Revista Aleph. Niterói, Dezembro de 2024, nº 43, p. 1 - 13 ISSN 1807-6211
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MULTITERRITORIALIDADE E ESTRATÉGIAS NA JORNADA DOS/AS
ESTUDANTES DE CAMADAS POPULARES NA UNIVERSIDADE FEDERAL DO
NORTE DO TOCANTINS (UFNT)
MULTITERRITORIALITY AND ETHNOMETHODS IN THE JOURNEY OF
STUDENTS FROM LOWER SOCIOECONOMIC BACKGROUNDS AT THE
FEDERAL UNIVERSITY OF NORTHERN TOCANTINS
Gabriel Queiroz dos Santos
1
Plábio Marcos Martins Desidério
2
Rosária Helena Ruiz Nakashima
3
Resumo
Explora a relação entre os conceitos de multiterritorialidade e as estratégias realizadas
por estudantes de camadas populares que ingressam na Universidade Federal do Norte
do Tocantins (UFNT). A partir de abordagem qualitativa e dos princípios da
etnometologia, o estudo investiga como estudantes navegam por múltiplos territórios
sicos e simbólicos ao longo de sua jornada acadêmica. O texto destaca as
estratégias cotidianas que eles/as desenvolvem para superar desafios e garantir sucesso
acadêmico. As narrativas revelam a importância das redes de apoio e da construção de
novos territórios de pertencimento dentro do contexto universitário.
Palavras-chaves: Multiterritorialidade. Estratégias. Universidade pública.
Abstract
This article explores the relationship between the concepts of multiterritoriality and
ethnomethods in the trajectories of students from lower socioeconomic backgrounds
who enroll at the Federal University of Northern Tocantins. Through a qualitative
approach and the principles of ethnomethodology, the study investigates how these
students navigate multiple territoriesboth physical and symbolicthroughout their
academic journey. The text highlights the everyday strategies they develop to overcome
challenges and achieve academic success. The collected narratives reveal the
1
Mestre em Estudos de Cultura e Território (PPGCULT). Coordenação Pedagógica (Ibra). Licenciatura em
História pela Universidade Federal do Tocantins (Câmpus de Araguaína). Membro do grupo de Estudos e
Pesquisas "História, Cultura e Território". E-mail: gqsccp@gmail.com. Telefone: (63) 99291-6037. ORCID:
https://orcid.org/0000-0003-3240-5654.
2
Professor do Curso de História e do PPG em Estudos de Cultura e Território. Coordenador do Núcleo de
Estudos Urbanos e Culturais. UFNT. Email: plabio.desiderio@ufnt.edu.br. Telefone: (63) 98121-5261.
ORCID https://orcid.org/0000-0002-2819-9846.
3
Pedagoga. Mestre em Educação pela Unicamp. Professora do Curso de História e do PPG em Estudos
de Cultura e Território (UFNT). E-mail: rosaria.nakashima@ufnt.edu.br. Telefone: (63) 98131-0335.
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-7798-6363.
Queiroz dos Santos, Desidério, Nakashima
Revista Aleph. Niterói, Dezembro de 2024, nº 43, p. 1 - 13 ISSN 1807-6211
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importance of support networks and the construction of new territories of belonging
within the university context.
Keys words: Multiterritoriality. Ethnomethodology. Public university.
Introdução
Este artigo busca explorar a relação entre os conceitos de multiterritorialidade,
conforme descrito por Rogério Haesbaert, e etnometodologia, desenvolvidos por Alain
Coulon, nas trajetórias de estudantes de camadas populares que ingressam na
universidade. A análise se concentra em como estudantes navegam pelos múltiplos
territórios tanto físicos quanto simbólicos que encontram ao longo de sua jornada
acadêmica, utilizando estratégias diárias, percebido pela etnometodologia, para superar
os desafios inerentes ao contexto universitário.
Conforme apontado por Carneiro e Sampaio (2011), a inclusão de jovens
provenientes de camadas populares no ensino superior é um fenômeno relativamente
recente, vinculado ao processo de expansão e interiorização das universidades
observado a partir dos anos 2000. As ações afirmativas, como as cotas, surgem como
mecanismos para corrigir desigualdades históricas e sociais, permitindo que mais
estudantes de origens socioeconômicas menos favorecidas possam transpor as
barreiras tradicionalmente associadas ao ingresso e à permanência no ensino superior.
