Chamada para o dossiê "Cinemas amazônicos em tempo de luta"

Resumo expandido do dossiê “Cinemas amazônicos em tempo de luta”

O que podem o cinema e o audiovisual – e a pesquisa nessa área – face aos ataques de toda ordem que atingem a região amazônica? Mobilizado pela urgência da situação vivida por povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos da Amazônia, o dossiê Cinemas amazônicos em tempos de luta pretende reunir trabalhos dedicados a refletir sobre iniciativas cinematográficas e audiovisuais realizadas no passado e no presente. Pretendemos considerar tanto reflexões que se norteiem a partir do reconhecimento dos engajamentos originais dos filmes, quanto estudos a contrapelo a determinados discursos cinematográficos. Com mais de 5 milhões de quilômetros quadrados distribuídos por nove países, a bacia hidrográfica estruturada em torno do rio Amazonas está longe de ser uma área homogênea. O dossiê, no entanto, pretende oferecer uma mirada sobre a produção estética e política desse espaço amplo e diverso, tomado para além de fronteiras nacionais.

Em meio a uma história marcada por um íntimo e cruel contato com a modernidade (SOUZA, 2005) e de reiterada violência, a Amazônia registrou no último ano um avanço recorde da área desmatada, principalmente no Brasil, onde também se verifica o crescimento marcado do número de assassinatos de lideranças indígenas. No início de maio de 2020, a chegada avassaladora da pandemia de Covid-19 à região colocava em risco comunidades indígenas já submetidas, no passado, a uma série de epidemias disseminadas pelo homem branco. Dessa maneira, é urgente refletir sobre como a fortuna fílmica relativa à região considerou questões problemáticas anteriores. 

O objetivo do dossiê é, em primeiro lugar, chamar atenção para a existência de realizações e estudos importantes na região, contrariando a ideia de um vazio demográfico, simbólico e estético, usada como argumento em favor do desmatamento. Os trabalhos a serem publicados poderão debruçar-se sobre cinemas amazônicos em sentido amplo[1], tendo em vista uma produção que vinha crescendo tanto do ponto de vista numérico quanto na perspectiva estética, na força política e na representatividade[2]. Cinemas amazônicos, no plural, não se resumem ao conjunto de filmes feitos na Amazônia; a expressão tampouco deve ser assimilada unicamente à filmografia de cineastas oriundos da região amazônica; é preciso levar em conta também realizações e projetos capazes de traduzir sensibilidades próximas a cosmologias de povos amazônicos; modalidades audiovisuais de ativar memórias e projetar futuros para um território marcado pela diversidade.

Convidamos, portanto, artigos cuja metodologia dialogue com a análise fílmica, com interesse voltado para a abordagem da conjuntura social/histórica da região amazônica. O corpus pode ser formado por filmes desde o Primeiro Cinema (remanescentes ou não), tais como os do etnólogo alemão Theodor Kock-Grünberg realizados junto à população indígena do atual território de Roraima. Assim como pode haver estudos das realizações fílmicas da fase embrionária do filme documental/etnográfico, característicos entre 1910/1920 e de perceptível vínculo com o cinema colonial, a exemplo das experiências de Ramon de Baños em Belém, Silvino Santos em Manaus e também de Thomaz Reis em expedições oficiais na região. Sobre os decênios seguintes, destacamos a possibilidade de reflexão a partir do cinema de gênero/clássico, sobretudo as produções estrangeiras que se voltaram insistentemente para a Amazônia. A partir desse repertório, bem considera criticamente o documentário Olhar estrangeiro (2006), de Lúcia Murat, baseado na tese/livro O Brasil dos gringos (2000), de Tunico Amâncio. Chamamos atenção, ainda, para a ênfase de engajamento presente no cinema moderno, tal como nos ficionais Iracema, uma transa amazônica (Jorge Bodansky e Orlando Senna, 1975), Ajuricaba, o rebelde da Amazônia (Oswaldo Caldeira, 1979), A selva (Márcio Souza, 1972) ou mesmo, um pouco mais adiante, em Fronteira das almas (Hemano Penna, 1988); assim como na importância das séries documentais elaboradas por Bodansky Adrian Cowell e Andrea Tonacci. Por volta da década de 1970 os temas candentes caros aos documentaristas independentes engajados, sobretudo os que trabalharam com suportes mais acessíveis como o videográfico, passam a se nutrir das atitudes experimentais advindas das artes visuais, e vice-versa. Seriam exemplos desse hibridismo Mater dolorosa II – In memorian (da criação e sobrevivência das formas) (Roberto Evangelista, 1978), The Laughing Alligator (Juan Downey, 1979) e os primeiros vídeos indígenas de Aurélio Michiles, na década de 1980[3]. Há uma história cinematográfica complexa e rica que reitera o vínculo do audiovisual com os problemas sociais.

No campo do cinema contemporâneo, é imperativo mencionar filmes realizados com intensa participação de povos indígenas, no âmbito do que vem sendo chamado de "Quarto Cinema"[4] – vale a pena destacar Xapiri (Bruce Albert, Gisela Motta, Laymert Garcia dos Santos, Leandro Lima e Stella Senra, 2012) e Urihi Haromatimape: Curadores da Terra-Floresta (Morzaniel Iramari Yanomami, 2013)[5]. Finalmente, o dossiê está aberto a propostas interessadas no “olhar estrangeiro" munido de nova sensibilidade. Alguns exemplos dessa abordagem mais reflexiva estariam na filmografia de Werner Herzog e, mais recentemente, nas incursões pelo território amazônico realizadas por Susana de Sousa Dias e Mathieu Kleyebe Abonnenc, entre outros[6].

