Alexandre Fernandes. Cartografias infantis:
narrativas das infâncias enquanto uma metodologia do encanto.
PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.118-135, set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
respeito ao registro, uma vez que
estamos, enquanto pesquisadores(as)
cartógrafos(as), implicados nos
próprios movimentos por nós
analisados. “As narrativas produzidas
por meio de nossas investigações têm
o rastro de nossas próprias pegadas,
somadas às pegadas daquela(e)s que
conosco também caminham ou
caminharam” (Costa; Soares; Almeida,
2020, p.75). O certo é que as pegadas,
em se tratando de infâncias, são mais
leves, ainda que os deslocamentos
sejam, na maioria das vezes, maiores.
Como pensar, então, em estratégias
narrativas que sejam dignas à leveza
das pegadas das crianças? Como
pensar modos de narrar que sejam
boas companhias ao que
insistentemente e desejosamente
foge?
Com essa ênfase, é preciso dar
atenção à percepção do
movimento que organiza e
dispõe os elementos
convocados a povoar um
espaço, plano ou território,
estética que para além do ato
de visualizar as mutações de
deslocamento, envolve um
redimensionamento da noção
de tempo e pressupõe o
atualizar. (Cunha, 2020, p.33).
A citação acima nos leva a
pensar a narrativa cartográfica a partir
de dois prismas. O primeiro, lançado ao
que se passou, diz respeito a uma certa
circunspecção da experiência
propriamente dita, um processo
atencional projetado aos contornos do
ocorrido, movimento de organização e
disposição dos elementos constituintes
da cena narrada (O que? Quando?
Onde?). O segundo, seguramente
pouco mnemônico, diz respeito ao que
ainda se movimenta a partir do
ocorrido, virtualidades que habitam o
corpo daquele que se põe a escrever,
abrindo-lhe frestas para que o até então
não pensado, não visto, não sentido,
não problematizado, possa se fazer
presente. Se, no primeiro prisma, a
memória assume o protagonismo, no
segundo, são as sensações que
reivindicam tal papel: lembrar e
especular nos parecem movimentos
necessários em se tratando de
pesquisas cartográficas.
Narrativas infantes como uma
metodologia do encanto
Que a importância de uma
coisa não se mede com fita
métrica nem com balanças
nem barômetros etc. Que a
importância de uma coisa
que ser medida pelo
encantamento que a coisa
produza em nós. (Barros, 2015,
p.152).
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SCHNEIDER, Mariana Cunha; FROHLICH, Nícolas Braga, COSTA, Luciano
Bedin da; ALMEIDA, Tiago Alexandre Fernandes. Cartografias infantis:
narrativas das infâncias enquanto uma metodologia do encanto.
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Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.118-135, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
Ao trabalharmos partindo da
ética cartográfica, vez ou outra
buscamos na caixa de ferramentas
aquilo que consideramos essencial
para a clínica, a pesquisa e uma práxis
em psicologia social: a poesia. Sim, ao
lado dos teóricos e teóricas que nos
ajudam a tecer ou romper sentidos do
mundo, encontram-se os poetas e as
poetisas, que parecem fazer com que
toda e qualquer teoria passe, antes,
pelo terreno sensível que a projeta em
devir. Pois, ao contrário de ocupar o
rígido espaço da prestação de contas a
uma determinada lógica de verdade
(Rancière, 2009), a poesia nos convida
a ficcionar (e também friccionar) a vida.
Por isso, ao pesquisarmos com
as infâncias, seria um erro abdicar da
poesia também como uma aposta
metodológica, pois isso significaria
jogar o jogo dos adultos que se ocupam
apenas em traduzir e reproduzir o
mundo, um mundo onde a invenção
não tem mais espaço para emergir. Isto
é, torna-se fundamental considerar a
poesia como um recurso metodológico
que amplia as possibilidades de leitura
e interpretação do mundo infantil.
Na escolha da poesia de
epígrafe desta seção encontramos o
encantamento que faz nascer o método
que guia nosso pesquisar. A partir da
poética presente nas palavras, nas
narrativas e nas imagens do mundo
que nos convidam a olhar as crianças,
vamos entendendo que o que temos
chamado de cartografias infantis se
torna, então, uma espécie de lente,
uma bússola ética que nos orienta
nessa escrita.
Pesquisar a partir das narrativas
infantis significa, então, fazer uma
pesquisa do encantamento. Isso
porque as infâncias, ao apresentar ao
mundo suas variadas formas de narrá-
lo, não se põem submetidas a palavra
a elas anteposta, tampouco se
amedrontam com aquelas que lhes são
interditadas. A pesquisa com as
narrativas infantis ultrapassa a simples
descrição da experiência e se inscreve
em uma epistemologia que valoriza a
criação e a potência expressiva da
infância. Pesquisando, não se aprisiona
à métrica ou à quantificação, tampouco
se referencia a partir da lógica de
reprodução do que vive ou vê. E, como
antecipa o poeta, pelo encantamento
acaba por escapar dos critérios de uma
métrica feita por balanças ou
barômetros, trazendo para a cena o
efeito que as experiências e histórias
130
SCHNEIDER, Mariana Cunha; FROHLICH, Nícolas Braga, COSTA, Luciano
Bedin da; ALMEIDA, Tiago Alexandre Fernandes. Cartografias infantis:
narrativas das infâncias enquanto uma metodologia do encanto.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
nos provocam. Pesquisar com tais
narrativas encantadas pressupõe um
envolvimento com toda sua potência
criadora e transformadora - pequenas
no corpo, vastas na sensibilidade.
Vamos, assim, expandindo também as
nossas narrativas adultas, caminhando
de mãos dadas junto ao fascínio de um
mundo que não se limita à ordem da
razão, mas antes cresce pelo afeto e
pela beleza das descobertas.
Costurar a dimensão das
narrativas infantis emergentes dos
processos cartográficos à noção de
encantamento se torna também um
dispositivo para refletirmos sobre a
necessidade de integrarmos os
princípios de conexão entre o visível e
o invisível, como bem nos propõem
Luiz Antonio Simas e Luiz Rufino
(2020). Essa abordagem permite uma
leitura da infância não somente como
um período de desenvolvimento, mas
como um estado de existência pleno,
carregado de saberes, memórias e
potências. Isso significa olhar para as
crianças não mais como sujeitos em
formação, rompendo com a ideia de
infância enquanto uma etapa restrita do
desenvolvimento humano. Elas são
antes pontes que conectam
temporalidades distintas, trazendo em
si seu aspecto inaugural, mas também
marcas ancestrais, memórias que
transitam entre futuro, passado e
presente - também por isso,
encantadas. E, assim, passamos a
olhar para as infâncias e suas
narrativas como um modo de romper
com as separações impostas entre os
seres humanos e não humanos, e, ao
integrar tais saberes, podemos ensaiar
um rompimento com algumas amarras
coloniais e, reconhecendo-as enquanto
seres plenos de uma vida não apenas
inscrita em um porvir, mas em tudo que
carregam em si, afirmamos sua
potência em colocar em questão
relações de poder e integrar alteridade.
Desse modo, retomamos narrativas
enquanto um conceito dialógico: a
pesquisa com as infâncias parte
daquilo que dizem as crianças e seus
modos de dizer, mas exige também um
ato de escuta sensível e atenta. Uma
ética do cuidado que nos lembra que o
encantamento vem de modo a nos
reconectar com a ideia de que os
saberes precisam estar radicalmente
unidos à vivacidade do mundo.
A isso, soma-se o pensamento
do professor Renato Noguera (2017),
que traz o encantamento como aquilo
que se manifesta de modo a evidenciar
131
SCHNEIDER, Mariana Cunha; FROHLICH, Nícolas Braga, COSTA, Luciano
Bedin da; ALMEIDA, Tiago Alexandre Fernandes. Cartografias infantis:
narrativas das infâncias enquanto uma metodologia do encanto.
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Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.118-135, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
as histórias das infâncias, seus saberes
e práticas outrora subalternizadas. O
encantamento, como a roda que
contrapõe a linearidade, surge como
uma ferramenta contracolonial que
ajuda a rever os processos educativos,
respeitando e integrando distintas
experiências e culturas e escapando do
lugar engessado da racionalidade: o
encantado chama à dança o sensível, a
memória e a espiritualidade. Falamos,
então, de uma transformação política.
Por isso, apostamos na pesquisa com
as infâncias. Aprendemos uma prática
sensível, suas palavras e gestos
revelam uma multiplicidade de
caminhos possíveis. Por isso
apostamos que narrativas infantis, são,
enfim, narrativas encantadas do
mundo.
É preciso, contudo, um alerta:
para operar metodologicamente com o
encanto, é preciso também um ato de
escuta para o infans que nos habita.
Aquele que, por vezes, mantemos
adormecido. Ao pesquisar junto a
outras crianças, esta tarefa é
reavivada, afinal elas operam com
maestria o encanto. Afinal, como seria
possível transformar um pavilhão com
tanques de guerra, soldados eretos e
supostamente sem vida em um parque
de diversões? Como fazer de um
cenário onde a vida perde sua potência,
como na guerra, e ainda assim tornar
as ruínas palco de um esconde-
esconde? de um pega-pega? É preciso
prudência para não cairmos em
qualquer tipo de romantização dos
cenários de violência que acompanham
as infâncias. Não obstante, há de se
ressaltar as estratégias que elas
utilizam para afrontar a morte que
segue à espreita. em seus
movimentos, em seus modos de narrar
a vida, algo que Noguera vai chamar de
“mais-valia de vida”. Para ele, o
conceito de infância “emerge como um
milagre brincante que restabelece a
mais-valia da vida”. (Noguera, 2019b,
p. 5). Em outras palavras, quer dizer a
capacidade inventiva do brincar como
produtor da alegria. (Ibid.). E a alegria,
bem como a infância, são inimigas
contumazes da morte.
Considerações finais
(...) nada nos intriga mais ao
pensar a interface infâncias e
cidades que a pergunta do
“quefazer” para transpor nosso
lugar marcado pela adultidade
e aquecer o corpo no processo
de infancializar a vida.
(Schneider; Costa; 2024, p.9).
132
SCHNEIDER, Mariana Cunha; FROHLICH, Nícolas Braga, COSTA, Luciano
Bedin da; ALMEIDA, Tiago Alexandre Fernandes. Cartografias infantis:
narrativas das infâncias enquanto uma metodologia do encanto.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
Krenak (2021) faz um exercício
de pensarmos em como as crianças
vivenciam a infância a partir de um
certo encurtamento da mesma. Isso
porque, ao serem lançadas cada vez
mais cedo em um mundo “como uma
chapa quente” (Krenak, 2021, p.98),
demandamos que respondam às
perguntas deste mundo em declínio, o
que pode incorrer em uma supressão
da infância como uma experimentação
da ordem do fantástico, do encantado.
Esse deslocamento da infância para
um estado de produtivismo e
racionalidade precoce impacta não
apenas as crianças, mas também a
própria sociedade, que perde sua
capacidade de sonhar e imaginar
outros mundos possíveis.
Se uma pergunta que nos
atravessa é: o que podemos aprender
com as crianças? Ao investigarmos
suas narrativas, percebemos que elas
nos apresentam mapas inesperados,
modos de ser e estar no mundo que
desafiam as lógicas adultocêntrica e
colonial. As cartografias infantis não
somente revelam uma outra maneira de
ver o mundo, mas também apontam
caminhos para transformações
profundas em nossas formas de pensar
a educação e a própria vida em
sociedade.
Lançamos as infâncias, assim,
na violenta ordem do mundo em
disputa. Convocar a infância a partir do
lugar das boas novas seria, sobretudo,
abrir a vida para a possibilidade criativa
e inventiva presente nas crianças e
possibilitar aprendermos com elas
outros mundos possíveis. O que o autor
nos apresenta é que, ao invés de nós,
adultos, apresentarmos mapas
possíveis para as crianças, são elas, ao
invés, que podem nos presentear com
uma cartografia do mundo que nos
oriente na adultez. Uma cartografia
capaz de “incluir abelhas, tatus,
baleias, golfinhos” (Ibid., p.101).
Por isso, convocamos a
provocação do neologismo do
“quefazer” enquanto uma orientação
que atravessa o seu sentido linguístico,
e pode se afirmar enquanto algo ético-
poético-político, levando-nos a pensar
em uma metodologia que possa
hospedar a tríade acima. No caso, a
cartografia infantil. Cartografar com as
infâncias e suas narrativas é acionar o
exercício de reescrever a vida a partir
da prática política da brincadeira, é
ativar o direito à experimentação, à
reinvenção dos sentidos e à
133
SCHNEIDER, Mariana Cunha; FROHLICH, Nícolas Braga, COSTA, Luciano
Bedin da; ALMEIDA, Tiago Alexandre Fernandes. Cartografias infantis:
narrativas das infâncias enquanto uma metodologia do encanto.
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Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.118-135, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
ressignificação dos espaços sociais.
Uma política que carrega em si a
felicidade, e que oportuniza
desestabilizar estruturas violentas de
poder - uma possibilidade brincante de
reorganizar a ordem social, de forma
mais livre e inclusiva e, por isso,
encantada. Mais do que um método,
trata-se de um gesto político que
reivindica a infância como protagonista
na produção de conhecimento e na
elaboração de outras possibilidades de
existir.
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134
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135
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narrativas das infâncias enquanto uma metodologia do encanto.
PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.118-135, set. 2025.
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wXzMVm3yyQZCP9Tn/?format=pdf&la
ng=pt. Acesso em: 21 fev. 2025.
136
RODRIGUES, Ana Cabral; GUIMARÃES, Jordana; SILVA, Anna Clara;
DONNINI, Monica; LEANDRO, Flavia.; SOUZA, Adriana de; SOUZA, Eliana
de; PEDROSA, Milena; NUNES, Beatriz. Direito à cidade em terra de
brincar: narrar começos, articular pedaços de chão. PragMATIZES -
Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n.
29, p.136-155, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
Direito à cidade em terra de brincar: narrar começos, articular pedaços de
chão
Ana Cabral Rodrigues
1
Jordana Neves de Almeida Guimarães
2
Anna Clara Fernandes Silva
3
Monica Helena Rado Donnini
4
Flavia Siqueira Lemos Leandro
5
Adriana Aparecida de Souza
6
Eliana Gonçalves de Souza
7
Milena Pedrosa
8
Beatriz Regina M. Nunes
9
DOI: https://doi.org/10.22409/pragmatizes.v15i29.69680
1
Doutora em Planejamento Urbano e Regional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Docente dos cursos de Graduação em Psicologia, campus Volta Redonda, e do Programa de Pós-
Graduação em Psicologia da Universidade Federal Fluminense (UFF). E-mail: acrodrigues@id.uff.br.
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-0317-5346.
2
Discente do Curso de Graduação em Psicologia, campus Volta Redonda, da Universidade Federal
Fluminense (UFF). E-mail: jordana08dez@gmail.com. ORCID: https://orcid.org/0009-0008-4340-3703.
3
Discente do Curso de Graduação em Psicologia, campus Volta Redonda, da Universidade Federal
Fluminense (UFF). E-mail: annaclarafernandessilva25@gmail.com. ORCID: https://orcid.org/0009-
0005-6326-004X.
4
Discente do Curso de Graduação em Psicologia, campus Volta Redonda, da Universidade Federal
Fluminense (UFF). E-mail: monicahrd@id.uff.br. ORCID: https://orcid.org/0009-0006-7004-5222.
5
Líder Comunitária da Ocupação Dom Waldyr Calheiros, estudante, equipe de pesquisa GPDU/UFF.
E-mail: 998843386f@gmail.com.
6
Líder Comunitária da Ocupação Dom Waldyr Calheiros, equipe de pesquisa GPDU/UFF.
7
Psicóloga. Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal
Fluminense (UFF). E-mail: souzaeliana@id.uff.br. ORCID: https://orcid.org/0009-0009-7384-7425.
8
Psicóloga; equipe de pesquisa GPDU/UFF. E-mail: milenapvf@id.uff.br. ORCID:
https://orcid.org/0009-0005-2059-9836.
9
Psicóloga. Agente cultural. Especialista em Gestão de Projetos Culturais pelo Centro de Estudos
Latino-Americanos de Comunicação e Cultura (CELACC/USP). E-mail: beatriz_nunes@id.uff.br.
ORCID: https://orcid.org/0009-0000-3202-067X.
Recebido em 01/04/2025, aceito para publicação em 12/11/2025.
137
RODRIGUES, Ana Cabral; GUIMARÃES, Jordana; SILVA, Anna Clara;
DONNINI, Monica; LEANDRO, Flavia.; SOUZA, Adriana de; SOUZA, Eliana
de; PEDROSA, Milena; NUNES, Beatriz. Direito à cidade em terra de
brincar: narrar começos, articular pedaços de chão. PragMATIZES -
Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n.
29, p.136-155, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
Resumo: O artigo parte de um encontro: aquele tecido no chão de universidade composto,
majoritariamente, por mulheres pesquisadoras do Grupo de Pesquisa em Desutilidades Urbanas (UFF-
VR), que carregam a problemática das políticas urbanas como políticas de subjetivação desde uma
visada interseccional, e o chão da ocupação Dom Waldyr Calheiros, sustentado pelos saberes e
coragens de mulheres-líderes-mães junto aos sonhos e à força brincante de crianças artistas e arteiras,
fazedoras de cultura. Um encontro que nasce junto à cotidianidade e urgência da luta por moradia e
dignidade de vida na cidade. A partir de uma política de escrita narrativa por vozes diversas que ora
se distinguem, ora se misturam, e orientada pela estética do fragmento na montagem benjaminiana
como método, propomos fazer comparecer a densidade da produção de um mínimo comum como
condição de possibilidade para uma psicologia que pensaCOM os territórios. O que se recolhe da
produção deste percurso de pesquisa e extensão é a presença de uma convocação ético-político-
epistemológica de partilha da margem e descentramento de lugares de produção do conhecimento.
Palavras-chave: processos de subjetivação; cidade; narrativa; infâncias; método da montagem.
Right to the city in play territory: narrating beginnings, articulating pieces of ground
Abstract: This article begins with an encounter: one that arises between a university campus comprised
mostly of women researchers from the Urban Disutilities Research Group (UFF-VR), who address the
problematic of urban policies as policies of subjectivation from an intersectional perspective, and the
ground of the Dom Waldyr Calheiros occupation, sustained by the knowledge and courage of women-
leaders-mothers alongside the dreams and playful energy of artistic and crafty children, creators of
culture. An encounter that arises from the daily reality and urgency of the struggle for housing and dignity
in the city. Based on a policy of narrative writing by diverse voices that sometimes distinguish
themselves, sometimes blend, and guided by the aesthetics of the fragment in Benjaminian montage as
a method, we propose to highlight the density of the production of a common minimum as a condition
of possibility for a psychology that thinks WITH territories. What can be gathered from the production of
this research and extension path is the presence of an ethical-political-epistemological call for sharing
the margin and decentering places of knowledge production.
Keywords: subjectivation processes; city; narrative; childhoods; montage.
Derecho a la ciudad en territorio de juego: narrando inícios, articulando terrenos
Resumen: Este artículo comienza con un encuentro entre un campus universitario compuesto
mayoritariamente por investigadoras del Grupo de Investigación en Desutilidades Urbanas (UFF-VR),
quienes abordan la problemática de las políticas urbanas como políticas de subjetivación desde una
perspectiva interseccional, y el contexto de la ocupación Dom Waldyr Calheiros, sustentada por el
conocimiento y la valentía de mujeres-líderes-madres, junto con los sueños y la energía lúdica de niños
artistas y creativos, creadores de cultura. Un encuentro que surge de la realidad cotidiana y la urgencia
de la lucha por la vivienda y la dignidad en la ciudad. A partir de una política de escritura narrativa con
voces diversas que a veces se distinguen, a veces se fusionan, y guiadas por la estética del fragmento
en el montaje benjaminiano como método, proponemos destacar la densidad de la producción de un
mínimo común como condición de posibilidad para una psicología que piensa CON territorios. Lo que
se desprende de la producción de este camino de investigación y extensión es la presencia de un
llamado ético-político-epistemológico a compartir los márgenes y descentrar los lugares de producción
de conocimiento.
Palabras clave: procesos de subjetivación; ciudad; narrativa; infancias; montaje.
138
RODRIGUES, Ana Cabral; GUIMARÃES, Jordana; SILVA, Anna Clara;
DONNINI, Monica; LEANDRO, Flavia.; SOUZA, Adriana de; SOUZA, Eliana
de; PEDROSA, Milena; NUNES, Beatriz. Direito à cidade em terra de
brincar: narrar começos, articular pedaços de chão. PragMATIZES -
Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n.
29, p.136-155, set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
Direito à cidade em terra de brincar: narrar começos, articular pedaços de
chão
10
Para que uma outra ciência
seja possível (...) não bastam
iniciativas interdisciplinares
que ocorrem isoladamente e
com o respeito mútuo das
fronteiras disciplinares. Trata-
se de aceitar o experimento do
encontro, em torno de uma
situação que lhes concerne,
com outros protagonistas,
cujos saberes diferem e não
respondem aos critérios das
ciências (...) O experimento
para os pesquisadores
consiste em aceitar não estar
no centro do encontro, aceitar
serem situados por esses
outros, aprender com eles
aquilo que negligenciam e
eliminam, sem usar como
proteção categorias como
objetividade ou racionalidade
Isabelle Stengers, Uma outra
ciência é possível
A curiosidade que nos movia
levou-nos aos contornos de uma
palavra: ocupação. Por ela tateamos,
balbuciamos sonoridades e
experimentamos consistências de
usos, sentidos e domínios do que nos
era corpo e pluralidade. Iniciávamos o
10
Os “pedaços de chão” que aqui se articulam consiste em uma imagem que pegamos emprestado do
trabalho publicado de dissertação de Bel Mayer (2022), a quem admiramos e que nos mostrou, por
suas partilhas, saberes e afetos, muitos começos.
11
Do projeto de extensão: “Oficinas de Montagens: construções metodológicas e experimentações
estéticas em direito à cidade” (2018 - atual), inscrito como parte do Programa de Extensão
“Observatório dos Direitos Humanos do Sul Fluminense” - PROEX/UFF.
que se denominou, em trechos de
títulos posteriores de projetos
submetidos às instâncias universitárias
e órgão de fomento, como:
“construções metodológicas e
experimentações estéticas”
11
. Era um
movimento de cultivo de uma atitude
atencional como abertura acolhedora a
encontros com o que nos força a pensar
e desencadeia em nós processos de
criação (Kastrup, 2010) a partir dos
enroscos entre o banal e o
extraordinário da arte e da vida, da
ciência e das artesanias. Nisso
encontramos as bordas de um campus
e, com ele, a pergunta do que
significava ocupar um lugar na
universidade pública, e quem (não) o
tem ocupado. Das grades que cercam
um gramado muitas vezes esvaziado e
uma calçada de caminhos apressados,
resolvemos puxar fios. A lã vermelha ia
convocando olhares e criando
139
RODRIGUES, Ana Cabral; GUIMARÃES, Jordana; SILVA, Anna Clara;
DONNINI, Monica; LEANDRO, Flavia.; SOUZA, Adriana de; SOUZA, Eliana
de; PEDROSA, Milena; NUNES, Beatriz. Direito à cidade em terra de
brincar: narrar começos, articular pedaços de chão. PragMATIZES -
Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n.
29, p.136-155, set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
movimentos reticulados por entre um
dentro e um fora, encontrando
porosidades, criando texturas,
presenças, bordados. Fios apenas,
talvez; mas também gestos, caminhos,
desenhos, sem palavras ainda, dos
limites e amplitudes de uma educação,
de uma formação que se queria
“embolada com a vida, com os
cotidianos, suas invenções e
intermináveis formas de fazer” (Rufino,
2023, p.7). Assim, os riscos vermelhos
na paisagem iam escapando do
aramado e, esticados, buscavam o
chão da calçada, produzindo alguns
engasgos a pressas individuais. Ou que
se amarravam às árvores, circulavam
arbustos, inventaram formas sobre os
bancos de concreto, convidando a um
tempo e lugar de criançamento (Barros,
2010) dos corpos e de compromisso
aguerrido com os encontros e afetos
capazes de acolher conflitualidades e
abrir caminho para outras margens.
Os primeiros encontros
aconteceram quando ainda se
capinava o mato alto por entre
estruturas arruinadas, sujas; bichos
mortos. As ruínas de um projeto
12
Trecho reproduzido parcialmente do posfácio
do livro “Onde o Sonho Pode Morar: receitas de
abandonado na cidade, que prometia
progresso e oportunidades de
investimento, eram o chão onde cabiam
as tábuas que seriam as camas das
primeiras noites ali onde muitas
dormiriam juntas por muitas noites,
naquele começo de tanta coisa. Se
alguns temiam que talvez aquele ainda
não fosse o momento, que ainda seria
preciso melhor se organizarem, elas,
no entanto, sabiam que era aquela a
hora precisa de ocupar. As famílias
carregavam consigo suas histórias,
seus saberes, ferramentas, crianças no
colo, na barriga; esperanças. As
mulheres davam o caminho, tomavam
a palavra, articulavam a luta, o café e o
dia a dia da cria. As crias se
achegavam, mostravam que o chão era
terra de brincar, que os restos de tijolo
contavam histórias, que até lençol
podia criar lar e acolhida, que quando a
força da ordem pública chega, deixa a
casa bagunçada, mas que a voz e o
corpo servem para cantar cantiga de
roda e para fazer com que sejam
ouvidas. E que elas sabiam muito bem
o que faziam ali, naquela ocupação,
naquele pedaço de chão
12
.
cidades e infâncias em ocupação” (Cabral, et
al. 2024).
140
RODRIGUES, Ana Cabral; GUIMARÃES, Jordana; SILVA, Anna Clara;
DONNINI, Monica; LEANDRO, Flavia.; SOUZA, Adriana de; SOUZA, Eliana
de; PEDROSA, Milena; NUNES, Beatriz. Direito à cidade em terra de
brincar: narrar começos, articular pedaços de chão. PragMATIZES -
Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n.
29, p.136-155, set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
***
Realizar um sonho. Era isso que
chegar e ficar aqui significou. Adriana
13
é uma dessas mulheres que sonhou e,
após 18 anos sem casa, encontrou um
lar neste lugar onde colocamos nossa
primeira bandeira: “Minha casa, nossa
luta”. Porque foi assim que a ocupação
se fez, com nomes de mulheres: Flávia,
Franciele, Liliana… Se fez quando não
aceitamos ficar andando pela rua com
as crianças, em albergues, em casas
que não mais podíamos morar.
Algumas de nós tinham somente 20
anos e tudo pela frente. Mas nos
reunimos, nos articulamos, tomamos
coragem e resolvemos entrar. Muitas
coisas ainda não sabíamos… Nós não
sabíamos que o terreno era tão grande.
Como também não sabíamos o
tamanho do que estava por acontecer
quando, diante da possibilidade de
termos uma casa para a gente, algo nos
foi perguntado: vocês querem apenas
ocupar ou querem algo maior?
***
13
Todos os nomes presentes neste artigo não
são fictícios. Trazer os nomes dessas mulheres
e meninas, desde seus lugares no mundo e
saberes, aqui, é uma das estratégias possíveis
de evidenciar suas autorias.
14
Bairro onde se localiza a ocupação Dom
Waldyr Calheiros, em Volta Redonda.
Marielle Franco é o nome da rua.
Mas a mulher aguardada por aquelas
que davam colo aos miúdos não
chegou a caminhar pela ladeira que
sobe da Beira-Rio até o chão de terra
batida do Belmonte
14
; antes, veio o
vazio. A roda no salão nunca
testemunhou sua presença ou escutou
sua voz; antes, veio o silêncio. A corda
de pular, a bolha de sabão, a pipa no
céu não se enroscaram com sua
gargalhada solta no ar; o desencanto
veio antes.
Mas se essa rua fosse minha…
se essa rua fosse nossa… ela teria o
nome dessa mulher para que ela,
enfim, pudesse chegar. E, de fato, a rua
ganhou CEP
15
, fez festa, semente e
história de outras meninas miúdas e
mulheres gigantes que continuam
caminhando pela ladeira que sobe da
Beira-Rio até o chão de terra batida;
porque antes, veio o começo.
***
15
No dia 11 de junho de 2021, a Câmara
Municipal de Volta Redonda, pela lei 5805,
passa a denominar a rua projetada com acesso
pela Avenida Bahia na ocupação Dom Waldyr
Calheiros de rua “Marielle Franco”.
141
RODRIGUES, Ana Cabral; GUIMARÃES, Jordana; SILVA, Anna Clara;
DONNINI, Monica; LEANDRO, Flavia.; SOUZA, Adriana de; SOUZA, Eliana
de; PEDROSA, Milena; NUNES, Beatriz. Direito à cidade em terra de
brincar: narrar começos, articular pedaços de chão. PragMATIZES -
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
Myllena é o nome da primeira de
todas. Ela chegou à ocupação e ao
mundo ao mesmo tempo. Ela foi a
primeira que nasceu aqui. Por isso é
uma verdadeira “sem-teto”, o que é
motivo de orgulho. Isso nos foi
ensinado pelas mais velhas. Com ela, a
ocupação ganha o tamanho do mundo.
E ela é desse tamanho, veio com
essa força. É filha dessa luta. E vai
seguir crescendo com isso.
***
Maria Vitória é o nome da
autora. Foi ela quem trouxe para a
escola o livro que vocês fizeram com as
crianças da ocupação Dom Waldyr
Calheiros
16
. Nós, daqui da E.M. João
Paulo I, soubemos do livro assim: a
atividade proposta era recriarmos
contos clássicos, e as crianças eram
convidadas a inventarem para eles
novos acontecimentos, personagens e
até mesmo outros fins para essas
histórias que sempre se contam para
16
Trazemos aqui parte do diálogo que nossa
equipe teve com a escola de algumas das
crianças autoras do livro “Onde o sonho pode
morar: receitas de cidades e infâncias em
ocupação” (Cabral, et al. 2024).
17
O livro Onde o Sonho Pode Morar teve seu
pré-lançamento na Feira Internacional de
elas. Isso produziu em sala um certo
alvoroço; as crianças perceberam que
poderiam ser as autoras desses
escritos. Foi bem interessante, e foi
esse o combinado. Mas na aula
seguinte, um inesperado. Aquela
menina, que era autora de um livro
todo ilustrado, sobre direito à cidade,
com histórias e receitas das infâncias
em ocupação, lançado na Feira
Literária Internacional de Paraty e na
Biblioteca Pública da cidade
17
, chegou
carregando-o cuidadosamente, junto a
um orgulho cheio de felicidade e de
outros fins de sua história que mal
cabiam em suas pequenas mãos.
***
coisas que não têm nome.
Algumas delas são possíveis de se
encontrar nos bolsos ou no dobrado da
blusa que vira bolsinha sobre a
barriga… Umas quinquilharias desúteis
mesmo (Barros, 2010; Cabral, 2013),
pequenos tesouros, por vezes
Paraty e, em novembro, na Biblioteca Municipal
Raul de Leoni, em Volta Redonda, com a
presença das crianças e adolescentes autores,
familiares, amigos, autoridades e o GPDU-UFF.
Nesta ocasião, além de uma roda de conversa
sobre o processo de criação do livro, leitura
pública de trechos do livro, todas as pessoas
autoras tiveram um momento de autógrafo.
142
RODRIGUES, Ana Cabral; GUIMARÃES, Jordana; SILVA, Anna Clara;
DONNINI, Monica; LEANDRO, Flavia.; SOUZA, Adriana de; SOUZA, Eliana
de; PEDROSA, Milena; NUNES, Beatriz. Direito à cidade em terra de
brincar: narrar começos, articular pedaços de chão. PragMATIZES -
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chamados de trequinhos ou lixinhos
quaisquer encontrados por aí. Mas é
preciso reconhecer que, apesar de não
terem serventia alguma, funcionam
muito bem para tempo à toa, desenho
no chão, presentes inesperados,
traçados de mapas inventados,
banquetes de panelinha…
Há, igualmente, coisas que
carregam nomes bonitos. Essas,
muitas vezes, estão também sendo
carregadas em sacolas, bolsas, panos
amarrados, cuias, cumbucas, patuás
que se levam para e para lá no sobe
e desce do ônibus, no vai e vem da
ladeira, no passo a passo da casa à
rua, de uma casa a outra, nas idas e
vindas dos dias. Bolinho-de-chuva é
uma dessas que tem nome bonito.
Poucas palavras aguam tanto a língua
antes mesmo de chegar à boca… além
de conseguir deixar rastros adocicados
na ponta dos dedos e nas lembranças
das gentilezas das avós, tias e vizinhas
em dias nublados. Neném é outra. É
uma palavra que se fala na pontinha da
língua com dois saltitos, deixando um
sonzinho gostoso no fim para vir se
apoiar sobre o osso da bacia, onde uma
18
Referência à lenda dos povos tupi que
contam a origem dessa raiz "Manioca”.
parte se ajeita para um lado e outra
para o outro, agarradinhas. Seu rastro
tem uma capacidade realmente
bagunçante, de fazer as coisas virarem
de ponta-cabeça. E que mesmo
quando por ela o tempo passa, segue
cambalhotando roteiros e rotinas e se
acocorando para ganhar intimidade
com o chão, desde onde inventa de
fazer perguntas sobre outras palavras,
como “estrela”, “imaginação”, “sonho” e
“pesquisa”. mandioca é palavra que
precisa ser descascada. E que, quando
carregada aos montes, em abundância
e generosidade da terra e das mãos
que as cultivaram na última safra ou há
mais de quatro mil anos, acorda a “casa
de Mani” e as lágrimas que a
aguaram
18
, acorda todas as casas
vazias e as forças que as ocuparam.