Carneiro e Sampaio (2011) destacam que, embora haja debates acalorados sobre
a meritocracia, a permanência desses estudantes e as políticas de assistência voltadas
para garanti-la habitualmente o fazem parte desse debate. Esse movimento,
impulsionado pela implementação de políticas de ões afirmativas, reflete um esforço
para democratizar o acesso à educação superior no Brasil.
Nas seções seguintes, abordamos a etnometodologia como recurso trico-
metodológico na leitura das entrevistas (fontes) deste artigo. Logo, tratamos de desafios
enfrentados pelos/as estudantes no início de sua jornada acadêmica e as estratégias
desenvolvidas pelos mesmos como alternativa para o sucesso no percurso acadêmico.
Na terceira seção, exploramos como os/as estudantes constroem novos territórios
dentro da universidade por meio de suas interações sociais e redes de apoio.
Encerramos o artigo com algumas considerações sobre como a multiterritorialidade e
as estratégias criados pelos interlocutores/as foram significativos em seus percursos
acadêmicos.
Multiterritorialidade e estratégia na jornada dos/as estudantes de
camadas populares na Universidade Federal do Norte do Tocantins (UFNT)
Revista Aleph. Niterói, Dezembro de 2024, nº 43, p. 1 - 13 ISSN 1807-6211
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Caminhos metodológicos
Esta pesquisa é de natureza qualitativa, centrada na etnometodologia, com o
objetivo de investigar como os/as estudantes universitários (as) utilizam para se adaptar
e garantir o sucesso em seu percurso acadêmico. A abordagem qualitativa permitiu
explorar significados, motivações, valores e crenças dos/as participantes.
O estudo foi realizado na Universidade Federal do Norte do Tocantins (UFNT),
em Araguaína, especificamente com estudantes dos cursos de Zootecnia, Medicina,
Medicina Veterinária, Biologia, Qmica e História. A seleção foi limitada a estudantes
que estão entre o terceiro e o sexto período de seus cursos e que ingressaram na
universidade por meio de cotas para alunos de camadas populares e escolas públicas.
Participaram da pesquisa seis estudantes da UFNT (Quadro 1), cujas idades variam entre
19 e 22 anos.
Quadro 1: Dados das/os interlocutoras/es.
Nome
Idade
Curso
Período
Origem
Alice Silva
21
Medicina
Palminópolis (Gos)
Ana Maria
21
Biologia
Araguaína (Tocantins)
Raimunda Costa
Silva
22
Medicina
Veterinária
Araguatins (Tocantins)
Vinicius Costa
21
História
Santa Fé (Tocantins)
Castiel Rodrigues
21
Química
Estreito (Maranhão)
Emanuel Alves
19
Zootecnia
Arapoema (Tocantins)
Fonte: Dados da pesquisa (2022/2023/2024).
A coleta de dados foi realizada por meio de entrevistas semiestruturadas, que
foram gravadas com a autorização dos participantes. As entrevistas tiveram duração de
40 a 60 minutos e foram conduzidas com base em um roteiro que explorava as rotinas
acadêmicas, as estratégias utilizadas pelos/as estudantes para garantir seu sucesso
acadêmico.
O estudo foi conduzido de acordo com as normas éticas vigentes, tendo sido
aprovado pelo Conselho de Ética da Fundação Universidade Federal do Tocantins,
conforme o parecer 6.233.244. Todos os participantes assinaram um termo de
consentimento livre e esclarecido, garantindo o anonimato e o uso de nomes fictícios
para proteger suas identidades. A pesquisa respeitou todas as diretrizes da Norma
Operacional 001/2013.
