DA ANCESTRALIDADE À OPÇÃO DECOLONIAL:
O QUE APRENDEMOS COM NOSSA PRÓPRIA HISTÓRIA
FROM ANCESTRALITY TO DECOLONIAL OPTION:
WHAT WE LEARN FROM OUR OWN STORY
Luiz Fernandes de Oliveira
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Resumo
Este texto vai abordar alguns conceitos e concepções que surgem durante nossas vidas,
nossos percursos formativos e nossas atividades políticas que, ao final, orientam
profundamente nossas atitudes, posturas e ações didáticas e pedagógicas no campo da
educação. Ao longo do texto algumas marcas teóricas vão aparecer como: o marxismo,
a ancestralidade negra, as identidades docentes e a opção decolonial. Essas marcas
terão como instrumento a construção de um diálogo entre o percurso formativo do
autor e algumas concepções de Paulo Freire expressas no seu livro Aprendendo com a
própria história”. Não tratarei aqui simplesmente de uma narrativa autobiográfica, mas
a exposição de uma análise sobre um percurso formativo a partir da opção decolonial.
Palavras-chave: Percurso Formativo. Opção Decolonial. Paulo Freire.
Abstract
This text will discuss some concepts and conceptions that arise during our lives, our
formative paths and our political activities that, at the end, deeply guide our attitudes,
postures and didactic and pedagogical actions in the field of education. Throughout the
text, some theoretical marks will appear such as: Marxism, Black ancestry, teaching
identities, and the decolonial option. These marks will have as an instrument the
construction of a dialog between the author's formative journey and some conceptions
of Paulo Freire expressed in his book "Learning from history itself". I will not deal here
simply with an autobiographical narrative, but with the exposition of an analysis of a
formative journey from the decolonial option.
Keywords: Formative path. Decolonial Option. Paulo Freire.
Introdução
Este texto vai abordar alguns conceitos e concepções que surgem durante
nossas vidas, nossos percursos formativos e nossas atividades políticas que, ao final,
orientam profundamente nossas atitudes, posturas e ações didáticas e pedagógicas no
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Professor Associado da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). E-mail:
axeluiz@gmail.com Tel: 21 988033391 ORCID: https://orcid.org/0000-0002-3955-3732
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campo da educação. Ao longo do texto algumas marcas teóricas vão aparecer, tais
como: o marxismo, a ancestralidade negra, as identidades docentes e a opção
decolonial. Tais marcas serão um importante instrumento para a construção de um
diálogo entre meu percurso formativo e algumas concepções de Paulo Freire expressas
no seu livro Aprendendo com a própria história”. Não tratarei aqui simplesmente de
uma narrativa autobiográfica, mas uma análise reflexiva sobre um percurso formativo a
partir da opção decolonial.
Precisamos começar, portanto, com minhas origens. Sou filho único de mãe
mineira, nascida no campo e pai nordestino, nascido no interior da Paraíba. Eles se
encontraram no Rio de Janeiro e em 1966 se casaram. Nasci em 1968 em Nova Iguaçu,
Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro. Meu pai era negro e minha mãe descendente
de povos indígenas, mas ela tem marcas fenotípicas misturadas entre branco e
indígena. No entanto, esta classificação racial de meus pais vai se evidenciar para
mim por volta de meus 25 anos de idade. Antes disso, vivenciei algumas
experiências que me formaram de modo profundo e estão presentes até os dias de
hoje.
Vivenciei uma infância pobre, sem conforto, mas sobrevivendo minimamente.
As brincadeiras de rua eram meus momentos mais marcantes: futebol, pipa, bola de
gude, etc. Meu pai era caminhoneiro e minha mãe dona de casa. Ela, antes de se casar,
era uma operária da indústria xtil. A infância foi marcada por uma escolarização no
contexto da ditadura militar (1974-1986) onde a disciplina, o culto à pátria e os
símbolos nacionais eram presentes cotidianamente dentro da escola, sem falar na
presença da pedagogia tradicional e o reforço de uma cultura branca e eurocêntrica
perpassado por estereótipos pejorativos contra negros e indígenas. Estes estereótipos
foram presentes em minha vida até o início dos anos de 1990.
Em 1980 meu pai sofreu um acidente com seu caminhão no município de
Seropédica e faleceu. Daquela data em diante, minha mãe passou a viver e
necessita trabalhar fora como empregada doméstica. Assim, dos 12 anos de idade até
os 16, passava a maioria das horas do dia estudando, cuidando da casa e brincando na
rua.
