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v.17, nº 33, mai-ago (2019) ISSN: 1808-799 X


A COLEÇÃO DE ASTROJILDO PEREIRA NO AMORJ - ARQUIVO DE MEMÓRIA OPERÁRIA DO RIO DE JANEIRO-UFRJ1


Elina Pessanha2 Rodrigo Guedes3


O Arquivo de Memória Operária do Rio de Janeiro-AMORJ, fundado em 1987, é um núcleo de pesquisa e documentação voltado para a recuperação, registro e preservação do patrimônio material e imaterial referente à história do trabalho, dos trabalhadores e suas organizações. Partindo de uma perspectiva bastante abrangente, o AMORJ tem tentado cobrir as características de constituição e trajetória de diversos segmentos da classe trabalhadora, sua experiência de trabalho em diferentes ambientes, seus esforços de reprodução, suas manifestações culturais, suas várias formas de resistência e atuação política, além da história das instituições relacionadas ao mundo do trabalho. O AMORJ é vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

A coleção ASTROJILDO PEREIRA é uma das mais importantes fontes sobre as primeiras organizações operárias no Brasil, já que ele pertenceu ao movimento anarquista do início do século XX e foi um dos fundadores do Partido Comunista Brasileiro, em 1922. Dela fazem parte, além de jornais e revistas operários e sindicais, uma farta documentação sobre conferências de base e sobre reuniões do Comitê Central do PCB até l930. Destacam-se as correspondências enviadas e recebidas por Astrojildo Pereira de militantes, de dirigentes políticos e de intelectuais, assim como o seu trabalho de crítico literário, principalmente os estudos sobre Machado de Assis.


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1 Texto recebido em 28/03/2019. Aprovado em 25/04/2019, pelos editores. Publicado em 04/07/2019.

DOI: https://doi.org/10.22409/tn.17i33.p29382

2 Doutora em Ciências Sociais (USP), professora do IFCS/UFRJ, no Rio de Janeiro/RJ, Brasil. É pesquisadora do CNPq e coordenadora do AMORJ. E-mail: elina.pessanha@terra.com.br. ORCID: http://orcid.org/0000-0001-8443-1534.

3 Graduação em História (UFRJ), técnico-administrativo do IFCS/UFRJ, no Rio de Janeiro/RJ, Brasil. É supervisor técnico do AMORJ.

Sobre Astrojildo


Astrojildo Pereira Duarte Silva nasceu em Rio Bonito (RJ), em 1890. Foi historiador, sindicalista, crítico literário e jornalista. Já em Niterói, então capital do Estado do Rio de Janeiro, abandonou a escola na terceira série ginasial, em 1908, para trabalhar e estudar por conta própria. A educação formal esteve longe de entusiasmar Astrojildo. Em lugar dos bancos escolares, dedicou-se ao “autodidatismo arquiatabalhoado”, como gostava de dizer.

Em 1911, iniciou atividades na imprensa anarquista, experimentando e amadurecendo vivências importantes ao universo da militância política e intelectual. Astrojildo dirigiu e colaborou em diferentes periódicos: ABC, Barricada, O Clarim, Crônica Subversiva, Germinal, Guerra Social, A Plebe, Voz do Padeiro, entre outros. Participou, em 1913, da promoção do II Congresso Operário Brasileiro, engajando-se em campanha contra o militarismo e a guerra. Em 1917, no calor das rebeliões operárias que começaram em São Paulo e logo se espalharam por outros estados, inclusive o Rio de Janeiro, assumiu a direção do jornal O Debate, para o qual também colaborou o escritor Lima Barreto. Em 1918, sob o pseudônimo de Alex Pavel, escreveu A Revolução Russa e a Imprensa, um panfleto que ajuda a contextualizar o início de uma virada ideológica. Da experiência revolucionária russa, derivou o contato com a literatura marxista, afastando gradativamente Astrojildo do anarcossindicalismo. Neste processo, dirigiu os jornais Spartacus e Voz do Povo.

Apesar da convicção crescente sobre a necessidade de fundação de um partido operário e do apoio militante à Revolução Russa, Astrojildo tentou agir com cautela para não agravar as cisões na base do movimento operário e nos grupos dirigentes. A assimilação do marxismo impôs novas estratégias de mobilização e luta política que, na prática, dificultou a costura de consensos em torno de uma agenda unificada de ação. Pelas páginas d’A Vanguarda, O Internacional e, posteriormente, da revista Movimento Comunista, Astrojildo debateu criticamente a atuação dos anarquistas na condução das greves de 1917 a 1920, ao mesmo tempo em que militou pela unidade do movimento numa conjuntura de derrota e refluxo.