A etnometodologia é uma abordagem sociológica que busca compreender os
todos e práticas que as pessoas utilizam no cotidiano para dar sentido às suas ações
e interações sociais. Diferente de outras abordagens, a etnometodologia se concentra
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Revista Aleph. Niterói, Dezembro de 2024, nº 43, p. 1 - 13 ISSN 1807-6211
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na análise das práticas sociais comuns, enfatizando a criatividade e a engenhosidade
com que os indivíduos interpretam e moldam a realidade à sua volta. Segundo Coulon
(1995), a etnometodologia é [...] a pesquisa empírica dos todos que os indivíduos
utilizam para dar sentido e ao mesmo tempo realizar as suas ações de todos os dias:
comunicar-se, tomar decisões, raciocinar" (p. 30).
Essa metodologia se distancia das tradicionais análises sociológicas normativas,
propondo um paradigma interpretativo que foca nos processos de interpretação em vez
de regras culturais estáveis. A etnometodologia, portanto, explora como os indivíduos,
por meio de práticas e estratégias, constroem e mantêm o mundo social ao seu redor,
exibindo competência social que lhes permite adaptar-se e integrar-se em diferentes
contextos sociais e institucionais (COULON, 1995, p. 48).
No contexto educacional, a etnometodologia tem sido utilizada para entender
como estudantes universitários, especialmente aqueles de camadas populares,
desenvolvem estratégias e práticas para se adaptarem e terem sucesso no ambiente
acadêmico. Coulon (2019) destaca que "[...] tornar-se um estudante universitário é
aprender um ofício, mesmo que temporário, para não fracassar no percurso acadêmico"
(p. 53). Isso envolve a afiliação intelectual e institucional, na qual o estudante aprende
a dominar a linguagem e os códigos do novo campo social em que es inserido,
garantindo assim sua continuidade e sucesso na vida universitária.
Essa perspectiva metodológica valorizou as práticas cotidianas e a adaptação
criativa dos/as interlocutores/as, oferecendo uma lente diferenciada para entender a
dinâmica social e educacional, especialmente em contextos desafiadores narrados por
eles/as. Assim, a etnometodologia se revelou um instrumento poderoso para investigar
como foram construídas suas trajetórias de vida e aprendizado em meio às estruturas
sociais nas quais estão inseridos/as.
Reforçando, a análise dos dados seguiu os princípios da etnometodologia, nos
quais foram identificadas categorias de análise orientadas pela teoria de Alain Coulon e
pelas narrativas dos estudantes. As entrevistas foram transcritas e analisadas para
identificar pades e significados relacionados às estratégias de adaptação dos
estudantes ao ambiente universitário.
Multiterritorialidade e as práticas dos estudantes no ambiente acadêmico: desafios de
ingresso
Enquanto se apresentavam, observamos nas narrativas das/os interlocutoras/es
a criação de estratégias por elas/eles, antes mesmo de adentrarem à universidade.
Multiterritorialidade e estratégia na jornada dos/as estudantes de
camadas populares na Universidade Federal do Norte do Tocantins (UFNT)
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Souza e Santos (2009) mencionam alguns aspectos que marcam as dificuldades dos
recém-chegados à universidade, a saber:
1. A realização da matrícula;
2. A necessidade de liberdade e autonomia no aprendizado;
3. A demanda de leituras mais densas na universidade;
4. A escrita das primeiras resenhas e artigos;
5. As apresentações em eventos acadêmicos;
6. A competitividade entre colegas em sala de aula;
7. O uso das normas técnicas para a escrita acadêmicas;
8. o ter o nome lembrado por professores em sala de aula ou por
funcionários da universidade;
9. Informações sobre a localização de salas de aulas em murais;
10. Sentir-se perdidos na localização dos prédios administrativos, biblioteca e
demais espaços universitários;
11. As roupas e a aparência não padronizadas dos estudantes;
12. o ter conhecidos na cidade universiria;
13. Os desafios em dividir casa com outros estudantes;
14. A surpresa da aprovação, entre outros marcadores (SOUZA; SANTOS;
2009, p. 164).
Por isso, antes do ingresso na universidade, identificamos que essa etapa da vida
é conflituosa. É nesse momento que os medos começam a tornar o desejo opaco, em
relação aos objetivos traçados no momento da inscrição para o vestibular ou ENEM.