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Em 1984 mudei de escola e conheci um professor no primeiro ano do ensino
médio que lecionava a disciplina de Educação Moral e Cívica. Entretanto, ele não
seguia o programa estabelecido pela ditadura militar. Era marxista e mobilizava os
jovens adolescentes, como eu, a debaterem sobre os problemas sociais brasileiros,
sobre a política e as desigualdades sociais. Essa influência pedagógica também foi
reforçada por alguns primos da parte da família de minha mãe, pois esses eram
participantes de organizações clandestinas de esquerda. Encantado com as ideias
deles, iniciei muitas leituras, muito além dos livros didáticos e, por conta disso, optei,
em 1985, por fazer o único curso profissionalizante disponível que mais se aproximava
dos debates políticos e sociais que me interessavam: o curso médio normal de
formação de professores. Naquela época não tinha a menor noção e consciência de
que minha vida estava traçada para sempre nesta profissão e na construção de minha
identidade.
Isto porque, também em 1985, depois que este professor saiu da escola,
procurei a sede do Partido dos Trabalhadores (PT) de Nova Iguaçu, pois o mesmo era
militante do PT e me sugeriu procurar os militantes de Nova Iguaçu. Passei alguns
meses procurando a sede do PT e após 6 meses a encontrei. Foi a partir desse
encontro que passei a ler muito mais do que antes, pois, além dos livros teóricos sobre
marxismo, ciência política, etc., li também muitos jornais da esquerda, documentos
internos de correntes políticas dentro do PT e participei de muitos eventos e
seminários. Portanto, foi um mergulho em um outro mundo enquanto cursava a escola
normal, até 1986.
Quando termino o ensino médio logo em seguida começo a trabalhar no setor
do comércio em Nova Iguaçu. Esta experiência, não como escolha voluntária, me
direcionou para uma participação além do PT, ou seja, o movimento sindical e a
organização das lutas e reivindicações dos comerciários de Nova Iguaçu. A partir dessa
militância, em 1988 fui eleito presidente do sindicato dos Comerciários de Nova
Iguaçu, Nilópolis, Paracambi e Itaguaí , seguindo neste cargo até 1991.
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O município de Itaguaí nessa época englobava o distrito de Seropédica.
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Enfim, todo este período representou alguns dos momentos mais intensos de
meu percurso formativo, pois ainda reverberam até hoje as marcas do marxismo
crítico, do posicionamento político de esquerda e da prática pedagógica do diálogo
permanente com setores organizados ou não das classes populares e trabalhadoras,
visto que sempre tive como horizonte pedagógico e político uma perspectiva de
transformação das relações de poder e opressão capitalista.
Encerrada essa fase de sindicalista, retomo um desejado projeto: o de entrar
para a vida universitária. Em 1992, depois de passar no vestibular, ingresso no curso de
Ciências Sociais na UFRJ, entretanto, ao mesmo tempo, por conta de uma demanda
coletiva, me apresento como candidato a vereador pelo PT em Nova Iguaçu. Quis o
destino e graças às energias dos meus orixás de cabeça, eu não fui eleito, pois o
resultado mudou completamente minha trajetória de estudo e profissional.
A partir de 1993 retorno ao trabalho sindical, porém numa outra função,
agora como funcionário do Sindicato Estadual dos Profissionais da Educação do Rio de
Janeiro (SEPE-RJ). Mas, era uma função provisória, que o meu foco era os estudos.
Neste momento, retomei os contatos com amigos italianos que conheci nos anos de
1987 a 1991 que militavam junto a Comissão Pastoral da Terra (CPT). Eles, empenhados
junto aos meus desejos de estudo, me informaram da possibilidade de estudar na
Itália. Com esta informação, ousei tentar uma seleção na Universidade Degli Studi di
Roma. Não se tratava de uma ousadia subjetiva, mas de uma tentativa por ter a
possibilidade de ajuda de famílias italianas, pois jamais teria condições econômicas
para tal empreendimento. Assim, após ter passado na seleção para uma universidade
pública italiana, inicio meus estudos em Sociologia em setembro de 1993 até abril de
1998.
Viagem a Europa e a descoberta da ancestralidade
Como afirmei anteriormente, minha militância se iniciou em 1985 e foi
contínua até 1993. Em de julho de 1993 eu parti para Roma para começar meus
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estudos universitários na faculdade de sociologia. Foi uma decisão difícil e radical,
que passaria no mínimo quatro anos de vida em outro país, com uma cultura diversa e,
no decorrer dos estudos, aprenderia outra língua. Meu ritmo de vida foi
completamente alterado. não era o militante “24 horas” e nem uma pessoa que era
identificada somente como um dirigente do PT, sindicalista e marxista.