Acorda as raízes e o desejo de coletar
as histórias nunca antes contadas de
gestos e cuidados ancestrais (Le Guin,
2021). Ou que precisam ser mais uma
vez proseadas em rodas no fim do dia
na calçada. De fofocas e facas
empunhadas para preparar a noite e o
caldo; “roçar o terreno da memória”
(Rufino, 2023, p.42) para ganhar
143
RODRIGUES, Ana Cabral; GUIMARÃES, Jordana; SILVA, Anna Clara;
DONNINI, Monica; LEANDRO, Flavia.; SOUZA, Adriana de; SOUZA, Eliana
de; PEDROSA, Milena; NUNES, Beatriz. Direito à cidade em terra de
brincar: narrar começos, articular pedaços de chão. PragMATIZES -
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
intimidade com o tempo (Martins, 2002)
que estala em saudades e esperanças
nas fogueiras de festejos juninos,
capazes de fazer arder a cidade.
***
Do centro, as gigantescas
chaminés vomitam o que vai se
tornando toda a espessura do ar que se
respira, todas as capilaridades dos
pulmões, as vísceras. Mas também
provocam a tosse. As chaminés
essas prodigiosas construções do
humano sobre o mundo, recursos e
seres não-humanos à espera de serem
conquistados e explorados (Tsing,
2023) criam a pregnância do que se
tornou a paisagem que se impõe ao
espírito e aos olhos. Para onde sempre
se olha. Paisagem em uma
imutabilidade asfixiante, pelo silêncio
de uma maquinaria esquecida
(Certeau, 1994), esquecível, para ser
esquecida, onde correm acúmulos,
obsolescências, investimentos, curtos
prazos, escalabilidades,
produtividades, todas elas caras e
19
“urihi wapopë”, termo traduzido por Albert e
Kopenawa (2015) como “comedores de terra,
comedores de floresta”.
benfazejas aos "comedores de terra"
19
,
e impagáveis aos que da terra são
expulsos, sempre ditos como não
pertencentes e não produtivos. Eis o
ensurdecedor silêncio da catástrofe
(Benjamin, 1987), que diz, a cada
baforada de fogo no céu, que nada
mudou, nem de mudar; que as
coisas continuem assim, é o que se
pode esperar. É o que nesta
paisagem monocultora (Tsing, 2023;
Bispo, 2023) onde “a alteridade, a
diferença, é sempre um problema a ser
resolvido” (Segato, 2022, p. 87).
Acontece que, desde a margem,
o problema a ser resolvido é de outra
ordem: é ele a própria
insustentabilidade da lógica
centro/margem; categoria de análise
amplamente lançada no ar pelos
gabinetes e laboratórios, aquela que só
serve às centralidades (Caron e Cabral,
2024). E que abastece o cinismo do
projeto civilizatório instrumentalizado e
alicerçado no urbanismo e na
urbanização, como “forma específica
de relação tecnologia-sociedade-
natureza que é base material, meio e
144
RODRIGUES, Ana Cabral; GUIMARÃES, Jordana; SILVA, Anna Clara;
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brincar: narrar começos, articular pedaços de chão. PragMATIZES -
Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n.
29, p.136-155, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
mediação das relações sociais
capitalistas, cis-heteropatriarcais,
coloniais, [capacitistas] e raciais”
(Helene et al., 2022, p. 68). Um cinismo
capaz de arrefecer até mesmo dados e
estudos (Rolnik, 2015) que evidenciam
que a cidade, apesar de ser um modo
de vida amplamente disseminado no
globo, ela, como direito e experiência
de dignidade humana, não está nem
perto de estar garantida; tal é a fantasia
que “nina a casa grande” (Evaristo,
2017), a de que é somente para alguns
poucos que a urbanização e a cidade
não estão disponíveis. Bastando, pois,
apenas, ou que esses poucos
anômalos se “endireitem”, ou que as
engrenagens da maquinaria do
desenvolvimento se façam um pouco
mais azeitadas e aceleradas para
eliminar, enfim, tal rangido e resolver
sua (ainda) incompleta consecução.
Efetivamente, o problema em jogo seria
da ordem da vergonha se ainda o que
sustentasse o laço fosse a
possibilidade dela mas é mesmo o
cinismo, o absurdo, a verdadeira
20
As ocupações urbanas são comumente
denominadas pelo Estado, pela mídia e pelo
mercado como invasão, e, até o ano de 2024,
eram nomeadas pelo IBGE como "aglomerado
subnormal" para referir-se à diversidade dos
assentamentos irregulares existentes no país.
barbárie, o limite do insustentável, pois
toca direta e amplamente a própria
habitabilidade da Terra, da
possibilidade de continuarmos a dividir
o planeta. E neste limite é a margem
não como topos, localidade, mas como
ethos, como posicionalidade que se
a ver na paisagem viva, movente,
friccional do encontro, do
amontoamento e agenciamento de tudo
que é feito resto e é contragolpe (Simas
e Rufino, 2018), de tudo aquilo que foi
e é sistematicamente suprimido e
apagado. Mas, como presença -
aquilombada, articulada, aldeada,
infancializada (Noguera e Alves, 2020),
assentada, nomadizada, etc - oferece
as chances do que ainda, a partir dali,
e nas ruínas do Antropoceno (Tsing,
2023), é possível. A visada aqui é o
avesso, e é avessa à centralidade, à
urbanidade que significa, classifica,
escrutina e expele tudo aquilo que ela
mesma decretou como outro,
subnormal
20
, marginal… É, pois, a
ocupação que de falar da cidade,
que de falar à cidade e indagá-la.
Sobre a eliminação tão recente desta
denominação, ver:
https://www.observatoriodasmetropoles.net.br/i
bge-muda-denominacao-dos-aglomerados-
subnormais-para-favelas-e-comunidades-
urbanas/. Acesso em: 24 mar.2025.
145
RODRIGUES, Ana Cabral; GUIMARÃES, Jordana; SILVA, Anna Clara;
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Não porque as margens guardem as
respostas. Mas, porque nos escombros
têm gestado o improvável e sustentado
a desconfiança de que nada acontece
ou de que estamos simplesmente
diante do fim
21
.
Desde as margens, sabe-se
bem que nas centralidades que
vomitam leis, salvações, soluções,
objetificam-se vidas, produzem-se
anomalias e se organizam expurgos
(Segato, 2022). A ordem é: manter a
margem à margem, a bagunça longe
das sensibilidades mais finas e impedir
invasões, infiltrações, pelas sempre
reeditadas estratégias de desacreditar
falas, clamores, pautas, demandas.
Esvaziar os sentidos de mutirões e
conselhos sem que esses precisem ser
extintos; instaurar ausências e
esquecimentos. Deixar as palavras se
perderem ao vento ou surrupiá-las,
21
“Fim” como o que é prenunciado pelos
discursos conservadores no que toca questões
como a crise climática global que, se não é
recusada pelo negacionismo, é apresentada
com fatalismo, posição amplamente eficaz em
criar invisibilidades às forças de resistência
multiespécies (caras ao pensamento de Anna
Tsing) e esvaziar práticas revolucionárias, de
esperança e que evidenciam a urgência de
interrupção de certas lógicas e funcionamentos
vigentes. Assim também “fim” como aquele
presente na tese de Francis Fukuyama na qual
o liberalismo, ideia-força dominante e
vencedora no cenário pós Segunda-Guerra, é
degluti-las, usá-las, fazê-las nada
dizerem, torná-las “cartas extraviadas,
perdidas” (Brum, 2016). E, por fim,
administrar minúsculas gotas de
esperança na próxima obra, na próxima
visita, na próxima audiência, na
próxima lei, no próximo mandato, na
próxima oportunidade… Para acalmar
os ânimos e arrefecer a força, a tosse,
até que, pelas incontáveis frustrações,
o último fôlego se encerre em exaustão.
***
Nós vamos juntar jornais,
revistas, papel e também algumas
dessas quinquilharias que encontramos
e carregamos nos bolsos. Recortamos
algumas peças. o curvas,
quadrados, papéis amassadinhos,
fiapos, retângulos, triângulos, círculos.
Não se preocupem, eles encontrarão
visto como o destino cumprido da evolução
natural da humanidade, e que, em tendo sido
cumprido frente à então derrota do fascismo, os
possíveis caminhos da história estariam
todos contados e à disposição. Além desta tese
não poder ser pensada como uma realidade
global, os valores do liberalismo aclamado por
Fukuyama, como liberdade e igualdade, estão
longe de terem se realizado frente ao cenário
de amplo massacre dos direitos sociais por
parte do capital financeiro, o que exige
repensar e fortalecer combates para se criar
caminhos de dignidade humana ainda por se
fazer.
146
RODRIGUES, Ana Cabral; GUIMARÃES, Jordana; SILVA, Anna Clara;
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
um espaço. Podemos experimentar
juntar alguns deles…
Vamos montando e
desmontando.
Às vezes, aproximando assim,
aparece uma casa. Algumas coloridas
têm portinhas que abrem e telhados da
cor do céu. Será que pra ver quando
chove?
Vamos desmontando e
montando.
Veja só: um prédio
pequenininho, cheio de janelas miúdas.
Quem será que vive aí? Joaninhas?!
ficando interessante... Com um fio de
barbante, vai aparecendo um caminho,
uma rota, uma rua… Quem é que vai
chegando por ela?
Vamos montando e
desmontando.
E trocando também. Pode dar
para o outro uma partezinha que você
inventou: um presente. Agora, tem
algumas coisas que não podem faltar:
pula-pula pra flutuar, balão pra voar,
piscina pra mergulhar. Poderia ter
ainda uma jangadinha, assim a gente
poderia seguir pelo rio até colocar os
pés na praia ou numa ilha no meio do
oceano. O que você levaria pra lá? Ou
o que você traria de lá pra cá?
Tragam também as plantas que
recolhemos, assim teremos jardins,
florestas e gramas boas pra rolar, fazer
estrelinha e tirar soneca. A canetinha
faz outros detalhes: a rede, o muro, a
lua (que surge brilhante e redonda,
devagarzinho, por detrás dele). Muros
servem muito bem pra isso: fazer a
surpresa da lua. Tem até umas nuvens
no céu colorido e iluminado: rosa, azul,
lilás. Algodão-doce, com certeza! Bem
lembrado, comidas gostosas. Este
círculo é um prato, e aquele também:
arroz, peixe, tomate, macarrão... Se
dividir, dá sempre pra todo o mundo.
E o que é isso? Uma passagem
secreta?! Então se eu chego aqui, logo
posso encontrar alguém ali? Uau! Um
cinema pertinho, um parquinho ao lado,
a escola toda bonita… E então a cidade
fica parecendo até uma rede... Acolhe
bem a gente...
Vamos desmontando e
montando.
***
Aquelas que um dia foram
chamadas de bruxas se sentavam em
roda.
Elas, ainda hoje, continuam em
roda.
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DONNINI, Monica; LEANDRO, Flavia.; SOUZA, Adriana de; SOUZA, Eliana
de; PEDROSA, Milena; NUNES, Beatriz. Direito à cidade em terra de
brincar: narrar começos, articular pedaços de chão. PragMATIZES -
Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n.
29, p.136-155, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
E continuam sendo chamadas
de bruxas, baderneiras, barraqueiras,
arruaceiras, loucas, desequilibradas,
vagabundas, insuficientes, histéricas,
incontroláveis, invasoras…
E, mesmo assim,
continuam.
Porque insistem na roda.
E nela
circulam os fios, a vida e as
crias,
pelas rodas.
Em favor delas.
Por elas.
Pois isso,
é preciso contar.
A mulher inventou a roda.
Tecnologia primeva do que os
homens chamaram de Humano.
E girou de ponta-cabeça o conto
da Origem,
pra ver nascerem narrativas dos
começos
inumeráveis,
embaraçados de histórias.
Outras.
Sempre as Outras
da História.
Ávidas por se recontarem
22
Este fragmento é a íntegra do poema “Roda”,
de autoria de Ana Cabral (não publicado),
criado em homenagem às mulheres da
Em volta do fogo
dominado
e alimentado pelas palavras
cruas e cozidas,
que alimentaram a todas,
que amamentaram a todos,
que pariram o mundo
de cócoras:
posição e substantivo feminino
plural
22
.
***
A teoria pode ser um lugar de
cura e prática de liberdade. É o que
afirma bell hooks (2017) ao tomar as
recordações de uma infância difícil e
recolher dela tanto a força que foi poder
nomear, muitos anos depois, a
violência do racismo e do patriarcado
que atravessava a história de seus pais
e chegava a ela em forma de agressão
e humilhação, quanto a incisividade
(rechaçada) de suas perguntas infantis
desconfiadas da naturalidade com que
os adultos tomavam a ordem
(necessária) das coisas. Esse escrito
de bell reconhece na infância um modo
Ocupação Dom Waldyr e às redes de mulheres
que apoiam e participam deste projeto de
pesquisa e extensão.
148
RODRIGUES, Ana Cabral; GUIMARÃES, Jordana; SILVA, Anna Clara;
DONNINI, Monica; LEANDRO, Flavia.; SOUZA, Adriana de; SOUZA, Eliana
de; PEDROSA, Milena; NUNES, Beatriz. Direito à cidade em terra de
brincar: narrar começos, articular pedaços de chão. PragMATIZES -
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de habitar a linguagem, uma maestria
em sua capacidade de teorizar e
indagar o mundo. Mas a autora
enfatiza: a teoria pode ser isso;
sobretudo quando se pede isso dela,
assumindo, com ela, outras relações,
especialmente aquelas que não opõem
teoria e prática. Sobretudo quando não
se usa a teoria de maneira instrumental
para perpetuar a hierarquização de um
pensamento sobre outro e determinar a
indignidade ou desinteresse absoluto
de determinados modos de
dizer/escrever/investigar. A partir daí, é
possível se contrapor à função
(igualmente não intrínseca) da teoria de
produzir e manter distâncias. Aí se
abrem as veredas por onde bell hooks
pode sustentar a teoria como prática de
criação de alianças e de
desindividualização de histórias que
careciam de nome e conceito para
reinaugurar a alma das palavras no
corpo.
Veredas também de idas e
vi(n)das
23
de outra “Bel” que
encruzilhou nossos percursos e melhor
instrumentalizou um pensamento que
nasce, então, COM o território (Moraes
23
Em referência ao título do livro de Bel Mayer
(2023).
e Quadros, 2020; Cabral e Caron,
2024) e se torna ideia compartilhada: a
criação de um livro junto às crianças,
pensado junto às infâncias que
coabitam o território “ocupação
urbana”. Aquele que abrigava um salão
coletivo em obras no qual ainda não era
possível imaginar uma estante cheia de
livros, almofadas e tapetes para as
histórias ali se aconchegarem e
produzirem mobilidade e
deslocamentos… E se ainda não era
possível povoá-lo com os livros dos
autores que vínhamos trazendo em
nossas oficinagens (Cabral e Lobo,
2024), talvez fosse possível fazermos
outros deslocamentos através dos
caminhos de inventar imagens,
personagens, textos… E a nós todos
como co-autores.
Bel Mayer (2022), que traz a
radicalidade de um compromisso com o
protagonismo das infâncias e
juventudes periféricas a partir da
abertura de mundo “pelo encontro com
a palavra” (Mayer, 2024, p.8), insuflou
ânimo nas histórias que sustentávamos
em malabarismos e invenções em um
momento no qual subir a ladeira da
149
RODRIGUES, Ana Cabral; GUIMARÃES, Jordana; SILVA, Anna Clara;
DONNINI, Monica; LEANDRO, Flavia.; SOUZA, Adriana de; SOUZA, Eliana
de; PEDROSA, Milena; NUNES, Beatriz. Direito à cidade em terra de
brincar: narrar começos, articular pedaços de chão. PragMATIZES -
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Beira-rio até o chão de terra batida
salpicado de criança era inviável. Era
um momento no qual falar de direito à
cidade mediante a realidade de um
isolamento sanitário impossível para as
infâncias em ocupação exigia
estreitar laços de confiança. E, mais do
que nunca, reconhecer nos gestos, nas
histórias contadas, nas brincadeiras
compartilhadas, via mensagens por
“caixas de histórias” virtuais
24
, modos
como essas infâncias dizem-cidade,
dizem-direito à cidade e indagam o
mundo através de sua desconfiança e
curiocidade
25
. Assim como exigia
revisitar o lugar de “simples pontes com
as crianças” que as mulheres-mães
tinham e trazê-las para o centro do
trabalho, em movimentos de produção
24
Durante a pandemia, criamos um dispositivo
chamado caixa de histórias” que enviávamos
às crianças da ocupação através de
mensagens de whatsapp para os contatos de
seus responsáveis. Nelas contávamos histórias
que se desdobravam em brincadeiras, alguns
jogos e desafios a serem compartilhados por
fotos, escritos e áudios. Nossa proposta era
manter vínculos, criar presenças e
endereçamentos possíveis.
25
Esta é uma palavra-conceito inventada por
Mariana Cunha Schneider durante o Curso
“Construções metodológicas e
experimentações estéticas nas políticas de
escrita acadêmica” (Propur/UFRGS). Refere-se
à “supercapacidade das infâncias em se
fazerem curiosas das paisagens e miudezas
de cuidado, escuta, acolhimento
26
e
apostas conjuntas.
O tempo do reencontro é
também o tempo de recolher o que
restou das histórias de sereias,
tempestades e mapas; das
tempestades da vida, maternidades e
lutas; dos mapas de pesquisa, teorias e
alianças. O que restou de nós. De quem
éramos nós. O que restou dos lugares
que nos demos, que nos foi dado, que
pudemos sustentar em análises de
implicação (Rocha e Aguiar, 2003) de
uma pesquisa-extensão que a todo
tempo exige recomeçar e pensar que
criar presenças é sempre intervir. E,
então, fazer disso, mais uma vez e a
cada vez, matéria-prima de um
trabalho, do chão de nossos encontros.
Assim como eram os fragmentos
das cidades. Curiocidade é palavra relativa a
quem se põe a imaginar, fabular, inventar e
transformar as ruas, as casas, a vizinhança, os
lugares aos quais pertencemos e onde
moramos, queremos morar e de que vamos nos
lembrar pra toda vida. E assim vai se criando
um porvir mais bonito, gentil e acolhedor a
todas as gentes” (Cabral, et al. 2024, p.66).
26
Durante a pandemia uma das ações foi a
proposição de breves encontros virtuais de
conversa sobre o que era ser mãe na pandemia
a partir de suas realidades, e da oferta de apoio
e escuta via telefone por profissionais da
psicologia membros do Grupo de Pesquisa em
Desutilidades Urbanas (GPDU) pelo Programa
de Pós-Graduação em Psicologia da
Universidade Federal Fluminense.
150
RODRIGUES, Ana Cabral; GUIMARÃES, Jordana; SILVA, Anna Clara;
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de; PEDROSA, Milena; NUNES, Beatriz. Direito à cidade em terra de
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aquilo que não remonta totalidades ou
mesmidades que foram sendo
construídos e recolhidos em nossos
diários de campo e a cada vez que
abríamos uma nova caixa: agora de
papelão, em forma de um livro gigante,
recheada de pequenos tesouros (como
às vezes são os textos que nos encanta
escrever). Esses mesmos fragmentos
que foram se tornando os ingredientes
de cada uma das receitas de “como se
constrói uma rua”, uma casa, uma
vizinhança, uma ocupação, uma
cidade, um livro
27
. E criaram o chão
feito desses cacos, pedrinhas, bolhas
de sabão, passagens secretas onde
uma menina e uma capivara,
experimentadas por rabiscos e jogos de
teatro, puderam pisar através das
páginas que fabulamos juntos; através
de nossas histórias e corpos que
infancializamos juntos (Noguera e
Alves, 2020).
O tempo da escrita não é o
tempo do relato ou do simples registro
do acontecido. O tempo da escrita é o
tempo da (des)montagem, como
(des)invenção de um campo, do
pensamento, do corpo, da própria
27
Nome de cada capítulo do livro Onde o
sonho pode morar.
pesquisa. A escrita é também um
tempo do desacelerar, de fazer falar as
fricções, as hesitações, os engasgos;
isso que nos lembra que não estamos
sozinhos, e nos torna novamente
“capazes de aprender, de encontrar e
de reconhecer o que nos une e nos
mantém unidos, de pensar, imaginar e,
no mesmo processo, criar, junto a
outros, vínculos que não sejam de
captura” (Stengers, 223, p. 116).
Porque a escrita não é isso, mas pode
ser. Sobretudo quando se pede isso
dela, assumindo, com ela, outras
relações, especialmente aquelas que
não opõem teoria e prática, infância e
maestria. se abrem as veredas por
onde sustentamos práticas de criação
de alianças e de desindividualização de
histórias que apontam para nós a
importância do nome e conceito
capazes de reinaugurar a alma das
palavras no corpo.
***
Da escuta de uma dor sentida
junto à pele em um corpo ainda miúdo,
mas que ecoa tantas “vozes mudas
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caladas, engasgadas nas gargantas”
(Evaristo, 2021, p. 24), surge uma
rainha na roda que é teatro e
brincadeira de se inventar junto. Com
seu leque, venta e guia os pequenos
olhares curiosos, que vão pouco a
pouco se tornando cúmplices da
história que ali se conta, em
movimentos delicados de começarem a
se sentir e se perceber como seus
outros personagens.
A grande rainha de pele ébano
vive num lugar nem tão longe, nem tão
perto, onde crianças gostam de sair
para brincar, fazer desenho no chão e
em seus corpos, cambalhota e
28
, e
subir nas árvores para colher as frutas
mais docinhas. Tal como Nzinga
29
, ela
governa com generosidade e
sabedoria, e combate reinos invasores
que gostam muito de ouro e pouco de
árvores e frutas docinhas, movidos por
seus desejos de serem os donos de
tudo que encontram: cultivos, ciências,
artes, e tecnologias. Contando dos
muitos combates e resistências, a
28
Movimento de esquiva de golpes rasteiros; é
amplamente brincado pelas crianças na
capoeira.
29
Mwene Nzinga Mbandi (1582-1663) rainha do
Reino do Dongo (atual Angola), conhecida por
sua grande capacidade estratégica e política na
rainha que temia pela perda da
esperança de seu povo, envia aos
reinos irmãos seu melhor mensageiro
aquele que carregava a arte da escuta.
E recebe, entre tantas mensagens, um
presente de uma velha amiga, vindo
da outra ponta da roda que vai
passando de mão em mão até chegar
às suas: um novelo de vermelha.
Como aquelas com que sua mãe
costumava tecer e contar histórias.
Tomada de lembranças e de um vento
em leque, a rainha que reina no reino e
na roda que é teatro e brincadeira de se
inventar e se curar junto, segura o
novelo nas mãos. E desfia, para
olhares hipnotizados, a antiga história
de Ananse
30
uma divindade da cultura
Ashanti que toma forma de aranha e,
em sua astúcia, desafia o deus Nyame
num tempo imemorial em que ele era o
único ser que detinha todas as histórias
do mundo. Ananse, então, fia uma
longa teia até os domínios desse deus.
E do alto insiste que lhe ceda a
cabaça das histórias para que possa
busca de acordos de paz ante o colonialismo
português.
30
Tomamos aqui como referência a narração
oral da contadora de Histórias Zélia Amador de
Deus. Disponível em:
https://www.youtube.com/watch?v=Za3Wx7VZ
A6k. Acesso em: 21 fev. 2025.
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RODRIGUES, Ana Cabral; GUIMARÃES, Jordana; SILVA, Anna Clara;
DONNINI, Monica; LEANDRO, Flavia.; SOUZA, Adriana de; SOUZA, Eliana
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levá-las aos humanos. Nyame aceita,
mas com a condição de que Ananse
cumprisse, uma-a-uma, suas dificílimas
tarefas. Em uma jornada desafiadora,
Ananse cumpre todas e recebe o
retorno prometido. No entanto, ao
descer pelo fio de sua teia, em sua
euforia, vira a cabaça inadvertidamente
e as histórias todas se espalham pelo
mundo. Assim como estava espalhado
o encantamento em forma de miçangas
e fitinhas caídas de um cesto de palha
no meio daquela roda, no meio daquele
salão, no centro da ocupação.
A grande rainha que conta a
antiga lenda, puxa um fio para fora dela,
e vai criando um movimento reticulado
por um dentro e fora, criando texturas,
presenças, bordados; encontrando
porosidades, entre os contos dos povos
de vozes que fizeram se ouvir (que
seguiram e seguem até o dia de hoje
em resistência) e as crianças-
personagens-mensageiras-
pesquisadoras-artistas-rainhas-reis-
amigas ali em roda recolhendo, em
cada uma daquelas palavras, daquelas
vozes, o “eco de vida-liberdade”
(Evaristo, 2021, p.25). Pois sabem bem
que nesse tempo não foram as
batalhas que fizeram o povo existir. São
as histórias que caminham com elas e
eles que os fazem ainda mais vivos,
fortes, orgulhosos da boniteza de suas
raízes e peles e, sobretudo, os fazem
capazes de continuar brincando.
A rainha-pesquisadora-rainha
de pele ébano enovela mais uma vez o
fio da vermelha. Como se aquele
encanto fosse pouco a pouco se
dissipando, ou, quem sabe, realmente
se infiltrando ali, naquele espaço,
naquele salão, onde tantas coisas
criaram seus começos: lares, festas,
oficinas, livros… laços de confiança,
partilhas.
São fios apenas, talvez; mas
também gestos, caminhos, desenhos,
cheios de palavras que vão contando
das delicadezas e forças de um espaço
que começa a ser sonhado junto, para
ser casa de histórias, de causos, de
lendas e parlendas para brincar a
língua, o corpo, o sonho em palavras
bonitas de carregar, como em patuás.
Assim é Ananse: uma biblioteca
comunitária que se inventa e se quer
“embolada com a vida, com os
cotidianos, suas invenções e
intermináveis formas de fazer” (Rufino,
2023, p.7) cidade, ocupação, cultura,
escrita, pesquisa, arte, ciência, luta e
universidade.
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RODRIGUES, Ana Cabral; GUIMARÃES, Jordana; SILVA, Anna Clara;
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set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
As caixas de Salete: tecituras de narrativas da e na Cozinha Solidária da Vila
Barracão
Ana Elísia da Costa
1
DOI: https://doi.org/10.22409/pragmatizes.v15i29.66403
Resumo: Exploro neste texto memórias de mulheres que atuam na cozinha solidária da Vila Barracão,
na periferia de Porto Alegre. Entre essas mulheres, destaco Salete que, ao guardar sonhos e dores em
“caixas”, mobiliza sentimentos e reflexões que me atravessam nesta escrita. Meu encontro com elas
foi promovido por um projeto de ensino-extensão-pesquisa que registrou suas narrativas e revelou
histórias de abandono e opressão, bem como de resistência e insurgência. Visibilizar tais histórias e
refletir sobre os papéis das mulheres nas cozinhas solidárias e nas periferias urbanas o objetivos
deste trabalho. Em uma escrita experimental, ao mesmo tempo em que documento e reflito sobre o
tema, também busco pensar sobre os sentidos pessoais deste trabalho e sobre a pesquisa por
narrativas. O estudo é construído como uma tecitura frouxa, aberta. Ato “nós”, mas também deixo
“pontas soltas” para a composição de ficções por vir ou de histórias sem fim.
Palavras-chave: narrativas; cozinhas solidárias; mulheres; periferia; Vila Barracão.
The Salete boxes: weavings of narratives from and in solidarity kitchen of Vila Barracão
Abstract: In this text, I explore memories of women who work in the solidarity kitchen of Vila Barracão,
on the outskirts of Porto Alegre. Among these women, I highlight Salete who, by keeping dreams and
pain in “boxes”, mobilizes feelings and reflections in me that permeate this writing. My meeting with
these women was promoted by a teaching-extension-research project that recorded their narratives and
revealed stories of abandonment and oppression, as well as resistance and insurgency. Making these
stories visible and reflecting on the roles of women in solidarity kitchens and urban outskirts are the
objectives of this work. In experimental writing, at the same time as I document and reflect on this topic,
I also seek to think about the personal meanings of this work and about researchs based on narratives.
The study is assembled as a loose, open fabric. I act “knots”, but I also leave “loose ends” for the
composition of fictions to come or endless stories.
Keywords: narratives; solidarity kitchens; women; periphery; Vila Barracão.
Cajas de Salete: tela de narrativas desde y en la Cocina Solidaria de Vila Barracão
1
Doutora em Arquitetura pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Docente do
Departamento de Arquitetura e do Programa de Pós-Graduação em Planejamento Urbano e Regional
da UFRGS. E-mail: ana_elisia_costa@hotmail.com. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-4829-5699.
Recebido em 30/01/2025, aceito para publicação em 22/08/2025.
157
COSTA, Ana Elísia da. As caixas de Salete: tecituras de narrativas da e na
Cozinha Solidária da Vila Barracão. PragMATIZES - Revista Latino-
Americana de Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.156-178,
set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
Resumen: En este texto exploro memorias de mujeres que trabajan en la cocina solidaria de la Vila
Barracão, en la periferia de Porto Alegre. Entre estas mujeres destaco a Salete quien, al mantener en
“cajas” sueños y el dolor, moviliza en sentimientos y reflexiones que permean este escrito. Mi
encuentro con estas mujeres fue promovido por un proyecto de enseñanza, extensión e investigación
que registró sus narrativas y reveló historias de abandono y opresión, así como de resistencia e
insurgencia. Visibilizar estas historias y reflexionar sobre los roles de las mujeres en los comedores
solidarios y en la periferia urbana son objetivos de este trabajo. En una escritura experimental, al mismo
tiempo que documento y reflexiono sobre este tema, también busco pensar en los significados
personales de este trabajo y en investigaciones basadas de narrativas. El estudio se ensambla como
una tela suelta y abierta. Hago “nudos”, pero también dejo “hilos sueltos” para la composición de
ficciones por venir o de historias sin fín.
Palabras clave: narrativas; cocinas solidarias; mujer; periferia; Vila Barracão.
As caixas de Salete: tecituras de narrativas da e na Cozinha Solidária da Vila
Barracão
Salete vem a mim com um
sorriso incomum na cozinha
solidária da Vila Barracão. É
dia de encerramento de nossas
atividades, após três meses de
trabalho conjunto.
“Tenho uma coisa para te
mostrar”, diz ela. Retira da
bolsa cópias amareladas de
páginas de uma revista. Com
os dentes à mostra, explica que
ali eu encontraria parte da
história da Vila Barracão e dela
própria! Folheia a revista e
mostra uma foto sua em frente
à casa própria. Destaca que
tinha cabelos curtos e que
naquela época foi até “garota
propaganda” da prefeitura
sobre o loteamento da Vila.
Gargalha.
Sorrio também e pergunto se
posso fotografar o material,
porque gostaria de lê-lo com
mais atenção depois.
A história anterior tem como
personagem central Salete, uma
mulher negra, idosa, voluntária em uma
cozinha solidária e moradora da Vila
Barracão, na periferia de Porto Alegre.
Ela mobiliza em mim o exercício da
escrita, talvez pelas circunstâncias dos
nossos encontros e desencontros,
conversas e silêncios. Talvez por me
fazer olhar para mim mesma,
principalmente quando soube das
“caixas” em que guardou dores e
sonhos até conquistar sua casa.
Além de Salete e suas
memórias, habitam nestas páginas as
memórias narradas por suas
companheiras da cozinha solidária,
cujas histórias de vida se entrelaçam.
Eu também figuro no texto, que a
matéria-prima desta escrita gira em
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COSTA, Ana Elísia da. As caixas de Salete: tecituras de narrativas da e na
Cozinha Solidária da Vila Barracão. PragMATIZES - Revista Latino-
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set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
torno de registros observações,
escutas, sentimentos e reflexões
feitos na, e a partir da, convivência com
essas mulheres, promovida por um
projeto de ensino-extensão-pesquisa
desenvolvido entre agosto de 2024 e
janeiro de 2025.
O enredo que aqui se ensaia não
tem heróis, nem conquistas
glamorosas. Falo sobre cotidianos
silenciosos, histórias de abandono e
opressão, de resistência e insurgência,
muitas vezes expressas no gesto banal
de guardar, prover famílias e fruir vidas.
Busco visibilizar histórias apagadas ou
silenciadas, dar luz à existência das
mulheres e dos territórios que ocupam,
como o “barracão” da cozinha e a Vila
Barracão. Mas não . Busco também
refletir e ampliar os sentidos dos papéis
das mulheres nas cozinhas solidárias e
periferias urbanas. Por outro lado, uso
esta oportunidade para experimentar
uma escrita que, no seu fazer-pensar-
sentir, permita-me refletir sobre os
sentidos pessoais do trabalho para, e
com, a cozinha da Vila Barracão e da
pesquisa por narrativas.
Este texto é, em si, um
experimento. Tramo, de modo não
linear ou cronológico, anotações de
campo e extracampo, como as
primeiras indicadas no texto em recuo e
itálico, desde dispensadas de serem
referenciadas. Neste exercício, ora
deixo algumas “pontas soltas”,
compondo um narrar sem pretensão de
ser verdadeiro ou definitivo; ora “ato
s”, explicando a natureza acadêmica
do trabalho e fazendo conexões com
referências bibliográficas e possíveis
cronologias.