Esses medos advêm de uma série de questões, tais como a linguagem densa dos editais,
as burocracias documentais da matrícula, a geografia do campus universitário e até
mesmo o convívio afetivo e cultural dos diferentes sujeitos nas primeiras semanas de
aula.
No contexto universitário ocorrem processos contínuos de multiterritorialidade,
forjados pelas diversas interações e experiências vivenciadas pelos estudantes antes e
durante sua jornada acamica. Segundo Haesbaert (2004, p. 344):
A existência do que estamos denominando multiterritorialidade pelo menos
no sentido de experimentar vários territórios ao mesmo tempo e de a partir
daí formular uma territorialização efetivamente múltipla não é exatamente
uma novidade pelo simples fato de que se o processo de territorialização
parte do nível individual ou de pequenos grupos toda relação social implica
uma interação territorial um entrecruzamento de diferentes territórios. Em
certo sentido teríamos vivido sempre uma “multiterritorialidade”.
Esta concepção reconhece que as pessoas constroem e vivenciam múltiplos
territórios simultaneamente, cada um com suas próprias significações e modos de
relação. Essa experiência de multiterritorialidade sempre existiu, pois, mesmo as
interações sociais mais básicas envolvem a negociação de diversos territórios.
A multiterritorialidade envolve tanto as conotações materiais quanto simbólicas
do território, vinculadas às noções de poder, dominação e apropriação (HAESBAERT,
Queiroz dos Santos, Desidério, Nakashima
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2004). Nesta pesquisa, os/as estudantes de camadas populares navegaram por
múltiplos territórios simultaneamente, como suas origens socioeconômicas, a cultura
acadêmica e as novas exigências do ambiente universitário.
As narrativas dos/as interlocutores/as evidenciaram a criação de estratégias por
eles antes mesmo de adentrarem à universidade. Souza e Santos (2009) mencionam
aspectos que marcam as dificuldades dos recém-chegados à universidade, como a
realização da matrícula, a necessidade de liberdade e autonomia no aprendizado, e a
demanda de leituras mais densas.
Alice Silva, estudante de Medicina, narra sua trajetória marcada por desafios
econômicos e educacionais para ingressar na universidade, destacando a importância
do apoio familiar e de cursinhos preparatórios. Ela relata:
Em 2018 fiz o ENEM tirei uma nota satisfatória, mas eu ainda o consegui
passar no SISU no primeiro semestre no SISU/01 também joguei minha nota
no PROUNI, mas ficava sempre no quase. Fiquei muito triste, mas sempre tive
apoio dos meus pais daí voltei para um cursinho com desconto sempre com
desconto eu fiz esse cursinho fiz am provas a UNEMATE estadual do Mato
Grosso continuando estudando, pois, muitas coisas podiam acontecer no ano
de 2019 com o SISU/02 consegui entrar na UFT e em seguida recebi o
resultado da UNEMATE foialegria! (Alice Silva estudante de Medicina
UFT/UFNT).
Essa narrativa demonstra como os estudantes de camadas populares constroem
estratégias cotidianas, para superar obstáculos e alcançar seus objetivos educacionais.
A multiterritorialidade no ambiente universitário reflete a adaptação dos estudantes às
novas realidades e a construção de pertencimento em múltiplos territórios simbólicos e
materiais.
A adaptação acadêmica depende de vários fatores que contribuem para que os
estudantes se sintam integrados ao curso e à universidade. Entretanto, esses aspectos
nem sempre estão diretamente ligados ao contexto acamico. A afiliação ao ensino
superior envolve desde o sentimento de pertencimento à turma até o conhecimento
das oportunidades oferecidas pela universidade, além da rede de apoio disponível para
os calouros em casos de dificuldade.
Outra interlocutora, Raimunda Costa Silva, que ingressou em Medicina
Veterinária, relata que a falta de preparação oferecida pelo ensino blico a obrigou a
buscar aulas preparatórias para o vestibular, oferecidas de forma voluntária por
professores/as de sua cidade. Esse tipo de apoio comunitário evidencia a importância
das redes de solidariedade na construção das estratégias necessárias para o sucesso
acadêmico.