Saí do Brasil com a perspectiva de não militar durante um bom tempo e
dedicar minhas energias a um projeto de estudo. Somente este fato era uma
mudança radical e, somado à vivência num cotidiano desconhecido, acabou por se
tornar ainda mais revolucionária para “meu pequeno grande mundo” que aprendi até
aquela época.
Os primeiros tempos foram difíceis porque, além das saudades do Brasil,
deveria me habituar aos novos padrões de vida europeus. Quando se vive em outro
país e numa perspectiva de integração mínima a ele, começa-se logo a perceber as
diferenças com o seu país de origem que, no meu caso, é o Brasil. O contato com as
pessoas na faculdade de Roma e na vizinhança se dava no sentido de que elas
começavam a me conhecer, querendo saber sobre minha vida no Brasil, querendo
saber como era meu país, a cultura, o futebol, as pessoas, a qualidade de vida, etc.
Porém, por mais que falasse do Brasil, sentia-me uma pessoa sem história, ou seja, no
contato com essas pessoas não existia um passado, era preciso começar do zero,
construir tudo, fazer histórias em patamares jamais feitos por mim neste novo
território desconhecido, com uma língua que não dominava completamente e onde o
cheiro era diferente e as intuições incompreensíveis.
Mas as pessoas eram sensíveis e compreendiam minhas dificuldades.
Contudo, não paravam de perguntar sobre o Brasil, como era, qual a sua história, como
será seu futuro, etc. Respondia na medida do possível e então comecei a perceber que
não sabia responder adequadamente sobre a história do Brasil e suas culturas. Além de
não saber responder sobre certos assuntos, achava complicado explicar determinadas
coisas “bem brasileiras”, sem vivenciá-las de perto.
Um exemplo disto foi um almoço organizado por mim e alguns colegas da
faculdade, quando me encontrava a seis meses na Itália. Neste, preparamos uma
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feijoada, prato “típico brasiliano”. Num certo momento, alguém me perguntou qual era
a origem da feijoada. Por sorte, estava presente outro brasileiro que respondeu
imediatamente, sem esperar que eu desse a resposta. Digo sorte porque, até aquele
dia, eu não sabia a origem da feijoada como prato típico brasileiro. Descobri naquele
momento que os senhores de escravos (na versão desse colega) pegavam os restos de
carne e osso e jogavam pela janela da casa grande e, logo depois, os negros
escravizados pegavam esses restos e, na senzala, misturavam com o feijão, nascendo
assim a feijoada.
Foi um momento de crise para mim, pois comecei a me perguntar como eu,
um militante de esquerda, do PT e marxista não sabia a origem da feijoada. Esses e
outros momentos começaram a me fazer questionar se realmente conhecia meu país o
suficiente para contribuir num processo de transformação social. Além dessas
dificuldades identitárias, comecei a frequentar, no final de 1993, as aulas de
antropologia. Nestas aulas, encontrei um professor chamado Massimo Canevacci, cujo
olhar sobre o Brasil era muito diferente do meu. O que mais me impressionou nele era
a originalidade em ver coisas estranhas” nas coisas mais naturais para mim da cultura
brasileira. Nestas aulas, torcia para que ele não me perguntasse nada sobre o Brasil,
porque não me sentia seguro nas respostas sobre cultura brasileira. Enfim, percebi que
era um ignorante da “minha” cultura. Existia um Brasil que sempre esteve debaixo de
meu nariz, mas que eu não o via. Isto me obrigou e me incentivou a conhecer e
estudar determinados elementos da cultura “tupiniquim”.
Outro evento, em 1994, também contribuiu para esse despertar para a cultura
brasileira. Era o ano de eleições quando, no primeiro semestre, Lula e o PT estavam
cotados como certos para vencerem as eleições presidenciais. Mas a conjuntura
mudou, veio o plano real e Fernando Henrique Cardoso venceu logo no primeiro turno,
com mais de 50% dos votos. Para mim, junto a toda militância de esquerda no Brasil,
esse evento foi um momento de paralisia, pois as esperanças de mudanças escaparam
de nossas mãos. Não conseguia compreender aquela derrota, a porque estava muito
distante do Brasil. Esta derrota eleitoral foi um marco político em minha vida. A
angústia de saber por que o imaginário popular muda radicalmente em seis meses me
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mobilizou ainda mais no sentido de pesquisar a cultura brasileira”, que não fazia parte
das análises da esquerda em minha época, mesmo tendo o marxismo como método de
pensamento e ação.
