Ütchigüne (Caminhar crescendo)
Formação de uma comunidade Tikuna, evangelização e reconfigurações da vida social em Filadélfia
DOI:
https://doi.org/10.5281/zenodo.22739749Resumen
RESUMO
Este artigo analisa o processo histórico de formação da comunidade Tikuna de Filadélfia, no Alto Rio Solimões, tomando as práticas religiosas como uma dimensão privilegiada para compreender a constituição da vida social, as disputas de autoridade, a reorganização familiar e as formas contemporâneas de afirmação identitária. Derivado da tese de doutorado Ũtchigüne (Caminhar Crescendo): a formação de uma comunidade Tikuna e suas práticas religiosas, o estudo articula história, memória, etnografia e reflexão sobre a experiência do autor como pesquisador indígena e membro da comunidade. A análise combina entrevistas, narrativas orais, observação participante, memória familiar, documentos institucionais e registros fotográficos. O argumento central é que a chegada do cristianismo não pode ser descrita apenas como substituição de práticas anteriores por uma religião externa. Em Filadélfia, a evangelização se articulou a processos de deslocamento e concentração populacional, à criação de escolas e outras estruturas comunitárias e à formação de novas lideranças. Ao mesmo tempo, a expansão das igrejas produziu conflitos, redefiniu padrões morais, interferiu nas relações familiares e deslocou parcialmente a autoridade de caciques e outras lideranças tradicionais. A fundação da Igreja Indígena Tikuna de Filadélfia, em 2009, evidencia uma resposta particularmente significativa: a apropriação de elementos cristãos combinada à valorização de símbolos e conhecimentos Tikuna, expressando uma forma de tradução e disputa do cristianismo a partir de referências indígenas. A pandemia de COVID-19, por sua vez, tornou visíveis tanto a centralidade das redes comunitárias e da oração quanto as tensões entre discursos religiosos e medidas sanitárias. Conclui-se que Ũtchigüne, “caminhar crescendo”, constitui uma chave interpretativa para compreender a comunidade como processo histórico aberto, no qual religião, território, parentesco, educação, memória e política se entrelaçam na produção de continuidade e transformação.
Palavras-chave: Povo Tikuna; Filadélfia; Ũtchigüne; religião; evangelização; memória; identidade; etnografia indígena; protagonismo indígena; organização social.