Multiterritorialidade e estratégia na jornada dos/as estudantes de
camadas populares na Universidade Federal do Norte do Tocantins (UFNT)
Revista Aleph. Niterói, Dezembro de 2024, nº 43, p. 1 - 13 ISSN 1807-6211
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Alice Silva menciona que, durante sua preparação para o vestibular, utilizou
recursos autodidatas e buscou apoio em cursinhos pré-vestibular online. Ela destaca:
Eu terminei o ensino médio em 2015 quando terminei eu sabia muito que
queria medicina, mas eu o sabia como eu iria conseguir... Sabendo que seria
difícil, eu persistia, buscando o que era possível na minha realidade (Alice
Silva).
Mesmo com todo o esforço, Alice não obteve sucesso imediato, precisando de
várias tentativas até conseguir uma vaga em Medicina na UFT/UFNT. Sua jornada é
marcada por uma complexa interação entre diferentes territórios sociais e acadêmicos,
destacando a importância de reconhecer a educação como um processo
profundamente enraizado em contextos sociais e espaciais.
Criação de novos territórios: relações sociais e redes de apoio
No contexto da entrada de estudantes de camadas populares na universidade, é
possível observar a construção de novos territórios a partir de suas vivências e
interações sociais. Conforme exposto por Haesbaert (2004), a multiterritorialidade é um
fenômeno que "diz respeito tanto ao poder no sentido mais concreto de dominação
quanto ao poder no sentido mais simbólico de apropriação" (HAESBAERT, 2004, p.
6774). Assim, ao adentrarem a universidade, os/as estudantes o abandonam
completamente seus territórios de origem, mas constroem novas territorialidades que
entrelaçam suas experiências anteriores com os desafios e oportunidades do novo
ambiente.
As narrativas dos/as interlocutores/as deste estudo revelam como a adaptação
à universidade envolve a criação de práticas, estratégias cotidianas que facilitam a
navegação nesse novo território. Por exemplo, Alice Silva, estudante de Medicina na
UFT/UFNT, descreve sua trajetória como marcada por "perseverança, estudos
independentes, enfrentamento de dificuldades econômicas e conquista de bolsa
estudantil em cursinho pré-vestibular". Alice compartilha sua história:
A primeira batalha gira em torno do dinheiro porque eu via muitas pessoas
ao meu redor com melhores condições financeiras indo para Goiânia fazer
cursinho, conciliar o ensino público com o cursinho. Eu vi muito isso e eu não
tinha... meu pai o tinha condição de me mandar para Goiânia para fazer
cursinho e nem em uma cidade próxima que já tinha um cursinho que é São
Luís de Montes Belos. [...] Eu terminei o ensino médio em 2015, quando
terminei eu sabia muito que queria medicina, mas eu não sabia como eu iria
conseguir. Na época eu fiz o ENEM no ano, eu tirei uma nota satisfatória
na redação, na época na redação mesmo, pois nas outras estava bem
abaixo para o curso que eu queria. [...] Eu decidi persistir no que eu queria,
então eu fiz cursinho online em 2016 para isso, eu estudei com o
'descomplica'. Nesse um ano eu já tinha noção da minha defasagem com o
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ensino público, mas com o cursinho eu tive noção que era mais ainda, do
quanto faltava para eu alcançar meus objetivos que era entrar na Medicina"
(Alice Silva, estudante de Medicina UFT/UFNT).
Essa trajetória demonstra como as estudantes utilizam recursos disponíveis em
seus contextos sociais e familiares para superar obstáculos aparentemente
intransponíveis. A persistência de Alice é um exemplo claro de como a construção de
novos territórios acadêmicos envolve estratégias de adaptação e resistência.
Outro exemplo significativo é o de Castiel Rodrigues, estudante de Química na
UFT/UFNT, que teve sua inscrição no vestibular custeada por uma professora,
destacando a importância das redes de apoio que se formam no território educacional.
Ele narra:
É engraçado isso porque eu não consegui pagar uma professora minha falou
'Castiel, eu acredito que tu vais passar... o valor completo era cento e
quarenta e cinco se não me engano. Aí eu falei 'A senhora acha, professora?'