Naquele momento comecei a estudar em antropologia a força social dos
símbolos, da religião, do sincretismo. Combinado com a necessidade de começar a
pensar num trabalho de final de curso, comecei a ler tudo sobre Brasil, o que se
encontrava ao meu alcance na Itália. Influenciado por professores, comecei a me
indagar sobre o poder simbólico na cultura brasileira e como ela influenciava as
disputas políticas nacionais pelo poder, indagações essas bem abstratas.
Ao contrário da esquerda europeia, sob influência da queda do socialismo
real, eu não me preocupava em rever o marxismo, ou pelo menos a forma como o
interpretava, ou seja, como um dos métodos de análise da realidade. Estava
preocupado em como seria minha militância quando voltasse ao Brasil. Procurei então
me aprofundar nas questões que mexiam com minhas utopias: a prática socialista no
cotidiano, a complexidade da realidade para lutar por um mundo melhor, a diferença
entre as culturas.
Iniciei, em 1995, os meus estudos sobre sincretismo, religiosidade e o poder
dos símbolos. Na época, não eram claros os questionamentos, mas sempre me
perguntava: como era possível fazer com que as pessoas desejassem um mundo
melhor e daí decidissem lutar por ele? Acreditei que o caráter místico e enigmático
dessas perguntas me conduzia a refletir sobre a religiosidade, pois essa era, para mim,
um mistério que dominava a cabeça das pessoas; então, comecei a identificar muitas
afinidades com nossos desejos utópicos de transformação social. Combinando isto com
minhas leituras sobre Brasil e suas culturas, me dediquei a ler mais sobre candomblé e
umbanda, que desconhecia completamente.
Nesse processo de autoconhecimento, em junho de 1995, chegava em minhas
mãos um texto intitulado “Candomblé, Exclusão e Luta” de Jorge Carneiro (1995), um
militante do PT que conhecia desde 1990. Este texto cintilou as minhas intuições e caiu
perfeitamente como um tema que buscava para um trabalho de final de curso de
graduação na Itália. Neste texto, Jorge afirmava que o candomblé também contribuía
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para a luta socialista, pois “Exú era o princípio que assegurava que é na contradição
que a ordem era estabelecida”.
À primeira vista, o texto me colocava diante de grandes perspectivas na
temática, mas, ao mesmo tempo, grandes dúvidas: como era possível ser do
candomblé e ser petista ao mesmo tempo? Como era possível conciliar magia e
revolução? Entrar em transe e racionalizar um projeto político? Ou seja, de início via
mais contradições que elementos comuns entre ser candomblecista e ser de esquerda.
Porém, logo depois percebi a lógica de meus raciocínios: estava de certa
forma contaminado pelo olhar eurocêntrico, pois fui despertado por amigos e
professores que era uma tolice pensar a partir de categorias supostamente objetivas,
que, para Jorge e outros militantes que descobri que existiam no Rio de Janeiro na
mesma condição, tinha um sentido profundo ser de esquerda, do PT e pertencer ao
candomblé. Percebi também que, através deste estudo, num viés antropológico,
poderia responder parcialmente minhas indagações e descobrir novas dimensões
utópicas na luta política.
Entretanto, este processo de descoberta de elementos de “minha” cultura não
foi somente racional. No aspecto emocional fiquei muito abalado por estar longe de
meus amigos e minha família. A saudade apertou, mas a maior saudade foi de meu pai
(falecido em 1980, quando tinha doze anos). Esta saudade cortou a pele e doeu muito,
pois aos doze anos eu não chorei seu falecimento e, quando as memórias de infância
inundaram minha mente devido à solidão profunda em um território distante, o choro
copiosamente foi diário por longos dias e longas semanas. O rosto do meu pai surgia
como espírito presente em cada momento de estudo e de reflexão sobre a vida, e esse
rosto era negro, como negro eram os africanos escravizados no Brasil, que começava a
identificar nas páginas de vários livros que devorava todos os dias. Assim,
acompanhando meus estudos sobre cultura brasileira, eu também descobri que sou
descendente de negros africanos. Nunca em minha vida, até aquele momento, eu
reconhecia que meu pai era negro, e esta condição emocional e racional me levou a
incorporar esta minha ascendência negra e a ascendência indígena de minha mãe. Daí
tudo se combinou, levando-me a tomar novos rumos na militância política,
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