RESENHA


O URDUME E A TRAMA DA DESIGUALDADE NOS PROCESSOS EDUCACIONAIS.


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Por Stella Maris Garcia

Universidad Nacional de La Plata La Plata, Buenos Aires, Argentina

 

 

Datos catalíticos de la obra

BARONNET, B.; FREGOSO G. C.; DOMÍNGUEZ RUEDA, F. (Coord.). Racismo, Interculturalidad y Educacion en México. Veracruz: Biblioteca Digital de Investigación Educativa, Universidad de Veracruz. (Serie Investigación, 13)


 

 

 

Este livro digital, coordenado por Bruno Baronnet, Gisela Fregoso e Fortino Domínguez Rueda, e dividido em duas partes: "Educação, diversidade e racismo no ambiente urbano" e "Manifestações de racismo e discriminação no ensino superior", exibe a complexidade da ideologia da superioridade racial que sustenta a trama de práticas e representações nos processos de reconhecimento e identificação presentes no sistema educacional mexicano. Os estudos se localizan no México, mas um tecido social dessa índole, se pode encontrar na dinâmica identitaria de grande parte da população do continente americano, consolidado durante mais de cinco séculos de história colonial, em que as instituições educativas oficiam de mostruário de uma cotidianidade colonizada. O lúcido prologo escrito por Elizabeth Castillo Guzmán, nos apresenta as maneiras pelas quais o racismo e a discriminação habitam confortavelmente as salas de aula das escolas e universidades, enquanto as políticas educacionais permanecem presas nos indicadores de qualidade dos parâmetros internacionais. A primeira parte se inicia com um capítulo de dois dos coordenadores, Fregoso e Domínguez, quem apresentam a problemática nodal do libro ao desenvolver as categorias conceituais e metodológicas na sua dimensão histórica e nas suas transformações e redefinições - conceptualização chave para a leitura e dimensionamento das contribuições dos e das autore/as seguintes. Enfocam a relevância das lutas dos movimentos sociais na América (povos originários e afrodescendentes) que demandam aos Estado nação o reconhecimento de suas culturas, o uso de suas línguas, os direitos sobre a terra e o exercício da autonomia. Resulta muito potente o desenvolvimento do que denominam cruzamento de vias com o fim de ‘começar a tender pontes entre categorias culturais/étnicas e uma construção discursiva e política em torno do racismo. Fregoso e Dominguez enfatizam também que, na história mexicana, deixa-se de falar de raça e se alude a culturas e diferenças culturais, fato que conseguiu legitimar a política de mestiçagem e sustentou uma ideologia relativista para a análise do social, com base num suposto e aparente antirracismo. Os autores enunciam conceitos, como discriminação, por exemplo, para classificar e ordenar alguns comportamentos diferenciando-os de racismo, entendido como “um fenómeno estrutural e histórico”, como “a naturalização das relações hierárquicas”, incutido no “coração do sistema que nos rege porque é parte de sua lógica”. Se faz parte da lógica do sistema capitalista que se impõe no desenvolvimento histórico da formação social mexicana, o leitor poderia se preguntar ¿não seria imperioso aceitar que os conceitos que se indicam moram na trama tingida que os habilita: o racismo?

São quatro os trabalhos que fazem parte da primeira parte e nos aproximam, de uma perspectiva etnográfica, a diversas instâncias cotidianas urbanas. Verónica Escalante Tovar em “Segregação de espaços educativos e seu efeito na percepção da outredade em Mérida, Yucatán”, propõe, a partir de uma pesquisa colaborativa em duas escolas com população desigual economicamente, gerar instâncias de tomada de consciência dos preconceitos presentes nos contextos em que atua, provocando questionamentos aos estudantes mediante experiências pessoais e a aquisição de ferramentas de apoio mútuo. A autora foca seu olhar nos espaços que os estudantes ocupam, já que parte da ideia dos espaços como construções culturais que emergem de interações sociais. Conclui afirmando que ao gerar experiências de conhecimento mútuo pode se colaborar para combater o racismo. Esther Charabati Nehmad em “Saberes de resistência. A educação escolar de uma minoria: os judeus de Alepo no México”, da conta de uma pesquisa qualitativa realizada no Colégio Hebreo Maguén David (CHMD), produzindo conhecimento sobre os aspectos históricos, religiosos, culturais que a instituição privilegia para sustentar a construção identitaria de alunos e docentes. A experiência escolar é valorizada por dar elementos aos quais recorrer como estratégias de defesa diante de possíveis interações discriminatórias por parte de não-judeus e, fundamentalmente, por formar sujeitos comunitários conhecedores da história do povo judeu e que se reconhecem como membros da comunidade judia mexicana. Lizbeth Escorza em “Homogeneidade, diversidade e diferença. Aproximações desde o estudo das discriminações no Colégio de Ensino Médio da Cidade do México”, analisa as discriminações presentes na dinâmica cotidiana das escolas de ensino médio do sector público, e apresenta um debate em torno à origem e o sentido normalizador/homogeneizador da instituição escolar, em contraste com um discurso educativo de inclusão, reconhecimento da diversidade e tolerância. Assim, o trabalho pretende gerar elementos para discutir em torno ao papel da Escola e sua relação com práticas de carácter racista que costumam ser silenciadas pela própria estrutura escolar. Patricia Rea Ángeles em “Educação superior, migração e racismo. Zapotecos universitários na Cidade do México” aborda as dificuldades dos zapotecos universitários no seu trânsito pela escolarização e profissionalização, as alianças entre amigos, familiares e paisanos, a discriminação e racismo como plano de fundo dessas experiências na grande cidade. Ao mesmo tempo, o texto revela algumas estratégias que os zapotecos têm desenvolvido para enfrentar estas formas de dominação.