Desde uma estética-ética-
política de pesquisa que refuta a
objetivação, persigo a composição de
um conhecimento como uma tecitura
frouxa, inconclusa (Ingold, 2022).
Talvez a mesma tecitura de que são
feitas as cestas nas ficções de Le Guin
(1989, p. 6-7): recipientes que são
“útero de coisas em gestação e esse
túmulo de coisas que um dia foram,
essa história sem fim”.
Contexto
Salete esboça alguns sorrisos.
Estamos no evento II Encontro
Cozinhas-Território, no saguão
da Faculdade de Arquitetura da
Universidade Federal do Rio
Grande do Sul. Ali, um móbile
de marmitas e fotografias
homenageia Salete e suas
companheiras na Cozinha
Barracão. Fico imaginando se
ela se surpreendeu por figurar
na universidade e se entendeu
que estava ali por
considerarmos que ela tem
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COSTA, Ana Elísia da. As caixas de Salete: tecituras de narrativas da e na
Cozinha Solidária da Vila Barracão. PragMATIZES - Revista Latino-
Americana de Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.156-178,
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
“bagagem” para ensinar a
academia.
Seus sorrisos, contudo,
cessam quando é convidada a
compor a mesa do evento com
representantes de outras
cozinhas solidárias presentes.
Um pouco a contragosto,
protesta: “Não vou falar nada,
hein?”.
Apesar de a mesa querer dar
protagonismo às comunidades
das cozinhas, seu silêncio é
inicialmente respeitado. A
plateia, todavia, o ressente e
protesta, mobilizando-me uma
defesa com tom carinhoso e
brincalhão: “Gente, deixem a
Salete! Ela veio para a mesa já
dizendo que não queria falar!”.
Ela confirma a relutância com
uma expressão engraçada,
causando risos no público.
O silêncio de Salete parece
timidez. Teria meu respeito à sua
condição mobilizado algum sentimento
de confiança nela? Isso poderia
explicar o fato de, no dia seguinte, após
três meses de trabalho, ela finalmente
me entregar informações que tanto
demandava? Teríamos vivido, enfim,
um ‘verdadeiro encontro’ naquela
situação?
***
Na Cozinha, Beth avisa: “Ana,
a Salete vai também ajudar na
oficina de reboco! Ela também
entende de construção!”.
Recordo-me de que, de fato,
Salete nos havia contado
sobre sua participação na
construção do barracão da
cozinha: “nós, mulher,
construímos isso aqui!”.
Acolhi com alegria sua
atuação! Uma mulher da
cozinha se juntaria ao Will e ao
Victor, jovens moradores da
Vila, para ensinar aos (às)
estudantes de Arquitetura da
Universidade a arte do reboco.
A intenção era transformar o
Barracão em um canteiro
experimental, contando com
‘professores’ da comunidade
capazes de destituir papéis de
quem pode ensinar. Com
Salete, destituiríamos não a
academia, mas também os
homens, dominantes nos
canteiros de obra.
Mantendo seriedade, Salete
observa os dois ‘guris’ que
misturavam areia e cimento,
marcavam guias do reboco e,
com a colher de pedreiro,
lançavam gordas porções de
argamassa na parede do
barracão. Discretamente, lhe
pergunto: “Você acha que está
certo?”. Responde com poucas
letras: “Cada um faz de um
jeito, né?!”.
A sua atitude isenta se desfaz
quando alguns estudantes
arriscam usar a
desempenadeira sobre o
reboco úmido. Vendo a
insegurança de um deles, solta
uma piadinha em meio a um
sorriso maroto: “Ele está ali
acariciando a namorada?”.
Salete prefere dar protagonismo
aos mais jovens ou se subjuga à
condição masculina deles? De
qualquer forma, é elegante! Não julga
ou, se julga, faz isso com bom humor.
Ali, aprendo sobre respeito e sobre
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COSTA, Ana Elísia da. As caixas de Salete: tecituras de narrativas da e na
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táticas do ensinar-aprender. Vou
tateando aproximações com aquela
mulher, sem certezas sobre os
caminhos a trilhar.
***
Ao redor da mesa da Cozinha
Barracão, Dona Fátima, antiga líder
comunitária, fala às cozinheiras e aos
meus estudantes. Conta-nos sobre sua
vida e sobre a Vila Barracão, histórias
que se confundem. A Vila teria se
originado de uma ocupação, seguida
de contínuas reivindicações por
melhorias:
“Em 1990, eu entrei na
comunidade. Eu morava de
aluguel e, nesse meio tempo,
apertou o pagamento do
aluguel e eu tive que fazer uma
casa no meio da rua [...].
começamos a entrar na
comunidade para ver o que
seria dessas pessoas que
moravam no meio da rua, que
tinham as vilas com casas em
cima das outras, todos
apertados. [...] abrimos a
[Associação] União de Vilas da
Grande Cruzeiro [...]. E foi indo,
e foi crescendo, e as vilas
foram se esgotando, não
tinha mais lugar para construir
casa. Em 1993, [...] a gente
resolveu invadir isso aqui, era
mato, tudo mato. de cima
até a faixa [...], a gente invadiu
em umas dez pessoas mais ou
menos. veio a polícia e
correu todo mundo. o
pessoal começou a se unir
mais, aí a gente programou em
invadir na sexta à noite, porque
sábado e domingo não tem
polícia.
[...]
Então, assim, a gente lutava
com unhas e dentes por tudo.
tinha aquelas reuniões na
paróquia, na reunião do
orçamento participativo, e
apareceu o Alceu Collares. [...]
E não prestou! Eu levantei ‘tu
falando porque tu tem, o povo
aqui ninguém tem’ e ele me
mandou botar pra fora.
Ganhamos tudo na briga”
(Depoimento de Fátima
Andreola. P2, 2024, p. 21).
Sinto-me tocada (e
provavelmente também os demais
presentes) pela história de vida e luta
daquela mulher, no alto de seus oitenta
anos. Carismática, ela centraliza as
falas. Quero dar protagonismo também
às outras mulheres, em especial à
Salete que observa de canto, quieta.
Prevalecendo-me da posição de quem
pode perguntar (e talvez questionável),
arrisco convidar Salete para contar
também sua versão.
Timidamente, ela se manifesta,
sem desmerecer a versão anterior
“Ela pegou a mais tempo que eu. Eu
vim para e já tava pronto” –. Sua voz
é baixa, quase inaudível:
“Bom, nós viemos aqui porque
eu morava no morro Santa
Teresa, lá em cima. Nós íamos
morar embaixo, mas como
tinha que sair aquelas casas
atrás do posto [...], a gente
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COSTA, Ana Elísia da. As caixas de Salete: tecituras de narrativas da e na
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deu lugar para aquelas
pessoas ficarem ali.
disseram assim ‘bom, vocês
vão ganhar casas de dois
pisos’. Aí nos interessemo [...].
Ai a gente veio para [o
edifício ‘barracão’]. Era
madeira, tava caindo aos
pedaços. a gente derrubou
tudo e fizemos aqui, pra nós vir
almoçar aqui, tomar café, tudo
aqui. nós fizemos em cima
16 casas, 16 casinhas. Nós
vinha aqui de meio dia para
almoçar. Foi isso o que
aconteceu em 19 [oscila]...
1994. Aí lá a gente trabalhou 3
anos e meio, [...] sábado,
domingo e feriado. E depois no
dia que tava tudo pronto, iam
invadir e nós precisamos
ocupar sem rebocar, sem nada.
[...] Fomos sorteados e daí eu
peguei a casa 3 [...] e fiquei
morando ali até hoje, 40 anos
já” (Depoimento de Maria
Salete Oliveira. P2, 2024, p.
22).
Percebo contradições entre as
datações que elas apresentam. Sem
salientar isso, pergunto à D. Fátima
como foi a experiência de construção
de sua casa. Ela revela a construção
das casas em mutirão, a da Salete veio
depois. Antes, cada um construía sua
casa como podia, a partir de uma
infraestrutura mínima oferecida:
“Não sei se foi o DEHMAB ou a
prefeitura que fizeram umas
casinhas de compensado, a tal
casinha de emergência, e fazia
na frente da casinha um buraco
pra fazer xixi! Era o buraco
com aquela coisa. Era feio,
aquele monte de casinha,
umas com telhado de lona,
outras com telhado de zinco, ai
como era feio! A gente passava
de ônibus embaixo e era uma
malocada!
[...]
Eu trabalhava em uma casa de
família e minha patroa me deu
um ano de salário e me deu os
materiais, e um sobrinho meu
construiu a minha casa. Eu
fiquei um ano sem receber,
com quatro crianças, as
passagens. E muitos se
sacrificaram também para
fazer as suas casas, então foi
uma vida muito difícil. Eu
separada do marido, com filho,
construí, graças a Deus. Tenho
minha casa” (Depoimento de
Fátima Andreola. P2, 2024, p.
22-23).
Os relatos, visivelmente, afetam
a todos: a mim, aos(às) estudantes e às
demais cozinheiras. Segue um almoço
coletivo. Mais uma vez, a comida ao
redor da mesa tem uma espécie de
magia que dilui dores e recompõe o
clima afetuoso.
Fátima e Salete, em comum,
vieram de ocupações e lutaram pelo
direito de morar. Revelam orgulho por
resistirem aos abandonos e às
opressões impostas às mulheres por
governos e pela vida. Suas
“experiências” pessoais, ao serem
entrecruzadas, constroem “vivências”
coletivas, histórias-do-comum
(Mizoguchi, 2015).
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COSTA, Ana Elísia da. As caixas de Salete: tecituras de narrativas da e na
Cozinha Solidária da Vila Barracão. PragMATIZES - Revista Latino-
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
Apesar dessas semelhanças, há
nuances que as diferenciam no lento
processo de construção da Vila: Fátima
assume poderes junto à associação de
moradores, enquanto Salete se
subordina a uma massa homogênea de
mutirantes. Igualmente, Fátima é mais
eloquente sobre suas conquistas
pessoais e políticas, enquanto Salete é
mais contida, pouco revelando sobre
sua vida pessoal. A primeira é branca
assim como eu, que pergunto ; a
segunda é negra assim como a
maioria das mulheres ali presentes, que
escutam. Ali estão demarcados
diferentes lugares de fala!
O que se apresentava era uma
ficção: memórias únicas de mulheres
que, mesmo atuando coletivamente,
guardavam segredos de vidas íntimas,
alegrias e traumas. Se a memória
narrada expressa uma “visão de
mundo” e uma “liberdade de expressão
dada a si” como protagonista e
testemunha de uma história coletiva
(Brum, 2006. p. 59), as narrativas de
Salete eram atravessadas por silêncios
impostos à cor de sua pele.
***
Chego na cozinha, pela segunda
vez, mas agora com meus alunos. Café
e pães na mesa, o que iria se repetir em
todos os encontros seguintes.
Integrantes do grupo Mulheres de Luta
que coordenam a cozinha vão sendo
apresentadas. A maioria delas mora na
Vila. A acolhida afetuosa causa
estranhamentos para quem vem da
frieza do mundo acadêmico. Salete se
mantém meio arredia. Um jeito de
corpo. Um jeito de olhar.
Começa ali nossa relação.
Contexto
O trabalho na Cozinha Solidária
da Vila Barracão integra o projeto de
extensão ‘Espaços de Convergência
Comunitária e Social’, desenvolvido
pelo Margem_Lab (Laboratório de
Narrativas Urbanas) da Universidade
Federal do Rio Grande do Sul
(UFRGS). O projeto emergiu durante as
enchentes que atingiram o Rio Grande
do Sul em maio de 2024, motivado pelo
reconhecimento da fundamental
importância dos espaços de
convergência social para apoiar
comunidades antes, durante e após
calamidades.
Neste contexto, destacaram-se
as cozinhas solidárias, especialmente
aquelas atuantes nas periferias da
cidade. Essas cozinhas, para além de
oferecerem comida, são espaços de
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COSTA, Ana Elísia da. As caixas de Salete: tecituras de narrativas da e na
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set. 2025.
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trocas, de educação e de cidadania.
Nelas, laços de vizinhança são
fortalecidos e lutas por direitos
articuladas, o que é especialmente
relevante em contextos historicamente
abandonados e/ou convertidos em
palcos de disputas pela moradia segura
e digna no pós-catástrofes (Caron et
al., 2024; Caron; Rodrigues; Isoppo,
2024).
Em apoio às cozinhas, o projeto
objetiva mapeá-las cartográfica e
narrativamente (Sonário Cozinhas-
Território, 2024) e desenvolver
assessoria técnica para as cozinhas
ligadas aos movimentos sociais
2
,
principalmente na perspectiva de
qualificar seus espaços físicos
precários. O projeto também promove o
encontro entre cozinhas nos eventos
‘Encontro Cozinhas-Territórios’, um
deles mencionado no início deste
trabalho. Em todos esses âmbitos, as
narrativas registros de relatos dos
atores envolvidos são tomadas como
formas fundamentais de
conhecimentos vividos e subjetivos
para a compreensão e produção da
cidade (Margem_Lab, n.d).
2
Movimento de Trabalhadores Sem Teto
(MTST), Movimento Nacional de Luta pela
Especificamente junto à Cozinha
Barracão, ligada ao Levante Popular da
Juventude (MST), foi desenvolvido um
projeto participativo de ativação dos
seus espaços, envolvendo a disciplina
de graduação ‘Projeto Arquitetônico 2’
(P2) e o projeto de pesquisa ‘Inventariar
e Inventar Cidades’, ambos da
Faculdade de Arquitetura da UFRGS.
Articulam-se aqui, portanto, extensão-
ensino-pesquisa.
A Cozinha Barracão
A cozinha se encontra em um
“barracão”, na Praça Rejane Vieira da
Vila Barracão. Essa vila faz parte da
região conhecida como Grande
Cruzeiro, um território periférico, com
ocupações irregulares desde a década
de 1950 e que, historicamente, é
desassistida e marginalizada pelos
governos e pela sociedade.
O “barracão” é sede da
Associação de Moradores União de
Vilas, espaço do grupo Mulheres de
Luta, e da cozinha solidária,
consolidada na urgência da catástrofe
com o apoio do Levante da Juventude.
As funções desenvolvidas, contudo,
Moradia (MNLM) e Levante Popular da
Juventude (LPJ-MST).
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
passaram a ser comprometidas pelas
reduzidas dimensões e pela
precariedade do espaço, o que
mobilizou a comunidade local a buscar
apoio dos Engenheiros Sem Fronteiras
e da UFRGS para qualificar,
respectivamente, seus espaços
internos e externos.
Foi demandada à Universidade
a promoção de encontros no entorno da
cozinha, com vistas a efetivá-la como
espaço de convergência social e a
estimular cuidados que reduzissem
recorrentes vandalismos e descartes
de lixo. As ações propostas se
basearam na ideia de que cuidados são
mobilizados por sentimentos de
pertencimento. Sentimentos esses que,
por sua vez, poderiam ser estimulados
pelo reconhecimento dos significados
do espaço no passado e no presente,
assim como pela garantia do direito de
toda comunidade de pensar-agir sobre
esse espaço, prospectando futuros
possíveis.
Sobre o passado da Vila e do
edifício “barracão” pouquíssimas
bibliografias, destacando-se apenas a
atuação da União de Vilas, na Grande
Cruzeiro. Em verdade, o apagamento
da história da Vila Barracão é um
capítulo do apagamento da própria
Grande Cruzeiro. Apesar de existir
como uma reunião de vilas
geograficamente próximas e
historicamente com uma identidade
comum, a Cruzeiro não existe como
região para a gestão pública e como
produtora de cultura para a sociedade.
Neste contexto, assim como
Brum (2006) questiona o que as
histórias da Grande Cruzeiro revelam
sobre a própria cidade em suas
desigualdades e lutas, nos
questionamos sobre a história da Vila
Barracão: o que, desde nosso
encontro, as memórias dessa
comunidade poderiam nos contar sobre
a territorialidade historicamente
abandonada e ameaçada?
Narrativas
É sobre ausências e silêncios
impostos no passado e sobre reações
ou táticas individuais e coletivas para
sobreviver a isso que as memórias
falam. Elas, acionadas pelo ato de
narrar, não descrevem um passado
real, mas são ficções que revelam
sutilezas, maneiras de saber e de
manipular. Envolvem um certo “tato”
para driblar ordens impostas, que
podem ensinar sobre alternativas e
invenções para o enfrentamento da
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
imprevisibilidade do futuro. Resgatar
memórias, portanto, é uma ação que se
dá na temporalidade do agora, tecendo
relações entre passado-presente-futuro
(Mizoguchi, 2015; De Certeau,1998).
Conforme a perspectiva teórica
apresentada, a estratégia do trabalho
foi promover encontros para discutir o
momento presente da cozinha, suas
potencialidades e desafios, com o
objetivo de construir um projeto de
futuro para o espaço. Neste processo,
memórias do passado foram
naturalmente acionadas e narradas em
rodas de conversa, na partilha de um
almoço coletivo ou em um mutirão
comunitário conforme ilustra a
Imagem 1 a seguir. O foco era escutar
e observar o dito e o não-dito,
esquivando-se de realizar entrevistas
voltadas a um mero coletar de dados.
Imagem 1: Cozinha Solidária da Vila Barracão.
Porto Alegre. 2024. Fonte: Acervo João
Henrique Ramos.
As narrativas emergentes sobre
táticas de viver da Vila no presente e
no passado foram subsidiando a
concepção do projeto futuro, sem
obedecer a roteiros pré-definidos. Não
reduzindo a noção de “projetoa mero
“desenho” de espaços (Ingold, 2022),
foram propostas oficinas e pequenas
intervenções espaciais. As sugestões
foram testadas e refletidas no ato da
ação de sua execução, o que afetou
mutuamente as comunidades da
cozinha e da Universidade, unindo-as
em expectativas e sonhos de
transformar realidades (Ingold, 2022).
As memórias que emergiram do
processo, como demonstram relatos
anteriores e como outros irão
evidenciar, são registros de
resistências, de lutas pela vida e pela
moradia, de protagonismo feminino e
negro. Revelam também uma política
de cuidados que se mostra
desobediente às ordens colonialistas,
exploratórias, patriarcais e racistas
dominantes.
A revista e outras narrativas
Abro as fotos das páginas da
revista que Salete me repassou. É um
material publicitário ou prestação de
contas da Prefeitura, de 1996. Ali,
166
COSTA, Ana Elísia da. As caixas de Salete: tecituras de narrativas da e na
Cozinha Solidária da Vila Barracão. PragMATIZES - Revista Latino-
Americana de Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.156-178,
set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
encontro algumas informações sobre a
ocupação da Vila e pistas para
empreender novas pesquisas, mas,
especialmente, para conhecer melhor
Salete.
Salete nasceu em Getúlio
Vargas e é mãe de quatro filhos. Morou
onze anos na Vila Nossa Senhora do
Brasil, no bairro Santa Tereza, em um
precário casebre de uma única peça:
“Lá, eu não tinha banheiro, nem água,
nem tanque. Era obrigada a lavar a
roupa na vizinha(PMPA, 1996, n. p.).
As goteiras da casa faziam com que a
umidade destruísse as paredes de
madeira.
Nos anos 1990, obras de
regularização da Grande Cruzeiro
demandaram a remoção da casa por
obstruir um acesso. Em contrapartida,
lhe foi dada a oportunidade de construir
uma nova casa na Vila Barracão com
um sistema de mutirões promovidos
pelo programa habitacional do
município de ajuda mútua.
Durante o processo, ela
trabalhava como diarista em sete
casas, fazia bonecas de tricô e panos
de louça para garantir renda extra e,
aos fins de semana, era pedreira e
pintora no mutirão das casas. Enquanto
erguia paredes, também sonhava: “a
casa ainda nem existia, mas a gente
imaginava onde colocaria os móveis”
(PMPA, 1996, n. p.).
Para realizar tal sonho, começou
a comprar tudo novo, juntando as
roupas de cama e louças que ganhava
de suas patroas. Guardou tudo em
caixas, até a nova casa ficar pronta.
Este gesto de guardar foi
sensivelmente explorado na matéria,
cujo autor não consigo identificar:
“E foi guardando, como quem
guarda um tesouro. [...]
Deixou tudo empacotado. [...]
Por não ter lugar para distribuir
os móveis na casa de uma
peça, achou melhor nem abrir
os pacotes e guardar para o
novo sobrado. Era uma forma
de proteger tudo da umidade. E
por quase dois anos almoçou e
jantou sentada na cama. Assim
fez com o forno micro-ondas,
com a máquina de lavar roupa
e com o edredom estampado.
Tudo comprado aos poucos, a
prazo. As caixas foram sendo
empilhadas pelos cantos da
minúscula casa. Dentro delas
tinha muito mais do que
simples eletrodomésticos ou
móveis desmontados. As
caixas guardavam o dia de
amanhã.
[...]
Na casa da Salete, de cada
caixa que é aberta, saem
pedaços de um sonho. Um
sonho sonhado dia e noite
dentro da única peça de um
casebre que não existe mais”
(PMPA, 1996, n. p., grifos da
autora).
167
COSTA, Ana Elísia da. As caixas de Salete: tecituras de narrativas da e na
Cozinha Solidária da Vila Barracão. PragMATIZES - Revista Latino-
Americana de Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.156-178,
set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
Esta poética escrita é
empreendida a partir de uma visita à
casa da Salete, como revela alguns de
seus detalhados e precisos registros:
Em cima, fica o quarto bastante
amplo. Televisão aos pés da
cama e um aparelho de som
que fica sempre ligado quando
ela está em casa. Em cada
degrau da escada espiral que
leva ao quarto, Salete colocou
harmonicamente um vaso de
Violeta.
[...]
Lajotas brancas no chão da
cozinha, parede branca na
sala, janelas, porta e escada
com cor areia. Salete tem
tudo programado na cabeça,
mas confessa que ainda não
definiu a cor das paredes do
quarto. “Estou pensando com
carinho que cor eu vou colocar
no meu quarto”, diz sorrindo.
No piso da sala e do quarto
nada de carpete. E, com a
experiência de quem limpa
anos a casa dos outros,
explica: “Dá muito trabalho
para limpar, por isso prefiro um
piso onde possa passar uma
cerinha prática” (PMPA, 1996,
n. p.).
Na visita a casa, provavelmente
houve perguntas, coleta de dados, mas
também registros atentos de gestos e
de silêncios. Quem escreve não
descreve, interpreta, luz ao sensível,
deixando-se afetar por Salete, da
mesma forma que fui afetada. O que
me prende nas caixas de Salete,
entretanto, não são seus sonhos,
mas também as dores que ela deixa
escapar.
As caixas de Salete e as cestas de Le
Guin e Krenak
As caixas de Salete são
suportes ou recipientes que, na
aparente insignificância do exercício de
guardar, permitem contar histórias ou
estórias sobre conquistas cotidianas,
táticas silenciosas diante de
adversidades de múltiplas ordens,
especialmente impostas às mulheres.
Das caixas emergem ficções
similares às que Úrsula Le Guin (1989)
se propõe a resgatar de bolsas, cestas
e panelas cotidianas como forma de
superação de esquecimentos e
apagamentos impostos pela
dominância de histórias heroicas e
violentas que envolvem artefatos
longos e duros, quase sempre
masculinos.
Nós ouvimos isso, todos nós já
ouvimos tudo sobre as varas e
lanças e espadas, as coisas
para bater e cutucar e golpear,
as coisas longas e duras, mas
nós não ouvimos sobre algo
para colocar ou guardar as
coisas, ao recipiente para a
coisa contida. Essa é uma nova
história. Isso é novidade (Le
Guin,1989, p.3).
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COSTA, Ana Elísia da. As caixas de Salete: tecituras de narrativas da e na
Cozinha Solidária da Vila Barracão. PragMATIZES - Revista Latino-
Americana de Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.156-178,
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
A importância dos recipientes
para guardar, para Le Guin (1989), é
que eles, antes de lançarem a energia
para frente, trazem a energia para
casa. Isso é o que historicamente
sustentou, e sustenta, a humanidade,
abrindo também espaços-tempos para
que a própria vida cotidiana se
constitua por outros interesses além de
lutar, guerrear ou ser produtivo, como
quer a lógica capitalista. de se ter
tempo para plantar, escutar um filho,
cantarolar uma música, coisas
importantes para a humanidade que
têm sido desprezadas por não serem
rentáveis e não gerarem histórias tão
“emocionantes”.
É sobre a arte de “guardar para
sobreviver e dispensar tempo para o
viver” que também versam as cestas ou
balaios de Ailton Krenak (Krenak;
Campos, 2022). Ao contestar a
demanda de mil balaios iguais de uma
rede de supermercados às
comunidades indígenas, ele observa
que cestos produzidos por esses povos
atendem demandas efetivas de
“guardar” algo e que, após feitos, um
indígena “tem 10 mil outras coisas
interessantes para fazer” e completa
“brancos é que são capazes de ficar
fazendo 10 mil objetos iguais” (Krenak;
Campos, 2022, p. 74). Na luta para
atender lógicas de produção fordista e
de consumo, brancos abdicam do fruir
a vida e da própria “arte”, que esta
envolve fazer coisas únicas. Cada
cesto é único, é arte! O lento processo
de produzi-lo envolve a subjetivação de
pensar-sentir sobre o tramar, o que vai
transformando o próprio cesto e
construindo um valioso campo de
significação. A sua produção, portanto,
envolve tramas da própria vida
cotidiana: tempos para tramar em meio
a tempos para banhar-se no rio e
dançar com a aldeia, tempos que não
são momentos de luta.
O saber ancestral indígena é
também comum em comunidades que
possuem memórias de viver e instituir
sujeitos coletivos, como as
comunidades negras (Krenak; Campos,
2022). É o que revelam memórias de
mulheres da Grande Cruzeiro (Ávila,
2006), da Vila Barracão, da Salete.
Pela imposição de lógicas
exploratórias, machistas e racistas,
elas aprenderam a produzir e guardar,
provendo suas famílias quase sempre
sozinhas. No árduo cotidiano entre
casa e trabalho, contudo, elas ainda
encontram tempos e forças para viver a
“aldeia-vila”. Desde longa data,
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COSTA, Ana Elísia da. As caixas de Salete: tecituras de narrativas da e na
Cozinha Solidária da Vila Barracão. PragMATIZES - Revista Latino-
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
promovem festas e ações de cuidado,
costuram e cozinham juntas. Nestes
momentos, mais do que produzir,
divertem-se e partilham tempos: para
piadas e gargalhadas, para pedir e
conseguir ajuda, para histórias de si, de
seus filhos, de manhãs para driblar o
patrão e a polícia, de plantas que curam
e de santos que ajudam. Nesta lógica
“improdutiva”, resistem!
Elas também resistem ao
produzirem marmitas únicas, mesmo
quando um grande volume de
produção. A cada dia, alimentos são
transformados pelo tempero de uma
mulher que se voluntaria, pela
criatividade de outra que improvisa com
a falta de um ingrediente, pela receita
nova que experimentam. Ou seja, os
alimentos são temperados por suas
histórias individuais e coletivas. Cada
marmita é um recipiente que guarda
forças e fraquezas do ontem e sonhos
para o amanhã; está cheia “de
começos sem fins, de iniciações, de
perdas, de transformações e traduções,
e de muito mais truques do que
conflitos” (Le Guin,1989, p. 6, grifo da
autora).
Nas cozinhas, panelas e
marmitas são recipientes onde as
mulheres compartilham o que
guardaram, e guardam,
retroalimentando de energia suas
próprias casas e a Vila Barracão, além
de fazerem dela um sujeito coletivo
como ilustrado na Imagem 2:
Imagem 2: Cozinha Solidária da Vila Barracão.
Porto Alegre. 2024. Fonte: Acervo João
Henrique Ramos.
Enlaçando uma história ou quase
atando-a em nós
A tecitura de fragmentos dessas
memórias, por vezes contraditórios e
nem sempre linearmente compostos,
permitiu ensaiar uma versão inicial da
história da Vila Barracão. Tal história foi
relacionada a fatos históricos e
confrontada com referências
bibliográficas sobre memórias da
Grande Cruzeiro, das quais muitas
foram escritas por mulheres: Fátima
Ávila (2006), Rosemary Brum (2006),
Ana Patrícia Barbosa (2020; 2016) e
Ane Briscke Prates (2020), por
exemplo. Recolho delas reflexões e
depoimentos em “segunda mão” que,
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COSTA, Ana Elísia da. As caixas de Salete: tecituras de narrativas da e na
Cozinha Solidária da Vila Barracão. PragMATIZES - Revista Latino-
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
somados à minha própria voz,
compõem uma segunda versão com
várias vozes que, ainda assim,
reconhecem distanciamentos raciais,
etários e econômicos entre quem fala e
de quem se fala.
Esta versão é inédita e, apesar
de objetiva e de repetir fatos
expostos aqui, talvez tenha importância
por seu conjunto por dar luz à origem e
à existência da Vila e do seu “barracão”.
Este texto é um exercício de “fazer
política”, pois, como observa Brum
(2006, p. 55), no ato de reconstituir
memórias, comunidades
historicamente abandonadas e
ameaçadas se reconstituem como
personagens sociais das políticas
urbanas.
A Vila Barracão originou-se de
uma ocupação de terras do Instituto de
Previdência Ipê, nos anos 1980.
Estiveram envolvidas na ocupação
pessoas com dificuldades de acesso à
moradia e que se articularam na
3
A União de Vilas foi fundada entre 1979 e
1980, evolvendo inicialmente vinte e seis
Associações de Moradores da Região da
Grande Cruzeiro. Seu objetivo foi articular as
demandas comuns das vilas da região e lutar
coletivamente por melhorias nas condições de
vida da população.
Associação União de Vilas
3
. Entre eles,
estão D. tima Andreola
4
e seu ex-
esposo, Sr. Ézio, que relatam:
“Aqui no Barracão,
especialmente, fui um dos que
levantou a bandeira de que
aqui teria que ser ocupada
essa terra, que estava
desocupada” (Depoimento
Ézio. Ferreira, 2020, n.p.).
“[...] a gente invadiu em umas
dez pessoas mais ou menos.
veio a polícia e correu todo
mundo. o pessoal começou
a se unir mais, a gente
programou em invadir na sexta
à noite, porque sábado e
domingo não tem polícia”
(Depoimento Fátima Andreola.
P2, 2024, p. 22-23).
Na luta pelo direito de morar
nesse território, a União de Vilas foi
muito atuante nos Conselhos
Populares do governo municipal de
Alceu Collares (1986-1989) e em ações
insurgentes. Como relata D. Fátima,
tudo que foi conquistado na Vila, foi na
“briga”, com “unhas e dentes” (P2,
2024).
Entre inúmeras conquistas
dessa época
5
, está a atual escola
4
D. Fátima data o evento em 1983, mas
subentende-se que tenha sido 1983, durante o
governo de Alceu Collares em Porto Alegre.
5
Pode-se citar a formação da Cooperativa de
Trabalho, Produção e Comercialização dos
Trabalhadores Autônomos das Vilas de Porto
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COSTA, Ana Elísia da. As caixas de Salete: tecituras de narrativas da e na
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
estadual Almirante Álvaro Alberto da
Motta e Silva. Sua história se articula
com a origem do “barracão”, edifício
localizado na praça Rejane Vieira que
nome à Vila e onde hoje operam a
União de Vilas e uma cozinha solidária.
O barracão surgiu como uma estrutura
de lona usada por moradores para
pressionar a prefeitura a construir uma
escola no terreno ao lado da praça,
relata D. Fátima (P2, 2024). A ação
surtiu efeito. Enquanto a nova escola
era construída, a antiga lona deu lugar
a um “barracão” provisório de madeira
que serviu de espaço escolar (Barbosa,
2016; Ávila, 2006)
6
:
Em 1986, início de 1987, a
comunidade estava se
mobilizando e solicitando ao
governo municipal a instalação
de uma escola na comunidade.
Até a escola ficar pronta nós
dávamos aula num barracão
que foi construído com três
salas de aula. Em março de
1988, foi inaugurada a escola
(Depoimento Heloisa Simões -
Ávila, 2006, p. 43).
“O único colégio que existia
nessa zona aqui era embaixo
no Nonoai. Demorou muito pra
ter outras escolas e nós
tivemos que lutar muito pra
isso. A comunidade se
mobilizou e a Prefeitura
Alegre Ltda. (COOTRAVIPA 1985) e a luta
pelo posto médico da Cruzeiro (1998).
6
Supostamente, os depoimentos referem-se ao
“barracão” da Vila Barracão, não havendo,
construiu uma escola. Até a
escola ficar pronta as aulas
eram dadas num barracão de
madeira” (Depoimento Alberi
da Silveira Barbosa, 2016,
p.105).
Durante o governo de Olívio
Dutra (1989-1992), quando foram
implementados o Orçamento
Participativo (OP - 1989) e um
Programa de Regularização Fundiária
(1990) (DEMHAB, 2007), a “ocupação
barracão” sofreu mudanças. Ela foi
regularizada como loteamento Ipê-
Barracão, no qual moradores
deslocados por obras de urbanização
da Grande Cruzeiro foram
reassentados estrategicamente
próximos aos lugares de vida (Alegretti,
2005; PMPA, 1996). Depoimentos de
integrantes da cozinha solidária da Vila
ilustram as mudanças e os impactos
em suas vidas, como Elisabeth de
Sousa (Beth), deslocada pela abertura
da Av. Orfanotrófio; e Salete Oliveira,
pela desobstrução de um acesso na
Vila Nossa Senhora do Brasil (P2,
2024).
contudo, certezas em decorrência dos
depoimentos serem apresentados nas
referências sem maiores informações e
contextualizações.
