Dossiê Temático: Da geografia do encarceramento às geografias abolicionistas

Organizadores: Tamires Alves (PPRER- CEFET-RJ), Flávia Martins (UFF), Valter Cruz (UFF).
Ementa: Este dossiê propõe reunir contribuições que reflitam as relações entre sistema penal e produção do espaço; infraestruturas de controle e resistência; racialização do território e ecologias da punição. Busca também tensionar as fronteiras entre o penal e o ambiental, evidenciando como o encarceramento em massa e a degradação ecológica compartilham lógicas estruturais de gestão diferencial da vida, da morte e da mobilidade. Entretanto, parte-se da premissa de que o abolicionismo, em suas múltiplas vertentes, não se restringe à crítica ao sistema prisional, mas constitui uma imaginação política mais ampla, voltada à desarticulação de dispositivos de controle, punição e expropriação que atravessam espaços, corpos e ecologias. Pretende-se ainda fomentar diálogos entre a Geografia e campos afins (como os estudos críticos de segurança, as geografias feministas e negras, os estudos descoloniais e as ecologias políticas) valorizando abordagens teóricas e empíricas que avancem na compreensão de formas alternativas de habitar, governar e disputar o espaço.
Ao perceber a população prisional como categoria analítica no campo da geografia da população, pretende-se evidenciar o cárcere como dispositivo de produção e gestão diferencial da vida. Interessa explorar seus fluxos de entrada, permanência, saída e reincidência do sistema prisional e como se articulam aos processos mais amplos de redistribuição espacial da população, seletividade e governança territorial.
O Dossiê busca reunir contribuições que articulem território, penalidade e formas contemporâneas de marginalização social, tomando como ponto de partida a espacialização do encarceramento e os dispositivos de contenção e controle aplicados sobre populações vulnerabilizadas. Busca reunir textos que apresentem uma abordagem teórica crítica e interdisciplinar, propondo o exame da prisão como forma de gestão territorial e política da diferença, articulando literatura sobre geografia carcerária, neoliberalismo penal, racionalidade punitiva, abolicionismo e produção do espaço, sem perder de vista contribuições localizadas no Sul Global. Por fim, parte-se da premissa de que o espaço carcerário é um operador central na administração das fronteiras entre humanidade e inumanidade, entre inclusão formal e exclusão material, buscando contribuir para construção de horizontes de transformação.
O Dossiê receberá artigos que abordem os seguintes eixos:
1 – ESPAÇO, TERRITÓRIO, MARGINALIDADE E PRISÃO
Punição, Estado e neoliberalismo;
Sistema penal, infraestruturas de controle e produção do espaço;
Fragmentação urbana, políticas de segurança e o encarceramento como urbanismo;
Geografia do encarceramento e cartografias da punição;
2 - ENCARCERAMENTO, CORPO E POLÍTICA
Gênero, prisão e controle social;
A produção social do criminoso;
Racialização do território e infraestruturas de controle e punição;
Articulações entre violência estatal, extrativismo e governança;
3 - GEOGRAFIAS ABOLICIONISTAS: RESISTÊNCIA E R-EXISTÊNCIAS
Práticas espaciais, saberes e insurgências abolicionistas e suas territorialidades;
Alternativas à prisão e territorialidades contra-punitivas;
Justiça restaurativa, justiça transformativa e justiça territorial;
Experiências comunitárias de justiça e cuidado.