Do Camponês ao Campesinato Negro: um olhar para a Vargem Grande Rural do período Oitocentista
DOI:
https://doi.org/10.5281/zenodo.23377620Resumo
Este artigo examina a pertinência dos conceitos de camponês e campesinato para a análise da sociedade rural brasileira oitocentista, propondo o campesinato negro como categoria capaz de integrar relações raciais, formas de trabalho e modos de acesso à terra. Por meio do diálogo entre a historiografia agrária e fontes históricas, especialmente periódicos do século XIX, discursos parlamentares, entrevistas semi-estruturadas com memebros da Comunidade Quilombola Cafunda Astrogilda (CQCA), listas de arrendatários e registros do Mosteiro de São Bento, investiga-se a região de Vargem Grande e Vargem Pequena, na zona oeste do Rio de Janeiro, entre o século XIX e o início do século XX. A análise demonstra que o termo camponês circulava no vocabulário político e social brasileiro e que escravizados, libertos e negros livres participaram ativamente da ocupação e da reprodução econômica do território das Vargens. Arrendamentos, roças de subsistência, comercialização de excedentes, transmissão familiar da terra e redes de parentesco e compadrio evidenciam estratégias duradouras de autonomia. Conclui-se que essas experiências constituíram um campesinato negro e contribuíram para a formação territorial da atual CQCA.
