Logos e eros: a escrita sobre o desejo feminino em Ida e volta duma caixa de cigarros
DOI:
https://doi.org/10.22409/tgf9xc87Palavras-chave:
Maria Archer, Censura, Escrita feminina, Portugal, SalazarismoResumo
O artigo investiga como a novela Ida e volta duma caixa de cigarros (1938), de Maria Archer, articula logos (discurso) e eros (desejo/alteridade) para inscrever uma voz feminina que enfrenta a moral salazarista e o aparato de censura do Estado Novo. Partindo de uma leitura contextual e comparativa, a autora reconstrói o percurso biográfico e editorial de Archer — inclusive a censura e o exílio no Brasil — e demonstra que a personagem Marietta, independente e autônoma, desestabiliza o modelo da “fada do lar” ao exercer o desejo sem tutela masculina. A caixa de cigarros, objeto-memória, funciona como operador mnemônico e dispositivo de autognose, condu-zindo à escolha do “Amor” para além dos homens específicos. O arcabouço teórico combina Byung-Chul Han (Agonia do Eros), Hélène Cixous (O riso da Medusa) e Silvia Federici (Calibã e a bruxa) para sustentar que o erotismo, entendido como relação com a alteridade, é incompatível com o narcisismo e com a pornografia, e que a escrita feminina atua como gesto de resistência política e simbólica. O estudo reposiciona Archer no horizonte do Neorrealismo português, evidencia o caráter político da narrativa e argumenta que recuperar essa obra amplia a fortuna crítica sobre autoria feminina, desejo e corpo em Portugal no século XX — tema ainda urgente na contemporaneidade. Conclui-se que o entrelaçamento entre logos e eros potencializa uma ética da criação e da liberdade, fazendo do texto um ato de intervenção contra apagamentos históricos.
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Referências
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