Eu consegui um pouco do dinheiro, só que eu o tive muito apoio da minha
família porque estavam passando por uma crise de saúde. Então eu fiquei
assim, mas a minha professora falou 'Eu vou pagar o resto pra ti, me diz
quanto é'. ela pagou e foi no último dia, eu fiz, então praticamente foi
essa a história pra eu poder chegar até aqui (Castiel Rodrigues, estudante de
Química UFT/UFNT).
Este relato ilustra como o apoio de professores e colegas é fundamental para
que estudantes de camadas populares consigam ingressar e permanecer na
universidade. A multiterritorialidade vivenciada por esses/as estudantes também se
manifesta nas mudanças identitárias e culturais que acompanham o ingresso no
ambiente universitário.
Raimunda Costa Silva, estudante de Medicina Veterinária, reflete sobre a
distância de sua família e como isso impactou sua adaptação: “Tive que vir para outra
cidade, fiquei muito longe da minha e, do meu namorado, então é difícil lidar com
essa distância” (Raimunda Costa Silva, estudante de Medicina Veterinária UFT/UFNT).
Por outro lado, ela também relata como a experiência de estar em um ambiente
universitário contribuiu para sua sensação de pertencimento e realização:” Eu me sinto
bastante pertencente a esse universo universitário porque, no caso, a faculdade
veterinária foi o que sempre quis” (Raimunda Costa Silva, estudante de Medicina
Veterinária UFT/UFNT).
Coulon (2008, p. 35) destaca que o primeiro ano na universidade é “(...)
catastrófico para muitos e o difícil para todos”. Isso porque toda novidade é permeada
por estranheza, por difícil assimilação e, muitos estudantes ficavam surpreendidos com
tantas dificuldades enfrentadas, pressupondo aos estudantes que “os alunos do ensino
médio o estão preparados para se afiliar ao ensino superior, especialmente porque
Multiterritorialidade e estratégia na jornada dos/as estudantes de
camadas populares na Universidade Federal do Norte do Tocantins (UFNT)
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eles devem suportar uma orientação obrigatória que lhe faz acreditar que estão no lugar
que merecem” (p. 35).
a estudante Raimunda Costa Silva relata que o sentiu tanta dificuldade no
processo transitório entre ensino médio e universidade, mas em contrapartida salienta
que foi o caso dela, tendo em vista que é aluna oriunda do Instituto Federal do Tocantins
(IFTO), onde, segundo a estudante, traz uma educação voltada para a ciência.
No superior os professores são menos acessíveis e raramente interação
com os alunos, principalmente no período da pandemia. Mas, em questão de
adaptação, eu tive muita sorte, porque o meu ensino médio eu fiz em escola
federal também, estudava o dia todo tinha muitas disciplinas. Os professores
também, grande maioria, com doutorado eram excelentes. Então o nível de
exincia era muito alto e quando eu entrei na faculdade foi uma
continuação, a única coisa na faculdade vo tem que aprofundar mais. Essa
foi a diferença que eu vi, essa questão de que os professores realmente são
menos acessíveis e quase não tem aquela interação saudável entre os alunos
e os professores e os alunos, mas esse é o meu caso, mas tem colega, a
maioria, não teve esse privilégio que eu te vi os que vieram assim escola
normal [escola pública, sem ser instituto federal] eles realmente sofrem
bastante (Raimunda Costa Silva, estudante de Medicina Veterinária
UFT/UFNT).
Sob este aspecto, Oliveira et al. (2014) afirmam que uma importante
característica que se sobressai no processo de permanência do estudante recém-
chegado na universidade, é a interação entre professor-aluno, cuja relação, segundo
Raimunda Costa Silva, ainda é distante. Vale ressaltar que a acadêmica vivenciou a maior
parte de sua experiência no período das atividades remotas, durante a pandemia de
Covid-19
4
. A
[...] relação professor-aluno mostra-se fundamental para a avaliação da
qualidade da trajetória universitária (Soares, Almeida, Diniz, & Guisande,
2006). Esta interação depende, fundamentalmente, do ambiente
estabelecido pelo docente, da relação empática com seus alunos, de sua
capacidade de ouvir, refletir e discutir o nível de compreensão dos estudantes
e da criação das pontes entre o seu conhecimento e o deles (Brait e cols.,
2010). Além disso, a disponibilidade dos professores está relacionada a maior
adesão ao curso e à profissão, o que pode contribuir para a satisfação com a
escolha profissional (Teixeira, Castro & Piccolo, 2007) (OLIVEIRA et al., 2014,
p. 240).