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COSTA, Ana Elísia da. As caixas de Salete: tecituras de narrativas da e na
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Os primeiros reassentados
ocuparam lotes de 6x15m com
recursos próprios
7
, usufruindo de uma
infraestrutura básica oferecida pela
Prefeitura: uma casa de compensado e
um buraco como sanitário. Ao
recorrerem a materiais precários
pedaços de madeira, telhas de zinco
etc. , a paisagem da vila foi por muito
tempo “feia”, conta e julga D. Fátima
(P2, 2024).
Com o governo de Tarso Genro
(1993-1996), programas de incentivo a
cooperativas habitacionais (DEMHAB,
2007) levaram à Vila a experiência-
piloto do “Programa de Ajuda Mútua”
(1993). Este programa previa a
cedência de materiais para a
construção por meio de um sistema de
mutirão de 16 casas geminadas e
assobradadas de 52m2. Nos mutirões,
cada família deveria trabalhar no
mínimo 20h semanais, tal como fez a
mutirante D. Salete nos sábados,
domingos e feriados de três anos
consecutivos (P2, 2024; Alegretti, 2005;
7
As dimensões foram alvo de discussões na
época, objetivavam uma maior densidade e
evitavam que lotes padrões de 12x30m
sofressem futuras fragmentações.
8
Salete relata que ele estava “caindo aos
pedaços” (P2, 2024), o que converge com o
PMPA, 1996). Ao longo deste período,
as mulheres mutirantes tomaram a
iniciativa de reformar o antigo
“barracão”, então precário
8
, para
instalar ali uma cozinha de apoio onde
se reuniam para o café e o chimarrão,
além de almoçarem juntas (P2, 2024).
D. Salete relembra que elas próprias
demoliram parte do corpo de madeira
do “barracão” e construíram seu atual
corpo em alvenaria.
Em 1996, as casas foram
inauguradas e ocupadas às pressas
diante de ameaças de ocupação,
mesmo não finalizados os
acabamentos internos, como nos
revelam Salete e uma matéria da época
(P2, 2024; PMPA, 1996). Neste mesmo
ano, o “barracão” passou a ser a sede
da União de Vilas, sendo também
alugado para festas. Uma foto,
publicada em 2006, documenta a placa
da associação sustentada pelos corpos
de madeira e de alvenaria do
“barracão” (Ávila, 2006), como também
depoimento: “O barracão era um barracão
mesmo, de madeira com telhas de zinco.
Quando chovia era cheio de goteiras, a gente
tinha que estar se cuidando para não cair água
em cima. Quando o vento batia forte quase não
escutávamos as pessoas falarem” (Depoimento
Leontina da Silva. Ávila, 2006, p. 46).
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COSTA, Ana Elísia da. As caixas de Salete: tecituras de narrativas da e na
Cozinha Solidária da Vila Barracão. PragMATIZES - Revista Latino-
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
fotos de D. Beth retratam a ocorrência
de festas no espaço.
Novas tentativas de invasões na
Vila ocorreram no início dos anos 2000,
quando o loteamento ainda não estava
plenamente ocupado. O fato foi tomado
como consequência de uma atuação
lenta e ineficiente do DEMHAB e
mobilizou apoios de alguns vereadores
que registram em ata: “600 pessoas
que, cansadas de esperar por uma
solução do DEMHAB, resolveram
ocupar um terreno que estava três
anos abandonado [...] ocupou o
Conjunto do Ipê Barracão” (CMVPA,
2000, n.p.).
Ainda nos anos 2000, a União de
Vilas abandonou o “barracão” e o
Levante Popular da Juventude (LPJ)
passou a atuar no território em 2006,
com ações ligadas à educação, cultura
e saúde (P2, 2024). Na década de
2010, a Vila foi marcada por
inseguranças advindas das obras da
copa que, com o objetivo de duplicar a
limítrofe Avenida Tronco, removeu
inúmeras famílias da região da Grande
Cruzeiro em 2014.
Em 2021, a União de Vilas
retomou o “barracão” como sede, relata
a sua atual presidente, Beatris Souza
(Bia). Depredado ao longo de anos de
abandono, ele foi reformado nesse
período, em um mutirão conduzido e
documentado em fotos pelo Levante.
Ali, passou a atuar o grupo Mulheres de
Luta, organizado em torno de
atividades de costura e artesanato (P2,
2024). Durante a pandemia, o espaço
distribuiu alimentos, promoveu eventos
solidários e partilhou informações,
como no programa “Marmitas
Educativas” (Ferreira, 2020) e no “Dia
da Solidariedade” (Fraga, 2021).
Com as enchentes que atingiram
Porto Alegre, em 2024, as máquinas de
costura do “barracão” foram
desativadas e o espaço reassumiu a
sua antiga função de cozinha, agora
uma cozinha solidária conduzida pelo
Levante em conjunto com Mulheres de
Luta e voluntários. Fogões, panelas e
lonas ao lado do “barracão” foram
incialmente improvisados. Com a
crescente demanda, a cozinha foi aos
poucos equipada e abastecida, e o
espaço ampliado com uma varanda
lateral. Ali, chegaram a ser produzidas
cerca de mil marmitas por dia (P2,
2024; LPJ, 2024).
No mesmo ano, o grupo
Engenheiros Sem Fronteiras executou
outras obras de ampliação do espaço,
com vistas a retomar as antigas
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atividades de costura. Além do mais,
um projeto de extensão da Faculdade
de Arquitetura da Universidade Federal
do Rio Grande do Sul promoveu ações
e intervenções nos espaços externos
da cozinha, voltadas a consolidá-la
como lugar de convergência social (P2,
2024).
Na cronologia de fatos expostos,
observa-se que a origem e a
consolidação da Vila envolvem
processos conflitivos relativos ao direito
de morar e, também, gestos de
resistência articulados especialmente
junto ao “barracão”.
A Vila, hoje, está consolidada
com infraestrutura, serviços básicos e
melhorias nas casas, mas ainda
enfrenta grandes desafios. Além da
fome combatida pela cozinha, jovens
moradores reclamam por espaços de
lazer e cultura, como sinaliza Victor
Lisboa (P2, 2024). Igualmente, os
jovens desejam oportunidades de
trabalho, cuja escassez é agravada
pela baixa escolaridade e por altos
índices de evasão escolar, como ilustra
um depoimento de 2016: “Esse pessoal
da minha idade, poucos estão na
9
Supostamente, os depoimentos dizem sobre
a Praça Rejane Vieira.
escola e quase ninguém trabalha.
Ficamos em casa ou aqui na praça o
dia todo” (Barbosa, 2016, p. 109)
9
.
Manter as crianças e os
adolescentes na escola e oferecer
atividades de geração de renda são
metas da União de Vilas, nos explica
Bia (P2, 2024). No entanto, disputas
com o tráfico de drogas são obstáculos
para isso, como ela mesma sinaliza
em 2016: “É muito difícil, cada vez eles
começam mais cedo no tráfico. Eles
não querem estudar, trabalhar. Dizem
que podem ganhar dinheiro mais fácil e
mais rápido” (Barbosa, 2016, p. 107).
O tráfico de drogas, somado à
atuação abusiva da polícia, estigmatiza
a região como violenta e perigosa
(Prates, 2020; Barbosa, 2016; Brum,
2006). A violência é uma realidade,
como expressam crianças da escola
que temem frequentar a praça por
causa da presença de armas e drogas.
Contudo, essa violência também é uma
construção da política, polícia e mídia
que engendram preconceitos contra os
moradores. Por outro lado, a presença
e a ação da cozinha, assim como do
cursinho popular Gui Soares que ocupa
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COSTA, Ana Elísia da. As caixas de Salete: tecituras de narrativas da e na
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
a praça, têm dinamizado e inibido a
violência na área, conforme observa
Mariana Dambrós, integrante do
Levante (P2, 2024).
De qualquer modo, o território se
mantém em meio a disputas. Na
ausência de políticas sociais do Estado,
outros poderes se impõem. O presente
reproduz o passado com conflitos que
assumem novas roupagens.
Em contraponto, emergem
também formas de resistências,
mobilizadas pela solidariedade e pela
criatividade que são típicas dos que
sobrevivem nas periferias (Barbosa,
2024; Margem, n.p). As cozinhas
solidárias expressam uma dessas
formas de resistências, cujas “táticas”
podem inspirar a construção de outros
possíveis futuros.
Tecituras de pontas ainda soltas ou
sementes a plantar
Enquanto amplio as fotos da
revista da Salete na tela do
computador, imagino que, ao me
entregar este material, ela quis formular
uma pergunta: “E agora, Ana, o que
muda na experiência de três meses a
partir das informações que te
repassei?”.
Abro um arquivo .doc e formulo
uma resposta para a pergunta que não
foi feita:
Querida Salete, saber sobre a
história do loteamento foi
importante, mas conhecer a
história das suas caixas foi
mais importante para mim. Elas
me remeteram à
ancestralidade: as “caixas” de
minha mãe que, em meio a
uma vida com dificuldades,
também sempre guardaram
sonhos. Parte das caixas dela
foi herdada por mim e tenho
acumulado outros pertences e
pertencimentos, outras dores e
esperanças.
As caixas dela e as minhas,
contudo, certamente não são
tão cheias de sofrimentos e
resistências quanto as suas.
Temos acúmulos muito
diferentes devido aos
privilégios concedidos, ou não,
pela sociedade. Por outro lado,
reconhecendo diferenças de
conteúdos, penso que a
habilidade de guardar coisas
em caixas nos une.
As caixas, Salete, nos colocam
em um lugar comum
feminino, maternal, cuidador,
provedor , um lugar de que
pertenço e de que me esqueço,
engolida pela vida produtiva
que a sociedade capitalista,
colonial e patriarcal inventou.
Falta-me capacidade de resistir
e insurgir contra o que me
oprime, uma capacidade que
fui percebendo em você.
Ao “abrir” suas caixas, Salete,
olho para mim, encaro minhas
fraquezas e busco resgatar
alguns sonhos. Um deles é ter
mais tempo para fruir da vida e
dos afetos. Quero ter tempo
para te escrever estas
palavras, sentar-me na
176
COSTA, Ana Elísia da. As caixas de Salete: tecituras de narrativas da e na
Cozinha Solidária da Vila Barracão. PragMATIZES - Revista Latino-
Americana de Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.156-178,
set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
cozinha, tomar um café,
escutar uma piada, rebocar
paredes. Tempo para plantar
uma horta na cozinha solidária,
colher frutos amanhã e, nas
próximas estações, reiniciar
tudo de novo.
Tempo para compor uma
história sem fim, porque,
Salete, há, e sempre haverá,
sementes para plantarmos
juntas, nos rebrotarmos. Como
também esperançarmos um
mundo no qual o futuro não
reproduza as dores passadas
que escaparam de suas caixas
e que, provavelmente, são
semelhantes às que
escapariam das caixas de
tantas outras mulheres negras
das periferias.
Com afeto,
Ana
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Americana de Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.156-178,
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179
FONSECA, Vanessa do Nascimento. Narrativa e memória na análise das
transformações relacionadas a intervenções sociais em gênero.
PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.179-206, set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
Narrativa e memória na análise das transformações relacionadas a
intervenções sociais em gênero
Vanessa do Nascimento Fonseca
1
DOI: https://doi.org/10.22409/pragmatizes.v15i29.67190
Resumo: O artigo disserta sobre as metodologias utilizadas em duas pesquisas da autora. Ambas as
investigações analisaram experiências de intervenções sociais no campo da sexualidade, da saúde
reprodutiva e do gênero, sobretudo envolvendo as masculinidades. As fontes utilizadas foram
documentos diversos, como diários de campo, cadernos elaborados para as atividades, relatórios,
artigos, entre outros. Uma das pesquisas incluiu o relato das trajetórias de pessoas egressas em
projetos sociais sobre a temática mencionada, no início dos anos 2000. Realizadas participativamente,
por meio dos preceitos da educação popular e da pesquisa-intervenção, as práticas sociais geraram
um grande volume de registros, ao longo dos quinze anos de trabalhos. Tais escritos, retomados em
sua análise, acionaram outras memórias, atravessadas pelos acontecimentos do presente. A
cartografia da memória, concebida como uma narrativa que acompanha os acontecimentos, aberta à
produção de novas problematizações, deslocou concepções teóricas e questões de pesquisa, fruto
ainda da ampliação dos debates sobre feminismo no Brasil. Considerando a narrativa como política,
este texto busca expor os meandros e o percurso realizado nas análises e na escrita da investigação,
apontando seus efeitos e diferenças com modos hegemônicos de produção de saber.
Palavras-chave: narrativa; memória; pesquisa-intervenção; cartografia; gênero.
Narrative and memory in the analysis of transformations related to social interventions in gender
Abstract: The article discusses the methodologies used in two of the author's research projects. Both
studies analyzed experiences of social interventions in the field of sexuality, reproductive health and
gender, especially involving masculinities. The sources used were various documents, such as field
diaries, notebooks prepared for the activities, reports, articles, among others. One of the studies
included the account of the trajectories of former inmates in social projects on the mentioned themes,
in the early 2000s. Conducted in a participatory manner, through the precepts of popular education and
intervention research, the social practices generated a large volume of records over the fifteen years of
work. These writings, revisited in her analysis, triggered other memories, interspersed with the events
of the present. The cartography of memory, conceived as a narrative that follows the events, open to
the production of new problematizations, displaced theoretical concepts and research questions, also
resulting from the expansion of debates on feminism in Brazil. Considering the narrative as political, this
text seeks to expose the intricacies and the path taken in the analyses and writing of the investigation,
pointing out its effects and differences with hegemonic modes of knowledge production.
1
Doutora em Psicologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Docente no Departamento de
Psicologia da UFF, campus Volta Redonda. E-mail: vnfonseca@id.uff.br. ORCID:
https://orcid.org/0000-0003-4423-3298.
Recebido em 01/04/2025, aceito para publicação em 21/07/2025.
180
FONSECA, Vanessa do Nascimento. Narrativa e memória na análise das
transformações relacionadas a intervenções sociais em gênero.
PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.179-206, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
Keywords: narrative; memory; intervention-research; cartography; gender.
Narrativa y memoria en el análisis de las transformaciones relacionadas con las intervenciones
sociales en género
Resumen: El artículo analiza las metodologías utilizadas en dos proyectos de investigación del autor.
Ambas investigaciones analizaron experiencias de intervenciones sociales en el campo de la
sexualidad, la salud reproductiva y el género, especialmente involucrando las masculinidades. Las
fuentes utilizadas fueron diversos documentos, como diarios de campo, cuadernos elaborados para las
actividades, informes, artículos, entre otros. Uno de los estudios incluyó el relato de las trayectorias de
exparticipantes en proyectos sociales sobre la temática mencionada, a inicios de la década del 2000.
Realizadas de manera participativa, a través de los preceptos de la educación popular y la
investigación-intervención, las prácticas sociales generaron un gran volumen de registros, a lo largo de
los quince años de trabajo. Tales escritos, revisados en su análisis, desencadenaron otros recuerdos,
atravesados por los acontecimientos del presente. La cartografía de la memoria, concebida como una
narrativa que acompaña los acontecimientos, abierta a la producción de nuevas problematizaciones,
concepciones teóricas desplazadas y preguntas de investigación, resultantes también de la expansión
de los debates sobre el feminismo en Brasil. Considerando la narrativa como política, este texto busca
exponer las complejidades y el camino recorrido en los análisis y escritura de la investigación,
señalando sus efectos y diferencias con los modos hegemónicos de producción de conocimiento.
Palabras clave: narrativa; memoria; investigación-intervención; cartografía; género.
Narrativa e memória na análise das transformações relacionadas a
intervenções sociais em gênero
Introdução
Este texto disserta sobre as
metodologias utilizadas em dois de
meus trabalhos de pesquisa: a tese de
doutoramento e uma investigação
realizada no pós-doutorado. O modelo
de investigação aplicado nos estudos
de doutorado, que recebeu o nome de
“cartografia da memória” por um dos
membros da banca, pôs em análise
onze anos da experiência em
intervenções nas masculinidades para
a equidade de gênero, com base em
documentos (diários de campo,
relatórios, cadernos de atividades de
grupo, materiais de campanhas, entre
outros) e na memória da participação
em tais intervenções, acionada em sua
narrativa. a pesquisa empreendida
como parte de um pós-doutorado
recorreu às histórias contadas por
pessoas egressas de projetos sociais
para a promoção da equidade de
gênero, direitos reprodutivos e
181
FONSECA, Vanessa do Nascimento. Narrativa e memória na análise das
transformações relacionadas a intervenções sociais em gênero.
PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.179-206, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
sexualidade, realizados nos anos 2000.
As narrativas coletadas se referiam às
memórias de participação em tais
ações sociais e à reverberação das
atividades em suas vidas, ao longo dos
quinze anos após a finalização dos
projetos.
A retomada de tais estratégias
de pesquisa tem como intuito analisar o
modo como certas formas de narrar
costuraram os dados que sustentaram
seus objetivos. Defende-se que as
narrativas resultantes desse processo
se configuram como estratégias
políticas capazes de evidenciar e
confrontar relações de poder
ancoradas em práticas de pesquisa
tradicionais, ou sustentadas por fazeres
coloniais: neutralidade fictícia, por não
considerar, em campo, as posições das
pessoas pesquisadas; hierarquias
entre observadores e pessoas
observadas, em que essas são
consideradas externas aos resultados
de suas análises; valorização de certa
concepção da razão, em que se afetar
pelo contexto investigado é
desvalorizado; apreço pela imobilidade,
solidez, nas quais as contradições e
instabilidades das relações no território
pesquisado são apagadas.
O modo de tecer narrativas, seja
pelas histórias contadas por ex-
participantes de projetos sociais, seja
pela cartografia da memória dos
documentos e diários de campo, a
partir de um processo em que fazer e
pensar não se separam, alinhou-se às
práticas de formação coletivas, críticas
às relações de poder entre formadores
e formandos. Em tais práticas, metas
são negociadas no curso do trabalho, a
partir das problematizações das
relações, das contradições, dos
conflitos, entre outros elementos que
atravessam sua execução. Neste texto,
ensaio uma reflexão a respeito de como
o próprio narrar os acontecimentos
buscou incluir a complexidade dos fatos
e conduziu a novas perspectivas de
ação.
Cartografia, narrativa e memória
Cartografar é um conceito que
extrapolou sua origem na geografia.
Não se trata de produzir mapas que
traduzem a realidade, mas se baseia na
narrativa das experiências espaciais. O
espaço, composto por nossas
vivências, apenas pode ser acessado
narrativamente. Ou ainda, segundo
Freitas e Bredas (2019), as narrativas
têm como potencialidade a
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FONSECA, Vanessa do Nascimento. Narrativa e memória na análise das
transformações relacionadas a intervenções sociais em gênero.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
possibilidade de evocar as experiências
espaciais. Nesse sentido, tanto a
pesquisa com base na narrativa das
pessoas egressas de projetos sociais
sobre sua trajetória de vida, quanto a
que utilizou a cartografia da memória,
são investigações narrativas e,
portanto, pertinentes ao dossiê “Narrar:
gesto metodológico e indagação
epistemológica”.
Outrossim, é que um trabalho de
pesquisa envolve sempre a seleção de
maneiras de contar o vivido
entrevistas, questionários, grupos
focais, observação participante
(Passos e Barros, 2009). Uma pesquisa
é a narrativa de um fato, a partir de uma
certa posição (Haraway, 1995). Um
investigador está sempre localizado, tal
como evidenciaram diversas feministas
em sua crítica aos saberes que
hierarquizam sujeitos a partir de uma
neutralidade fictícia, da construção de
um conhecimento sem origem no
conhecedor, mas disperso em um
mundo a ser desvelado. Todavia, “não
verdades a serem reveladas, mas
perguntas que abrem e encerram
questões” (Franco, 2016, p. 14).
Igualmente, com Luciana O. P. Franco
(2016), defendemos que não se trata
de diferentes posições de um mesmo
fato, mas que tal fato existe a partir
de suas versões.
Ao publicar o fruto de uma
investigação, apresentamos uma
versão de nossa experiência (Franco,
2016), que envolve os caminhos
percorridos por um corpo interessado e
atento a certos elementos circunscritos
em determinado espaço e tempo. Eis
então, o que caracteriza uma pesquisa
ética e responsável que pode
responder por seus achados. Trata-se
daquela que põe à disposição do leitor
a trajetória traçada na construção de
seu saber; que compreende as
relações e amarrações necessárias à
sustentação de determinado
argumento. Nisso consiste um
conhecimento que se localiza. Aqui,
novamente, é possível perceber uma
aproximação entre cartografia e
narrativa, uma vez que envolve
mapeamento das posições que
construíram saberes, por meio de uma
história que é contada.
Afirmar que toda pesquisa é uma
narrativa, decorrente da escolha de um
modo de contar sobre o observado ou
coletado no campo , é um ato político,
uma vez que interfere nas relações e
posições de poder que articulam
saberes e normas que regem o meio
183
FONSECA, Vanessa do Nascimento. Narrativa e memória na análise das
transformações relacionadas a intervenções sociais em gênero.
PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.179-206, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
social. Do mesmo modo, é possível
pensar uma “política da narratividade
como uma posição que tomamos
quando, em relação ao mundo e a si
mesmo, definimos uma forma de
expressão do que se passa, do que
acontece” (Passos e Barros, 2009, p.
151). A partir desse ponto, podemos
presumir que, se todo o conhecimento
que extraímos do mundo não é a
descoberta da verdade, mas uma
produção política, é preciso cuidar das
relações e compreender que todo saber
é uma composição feita entre
interlocutores (pesquisadores e
pessoas observadas) e tudo mais que
atravessa o campo de investigação,
incluindo o tempo.
Portanto, como será debatido
adiante, a análise realizada das
abordagens empreendidas nas
pesquisas de doutorado e pós-
doutorado não tem a pretensão de
concluir qual o melhor método para se
extrair a verdade de um fato. As
pesquisas não visavam alcançar
qualquer verdade a respeito de fatos,
mas buscaram produzir recortes que
visibilizassem determinadas
problemáticas, dar sentido aos afetos
em campo, mapear efeitos etc., abrindo
espaço para elaborações, ou hipóteses
que nos levassem a percorrer novos
caminhos, desviar de certos obstáculos
e produzir conexões com trabalhos
semelhantes. Conjugadas às práticas
sociais, refletindo-as, produziram
deslocamentos nos modos de fazer
analisados.
As relações em campo foram
profundamente refletidas de gênero,
de faixa etária, de raça, de
regionalidade, de nível educacional , a
partir de uma crítica às hierarquias
entre quem pesquisa e a pessoa
pesquisada. Ambos os estudos
produziram uma mirada para o
passado, dispondo do trabalho do
tempo na elaboração da experiência.
Tempo e espaço são
inseparáveis do processo narrativo. Se
as narrativas são tecituras das
significações atribuídas à experiência
pelo sujeito em seu movimento no
espaço, do mesmo modo, são
possíveis no tempo. De acordo com
Larrosa (2017), a experiência é
significada no tempo, pela memória.
Enquanto experiência é o próprio
acontecimento, memória é o que
sentido à experiência, a partir de uma
elaboração presente do vivido, como
será aprofundado à frente. É assim que
o tempo é um componente importante
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FONSECA, Vanessa do Nascimento. Narrativa e memória na análise das
transformações relacionadas a intervenções sociais em gênero.
PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.179-206, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
da própria experiência. Se, para o
autor, a experiência é algo que nos
acontece, nos toca, é necessário um
gesto de interrupção, de parada: para
pensar, para escutar, pensar mais
devagar, ouvir mais devagar. Cabe
destacar que a memória não é o retrato
mental do passado, mas a constante
elaboração da experiência. Por
constante, refiro-me a que tal
elaboração não se repete, se modifica
a todo instante, agenciando-se aos
fatos do momento em que a memória é
convocada. Nesse sentido, a
cartografia da memória, ou a narrativa
que deu sentido aos eventos passados,
pode ser considerada a rememoração
agenciada com os fatos presentes,
prerrogativa evidente na execução das
duas pesquisas, com como também
será mencionado adiante.
As investigações, dessa
maneira, instauraram uma pausa, ou
instituíram outra velocidade na minha
prática de trabalho social. Isso nada
tem a ver com uma separação entre
teoria e prática. De modo algum, me
refiro a um olhar externo, que se volta
das alturas para um fazer. Mas se,
segundo Larrosa (2017), a experiência
é o que nos toca, nos acontece e, para
tal, é preciso calma e lentidão para que
haja afetação, a disputa é contra a
aceleração do tempo, própria aos
fazeres da contemporaneidade.
Assim, a partir das questões
levantadas nesta breve introdução,
discutirei, neste artigo, os processos
que subsidiaram a escrita dos
documentos, produtos das pesquisas
implementadas no doutorado e no pós-
doutorado.
Diários de uma mulher latino-
americana na transformação das
masculinidades
Por onze anos, atuei na
realização de pesquisas, produção,
testagem e adaptação internacional de
metodologias para o envolvimento dos
homens na equidade de gênero, por
meio da crítica às masculinidades. Tais
atividades incluíam a criação de jogos,
literatura, exercícios de grupo e
campanhas de marketing social, e são
frutos de demandas e financiamentos
de organizações bilaterais na busca
para reduzir desigualdades de gênero
nos países do Sul-Global,
principalmente.
Desde a segunda metade da
década de 1990, iniciativas sociais que
convocavam os homens cis a também
revisitar seu papel nas relações de
185
FONSECA, Vanessa do Nascimento. Narrativa e memória na análise das
transformações relacionadas a intervenções sociais em gênero.
PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura,
Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.179-206, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
gênero foram impulsionadas por alguns
fatores: a ampliação dos estudos sobre
masculinidades; as pesquisas sobre
globalização e desenvolvimento e seu
impacto na vida das mulheres (Connell,
2016); as grandes conferências
internacionais que ajudaram a chamar
a atenção dos governos para as
reivindicações feministas, sobretudo a
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População e Desenvolvimento de 1994,
no Cairo, e a IV Conferência Mundial
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enfrentamento do HIV/Aids e o
levantamento de questões em relação
à eficácia das ações preventivas caso
não fossem discutidas as relações de
subordinação às quais mulheres e gays
estavam submetidos (Heilborn e
Carrara, 1998). Esses e outros
acontecimentos favoreceram uma
crescente oportunidade de
financiamentos de pesquisas e
intervenções voltadas para o
conhecimento dos homens, cisgêneros
sobretudo, e a alteração de seus
comportamentos (Fonseca, 2023).
Com isso, institutos de pesquisa e
organizações da sociedade civil que
começaram a se formar naquele
período se engajaram na realização
de estudos que correlacionavam a
transformação das masculinidades a
resultados positivos no enfrentamento
e cuidado da aids, na redução da
violência contra mulheres e crianças e
na promoção dos direitos reprodutivos.
Um dos motes orientadores dos
esforços para a mobilização dos
homens cis na crítica de seus lugares
nas relações de gênero foi lançado pelo
diretor executivo da UNAIDS, Peter
Piot, em 2000, quando anunciou que,
se os homens são parte do problema,
deveriam também ser parte da solução
(Arilha, 2010). Tais financiamentos
também favoreceram a partilha de
experiências e metodologias entre
países, em que, não raro, o Norte
Global teorizava e criava escopos de
intervenção, enquanto o Sul fornecia as
experiências (Connell, 2012; Ballestrin,
2013).
Como parte de uma organização
co-fundadora de uma aliança
internacional para o engajamento de
homens cis na promoção de justiça de
gênero e direitos humanos, e dirigida
por um importante estudioso
estadunidense das masculinidades, fui
convocada a realizar consultorias para
a adaptação de metodologias
186
FONSECA, Vanessa do Nascimento. Narrativa e memória na análise das
transformações relacionadas a intervenções sociais em gênero.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
consideradas transformadoras das
masculinidades em países da América
Latina (Peru, Paraguai, Bolívia,
Nicarágua, Guatemala, El Salvador e
Honduras, além do Brasil) e da África
(Moçambique, Mali e Costa do Marfim).
A encomenda, desse modo, era “como
transformar os homens [cis] para o
alcance de melhores resultados em
saúde e direitos humanos,
especificamente no que diz respeito à
igualdade de gênero?”. O trabalho de
assessoria a esta questão era realizado
através de formações que visavam
adaptar ferramentas elaboradas e
avaliadas, no Brasil, por meio de teorias
e escalas de atitudes e
comportamentos masculinos, criadas
em universidades do Norte Global.
As atividades realizadas para a
adaptação de técnicas de mudanças de
comportamentos masculinos em
contextos culturalmente muito diversos,
geraram muitos desafios, mas,
sobretudo, estranhamentos,
incômodos, afetos que precisavam ser
significados. O que significa
transformar masculinidades? Debater
novos modelos de homens cis
transforma relações de poder? Quem
produz tais modelos? Como se
configura a demanda pela
transformação? Uma mulher cis é
capaz de convencer os homens cis a
refletirem sobre seus modos de ser?
Como uma estrangeira pode estimular
o debate em outros países? É o
machismo o principal problema na
relação de uma mulher latino-
americana com os homens cis brancos
do Norte-Global? Ocasionalmente,
havia dúvidas e interpelações a
respeito do fato de uma mulher cis
brasileira, jovem na época, trabalhar
para sensibilizar os homens cis para
assumirem um papel no enfrentamento
das desigualdades de gênero.
Acreditava-se que homens cis
conseguiriam de ouvir a outros homens
cis. Essas e outras indagações, bem
como situações diversas, embasaram a
produção de notas e diários de campo
usados na confecção da tese.
Formada pelas pesquisas-
participantes na área da psicologia
social, as intervenções realizadas ao
longo de meu trabalho no campo do
gênero não estavam separadas da
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FONSECA, Vanessa do Nascimento. Narrativa e memória na análise das
transformações relacionadas a intervenções sociais em gênero.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
produção de analisadores
2
que faziam
operar as práticas com os grupos. Para
tal, o relato frequente em diários era
fundamental. A partir da anotação
cotidiana das vivências, inquietações,
estranhamentos, reações dos grupos,
indagações etc., era possível produzir
análises e recriar direcionamentos para
as intervenções. Os diários registravam
o que poderia ser acionado na redação
dos relatórios, ofereciam um plano de
pensamento e análise, além de recurso
na visibilização de deslocamentos que
as lentes das metodologias de
avaliação quantitativa, de mudança de
comportamentos e atitudes, não nos
permitiam enxergar. Eram instrumento
de defesa da reprodução ou da
alteração das práticas utilizadas. Novas
intervenções eram planejadas com os
grupos trabalhados a partir dos diários
de campo, além de facilitar a produção
de narrativas, alternativas às
mensurações quantitativas de
mudanças de comportamento, que
auxiliavam nas negociações com
agências bilaterais e organizações
parceiras, colocando em análise as
2
Na análise institucional, aquilo que se revela
para a análise. Analisador se refere a
"acontecimento, indivíduo, prática ou
dispositivo que revela, em seu próprio
encomendas feitas e suas demandas
por produtivos e todos avaliativos
restritos. Os diários eram, portanto,
ferramenta metodológica, histórica e
política, tal como preconiza Lourau
(1993).
A formação como pesquisadora
a partir da abordagem etnográfica e,
posteriormente, os estudos sobre
análise-institucional, pesquisa-
intervenção e cartografia, embasaram
as escritas dos diários de campo. A
manutenção regular de anotações em
que quem observa mapeia os
acontecimentos do campo é
fundamental nessas práticas de
pesquisa e ação social. As reações, os
conflitos, os afetos, os cenários, as
paisagens, os movimentos, os relatos,
tudo o que foi ouvido e vivido é descrito,
para ser refletido, revisitado, analisado
e dar forma a novos mapeamentos dos
processos em campo. Não se trata
somente do relato de opiniões ou da
interpretação dos fatos, mas do registro
dos acontecimentos em sua
processualidade, em seu movimento,
com suas conexões e os afetos que
funcionamento, o impensado de uma estrutura
social tanto a não conformidade com o
instituído como a natureza deste mesmo
instituído" (Rodrigues; Souza, 1987, p. 29).
188
FONSECA, Vanessa do Nascimento. Narrativa e memória na análise das
transformações relacionadas a intervenções sociais em gênero.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
atravessam o ato de investigar,
“sempre considerando os efeitos do
processo do pesquisar sobre o objeto
da pesquisa, o pesquisador e seus
resultados” (Passos; Barros, 2009, p.
17).
Cartografia envolve, por meio de
uma narrativa, acompanhar processos
que se dão no território existencial, no
plano da experiência, sem encobrir
“tensionamentos de um movimento que
se inscreve em uma realidade
complexa e multireferencializada”
(Aguiar; Rocha, 2007, p. 651).
Processo é curso, deslocamento, e um
campo de pesquisa é uma rede
complexa de atores, negociações e
fluxos que geram instabilidades, de
modo que cartografia “é menos a
descrição de estados de coisas”
(Alvarez; Passos, 2009, p.135), do que
o acompanhamento de trajetórias. Não
enquadramento ou fotografia que dê
conta do que se passa no campo.