Participou, em 1922, da fundação do Partido Comunista do Brasil (PCB) e foi eleito secretário-geral de organização. Quando o PCB iniciou a publicação do jornal A Classe Operária, tornou-se, ao lado de Otávio Brandão, um de seus principais

redatores. Olhando a realidade nacional, o PCB viu na aliança com setores rebeldes da juventude militar uma possibilidade de amadurecer o processo revolucionário, ainda nos limites da democracia burguesa. Mirava-se o desenvolvimento das forças produtivas em oposição às oligarquias rurais. Para tanto, Astrojildo fez contato com Luis Carlos Prestes, em 1927, então exilado na Bolívia. À ocasião, entregou ao líder tenentista livros e folhetos. Foram os primeiros contatos de Prestes com a literatura marxista.

A orientação política do Partido, no entanto, sofreu mudanças significativas. Depois de uma temporada em Moscou, Astrojildo regressou ao Brasil, em 1930, com a orientação de mudar o arco de alianças e de conferir às direções partidárias um rosto mais operário e menos intelectual. O próprio Astrojildo foi alvo desse processo de proletarização, sendo afastado da secretaria geral. No ano seguinte, após breve período de atuação junto ao Comitê Regional de São Paulo, desligou-se do PCB. Os esforços para continuar na militância partidária não foram suficientes. Juntamente com seu grupo político, Astrojildo foi responsabilizado pelos problemas enfrentados pelo Partido. Decide retornar a Rio Bonito, dedicando parte do tempo ao comércio de bananas herdado do pai. Em 1935, apesar das dificuldades com editoras, conseguiu publicar seu primeiro livro: URSS, Itália e Brasil, que reuniu textos escritos entre 1929 e 1934. Longe da vida partidária, escreveu críticas literárias para o Diário de Notícias e colaborou em Diretrizes. Publicou Interpretações, em 1944, com destaque para o artigo Machado de Assis, Romancista do Segundo Reinado.

Em 1945, foi delegado do Estado do Rio ao I Congresso Brasileiro de Escritores, realizado em São Paulo, e um dos redatores da declaração de princípios do encontro, marcada por críticas à ditadura de Vargas. Ainda em 1945, quando o PCB foi legalizado, retornou ao Partido de maneira intensa. Dirigiu as revistas Literatura e Problemas da Paz e do Socialismo. Colaborou, ainda, com os periódicos Imprensa Popular, Novos Rumos e Fundamentos. Mas foi na revista Estudos Sociais que Astrojildo reviveu a experiência de intelectual e organizador político. Diante de divergências teóricas e conjunturais entre antigos quadros do PCB, Astrojildo abriu espaço para jovens intelectuais que se formaram longe do stalinismo, como Leandro Konder e Carlos Nelson Coutinho. Em 1962, publicou A formação do PCB, por conta dos 40 anos de vida do Partido.

Em outubro de 1964, foi preso pelo regime militar, acusado de fundar o PCB e de ter recrutado Luis Carlos Prestes para a militância comunista. Com problemas cardíacos, ficou recolhido no Hospital da Polícia Militar, no Rio de Janeiro. Foi posto em liberdade após três meses de reclusão, por força de um habeas-corpus. Morreu no Rio de Janeiro, em novembro de 1965.

Em 1979, o arquivo particular de Astrojildo, de grande valor para o estudo do movimento operário e sindical, foi enviado para o Arquivo Histórico do Movimento Operário Brasileiro (ASMOB), em Milão, Itália. Em 1993, a UFRJ adquire o acervo microfilmado. São 133 rolos, com cerca de 100.000 fotogramas, custodiados pelo Arquivo de Memória Operária do Rio de Janeiro (AMORJ).


O longo percurso do arquivo de Astrojildo Pereira


Após o golpe militar de 1964, um dos endereços visitados pelos agentes do DOPS foi o de Astrojildo Pereira. Levaram, do acervo pessoal do velho comunista, uma quantidade significativa de material considerado subversivo, como se ainda fosse necessário provar, dentro do contexto político do golpe, de que lado Astrojildo estaria e construiria sua trincheira. Acusado de fundar o PCB, Astrojildo ficou preso por 83 dias. Foi solto em janeiro de 1965, mesmo ano de sua morte.