O advento da Covid-19 o impactou somente a estudante Raimunda, mas
diversos outros que adentraram a universidade em 2020, como foi o caso do estudante
Vinicius. Este só conseguiu conhecer, efetivamente, a universidade um ano após iniciar
as aulas e, ao ser questionado sobre como foi o primeiro dia na universidade, responde:
4
No dia 30 de março de 2020, o Conselho Universitário da UFT (Consuni) deliberou a suspenção do
calendário estudantil da UFT/UFNT, devido a pandemia de coronavírus que o mundo começara a
enfrentar.
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Eu fui pisar na universidade de fato apenas um ano após já estar estudando,
porque ingressei no período pandêmico. Nesse sentido de pisar pela primeira
vez, o que me lembro de sentir euforia, ver os amigos que já tinha feito no
meio remoto, encontrar professores e viver de fato a universidade
presencialmente e o por meio de uma tela. (Vinicius Costa, estudante de
História UFT/UFNT).
Vinicius, vivenciou o impacto da pandemia de Covid-19, destacando a
experiência de entrar na universidade em um momento atípico e só conseguir interagir
fisicamente com o espaço universitário e seus colegas após um ano de estudo remoto.
A "euforia" de pisar na universidade reflete o valor significativo do espaçosico como
um território de socialização, aprendizado e desenvolvimento pessoal.
A partir desse relato, permitiu-se perguntar a Vinicius como foi o primeiro
peodo, em um momento de transição ensino médio e academia. A narrativa de Vinicius
é de que a experiência, pelo menos, pedagógica não foi muito diferente, tendo em vista
que ao concluir o ensino médio remotamente, ele conseguiu, nesse aspecto, se
familiarizar muito rápido.
Não tive tanto impacto, pois eu já vinha de um término no ensino médio
completamente remoto, então quando ingressei, já estava habituado ao meio
remoto. Sendo o ensino remoto, as cobranças não eram tantas quanto as no
ensino presencial (Vinicius Costa, estudante de História UFT/UFNT).
Não muito diferente de Vinicius, a estudante de Biologia, Ana Maria, quando
indagada sobre seu primeiro período na universidade, ela aponta a pandemia como
sendo sua principal dificuldade, já que foi impossibilitada de experienciar certos
momentos que poderiam contribuir para sua formação acadêmica
[...] entrou um cenário que era p-pandêmico então foi muito pouco contato
social quando acontece a paralisação que seria 15 dias e acabou se tornando
seis meses ou mais e quando a gente voltou foi mal tratamento, porque era
para fazer três períodos em um ano então foi muito, muito corrido, muita
informação e tanto professores quanto os alunos estavam se adaptando com
cenário de utilização de tecnologias. (...) nem todos os alunosm tecnologia
com acesso à internet, né, grande parte deles também moram na zona rural
e tudo mais. Então foram esses três períodos de adaptação, os dois a gente
se adaptou às metodologias alternativas para promover o aprendizado para
os alunos (Ana Maria, estudante de Biologia UFT/UFNT).
Ana Maria apontou que a pandemia provocou um distanciamento social, não
somente entre pessoas, mas também entre a academia e os universirios e, esse
momento, tratado como crucial para a efetiva permanecia dos estudantes foram
agravados. Isso porque, o processo de afiliação dos estudantes, segundo Coulon (2008),
se no constante exercício de alternativas e ter entendido o ritmo próprio das
múltiplas regras da vida de um estudante e compreender sua ordem temporal.”
(COULON, 2008, p. 208).
Multiterritorialidade e estratégia na jornada dos/as estudantes de
camadas populares na Universidade Federal do Norte do Tocantins (UFNT)
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Entendemos as experiências de Vinicius e Ana Maria como um exemplo de
multiterritorialidade em ação. A transição do ensino remoto para o presencial e a
adaptação a um ambiente educacional transformado pela pandemia são expressões de
como os territórios o o apenas físicos, mas também simbólicos e emocionais. A
pandemia forçou uma ampliação das práticas educacionais e sociais, movendo-as de
espaços físicos para virtuais e, eventualmente, de volta para o presencial.