Narrar implica em seguir a
inconstância.
Com base nesses preceitos, os
onze anos que atravessaram o trabalho
social nas transformações das relações
de gênero a partir dos homens cis,
geraram um acúmulo de materiais
(projetos, encomendas, diários de
campo, relatórios, cadernos de
atividades, artigos, cartazes, folhetos
de campanha) que incitaram, então, o
desejo de analisar essa experiência de
trabalho a partir de novos olhares. Além
dos interlocutores do programa de pós-
graduação e das novas leituras, novas
articulações eram também feitas com
os membros de organizações para o
envolvimento dos homens cis na
equidade de gênero. A aproximação
para busca de documentos, materiais e
produções bibliográficas possibilitava
conversas que inspiravam análises
também registradas em diários. Dessa
forma, os conteúdos analisados não se
restringiam ao passado, envolveram
novas buscas, e eram a reverberação
da memória no presente, expressos em
uma narrativa confeccionada durante
um período de efervescência do debate
sobre gênero e sexualidade: tentativa
de desmontes de conquistas em prol da
equidade e diversidade, crescimento de
grupos masculinistas e reacendimento
do conservadorismo, ao lado de novos
levantes de mulheres, grande volume
de traduções e debates sobre
feminismo. A cartografia da memória
documentada nos diários, materiais
educativos e de campanha foi
entremeada/ costurada em uma
189
FONSECA, Vanessa do Nascimento. Narrativa e memória na análise das
transformações relacionadas a intervenções sociais em gênero.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
narrativa que aciona as memórias
registradas no corpo e os
acontecimentos presentes, novas
leituras, novas problematizações,
novos encontros.
O trabalho de tese se inscreveu,
assim, no tempo tão adiado de parar e
pensar sobre as práticas que
constituíram minha luta no campo
feminista, seus desafios e
complexidades, sendo agraciado pelo
adensamento do debate feminista no
Brasil e suas novas problematizações.
Todavia, como mencionado
previamente, essa temporalidade não
opõe teoria à prática, pesquisa à
intervenção. A recuperação dos
documentos, a busca pelos materiais
das intervenções produziu novas
interlocuções e inserções no campo,
que se desdobraram em novas
análises, outras práticas, que se
entremeavam e ofereciam novos
conteúdos e perspectivas dos arquivos
antigos. Intervenção e pesquisa
andavam juntas.
O intuito da pesquisa, portanto,
não foi o olhar para o passado a partir
de uma posição distante e desvelar a
realidade dos fatos vividos. Mas,
organizar as ideias e narrá-las a partir
de um encadeamento lógico, tecido em
colaboração com autores que tratam de
assuntos semelhantes. Nesse sentido,
o propósito foi possibilitar novas
interpretações em diálogo com novas
produções no campo; ampliar os
sentidos do vivido; produzir indagações
sobre hábitos, práticas impensadas
pela automatização de sua realização
e, ao contá-las, facilitar ressonâncias
com outros fazeres, continuar
experimentando desafiar as normas de
gênero a partir de novas práticas,
horizontes, lugares outros, favorecer
heterotopias. Nesse sentido, não é uma
utopia, um ponto a ser vislumbrado no
futuro, mas, de acordo com Foucault
(2013), um espaço intenso e
transformador. Uma transformação,
portanto, como uma condição subjetiva,
de abertura aos acontecimentos, e não
uma meta estabelecida previamente.
Tempo e transformação: contra a
aceleração das práticas sociais
Ao fazer uma análise crítica das
avaliações dos projetos de
transformação das masculinidades,
depreendemos que transformação não
é algo que se estabelece de antemão.
Transformação é processo, não o
objetivo de nossas intervenções. É
nesse sentido que a transformação é a
190
FONSECA, Vanessa do Nascimento. Narrativa e memória na análise das
transformações relacionadas a intervenções sociais em gênero.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
criação de possíveis (Rocha e Aguiar,
2003), a partir da produção de
analisadores, problemas, questões
“que favorecem a produção de
acontecimentos” (Paulon, 2005, p. 22).
A transformação, o deslocamento, é a
própria intervenção. A definição dos
lugares de chegada previamente
como a noção de um homem cis
transformado a partir de
comportamentos definidos por um
contratante externo ao coletivo
participante dos processos de
formação não é senão a reprodução
das relações de poder na ciência e na
política, nos quais os ditames do Norte
Global orientam os rumos do mundo,
com suas fórmulas simplificadoras das
contradições e da complexidade da
vida humana.
A pesquisa-intervenção e a
cartografia, críticas às tradicionais
relações de poder entre quem pesquisa
e a quem se pesquisa, afirmam que
metas devem ser traçadas no percurso
do estudo (Passos; Barros, 2009),
assim como é no encontro com os
coletivos que as transformações se
dão. Entretanto, contrariamente às
demandas para averiguação da
alteração dos comportamentos
masculinos em intervalos temporais
curtos, a partir de um conjunto de
técnicas específicas, era possível notar
que, além de imprevisíveis, as
mudanças se davam ao longo de um
tempo que extrapolava os encontros
coletivos.
A continuidade da minha relação
com ex-participantes dos projetos
sociais para a equidade de gênero me
permitia perceber deslocamentos que
permaneciam acontecendo em suas
trajetórias, a partir da circulação por
novos espaços e novas inserções de
trabalho. A ocupação de novos lugares
fazia ressoar a memória de suas
vivências nos projetos sociais,
possibilitando novos sentidos para sua
atuação no mundo.
Assim, interessada em ouvir
mais profundamente a perspectiva das
pessoas egressas dos projetos sociais
sobre suas mudanças ao longo dos
anos e, com base na ideia de que as
transformações requerem um tempo
para acontecer, a proposta de pesquisa
no pós-doutorado objetivava analisar a
trajetória de mulheres e homens, cis e
trans, de uma favela do Rio de Janeiro,
ex-participantes de projetos sociais
voltados para promoção da saúde
sexual e reprodutiva e equidade de
gênero, no início dos anos 2000.
191
FONSECA, Vanessa do Nascimento. Narrativa e memória na análise das
transformações relacionadas a intervenções sociais em gênero.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
Tratou-se de um estudo
socioantropológico que envolveu
análise documental, entrevistas com a
equipe de coordenação de dois
projetos sociais desenvolvidos na
favela em questão, além da coleta das
narrativas de dez ex-participantes de
projetos sociais. Cabe mencionar que
atuei como educadora em um dos
projetos no qual o trabalho de
pesquisa-intervenção também gerou
grande número de materiais escritos,
reflexões e marcas no meu modo de
pensar e fazer trabalhos sociais.
Os conflitos entre o grupo,
oriundos da negociação entre
demandas dos financiadores, o
controle para avaliação de impacto e as
ações criativas dos jovens, bem como
suas vontades de alteração das
práticas, provocaram problematizações
acerca das relações de poder, as zonas
de invisibilidade dos cursos das
práticas sociais e a desvalorização da
potência criativa dos coletivos. Desse
modo, é inegável que a narrativa das
pessoas entrevistadas tenha ganhado
recortes e interpretações a partir de
minhas próprias memórias, fato
analisado e explicitado na tecitura dos
textos analíticos.
Outro fator motivador da
pesquisa foi o desmonte das políticas
sociais na área da saúde e dos direitos
sexuais e reprodutivos, a partir dos
primeiros anos de 2010. Além de cada
vez mais esvaziadas de uma
perspectiva de direitos humanos e de
crítica às desigualdades sociais, ações
de prevenção à Aids voltadas ao
público jovem, LGBTQIA+ e prostitutas
foram censuradas, com uma crescente
resistência ao debate sobre gênero e
sexualidade nas escolas. Tem havido
uma evidente redução de intervenções
educativas, nacionais e locais, sobre o
tema (Paiva et al., 2020; Seffner;
Parker, 2016). Tal redução foi notada
por minhas andanças na favela, quinze
anos depois da participação em um dos
projetos sociais mencionados. Ao voltar
ao território, para a realização de uma
pesquisa (anterior ao projeto de pós-
doutorado), notei a ausência de ações
dirigidas à educação em sexualidade,
cuidado com a saúde e prevenção do
HIV/Aids, que antes eram abundantes.
O cenário atual contrasta com as
iniciativas governamentais e não
governamentais da década passada,
caracterizadas pela criação de espaços
de aprendizagem e diálogo (Russo;
Arreguy, 2015; Paiva et al., 2020;
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FONSECA, Vanessa do Nascimento. Narrativa e memória na análise das
transformações relacionadas a intervenções sociais em gênero.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
Monteiro et al., 2019). Embora nunca
tenhamos alcançado uma sociedade
com amplo apoio aos direitos sexuais e
reprodutivos, tivemos avanços
relevantes no rompimento do silêncio
em torno da sexualidade, que incluíram
diversas políticas e programas,
resultantes da mobilização para o
enfrentamento ao HIV/ Aids e das
negociações da ONU em torno do
gênero e da saúde reprodutiva, na
década de 1990 (Corrêa, 2008). A
resposta brasileira para a Aids até o
início da década de 2010, ainda que
não ausente de críticas, era
considerada exemplar, o que rendeu ao
país um lugar de destaque no cenário
internacional, além de recursos para a
experimentação e aprimoramento de
estratégias inovadoras e a cooperação
com outros países. Sobretudo nas três
primeiras décadas de epidemia de
HIV/Aids, foram desenvolvidas
intervenções criativas e afinadas às
demandas de diferentes grupos sociais
e resultantes do ativismo e da
articulação de diversos atores, como
artistas, gestores blicos,
acadêmicos, empresas privadas,
pessoas vivendo com HIV/Aids e até
grupos religiosos (Seffner; Parker,
2016; Agostine et al., 2019).
A ação vinculada desses grupos,
frente às questões sociais, permitiu o
reconhecimento das limitações das
propostas preventivas centradas
apenas na divulgação de informações e
na responsabilização individual,
apontando para as condições de
vulnerabilidade às IST/Aids, que
considerem também fatores sociais e
programáticos (Fonseca; Monteiro;
Nascimento, 2022). Ainda, tendo em
vista a complexidade que cercou o
problema da Aids no Brasil, afetando a
grupos com condições de
vulnerabilidade variadas (jovens,
mulheres, moradores de favela etc.), as
agendas de trabalho para o
enfrentamento da epidemia de
HIV/Aids foram associadas a temáticas
diversas, críticas às desigualdades de
gênero, faixa etária, orientação sexual,
raça e classe social.
Cabe ressaltar a influência do
pensamento de Paulo Freire na
formulação de políticas de saúde
baseadas na promoção da cidadania
e não na de consumidores indi¬viduais
de serviços e produtos (Paiva; Peres;
Blessa, 2002). A abordagem da
educação popular freireana, presente
em projetos de formação em favelas e
comunidades populares antes mesmo
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FONSECA, Vanessa do Nascimento. Narrativa e memória na análise das
transformações relacionadas a intervenções sociais em gênero.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
da emergência da Aids, foi compatível
com a ideia de que os comportamentos
e atitudes são impregnados pelo
contexto social. Na metodologia de
educação popular, os participantes são
engajados no questionamento das
forças que os oprimem (Freire, 1979). A
conjuntura de disseminação do vírus
HIV entre populações mais vulneráveis
demandou uma ação problematizadora
da realidade, com vistas a à sua
transformação, assim como difundiu
Freire.
Em síntese, as intervenções
para o enfrentamento da Aids, dirigidas
aos grupos mais vulnerabilizados,
afirmaram a importância do trabalho
crítico-emancipatório das
desigualdades sociais, em que a
participação dos mais afetados na
construção de estratégias de
prevenção possibilitou respostas mais
sensíveis às suas necessidades e
realidades. O enfrentamento às
diversas opressões foi uma marca da
resposta para a Aids, relacionada à
ampliação do acesso aos direitos
humanos e de recursos para o cuidado
com a saúde sexual e reprodutiva.
Essas práticas foram consideradas
lições que, como mencionado,
renderam ao Brasil um lugar de
destaque no cenário internacional, e
investimentos no campo das ações
educativas voltadas à sexualidade e ao
cuidado com a saúde reprodutiva que,
atualmente, passam por um período de
desmantelamento.
De acordo com Seffner e Parker
(2016, p. 294) o desmonte “da
capacidade das políticas públicas
brasileiras em reduzir a homofobia; de
cuidar das pessoas vivendo com
HIV/Aids; de educar jovens sobre
questões de sexualidade, gênero e
doenças sexualmente transmissíveis”,
somado à valorização do tratamento
em detrimento das abordagens de
questões sociais, seria “fruto de longo
processo de desperdício da
experiência” (idem).
O desperdício da experiência
está relacionado à limitação da
experiência por uma ideia de razão
moderna. Na medida em que avança
uma nova racionalidade na
modernidade, “o tempo passou a ser
administrado a favor de certos
métodos, com o objetivo de alcançar
determinados fins” (Aguiar, 2012, p.
61). Na atualidade, o tempo se estreita
ainda mais, realidade reproduzida,
inclusive, nas ações sociais no campo
da saúde e dos direitos humanos. Com
194
FONSECA, Vanessa do Nascimento. Narrativa e memória na análise das
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
a necessidade de justificar recursos
empregados, exige-se que o tempo e a
escala de alcance se adequem às
relações de custo-benefício: um maior
número de pessoas alcançadas em
menor tempo é de mais fácil apoio
financeiro, em que métodos sintéticos,
de simples replicação e curto prazo
ganham a preferência (Fonseca, 2023).
O lugar da experiência e da maturação
dos acontecimentos não previstos tem
sido lançado a segundo plano
décadas, e de forma cada vez mais
brusca nos modos atuais de
organização da sociedade. Walter
Benjamin (1987, p.198), ao falar de
uma perda crescente da capacidade
narrativa, explica que “uma das causas
desse fenômeno é óbvia: as ações da
experiência estão em baixa, e tudo
indica que continuarão caindo até que
seu valor desapareça de todo”.
Com Larrosa (2017, p.18),
pensador de influência benjaminiana,
consideramos que “experiência é o que
nos passa, o que nos acontece, o que
nos toca. Não o que se passa, o que
acontece, o que toca”. Para que algo
nos toque, crie experiência, é
necessário tempo para suspender a
juízo e a automação da ação, requer
parar para pensar, olhar e escutar, ou
fazê-lo mais devagar, algo cada vez
mais difícil nos tempos que correm.
Embora de significados distintos,
experiência e memória são
dependentes uma da outra. Se a
experiência é o próprio acontecimento,
memória é o que sentido à
experiência, a partir de uma elaboração
presente do vivido. É assim que o
tempo é um componente importante da
própria experiência.
No projeto de pesquisa sobre as
trajetórias de ex-participantes de
projetos sociais, a memória serviu de
artifício político no enfrentamento do
desmonte das conquistas sociais para
a redução das desigualdades, uma vez
que ajudou a evocar as condições de
possibilidade, zonas de invisibilidade,
contradições, conflitos, relações
impensadas, além de afirmar as lições
aprendidas com seus processos.
Ainda, com a privação crescente do
tempo e da experiência, o exercício
narrativo, a partir da memória das
trajetórias de participantes em projetos
sociais nos anos 2000, se constituiu
como estratégia política pela afirmação
de práticas de investigação contrárias
aos reducionismos científicos,
sustentados pela ilusão da
neutralidade, da estabilidade e de certo
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FONSECA, Vanessa do Nascimento. Narrativa e memória na análise das
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
modo de racionalidade denunciados
pelos diversos feminismos (Haraway,
1995; Collins,2019).
As reverberações do presente na
memória: modos de tecer narrativas
Refletindo o intervalo que se deu
entre a interrupção das intervenções
analisadas e o tempo da memória
relatada, a elaboração da experiência
como fonte de análise aqui, não tem a
intenção de representar “prova
incontestável” (Scott, 1998, p. 301) dos
acontecimentos, mas produzir
elementos que interrompam as
perspectivas únicas. Seguindo as
críticas de Jeanne Marie Gagnebin
(2006) sobre a naturalização da relação
entre presente e passado, não se trata
de um resgate do passado pela
memória, nem de perseguir a verdade
sobre o que foi. Isso posto, não se
tratou, nos projetos de pesquisa, de
avaliar as práticas sociais realizadas ou
apresentá-las como exemplos a serem
copiados. Todavia, a partir do exame
das lições, oportunidades, princípios
ético-políticos e metodológicos dos
projetos sociais, intentava-se olhar para
a multiplicidade de eventos que
atravessaram as intervenções e
permitiram escapar de práticas
reducionistas, individualizantes e
homogeneizantes (Fonseca; Monteiro;
Nascimento, 2022). Destaco que,
quando me refiro à multiplicidade de
eventos que produzem e deslocam os
acontecimentos, não tenho a intenção
de contabilizá-los, de rastreá-los no
sentido de cobrir a totalidade dos
processos. Tenho, sobretudo, o intuito
de contradizer os reducionismos
simplistas das técnicas que
homogeneízam e capturam
subjetividades.
Considerando a chegada do
momento de analisar a experiência
(Corazza, 1996), as pesquisas forjaram
uma parada no tempo de trabalho, ou
melhor, um novo curso na
temporalidade das práticas, uma vez
que essas nunca pararam totalmente e
interferiam nos arranjos dos
acontecimentos passados necessários
à composição da narrativa da tese e
dos artigos. Tal momento de análise
coincidiu, por um lado, com uma série
de retrocessos políticos no campo dos
direitos humanos, sobretudo do gênero,
e reações conservadoras aos
movimentos emancipatórios. Por outro
lado, aconteceu concomitantemente a
expansão do acesso a abordagens e a
feminismos contra-hegemônicos, bem
196
FONSECA, Vanessa do Nascimento. Narrativa e memória na análise das
transformações relacionadas a intervenções sociais em gênero.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
como a ampliação da diversidade de
movimentos de mulheres no Brasil.
Todos esses fatores
movimentaram as questões e reflexões
levantadas ao longo da escrita dos
textos resultantes das pesquisas,
alterando o foco e os sentidos
oferecidos aos acontecimentos postos
em análise. A narrativa era o próprio
movimento de análise que, ao buscar
costurar os fatos documentados (nos
diários de campo, materiais educativos
e de campanha, relatórios, artigos,
transcrições de entrevistas), alterou
antigas formas de pensar o campo. Por
exemplo, não se tratava mais de pensar
como os homens cis podiam ser
transformados, como eu tentava
entender no início da tese, mas que
práticas, tensões e relações de poder
são invisibilizadas quando o alcance e
o conteúdo das transformações
subjetivas são estabelecidos de
antemão.
Em ambas as pesquisas,
depreendeu-se que as restrições
impostas ao tempo dos projetos se
apresentaram como limitadoras das
possibilidades de criação nos
encontros com os coletivos. Na
administração cerceadora do tempo, as
metas de transformação são
estabelecidas de antemão, por quem
tem o controle dos recursos financeiros
e domina as lógicas de linguagem, de
apresentação sucinta dos dados, a
simplificação das relações e de
ocultamento das contradições, que são
próprias da colonialidade do saber.
Teorias críticas da colonialidade
indicaram que relações de poder entre
o Norte e o Sul Globais se baseiam em
hierarquias de conhecimento que se
atualizam tanto nas formações
acadêmicas quanto nas lutas
emancipatórias, quando não põem em
análise pressupostos dominantes na
produção de conhecimento, que
valorizam a estabilidade, a ordem e a
regularidade (Fonseca, 2023). Os
saberes provenientes das ditas
metrópoles mundiais assumiram status
de verdade por meio de uma rie de
artifícios que privilegiaram uma lógica
única na produção de conhecimentos,
útil ao domínio colonial moderno. Tal
colonialidade se mantém viva “nos
manuais de aprendizagem, nos
critérios para os trabalhos acadêmicos,
na cultura, no senso comum, na
autoimagem dos povos, nas aspirações
dos sujeitos, e em tantos outros
aspectos de nossa experiência
moderna” (Maldonado-Torres, 2007,
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FONSECA, Vanessa do Nascimento. Narrativa e memória na análise das
transformações relacionadas a intervenções sociais em gênero.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
p.131). Os digos hegemônicos de
produção de saberes começam a ser
assimilados desde muito cedo, de
modo que o universalismo, a
linearidade, a verdade, o causalismo e
os dualismos se constituem como eixos
centrais na formação dos rituais
escolares, atualizando-se através dos
dispositivos do conhecimento científico”
(Rocha; Aguiar, 1992, p. 89). Assim, a
colonialidade atravessa o planejamento
e a execução das práticas sociais, bem
como os modos de as analisar, registrar
e divulgar.
Nessa racionalidade científica, de
metas definidas previamente, a
pesquisa costuma ser de confirmação
ou refutação do percurso elaborado.
Trata-se de averiguar se a rota traçada
leva ou não ao ponto estimulado pelos
critérios de verdade. No caso das
intervenções nas masculinidades,
recomendava-se averiguar se
determinadas cnicas mudavam
comportamentos para o que era
considerado um “homem
transformado”. No caso dos projetos de
saúde sexual e reprodutiva com jovens,
muitas vezes, avalia-se a aquisição de
certos comportamentos preventivos de
ISTs e de gravidezes. Todavia, como
possibilitar a criação de novas práticas?
Novas interrogações? O acesso a
outros lugares? A produção de novos
caminhos? Nessa lógica, perdem-se os
desvios, os conflitos que impõem novas
questões, as instabilidades que
convocam a novas perspectivas do
problema.
Nas práticas de educação popular, de
pesquisa-intervenção, feministas,
decoloniais, ou seja, práticas que
rompem com as hierarquias de
conhecimento entre participantes da
pesquisa (quem pesquisa/a quem se
pesquisa, quem educa/ a quem se
educa), as metas são feitas e refeitas
nos encontros, que são saturados de
embates, reviravoltas e complexidades
próprias às relações humanas. Esse
modo de fazer das práticas sociais é
também o modo de as analisar. Um
fazer crítico às relações de poder
coloniais, incluindo gênero, raça e
classe, que permeiam as práticas
sociais, supõe também um novo modo
de as pensar e as registrar. Assim, o
acompanhamento dos processos e de
suas intensidades requer postura de
abertura ao que tais processos podem
gerar. Nesse sentido, ainda, a narrativa
não é descrição dos fatos, ou a
reprodução das ideias no papel, mas
supõe a própria construção do
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transformações relacionadas a intervenções sociais em gênero.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
pensamento, é algo que acontece em
ato.
Era desse modo que as transformações
se apresentavam para mim em campo,
como processos que se desvelavam
sem previsão ou controle, frutos de
uma a realidade móvel, a todo tempo
em processo de construção, com
múltiplas entradas possíveis de
interrogação das práticas, tal como
expressam Katia Aguiar e Marisa
Rocha (2007). O próprio curso da
escrita deve produzir analisadores e
estar atento à possibilidade de desvios
de rota e recolocação de questões.
Ao longo da pesquisa iniciada
para a tese, entendi que a análise das
práticas de engajamento de homens,
cis e trans, na transformação de suas
masculinidades, ou para a aquisição de
hábitos saudáveis e equânimes entre
jovens nos projetos de prevenção ao
HIV/Aids, não se daria pela tentativa de
responder o que consegue produzir
mudanças, ou não. Tratava-se de
formular questões sobre concepções
que sustentam as pprias práticas, os
lugares de quem as compõe e o
conteúdo e o modo como as
encomendas são feitas. Quanto mais
eu me aproximava de novas leituras
sobre os feminismos interseccionais e
decoloniais e sobre micropolítica, mais
sentia a necessidade de indagar minha
própria experiência e perspectivas
teóricas. As leituras se conectavam
imediatamente com minhas
inquietações sobre o campo, em um
processo no qual os estímulos do
presente construíam a memória do
passado. Foi desse modo que a
memória a que me referi nos trabalhos
de pesquisa discutidos aqui, dizia
respeito aos documentos guardados e
à memória gerada a partir da escrita.
Isso significa que memória é também
criação e não um retrato fiel de eventos
passados. Nesse processo, as
condições do presente davam contorno
a escrita do passado.
Os registros, ao ganharem
novos recortes e composições para
caberem nos limites de uma tese,
adquiriam novas nuances e
problemáticas, a partir do movimento
do pensamento, conjugado às
possibilidades de análise oferecidas
pelas diferentes autoras das quais me
aproximava. A aproximação entre as
referências bibliográficas e a
experiência narrada não é, mais uma
vez, de qualquer comprovação da
verdade ou tentativa de universalidade
dos fatos, mas de busca de sintonia e
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
apoio na produção de sentidos comuns.
Meu compromisso era, portanto, com
“um conhecimento afinado à
ressonância, não à dicotomia”
(Haraway, 1995, p.29).
As epistemologias feministas
que repercutiram no Brasil no momento
da elaboração de minha tese
influenciaram minhas análises das
práticas para transformação das
masculinidades e, consequentemente,
minha percepção dos projetos sociais
com jovens, dos quais fiz parte, e foram
analisados no pós-doutorado, a partir
das trajetórias de ex-participantes. A
perspectiva interseccional ampliou a
análise da localização do pesquisador
em campo, bem como as reflexões
sobre os efeitos dos lugares dos
propositores de projetos internacionais
de promoção de direitos humanos,
dentre os quais incluo os do campo do
gênero e da saúde reprodutiva.
Reconhecida como um paradigma de
pesquisa, a teoria da
interseccionalidade nome a um
compromisso teórico e político, com
mais ênfase a uma matriz de opressão/
privilégio (Nogueira, 2017). Fruto de
uma crítica das mulheres negras ao
feminismo liberal e a universalização
das mulheres, uma análise
interseccional captura, por exemplo,
como diferentes níveis de
discriminação criam oportunidades,
benefícios sociais e materiais para
aqueles que gozam de estatutos
normativos não marginalizados, como
homens cis, heterossexuais, brancos,
de classe alta (Nogueira, 2017), de
modo a colocar a questão também
sobre os como são formados os lugares
de privilégio muitas vezes
naturalizados e não percebidos em
projetos que reivindicam a justiça
social.
Em articulação com os debates
do feminismo decolonial, as
ferramentas propostas pela teoria da
interseccionalidade permitiram produzir
questões analisadoras das
metodologias e demandas para
projetos sobre masculinidades, uma
vez que reconhece que as tecnologias
produzidas no Norte Global não devem
pressupor um modelo de ser humano
universal. Tal pressuposição cria
indicadores e metas difíceis de serem
alcançadas pelos sujeitos, além de
tornarem invisíveis suas histórias.
Mantém o domínio das técnicas nas
mãos dos mesmos. Com isso, notei que
meu desconforto e as desigualdades na
relação com os especialistas das
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masculinidades não se deviam,
principalmente, ao fato de serem
homens cis, mas serem brancos e
oriundos de países que dominam a
linguagem e as gicas hegemônicas
de comunicação e apresentação dos
saberes.
Por meio das críticas aos lugares
de saber, endossadas pela pesquisa-
intervenção e as epistemologias
feministas, considero que deve se
arrencar quem pesquisa de qualquer
estabilidade pré-suposta: seja do
conhecimento, seja de sua identidade.
Precisa haver abertura para criar zonas
de indagação e desestabilização que
favoreçam o coletivo a aflorar. Assim
sendo, posicionarmo-nos em nossas
produções escritas e de saber não se
reduz a indicar o ponto em que nos
situamos, mas seguir os rastros dos
caminhos percorridos que levaram aos
lugares ocupados.
A partir do reconhecimento de
que a neutralidade foi forjada em meio
à centralidade de determinadas
técnicas de produção de conhecimento,
teorias feministas demonstraram que
nenhuma luta social pode prescindir da
localização de si mesmo nas relações
de força que conduzem o curso e as
análises da sociedade. Desse modo,
“posicionar-se é uma prática chave
metodologicamente e responsável
politicamente” (Haraway, 1995, p. 27).
Localizar-se, posicionar-se, analisar
sua implicação, tem aqui o sentido de
refazer os caminhos, as experiências e
as marcas que direcionaram o olhar
sobre o observado. Não se trata
apenas de anunciar a ocupação de um
lugar fixo, como identidades definidas,
mas seus efeitos, relações presentes,
como se sustenta, os caminhos
percorridos, aberturas, entraves, rotas
de fuga etc.
A raça, a origem geográfica, o
gênero, a faixa etária, as habilidades
físicas são fatores que certamente
influenciaram as visões e as relações
entre quem forma e a quem se forma,
entre quem pesquisa e a quem se
pesquisa, pois tais posições produzem
ou o cumplicidade com o público de
interesse; rendem depoimentos
baseados em como tal público nos
(Schucman, 2016). Com base nesse
pressuposto, pude perceber que, em
muitas cenas, esses marcadores de
pertencimento apareceram como
analisadores importantes nas
formações para saúde sexual e
reprodutiva e desconstrução de gênero;
nos diários apareciam como fonte de
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
acolhimento, estranhamentos ou
questionamentos por parte dos
envolvidos nas intervenções,
resultavam em privilégios e obstáculos,
ofereciam outros pontos de vista, ou
limitavam minha compreensão dos
enunciados. No entanto, localizar
pressupõe um olhar atento para as
tramas de poder nas quais estamos
situados, fundamentalmente nossa
implicação com a instituição de um
saber (Paulon; Romangnoli, 2010). Não
deve servir às interdições de quem
pode, ou não pode pesquisar sobre
determinados grupos, mas reconhecer
e analisar as relações que envolvem a
investigação, ou os processos de
formação. Pude perceber que, tanto
nas intervenções, quanto na narrativa
delas, minhas posições subjetivas
engendravam o percurso analítico,
forneciam os problemas a serem
explorados.
Analisar minha própria
experiência no trabalho social não a
tornou inquestionável. Antes, se
constituiu como plano no qual se
inscreveram a heterogeneidade das
forças que atravessaram os encontros,
os deslocamentos produzidos pelos
corpos, a interseccionalidade das lutas
e das formas de opressão que se
atualizam em determinados momentos.
Desse modo, a cartografia das
práticas remeteu à atenção às relações
com as interlocutoras e os
interlocutores. Pensando com Luciana
Franco (2016), tive o desafio de como
cuidar da relação de confiança com as
pessoas que me apoiaram nesse
trabalho de pesquisa, que se tornou
público por meio de tese, livro e artigos.
As pessoas com quem dialoguei, ou
que entrevistei, não foram
sujeitos/objetos de pesquisa, mas
foram também referências consonantes
ou dissonantes ao que foi alinhavado
nas narrativas de pesquisa. Houve a
oportunidade de consultar algumas das
pessoas colaboradoras antes da
publicação dos trabalhos. Assim, além
de contarem sua experiência de leitura,
puderam decidir se seus nomes seriam
citados fielmente, ou em sigilo.
Por fim, na organização do texto da
tese, páginas em itálico marcavam o
relato da experiência, contavam uma
história, introduzindo os capítulos e as
seções da tese. Sua escrita em itálico
indicava a construção do campo
problemático por meio dos registros
refeitos. Todavia, é possível notar na
leitura do texto final que a narração da
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
experiência vivida pouco se
diferenciava das análises sustentadas
pelas referências bibliográficas,
evidenciando a interposição entre
passado e presente, entre política,
construção de conhecimento e
memória.
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Renata. Memória como construção de caminhos plurais: o conhecimento
a partir da escuta e da palavra. PragMATIZES - Revista Latino-Americana
de Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.207-228, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
Memória como construção de caminhos plurais: o conhecimento a partir da
escuta e da palavra
Andréa da Silva Montechiare Pires
1
Gisela Giannerini
2
Renata Montechiare
3
DOI: https://doi.org/10.22409/pragmatizes.v15i29.67203
Resumo: O artigo aponta para uma direção ético-teórica que se opõe ao que usualmente vem sendo
tomado como “discurso do outro”, pressuposto apoiado na ideia de um “eu” universal. Parte da
necessidade de revisitar as bases sob as quais o campo acadêmico tem produzido e eleito, com maior
ou menor aprovação, determinados saberes. Discute, a partir desta perspectiva, modos de conhecer
que ouçam a pluralidade de vozes existentes e reconheçam o caráter múltiplo das histórias. Por meio
de abordagens sobre memória e seus debates, propõe um diálogo entre episódios e histórias,
representações e narrativas que disputam quais vozes ecoam registros coletivos. O discurso
hegemônico passa a ser, então, confrontado quando mais narrativas são consideradas e reconhecidas
enquanto saberes. O trabalho sugere consideração sobre a produção de conhecimento que reposiciona
os sujeitos, usualmente tomados como objetos de pesquisa, como voz ativa.
Palavras-chave: memória; patrimônio cultural e histórico; história oral; narrativas; sujeitos; histórias
plurais.
Memory as the construction of plural paths: listening as a common reference point and
knowledge through words
Abstract: The article explores an ethical-theoretical perspective that challenges the dominant notion of
the “discourse of the other,” which assumes a universal “I.” It calls for a reassessment of the foundations
on which academic knowledge is produced and legitimized. From this perspective, it highlights the
1
Doutoranda no Programa de Pós-graduação em Psicologia da Universidade Federal Fluminense
(UFF). Mestre em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio
de Janeiro (UERJ). Psicóloga atuante no campo da saúde mental pública, pelo município de Niterói e
pela UFF. E-mail: andreasmp@id.uff.br. ORCID: https://orcid.org/0009-0009-8805-9683.
2
Mestre em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de
Janeiro (UERJ). Integrou o Projeto de História Oral e o Programa de Memória e Formação do Inst.