A partir de então, deu-se início a um longo caminho pela preservação do arquivo de Astrojildo. Além de representar uma preciosa fonte de pesquisa e estudo, os documentos ali reunidos fazem parte da biografia de um homem que dedicou boa parte de seus 75 anos de vida a uma intensa militância política e intelectual. A repressão cerceou a liberdade do velho comunista e agora ameaçava a sua memória.

Em 1977, brasileiros resistentes à ditadura decidiram enviar o acervo para fora do país. Os olhos da ditadura eram vigilantes. Manter o acervo no Brasil representava um risco para os responsáveis pela guarda do material e para a própria integridade da documentação. Na sequência, pôs-se a caminho um arriscado traslado. O recém- criado ASMOB (Archivio Storico Del Movimento Operario Brasiliano), na Fundação Feltrinelli, em Milão, Itália, seria o seu destino. Sobre essa corajosa ação são valiosos os depoimentos das professoras Zuleide Faria de Melo, Dora Henrique da Costa e Marly Vianna, protagonistas na bem-sucedida tarefa de salvaguardar um arquivo tão importante para a memória dos trabalhadores e dos movimentos sociais no Brasil. A

este respeito, foi publicado em 2015 o livro Luta e Memória: o resgate de pessoas e de documentos das garras da ditadura, coordenado por Maria Ciavatta (Ciavatta, 2015).

Antes do retorno do arquivo original ao Brasil, onde foi acolhido pelo CEDEM da Universidade Estadual de São Paulo/UNESP, cópias em microfilmes do acervo do ASMOB, incluindo as referente à documentação de Astrogildo, foram recebidas por centros de documentação no país. Foi o que ocorreu com o Arquivo Edgard Leuenroth, da Universidade de Campinas, e mais tarde com o AMORJ, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em 1993, a UFRJ adquire grande parte do acervo do ASMOB, compreendendo133 rolos de microfilmes, com cerca de 100.000 fotogramas. Esse material precioso, hoje em grande parte digitalizado, é frequentemente consultado por pesquisadores nacionais e estrangeiros, e serviu de base a vários estudos, livros, dissertações e teses.


Patrimônio insubstituível


Seria difícil escrever a história do movimento operário brasileiro e do PCB sem os livros e documentos colecionados por Astrojildo Pereira. Astrojildo viveu os últimos anos de vida em um sobrado na rua do Bispo, com paredes repletas de livros até o teto e de outros tantos documentos, incluindo revistas e jornais, salvaguardados em caixas de papelão. Verdadeiras preciosidades reunidas ao longo de uma existência dedicada à militância política e ao gosto pelas letras. Com o golpe empresarial-militar de 1964, foi preso e teve sua casa várias vezes invadida e saqueada por policiais. Pelo arbítrio da ditadura, muitos documentos foram rasurados ou desapareceram. No entanto, ainda foi possível preservar parte significativa do seu acervo pessoal. De 1917 a 1922, por exemplo, existem importantes fontes de estudo que testemunham o caminho percorrido, por frações da classe trabalhadora e por intelectuais, do anarcossindicalismo à opção pela militância socialista. Entre essas fontes, selecionamos para a revista Trabalho Necessário os seguintes periódicos: O Debate, O ABC, Spartacus e Movimento Comunista.


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Referências


CIAVATTA, Maria (coord). Luta e Memória: o resgate de pessoas e de documentos das garras da ditadura. Rio de Janeiro: Revan. 2015.


DEL ROIO, Marcos. A trajetória de Astrojildo Pereira (1890-1965), fundador do PCB.

Revista Praia Vermelha, vol.22, n.2. 2013.


FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS. Dicionário Histórico Biográfico Brasileiro pós 1930. 2ª ed. Rio de Janeiro: Ed. FGV. 2001.


SEGATTO, José Antônio. Reforma e revolução: as vicissitudes políticas do PCB, 1954-1964. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 1995.


SODRÉ, Nélson Werneck. Meu amigo Astrojildo Pereira. In: FEIJÓ, Martin Cezar. Formação Política de Astrojildo Pereira (1890-1920). 2ª ed. Belo Horizonte: Oficina de Livros, p. 07 -43. 1990.

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