 

Eixos possíveis

- Cinemas amazônicos: perspectiva histórica

- A história no presente: do arquivo ao trabalho de campo

- Cinema indígena e cinema indigenista.

- Cinema contemporâneo na região amazônica: análise estética, econômica, sociológica, antropológica, filosófica, de gênero.

 

 Bibliografia preliminar

 ALVARENGA, Clarisse. Da cena do contato ao inacabamento da história. Salvador: Edufba, 2017.

ARAÚJO, José Juliano. Cineastas indígenas, documentário e autoetnografia: um estudo do projeto Vídeo nas Aldeias. Bragança Paulista: Margem da Palavra, 2019.

AMANCIO, Tunico. O Brasil dos gringos. Niterói: Editora Intertexto, 2000.

BANOS, Ramon. Un  Pioner del Cinema Català a l'Amazània. Barcelona: Íxia Llibres, 1991.

BRASIL, André. "De uma a outra imagem". In: Beatriz Furtado e Philippe Dubois (org.), Pós-cinema, pós-fotografia. Novas configurações das imagens. São Paulo: Edições Sesc, 2019, p. 256-271.

CASTRO, Teresa; PITROU, Perig; REBECCHI, Marie (org.). Puissance du végétal et cinéma animiste. Paris: Les Presses du Réel, 2020.

COCCIA, Emmanuel. A Vida das plantas. Florianópolis: Cultura e Barbárie, 2018.

DESCOLA, Philippe. Outras naturezas, outras culturas. São Paulo: Editora 34, 2016.

COSTA, Selda Vale da. "Cinema na Amazônia". Revista História, Ciência, Saúde, vol. VI, set. 2000, p. 1073-1123.

 ____________________. "O Cinema na Amazônia e a Amazônia no cinema". Eptic On-Line (UFS), v. 2, 2006, p. 94-113.

CERQUEIRA E SILVA, Ignacio Accioli. Corografia paraense ou descrição física, histórica e política da Província do Grão Pará, 1833.

KOPENAWA, Davi, e ALBERT, Bruce. A queda do céu. Trad. Beatriz Perrone-Moisés. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

LOBATO, Ana Lucia. "Os ciclos regionais de Minas Gerais, Norte e Nordeste (1912-1939). In: Fernão Ramos (org.), História do Cinema Brasileiro. São Paulo: Art Editora, 1987, p. 65-95.

LEÓN, Christian. Poéticas y políticas del video indígena en el Ecuador. Quito: Universidad Andina Simón Bolívar, 2015.

PETIT, P.  & RUIZ-PEINADO, J. L. "O imaginário em imágens: Ramon de Baú os, pioneiro do cinema mudo na Amazónià'.  ln: Atlântico imaginado: fronteiras, migrações e encontros. Madri: Ministerio de Trabajo e Inmigración, 2010.

STOCO, Sávio. O cinema de Silvino Santos (1918-1922) e a representação amazônica: história, arte e sociedade. São Paulo: Universidade de São Paulo (tese de doutorado), 2019.

SOUZA, Márcio. "Afinal, quem é mais moderno neste país?". Estudos avançados,  São Paulo ,  v. 19, n. 53, p. 87-96,  Apr.  2005

VIVEIROS DE CASTRO. "Os pronomes cosmológicos e o perspectivismo ameríndio", Mana, 2 (2), 1996, p. 115–144 



[1] Fazemos referência, aqui, à terminologia apresentada por Selda Vale da Costa (2000; 2006), autora de uma série de estudos sobre o cinema na Amazônia brasileira. Pioneira, a publicação de Ana Lucia Lobato (1987) é um marco para o campo do cinema amazônico; é a essa pesquisadora, falecida em 5 de maio de 2020, que este dossiê será dedicado.

[2] É preciso mencionar, nesse sentido, o primeiro longa-metragem de ficção realizado por uma mulher no Pará, Para ter onde ir (2016), de Jorane Castro, distribuído nacionalmente em 2018. Bem como os longas ficcionais do amazonense Sérgio Andrade A floresta de Jonathas (2012), Antes o tempo  não acabava (co-direção com Fábio Baldo, 2016), e A terra negra dos Kawa (2018). Os dois primeiros contaram com distribuição nacional, em canais de TV e em plataformas digitais, sendo que o primeiro também foi distribuído no circuito cinematográfico na Europa. Não ignoramos produções com orçamentos de menor monta que proliferaram em todos os estados do Norte brasileiro, sobretudo nas capitais, a partir do advento das tecnologias digitais audiovisuais surgidas na dobra do século XXI, dos incrementos advindos do financiamento público, perfazendo um prolífico e significativo acervo.

[3] Guaraná, Olho de Gente (1982) e O Sangue da Terra (1983).

[4] Para uma análise  do vídeo indígena no Equador, ver LEÓN, 2015. No caso brasileiro, a emergência do quarto cinema tem relação direta com as oficinas do projeto Vídeo nas Aldeias.

[5] Cf.  o trabalho de André Brasil (2019).

[6] A cineasta portuguesa Susana de Sousa Dias realizou Fordlândia Malaise (2018), a partir de uma residência em Fordlândia, no Pará, junto ao coletivo Suspended Spaces; o artista francês Mathieu Kleyebe Abonnenc vem pesquisando histórias e memórias da Guiana Francesa, onde sua mãe viveu, notadamente no filme Wacapou, un prologue, ou une pièce dans la maison de ma mère (2018).