Municipal Nise da Silveira/RJ. Servidora da Fundação Municipal de Saúde de Niterói. E-mail:
gisela.giannerini@gmail.com. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-6040-6078.
3
Doutora em Antropologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Pesquisadora da
Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais - Flacso Brasil, E-mail: rmontechiare@gmail.com.
ORCID: https://orcid.org/0000-0003-2466-5843.
Recebido em 31/03/2025, aceito para publicação em 06/10/2025.
208
PIRES, Andréa da Silva Montechiare; GIANNERINI, Gisela; MONTECHIARE,
Renata. Memória como construção de caminhos plurais: o conhecimento
a partir da escuta e da palavra. PragMATIZES - Revista Latino-Americana
de Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.207-228, set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
importance of engaging with multiple voices and histories. By addressing memory and its debates, the
article examines how narratives, representations, and accounts compete to define which voices shape
collective records. It argues that hegemonic discourse is challenged when diverse narratives are
considered. Finally, it advocates for a knowledge production process that repositions research people -
traditionally treated as objects of research - as active voices.
Keywords: memory; cultural and historic heritage; oral history; narratives; subjects; plural stories.
Memoria como construcción de caminos plurales: la escucha como marco común y el
conocimiento desde la palabra
Resumen: El artículo apunta a una dirección ético-teórica que se opone a lo que habitualmente se ha
entendido como “discurso del otro”, y que tenía como presupuesto fundacional un “yo” universal. Parte
de la necesidad de revisar las bases sobre las cuales el campo académico ha producido y elegido, con
más o menos aprobación, ciertos conocimientos. Desde esta perspectiva, se discuten formas de saber
que escuchan la pluralidad de voces existentes y reconocen múltiples historias. A través de
aproximaciones a la memoria y sus debates, propone un diálogo entre episodios e historias,
representaciones y narrativas que disputan qué voces hacen eco de registros colectivos. Luego se
confronta el discurso hegemónico cuando se consideran más narrativas. El trabajo sugiere considerar
la producción de conocimientos que reposiciona a los sujetos, objetos de investigación, como una voz
activa.
Palabras clave: memoria; patrimonio cultural e histórico; historia oral; narrativas; sujetos; historias
plurales.
Memória como construção de caminhos plurais: o conhecimento a partir da
escuta e da palavra
De qual Sujeito se trata?
Em diálogo entre saberes,
tomamos as diferentes contribuições do
campo das ciências sociais, da
antropologia, da história, da psicanálise
e da psicologia social para discutir a
categoria “memória” e a perspectiva
das “narrativas” enquanto
possibilidades epistêmico-
metodológicas que ofereçam suporte a
pesquisas e projetos, em vistas de uma
direção decolonial.
Partimos de uma posição de que
é preciso revisitar criticamente sob
quais bases o campo acadêmico tem
majoritariamente construído, ao longo
do tempo, o seu acervo de produções e
elegido com maior ou menor aprovação
determinados saberes na produção de
conhecimento.
Sob o olhar foucaultiano com o
conceito de “dispositivo” (Foucault,
1979, apud Carneiro, 2023, p. 27) “um
conjunto decididamente heterogêneo
209
PIRES, Andréa da Silva Montechiare; GIANNERINI, Gisela; MONTECHIARE,
Renata. Memória como construção de caminhos plurais: o conhecimento
a partir da escuta e da palavra. PragMATIZES - Revista Latino-Americana
de Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.207-228, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
que engloba discursos, instituições,
organizações arquitetônicas, decisões
regulamentares [...] enunciados
científicos, proposições filosóficas,
morais” o qual desvela articulações e
opera poder interessa-nos pensar
que também historicamente a produção
de conhecimento, em especial
acadêmica, não esteve desatrelada da
disputa de forças, e consequentemente
de suas hegemonias de poder e
político-sociais.
Refletimos aqui sobre a
constatação de certa repetição sobre o
modo como sujeitos são falados,
pensados, discutidos, analisados,
dissecados em projetos, políticas e
pesquisas. Sujeitos que, colocados no
lugar de voz passiva, parecem ser
destituídos de seus lugares de Sujeitos
cognoscentes, produtores sociais
diminuídos da possibilidade de falar em
primeira pessoa, para a posição de
objeto. Objetos de pesquisa, passivos.
Curiosamente, neste processo
objetificante, aqueles que, pela lógica
tradicional de pesquisa, usualmente se
compreendem como pesquisadores
supostamente neutros, ocupam
posições bastante ativas e
determinantes sobre quem, e de que
modo, pode falar. Falar sobre e falar
por, na autocrítica acadêmica de
Spivak (2010), produz subalternidade.
Pelo sujeito silenciado falam contra, a
favor, em defesa, sob críticas, embora
nunca por meio de sua própria voz.
Por outro lado, ele é objeto de
investigação de “alteridade”,
“exotismo” –, do “intelectual”, sobretudo
europeu, mas também colonial, que
com frequência toma seus valores
próprios e forma de compreender o
mundo como premissas normativas
universais. Assim, a perspectiva
daquele que é subalternizado não é
computada e sua visão de mundo não
alcança a mesma possibilidade para
contribuir com a história e a memória
coletiva daqueles que podem falar.
Intervir ativamente nas formas
de produção de conhecimento,
revelando o sujeito supostamente
“transparente” sobre o qual se fala,
torna-se, portanto, a direção contra
hegemônica sugerida (Spivak, 2010).
Na autocrítica, a autora revela o esforço
de reescrever uma história alternativa à
dominante, reconhecendo, ainda
assim, a representação de uma voz que
segue ausente.
Nesta direção, Grada Kilomba
(2020) aponta que, nestes processos
metodológicos, um “mito de
210
PIRES, Andréa da Silva Montechiare; GIANNERINI, Gisela; MONTECHIARE,
Renata. Memória como construção de caminhos plurais: o conhecimento
a partir da escuta e da palavra. PragMATIZES - Revista Latino-Americana
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
neutralidade”, tal como nomeia. Para a
autora, o conhecimento vem muito
tempo sendo produzido por outros
saberes e vozes que não as
dominantes, porém rejeitados “sob o
argumento de não constituir ciência
credível” (Kilomba, 2020, p.53). Isto
porque, pelo lugar de poder que
ocupam as vozes dominantes, as
perspectivas dos subalternizados são
com frequência tomadas pelo viés de
uma “subjetividade”, isto é, julgadas
como se menos racionais, menos
objetivas, mais imprecisas
cientificamente por supostamente
serem baseadas em interpretações
movidas pelo campo das emoções.
Visão esta que denuncia o olhar
dominante carregado das antigas
noções de primitivismo versus
civilização, ao ler sua própria voz como
uma ciência dita neutra, objetiva e
universal, livre e distante de posições
subjetivas e históricas, as quais são
colocadas, portanto, no “outro”.
O outro, visto que, subalterno,
pré-lógico, emocional, não constitui
ciência credível. O “eu universal”,
civilizado, racional, é quem produz
ciência. Segundo a autora (Kilomba,
2020, p.58), a afirmação de um
discurso científico neutro e objetivo,
usualmente racializado e
ocidentalizado, não reconhece o fato de
que a teoria é sempre escrita a partir de
alguma realidade, história e lugares
específicos, e por alguém, havendo
então aí, lugares de poder. De acordo
ainda com Kilomba, existindo
assimetria de poder entre grupos,
haverá também assimetria nos seus
acessos aos “recursos necessários
para implementar as próprias vozes”
(idem, p.52). Falar e ser escutado,
neste modelo, nunca foi uma
possibilidade para todos os grupos
sociais.
Em conformidade com a autora,
ao considerarmos que a epistemologia
e, consequentemente, seus métodos
para produção de conhecimento devam
ser problematizados e revisados em
suas bases, em uma perspectiva
decolonial, optamos por uma direção
ético-teórica que se reposiciona e se
opõe ao que usualmente vem sendo
tomado como “discurso do outro”, e que
contava com um pressuposto fundante
de um “eu” enquanto universal.
Atravessadas por diferentes
percursos relacionados a populações
minorizadas, frequentemente
relegadas ao lugar de atores ocultos na
história, reunimos aqui perspectivas
211
PIRES, Andréa da Silva Montechiare; GIANNERINI, Gisela; MONTECHIARE,
Renata. Memória como construção de caminhos plurais: o conhecimento
a partir da escuta e da palavra. PragMATIZES - Revista Latino-Americana
de Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.207-228, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
que nos conectam em direção à defesa
de modos de conhecer que ouçam a
pluralidade de vozes existentes,
reconheçam histórias múltiplas,
pluriversais, posto que as
compreendemos em permanentes
disputas, onde não nos interessam
somente as versões exclusivas dos
“vencedores”.
Deste modo, discutiremos neste
artigo a memória e o instrumento das
narrativas orais, enquanto ferramentas
capazes de possibilitar outro modo de
inscrição e pertencimento histórico, em
contraponto à ideia de história única,
alheia à noção de que ela é sempre
construída por alguém em um
determinado tempo.
Memória, saber, história, ideologias
Reconhecendo que os saberes
são plurais e que estão presentes nas
experiências dos diferentes sujeitos,
compreendemos que sua produção se
para além da concepção
hegemônica de se fazer ciência, no
discurso que, muitas vezes, é tomado
como marginal ou secundário a uma
pesquisa.
Pensar as matizes entre história
e memória sob a perspectiva do
particular e do universal nos leva de
encontro ao que, historicamente, tem
sido a construção dos saberes
universais a partir de uma perspectiva
predominantemente ocidental e
eurocentrada. Quem são os grupos que
detêm os lugares de saber e
reconhecimento? Pierre Nora (1993),
historiador francês, importante
pensador sobre memória, traz um
apontamento nesse sentido quando
cita que:
A memória emerge de um
grupo que ela une, o que quer
dizer, como Halbwachs o fez,
que tantas memórias
quantos grupos existem; que
ela é por natureza, múltipla e
desacelerada, coletiva, plural e
individualizada. A história, ao
contrário, pertence a todos e a
ninguém, o que lhe uma
vocação para o universal.
(Nora, 1993, p.9).
À luz de Lélia Gonzalez
intelectual, antropóloga, educadora e
ativista negra brasileira que, com seu
modo ímpar de produzir conhecimento,
articulava saberes ditos eruditos com a
cultura e modo de expressão popular,
tomamos uma fina e relevante distinção
que nos auxilia nesta compreensão. No
texto “Racismo e sexismo na cultura
brasileira” (Gonzalez, 2020), ao
diferenciar as noções de memória e de
consciência, Lélia nos apresenta a ideia
212
PIRES, Andréa da Silva Montechiare; GIANNERINI, Gisela; MONTECHIARE,
Renata. Memória como construção de caminhos plurais: o conhecimento
a partir da escuta e da palavra. PragMATIZES - Revista Latino-Americana
de Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.207-228, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
de que os conhecimentos tomados
como oficiais são escolhas por
determinadas perspectivas, as quais
podem, neste processo, ocultar outras
existentes.
Isto porque, em um diálogo
aparentemente próximo à psicanálise
freudiana, Gonzalez aponta que um
saber na consciência, mas que este
ocupa um lugar de alienação pelo fato
de ignorar outros saberes igualmente
existentes e por ela encobertos. Tal
qual a orientação freudiana
4
, conteúdos
da consciência não correspondem à
totalidade da dinâmica psíquica, mas
apenas a uma parte, àquela que foi
possível vir à tona a partir de processos
psíquicos que bloqueiam outros
conteúdos através do encobrimento, do
esquecimento. Conteúdos “latentes”,
no entanto, podem vir a manifestar-se.
a memória para autora,
estaria a um nível menos visível,
referida a um saber que ainda tem a
potência em emergir, em restituir a
história que não foi escrita, ou mesmo
rejeitada a ser conhecida pelo próprio
4
“Tudo que é consciente tem um estágio
preliminar inconsciente, ao passo que aquilo
que é inconsciente pode permanecer nesse
estágio, e, não obstante, reclamar que lhe seja
atribuído o valor pleno de um processo
psíquico. O inconsciente é a verdadeira
processo da consciência. Segundo
Gonzalez (2020, p.79), o tipo de saber
da memória não apenas porta
conhecimento, como também carrega
em si o poder de modificar uma história.
Ao trazer tais noções, Gonzalez
problematiza como, portanto, a
depender da cultura e contexto dos
Sujeitos a quem a palavra é mais ou
menos ouvida, a memória poderá ser
colocada à margem, enquanto a
consciência no seu lugar de
racionalidade poderá ser tomada
socialmente como discurso dominante.
Por isso, a gente vai trabalhar
com duas noções que ajudarão
a sacar o que a gente pretende
caracterizar. A gente tá falando
das noções de consciência e
memória. Como consciência a
gente entende o lugar do
desconhecimento, do
encobrimento, da alienação, do
esquecimento e até do saber. É
por que o discurso ideológico
se faz presente. Já a memória,
a gente considera como o não
saber que conhece, esse lugar
de inscrições que restituem
uma história que não foi escrita,
o lugar da emergência da
verdade que se estrutura como
ficção. Consciência exclui o
que memória inclui. Daí, na
medida em que é o lugar da
rejeição, a consciência se
realidade psíquica [...] e é apresentado de
forma tão incompleta pelos dados da
consciência quanto o mundo externo pelas
comunicações de nossos órgãos sensoriais”
(Freud, [1900] 2001, p.584).
213
PIRES, Andréa da Silva Montechiare; GIANNERINI, Gisela; MONTECHIARE,
Renata. Memória como construção de caminhos plurais: o conhecimento
a partir da escuta e da palavra. PragMATIZES - Revista Latino-Americana
de Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.207-228, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
expressa como discurso
dominante (ou efeitos desse
discurso) numa dada cultura,
ocultando a memória, mediante
a imposição do que ela, a
consciência, afirma como a
verdade. Mas a memória tem
suas astúcias, seu jogo de
cintura; por isso, ela fala
através das mancadas do
discurso da consciência [...] E
no que se refere à gente, à
crioulada, a gente saca que a
consciência faz tudo pra nossa
história ser esquecida, tirada
de cena. E apela pra tudo
nesse sentido. que isso
aí… e fala (Gonzalez, 2020,
p.79).
Tomamos essa diferenciação
trazida por lia, aproximando ainda a
“consciência”, nesta relação com o
discurso dominante, à ideia da “história
oficial”, à história registrada justo como
lugar de discurso representante de uma
verdade. Em contraponto, o espaço à
memória e às existências de outras
narrativas poderia evitar o risco o qual
aponta a escritora negra nigeriana,
Chimamanda Ngozi Adichie (2019), do
“perigo de uma história única”.
Conforme proferiu na palestra
que deu origem à publicação, através
de diversas cenas cotidianas vividas
oriundas de colonialismos em que a
autora ora se viu enxergando o mundo
apenas por uma história única, e
outras, foi vista por este prisma, Adichie
nos chama a refletir sobre o quanto
fragilizamos a experiência e os Sujeitos
diante de histórias que são contadas e
cristalizadas apenas por um ângulo.
A história tratada como única e
universal deduz antecipadamente,
espera com certezas, e cria
estereótipos, que tal como a autora
afirma, são incompletos. Suas
consequências, segundo a mesma, são
o roubo da dignidade das pessoas e
obstruções ao reconhecimento de suas
humanidades. Adichie (2019, p.23)
demonstra, contudo, que as histórias
não se tornam únicas por mero acaso,
mas por uma repetição insistente ligada
a um exercício de poder, o qual apaga
outras possibilidades e estreita a visão,
encobrindo e simplificando o debate.
É impossível falar sobre
história única sem falar sobre
poder. Existe uma palavra em
igbo no qual sempre penso
quando considero as estruturas
de poder no mundo: nkali. É um
substantivo que, em tradução
livre, quer dizer “ser maior do
que outro”. Assim como o
mundo econômico e político, as
histórias também são definidas
pelo princípio do nkali: como
elas são contadas e quantas
são contadas depende muito
de poder. O poder é a
habilidade não apenas de
contar a história de outra
pessoa, mas de fazer que ela
seja sua história definitiva
(Adichie, 2019, p.23).
214
PIRES, Andréa da Silva Montechiare; GIANNERINI, Gisela; MONTECHIARE,
Renata. Memória como construção de caminhos plurais: o conhecimento
a partir da escuta e da palavra. PragMATIZES - Revista Latino-Americana
de Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.207-228, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
Nesse sentido, em conformidade
com a perspectiva da pesquisa
centrada em sujeitos, trazemos as
narrativas como instrumentos
metodológicos que tratam a ênfase nas
percepções e discursividades dos
Sujeitos que sejam transmitidas por
eles próprios. Onde “tem-se o direito de
ser um sujeito político, social e
individual em vez da materialização
da Outridade, encarcerada no reino da
objetividade.” (Kilomba, 2019, p.81).
Interessa-nos interrogar as
bases dessa construção e apostar em
metodologias de produção de
conhecimento por uma perspectiva que
multiplica o número de vozes pela
escuta de sujeitos que ocuparam
diferentes lugares. Assim, novos
testemunhos passam a integrar a
memória, a partir de um acervo de
histórias de vidas e situações
significativas vividas por diferentes
grupos de pessoas. O investimento na
dimensão coletiva da memória remete
a um de seus lugares na
contemporaneidade, o qual é o de
objeto de jogos de poder.
A memória é um objeto de luta
pelo poder travada entre
classes, grupos e indivíduos.
Decidir sobre o que deve ser
lembrando e também sobre o
que deve ser esquecido integra
os mecanismos de controle de
um grupo sobre o outro”
(Kessel, 2003, p.4).
Consideramos, portanto, que
capilarizar a narrativa histórica a partir
de outros campos e métodos de
produção de conhecimento é o que
permite revisitar memórias variadas, de
atores sociais diversos, incluindo as
perspectivas daqueles que usualmente
têm sido vistos “abaixo”. A provocativa
ideia de uma “história vista de baixo”,
proposta pelo historiador Paul
Thompson (1966) subverte a tradição
histórica ao valorizar o fato de que a
palavra daqueles que têm suas
experiências minorizadas possa
construir saberes a partir de visões de
mundo. É nessa linha que temas,
culturas, costumes e eventos
historicamente negligenciados passam
a ocupar lugar, em oposição à história
concebida a partir de pessoas
estranhas e alheias à realidade sobre a
qual falavam.
Recuperar os debates mais
recentes sobre memória, portanto, nos
ajuda a localizar os Sujeitos, ora com
suas vozes únicas e histórias de
vitórias e conquistas, ora com vozes
subalternas (Spivak, 2010) e
215
PIRES, Andréa da Silva Montechiare; GIANNERINI, Gisela; MONTECHIARE,
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a partir da escuta e da palavra. PragMATIZES - Revista Latino-Americana
de Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.207-228, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
emergentes em um contexto de
proeminência dos estudos decoloniais
e antirracistas.
As várias memórias
A partir dos anos 1970, os
estudos da memória ganharam espaço
nas pesquisas acadêmicas, mas
também nas práticas cotidianas dos
diferentes grupos, em uma constante
retroalimentação. Esse universo
associa-se, então, ao campo do
patrimônio cultural, em função das
coleções de museus, mas também da
perspectiva histórica, das celebrações,
efemérides, monumentos e
marcadores simbólicos de narrativas
coletivas
5
. Há um lastro de abordagens
sobre memória e aqui nos interessa
refletir sobre em que medida lembrar,
representar e narrar encampam as
novas referências e disputas de poder,
como acima nos lembrou Chimamanda
Ngozi Adichie sobre o perigo da história
única.
Essa expansão dos estudos
sobre memória ocorre por meio da
5
Um dos exemplos desta expressão de
mudanças no campo das artes foi a Exposição
Histórias afro-atlânticas que ocorreu entre os
dias 29 de junho e 21 de outubro no Museu de
Arte de São Paulo (MASP). A Mostra contou
revisão das abordagens psicológicas,
biológicas e fisiológicas até então
predominantes nas primeiras décadas
do século XX. Lembrar tratava-se de
uma função orgânica do indivíduo,
deixando rastros de aprendizagem no
cérebro que davam pistas sobre
plasticidade neural, capacidade de
memorização e armazenamento,
reflexos e comportamentos
condicionados, numa leitura
mecanicista e empírica.
Maurice Halbwachs (2013),
intelectual que na primeira metade do
século XX restabeleceu os paradigmas
desses estudos, propõe a memória em
sua dimensão coletiva, extrapolando a
perspectiva individualizada e privada.
Para o autor, a memória não apenas é
coletiva, como é uma construção social,
o que significa que lembramos
enquanto nos reconhecemos como
parte, sendo a relação entre indivíduo e
coletividade encarregada de alimentar
e formatar a memória. Nesta chave, a
memória seria um “patrimônio comum
de recordações” (Rios, 2013, p. 4) que
com 450 obras de arte sobre as relações entre
América, Caribe, África e Europa, dando lugar
de destaque a artistas negros como Emanuel
Araújo, Maria Auxiliadora, Heitor dos Prazeres,
Rosana Paulino, entre outros.
216
PIRES, Andréa da Silva Montechiare; GIANNERINI, Gisela; MONTECHIARE,
Renata. Memória como construção de caminhos plurais: o conhecimento
a partir da escuta e da palavra. PragMATIZES - Revista Latino-Americana
de Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.207-228, set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
funciona na medida em que e
enquanto produz ressonância no
grupo (Gonçalves, 2005).
Se um grupo social é agente
gerador de memórias seja uma
família, um coletivo ou uma nação
estas são compostas por testemunhas
que reforçam ou enfraquecem aspectos
que serão contados sobre
determinados acontecimentos
circunscritos a um tempo. Para
Halbwachs (2013), o indivíduo é o
instrumento da memória do grupo, pois
só ele é capaz de lembrar.
Porém, ainda segundo o autor,
os acontecimentos do passado o têm
qualquer compromisso com a
correspondência exata de sua
reprodução. Grande parte desses
acontecimentos é esquecida e são
justamente os vínculos sociais que
determinarão o que será lembrado
coletivamente. Nesse debate, a
diferença entre lembrança e memória é
interessante, visto que a memória é
sempre uma produção, atualizada no
presente. A constituição da memória
alinha-se às conjunturas do atual: quem
tem voz amplamente ouvida para
manifestar sua lembrança? E quem
detém poder para fazer valer seu ponto
de vista sobre o que passou?
Dessa maneira, o passado é
constantemente reinterpretado à
medida que as condições do presente
se transformam continuamente. A
memória é, portanto, construída pelos
grupos sociais na exata medida em que
os constrói. Lembrar e esquecer
coletivamente são partes do mesmo
processo, que não ocorre sem
disputas, nem tampouco é
permanentemente estável.
Em diálogo com Halbwachs,
Myrian Sepúlveda dos Santos estuda
monumentos, museus e coleções como
celebradores de passados, mas
também como marcadores das
disputas sobre os rios passados.
um amplo debate sobre espaços e
materialidades que dariam suporte à
memória, seja nas ciências sociais
(Yates, 2007; Forty, 1999; Nora, 1993;
Didi-Huberman, 2013), seja na
literatura ficcional como na célebre
cena das madeleines mergulhadas na
xícara de chá que ativam a memória do
narrador em Em busca do tempo
perdido (Proust, 2006). Lugares e
objetos são acionados por meio de
imagens e narrativas como sendo
capazes de incidir sobre a forma como
indivíduos e grupos lembram, sentem e
expressam o passado.
217
PIRES, Andréa da Silva Montechiare; GIANNERINI, Gisela; MONTECHIARE,
Renata. Memória como construção de caminhos plurais: o conhecimento
a partir da escuta e da palavra. PragMATIZES - Revista Latino-Americana
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
Os estudos de Sepúlveda sobre
arquivos e documentos da tortura na
ditadura militar brasileira utilizam os
mesmos suportes, objetos,
documentos, fotografias que antes
legitimaram a ação do Estado: “Os
arquivos, artefatos e relatos do
passado têm sido utilizados como
provas de um passado que foi
deliberadamente esquecido pelas
versões oficiais da história” (Santos,
2006, p. 99). Assim, as posteriores
iniciativas de reparação às vítimas
ativam testemunhas materiais antes
deixadas de lado nos relatos
autorizados e na história oficial.
Portanto, os índices que conferem
veracidade aos fatos não são
absolutos, pois o exaltados ou
diluídos em meio às disputas em torno
de interesses conflitantes (Araújo &
Santos, 2007).
Esses estudos da memória que
recuperam dimensões de traumas
coletivos ganharam impulso nas
análises sobre o Holocausto nos anos
1980, numa série de acontecimentos
sociais e midiáticos que recuperaram
tanto a história dos judeus quanto do
nazismo (Huyssen, 2004). Passado,
presente, memória e esquecimento são
os pilares de análises como as de
Andreas Huyssen (2004) e Adrian Forty
(1999, que expõem o confronto entre
pelo menos, duas grandes escolhas:
destacar material e simbolicamente um
acontecimento para ser lembrado, ou
construir estratégias para apagar a
lembrança, enfatizando o direito a
esquecer. Em ambos os casos, não
sem disputas e negociações.
O debate em torno da
pertinência ou não da produção e
lugares de memória relacionados a
eventos traumáticos e desumanos,
somado, eventualmente, ao uso de
recursos de simplificação ou de
recursos estéticos, desdobra-se de
forma interessante a ser notada.
Memórias difíceis precisam ser
amortecidas ou “embelezadas” para
tornar mais palatável de serem
contadas? verdade quando são
criados lugares quase fictícios
destinados a lembrar uma memória
traumática?
O filósofo e historiador Georges
Didi-Huberman, no livro “Cascas”
(2017), registro de sua visita ao museu
de Auschwitz-Birkenau, faz uma
interrogação sutil à produção de
memória do Holocausto, que aqui
apostamos poder se estender para
pensar a disseminação de temas
218
PIRES, Andréa da Silva Montechiare; GIANNERINI, Gisela; MONTECHIARE,
Renata. Memória como construção de caminhos plurais: o conhecimento
a partir da escuta e da palavra. PragMATIZES - Revista Latino-Americana
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
sensíveis. Sobre o livro que começa a
partir de três lascas de árvores,
tomadas como três lascas de tempo,
“pedaços de memória”, Ilana Feldman
na contracapa faz menção a uma
entrevista feita com o autor em que
afirma que seu trabalho consiste em:
fazer da dor, e, logo, da história
e das emoções que a
acompanham, nossos bens
comuns, isto é, partilháveis e
transmissíveis. Pois é somente
com a transmissão que nos
tornamos capazes de não nos
resignar diante dos impasses
do entendimento (Didi-
Huberman, 2017, p.95).
O argumento do extermínio
étnico torna-se manifesto em questões
sociais nos anos 1990, em especial no
que se refere aos refugiados e
imigrantes, à dissolução da Iugoslávia e
à escravidão africana nas ex-colônias.
Na América Latina, crescem as
manifestações e a visibilidade em torno
dos desaparecidos políticos das
ditaduras cívico-militares, com
movimentos sociais como as Abuelas
de Plaza de Mayo, na Argentina, e o
Grupo Tortura Nunca Mais, no Brasil.
Movimentos com forte trabalho de
6
A Lei 12.528/2011, de 18 de novembro de
2011, determinou a instalação da Comissão
Nacional da Verdade (CNV). Efetivamente
inaugurada em 16 de maio de 2012, a CNV foi
produção de uma memória coletiva,
que Michael Pollak lembrará da ligação
desta com aquilo que a sociologia
nomeia como “identidades coletivas":
Por identidades coletivas,
estou aludindo a todos os
investimentos que um grupo
deve fazer ao longo do tempo,
todo o trabalho necessário para
dar a cada membro do grupo
[...] o sentimento de unidade,
de continuidade e de
coerência” (Pollak, 1992, p.7).
Assim, construções de museus,
audiovisuais e centros de cultura e
pesquisa, o pagamento de
indenizações às vítimas da violência de
Estado, celebração de efemérides e
manifestações públicas de revisão do
passado entram na ordem do dia,
culminando na experiência brasileira
contemporânea, a Comissão da
Verdade
6
, experiência anteriormente
adotada na África do Sul pós-Apartheid.
De nossa parte,
compreendemos que a transmissão por
meio da produção de memórias é o
caminho fundamental para não haver
dilemas ou relativizações na
compreensão de memórias difíceis.
Recentemente, por exemplo, o Brasil
criada para apuração das violações de direitos
humanos ocorridas no país entre 1946 e 1988,
no âmbito da repressão praticada pelos
governos militares.
219
PIRES, Andréa da Silva Montechiare; GIANNERINI, Gisela; MONTECHIARE,
Renata. Memória como construção de caminhos plurais: o conhecimento
a partir da escuta e da palavra. PragMATIZES - Revista Latino-Americana
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
viveu um retrocesso político, somado a
um avanço da extrema direita
mundialmente, que teve como um dos
efeitos o questionamento ou mesmo
ironização quanto à existência da
ditadura militar no país. Michael Pollak
aponta que:
se é possível o confronto entre
a memória individual e a
memória dos outros, isso
mostra que a memória e a
identidade são valores
disputados em conflitos sociais
e intergrupais, e
particularmente em conflitos
que opõem grupos políticos
diversos” (Pollak, 1992, p.5).
Nesse sentido, o trabalho da
Comissão da Verdade e a insistência
em produzir memória e dar a ela lugar
são também reafirmar um estatuto ético
e político para elas, possibilitando um
sentido e compromisso partilhados
socialmente, para que não se repitam.
Todo este movimento
internacional que atravessou o século
XX influenciou e foi influenciado pela
diplomacia. Ainda que as políticas de
memória sejam contemporaneamente
7
No original: Rather than memory loss taking
place through the passive attrition of time, as in
the Aristotelian model, Freud posited it as the
active force; rather than being natural and
involuntary, Freud stressed that ‘forgetting is
often intentional and desired’. In a sense, the
purpose of psychoanalysis was not a memory
concebidas como elos de articulação
social e reparação histórica, estão
imersas em seus campos de disputa.
Na perspectiva de Forty (1999), para
fazer parte é preciso estabelecer
consensos sobre quais memórias se
quer apagar, ainda que o próprio autor
se alinhe à perspectiva freudiana sobre
o não apagamento por completo,
mantendo-se registrado de forma
inconsciente e ativado de tempos em
tempos:
Em vez de a perda de memória
ocorrer através do desgaste
passivo do tempo, como no
modelo aristotélico, Freud
postulou-a como a força ativa;
em vez de ser natural e
involuntário, Freud enfatizou
que “o esquecimento é muitas
vezes intencional e desejado”.
Em certo sentido, o propósito
da psicanálise não era a cura
da memória, mas sim fornecer
ao paciente os meios para
esquecer verdadeiramente o
material reprimido do qual ele
seria vítima. Como Freud
observou certa vez. O objetivo
era dar aos pacientes a
“liberdade de decidir de uma
forma ou de outra”, se lembram
ou esquecem (Forty, 1999, p. 5,
tradução nossa).
7
cure, but rather to provide the patient with the
means to truly forget the repressed material of
which they were otherwise the victim. As Freud
once remarked. The aim was to give patients
the ‘freedom to decide one way or the other’,
whether to remember or forget" (Forty, 1999, p.
5).
220
PIRES, Andréa da Silva Montechiare; GIANNERINI, Gisela; MONTECHIARE,
Renata. Memória como construção de caminhos plurais: o conhecimento
a partir da escuta e da palavra. PragMATIZES - Revista Latino-Americana
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
No contexto dos traumas
coletivos aos quais Forty se dedica,
estabelecer consensos sobre o que
reter na memória e o que esquecer
coletivamente são parte do programa
socialmente estabelecido. No debate
aqui presente, que evoca
prioritariamente experiências afro
centradas e “subalternas”, conforme o
conceito de Spivak (2010), remetemos
ao seu ainda não incomum
apagamento compulsório, ou mesmo
uso de lembranças de um modo
meramente exotizante e caricatural de
culturas, personalidades e histórias que
divergem dos padrões brancos
europeus. Nas palavras de Françoise
Vergès,
O regime neoliberal [...]
expondo o reconhecimento do
erro e do crime pelo Estado,
vem explorando um novo filão:
a representação ‘positiva’
dos/as negros/as e dos/as
racializados/as. Para preservar
a ideologia do progresso, a
decolonização está se
tornando um elemento da
narrativa nacional” (Vergès,
2023, p.246).
8
(...) “Sortirons-nous du rôle de tapisseries
banlieusardes et de décors sauvages
savamment domestiqués mais parfaitement
authentiques?” (MARBOEUF, 2020). Tradução
VERGÈS, F. Descolonizar o museu - programa
Narrativa à qual a autora
radicalmente se opõe e nos instiga a
pensar, junto a Olivier Marboeuf (2020),
como “fugir da plantation”, isto é, como
recusar posturas que enaltecem
narrativas negras como “figurantes
suburbanos e cenários selvagens
habilmente domesticados, mas
perfeitamente autênticos" (Marbouef,
apud Vergès, 2023, p. 246)
8
.
Discursos que, em acordo com a
autora, entendemos que podem
apenas alterar sua forma, mas manter
a posição igualmente caricata e
dominada sobre as diferenças.
No Brasil atual, a memória e as
representações afro-brasileiras
ocupam o espaço disputado e
conquistado por ativistas, artistas e
intelectuais negros, como o recente
“Projeto Memória Lélia Gonzalez:
Caminhos e Reflexões Antirracistas e
Antissexistas” (2025)
9
realizado pelo
Instituto Memorial Lélia Gonzalez em
parceria com a Fundação Banco do
Brasil e Associação dos Amigos do
Cinema. O projeto retratou
de desordem absoluta. São Paulo: Ubu Editora,
2023, p. 246.