Na segunda parte do livro, Guerra García y Eugenia Meza Hernández em “Trincheiras interculturais discriminatórias. Da Universidade Autónoma Indígena de México à Universidade Autónoma Intercultural do Estado de Sinaloa” analisam, desde a metodologia etnográfica, a experiência universitária em Sinaloa no processo de transformação de uma a outra instituição. Resulta potente essa análise pela sistematização do conjunto de variáveis (administrativas, curriculares, linguísticas, entre outras), que se expressam de forma racista e discriminatória, dando conta das lutas assimétricas entre os diferentes atores. Felipe Galán López em “A construção histórica da identidade híbrida do zoque/chol em estudantes da Universidade Intercultural em Tabasco” aporta elementos ao debate sobre a origem da Universidade Intercultural do Estado de Tabasco e a transformação de uma instituição convencional para uma dita intercultural, em um processo influenciado pela política indigenista que tem impactado às culturas zoque y chol. Gómez Gallegos em “O racismo da inteligência nas interações de aula entre docentes e estudantes universitários”, a autora alude a um tipo de discriminação produzida ao interior do mundo universitário, entre estudantes indígenas e não indígenas, no sudoeste do estado de Hidalgo. Ao combinar observação, entrevistas e um questionário, conseguiu construir narrativas biográficas, estabelecendo continuidades nas histórias de racismo que experimentam os indígenas desde sua infância e cuja memória atualiza as frases, as denotações e as desqualificações dos não indígenas. Velasco Cruz em “O racismo cotidiano na percepção dos universitários da Universidade Pedagógica Nacional- Ajusco”, através dos resultados de um questionário indaga sobre as percepções dos estudantes de duas licenciaturas dessa universidade. Para os estudantes, o racismo acontece como uma prática cotidiana sumamente estendida, para além dos casos extraordinários reportados pelos meios de comunicação, e percebem uma estreita relação das manifestações pontuais com as condições estruturais da ordem social vigente.

Este livro é o resultado coletivo do trabalho horizontal estabelecido entre os membros da Rede sobre Identidades, Racismo e Xenofobia em América Latina (Rede Integra/ Conacyt), tal como sublinhado por Bruno Baronnet, coordenador da obra, quem sistematiza em “Inconclusões: desafios da pesquisa educacional frente ao racismo”, as pesquisas e estudos etnográficos pioneiros sobre o racismo. Organiza pistas de análise para refletir sobre os desafios teórico - metodológicos para a pesquisa educacional diante de experiências multisituadas de trabalho de campo longo, e diante de grupos e contextos marcados pela diversidade/desigualdade. Finaliza enfatizando que os capítulos convergem em mostrar que a educação formal pode conduzir a um verdadeiro genocídio cultural e também a um linguicidio e epistemicídio, já que fortalece a colonização dos imaginários na era do multiculturalismo neoliberal. Desde sua análise pormenorizada, afirma que a pesquisa educativa tem como desafio permanente desentranhar as lógicas dos mecanismos da dominação sociocultural masculina, de classe e de raça, e desvendar as práticas e representações em que está enraizado. Nesta línea, ele enfatiza que é preciso uma revisão e questionamento dos currículos e planos de estudo, para retirar os indícios de racismo’, bem como apontar para uma formação docente antirracista, discutindo eixos para uma busca da descolonização dos imaginários. No Epílogo Maldonado Alvarado convida a refletir sobre as ‘cosmovisões’ dos grupos humanos de forma comparativa. Nesse caminho, conclui que a concepção binária e hierárquica do mundo na “cosmovisão” ocidental opera mediante a ‘compreensão das diferenças sociais em termos de dominação e desigualdade’.

A presente obra constitui uma excelente contribuição à produção de conhecimento antropológico de primeira mão que convida a experimentar novas estratégias para destecer a trama do racismo e gerar um novo urdume que sustente uma trama descolonizada das relações humanas.



SOBRE A AUTORA

STELLA MARIS GARCIA é Licenciada em Antropologia e Professora Titular Dedicação Exclusiva – Pesquisa e Extensão – na Faculdade de Ciências Naturais e Museu da Universidad Nacional de La Plata, Argentina.

E-mail: elitagarciacitybell@gmail.com





Recebido em:04.04.2020

Aceito em: 22.04.2020

Movimento-Revista de Educação, Niterói, ano 7, n.13, p. 809-814, maio/ago. 2020.



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