A multiterritorialidade teorizada por Haesbaert (2004) pode ser observada na
maneira como os estudantes, como Vinicius, navegaram entre diferentes "territórios"
durante a pandemia, como espaço de aprendizado, o ambiente virtual do ensino médio
e da universidade, e finalmente, a universidade física. Essa experiência destaca a
adaptabilidade e a resiliência dos estudantes diante das mudanças forçadas nas suas
territorialidades habituais.
Nesse sentido, a vivência em novos territórios, portanto, não se limita ao espaço
físico da universidade, mas envolve uma complexa negociação de identidades e
pertencimentos. A narrativa de Emanuel Alves, estudante de Zootecnia, destaca os
desafios de transitar em "territórios virtuais" que coexistem na universidade. Ele
comenta:
É muito difícil entrar na questão do Cubo e do Piso, que é a inscrição para
auxílios como alimentação, computadores. São muito bons, mas o muitos
documentos, tantas coisas que às vezes a gente nem consegue porque tem
que fazer muitos documentos, muitos mesmos (Emanuel Alves, estudante de
Zootecnia UFT/UFNT).
Essas experiências ressaltam a complexidade da adaptação dos/as estudantes ao
novo ambiente acadêmico e a necessidade de apoio institucional para que possam
construir suas trajetórias acadêmicas com sucesso. Sob esse prisma, a
multiterritorialidade teorizada por Haesbaert (2004) pode ser observada na maneira
como os/as estudantes navegam entre diferentes "territórios" durante sua jornada
universitária, combinando suas vivências anteriores com as novas experiências no
ambiente acadêmico.
Considerações finais
As experiências de multiterritorialidade e se estratégias construídas pelos/as
estudantes para superar os desafios acadêmicos refletem a complexidade do processo
de adaptação ao ambiente universitário. Esse processo envolve não apenas a navegação
entre diferentes territórios sicos e simbólicos, mas também a construção de uma nova
identidade acadêmica. Os relatos dos estudantes revelam como eles utilizam suas
Queiroz dos Santos, Desidério, Nakashima
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experiências prévias e redes de apoio para criar estratégias que os ajudam a alcançar
seus objetivos educacionais em um contexto muitas vezes adverso.
O acesso de jovens de camadas populares na universidade pública é algo
relativamente recente e ainda é motivo de importantes debates. Esse artigo é resultado
de uma dissertação, defendida em junho de 2024, que teve como foco investigar como
esses jovens, diariamente, estabeleceram critérios para agirem em benefícios de seus
sucessos acadêmicos. A palavra sucesso pode aparecer revestida de meritocracia,
mas que neste estudo, ela se apresenta como sinônimo de conquistas cotidiana dos/as
interlocutores/as.
Logo, compreendemos que o sucesso acadêmico o se limitou a alcançar altas
notas ou prêmios, mas, principalmente incluiu o desenvolvimento pessoal, a adaptação
à cultura universitária, a formação de redes de apoio e a capacidade de criação de
estratégias para enfrentar desafios pessoais e acadêmicos.
A metodologia escolhida nos permitiu ouvir narrativas de estudantes que, no dia
a dia, incorporam as suas dificuldades e constroem práticas, ou seja, ações que,
individual ou coletivamente, solucionam os problemas diários. Logo, a etnometodologia
explorou como os indivíduos, por meio de suas práticas/estratégias constroem e
mantêm no universo da academia, demonstrando uma competência social que lhes
permite se adaptar e integrar-se em diferentes contextos sociais e institucionais da
Universidade.
Acreditamos que ao reconhecer e valorizar as práticas cotidianas desses
estudantes, as universidades podem criar um ambiente mais inclusivo e acolhedor,
capaz de atender às diversas demandas de estudantes do ensino superior,
principalmente advindas de camadas populares.
Referências
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Data do envio: 02 /09 /2024
Data do aceite: 19 /12 /2024.