9
Cf: <https://projetoleliagonzalez.com.br/site/>.
Acesso em: 26 mar. 2025.
221
PIRES, Andréa da Silva Montechiare; GIANNERINI, Gisela; MONTECHIARE,
Renata. Memória como construção de caminhos plurais: o conhecimento
a partir da escuta e da palavra. PragMATIZES - Revista Latino-Americana
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biograficamente, por meio de mostras,
debates e painéis, “uma das vozes
mais proeminentes na abordagem das
questões raciais e de gênero no Brasil”,
Lélia Gonzalez, a qual completaria 90
anos em 2025.
Destacamos também como
registros de memória, a permanência
desde 2021 da imponente e inédita
obra intelectual e artista plástica Grada
Kilomba na Galeria Galpão no Instituto
Inhotim. Na obra “O Barco”
10
, 134
blocos de madeira queimada
relembram corpos negros escravizados
dispostos em um porão da embarcação
conhecida como tumbeiro. Neles estão
inscritas frases de um impactante
poema da autora que remontam à dura
travessia da diáspora, memórias,
esquecimentos, dores, mortes e
revoluções.
No universo do samba, onde a
temática sempre esteve presente,
recentemente dois nomes tornaram-se
muito comentados e ativaram
contestações sobre memória: Dandara
e Luisa Mahin. As mulheres foram
cantadas pelo samba-enredo da escola
de samba Mangueira no carnaval
10
Cf:
<https://www.inhotim.org.br/eventos/grada-
carioca de 2019, que expôs a fissura
social aberta a partir do assassinato da
vereadora Marielle Franco, em 2018.
A memória das duas heroínas
negras brasileiras foi celebrada na
canção e, logo após, em abril do
mesmo ano, o país as reconheceu por
meio da inscrição de seus nomes no
“Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria”,
no Pantheon da Pátria, na Praça dos
Três Poderes em Brasília. Dandara dos
Palmares é símbolo da resistência e
combate à escravidão no século XVII,
assim como Luisa Mahin, participante
dos levantes de escravos na Bahia, no
início do século XIX.
Este ato, no entanto, não passou
sem controvérsias. O debate em torno
de sua inscrição no Livro foi
documentado pelo jornal The Intercept
Brasil, publicando duas matérias
simultaneamente: uma contra e outra a
favor (Araújo, 2019; Santos, 2019).
Ambos os lados, porém, eso de
acordo que Dandara e Luisa Mahin são
aclamadas heroínas brasileiras,
combatentes da escravidão e símbolo
da resistência negra feminina.
Concordam também que o racismo e o
kilomba-o-barco-2021/>. Acesso em: 26 mar.
2025.
222
PIRES, Andréa da Silva Montechiare; GIANNERINI, Gisela; MONTECHIARE,
Renata. Memória como construção de caminhos plurais: o conhecimento
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machismo negaram e apagaram suas
histórias e, consequentemente, a
memória em torno de seus nomes.
Apagaram também as de outras tantas
mulheres negras, num mundo em que o
protagonismo masculino e branco
ainda prevalece.
O ponto de discordância está na
possibilidade de afirmar ou não se
ambas foram pessoas reais ou se são
mitos construídos a partir de relatos. Os
que acusam a academia de racista
afirmam que o etnocentrismo científico
é tamanho que não permite reconhecer
na tradição oral a validade que
comprove a existência das heroínas e
de seus feitos (Santos, 2019). Do ponto
de vista historicista, contrário à
inscrição (Araújo, 2019), o problema
está em comprar como verdade uma
memória alçada a símbolo legítimo da
população negra brasileira, mas que
imortaliza e valida uma alegoria como
memória nacional
11
.
11
Considerando a discussão sobre veracidade,
mitos e etnocentrismos, não podemos deixar de
lembrar dos apontamentos de Mbembe sobre o
próprio projeto moderno de conhecimento, que
teve suas bases firmadas na tendência do
pensamento europeu ser considerado em seu
próprio espelho, como uma “lógica de
autoficção, de autocontemplação e até mesmo
enclausuramento” (2018, p.11), bem como que
as diferentes formas de violência racial
Recuperamos aqui este caso
para destacarmos de maneira viva e
contundente a discussão empreendida
neste texto: o quanto memórias e
patrimônios culturais estão
essencialmente em disputa político-
social, assim como as narrativas, alvos
em batalhas envolvendo quem e como
se produz conhecimento e legitimidade
histórica.
A cada tempo, determinadas
visões de mundo ressaltam aspectos,
acontecimentos, objetos, monumentos
e histórias, utilizando-se dos recursos
do patrimônio e da memória para alçar
sua perspectiva à condição de verdade
e de identidade. Nesse sentido, importa
conhecer as contradições dos
processos de salvaguarda das
memórias e de apropriações narrativas,
analisando as tensões: de onde partem
as proposições e quais vozes, a cada
tempo, podem narrar o que será
contado.
exercidas pelo pensamento etnocêntrico
passam por uma mitologização, em que a “base
desse mito não es apenas na separação
original entre eles e nós”. O verdadeiro
problema é o seguinte: que eles não sejam
como nós está errado. Mas que eles se tornem
como nós também está. Para o dominador,
ambas as opções são tão absurdas quanto
insuportáveis” (Mbembe, 2020, p.140).
223
PIRES, Andréa da Silva Montechiare; GIANNERINI, Gisela; MONTECHIARE,
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O caminho das narrativas orais
como uma saída protagonizada por
sujeitos
Conforme discutimos até aqui,
constatamos que, a cada tempo e
contexto histórico, político e social, o
valor de verdade e de reconhecimento
epistêmico e cultural é permeado pelas
disputas em vigor. Apontamos, assim, o
quanto que, neste percurso, sujeitos e
grupos podem ter mais ou menos
visibilizadas suas vozes e experiências
nos processos históricos.
Nesse sentido, tomando sujeitos
como atores sociais, entendemos o
instrumento das narrativas orais como
vias de “performar a subjetividade”
(Kilomba, 2019), de rememorar
experiências que podem ser lidas não
somente como pertencentes às suas
individualidades, mas também em
referência aos seus pares e coletivos,
como também inscreverem, com suas
posições e perspectivas, as próprias
histórias.
Afirmamos a escuta como o
marco comum capaz de conjugar novas
metodologias de trabalho e produção
de conhecimento a partir da palavra.
Por essa via, elegemos a História Oral
como uma fonte e forma de pesquisar,
a qual Paul Thompson compreende
como:
a interpretação da história e
das sociedades e culturas em
processo de transformação,
por intermédio da escuta às
pessoas, e do registro de suas
histórias de vidas. A habilidade
fundamental da história oral é
aprender a escutar"
(Thompson, 2006, p.20).
Tendo ganhado maior
representatividade no Brasil a partir da
criação da Associação Brasileira de
História Oral, em 1994, a história oral
durante muito tempo foi alvo de
questionamentos sobre tratar-se de
uma metodologia, uma disciplina ou
uma linha de pensamento. Apesar do
testemunho oral existir ao longo da
história, seja na transmissão das
histórias familiares, habilidades e
ofícios, muito antes da era da imprensa
e da escrita, sua materialidade
enquanto fonte de conhecimento nem
sempre teve lugar, principalmente na
academia.
A ideia de uma “memória
histórica” se fez muito ancorada na
suposta materialidade e concretude de
documentos, arquivos e marcos
“universais”, por exemplo, que levam a
uma certa polarização nos estudos de
memória e história. Michael Pollak
224
PIRES, Andréa da Silva Montechiare; GIANNERINI, Gisela; MONTECHIARE,
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
(1992) sinaliza a história como uma
“ciência de síntese” que, por anos, se
apoiou numa posição de crítica das
fontes, o que, para o autor, guarda uma
certa “ingenuidade positivista primária”
que é acreditar que a reconstrução do
passado é sempre e necessariamente
intermediada pelo documento, por uma
ideia de superioridade da fonte escrita
sobre a fonte oral. Contudo, pouco se
desdobrou do fato de que a história
vinha sendo guardada sob fontes e
perspectivas narrativas “dos
vencedores”, aqueles que
historicamente têm o privilégio de
contar.
Do ponto de vista
epistemológico, Pollak aponta a
necessidade de se avançar a
discussão, uma vez que a história oral
abre novos campos de representações,
tornando-a um instrumento privilegiado
para a abertura de novas abordagens
disciplinares e para a produção de
conhecimento. A discussão que opõe
memória e história em polos subjetivos
e objetivos está ultrapassada, sendo
muito mais profícuo pensar em uma
continuidade potencial do que em uma
oposição, como sustenta o autor.
Por se tratar de um método
apoiado na memória, críticas
acadêmicas, principalmente do campo
da História, tensionavam não ser
possível pensar em uma reconstituição
do real pelo oral, fazendo uma alusão à
fonte escrita, como se a produção fosse
sempre uma perspectiva de
representações atravessada por um
viés de parcialidade. A isso, Pollak, que
inclusive considerou este como um
dilema inconsistente e até mesmo
superado, respondeu com rigor e
deixou uma importante baliza para a
sustentação do próprio conceito, ao
considerar que: “se a memória é
socialmente construída, é óbvio que
toda documentação também o é. Para
mim não diferença fundamental
sobre fonte escrita e fonte oral”
(Pollak,1992, p.8).
Thompson (2006) aponta que,
ainda que exista muito material
documentando a produção de coisas,
poucos são aqueles que tratam sobre a
produção de pessoas. É nesse sentido
que apostar na produção de memória
sob uma perspectiva da oralidade abre
novas possibilidades de fazer história:
Em termos de uso do
testemunho oral como
evidência por parte da história
das ciências sociais, a
reavaliação da comunicação
oral trouxe um alcance e uma
visão completamente novos.
225
PIRES, Andréa da Silva Montechiare; GIANNERINI, Gisela; MONTECHIARE,
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
Isso também es vinculado à
valorização social do
testemunho e do património
oral. [...] A história oral é
considerada atualmente parte
essencial de nosso patrimônio
cultural. Essa é uma situação
muito nova e, olhando para o
futuro, acho que
possibilidades imensas, por
exemplo, para criar novas
conexões entre pessoas em
mundo sociais e geográficos
diferentes; através do oral,
criando novas solidariedades e
novos entendimentos.
(Thompson, 2006: p.19).
Desta forma, consideramos que
as narrativas orais podem mobilizar
indivíduos, grupos e comunidades,
enlaçando memórias e documentações
de tradições orais, histórias de vida,
favorecendo construções diversas,
plurais, e sobretudo, trazendo
importantes impactos para mudanças
sociais.
Considerações finais
Neste trabalho, procuramos
apresentar um panorama das
abordagens sobre memória, história e
narrativa para refletir sobre o papel e a
condição dos sujeitos representados.
Considerando a abordagem que nos
alerta sobre os riscos de uma história
única (Adichie, 2019) recuperamos
eventos, personagens, narrativas e
fatos para pensá-los sob as
contradições que atravessam seus
enquadramentos históricos e disputas.
Diante dos estudos que
problematizam e orientam sobre
traumas sociais, símbolos políticos,
reparação e renomeação históricas,
nos interessa pôr em diálogo autores e
pontos de vista que nos ajudem a
investigar sobre quem fala, de onde fala
e quem, por outro lado, escuta de forma
ativa.
O propósito final desta
investigação, contudo, é questionar a
produção de conhecimento dentro e
fora da academia que prescinde desse
debate e que se basta com o emprego
das referências tradicionalmente mais
aceitas, visto que estas não são
neutras, tampouco únicas. Desafiar
esse modo de construção do saber é,
em primeira medida, revisar nossas
próprias bases de criação intelectual, já
que forjadas na maior parte das
disciplinas sob tais aspectos, ao
olharmos em primeiro lugar para o
modo como nós mesmas acionamos
referências para lidar com pesquisas,
intervenções, mas sobretudo com
Sujeitos.
Como proposição e provocação
trazida, portanto, entendemos que para
226
PIRES, Andréa da Silva Montechiare; GIANNERINI, Gisela; MONTECHIARE,
Renata. Memória como construção de caminhos plurais: o conhecimento
a partir da escuta e da palavra. PragMATIZES - Revista Latino-Americana
de Estudos em Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.207-228, set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
o imperativo deslocamento em direção
à decolonialidade, à diversidade de
histórias e perspectivas, retornos mais
complexos e múltiplos, é necessária
uma tomada de posição que sustente
rever quais vozes, histórias e memórias
mais têm sido ouvidas e legitimadas,
frequentemente em detrimento de
tantas outras serem silenciadas e
marginalizadas. Afinal, “ouvir é, nesse
sentido, o ato de autorização em
direção à/ao falante. Alguém pode falar
somente quando sua voz é ouvida.
Nessa dialética, aquelas/es que são
ouvidas/os são também aquelas/es que
´pertencem`.” (Kilomba, 2020, p.42).
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229
MATZENAUER, Alessandra Rudiger; SZUCHMAN, Karine Shamash; COSTA,
Luis Artur; SILVA, Thayna Miranda da; CARDOSO, Vanessa Branco.
Tramando políticas do narrar: pistas ético-estéticas para pesquisas
especulativas. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em
Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.229-255, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
Tramando políticas do narrar: pistas ético-estéticas para pesquisas
especulativas
Alessandra Rudiger Matzenauer
1
Karine Shamash Szuchman
2
Luis Artur Costa
3
Thayna Miranda da Silva
4
Vanessa Branco Cardoso
5
DOI: https://doi.org/10.22409/pragmatizes.v15i29.67191
Resumo: O presente artigo apresenta uma definição do narrar e seu gesto que ultrapassa os esquadros
do verbo e do humano, delimitando os conceitos de políticas narrativas e ecossistemas narrativos,
nos/pelos quais (des)constituímos nossas territorialidades existenciais. Desde tal imanência entre
narrar e viver se evidencia, então, o caráter inerentemente político da constituição de narrativas ao
tramarem nossas modulações coletivas de afetações. A partir de tal perspectiva, o artigo define e afirma
uma posicionalidade ético-estético-política especulativo-ficcional do narrar, apresentando pistas para
orientar estas experimentações no campo das pesquisas acadêmicas.
Palavras-chave: narrativa; especulativo; ficção; coletivo; ético-estético-político.
Plotting politics of narrating: ethical-aesthetic clues for speculative research
1
Mestranda em Psicologia Social e Institucional na Universidade Federal do Rio Grande do Sul
(UFRGS). E-mail: alessandra.matzenauer@hotmail.com. ORCID: https://orcid.org/0009-0005-5600-
550X.
2
Psicóloga. Mestra e Doutoranda em Psicologia Social e Institucional na Universidade Federal do Rio
Grande do Sul (UFRGS). E-mail: karineszuchman@gmail.com. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-
3136-6366.
3
Doutor em Informática na Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Docente no Departamento de Psicologia Social e Institucional e no Programa de Pós-Graduação em
Psicologia Social e Institucional da UFRGS. E-mail: larturcosta@gmail.com. ORCID:
https://orcid.org/0000-0001-6110-7512.
4
Psicóloga. Mestranda em Psicologia Social e Institucional na Universidade Federal do Rio Grande do
Sul (UFRGS). E-mail: thaynamirandas@gmail.com. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-9271-4016.
5
Psicóloga. Doutoranda em Psicologia Social e Institucional na Universidade Federal do Rio Grande
do Sul (UFRGS). E-mail: vanessabrancoc@gmail.com. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-2210-0515.
Recebido em 31/03/2025, aceito para publicação em 13/10/2025.
230
MATZENAUER, Alessandra Rudiger; SZUCHMAN, Karine Shamash; COSTA,
Luis Artur; SILVA, Thayna Miranda da; CARDOSO, Vanessa Branco.
Tramando políticas do narrar: pistas ético-estéticas para pesquisas
especulativas. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em
Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.229-255, set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
Abstract: This article presents a definition of narration and its gesture, which surpasses the boundaries
of the verb and the human, delineating the concepts of narrative politics and narrative ecosystems,
in/through which we (de)constitute our existential territorialities. From this immanence between narrating
and living, the inherently political nature of the constitution of narratives becomes evident, as they shape
our collective modulations of affect. From this perspective, the article defines and affirms a speculative-
fictional ethical-aesthetic-political positionality of narrating, presenting clues to guide these experiments
in the field of academic research.
Keywords: narrative; speculative; fiction; collective; ethical-aesthetic-political.
Trazando políticas del narrar: pistas ético-estéticas para la investigación especulativa
Resumen: Este artículo presenta una definición de narración y su gesto que va s allá de las fronteras
del verbo y de lo humano, delimitando los conceptos de políticas narrativas y ecosistemas narrativos,
en/a través de los cuales (des)constituimos nuestras territorialidades existenciales. Desde tal
inmanencia entre narrar y vivir, entonces, se hace evidente el carácter inherentemente político de la
constitución de las narrativas al tramar nuestras modulaciones colectivas de afectaciones. Desde esta
perspectiva, el artículo define y afirma una posicionalidad ético-estética-política especulativa-ficticia del
narrar, presentando pistas para guiar estos experimentos en el campo de la investigación académica.
Palabras clave: narrativa; especulativo; ficción; colectivo; ético-estético-político.
Tramando políticas do narrar: pistas ético-estéticas para pesquisas
especulativas
O narrar como gesto do mundo:
ecossistemas narrativos e suas
políticas
O mundo é uma trama de
gestos-acontecimentos-narrativas em
devir. Cada gesto conjura uma nova
territorialidade sobre a anterior,
reiterando-transformando a
possibilidade de novos gestos porvir
desde então. Como propõem Deleuze e
Guattari (2013), o acontecimento não é
um fato isolado, mas uma modulação
intensiva que atravessa corpos,
territórios e temporalidades,
instaurando novas possibilidades de
existência. A formação de uma
territorialidade é a constituição de
composições, ritmos e modos
existenciais em relação que
constituem, também, um campo de
possibilidades de surgimento de novas
composições. Uma territorialidade,
assim, tal como um tambor que marca
um tempo, é a produção de um jogo
possível, de um campo narrativo de
possibilidades do narrar. Tal como em
231
MATZENAUER, Alessandra Rudiger; SZUCHMAN, Karine Shamash; COSTA,
Luis Artur; SILVA, Thayna Miranda da; CARDOSO, Vanessa Branco.
Tramando políticas do narrar: pistas ético-estéticas para pesquisas
especulativas. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em
Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.229-255, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
Deleuze e Guattari (1996), o jogo aqui
é compreendido como um
agenciamento rizomático, uma
composição de forças que não se fixa,
mas sim se transforma/devém em cada
novo gesto. Um jogo é um
agenciamento de gestos que conjura
uma territorialidade em suas
possibilidades de ação-acontecimento,
entendida aqui como a potência de um
gesto que produz afetações no mundo,
sempre em transformação a cada novo
acontecimento-ação. Por sua vez,
marca um instante de instauração de
novas modulações que configura
tendências, possibilidades,
virtualidades e intempestivos. A ação-
acontecimento desdobra o gesto como
potência, como devir; enquanto o
acontecimento-ação atualiza
constantemente esta potência de
criação de mundos possíveis.
Contar uma história. Cantar uma
melodia. Construir um hábito. Erguer
uma cidade. Escrever uma carta. Tecer
um tecido. Bordar um pano. Fazer uma
amizade. Cultivar plantas. Conjurar um
rito. Compor com um ritmo. Sustentar
uma conversa. Confluir uma dança.
Cuidar de um coletivo. Perceber uma
paisagem. Diagnosticar uma doença.
Declarar o amor a alguém. Atar ou
romper uma relação. Nomear. Sentir-
pensar o que não tem nome. Fechar ou
abrir um sentido. Fazer ou desfazer um
grupo. Constituir ou destituir um
pertencimento. Uma floresta que
emerge. Um clima que aquece. Um
planeta que orbita em torno de uma
estrela. Cada um, ao seu modo, é um
gesto-acontecimento que delimita um
campo de possibilidades de afetação,
constituem um arranjo sensível que
circunscreve possibilidades de afetar e
ser afetado, possibilidades de narrar.
Um gesto não precisa de mãos,
muito menos de mãos humanas, para
ser gesto, do mesmo modo que uma
narrativa não precisa de palavras para
narrar. Aqui, um gesto não é
determinado por uma intenção prévia,
uma deliberação ou algo parecido, mas
sim pelas intensidades que deste gesto
se efetivam como efeito no mundo. A
chuva que marca o final da tarde nos
trópicos da Améfrica (Gonzalez, 1984).
A agitação telúrica de um tremor de
terra na noite de San Francisco. Um
soco direto desferido no queixo de um
antigo inimigo. Um pássaro que canta.
Uma palavra é dita ao pé do ouvido.
Uma árvore em sua silenciosa dança
do crescimento. Uma cadeira vazia no
meio de uma sala de estar. Cada uma
232
MATZENAUER, Alessandra Rudiger; SZUCHMAN, Karine Shamash; COSTA,
Luis Artur; SILVA, Thayna Miranda da; CARDOSO, Vanessa Branco.
Tramando políticas do narrar: pistas ético-estéticas para pesquisas
especulativas. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em
Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.229-255, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
delas é uma descrição de um
acontecimento e, como acontecimentos
que são, afirmam perspectivas de
relações possíveis junto ao mundo,
delimitam tendências de novos
aconteceres. Proporcionam um campo
de possibilidades de relações,
afetações, percepções, pensamentos,
comportamentos, cotidianos, etc.
Produzem efeitos no mundo com suas
existências-gestos-acontecimentos-
narrares independentemente da
presença ou ausência de intenções,
pois, mesmo onde intenções,
existem antes, depois e para além
destas, intensidades que insistem,
duram e afirmam ao estabelecerem
tramas de relações virtuais e atuais
(Deleuze, 1988) que ultrapassam
qualquer intenção com suas
intensidades a reverberarem nas
tramas relacionais-narrativas que nos
constituem.
Afirmamos um gesto que é afeto,
sensibilidade e pensamento. O mundo
é um acontecimento. Todo
acontecimento é um ato. Todo ato é um
acontecimento. A multidão de atos-
atores (Latour, 2012) tece a trama de
acontecimentos à qual damos o nome
de mundo. Uma composição polifônica
que vai da pedra ao pão, passando pelo
solo, pelo trigo, pelo fungo e pela mão,
são composições poéticas (ético-
estético-políticas) de mundos possíveis
aos quais especulamos entre agências
humanas, vegetais, minerais,
climáticas, microbióticas,
sociotécnicas, virais, etc., que
constituem corpos, enxames, bandos,
cardumes, multidões, sociedades,
enfim, ecossistemas em uma dança-
jogo de conjurar territorialidades
comuns: ecossistemas narrativos
(Costa, 2022) que tramam planos de
composições, coordenadas e
imanência (Deleuze; Guattari, 2013)
entre diferentes dimensões da
produção, libido, comunicação e mais
(Guattari, 1990). Tais ecossistemas-
jogos-territorialidades narrativas
delimitam-se e são delimitados, por sua
vez, pela operação de diferentes
políticas narrativas (Costa, 2021) a
partir das quais modulam-se certas
estilísticas coletivas do viver junto e
suas paisagens existenciais
Ao modo da atmosfera ou do
incômodo som da geladeira, ao
qual não escutávamos (por
sua constância), mas que,
mesmo assim, percebemos
com imenso alívio o seu fim e,
apenas então, finalmente nos
tornamos sensíveis ao
incômodo que nos assolava.
Também nossa imersão nos
ecossistemas narrativos pelos
233
MATZENAUER, Alessandra Rudiger; SZUCHMAN, Karine Shamash; COSTA,
Luis Artur; SILVA, Thayna Miranda da; CARDOSO, Vanessa Branco.
Tramando políticas do narrar: pistas ético-estéticas para pesquisas
especulativas. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em
Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.229-255, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
quais narramos a nós mesmes,
nossas histórias, nossos
encontros etc., podemos
perceber apenas quando
finalmente conseguimos
deslocá-los ou nos
deslocarmos neles (Costa,
2022, p.105).
Se compreendemos que tanto
um corpo quanto o universo não são
passíveis de serem compreendidos
simplesmente como substantivos
(substâncias) ou adjetivos (formas),
mas sim como um campo
acontecimental-relacional de
possibilidades de afetar e ser afetado
(Espinosa, 1973; Deleuze, 2008;
Whitehead, 1956) expresso em verbos-
advérbios infinitivos e infinitesimais,
logo concluímos que todo corpo-
universo é uma composição de
afetações atuais e virtuais, ou seja,
uma composição de algumas
territorialidades-jogos narrativos.
Assim, por sua vez, todo narrar é a
composição de possíveis corpos-
universos (Costa, 2020).
Não tomamos a narrativa aqui
como algo relacionado à
“representação” do mundo, algo
circunscrito às palavras e imagens
“sobre” as coisas do mundo, pois
concebemos os narrares como coisas-
acontecimento do mundo em si
mesmas: verbais, imagéticas,
corpóreas, afetivas, tecnológicas,
urbanas, ecossistêmicas, etc.,
tramadas entre si. As narrativas são
modulações heterogêneas que
compõem cardumes de afetos, bandos
de percepções possíveis, constituindo
corpos coletivos, múltiplos e
heterogêneos, de produções de
sentido.
Logo percebemos que aqui tanto
nós quanto nossas produções de
conhecimento somos todos narrativos,
constituindo-nos mutuamente a todo
momento: o conhecer é parte dos
modos de ser, pois estes e aqueles são,
ambos, modulações de agências. Tal
perspectiva se alia à ética cartográfica
e sua imanência vida-pesquisa, sujeito-
objeto, ser-saber, etc. Em meio a tantos
ecossistemas narrativos, se perde a
posição privilegiada do “externo”, do
“neutro”, daquele que fala “sobre” algo,
restando um inerente e imanente falar
“com” até mesmo quando se pretende
falar “sobre”, pois, neste último caso, o
que se operam o objetificações e
transparências estigmatizantes
(Glissant, 2021) “com” aqueles falados
por nós desde posições de autoritária
autoridade e, assim, são
subalternizados na relação conosco.
234
MATZENAUER, Alessandra Rudiger; SZUCHMAN, Karine Shamash; COSTA,
Luis Artur; SILVA, Thayna Miranda da; CARDOSO, Vanessa Branco.
Tramando políticas do narrar: pistas ético-estéticas para pesquisas
especulativas. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em
Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.229-255, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
Deste modo, toda relação de saber é
uma relação de “saber com”, sendo
distintas, no entanto, em suas
modulações éticas que podem convidar
para uma construção coletiva de
múltiplas agências-narrares ou, por
outro lado, impor narrativas únicas e
objetificantes que anulam as agências-
narrares das posições objetificadas
desde a autoridade instituída político-
onto-epistemicamente. Tanto o sujeito
do cogito cartesiano quanto do
exercício do juízo no entendimento
kantiano aqui são, portanto, destituídos
de sua âncora epistêmica para serem
jogados à deriva em um oceânico
experimento ético-estético-político de
estilística trágica, uma vez que está
pleno de opacidades que lhe conferem
uma potência de errância intempestiva
sempre a afirmar o colapso da pretensa
consciência e intenção diante das
intensidades da opacidade (Glissant,
2021). Com a destituição de tal âncora,
se desfaz também a fantasia filiativa
das purezas, origens, categorias
absolutas, sujeitos transcendentais,
entre outras ferramentas de
subjetivação que sustentam os modos
de existência moderno-coloniais
(Grosfoguel, 2016).
Se as proposições (afirmações-
expressões), para Deleuze (1975), têm
quatro dimensões, sendo estas o
referente (delimitação indutiva de
coordenadas objetificantes que
determinam localização, existência,
qualidade), o significado (delimitação
dedutiva de uma abstração
definicional), o manifesto (transdutiva
constituição em ato de uma
perspectiva-posicionalidade) e o
sentido (transdutiva-abdutiva
efetuação-reverberação-produção de
mundo), logo percebemos que
enquanto a produção dos planos de
coordenadas das ciências moderno-
coloniais (Deleuze; Guattari, 1992), em
sua busca por objetificação,
dominação, previsão, controle,
priorizam as duas primeiras dimensões
da proposição e seu caráter referente-
representacional (indutivo-dedutivo)
que busca substantivar-simplificar-
simetrizar o mundo, pacificar
controvérsias em filiações comuns,
homogeneizar-estabelecer objetos, as
duas últimas dimensões da proposição,
por sua vez, são aquelas operações
transdutivas (Simondon, 2003) e
abdutivas (Pierce, 1974) mais caras à
nossa política narrativa especulativa e
sua ético-estética ficcional (Costa,
235
MATZENAUER, Alessandra Rudiger; SZUCHMAN, Karine Shamash; COSTA,
Luis Artur; SILVA, Thayna Miranda da; CARDOSO, Vanessa Branco.
Tramando políticas do narrar: pistas ético-estéticas para pesquisas
especulativas. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em
Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.229-255, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
2021). Uma ética focada não na
interpretação, mas sim na composição,
não na representação, mas sim na
transformação, não na simplificação-
homogeneização indutivo-dedutiva,
mas sim na plural multiplicação-
complexificação transdutivo-abdutiva
(Costa, 2014). Deste modo, ainda que
todo gesto-acontecimento-mundo seja
narrativo, constituinte e constituído
de/por políticas e ecossistemas
narrativos, aqui estamos afirmando um
gesto narrativo que se exercita ético-
estético-politicamente na busca de um
cultivo singular de um narrar
especulativo-ficcional pelo qual
buscamos acontecimentalizar
(Foucault, 1990) o campo dos narrares
possíveis, com o objetivo de
transformar nosso mundo para além do
que é imaginável no regime de
sensibilidade-pensabilidade moderno-
colonial. Desta forma, desde e através
da escrita, que vamos tecendo junto às
questões tramadas e destramadas com
as políticas do narrar, nos propomos
aqui a entrar neste jogo-gesto de se
enlaçar na produção de uma ético-
estético-política especulativo-ficcional
do narrar.
Os avessos da escrita: tecer
coletivos enlaçando afetações-
experiências encontro COM pessoas
cegas
Qual é o avesso da escrita?
Enquanto escrevemos, traçamos
também as linhas do avesso daquilo
que vamos costurando. Como em um
início de bordado, quem escreve não
sabe, ainda, o que ao final vai formar
naquele conjunto de palavras tramadas
nas linhas do texto. Enquanto isso,
enquanto se escreve, a vida está lá,
sendo tecida sem pausas, como o
palpitar do coração que não cessa de
bater consonante e dissonante do
piscar da barra ao final da última
palavra digitada. Mas o que é possível
se ver de uma escrita? Quantas mais
são as linhas que seu avesso esconde
e revela na trama da sua composição?
O avesso não seria propriamente o
“oculto”, o “outro” lado, mas sim aquilo
que se faz presente na opacidade da
palavra (Glissant, 2021). A agulha que
fura o tecido segue atrás do rastro de
seu fio por vir. Conectado de um buraco
ao outro, o fio forma uma constelação
de traços, deixando a marca sobre a
superfície daquilo que jamais foi um
ponto: um buraco não é uma ausência,
mas tampouco a presença de um
236
MATZENAUER, Alessandra Rudiger; SZUCHMAN, Karine Shamash; COSTA,
Luis Artur; SILVA, Thayna Miranda da; CARDOSO, Vanessa Branco.
Tramando políticas do narrar: pistas ético-estéticas para pesquisas
especulativas. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em
Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.229-255, set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
ponto, o furo é a fuga, uma relação de
ruptura e mudança que marca um novo
campo de possibilidades para o tramar.
Se de grão em grão a galinha enche o
papo, de ponto em ponto a linha traça o
bordado. Transpassar, transgredir uma
superfície é ao mesmo tempo torná-la
mais porosa-complexa e nos
articularmos mais densamente com a
mesma, ampliando nosso campo de
relações possíveis. (Des)fazimento
bem ao modo dos processos de
(des)territorialização acionados pelas
contranarrativas (Hartman, 2021; 2022)
que tramam fugas nas formas dadas.
Apesar de alguns bordados se
pautarem pelas linhas duras ao
orientarem um caminho programado,
aquele que prevê uma forma que se
sabe ao início, tantas outras formas
de bordar possíveis. quem zigue-
zague-zeie sem se preocupar com a
ordem, quem se utilize de
bastidores, gráficos, amostras. Nos
bordados tradicionais, o avesso segue
à risca a linha tracejada, reduzindo ao
máximo os rastros de seus rodeios. Ao
final de um trabalho, o que o olho vê, o
que a mão toca? Se afirma a pretensa
transparência transcendente das
ciências, nega que a figura formada nas
linhas duras é o resultado de uma
complexa trama que ficou no avesso,
uma opacidade inerente e imanente a
uma transparência sempre relativa
(Glissant, 2021) na qual a constelação
de furos e tramares são relações
presentes que desfazem a fantasia do
puramente transparente: sempre tem
algo mais, um transbordar, um
excedente, que passa pelo furo-fuga e
retorna outro na forma-figura.
Na lógica das escritas-pesquisas
hegemônicas da modernidade-
colonialidade de uma academia que se
quer limpa, previsível, calculável,
branca, uma fantasia do narrar como
representação e não como tecitura de
mundo. Para estas autoridades
epistêmicas transcendentais, entra no
clube do bordado somente quem
sabe todas as condições de
possibilidade adequadas ao bordar, e
de preferência, que se utilize das
mesmas técnicas protocolarmente
replicáveis. Como se deixassem de ser
linhas, superfícies, mãos e furos por se
pautarem em tais políticas narrativas.
A relação aqui proposta entre
costura e escrita, bordado e pesquisa,
busca evidenciar não apenas seu
aspecto de tecitura enquanto arte
plástica, mas, também, enquanto
constituinte de dispositivos voltados
237
MATZENAUER, Alessandra Rudiger; SZUCHMAN, Karine Shamash; COSTA,
Luis Artur; SILVA, Thayna Miranda da; CARDOSO, Vanessa Branco.
Tramando políticas do narrar: pistas ético-estéticas para pesquisas
especulativas. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em
Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.229-255, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
para a formação e modulação de
coletivos. Assim, o narrar aqui
evidencia uma vez mais seu
ultrapassamento de uma dimensão
representacional-simbólica e seu
caráter expressivo plástico, para
evidenciar suas múltiplas dimensões do
artesanar que envolvem atores não
humanos e humanos, vivos e não-
vivos, na composição de distintas
modulações de coletivos, os quais, na
singularização da linguagem do bordar,
podem também tensionar
singularizações em seus modos de
viverem juntos.
Nos grupos nos quais o bordado
se intersecciona com saúde mental,
arte e/ou educação, por exemplo, as
bordadeiras costumam dar grande
importância aos avessos. Experiências
como as da oficina de bordado da
GerAção POA, serviço da RAPS de
Porto Alegre com foco em geração de
trabalho e renda (Cardozo, 2022), da
Oficina de Criatividade do Hospital
Psiquiátrico São Pedro do mesmo
município (Cappra, 2014; Gryschek,
Neubarth, 2020), do coletivo Bordazul,
que desenvolve práticas de cuidado em
saúde a partir do bordado em Maceió,
Alagoas (Pereira, 2019), e do projeto de
arte e educação Mãos que Falam e
Bordam, no qual um grupo de pessoas
surdas aprendem a artesania do
bordado enquanto discutem sobre a
cultura afro-brasileira em Canavieiras -
Bahia (Pereira, 2024), contam sobre
fazer rede a partir de gestos coletivos e
de composição, buscando
complexificar e singularizar as tramas
narrativas em um jogo de cooperação
democratizante. Em todas essas rodas
bordadeiras, mais vale a trama de
relações que tece o avesso do que a
arte final de autoria pretensamente
individual. As suas participantes fazem
questão de anunciar com quem
aprenderam cada ponto e cada gesto,
dando o tom inerentemente coletivo
daquela arte e marcando os rastros
deixados pelos fios, os quais são
também aquele bordado, a despeito de
qualquer arremate.
As arpilleras, técnica de costura
popular criada por bordadeiras na Isla
Negra, litoral do Chile, também tornam-
se inspiração para a aposta
metodológica deste trabalho na ética
ficcional-cartográfica, apontando um
caminho possível para uma política do
narrar que busca não a ideia de uma
representação idealizada (referentes e
significados transparentes), mas sim
um trabalho composto por criações
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MATZENAUER, Alessandra Rudiger; SZUCHMAN, Karine Shamash; COSTA,
Luis Artur; SILVA, Thayna Miranda da; CARDOSO, Vanessa Branco.
Tramando políticas do narrar: pistas ético-estéticas para pesquisas
especulativas. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em
Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.229-255, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
entre rasgos e resistências
(transdutivo-abdutivos). Inicialmente
usadas por mulheres como forma de
subsistência, as arpilleras se tornaram
uma verdadeira arma ético-estético-
política contra as violências da ditadura
Pinochet. De técnica têxtil à ferramenta
política, as mulheres passaram a
denunciar, através do bordado com
retalhos de panos, os abusos do
governo e os nomes dos desaparecidos
políticos em uma fuga contra-narrativa
diante da tentativa do regime de
representar a si mesmo como total
transparência (Glissant, 2021).
Dobrando fronteiras e lutas, a técnica
foi aprendida pela cantora e folclorista
Violeta Parra e, no Brasil, as arpilleras
inspiraram um coletivo de mulheres do
Movimento dos Atingidos pelas
Barragens, tornando-se ferramenta de
educação popular para acolhimento e
organização de lutas socioambientais
(Nicolav, 2023).
Ainda que não haja várias
pessoas sentadas em roda bordando
juntas, a narrativa bordadeira segue
sendo coletiva, como no caso de Arthur
Bispo do Rosário, homem negro, pobre,
nordestino e manicolonizado, que
passou pelo menos sete anos isolado
na Colônia Juliano Moreira no Rio de
Janeiro. Suas companhias foram
fragmentos de tecido, agulhas e linhas
azuis desfiadas dos uniformes dos
internos, material com que Bispo
bordava as palavras que precisava
em uma de suas obras, ele escreve “eu
preciso destas palavras escrita”
(Nascimento, Lima Neto, Nóbrega,
2022). Como dizer que o avesso do que
a arte, os gestos e o corpo de Bispo do
Rosario narram não está tramado nas
relações com tantos outros sujeitos
negros e pobres que foram e seguem
sendo alvo das violências
manicoloniais (Gomes, 2019; David,
2022; 2024)? Como dizer que o que
narram está tramado somente a essas
relações e não a tudo aquilo que
complexifica o que trama Bispo à
amplitude relacional da existência?
Bispo contranarrou as uniformidades
manicoloniais e seus estigmas que lhe
fincaram no confinamento ao desfazer
as antigas roupas dos internos em
mantos sagrados com os quais fez um
inventário do mundo, fazendo furos-
fugas nos aprisionamentos que lhe
narravam manicolonialmente mesmo
sem poder sair além dos muros da
instituição asilar. Se lhe narravam pelas
tecnologias disciplinares (Foucault,
2008), pelas práticas de prender em
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MATZENAUER, Alessandra Rudiger; SZUCHMAN, Karine Shamash; COSTA,
Luis Artur; SILVA, Thayna Miranda da; CARDOSO, Vanessa Branco.
Tramando políticas do narrar: pistas ético-estéticas para pesquisas
especulativas. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em
Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.229-255, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
porões de tumbeiros (Ferdinand, 2022),
pelas necropolíticas de ampla negação
da vida (Mbembe, 2017), ele, por sua
vez, re-existia tensionando o possível
pela especulação com agulha e linha,
transpassando DSMs, CIDs, estigmas
e até mesmo muros, se pensarmos na
vida a reverberar em suas obras que
seguem a lhe narrar para além da
instituição manicolonial.
Gesto de narrar tão pessoal
quanto político, tão íntimo quanto
coletivo, tal como as obras cerzidas
pela artista Rosana Paulino (2009) em
seu gesto de costurar memórias
contranarrativas diante da neurose
cultural brasileira (Gonzales, 1984) e
sua dupla face de misoginia e racismo.
Em “Parede da memória”, criado em
1994, fotos de familiares se tornam
patuás delicadamente emoldurados por
uma costura, formando uma
constelação de referências que
auxiliam a guiar os rumos pelos quais
Rosana Paulino narra a si mesma. Em
“Bastidores”, obra de 1997, fotos de
mulheres negras em uma composição
que recorda as fotos elaboradas como
provas ou testemunhos. Costuras
rasuram bocas e olhos, em uma ação
que nos remete ao ato de calar,
invisibilizar, violências outras também
muito vividas por estas mulheres. As
obras presentificam mulheres vitimadas
pelas violências de gênero e raça tão
presentes em nosso país. A agulha e a
linha perdem o caráter delicado
usualmente presente na prática do
bordado, adquirindo uma pesada
densidade. O bastidor redondo que
sustenta as fotos impressas em tecidos
pode ser uma referência ao objeto
utilizado para o bordado que permite
acompanhar os dois lados do tecido. O
avesso e a superfície sobre a qual se
borda a figura desejada. Trazendo um
objeto e prática em geral associados ao
“feminino” para fazer ver a violência
que perpassa esses cotidianos: o
avesso de uma figuração “na estética
tradicional do bordado, o verso
‘denuncia’ a boa bordadeira, pois deve
ser tão bem acabado quanto o lado da
frente do bordado” (Alves; Silveira,
2018, p.159). O bordado em seu
avesso também é o espaço coletivo de
encontro entre mulheres bordadeiras e
pode, assim, operar como território de
compartilhamento e deslocamento
narrativo diante das políticas narrativas
patriarcais e seus ecossistemas
opressivos de gênero. Nas palavras da
própria artista:
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MATZENAUER, Alessandra Rudiger; SZUCHMAN, Karine Shamash; COSTA,
Luis Artur; SILVA, Thayna Miranda da; CARDOSO, Vanessa Branco.
Tramando políticas do narrar: pistas ético-estéticas para pesquisas
especulativas. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em
Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.229-255, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
Dentro desse pensar, faz parte
do meu fazer artístico
apropriar-me de objetos do
cotidiano ou elementos pouco
valorizados para produzir meus
trabalhos. Objetos banais, sem
importância. Utilizar-me de
objetos do domínio quase
exclusivo das mulheres.
Utilizar-me de tecidos e linhas.
Linhas que modificam o
sentido, costurando novos
significados, transformando um
objeto banal, ridículo,
alterando-o, tornando-o um
elemento de violência, de
repressão. O fio que torce,
puxa, modifica o formato do
rosto, produzindo bocas que
não gritam, dando nós na
garganta. Olhos costurados,
fechados para o mundo e,
principalmente, para sua
condição no mundo (Paulino,
2009).
O fio que tece suas obras traz
narrativas vivas que emaranham os fios
do pessoal e do político de modo nítido
e preciso. Os relatos compartilhados
em uma família (Paredes da Memória)
fazem um exercício de memória para
além de uma nação, mas também as
narrativas que transpassam as vidas
íntimas das mulheres negras em
nossos territórios se fazem ato político
coletivo (Bastidores). Assim como um
delicado trabalho de conjugação de
imagens diversas evidencia, denuncia
e subverte certas políticas narrativas
racistas-misóginas hegemônicas em
nossos ecossistemas narrativos: ao
constituir as obras A Permanência da
Estrutura (2017), O progresso das
nações (2017), O Amor pela Ciência
(2018), Atlântico Vermelho (2017),
Musa Paradisíaca (2018-2022),
Paraíso Tropical (2020), (de)enuncia
com nitidez e contundência o complexo
e heterogêneo emaranhamento de
narrares, para além das pretensas
divisões do espaço-tempo, que
produzem os duros arranjos das
políticas narrativas que seguem
reiterando os estigmas das imagens de
controle (Bueno, 2020), entrelaçando
ciência, polícia, mercado e muito mais
desde uma perspectiva moderno-
colonial.
Deste modo, Rosana Paulino,
assim como Arthur Bispo do Rosário,
destece as uniformidades tramadas em
nossas memórias e sensibilidades-
pensabilidades das políticas narrativas
e seus ecossistemas simbólico-
libidinais moderno-coloniais para,
então, tecer outros narrares possíveis
em uma ética da especulação que visa
estranhar a norma e ultrapassar os
limites do imaginável. Tal
tensionamento de nossas
possibilidades de imaginar opera para
romper com as formas que fixam
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MATZENAUER, Alessandra Rudiger; SZUCHMAN, Karine Shamash; COSTA,
Luis Artur; SILVA, Thayna Miranda da; CARDOSO, Vanessa Branco.
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estigmas ao atribuírem personagens e
enredos estereotipados, simplificados,
subalternizados para boa parte da
população em prol da manutenção de
uma política narrativa única que
estabelece um centro e delimita pela
negação narcísico-paranoide de si tudo
que está jogado para suas margens.
Do mesmo modo que tais
tessituras contranarrativas (Hartman,
2021; 2022) compõem coletivos que
escapam às dinâmicas normalizantes
da modernidade-colonialidade e
manicolonialidade, por outro lado,
muitas vezes o plano da artesanagem
narrativa toma como obra principal a
produção de um coletivo
contranarrativo que possa, por sua vez,
elaborar outras tecituras expressivas
para além daquelas instituídas nos
cânones das narrativas filiativas
(Glissant, 2021) únicas (Adichie, 2019).
O Quilombismo, enquanto arte da
composição de coletivos, foi
evidenciado nas obras de Abdias do
Nascimento (2002) e Beatriz
Nascimento (2022). Se recordarmos
que aqui, como na oralitura de Leda
Maria Martins (2021), os narrares não
estão circunscritos aos verbos e
imagens, mas são também feitos de
matéria, afetos, corpos, relevo, clima e
muito mais, se torna nítida a ação de
elaboração de um arranjo afetivo-
político que delimita a modulação de
territorialização de um coletivo que
passou a se denominar de
quilombismo. Pensado a partir das
experimentações políticas de
resistência à colonização e
escravização dos quilombos, a soma
do sufixo ismo evidencia que estamos
indo além destas importantes marcas
na história amefricana: aqui se trata da
constituição de uma linha de variação
pela qual delimitamos uma modulação
política singular dos processos de
territorialização de coletivos em contra-
narrativa aos modos hegemônicos de
arranjar agrupamentos sociais em
nosso mundo moderno-colonial.
O processo de construção de
coletivos afrocentrados baseados em
práticas políticas complexas de
acolhimento, apoio mútuo, invenção
social e criação artística, possibilitou a
emergência em nosso território dos
terreiros, das escolas de samba, dos
congados e muitas outras composições
artístico-políticas de coletivos, como
reterritorializações das territorialidades
africanas em conversa com as novas
territorialidades encontradas na
Améfrica (Nascimento, 2002; Sodré,
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MATZENAUER, Alessandra Rudiger; SZUCHMAN, Karine Shamash; COSTA,
Luis Artur; SILVA, Thayna Miranda da; CARDOSO, Vanessa Branco.
Tramando políticas do narrar: pistas ético-estéticas para pesquisas
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Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.229-255, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
2019; Martins, 2021). Arte, política,
religiosidade e produção de
conhecimento se mostram aqui
imanentes e inerentes a tais políticas
narrativas do quilombismo em sua
clínico-micropolítica afetiva da
produção de coletivos. Da obra
(bordado) ao coletivo ou do coletivo
como obra, vemos distintas variações
que se atravessam na busca por
afirmar políticas narrativas que
descolonizem nossos ecossistemas
(Ferdinand, 2022) em uma implicação
profunda (Ferreira da Silva, 2019) que
transversaliza as ditas “disciplinas” ou
“meios expressivos” do ocidente em um
emaranhado complexo de narrares
múltiplos que envolvem verbos,
números, corpos, objetos técnicos,
entidades, solo, rios, montanhas,
plantas, insetos, fungos, gestos,
danças, adornos e muito mais. O
avesso do narrar-bordar, assim, faz-se
avesso de mundo que nos permite
romper as narrativas metafísicas
ocidentais com suas pretensas
separabilidades, sequenciabilidades e
determinabilidades (Ferreira da Silva,
2019) que querem segmentar
categorias, tipos e hierarquias,
desfazendo-as em um rizoma-narrativo
como paradoxal imagem narrativa de
um pensamento sem imagem fixa
(Deleuze, 1988), a formar diferentes
ecossistemas em seus jogos
composicionais de afetações virtuais e
atuais.
O exercício ético especulativo-
ficcional de transgredir as linhas-tramas
instituídas, ampliando virtualidades
para além do possível, aliás, se torna
aqui ponto de confluência entre os
(des)fiares de Bispo, Rosana Paulino e
demais coletivos de bordadeiras
citados, assim como, também, opera o
encontro entre a figuração (Haraway,
2013), a fabulação crítica (Hartman,
2021; 2022), a Poética Negra Feminista
(Ferreira da Silva, 2019), a ética
ficcional (Coletivo Políticas do Narrar,
2022), a leitura reparadora anti-
paranóide (Sedgwick, 2020), a ética da
experimentação do CsO (Deleuze;
Guattari, 1996), entre outras milhares
de práticas que também tomam o
mundo como narrativa a ser ampliada
em suas possibilidades para além do
que é tomado como dado ao ser
naturalizado em nossos modos de
existir. Esta trama-rizoma de tantos
pontos que transpassam linhas
múltiplas, capazes de criar uma
quantidade infinita de ecossistemas
narrativos em constante devir, nos
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MATZENAUER, Alessandra Rudiger; SZUCHMAN, Karine Shamash; COSTA,
Luis Artur; SILVA, Thayna Miranda da; CARDOSO, Vanessa Branco.
Tramando políticas do narrar: pistas ético-estéticas para pesquisas
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
possibilita imaginar possíveis pistas
para um exercício ético-especulativo na
produção e relação com políticas
narrativas nas pesquisas acadêmicas,
abrindo caminhos para outras tramas
em composição. A ética ficcional do “e
se”, “se, então”, “talvez”,
“possivelmente”, do “absurdo”, do
“delírio” (Costa, 2014), não apenas
como modo de erigir perspectivas
frágeis que cultivam suas opacidades
(Glissant, 2021), mas também como
território de experimentação e
tensionamento dos limites do possível.
Como podemos, diante de tal proposta,
constituir pistas éticas, estéticas,
epistêmicas e políticas para nos auxiliar
na composição dos referidos
trabalhos? Evidentemente, não se trata
de planificar um manual, em um plano
de coordenadas preciso, pelo qual
poderíamos assumir posições e
práticas seguras na composição dos
narrares. São apenas exercícios éticos
que fomentam uma prática crítica sobre
nossa própria produção, disparadores
de problematização, questões que
jamais podemos cessar de nos fazer.
Pistas para um exercício ético-
especulativo do narrar nas
pesquisas acadêmicas
Grande parte da comunidade
acadêmica ainda crê que quem realiza
pesquisas deve assumir uma posição
de neutralidade perante sua
investigação, para que assim ela seja
objetiva e, portanto, confiável, digna de
crédito. Mas o que seria a pressuposta
neutralidade desde uma perspectiva do
gesto narrativo? Seria a pretensão de
construção de uma centralidade
murada que paradoxalmente apaga a
visibilidade de quem narra ao mesmo
tempo que o torna narcisicamente
onipresente em tudo que é por ele
narrado. Uma posição um tanto
prejudicial às epistemologias e
metodologias científicas, uma vez que
estas ficam reduzidas a um olhar
supostamente universal por meio de
uma negação de sua localização e
parcialidade. Essa aparente
contradição ser universal e reduzido
pode ser compreendida à medida em
que agregamos um olhar crítico para o
que, durante tanto tempo tempo
demais foi lido como universal sem
qualquer problematização. O
apagamento universalizante desta
posicionalidade narrativa, negando sua
provincianidade imanente para
pressupor uma pretensa centralidade
onipresente (Glissant, 2021),
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Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.229-255, set. 2025.
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naturalizou as linhas e relevos deste
lugar singular como se fossem normas
universais prescritas pela natureza:
antropocentrismo, eurocentralidade,
burguesia, branquitude, patriarcado,
corponormatividade,
cisheteronormatividade se fizeram
condições de possibilidade
transcendentalizadas para a
construção de qualquer personagem e
enredo em nossas vidas.
A academia, enquanto lugar
socialmente reconhecido como centro
da produção de conhecimento, é
veementemente atravessada pelos
pilares da modernidade-colonialidade
(Restrepo; Rojas, 2010), a saber:
branco, masculino, cishétero e
burguês. Essas são as marcas daquilo
que foi cunhado de universal
justamente pelas pessoas que habitam
tais lugares. Ou seja, aqueles que
estavam “fazendo a ciência” eram os
que habitavam a norma, e portanto,
acreditavam que não precisavam
nomear a si próprios. Como bem
aponta Jota Mombaça (2017), não ser
nomeada nem questionada é o
privilégio da norma. Ver-se como
espelho do mundo é sua característica,
de forma que seu universo torna-se o
universal. Deste modo, a
universalização da ciência moderno-
colonial é uma política narrativa que
apaga o apenas as existências e
saberes não-eurocentrados (pelo
genocídio, epistemicídio e alterocídio
necropolíticos), como, também, busca
naturalizar seu modo de narrar como
único legítimo, apagando suas próprias
posicionalidades, interesses, vieses e
tudo mais que lhe outorga
singularidade ao tomar sua
posicionalidade-perspectiva como
ponto de referência normatizador para
qualquer juízo, que passa a ser
compreendido como transcendente
(Platão, 2017; Descartes, 1999) ou
transcendental (Kant, 1984) em sua
universalização de um modo de
compreensão como sendo “o”
entendimento. Tal apagamento-
universalização nos impede, por
exemplo, de colocarmos com nitidez a
complexa realidade do pesquisar em
suas múltiplas limitações e
parcialidades, algo fundamental para
incrementar nossa capacidade de
análise da realidade e do conhecimento
produzido: poder percorrer as tramas
narrativas das posicionalidades desde
as quais enunciamos práticas-mundo
nos permite complexificar nossas
relações com tal mundo e com nossas
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
práticas. Tais “limitações” de delimitar
com alguma nitidez as posicionalidades
afirmadas nos narrares, nos permitem,
de fato, ampliar a complexidade de
nossas análises sobre a realidade e
seu campo de possibilidades
relacionais-narrativos. Assim, talvez
contra-intuitivamente, fazer ver tais
assunções dos processos incluídos em
nossa produção de conhecimento-
mundo irá incrementar a objetividade
deste processo ao fazer ver sua
complexa parcialidade.
Contra essa lógica moderna
colonial da universalização
pretensamente neutra, portanto,
buscamos localizar os saberes, como
pontua Haraway (1995), nomeando o
lugar desde onde estamos situadas.
Uma vez que afirmamos não haver
neutralidade possível em nosso fazer
acadêmico, assumimos um
posicionamento ético em nossas
pesquisas e nos comprometemos a
marcar o lugar desde o qual nos
situamos. Com Haraway, acreditamos
ser com essa visão parcial - e não
universal - que é possível alcançarmos
uma visão objetiva do que pretendemos
transmitir: a única objetividade possível
não é a universalidade, mas sim a nítida
e complexa localização das limitações
inerentes a qualquer produção. A ideia
de que "uma ótica é uma política de
posicionamentos" (Haraway, 1995,
p.27) deflagra que a maneira como
compreendemos determinado
fenômeno não pode ser apartada da
epistemologia (que sempre carrega
uma ética e uma política) com a qual
pactuamos, mesmo que de maneira
indireta. O que significa que o lugar de
onde vemos (somos afetadas e
afetamos o mundo), junto da forma pela
qual escolhemos nomear tais
afetações, diz sobre uma determinada
compreensão de produção de
conhecimento. Assim, assumir um
olhar parcial em nossas pesquisas é
poder localizar desde onde vemos,
reconhecendo não haver como fazer
em nome de todos. A ciência
pretensamente neutra e universal
precisou excluir uma imensa gama de
sujeitos para fazer caber sua verdade
para aqueles que se entendem
enquanto a norma (Grosfoguel, 2016).
Tal posicionamento ético
converge com o que propõe o
paradigma da inflexão decolonial, uma
vez que ali se busca questionar os
critérios epistêmicos de produção de
conhecimento acadêmico,
reconhecendo que estes estão
246
MATZENAUER, Alessandra Rudiger; SZUCHMAN, Karine Shamash; COSTA,
Luis Artur; SILVA, Thayna Miranda da; CARDOSO, Vanessa Branco.
Tramando políticas do narrar: pistas ético-estéticas para pesquisas
especulativas. PragMATIZES - Revista Latino-Americana de Estudos em
Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.229-255, set. 2025.
www.periodicos.uff.br/pragmatizes - ISSN 2237-1508
(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
embasados no eurocentrismo e na
modernidade. Fazendo coro a Haraway
(1995) e Mombaça (2017), a crítica
consiste em reconhecer "que todo
conhecimento é um conhecimento
situado histórica, corporal e
geopoliticamente" (Restrepo; Rojas,
2010, p. 189). Deste modo, temos aqui
nossa primeira pista para um exercício
ético-especulativo do narrar-mundo:
tramar posicionalidades evidenciando
as territorialidades desde as quais
enunciamos nossos narrares-
existências.
Tal pista inicial (posicionar-se)
nos leva logo à segunda: evitar que tal
posicionalidade assuma a geometria
das centralidades ou a homogeneidade
das purezas (Mbembe, 2017) filiativas
(Glissant, 2021) que pretendem
inaugurar linhagens em hierarquias
com privilégios baseados em posições
de conforto e segurança. Evitar a
produção de novas centralidades, mas
sim assumir a provincianidade
periférica de toda e qualquer produção
existencial (Glissant, 2021). Evitar as
narrativas filiativas (Glissant, 2021) que
buscam produzir pontos zero de
origens ou homogeneizar processos
em busca de purezas, estabelecendo
linhagens consideradas superiores
diante das demais dinâmicas narcísico-
ressentidas de exclusão (Glissant,
2021; Mbembe, 2017). Deste modo,
tais posicionalidades são sempre
porosas, rizomáticas e em devir,
assumindo um caráter extensivo
(Glissant, 2021) de (des)fazimento
(in)constante em ontologias fronteiriças
(Anzaldúa, 1987; Cusicanqui, 2021),
complexas e errantes, sem por isso
perderem sua consistência própria de
agenciamento coletivo e heterogêneo
de enunciações.
Delimitado tal exercício de
posicionalidade desde uma ética
ficcional-especulativa, podemos passar
para a terceira pista: a produção de
(rel)ação deste narrar busca
constantemente complexificar e
singularizar sua trama-mundo.
Incrementar a complexidade e
singularidade de nossas relações com
o mundo é um modo de ampliar a
realidade do mesmo (tal como vimos
antes com a questão da
posicionalidade), deste modo,
especular outras possibilidades
relacionais é um modo de vascularizar
possíveis e tornar mais reais nossos
narrares (Saer, 2004). A ciência
moderno-colonial, em contraposição,
busca homogeneização, previsão-
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MATZENAUER, Alessandra Rudiger; SZUCHMAN, Karine Shamash; COSTA,
Luis Artur; SILVA, Thayna Miranda da; CARDOSO, Vanessa Branco.
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Cultura, Niterói/RJ, Ano 15, n. 29, p.229-255, set. 2025.
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
controle e objetificação. Seus
resultados buscam verdades
universais, absolutas, incontestáveis.
Esses discursos buscam ser
instrumentos de dominação, previsão e
controle. Ignoram a diferença, a
experimentação e os campos de
afetação que continuam a se produzir
após a tentativa de capturar fenômenos
em narrativas frias e rígidas que se
sobrecodificam e reterritorializam em
fronteiras amedrontadas (Costa, 2020).
Uma ciência que deseja controlar e
objetificar violentamente,
transformando-o em um objeto
manipulável, simplificado,
esquemático, passível de ser
desmontado e remontado segundo
nossa vontade de domínio (Mbembe,
2017).
Queremos nos mobilizar com a
escrita. Estamos interessadas em falar
sobre os seus rastros, suas
descontinuidades, os fragmentos que
os fazem singulares. Queremos
contagiar a nossa escrita com a nossa
dúvida, com as nossas indagações sem
nome. Queremos escrever sobre a
trama infindável de possibilidades de
um acontecimento (Costa, 2014). A
ficção chega até nós para nos ajudar a
expressar essas camadas de
realidades possíveis em uma
antropologia especulativa (Saer, 2004)
que nos permite imaginar outros
mundos nos quais o modo colonial de
contar histórias não seja a única via,
onde as lógicas da modernidade e do
capitalismo podem ser levadas ao
absurdo, onde podemos denunciar os
distanciamentos que não se sustentam,
binários e excludentes de determinadas
narrativas. Podemos ultrapassar esse
ecossistema discursivo operando uma
contranarrativa, desnaturalizando a
forma como são produzidas verdades
sobre o nosso mundo.
Bastaria, então, invertermos os
atores de um modelo de narrativa
heroica para construir uma
contranarrativa? Bastaria, talvez, a
ênfase em histórias de
excepcionalidade para contranarrar o
que se marca sobre um grupo não
normativo e universal? O que temos
discutido aqui nos garante que não é
suficiente uma inversão entre quem
ocupa o lugar de herói ou vítima,
tampouco o apego a histórias de
exceção que muito pouco se articulam
à experiência do coletivo. Para que
uma ética ficcional-especulativa nos
afete em um lugar de inteligibilização-
sensibilização contrário aos
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
ecossistemas narrativos normativos, é
preciso que ela tenha vascularização
com a realidade. A proposta é exercitar
movimentos que densifiquem
existências costumeiramente fixadas
ou nessa figura normativa-universal ou
no lugar do não-ser que fundamenta a
construção do ser (Carneiro, 2005).
Para Chinua Achebe (2021), uma
ficção benéfica se reconhece como tal;
uma ficção maléfica nunca chega a
saber que é ficção. Enquanto os
métodos científicos dessa comunidade
acadêmica que aposta em uma
pretensa neutralidade na produção de
conhecimento não são percebidos
como uma construção ficcional, a ética
ficcional-especulativa espaço para
tramarmos camadas de possibilidade
de relações sem buscar esconder que
trabalha a partir da ficção e de seus
limites.
Com isso, adentramos em nossa
quarta pista: cultivar opacidades
(Glissant, 2021) e fragilidades
(Sedgwick, 2020) de modo a manter
nítido o caráter condicional e
contingente de todo narrar (Achebe,
2021). Escrevemos sobre a
complexidade, incrementando novas
tramas de afetos com que vamos
entrando em contato com o campo de
pesquisa, criando uma abertura para
novos intelectíveis e sensíveis, de
repetição e não de equivalência-
generalidade dos nossos processos de
contágio (Deleuze, 1988). Assim, na
composição destes narrares desde
uma ética especulativo-ficcional,
desejamos promover breakdowns
(Maturana; Varela, 2001), colapsos,
para demonstrar que os princípios de
qualquer narrar estão sempre abertos à
incerteza, opacidade e fragilidade como
potências de virtualização, como fontes
da abertura de possíveis.
Nossa quinta pista parte deste
cultivo da opacidade-fragilidade como
modo de sustentar aberturas para
afirmar uma direção ético-estético-
política de tensionar os limites do
possível, transgredindo-os ao máximo
por meio da experimentação de
territorialidades existenciais
inimagináveis. A metodologia
tradicional tenta afastar o corpo das
pessoas pesquisadoras da intervenção
transformadora na sua produção
científica (conhecer para, depois,
transformar), mas uma ética
especulativo-ficcional assume o desafio
de transformar para (des)conhecer. De
acordo com Fonseca e Costa (2013), a
composição de narrativas ficcionais nos
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(Dossiê "Narrar: gesto metodológico e indagação epistemológica")
permite largar mão do compromisso
com a delimitação de evidências fixas
para evidenciar sensibilidades,
percepções e afetos que são
mobilizados durante a pesquisa nos
coletivos envolvidos em diferentes
posições. Tensionando as fronteiras
entre a ciência, a arte e a filosofia, entre
o objetivo e o subjetivo, entre a verdade
e o falso para inventar coletivamente
mundos impossíveis. As estratégias
abdutivas (Peirce, 1974) e delirantes do
conhecer multiplicam os “e se” à
intensidade do colapso do naturalizado.
A sexta pista para um exercício
ético especulativo-ficcional do narrar-
mundos é a necessidade de escapar da
redução de nossa luta contra a
colonialidade ser enquadrada em uma
estilística do heroísmo (LeGuin, 2021).
Ursula LeGuin nos alerta para o fato de
que as dinâmicas patriarcais e da
colonialidade se embasam em uma
estilística das “histórias matadoras”
pelas quais se erigem heróis, mártires,
salvadores, os quais individualmente
atuam em um patamar de
excepcionalidade de modo a
constituírem-se como protagonistas em
um enredo em contraposição aos
antagonistas. O engajamento afetivo de
tais histórias e sua consonância às
políticas de inimizade da colonialidade
(Mbembe, 2017) e às políticas
belicosas da competição
empreendedora do capital, fazem com
que facilmente elas tomem conta de
nossos ecossistemas narrativos como
esquadro de inteligibilização-
sensibilização do mundo. Estas
políticas narrativas heroicas
estabelecem, por exemplo, mitos de
origens violentos que estabelecem
linhagens filiativas (Glissant, 2021)
excludentes marcadas por um ato
original de “martírio” ou outros
processos de libidinização de
acontecimentos violentos, tais como a
invasão dos continentes hoje
conhecidos como América e África na
sua colonização-escravização por
europeus. Em contraposição a tal
política do narrar, Ursula LeGuin nos
desafia a experimentarmos não o
narrar dos heróis-caçadores, mas sim
dos coletores-cultivadores: um narrar
que não estabelece linhagens e
linearidades, que não se baseia em
binarismos entre protagonistas e
antagonistas, mas que busca a
repetição dos ciclos coletivos que
afirmam diferenças no mundo. Em uma
política do narrar do cultivo e da coleta,
viramos todos batatas ao adentrarmos
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o cesto, em um processo de
horizontalização, interdependência e
cuidado como ética para nossos
processos de experimentação.
Mudar a forma como
constituímos nossas narrativas de
pesquisa passa invariavelmente por
nos ressituarmos na narrativa que
fazemos de nós mesmos. Gesto esse
que requer um olhar descolonizado,
extensivo e não filiativo, menos heroico
e universal e mais parcial. Como aliada
nesse horizonte narrativo que escapa à
lógica representacional, a ficção
contribui de forma a cultivar as
opacidades-fragilidades e marcar uma
trama singular, aberta, incerta, de
múltiplos caminhos. Com isso,
propomos um exercício narrativo ético-
especulativo que busca ampliar nossos
horizontes nas pesquisas acadêmicas,
nomeando práticas que coletivizam os
modos de ser-estar-fazer no mundo e
fazem frente às narrativas
colonizadoras e normativas.
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